All language subtitles for Le.Bassin.de.J.W.1997.1080p.AMZN.WEB-DL.DDP2.0.H.264-TEMHO

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Original subtitles

"Sonhei que John Wayne mexia maravilhosamente

"a bacia no Pólo Norte”.

Que o movimento se faça,

pois o descanso corrompeu-nos!

Quero ainda empreender uma manifestação,

correndo o risco de me dispersar

e perder

na massa bruta!

Olhai!

Além,

entre Marte e Vénus,

permanecem ainda devolutos

alguns miriâmetros do meu domínio.

Quero criar ali um mundo novo

que sairá do Nada

e ao Nada regressará, um dia,

As criaturas que nele viverem,

julgar-se-ão deuses como nós...

e dar-nos-á prazer

observar os seus combates e vaidades,

O mundo da loucura

seja o seu nome!

Que tem a dizer sobre isso o meu irmão Lúcifer

que partilha comigo...

esses domínios ao sul da Via Láctea?

Senhor, irmão,

o teu desígnio malévolo implica sofrimentos e desgraças.

Abomino a tua ideia!

E vós, Anjos, que dizeis do meu propósito?

Que a vontade do Senhor seja feita!

Assim seja!

Ai de quem esclarecer os loucos da sua origem e missão!

Ai de quem chamar mal ao bem e bem ao mal!

Ai de quem fizer luz das trevas e trevas da luz!

Ai de quem tornar doce o amargo e amargo o doce!

Intimo-te a comparecer no tribunal do Eterno.

Cá fico à espera!

Estas regiões são visitadas pelo Eterno de dez em dez miríades de anos.

Estás convencido que o vais encontrar amiúde?

Irei dizer a verdade aos homens para aniquilar os teus projectos.

Maldito sejas, Lúcifer,

E que o teu assento seja abaixo do mundo das loucuras,

para veres os tormentos deles, e que os homens te chamem Maligno!

Vencerás porque és forte como o Mal!

Para os homens serás Deus, tu, o caluniador, Satanás!

Abaixo o revoltado!

Em frente,

Miguel, Rafael, Gabriel, Uriel!

Vergastai, Samael, Azarel, Meazael!

Soprai, Oriães, Paimão, Egino, Amémão!

- Nunca tinha reparado naquela árvore,. - Aquela árvore foi-nos proibida,

- Quem proibiu? - Deus!

Qual Deus? Deuses há muitos!

Quem fala?

Eu, Lúcifer, o Portador da Luz

que deseja a vossa felicidade e sofre com os vossos sofrimentos.

Olhai a nova estrela da manhã que anuncia o regresso do sol!

É o meu astro, com um espelho sobrejacente

que reflecte a luz da verdade,

Na plenitude dos tempos, OS Seus raios,

guiarão os pastores de um certo deserto até à manjedoura,

onde nascerá o meu filho, o redentor do mundo,

Quanto a essa árvore se lhe comerdes o fruto,

ficareis conscientes do bem e do mal,

Sabereis então que a vida é um mal, que não sois deuses,

que o Maligno vos cegou

e que a vossa existência só serve para fazer rir os deuses.

Comei e tereis o dom da libertação das dores,

a alegria da morte!

Quero saber e ser libertada!

Come também, Adão!

Ai de nós! A nossa alegria findou.

O que aconteceu?

Lúcifer revelou os vossos actos aos habitantes da terra,

Sabem tudo e são felizes.

Felizes!

Ai deles!

Além do mais deu-lhes o dom da liberdade,

Assim, podem regressar ao Nada,

Morrer! Pois bem!

Que se propaguem antes de morrerem,

Que o amor se faça!

Desde que o amor chegou ao mundo o meu poder acabou,

Libertado por Caim, Abel procriou com a irmã.

Quero libertá-los a todos!

Águas, mares, fontes, rios...

vós que sabeis apagar a chama da vida,

subi! Exterminai!

Ai de nós! A nossa alegria findou.

O que aconteceu?

Lúcifer soprou sobre as águas; estão a subir e libertam os mortais.

