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o Conde Giacomo Taldegardo, de nove anos,
o Conde Carlo Orazio, de oito anos,
a Condessa Paolina, de sete anos,
em 30 de Janeiro de 1808, apresentaram-se
na seguinte performance, sob a orienta��o do seu pai,
o Conde Monaldo.
Transibulo, de quarenta anos,
por uma aposta perdida, deve dar a Tantillo
tantos escudos quantos minutos tem de vida.
Quantos escudos dever� pagar?
Vinte e um milh�es
e vinte e quatro mil escudos.
Agora ponhamos � prova a compet�ncia do meu primog�nito, Giacomo,
com um exerc�cio dif�cil.
Pompilio,
para uns juros de 4613 escudos, a cinco por cento,
que deve ser pago em tr�s anos, dois meses e quatro dias.
Qual � a d�vida?
Ent�o?
Giacomo...
PROIBIDO
Obrigado.
Por que n�o usa a faca?
Estou farta de repetir.
O Giacomo escreveu uns versos bel�ssimos.
Um poema l�rico: "� It�lia".
- Pode l�-lo? - Assim que for capaz.
Giacomo, o que houve?
Desculpe, j� volto.
- Vai buscar os sais! - Sim.
Giacomo?
N�o consigo!
Raios o partam!
Tive de deixar a carruagem na Porta Cerasa.
Bateu outra vez! Como � que a arrumou?
Te disse para esperar, a madeira n�o est� boa.
- Mas aceitou o meu dinheiro! - Eu fiz o trabalho!
Leve-o.
- Olhe para isso! - Se a usar, vai quebrar.
Pai!
- Quebrou, outra vez? - Qual � a piada?
J� subo para te dar um castigo.
Ent�o, o Giacomo est� sendo preparado para a carreira eclesi�stica.
� o seu destino.
� o primog�nito, mas � muito fr�gil.
Os seus ossos est�o se deformando.
Receio que desenvolva uma corcunda.
Ele estuda demais!
Bal�es, guiadores,
ferramentas de todo o g�nero, tudo in�til.
Por outro lado, ele fez grandes progressos na filologia.
Progressos excepcionais, recebeu aplausos de Akerblad!
Deseja que ele seja um fil�logo como aquele chato do Akerblad?
Deseja que passe os seus dias na ocupa��o est�ril
de comentar autores antigos?
A filologia � uma disciplina valiosa.
Insisto em dizer
que tudo o que o Giacomo sabe e ainda ir� saber
n�o dever� fazer dele um compilador sombrio,
mas um grande prelado, um grande cardeal.
Monaldo, deve consentir que ele venha a Roma.
Estar� conosco.
Eu e a Marianna vigiaremos com o m�ximo escr�pulo
a sua conduta.
Ter� a oportunidade de conhecer o mundo
e de se dar a conhecer.
Sofrerei muito com a sua aus�ncia.
E quanto � sua pr�pria felicidade,
pode ter a certeza que se encontra toda no seu estudo
e aqui pode estudar melhor que em qualquer outro lugar.
Temos falado pouco ultimamente.
Parece que te incomodo!
Quando te falo, me responde com palavras acanhadas.
Como se o teu cora��o
encontrasse algum obst�culo para se aproximar do meu.
Mas ele deseja ser visto uma vez s�,
s� por um momento,
e isso bastaria a ele.
Pai, chegou uma carta do tio Carlo.
Gostaria que o Giacomo o ajudasse a traduzir uma inscri��o hebraica.
N�o devemos negar nada ao irm�o da sua m�e.
Muito bem. Diga a Don Vincenzo que acompanhe o Giacomo.
Posso ir com ele?
Pode.
Continuaremos o estudo depois do jantar.
Esperem!
N�o corram assim!
J� terminaram! Como foi?
Ele traduziu na hora, num instante.
O Senhor Conde vai ficar contente.
- Senhor tio... - Marqu�s, vamos.
Vamos!
Olha.
Disse que me ensinaria a ler.
Nunca est� por perto.
Estou extremamente ocupado.
Estou escrevendo um poema l�rico sobre um monumento de Dante
que est�o erguendo em Floren�a.
Quem sabe quando o construir�o...
Com licen�a.
Vamos.
Doce e clara � a noite
e sem vento
e calma sobre os telhados e os pomares posa a lua,
revelando ao longe, serena, as montanhas.
Oh, minha senhora,
os caminhos est�o agora silenciosos
e as luzes da noite brilham raras vezes nas varandas.
Tu dormes,
porque o sono veio depressa no teu quarto quieto.
Nenhum problema te preocupa,
nem podes imaginar a ferida que abriste
no meu cora��o.
Sim, tu dormes,
e eu olho este c�u, que parece benigno,
e o sa�do.
E a velha natureza onipotente
que me criou para sofrer.
"N�o posso te pedir que leias o meu livro, mas n�o o recuses.
O pr�prio livro, mostrando a minha insignific�ncia, me punir�".
A minha insignific�ncia?
A rea��o ao teu pref�cio n�o foi suficiente?
Foi realmente terr�vel.
"Ajoelho-me perante os estudiosos da It�lia para lhes implorar..."
- Et cetera... - Na verdade,
os estudiosos reagiram com sil�ncio.
Um tal F. C. falou, sem d�vida!
Foi rude e indelicado.
Para de me atormentar e envia as minhas cartas.
Uma para Vincenzo Monti, uma para Angelo Mai, uma para Pietro Giordani.
Mas � pelo Ulysses, o destemido,
que o meu cora��o est� rasgado.
Homem infeliz...
Quem, longe dos seus entes queridos,
tem sofrido h� muito
numa ilha
cheia de �rvores,
rodeada pelo mar,
que... que para o mar
� o umbigo.
Giacomo, isso � Homero!
Sim, padre, mas "omphal�s" � umbigo.
Que para o mar � o umbigo.
Senhor Conde, o correio.
Mas para Ulysses, o s�bio...
H� uma nova carta de Pietro Giordani para voc�.
N�o tinha j� respondido?
- N�o a l�? - Terminarei esta passagem primeiro.
Quando a terminarmos, lerei.
Homem triste,
longe dos seus entes queridos...
Longe dos... seus entes queridos...
"Vossa senhoria
chegar� ao topo.
Em 1900, o Conde Leopardi, que eu j� amo,
poder� contar entre os primeiros que recuperar�o
� nossa p�tria a honra perdida pelo mal."
Giacomo!
Estimad�ssimo e car�ssimo senhor,
ler as palavras de Giordani, que ele me tenha escrito,
que possa sonhar em t�-lo como mestre a partir de agora,
s�o coisas nas quais mal posso acreditar.
Meu car�ssimo Giacomo, se falar dos nossos estudos,
n�o ser� como teu mestre.
Acho que para ser escritor, deve-se traduzir antes de compor,
como na pintura imitamos as obras dos mestres
e depois compomos em prosa, antes de compor em versos.
Mas quando traduzo, sinto uma forte necessidade de compor,
a minha alma engrandece no seu todo e digo a mim mesmo:
"Isto � poesia.
Para exprimir o que sinto, s�o precisos versos, n�o prosa!"
E come�o logo a escrever versos.
Se gosta mais de poesia, assim seja!
Quanto mais me escreve, mais motivos tenho para a amar e admirar.
Quem na It�lia, hoje em dia, poderia variar como tu?
Hinos gregos e odes anacre�nticas.
E quem mais, entre os eruditos, poderia filosofar com tanta sutileza?
