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Original subtitles

Vá, Julie. É só por umas horas.

Madame de Merteuil, Meritíssimo.

Sentai-vos, por favor, madame.

Reconheceis este documento, madame?

Podeis lê-lo, por favor?

- Mas o que... - Lede.

"Perante Deus Todo-Poderoso, no dia de 17 de março de 1745,

aceito como meu legítimo esposo Lucien Beaucaillou,

nascido a 23 de junho de 1723,

a exercer a profissão de lavrador." Isto é ridículo.

Concordo.

Provou-se que nenhum Lucien Beaucaillou nasceu a junho de 1723.

Suspeitamos que este Beaucaillou seja o Visconde de Valmont.

- Conhecei-lo, não é assim? - A tia dele é uma amiga.

Suspeitamos também que o visconde seja um conhecido libertino.

Sabeis o que é um "libertino"?

Imagino eu que esteja ligado a questões da liberdade.

Liberdade, de facto. Liberdade para corromper, macular e abandonar.

A assinatura parece a minha, mas...

De facto.

Podeis vir a perder tudo, madame.

- O meu nome foi usurpado... - Podeis vir a perder tudo.

O vosso matrimónio com o marquês,

uma união que hoje vos dá glória e fortuna,

caso tenha sido precedida por este casamento.

Quero dizer-vos que, no meu íntimo, sei que sois inocente.

Acredito terdes sido vítima de um crime perfeito,

crime esse no qual a própria vítima se torna defensora do agressor.

Acredito, madame,

que o vosso carácter fez de vós o alvo ideal

aos olhos de um habilidoso predador,

e que hoje, diante de mim,

achais que ao denunciar Valmont estaríeis a trair-vos a vós.

As esperanças infinitas, as memórias ardentes...

... as vibrações que persistem em tantas partes do vosso corpo.

É nisso que acredito, madame.

Sabendo disso, tenho uma pergunta a fazer-vos.

O vosso destino

reside inteiramente na coragem em responder com verdade à pergunta,

se não diante de mim, em voz alta,

ao menos no segredo do vosso coração.

Madame, Marquesa de Merteuil,

estais apaixonada por Valmont?

Obrigado, madame.

- Como foi o Juiz Tourvel? - Preconceituoso.

Sim? Fizeram-me crer o contrário, que era um homem sensível, delicado.

É uma figura grosseira, um patético inquisidor.

Essa figura grosseira segura o vosso destino nas mãos.

Dizem que é muito apaixonado pela esposa.

É por aí que devemos atacar.

Não vos preocupeis.

Os homens são fracos e esse pequeno inquisidor não será exceção.

Meu caro visconde...

De uma forma ou de outra, roubaram-vos um documento

que pode vir a ser a causa da nossa completa ruína.

Diz-se que é mais devota do que uma freira carmelita.

Sois o único culpado de eu ter assinado o grotesco papel,

de o terdes guardado por jactância...

Ámen.

... e permitido o seu roubo.

Hoje, dou-vos a oportunidade de alcançar o impossível,

de vos tornardes uma lenda e, assim, compensar tal falta.

A vossa tia travou conhecimento com Madame de Tourvel.

Mulher devota, esposa do juiz que conspira contra mim.

Por ora, já tereis percebido.

A vossa missão será seduzir Madame de Tourvel,

conhecida pela sua virtude irrepreensível,

com vista a neutralizar as pretensões do marido.

O sucesso desta operação depende das vossas melhores capacidades

e de um grande sentido de oportunidade.

Espero que este desafio não exceda as vossas capacidades.

... a ganância dos ingleses será a sua ruína.

Com os indígenas, intentam comprá-los ao invés de os convencer.

A Madame de Tourvel acaba de conceber uma iniciativa

que entendo ser particularmente fiel ao espírito da Nova França.

Partilho esta iniciativa com o Abade Montverdier,

um verdadeiro aliado da nossa causa.

Estou ansiosa para saber mais.

Graças às missões dos jesuítas,

a Bíblia Sagrada foi traduzida há quase 100 anos na língua Wendat,

mas os nossos irmãos índios

não têm um simples livro de orações para o dia a dia.

Perdão, madame. Por obséquio.

Só sei o início de uma canção sobre o nascimento de Cristo.

Adorávamos ouvir-vos, madame.

Bravo!

Antes de atacar, distribuí lisonjas.

O que não se prevê causa maior dor.

Tendes a minha mais profunda admiração.

Enquanto cantáveis, por breves instantes, acreditei entender-vos.

- O vosso objetivo é simples. - No entanto...

- Abalar-lhe as certezas. - Sim?

- Se é que me permitis... - Fazê-la questionar a própria fé.