Bem sei!

Mas acabo de salvar dois dos menos esclarecidos

que nunca saberão a palavra do enigma.

O barco deles poisou no Monte Ararat

e ofereceram holocaustos.

Entretanto, Lúcifer deu-lhes uma planta chamada vinha

cujo sumo gera a estupidez,

Uma gota de vinho e hão-de ver o que é,

Insensatos!

Não sabem que dotei essa planta

de estranhas virtudes:

a loucura, o sono

e o esquecimento.

Graças a ela, nunca hão-de saber o que viram os seus olhos.

Ai de nós! Que andam além a fazer os néscios habitantes da terra?

Constroem uma torre e querem tomar o céu de assalto,

Lúcifer ensinou-os a fazer perguntas.

Seja!

Hei-de refrear-lhes as línguas,

de molde a que as suas perguntas permaneçam estéreis

e mudo

o meu irmão Lúcifer!

Ai de nós!

Lúcifer enviou aos homens o seu filho único

para lhes ensinar a verdade,

O que é que ele diz?

Nascido de uma virgem, esse filho diz ter vindo para libertar os homens

e, através da sua própria morte, pretende abolir o pavor da morte.

E que dizem os homens?

Uns dizem que o Filho é Deus, outros que é o diabo.

E o que entendem eles por diabo?

Lúcifer!

Arrependo-me

de ter criado o homem na terra,

Tornou-se

mais forte do que eu

e já não sei

dirigir essa multidão de loucos e estúpidos.

Amaimão,

Egino, Paimão, Oriães,

livrai-me deste fardo,

Precipitai o globo ao sabor dos abismos!

Que a maldição caia sobre a cabeça dos rebeldes!

E pespeguem na fronte do planeta maldito o patíbulo,

sinal de crime, castigo

e sofrimentos.

Senhor!

A vossa cruel vontade e a palavra proferida produziram efeito!

A Terra desmorona-se na sua órbita;

as montanhas desabam, as águas inundam a terra;

o eixo do mundo aponta para o norte, o frio, as trevas;

a peste e a fome devastam as nações;

o amor transformou-se em ódios mortais,

a piedade filial em parricídio, Os homens julgam-se no inferno

e vós, Senhor, estais destronado!

Muito bem!

Socorro!

Arrependo-me de estar arrependido!

Demasiado tarde!

Tudo segue o seu curso desde que desencadeastes as forças.

Estou arrependido!

Depositei as centelhas da minha alma

em seres impuros

cuja fornicação me avilta tanto como a esposa

que conspurca o esposo ao conspurcar o seu próprio corpo.

O velho delira!

A minha energia esgota-se quando eles se afastam de mim,

a sua iniquidade contamina-me

e sou atingido pela loucura da minha progenitura.

Que mal fiz eu, ó Eterno?

Tende piedade de mim!

Porque ele amou a maldição,

que a maldição caia sobre ele,

E porque não se deleitou com a bênção,

que a bênção se afaste dele.

Que loucura!

Senhor, Eterno,

entre os deuses não há um só deus que seja semelhante a ti

e as tuas obras são incomparáveis

porque tu és grande e operas coisas maravilhosas.

E só tu és Deus.

- Só tu! - Loucura!

Assim vai o mundo:

Quando os deuses se divertem, os mortais abusam!

Nietzsche morreu, Deus.

Deve deduzir-se que Strindberg não era um homem realmente cultivado

e, conseguintemente,

mesmo que tivesse conhecido o seu quase contemporâneo Freud

teria provavelmente reservado à psicanálise

o mesmo tratamento que à religião.

Há em Strindberg um fundo de má cultura, embaraçosa e repugnante

que há em certos autodidactas.