As suas palavras me incendeiam e me lisonjeiam,
mas saiba que o que escrevi at� agora,
condenei � eterna escurid�o.
Vai mesmo chover esta noite! Olha para o c�u!
Est� negro como o seu chap�u.
Viu?
De onde veio o pirilampo?
N�o sei, � o primeiro que vejo.
Senhor jovem Conde, o c�ntico que me enviou
n�o � para queimar, mas armou um medo.
O fil�sofo n�o ama a vida e n�o teme muito a morte,
mas ser obcecado pela ideia cont�nua da morte
n�o devia estar presente num jovem como voc�,
cuja natureza ainda consente viver longos anos.
Meu amado Giordani,
tenho um grande, talvez incontrol�vel e insolente desejo de gl�ria,
mas n�o acredito ser capaz de superar a minha natureza.
A minha sa�de � extremamente fr�gil
e afetada pelos trabalhos que a fizeram sofrer durante muitos anos
de estudo louco e desesperado.
Meu jovem Conde, ent�o, modere os seus estudos.
Se o seu corpo perecer, como vai continuar?
Revigora o teu corpo:
passeie, cavalgue, dance!
A sua terra natal � um local saud�vel e calmo.
N�o me fale de Recanati!
� t�o querida como o desenvolvimento
de ideais de �dio pela p�tria.
A minha p�tria � a It�lia,
a sua l�ngua, a sua literatura.
Se muitos pensassem assim, j� ter�amos It�lia:
dona de prov�ncias e n�o de bord�is.
Vale a pena o s�bio amar a sua terra natal.
Em casa existem confortos para o estudo
que n�o se encontram em mais nenhum lugar.
Quem diria que Giordani defenderia Recanati?
Aqui, meu am�vel senhor,
tudo � morte,
tudo � insensatez e estupidez.
Acha que um grande talento seria apreciado aqui?
Digo-lhe sem soberba,
que aqui me consideram um rapaz
e, quando muito, me chamam de sabich�o, fil�sofo,
eremita e tudo isso.
O ar desta cidade est� sempre mudando,
�mido, salgado, cruel para os nervos.
E para tudo isto e mais a obstina��o
negra, horrenda, a tristeza b�rbara
que me corr�i e devora.
De que divertimentos fala?
O �nico divertimento aqui s�o os estudos,
o �nico divertimento � aquele que est� me matando,
todo o resto � t�dio.
Fernando!
O que ele est� fazendo?
Inspecionando as cartas.
E faz desaparecer as do Giordani.
Tem certeza?
N�o recebo nenhuma h� dias.
� imposs�vel que n�o tenha escrito.
Na �ltima, pediu-me para ir encontr�-lo em Mil�o.
Se tivesse nove anos, voaria at� ele!
Meu car�ssimo Giacomo...
Voaria!
Devo ir at� Roma e n�o irei pela via r�pida, pela Toscana,
mas por Loreto, para o visitar.
Giacomino, meu amigo,
mostrei os teus poemas a amigos inteligentes que n�o elogiam facilmente
e eles exaltaram-se com tantos elogios
e foi admirado com tanta venera��o,
que nem Dante poderia ter mais.
Os teus poemas l�ricos s�o como focos el�tricos,
possuem todo mundo.
Te aclamam como um milagre.
Aguardo-o t�o impacientemente, Giordani, meu amigo,
devorado pela melancolia
e fervendo com desejos.
Entediado, zangado,
bebendo estes dias amargos sem a m�nima do�ura.
Tendo esperado tanto a sua visita, agora que se aproxima
cada dia que passa parece um s�culo
e, n�o sabendo como preench�-lo,
trituro o meu cora��o at� o explodir.
Giacomo!
Vem!
Monaldo Leopardi.
- Bem-vindo, Sr. Giordani! - Obrigado.
- O meu filho Carlo. - Bom dia.
Bom dia.
Como p�de escapar assim, t�o depressa?
Sem esperar por voc�.
Ele nunca saiu sozinho.
A visita do Giordani ao nosso filho � uma grande honra para n�s.
Ave Maria, gratia plena, Dominus tecum...
Meninas, sa�dem o Sr. Conde.
Bom dia, Sr. Conde.
Onde est� a carro�a?
O jovem Conde levou-a com aquele cavalheiro.
Para ir aonde?
Perto, a Loreto, Macerata, n�o sei!
Este coche est� livre?
E assim, devido � magia dessas grandes artes,
as paredes das igrejas e dos edif�cios tornaram-se
hist�rias falantes.
O olho,
admirando o objeto ao longe,
exemplo de virtude e coragem,
esculpe sentimentos semelhantes dentro de n�s
e, pouco a pouco, forma-se a nossa determina��o
de agir, de lutar.
Toque.
Toque.
Voc� tamb�m.
A igrejas assim, n�o se vem apenas orar.
E ent�o, senhor, deixa-nos ap�s apenas cinco dias.
Estamos devastados.
Os meus filhos receberam benef�cios extraordin�rios
das suas preciosas conversas
e v�o sentir a sua falta.
Resta-me agradecer profundamente a sua visita.
Eu � que agrade�o, Monaldo.
Posso cham�-lo assim?
Os seus filhos t�m muita sorte
em se formarem numa biblioteca como aquela que criou.
Obras como estas s�o benef�cios imortais da nossa p�tria
porque representam grandes exemplos.
Pense que bela revolu��o seria se a nossa juventude
as duplicasse, as multiplicasse!
Partilho plenamente da sua convic��o,
com uma exce��o, relativa � palavra
"revolu��o", que certamente usou como met�fora,
mas que eu prefiro evitar,
nunca tendo sido seduzido pela sua lisonja.
Pode se ser livre, na verdade,
e deve ser, sem covardia,
mas as bases e as fronteiras da verdadeira liberdade
s�o a f� em Jesus Cristo e a fidelidade ao soberano leg�timo.
Fora destes confins,
n�o se � verdadeiramente livre, mas dissoluto.
Naturalmente!
N�o l� mais para mim?
Tenho um pouco de ci�mes de todas as coisas que tem na cabe�a.
Estou come�ando tantos projetos
que quatro vidas n�o seriam suficientes para realizar todos.
Sinto-os chegar, n�o posso par�-los,
cada um tem a sua raz�o de ser,
por vezes at� contr�ria � qual comecei a esbo��-lo,
depois a minha mente come�a a falar consigo mesma,
a tagarelar.
- E o teu "Zibaldone"? - Est� em andamento.
Como algu�m pode ler todos estes pensamentos, um ap�s o outro?
Como podem entend�-los?
H� uma ordem,
� um sistema.
Eu sei: um sistema que introduz
um ceticismo fundamentado e demonstrado.
E tanto que, apesar dos progressos poss�veis,
a raz�o humana n�o poder� mais despir-se dela,
porque cont�m a verdade.
Em que consiste a verdade?
Consiste na d�vida.
A raz�o humana n�o pode encontrar a verdade sem duvidar,
distancia-se cada vez que julga com certeza.
Quem duvida, sabe. � o que mais sabe.
N�o consegui fazer nada!
Era t�o bonita, t�o boa,
t�o jovem!
Raimondo, tente se consolar.
A idade n�o importa, mas a forma.
Ela recebeu os sacramentos?
Sim.
Durante a doen�a, mostrou resigna��o crist�?
- Ela n�o podia falar! - N�o chore mais.
O dia em que Deus chama uma das suas almas � um dia de felicidade.