Permitir-vos o quê, Monsieur Visconde?

- A ser sincero. - Faço questão.

Provocar uma primeira inquietação, subtil e delicada.

Não, lamento, mas é impossível.

Receio que seria indelicado. Diante da marquesa, não posso.

É a Madame de Tourvel quem vos pede.

Continuai.

Para quê traduzir as nossas preces, se podemos aprender as deles?

Ouvi dizer que vivem fraternal e modestamente, em paz com a Natureza.

Seremos nós mais próximos de Cristo do que eles?

Naturalmente, a vossa atitude

não deverá deixar adivinhar segundas intenções.

- Devemos-lhes respeito, mas... - Mas?

Devemos condenar o Chefe Kondiaronk à fogueira

por chamar a Cristo "Filho do Grande Espírito"?

Também li os diálogos de Monsieur de Lahontan.

E qual é a vossa conclusão?

Os Wendat são admiráveis, mas falta-lhes...

Um gosto pelo dogma e amor pela punição.

- Não o disse nem tampouco o penso. - O que pensais, madame?

Nada que deseje discutir convosco de momento, monsieur.

Ao sentir o vosso desprezo e visível indiferença,

ver-se-á corroída por um veneno imparável,

fortalecido pela vergonha.

Será indetetável.

Assim, sereis odiado e, assim, existireis.

É óbvio que ela lhe agrada.

Recordo-vos que o nosso objetivo é que ele lhe agrade a ela.

Marquesa, por aqui.

O que estais a fazer?

Lembro que a vossa sobrevivência depende do sucesso do meu sobrinho

com a Madame de Tourvel. - Eu sei.

Estais fragilizada.

Sei que estais em guerra com os homens,

ainda que nenhum em particular.

A menos que estejais em guerra convosco mesma.

A combater o inimigo mais formidável da liberdade: o ciúme.

- Não estou apaixonada por ele. - Provai-o.

- O quê? - Que ainda é uma mulher livre.

E como?

Esta noite convidei alguns amigos ao Petit Pavillon.

Ninguém deve ver-vos em tão frágil estado.

Esta noite, quero ver este corpo suar e exultar.

Para que toda a Paris saiba que Isabelle de Merteuil,

a honrada marquesa, e rainha dos libertinos,

sabe dar e receber prazer.

Sim.

Não. Ficai quieta.

Desculpai, eu...

Esta noite ides brincar com ela.

Bem-vinda.

Não dizeis nada?

Convidastes-me para passear e estamos a passear.

Importunei-vos ao jantar?

A verdade é que estava desesperado para conseguir a vossa atenção.

Ora sois bruto, ora sois frágil. Tentais confundir-me?

Essa fé cristã...

- Alguma vez duvidastes? - Não acreditais em Deus?

Não sei. Mas eu vejo-O em vós.

Como se fôsseis um pouco mais do que apenas vós.

Transtorno-vos?

- Sei quem sois, senhor visconde. - Quem sou eu, então?

Eu e o meu marido falamos muito.

O gabinete dele está cheio de denúncias contra vós.

O que faz o vosso marido?

A evangelização do Novo Mundo

não é o verdadeiro motivo que me traz aqui.

As pessoas que quero despertar para a graça de Deus são de outra tribo.

São os chamados libertinos.

E dizem que vós sois um dos seus chefes emplumados.

Nunca deixais de surpreender-me.

- Já vós, não. - Enganais-vos a meu respeito.

- Não sois um libertino? - Já não sou.

- Porque agora me amais? - Não estais a ser caridosa, madame.

E porque haveria eu de ser caridosa com vós?

Ficai uns dias. Por favor, imploro-vos.

- Porque me amais? - Não sei se vos amo.

Nem mesmo se sou capaz de amar.

Há minutos, fingia amar-vos e era feliz.

Até acreditei poder amar-me a mim mesmo.

Pobre homem...

Tendes razão. Parti amanhã. Voltai para o vosso marido.

A vossa presunção torna-vos ingénua. Sou um homem.

Bem-nascido e criado numa sociedade feita para e por homens.

E para a maioria dos homens, a minha vida é perfeita.

Recuso-me a ser condenado.

No máximo, sou exilado uns meses para uma bastida

onde terei todo o gosto em receber as minhas fiéis admiradoras.

O vosso marido é apenas um peão do Conde de Gercourt.

O alvo dele é a Marquesa de Merteuil, e só ela,

porque a sua liberdade e poder ridicularizam os homens.

Sois o peão de um peão, ignorante quanto ao vosso verdadeiro amo.

Boa noite, visconde.

- Sim? - É a Cécile, madame.