De resto, lendo "Inferno",

tem-se a impressão de estar perante a escrita de um homem genial

mas não de um grande escritor,

A sua habilidade extraordinária tem algo de demasiado fluído e impetuoso

que é característico da tagarelice fascinante dos talentos

que são um pouco exteriores à cultura real e, logo, à realidade,

Ao mesmo tempo que a admiração pela "forma" extraordinária deste diário

e por estas páginas tão livres, tanto nas descrições

como nas súbitas e surpreendentes considerações morais,

só podemos sentir mais piedade que pena deste desgraçado

que passa pelos mais elementares e comuns sofrimentos

da loucura clínica, Insónias, sensações de sufoco,

impressões de descargas eléctricas no corpo,

obsessões de zumbidos na cabeça,

medo de ser perseguido e morto por forças ocultas

ou por desgraçadas pessoas reais,

penosamente rebaixadas ao papel de assassinos, etc.

A isso deve juntar-se a mania da alquimia,

a pesquisa medieval do fabrico do ouro em laboratório!

A preparação científica de Strindberg era notável,

As suas páginas sobre os insectos, as aves,

os minerais, as flores, são belíssimas.

Com certeza, É por causa deste dilacerante sentimento de mágoa

que não se pode ler esta obra como uma obra literária,

nem sequer como um documento.

A loucura de Strindberg está patente diante dos nossos olhos,

nua e horrível, na sua banalidade fatal

que faz de Strindberg um louco igual aos outros.

Não há nada de mais estereotipado que a loucura.

O livro consiste - como, imagino, a experiência que se tem,

vivendo quotidianamente com um doente mental -

numa série de recuperações e recaídas.

Não há uma página lúcida, inteligente,

animada por um humor pós-romântico,

de cunho pessoal e delicadamente maniaco,

que não seja seguida por outra que nos deixa espantados

e onde a loucura, que parecia sumida como um pesadelo,

não ressurja terrivelmente igual a si própria.

Irremediável,

Então, conseguiram chegar a acordo sobre esta introdução ao "Inferno"?

Qual inferno, meu querido?

O do céu, claro.

Queres vir até lá a casa?

Obrigado, mas ainda tenho que fazer.

Acha que o ser humano pode viver sem religião?

É fácil para a classe superior que tem meios de subsistência.

Para a classe inferior, que luta pela existência

numa angústia permanente, é mais difícil,

Quando Numa Pompilius viu que corria o risco de perder as suas concubinas

tornou-as sagradas e chamou-lhes vestais.

Quando Voltaire viu que os seus escritos não estavam em lugar seguro,

escondeu-os em casa de um paroquiano.

Dado que é preciso dar uma religião ao povo, demos-lhe o ateísmo,

Mas não é preferível dar à classe inferior

meios de subsistência em vez de uma religião?

Sim, é preferível,

Refastelada, a classe superior censura a classe inferior,

que morre de fome, por só pensar em comer.

E a classe inferior aceita a censura sem reagir.

E o que é a política?

A política é a arte de governar ou a arte pela qual

a classe superior mantém a classe inferior sob o seu jugo.

Por política entende-se também um comportamento pérfido,

E a política estrangeira?

É a cooperação entre as classes superiores das várias nações.

A classe superior teve a esperteza de guardar para si

as pastas dos Negócios Estrangeiros

e as negociações são mantidas secretas.

É por isso que o Parlamento devia precaver-se nessas nomeações

e decidir as relações com as potências estrangeiras.

Os embaixadores e cônsules são esbirros da classe superior.

No estrangeiro, quando nos relacionamos com as gentes do país,

informam-se da nossa identidade na embaixada ou no consulado,

A resposta determina o acolhimento que nos será reservado,

Quem é amigo da classe inferior é considerado um indivíduo suspeito,

E o senhor, é amigo de quem?

Então, Max, ferramos o galho?

Quem é o senhor?

Sou Lúcifer, o portador de luz.

Já que assim é,

sou o Demónio, portador de colhões!

Encantado,

Vai um copo?

Acompanho-te, mas bem sabes que não posso beber, Max.

Max?

Há aí um mal-entendido,

Tive um cão que se chamava Max.

Eu chamo-me Henrique.

Pára com as tuas duplas identidades. Chamas-te Max Monteiro!

Se isso te diverte

não nos vamos zangar

por isso,

embora eu já seja velho de mais para um novo baptismo.