O que faz, Sr. Conde?
Carlo?
Quer que abra um pouco a janela?
N�o, esta dor nos olhos nunca passa.
Vai continuar a estudar.
Obrigado.
Aqui est� o seu passaporte.
Foi muito boa ideia vir me ver
e fico muito contente que o Conde, meu primo,
tenha decidido dar-lhe a oportunidade de ver o mundo.
Escreverei
e te darei os parab�ns, desejando
tudo de bom para a sua viagem.
N�o se incomode, por favor.
O meu pai manda os melhores cumprimentos e agradecimentos atrav�s de mim.
Est� muito ocupado esbo�ando um tratado
e qualquer letra, mesmo uma boa quanto a sua, seria um inc�modo para ele.
Na verdade, me encarregou de lhe dizer que lhe escrever�
assim que estiver dispon�vel.
Como quiser.
Obrigado.
J� chega, n�o cabe mais.
Fica com tudo
e defende-os, n�o tenho nada mais precioso.
N�o v�.
Nunca se canse de me amar.
Vai...
Vai!
Podemos ir!
Aqui est� a quantia de que falamos.
Pietro Giordani.
Ele era o mau agouro da nossa fam�lia.
A sua vinda foi o momento
em que os meus filhos mudaram de pensamento e conduta
e talvez o momento em que os perdi para sempre.
At� esse dia, nunca, literalmente nunca,
tinham estado fora da minha vista ou da m�e deles!
Aquele canalha
promoveu-lhe sentimentos contr�rios �s suas obriga��es.
Isso n�o � verdade.
Ent�o, foi imprudente, te acendendo com a sua conversa
e foi cruel comigo,
enquanto conservava o mais rigoroso sil�ncio.
Giordani p�s Giacomo em contato com v�rios acad�micos.
Existem mentes perigosas entre essas pessoas,
que o convidam a partilhar as suas ideias,
para o tornar o seu principal apoiador dos seus des�gnios subversivos.
O que tem a dizer?
O meu pai culpa os acad�micos que eu mal conhe�o
sem perceber que tomei a decis�o de fugir
desde que percebi a minha condi��o
e os seus
princ�pios imut�veis,
por outras palavras, desde sempre.
Pai, te amo t�o profundamente
quanto � poss�vel um filho amar um pai.
Se me procurar os meios para sair,
serei grato e respeitoso.
Se n�o, o que deveria ter acontecido e n�o aconteceu
est� meramente adiado.
N�o quero viver em Recanati!
Nunca acreditei que devia viver e morrer como os meus antepassados.
Rogo-vos...
Rogo-vos...
Voc� me odeia,
me imagina, na sua mente corrupta,
como um tirano inexor�vel.
O fato � que a sua natureza mudou com a chegada de Giordani.
N�o me surpreenderia que aquele ap�stata miser�vel
tamb�m tenha instigado uma falta de cren�a religiosa em voc�.
Mas o que est� dizendo?
Que semelhante blasf�mia nunca chegue aos ouvidos da Adelaide.
Caro sobrinho,
voc� aspira a fama liter�ria,
mas contraiu uma doen�a moral funest�ssima.
Eu n�o tenho ambi��o.
Odeio esta vil prud�ncia
que nos petrifica, nos liga.
Odeio esta prud�ncia,
esta vil prud�ncia
que nos petrifica,
que nos liga!
Impossibilita qualquer grande ato, pai!
Nos reduz a animais,
atendendo apenas � preserva��o das nossas pr�prias vidas
miser�veis, sem outros pensamentos!
Sem outros pensamentos.
Acredita mesmo conhecer a filosofia?
Acha que leu os grandes escritores franceses e ingleses?
N�o, me deixe falar com franqueza.
N�o foi o m�rito dos seus poemas,
mas os seus objetivos que mereceram os elogios de tantos liberais.
O seu pai tem a obriga��o de te abrir os olhos
e te fazer entender que os talentos que Deus te deu
devem ser usados para contrastar com o abjeto materialismo,
para lutar com as ideias revolucion�rias que s�o uma praga na It�lia,
para passar das belles-lettres � boa literatura
porque a responsabilidade ser� dele se os seus talentos
n�o se direcionarem para este fim.
Tira essa cara,
levanta a cabe�a,
abre essa boca que est� sempre calada
quando est� falando com a fam�lia, e n�o sobre literatura.
E, especialmente, se arrependa.
Se arrependa de fazer sofrer tanto os seus pais!
Meu amado Giordani,
desde mar�o que sou atormentado por uma obstinada fragilidade ocular
que me impede n�o s� de ler,
mas de todas as conten��es da mente.
De resto, estou bem de sa�de
e de �nimo, t�o ardente e desesperado como sempre,
tanto que comeria o papel onde escrevo.
Nunca farei nada grandioso?
Nem agora que me balan�o contra esta gaiola como um urso,
nesta terra de mentirosos e nesta maldita casa,
onde pagariam uma fortuna para me tornar frade,
enquanto, querendo ou n�o, me fazem viver como frade.
E com este meu cora��o,
em breve voltarei a fugir,
a menos que me transforme em ap�stolo e fuja, mendigando almas,
como provavelmente acontecer�.
Sempre me foi cara esta erma colina
e esta sebe,
que por toda a parte do �ltimo horizonte o olhar exclui.
Mas sentando
e admirando,
intermin�veis espa�os para l� dela
e sobre-humanos sil�ncios
e profund�ssima quietude,
eu no pensamento me finjo; onde por pouco o cora��o n�o me amedronta.
E, como o vento, ou�o sussurrar entre estas plantas,
eu aquele infinito sil�ncio a essa voz vou comparando:
e me sobrev�m o eterno
e as mortas esta��es
e a presente e viva
e o som dela.
Assim, entre esta imensid�o se afoga o pensamento meu;
e o naufragar � doce nesse mar.
Visto que a evolu��o e os h�bitos
e os eventos e os locais da minha vida
ainda s�o infantis,
agarro os �ltimos restos com as duas m�os
e estas sombras que adoram e aben�oam o tempo
onde esperei e sonhei com a felicidade.
E ao esperar e sonhar, deleitei-me nela.
� passado e n�o voltar�.
Claro, nunca mais.
Vendo com excessivo terror que com a inf�ncia
o mundo e a vida tamb�m acabaram para mim
e para todos os que pensam e sentem.
Portanto, n�o h� vida at� � morte,
exceto para quem continua a ser crian�a toda a vida.
DEZ ANOS DEPOIS
- Que horas s�o? - Passa do meio-dia.
Fui comprar uns bolos para voc�.
Daria os meus olhos por voc�, se valessem alguma coisa.
Como est�?
Consegui escrever,
a muito custo.
Posso?
Me estraga com mimos!
Se desprendeu do c�u?
Entra. A Lenina adora sempre te ver.
- Parab�ns. - � uma honra, vindo de voc�.
"Os c�us reservam uma alegria cruel para a esposa do franc�s".
"Ou arrependimento cruel"?
Versos maravilhosos!
Foi sublime, como sempre.
Floren�a est� aos seus p�s. Ouviu os aplausos?
A dire��o � comovente, mas o papel � secund�rio.
Foi sublime at� nos sil�ncios.
Quem sabe porque os solil�quios s�o t�o adorados no teatro!
O homem, quando arrebatado pelas suas paix�es, n�o diz nada vindo de si.
- Senhores... - Niccolini... Maravilhoso!
Parab�ns.