Madame...

- O vosso Chevalier? - Sim.

- Tenho uma pergunta para vós, jovem. - Sim?

Seria correto culpar estas rosas pela sua beleza?

Bem, eu... Não.

- Ou o brilho que irradia da luz? - Com certeza que não.

Ou até o sol, pela sua infinita generosidade?

Não, madame.

Então, porquê culpar esta jovem maravilhosa

que está atrás de mim, por ser simplesmente quem é?

Uma jovem maravilhosa.

- Eu jamais... - Controlai-vos.

Olhai para mim. Controlai-vos.

Um homem sabe controlar-se.

Depois de alguns ajustes,

nada é impossível.

Podeis treinar na privacidade do vosso quarto,

com um daqueles livros que só se leem com uma mão.

Não leio livros desses.

Tendes de aprender a atear contrafogos.

Em pensamento ou...

- Sentiu a vossa mente divergir? - Sim, madame. Senti.

Não achais que um contrafogo poderá ajudar-vos a controlar

o vosso entusiasmo irrefreado? - Sim, madame.

Muito bem.

Ide lá, meus anjinhos.

Portai-vos bem e sede felizes. Vá!

Olá, marquesa.

Estais cheia de vigor. Revigorada por uma noite inesquecível?

Falai-me da vossa. Pareceis descansado, o que me preocupa.

A Madame de Tourvel sabe da investigação do marido contra nós.

Não nos serve de nada.

Veio por me ver como uma alma perdida a precisar de salvação.

Mas isso foi antes de perceber a profundidade da minha perversão.

A minha tia espera-nos.

O Juiz Tourvel vai apresentar amanhã uma nova testemunha

que ele acredita ter provas contra vós.

Louis.

Evidentemente. Louis de Germain.

Vosso amigo.

Se ele confirmar a realização do casamento,

lamentavelmente, o desfecho não será do vosso agrado.

- Então... - Não, não acredito.

A vossa ingenuidade vai ser a vossa desgraça.

Como poderei agradecer-vos, mestre?

Eu acompanho-vos.

Até breve, meu prezado amigo. Obrigada.

Temos de impedir que Louis deponha. Falai com ele.

Não servirá de nada.

Como podemos dar-lhe a volta?

Podeis dizer-lhe que vós e a marquesa tiveram um desentendimento.

- Não acreditaria em mim. - Não?

- E dinheiro? - Ele tem mais do que suficiente.

O que poderá ele querer?

A mim.

Ele não vos odeia, tem inveja de vós.

Ele nunca o admitiria, mas quando olha para mim,

sinto-lhe o desejo crescer. Como se todo o seu corpo...

- Ele gosta de mulheres, sequer? - Também gosta.

Então, temos de lhe dar o que ele quer,

sem o obrigar a encarar a vergonha desse desejo.

- Não compreendo. - Trazei-o cá hoje.

Irão ambos acompanhar-me esta noite ao Petit Pavillon.

- Eu e ele, esta noite, convosco? - Como dissestes, quer-vos a vós.

Tendes de lhe realizar a sua fantasia, mas...

Indiretamente. De forma clandestina.

Pode ser um traidor.

- Mas não é abjeto aos olhos. - Talvez...

- O que achais, madame? - Sim.

Resumindo, vós serviríeis de engodo.

E vós de álibi.

Ireis escrever-lhe e explicar-lhe como sou insaciável.

Dizer-lhe que, para mim, um prazer pede outro.

Um só homem não consegue satisfazer-me.

E, por isso, ireis pedir-lhe ajuda, caro visconde.

Obrigada.

Mais tranquila?

Segundo o advogado, Louis vai falar com o juiz amanhã à tarde.

Vamos esperar para ver.

Falava de mim. E do meu gosto pela liberdade.

Ficarei tranquila quando tiver certeza

da ausência de sentimentos pelo meu sobrinho.

Isabelle... Eu adoro o meu sobrinho,

Viveu demais, cedo demais.

Desempenhou tantos papéis que já não sei quem ele é.

E receio que... ele também não. Já nem ele o sabe.

Estais a ouvir?

De facto.

Eu vou... Eu vou...

Contrafogo.

Boa noite.

Quero ver-vos.

Quero ver-vos a desfrutar e a amarem-se um ao outro.

Estais escondida, madame?

Não.

Estou inofensivo esta noite.

- Que se passa convosco? - Nada. Precisamente por isso.

Vós estais aqui, calma.

Sozinha, livre.

Como vos invejo...

Ora, do que tendes medo?

Tudo o que sou é um miserável palhaço,

condenado ao mundo tal como ele é,

medíocre e frio, instável e cruel.