E tu, como te chamas?

Chamo-me Jean de Dieu,

Henrique, o Navegador?

Não tenho nada que ver com esse idiota místico dos oceanos.

Sou apenas um velho lobo-do-mar na reforma.

Se quiser pode ver os meus papéis. Estão em ordem.

Os chuis gostam de os examinar.

Se me diz que não é Max Monteiro...

Quem é esse tipo?

Uma sombra ligeira?

É o actor que representa o papel de Deus.

Aprendi que Deus não representa comédias.

Há quanto tempo representa comédias?

- É uma peça de teatro, - Não conheço.

Mas é incrível! Não acredito no que vêem os meus olhos!

Parecem-se como duas gotas de água!

Julgava que era um ser singular.

Sejamos razoáveis, Se você não é o Max, então quem é?

Já lhe disse,

Nesse caso, o que faz aqui?

Vagueava por aí, vi o bote e disse:

E como suportou o bombardeamento sobre a Terra?

Sem rancor, embora nunca tenha sido colaboracionista,

Adoro dormir,

Se quiser pode ficar, mas isto faz parte do cenário,

É tudo uma questão de cenário.

Mudar de cama, mudar de corpo...

Para quê?

Artistas! Sim senhor! Nunca pus os pés num teatro,

Prefiro o cinema, é mais popular.

O meu Ídolo é John Wayne.

Já o era na minha meninice.

Cresci com ele. Passámos muitas coisas juntos.

Já não há actores daquela fibra.

Talvez tenha razão,

mas o que é que o fascina nele de modo tão veemente?

Não sei... Tudo,

Era o alvo preferencial de toda a gente.

Talvez dos Peles-Vermelhas, não digo que não,

mas não me parece que fosse esse o seu traço mais característico,

Acho que, fundamentalmente, é o guerreiro de todas as guerras,

o deus Marte do Olimpo cinematográfico,

Em minha opinião, era o alvo preferencial de toda a gente,

o bode expiatório que é preciso eliminar a todo o custo.

A guerra é uma consequência e uma provação

que lhe é permanentemente imposta,.

E agora, se me permite,

devo partir, Vou fazer uma longa viagem.

E para onde vai?

Para o Norte, jovem,

sempre para o Norte,

Farejo por toda a parte.

Primeiro, um pequeno desvio.

Depois, ver-se-á,

Aconteça o que acontecer, nunca se sabe,

quero acabar no Pólo Norte.

No Pólo Norte?

Sonhei

que John Wayne

mexia maravilhosamente

a bacia no Pólo Norte.

O pélvis humano

foi-se alargando e arredondando com a evolução da espécie

porque era essa a configuração que melhor se adaptava

à marcha bípede

e à protecção dos órgãos internos regionais.

Na mulher, a abertura pélvica,

regra geral, é maior para facilitar a passagem dos nascituros.

Considerando a singularidade estrutural do pélvis humano

com o seu conjunto de seis ossos fundidos numa só massa

no esqueleto adulto,

não resta a menor dúvida

que a bacia do indivíduo John Wayne

possuía características particulares e determinantes

para o seu modo de caminhar,

de balançar o corpo, etc.

A partir daí é possível

enumerar um conjunto de atributos

que são apanágio da personagem:

gravidade, perseverança,

inflexibilidade, temperança,

serenidade, contenção, destreza.

Em suma, tudo o que o velho cinema americano, como nenhum outro,

exerceu através de uma longa disciplina física

e soube converter numa auréola mítica,

infelizmente desaparecida.

Eu acho que John Wayne se mexe de um modo maravilhosamente sensual

e impertinente,

Não percebo onde queres chegar.

É como se alguém

talhado para possuir a imutabilidade de um deus,

pelo simples facto de se mexer,

ao mínimo gesto,

reencontrasse os traços humanos que lhe foram negados.

É o combate de Prometeu e, nesse sentido,

concordo com o marinheiro português.

Wayne é o homem a abater,

A sua bacia é demasiado insolente.