Obrigado, Maddalena.
S� voc� poderia interpretar a Imelda com tanta intensidade.
Os seus versos � que s�o poderosos.
O que diz o p�blico? O que acontecer� ao espect�culo?
O p�blico adorou, mas a censura vai impedir-nos de continuar.
Isso � terr�vel, fico destro�ada por voc�.
Estamos todos destro�ados, n�o apenas por voc�.
Eu tamb�m estou no ex�lio por causa do �dio desses tiranos,
tal como o seu protagonista.
- Ouvi as not�cias. - Lamento, Ferdinando.
Foi extremamente generoso por organizar a encena��o,
voc� e a sua esposa,
agora s� podemos fechar o teatro.
Permita-me dizer-lhe o quanto gostei da sua interpreta��o.
Obrigado, Sr. Ranieri.
Muito bem, n�s vamos indo.
- Adeus! - Adeus.
Eu tamb�m vou.
Prepare tudo, senhora, amanh� partimos em turn�.
Bolonha!
- V� embora! - Cuidado, Giacomo!
V� embora, c�o raivoso!
Larga!
Olha!
Ela disse
que deixaria o marido
e os filhos!
Que n�o pode mais viver sem mim.
Vou me encontrar com ela
E n�o � verdade, de todo!
Eu sei bem o que � a melancolia,
mas deve se esfor�ar para afastar esse sentimento.
Voc� � jovem. Tem um longo futuro � sua frente.
N�o azede com ideias tristes.
Talvez estas palavras te desagradem.
N�o,
pelo contr�rio,
as suas palavras e a sua voz s�o um b�lsamo para mim.
Tem sorte por ter a amizade do Leopardi.
� ele quem me incita a falar com o cora��o.
J� viram aquela bel�ssima jovem
de 14 ou 15 anos?
Parece ter sido feita para ser contemplada.
N�o.
� filha de algum dos convidados?
Jurava que era a filha do Canova, mas o pai dela � outro.
Vem comigo!
Olha!
Esta Psique n�o � uma est�tua,
est� viva!
Um dos mais ternos e graciosos anjinhos que existem.
Ela amava de olhos fechados, n�o vendo quem era o seu amado.
N�o h� conto mais bonito do que o de Cupido e Psique.
Oh, a bela e milagrosa Psique!
Isto � um mapa que desenhei com Rosellini
depois da nossa viagem, de fato, durante a viagem.
Chegamos bastante longe, ao longo do Nilo.
Li a sua "Opereta Moral".
Um livro melanc�lico, tal como voc�.
Sim, tal como eu.
Melanc�lico, desconsolado, desesperado.
Esta vida deve parecer-lhe algo muito terr�vel.
O que posso dizer?
A minha obsess�o era que a vida humana fosse infeliz.
Por que agora tem uma opini�o diferente?
Com certeza...
Com um estudo mais aprofundado,
percebo que a felicidade da vida
� uma das grandes descobertas do nosso s�culo.
Me d� licen�a?
Giacomo, finalmente te vejo!
Fiquei desolado com o que me escreveu.
Creio que o teu concorrente para o pr�mio anual � Botta,
n�o Manzoni, que n�o est� no concurso.
Acha mesmo que a Academia pretende violar as regras?
Posso tentar me informar, mas...
N�o, pelo amor de Deus! O Manzoni n�o tem nada a ver com isso,
� um homem muito bom, uma alma bondosa, merecedor da sua reputa��o.
Trata-se de uma suspeita, meu caro Vieusseux,
mas n�o fale disto a ningu�m, recomendo.
Com a sua licen�a.
Giacomino, o que h�?
N�o est� bem? Quer �gua?
N�o, eu estou bem.
Onde est� o Ranieri?
Com a Fanny.
Os teus des�gnios funcionaram bem, meu caro Leporello!
Finalmente esqueceu aquela atriz insuport�vel.
Por que n�o partimos?
Chamamos uma carro�a?
Vamos a p�, preciso tomar ar.
- Consegue? - Sim.
Como adorei os teus primeiros poemas ao voltar a l�-los!
E estes �ltimos tamb�m.
Que maravilhoso � "O Pasto Errante da �sia".
"O que fazes, lua, l� em cima no c�u;
O que fazes?"
Giordani, meu amigo, � t�o bom ter voc� de volta!
Floren�a est� triste sem voc�.
N�o preciso de estima, de gl�ria ou de coisas semelhantes,
preciso de amor,
de entusiasmo, de fogo, de vida.
Ent�o, ou�a-me bem, sabe que te amo,
sinceramente, de todo o cora��o,
e fico feliz que procure divers�o ocasionalmente, como esta noite,
apesar do resultado amargo desta noite.
O qu�? Tamb�m quer me ridicularizar?
N�o!
Em vez disso, lembre-se de entregar o famoso artigo a Vieusseux.
Que chatice!
Foi voc� quem me pediu para escrever.
Est� bem, escrevo amanh� e entrego,
contudo, se vier comigo
para falar com os nossos amigos acad�micos.
"Nenhum outro sen�o o g�nio � f�ria,
do estudo, a �nica inspira��o".
Muito bem.
O governo impediu a publica��o de O Espectador Florentino,
um bom nome para um jornal.
Foi ideia do Ranieri.
Eu teria preferido Le Fl�neur.
Todos os jornais s�o progressistas,
o nosso n�o teria qualquer utilidade.
O que quer dizer?
O nosso objetivo n�o era aumentar a ind�stria ou beneficiar o mundo,
s� divertir quem o l�, fazer rir.
Desculpe por aproveitar a oportunidade,
o senhor conhece todos os homens famosos do nosso tempo.
Faria a cortesia de me dispensar algumas cartas de pessoas ilustres?
Sim. Claro!
- Pelo Conde Leopardi... - Sim.
Seria em nome de uma bel�ssima e muito gentil senhora
que me implora para procurar aut�grafos para a sua cole��o.
Entendo!
Aqui est� o seu terno! Est� como novo.
Veja que lapela comprida.
Como dita a moda!
- Quanto lhe devo? - Dois francesconis.
O canto do seu pintassilgo parece um riso.
Os p�ssaros s�o as criaturas mais felizes do mundo,
parecem sorrir, como o homem.
N�o � admir�vel que o homem saiba rir, apesar de ser t�o infeliz?
Felizmente, �s vezes o homem consegue se esquecer de si mesmo.
Rosina, embrulhe este terno para o senhor.
- Bom dia, Fanny. - Bom dia, meu amigo.
Estava lendo o livro que tinha me recomendado.
Vem, sente-se aqui.
Como est� hoje? Parece bem.
Sim...
Deve ser este tempo agrad�vel.
Veja o que trouxe para voc�.
� um aut�grafo do Alfieri!
Como o conseguiu?
Pedi-o para voc�.
Vem da Su��a.
� muito precioso! N�o sei como lhe agradecer.
Eu � que devo agradecer-lhe por ter falado com o Antonio.
Saiu-se muito bem.
- Viu ele desde aquela noite? - N�o.
Mas nos encontraremos todos na casa da Charlotte Bonaparte, no s�bado.
Sei que ela recusou Floren�a para t�-lo como convidado.
Talvez eu v�.
Por que n�o iria?
Porque a minha vida sempre foi
e ser�, eternamente, solit�ria.
Al�m disso, em conversa, eu sou
"absent", para usar a palavra inglesa,
mais do que um cego ou um surdo.
� um v�cio incorrig�vel e desesperante.