É aqui que vivo agora e continuarei a viver.

Usais tantas palavras, visconde, que não vos entendo.

Estou...

... cansado.

O mundo mágico do visconde está reduzido a cinzas e ruínas.

Quem se guia unicamente pelos prazeres do corpo,

como poderá sentir algo além de fadiga?

Pobre alma.

Poderão tais ruínas ser a vossa oportunidade?

Não creio que a desgraça possa trazer engrandecimento, pelo contrário.

Talvez seja altura de duvidardes um pouco da vossa forma de pensar.

Se uma porta se abrir, visconde, não receeis. Abri-a.

Vós estareis lá?

Apesar de tudo o que disse.

De tudo o que fiz.

Estarei lá.

Ouvistes-me proferir horrores.

E mesmo assim, contastes-me histórias bonitas de um Deus morto.

Parai!

- Obrigada, madame. - Sois louco.

Falais de uma porta mágica

e eu é que sou louco?

A vossa obsessão ridícula dá-me coragem para ser eu mesmo.

Uns quantos quilos de ossos,

líquidos, tecidos e vísceras.

E acima de tudo... Uma reputação.

A de um homem que nunca desiste.

Se ficastes aqui, deveis gostar um bocadinho de mim.

Deixo-vos com a vossa solidão, paz de espírito e liberdade, madame.

Madame...

Obrigada.

- Agora compreendo. - O quê?

O meu amigo Valmont.

Senhor conde, recebeu o meu recado?

Louis de Germain não honrou a palavra, mas tendes outro plano?

Lamentavelmente não, senhor conde.

Lamentavelmente?

Trata-se de uma marquesa casada por duas vezes.

O Marechal Castellet, Conselheiro do Rei, elogiou o vosso rigor.

Detestaria ter de o contradizer.

Falai-me dela. Interrogastes a marquesa demoradamente.

- Qual foi a vossa impressão? - Ficou tudo registado.

A marquesa falou muito pouco. Lamentavelmente.

E a vossa digna esposa? Ouvi coisas estranhas sobre as companhias dela.

É verdade que tomou a iniciativa de criar laços com Valmont.

Uma esposa que toma a iniciativa.

Sois um homem muito moderno, Monsieur de Tourvel.

Eu permito.

Quando as intenções dela complementam as minhas.

- Ela espia para vós? - Não.

Frequentemente devolve a fé a almas perdidas.

E pensastes que converteria Valmont?

Pensei que a presença dela afastaria Valmont da marquesa.

Que insensatez!

É assim que se alcançam muitas vitórias, separando os cúmplices.

A luz sagrada de uma esposa devota

contra a ardente sedução de Madame de Merteuil.

Não compreendeis bem os meandros do vício.

Vá, meu caro amigo, animai-vos.

Fizestes tudo o que podíeis, não foi?

Sois o reflexo da instituição que representais. Cauteloso, modesto.

Felizmente, o Reino de França tem outros meios ao dispor

para garantir a obediência às leis de Nosso Senhor.

Visconde. Como estais?

- Excelente, madame. - Vinde.

Está tudo bem, a sério?

Aqui, convosco? Como poderia estar melhor?

É que nem sempre sei se vos entendo com propriedade, monsieur.

Agora que vos livrastes do caso judicial,

imagino que já estejais a maquinar outros temíveis esquemas

para corromper jovens maravilhosas e inocentes.

Eu ainda não terminei com a esposa do juiz.

Como assim?

Antes a tortura do que reconhecer o meu fracasso com ela.

Ninguém vos apontará o dedo por não conseguirdes seduzir aquela santa.

Pelo contrário, a vossa coragem em tentar tal feito

será apreciada... - Conheceis-me tão mal.

Sabeis porque sou quem sou?

Não tenho a beleza de Louis ou a fortuna de Gercourt,

mas o meu nome continua a ser sonante.

Porque sou o meu próprio espectador e juiz.

Não me comparo aos outros.

Comparo-me ao meu ideal íntimo do que deve ser um grande libertino.

E um grande libertino nunca aceita uma rejeição.

Lamento, mas ela nunca será vossa.

Dessa forma, só aumentais a minha ambição, cara marquesa.

Não quero ver-vos cair no ridículo, visconde.

Não é essa a impressão que dais.

Vamos apostar.

Seduzirei Tourvel...

- E o que quereis de mim? - Tudo.

Vós.

Recordai a forma como nos amámos.

A nossa noite de núpcias.

Odiais-me pelo logro, mas amais-me porque fi-la desabrochar.

Estou dentro de vós.

E um dia, sereis minha.

Tradução: Marlene Morais Iyuno

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