O seu ritmo desperta ritmos

demasiado sagrados para o concerto do mundo,

O que eu sei é que, de repente, quase sem querer,

dei comigo a estudar os ossos da bacia.

Era uma época insensata, Tinham posto os mortos à mesa.

Era melhor teres comprado um lindo par de cuecas

e oferecê-las à primeira desconhecida que despertasse em ti

um desejo irreprimível,

Minha boa menina, quero embelezar a sua bacia

com o utensílio mais belo e confortável de França.

Pobre rapariga.

No fundo, o Paul é um velho sentimental

que atravessa neste momento aquele mau período

que ataca a maioria dos velhos sentimentais:

não saber onde colocar os seus sentimentos,

o que explica alguns investimentos ruinosos no ramo da roupa interior.

Tens a certeza que não foi mais uma judiaria do Max?

Absoluta. Falei esta manhã com a mulher., Foram para casa

e, segundo me contou, ainda está a cozer a bebedeira.

Nesse caso, podias contratar o marinheiro

e pô-los a representar juntos uma comédia de Plauto.

Não seria mau,.. Max e o seu duplo.

Aposto que já levantou a âncora.

Levantou a âncora e não tem nenhum velame,

De qualquer modo, não há-de ser difícil encontrá-lo no Pólo Norte!

Sais, metes pela primeira rua à direita,

pela seguinte à esquerda

e é sempre a direito, Não há que enganar!

Ele falou-me noutro percurso.

Eu inclino-me mais para o hospício.

No Pólo Norte faz um frio de rachar,

Mesmo que seja doido varrido, o nosso homem sabe, apesar de tudo,

que no Pólo Norte não há John Wayne que lhe valha,

que só as focas mexem maravilhosamente a bacia

e, tomado de súbito bom senso, decidiu anular o seu sonho

e regressar a penates, - Então não se fala mais nisso.

Morro de impaciência, Enquanto fico à espera do fim da história,

vou assar uma raia no forno,

Era uma época insensata Tinham posto os mortos à mesa

Os lobos julgavam que eram cães.

Jean,

Tudo o que ouviste ao nível da escrita,

"Inferno"..

...achas que a coisa vai resultar? - Absolutamente.

Perfeito.

E encontraste a Ariane?

É difícil.

Bastante,

Quero dizer...

Enfim, vamos continuar, Acho que tenho ideias muito boas.

Conto contigo para me encontrares uma.

Quero alguém que não seja actriz. Alguém que tu reveles,

Uma portadora de luz.

Que não seja luciferina, nem angélica,

nem arcangélica. Uma mulher. Ariane.

A que se deixa na orla, no porto,

num rochedo, porque sabemos onde está,

Podemos sempre reencontrá-la,

É isso o fio da vida. É a mulher.

É o amor. É também o whiskey.

Não. Falemos a sério.

Porque deixaste de beber, Jean? Vejo-te sempre triste

quando não bebes.

Tens razão... O corpo zanga-se...

Sr. Jean de Dieu!

Não posso crer! Quando se fala no lobo vê-se-lhe logo a cauda!

É o mundo que é pequeno, Sr. Jean.

Quando temos de nos encontrar, encontramo-nos sempre,

mesmo quando a operação de câmbio não é muito favorável.

É verdade, mas tem graça. Julgávamos que já ia a caminho.

Instalei-me numa pensão perto daqui,

bastante limpa, aliás. Sem parasitas.

Mas vejo que não perdeu o seu tempo. Está em vias de aparelhar o navio?

Isto?

Bagatelas.

Que canção é essa?

É o fado do português enganado,

Isso não explica o seu apetite migratório pelo Pólo Norte.

O Pólo Norte?

Até no Pólo Norte precisamos de frigorífico,

Claro,

Para congelar o peixe ainda é o melhor que há,

"Rio Bravo",

"The Searchers",

Persegue-me por toda a parte.

Sou português, vai devagarinho.

Doem-me os pés, vens de carrinho!

Um cantinho de guarda-chuva...