Simplesmente n�o gosta de falar.
Mas ningu�m diz coisas mais interessantes que voc�.
Obrigada!
Quando um sentimento de amor nasce no fundo do nosso cora��o,
ao mesmo tempo nasce um l�nguido e exausto
desejo de morrer.
N�o sei o porqu�;
mas este � o primeiro amor do amor verdadeiro e poderoso.
Talvez este deserto aterrorize os olhos e ent�o...
Isto?
Deserto.
N�o queres dar-me um beijo?
Apenas um beijo, em toda a minha vida?
N�o podes negar o �ltimo desejo a um homem.
N�o vivi em v�o...
Pude encostar os meus l�bios aos teus.
Na verdade, acho o meu destino feliz.
H� duas coisas justas no mundo:
o amor e a morte.
Bom dia, senhor Conde.
- A senhora est� em casa? - Acabou de sair com a fam�lia.
At� logo.
Sabe quanto me esforcei por ele.
Conseguimos obter um subs�dio para um ano inteiro!
Li o seu trabalho novamente
e n�o gostei de nada.
A mesma, eterna,
insuport�vel melancolia.
Os mesmos temas,
nenhuma ideia ou conceitos novos.
Claro, o estilo � belo!
- Mas, realmente... - Ele vem a�.
Meu bom amigo,
n�o temos nada de muito consolador a dizer
relativamente ao pr�mio.
Foi concedido ao Botta.
A sua "Opereta Moral" foi defendida
por Capponi e por Niccolini.
Saiba que, apesar de Colletta n�o o esperar,
at� Zanoni foi justo, relativamente a voc�.
Mas o que esperar dos restantes padres que faziam parte do conselho?
Podiam pelo menos apreciar
o m�rito da sua escrita?
Os padres!
Os padres s�o a causa de todos os males!
Deviam ser todos apedrejados.
Pelo menos, dos j�ris liter�rios.
Deixe os padres em paz.
A quest�o � outra, em rela��o a n�s, �s nossas ideias liberais.
Giacomo, falo contigo com amizade,
nestes tempos � extremamente prejudicial
mostrar um desespero como o seu.
O nosso s�culo nos ensinou que a condi��o humana
pode melhorar aquilo que �,
como j� melhorou consideravelmente daquilo que era.
Correto...
Meus amigos, esque�am.
Queimem o meu livro, � o melhor a fazer.
Se n�o, guardem-no como um livro de sonhos po�ticos,
de inven��es, de caprichos l�gubres,
como a express�o de tristeza do seu autor.
Porque, com confian�a,
meu caro amigo,
acredito que voc� e os outros estejam felizes,
mas quanto a mim, com a sua licen�a e a deste s�culo,
fico infelic�ssimo
e acredito que o sou.
E todos os jornais de dois mundos
nunca conseguir�o persuadir-me do contr�rio.
Que mediocridade arrogante!
Vamos l�, Tommaseo, o Leopardi n�o � o que acreditamos,
mas exagera.
Acha que sim?
Em 1900 nem a sua corcunda restar�!
Minha cara m�e, nunca mais lhe escrevi
e lamento faz�-lo agora com um pedido.
H� algum tempo escrevi ao pai
a implorar-lhe uma quantia mensal de doze francesconis,
com a qual procuraria ansiosamente aguentar-me.
O pai respondeu-me que devia escrever-te diretamente.
Hoje, finalmente, n�o podendo tardar mais,
reduzo-me a este passo, que me custa muit�ssimo
e dirijo-me a ti com o mesmo pedido.
Quem �?
Sou um pobre island�s
que fujo da natureza.
Sou aquela de quem foges.
A natureza?
Estou ferido de ang�stia!
� o manifesto inimigo do homem,
e dos outros animais e da sua pr�pria criatura.
Agora aprisiona-nos, agora amea�a-nos,
agora ataca-nos, agora atinge-nos, agora rende-nos,
e ofende-nos e persegue-nos sempre!
Acha, por acaso, que o mundo foi feito s� para voc�?
A minha inten��o n�o foi, nem �,
a felicidade ou tristeza do homem.
Quando te ofendo de qualquer forma, o que quer que isso signifique, n�o noto;
n�o sei se te agrado ou ajudo.
Mesmo que eu apagasse toda a tua esp�cie,
n�o notaria.
O meu pintassilgo voa por a�, a tocar no meu mundo
e volta com o que pode trazer.
Ouve, querido p�ssaro,
ali � frente,
h� uma casa e uma mulher l� dentro,
Podes ir encontr�-la se te apressares,
� a mais bela mo�a que j� vi...
Vamos.
Eu tamb�m concordo.
Vamos.
Decidiu-se!
Boa.
Mas talvez n�o possamos ir agora.
Estou tendo discuss�es ferozes.
Dizem que me receberam na Toscana como a um irm�o,
que n�o importa se o meu ex�lio foi revogado,
se a situa��o pol�tica � dif�cil aqui, entende?
E agora que posso ir a N�poles,
onde voc� e eu podemos viver em conforto, sem um c�ntimo,
o que far�o estes canalhas?
Me acusam de velhacaria.
Os teus amigos pol�ticos
que falam tanto da felicidade das massas.
O meu pequeno c�rebro n�o consegue conceber
essas massas felizes compostas de indiv�duos infelizes.
Quer mesmo ir para N�poles?
N�o desejo nada mais do que fazer como os orientais,
que ficam satisfeitos por se sentarem todo o dia nas suas pernas
a observar estupidamente a nossa rid�cula exist�ncia.
N�poles vai te fazer bem, o ar � maravilhoso.
Estou certo de que te ajudar� a suportar melhor as tuas dores.
Estou certo de que ser� assim.
Vim dizer-lhe adeus.
E o Giacomo?
Ele n�o p�de vir.
Ele n�o quis vir.
Ca� em desgra�a com o Leopardi.
- N�o � assim. - Sim, �!
Se soubesse como acontece frequentemente com os meus adoradores...
Mas voc� sabe, nunca dei a m�nima lisonja �quele pobre homem.
N�o h� ningu�m de quem goste mais do que dele, como sabe.
Aprecio e valorizo muit�ssimo
a sua amizade com o excelente Leopardi,
mas acredito que ser� um grande obst�culo para voc�.
A sua sa�de e estilo de vida
contrastam muito com a sua for�a e juventude.
Basta!
Sim...
Basta.
N�o desejo que me considere cruel.
� o meu sentimento sincero e verdadeiro por voc� que me faz falar assim.
Me escreva quando estiver em N�poles.
N�o me esquecerei de voc�.
Adeus.
O teu pai?
N�o tem inten��es de me mandar dinheiro.
Insiste em me dar em N�poles, em pessoa,
para me humilhar pessoalmente.
Entretanto, tentarei assinar outra nota promiss�ria.
Faremos juntos.
Pedirei ao meu pai para a garantir.
Al�m disso, aqui em Roma sou novamente um assunto do Papa,
como era em Recanati.
� justo me humilhar tamb�m.
Consegue subir as escadas?
Vou tentar...
Espera!
Vem c�.
N�o conseguiria viver sem voc�!
Neste momento, somos um s�.
- Ent�o, onde est�o as ovelhas? - Ficaram ali!
Por que ficaram aqui?
Como est�? N�o te vemos em Roma h� muito tempo.
Bem...
O meu tio, o Marqu�s, n�o est�?
Saiu esta manh�, cedo, para ir � Santa S�.
Tem obriga��es muito importantes.
Me pediu para lhe apresentar as desculpas pelo atraso.
Regressar� o mais rapidamente poss�vel.
- Posso ficar com o sobretudo? - N�o, estou bem, obrigado.
O que fa�o, me sento?
Naturalmente, sente-se, por favor!
- Informarei a Marquesa. - N�o. N�o se incomode!
Nos cumprimentamos esta manh� na missa.
A Marquesa assistiu � missa esta manh� na capela privada.
Ent�o, no caf�.
Claro. Com licen�a.
Conde, me permite? Est� aqui � espera do Marqu�s o Bar�o De Corbis,
um magistrado do Alto Conselho.
Que honra!
Mas, especialmente, que prazer esperar pela Marquesa
na sua companhia, senhor.
Giacomo Leopardi.
Conde, desculpe o inc�modo.
Este homem deve entregar uma caixa de vinho � Marquesa.
"Fique em sil�ncio, doce musa, se pretende
contar as ilustres virtudes do meu senhor,
cujas graciosas gra�as e maneiras industriosas
gasta em v�o os seus graciosos pensamentos.
Prontamente as cabras e os jovens cordeiros, para viver
correm rapidamente como rel�mpagos,
ao som dos quais o Padre Tiber acorda.
E com a cabe�a levantada para o cume mais sublime,
apontou t�o cruelmente aos assustados cordeiros,
que Zeus se parecia com ele, um rel�mpago..."
Receber para ser ouvido, seria um bom neg�cio,
visto que agora todo mundo escreve!
A primeira hora, um escudo, a segunda dois, a terceira quatro,
a quarta oito, e assim sucessivamente.
E pela poesia, o dobro!
E por cada passagem lida, desejando voltar a l�-la,
uma libra por verso.
E, por caridade, se o ouvinte adormecer,
deve restituir ao leitor um ter�o do pre�o estabelecido.
Como � sarc�stico!
Monsenhor Cupis sempre falou afetuosamente de voc�,
te faz milhares de elogios.
� um sacrif�cio t�o grande ouvir os seus versos?
Ele amea�a com milhares: sonetos, poemas l�ricos e cap�tulos
que gostaria que eu revisse ou polisse.
Marianna, ele tem mais que fazer que ouvir os versos do Monsenhor.
Tem que fugir � pol�cia.
Planejava mesmo uma revolu��o em N�poles?
N�o.
Mas estava escrito no jornal, o teu pai quase teve um ataque!
Era um jornal franc�s
e o Leopardi de que falavam era um tal de Pier Silverio, n�o eu.
De qualquer forma...
Se associar a este Ranieri n�o beneficia a tua reputa��o.
Quer mesmo se mudar para N�poles?
� uma cidade dominada pela natureza
e poderei finalmente viver ao acaso.
No fundo, nada mais pe�o.
Contudo, pede dinheiro aos teus pais.
Receber� um cheque deles atrav�s de uma nota promiss�ria em meu nome.
Monaldo, sem falar com a tua m�e,
reuniu uma quantia de 20 escudos para as despesas da viagem.
Fico profundamente grato,
a eles e a voc�, por ter se incomodado por mim.
Na verdade, se puder me fazer a cortesia de escrever ao meu pai
para o assegurar,
tamb�m da minha condi��o de sa�de.
Como v�, o meu corpo � t�o fr�gil que � incapaz
de desenvolver uma doen�a forte a ponto de o matar.
Por isso, estou vivo.
Farei, mas ter� de lhe escrever mais,
com mais afeto, com mais...
Daria o meu sangue por ele
e n�o por dever, mas por amor.
Giacomo, n�o come nada?
A esta hora...
Sabem que tenho uma digest�o complicada.
Sabemos. Retire-lhe o prato.
N�o v� que ele est� aqui?
Tem de ir, ouviu? Ou te agarro pelo cabelo e te arrasto!
Para!
O que foi?
O que aconteceu?
A senhoria estava vasculhando as minhas coisas.
- O que disse? - Eu vi.
Relaxa, foi um sonho.
Por que a caixa est� aberta? Traga-a.
Talvez tenha ficado assim a noite passada.
Traga-a aqui.
Traz�-la aqui?
Falta alguma coisa?
H�? N�o!
Quem ia querer roubar os teus utens�lios para o cabelo?
- Podia procurar dinheiro. - O que disse?
� uma senhora muito honesta, foi o Margaris quem nos a apresentou.
Sabe como eu confio nos velhos gregos!
Conhe�o-o h� muitos anos,
ele n�o nos trairia.
Esse sapo est� tuberculoso,
ainda acaba por nos infectar.
N�o, pode ficar descansada, n�o tem nenhuma doen�a infecciosa.
Al�m disso, desculpe: a vela nunca se apaga, a noite toda.
Gostaria de saber o que fazem l� dentro!
De dia n�o podemos entrar porque o sapinho est� dormindo,
as empregadas nem podem fazer a faxina.
Por que n�o o leva para casa com voc�?
N�o podemos ir para minha casa, al�m disso ele acabou de chegar,
n�o posso deixar o meu amigo exausto com mais uma mudan�a.
Madame, nunca traria uma pessoa que n�o fosse distinta.
O Conde � poeta
e escreve � noite.
N�o quero saber se ele � poeta, Conde ou Marqu�s!
- O homem � doente e n�o quero problemas. - Que problemas?
Tenha f� no Dr. Nicola Mannella,
m�dico de Sua Alteza Real, o antigo Pr�ncipe de Salerno.
Conhece o m�dico da corte?
Bom, quando o Dr. Mannella der a sua palavra de honra
de que ele n�o � tuberculoso, poderemos falar.
O que come normalmente?
Carne.
- Vegetais? - N�o.
Muito mau!
Na sua condi��o, deveria comer
principalmente peixe e vegetais.
Mas, deixe-me recordar-lhe,
deve evitar absolutamente os doces.
Doces e sorvete.
E n�o viva na escurid�o, precisa de ar, de sol!
Paolina, abra as persianas, por favor.
- Quem � aquela? - A irm� dele.
Hoje at� tem uma irm�!
� irm� do Ranieri.
- Os meus respeitos. - Cumprimentos.
Obrigado, doutor.
Madame, qualquer que seja a natureza da sua doen�a,
n�o � contagiosa.
- Adeus. - Adeus, obrigada!
Deus proteja sempre Sua Alteza!
Ent�o, est� tudo bem?
Sr. Margaris.
Estes dois n�o est�o contando tudo.
Madame, por favor,
a sua generosidade � falada em toda a N�poles.
Um m�s.
Nem mais um dia!
Agora vanglorie-se, porque pode.
Anuncie que � a �nica em todo o seu g�nero
que me fez curvar a minha cabe�a orgulhosa,
a quem dei livremente o meu cora��o n�o conquist�vel.
Diga que foi a primeira
e certamente a �ltima, espero,
a ver-me suplicar-vos,
a ver-me t�mido,
tr�mulo,
dizer-lhe que queimo em constrangimento e vergonha,
arruinado.
E conforto e vingan�a,
� que posso deitar-me aqui, pregui�oso, sem vida, na relva,
observando o mar, a terra e o c�u,
e sorrir.
Paolina, voc� chegou! Onde est� o Giacomo?
N�o sei, ele disse que ia sair esta manh�.
Tenho estado � espera dele.
Me pediu se podia me ditar uma carta para a irm� dele.
� um anjo.
Mas volte para casa agora, em breve anoitecer�.
Eu vou � procura dele.
Maldi��o, ele vai me enlouquecer!
Em Recanati conheci um campe�o!
Carlo Didimi, talvez o conhe�a.
Claro que sim! Um �timo jogador!
At� jogou para N�poles, lembra-se, Salvatore?
Sim! Mas como sabe disso?
Recanati � um lugar pequeno,
at� lhe dediquei um poema.
Vamos beber ao jogo!
Ao jogo!
N�o jogou?
Dediquei-me a outras coisas
e era um pouco delicado.
Nem sempre fui um "sapo", como me chamam aqui!
Um sapo, sem d�vida, mas �til:
com essa corcunda, pode nos dar n�meros.
Sim, apostamos neles!
N�meros! Porque eu dou sorte.
Vinte e quatro!
Vinte e um!
Quarenta e nove!
Noventa e quatro!
N�o h� 94, a loteria s� vai at� 90.
Don Giacomo, noventa: medo!
E o que o conseguir, faz 91!
O que est� fazendo?
Te procurei em todo canto, depois disseram-me que estava aqui.
Como est�?
Estou bem.
Anda, vamos.
Fica um pouco mais, bebe conosco.
S� uma gota!
Sente-se aqui com os amigos.
- Brindemos � sa�de. - � sa�de.
Vi lojas maravilhosas, Antonio,
livrarias cheias de livros
e pastelarias... que aroma!
Quero escrever a hist�ria de uma passeata.
Talvez at� compre umas gravatas novas. As tuas s�o todas lisas.
A Sra. Guacci convidou-nos para sua casa no s�bado.
At� Donizetti estar� l�.
Ele quer usar os teus versos na sua nova �pera,
"Lucia di Lammermoor".
N�o quero ir a reuni�es sociais.
� melhor irmos.
O que foi?
A pol�cia veio buscar o marinheiro.
Que marinheiro?
Aquele que escapou com o barco infectado de c�lera, para ir ver a fam�lia.
Morreu.
Vamos!
Meus amores, meus amores...
Eu quero louvar!
N�o, mulheres n�o!
A minha cabe�a, adeus! A minha cabe�a, adeus!
N�o consigo conter,
a minha f�ria aumenta!
A minha pr�pria m�o
vai rasgar...
Em Roma,
a �pera foi um fiasco.
N�o h� d�vida, Rossini inspira N�poles.
O primeiro ato foi estupendo!
O meu sorvete.
Hoje est� de bom humor,
talvez venha uma inspira��o menos afligida para a poesia.
Veja, tenho aqui o seu livro.
Starita, o editor, me deu esta manh�
e mencionou poemas in�ditos. Tive de os ler imediatamente.
Bom, Don Giacomo!
Permita-me falar sinceramente, s�o realmente infelizes,
n�o tanto do ponto de vista po�tico,
mas sobretudo da moral.
- � verdade que � ateu? - Mas se fosse o ate�smo!
Se imagina uma divindade,
imagina-a mal�fica, que adora atormentar o homem.
� um grande pessimista.
Que palavras v�s!
Pessimismo, otimismo...
Tem de me provar
que este mundo n�o � o pior poss�vel.
Eu, certamente, n�o o afirmo.
Quem conhece os limites das possibilidades?
Devem imagin�-la como o pensamento
de um fil�sofo indiano antigo.
Em qualquer dos casos, os seus poemas
foram pessimamente recebidos por todos.
N�o, digo isto com grande tristeza,
porque t�nhamos esperan�a em voc�, a sua fama era grande,
esper�vamos um novo Manzoni.
Desculpem, n�o veem o sofrimento de Don Giacomo?
Como pode n�o ser infeliz?
Logo, est� irritado com a natureza e com o homem.
E o exemplo de Cristo? E o de S�crates?
Tamb�m o de Silvio Pellico.
As minhas opini�es nada t�m a ver
com o meu sofrimento pessoal!
N�o atribuam ao meu estado
o que se deve somente ao meu intelecto!
E se isto os apaixona,
dediquem-se a destruir o meu racioc�nio,
ao inv�s de acusarem a minha doen�a!
Me d�o licen�a?
Adeus.
Conde...
Fa�a-me um favor.
Se encontrar aquele terr�vel Starita,
recorde-o de que est� atrasado
mais de dez dias nos seus pagamentos.
Assim ser�, adeus.
Adeus.
Sente-se um momento.
Obrigado, caro Margaris, meu bom padre grego.
Pode parar com isso? Se estragar, n�o posso cozinhar!
Giacomo!
Olha para esta mesa.
Coloc�vamos aqui o pres�pio quando eu era pequeno.
Viu os colch�es? Verdadeira l� tunisina!
S�o muito suaves, a m�e gosta muito deles.
Mandei traz�-los para aliviar a tua dor de coluna.
Obrigada!
P�s os pap�is do Giacomo num local seguro?
- Certamente, est�o no ba�. - Comece a copi�-los.
N�o devemos deixar nenhum de fora.
"Esta colina solit�ria sempre me foi querida"...
E com todas essas Fannys, Tereses, Tereselles, Gertrudis,
ser� que esse teu amigo
nunca comeu nenhuma?
J� te disse, � virgem.
Est� bem.
Traga-o aqui. N�s cuidamos dele.
Sim, mas tem de trat�-lo bem
e diga isso tamb�m �s outras.
Ele � doente, muito doente.
E n�o devem gozar com a corcunda dele, lembrem-se.
N�o se preocupe, conhecemos o sapo,
de todas as vezes que o vimos passar!
Ele � poeta.
E devem dizer-lhe: "s'agap�".
- S'agap�... - S'agap�.
� uma palavra grega.
� tarde.
Cuide-se.
Que a Virgem te acompanhe!
- Meu senhor Conde, Sr. Ranieri! - Boa noite.
Ora, refresca e consola, almas belas, almas santas,
eu estou s�, voc�s s�o tantas...
Querida cabecinha.
Est� aqui embaixo.
Antonio, n�o sei se...
N�o se preocupe, elas sabem tudo.
Vai l� e escolhe a que gostar mais.
Vai!
Eu espero por voc� aqui.
Olha onde vai o corcunda!
Entra!
Anda, sente-se!
N�o v� ali!
Vem c�! Aonde vai?
Vem.
S'agap�!
Eu, cara irm�, morro de melancolia
quando penso em todo o tempo que passei sem te ver.
S�o coisas que se dizem de brincadeira
e eu, rindo, digo a voc�.
Quando voltar a me ver,
n�o faltar�o contos e est�rias
para te manter contente
por muitas semanas, � noite.
Adeus.
Adeus...
Assina,
et cetera.
Gostaria de voltar a Recanati?
Sim,
gostaria
de fugir destes canalhas
e Pulcinellas.
Nobres e plebeus, n�o �?
Todos ladr�es e bar�es de merda,
bastante dignos do espanhol e da forca.
Certo,
a sua irm� adoraria rev�-lo.
Mas ela n�o poderia vir aqui?
Pobre Paolina,
nunca casou
e nunca saiu de Recanati.
Brinc�vamos, quando crian�as.
Eu era prepotente
e o Carlo se zangava,
mas ela estava sempre ao meu lado.
Que estranho, deixar uma irm� Paolina
na minha pequena vila, nativa e atrasada,
e encontrar outra irm� Paolina, nesta grande cidade de N�poles.
Por que est� sempre aqui?
N�o se cansa de acudir a um inv�lido,
que normalmente est� de mau humor?
Quando o ou�o falar com o meu irm�o
sobre filosofia, literatura,
e todas essas coisas belas e importantes,
o meu esfor�o � pago.
E quando o Antonio n�o queria voltar a N�poles, para estar consigo,
jurei que se ele o trouxesse aqui,
o ajudaria a estar ao seu lado durante toda a vida.
Ama-o tanto assim?
Sim, muito.
INSTRU��ES PARA DEFENDER AS CIDADES DA C�LERA
Vamos, n�s conseguimos!
Pepp�, estamos quase l�!
Quem tiver mortos, traga-os para fora!
Os mortos!
Atirem os mortos!
Que a morte vos leve! V�o-se embora!
Quem tiver mortos, traga-os c� para fora!
Esperam em v�o, morreram todos!
Perdemos a corrida!
V�m? Acabaram-se os reinados ou imp�rios!
N�o haver� mais guerra e os anos parecer�o todos iguais,
como um ovo ou outro.
E n�o saberemos qual � o dia do m�s,
porque n�o ser�o impressos mais nenhum almanaque ou calend�rio!
Certamente a lua n�o perder� o seu rumo por causa disso!
E assim, passaremos todos por jovens
e quando formos muito velhos,
n�o estaremos � espera da morte de um momento para o outro!
Cuide-se!
O que quer?
O Conde est� � minha espera.
Espere aqui fora.
O m�dico diz que precisa descansar. Acha que deve receber visitas?
Antonio, eu recebo quem quiser.
N�o se meta nos meus assuntos. J� te disse isso muitas vezes.
Fa�a como quiser.
Entra.
Desinfete as m�os.
Est� escrevendo a hist�ria dos ratos que fazem guerra �s r�s?
Sim e com caranguejos!
Mas sabe quem ganha?
O rei dos ratos, o Come-Presunto, lembra?
Morreu.
Agora o Primeiro-Ministro, o Conde Lambe-Cus,
foi for�ado ao ex�lio e vira-se para o mundo dos mortos
para aconselhamento, ao submundo dos ratos.
O que lhe dizem os mortos?
Desatam a rir!
Quando o flagelo nem sequer se manifestava,
eu disse que era a ira celeste
e os convidei a se arrependerem,
os incitando a se refugiarem na ora��o,
na miseric�rdia, o �nico ref�gio, a �nica solu��o para a esperan�a.
Ave!
Virgem Maria, me aceite nos teus bra�os!
Virgem Santa, me conceda a gra�a!
Antonio, � in�til, ele se recusa a trocar de roupa.
Don Antonio, n�o sei a que santo orar.
Na tua condi��o, n�o pode usar
a mesma roupa durante v�rios dias.
Tem de se lavar.
N�o consigo, tenho muitas dores.
Vamos sair daqui.
O nosso amigo Ferrigni deixou-nos a sua casa, � lind�ssima.
E ouviu os m�dicos: nenhum suco de cebola ou diur�ticos
se compara ao ar de um dia em Torre del Greco.
N�o aguentaria outra mudan�a.
J� mudamos de casa muitas vezes.
Al�m disso, Torre... N�o se pode fazer nada, Torre!
O meu mal � dos nervos!
Ouviu o m�dico com os teus pr�prios ouvidos.
"Senhor Conde, o diagn�stico faz o m�dico, n�o o paciente!"
Ele disse muitas vezes, n�o � uma quest�o de nervos!
"O senhor deve ir para Torre", foi o que ele disse.
"Se quiser. Se n�o, fa�a como quiser".
Vou pegar c�lera, se sair.
Talvez.
Mas Mannella foi claro.
Entre o medo da c�lera, se sair,
e o hidrot�rax, se ficar, a primeira � uma d�vida,
e a segunda, uma certeza.
Don Giacomo, bom dia.
- Que horas s�o? - S�o tr�s.
Disse que queria comer �s quatro
e pensei que fosse melhor acord�-lo um pouco mais cedo.
Obrigado, Pasquale.
Ainda bem que escolheu s� alimentos que lhe fazem bem � sa�de.
Certo, significa que quer viver.
Mandei-o a N�poles buscar p�o e taralli.
Foi uma imprud�ncia! E se voltar infectado?
Virgem santa!
� in�til, ele n�o gosta do p�o daqui
e comeu os taralli um atr�s do outro.
- Tamb�m quer sorvete. - Isso tamb�m!
A Fanny me escreveu. Te sa�da.
Tamb�m te envia cumprimentos da Giordani.
Certamente, aquela mulher diz coisas que...
Diz que as pessoas morrem de c�lera em N�poles por causa da pobreza!
� o que pensam de n�s em Floren�a.
Nos veem como selvagens.
Como se em Londres ou Paris n�o fossem mais pobres.
A inveja dos forasteiros s� � igualada
pela imbecilidade dos que nos governam.
"Vejo uma outra gata, parece um pouco maior que a menor.
Oh, os gatos, lanternas do meu estudo...
Oh, gatos amados,
se Deus vos salvar de uma surra,
se os c�us vos oferecerem carne e leite,
deem-me luz para escrever este poema".
Aqui na �rida encosta
do pavoroso monte, o destruidor Ves�vio,
a que n�o alegra outra planta ou flor,
as tuas moitas solit�rias vertem,
perfumada giesta, contente com os desertos.
A estas plagas acorra aquele que exaltar com loas a nossa condi��o,
constate aqui pintados, vivos,
est�o da gente humana "destinos de grandeza e progressivos".
Que nobre natureza essa que a erguer se atreve os olhos mortais
contra o comum fado
e que com franca l�ngua, dizendo s� verdades,
confessa o mal a n�s dado por sorte,
e ordenada desde sempre a humana companhia,
como entre si confederados julga os homens
e os abra�a com verdadeiro amor,
ofertando e esperando vital e pronta ajuda
nos perigos diversos e na ang�stia
da guerra que sustentam.
N�o raro, nesta plaga, que, desoladas,
veste de escuro a lava e que, parece, ondulam,
sento-me � noite, e sobre a erma charneca,
em pur�ssimo azul, contemplo no alto o flamejar das estrelas,
�s quais serve de espelho o mar,
e de cintila��es em torno
faz no ar sereno reluzir o mundo.
Se os olhos para a luz eu aponto
parecem-lhes um ponto, e s�o imensas,
tanto que, comparando, um ponto
s�o a terra e o mar, de fato;
e o homem, n�o s� ele, mas este globo onde o homem � nada,
desconhecido � todo;
e quando miro
aqueles mais remotos infinitos e quase n�s de estrelas,
que nos parem n�voa,
ao pensar meu, o que �s ent�o,
� ra�a do homem?
Depois de longo esquecimento
a extinta Pompeia, como um esqueleto sepultado
e no terr�vel da profunda noite, pelos teatros vazios,
pelos templos sem forma e pelas rotas casas,
onde o morcego guarda as crias,
como sinistro facho que por ermos pal�cios, negro gira,
corre a fulg�ncia da fun�rea lava
que de longe, entre sombras, de tons vermelhos
tinge tudo em torno.
E tu, lenta giesta,
que com matos cheirosos adornas estes campos despojados,
tamb�m tu, em breve,
sucumbir�s � cruel pot�ncia do subterr�neo fogo,
e curvar�s
sob o peso mortal, n�o renitente, a cabe�a inocente...
Legendas: Raquel Santos Ripadas por: RicardoB/2017
Revis�o Pt-br e sincronia: Kleen
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