Contra um cantinho de paraíso

Ela tinha qualquer coisa de anjo.

Acorda sempre assim tão inspirado?

Chamas a isto inspiração?

Eu chamar-lhe-ia antes evacuação!

Queres partir para morrer?

É mau falar de mais.

Acho que estou a meter o nariz onde não sou chamado,

Sou bastante velho para só criar raízes onde assento o cu.

Se me puser na alheta é para guardar intacta

a esperança de acabar a vida sem que ninguém me chague a pavana.

Achas-me com cara de quem vai saltar da Torre Eiffel?

Mas sofres de alguma doença grave?

Que eu saiba não.

Então são os tormentos da alma,

a cabeça a zumbir e que já não suportas,

ao ponto do seu peso se tornar atroz?

Estás a falar de quê, de quem?

Como adivinhaste?

Não adivinhei nada.

Deixo-me guiar pelas estrelas.

- Que também eu queria... - É verdade?

Não suspeitei de nada.

Tem graça. Estava a pensar num velho filme.

No Pólo Norte, um terrível gigante devora os exploradores.

Aqui, infelizmente, não somos comestíveis. Somos condenados.

Não penses no Pólo Norte.

Se pensas no Pólo Norte, não vais a lado nenhum.

Nem sequer ao Pólo Norte.

Vai direito ao assunto. Pensa nas águas do rio,

São a única cinematografia ao teu alcance.

Boa viagem!

Deixa-me acabar esta beata que já vou ter contigo.

Está gelada,

Morrer, sim, mas não de frio,

Morrer, sim, mas devagar.

Isto aquece-te por dentro.

Não posso beber.

O quê? Vais ficar com a pança cheia de água merdosa

e recusas-te a beber um gole de whiskey?

O que custa é o primeiro passo,

Depois irás em beleza,

Não te acagaces.

Quando formos, impassíveis como reis, à tona de água

dir-te-ei tudo sobre a bacia de John Wayne.

Começo a contagem decrescente,

O conta-gotas não é o meu género,

O ar do rio abriu-me o apetite,.

Estou esganado com fome.

Caga nisso.

Caga nisso, porra! Não estamos aqui para sofrer.

Percebi logo que o teu estado de espírito não era o mais propício.

Vamos dar uma passeata e depois logo se vê.

Eu também tenho a barriga a dar horas.

Que estás a fazer? Estás doido?

Vamos embora, Jean... Fim da pátria... Fim da pátria,

Não passa de uma velha mascarada,

Os instigadores passaram a ser democratas.

Ó, homem!

Eu dormi

Eu dormi

O mundo é profundo

E mais profundo Que o dia o imagina.

Não são os eflúvios da maresia que me sobem às narinas.

Cheira-me a cona... Salta colhão.

Avançar, avançar, rico caralhão.

Porquê esse delírio?

Quero dar uma queca!

- Era só o que faltava! - Não espantes a lebre.

Henrique, sê razoável, Não é oportuno.

Estás redondamente enganado.

Vai foder onde quiseres, mas não em cima da mesa,

Atua mesa...

Julgavas que la esvaziar aqui os colhões?

Isso é que era bom!

Amigo não empata amigo.

Vou num pé e venho no noutro.

Já não aguentava este formigueiro na ponta do caralho, Jean.

Como é que te chamas?

Vem,

E tu, como é que te chamas?

Queres champanhe?

O que aconteceu?

São os riscos da profissão.

Toma o teu dinheiro.

Não percebo nada desta cagada.

São putas

e não querem pôr a cona a trabalhar!

Toma o teu dinheiro.

No meu tempo, as mulheres diziam:

"Que belo membro!"

Orgulhavam-se

de o enfiar até ao fundo da cona

e berravam:

"Anda, filho! Mete, mete!"

Que noite de pesadelo!

O caralho

é o lavrador da natureza.

É de madrugada

e estamos cansados, São horas de recolher,

Reconheço que não foi uma noite fácil.

O portão está fechado a cadeado.

Somos mortos sem licença.

É melhor irmos morrer para outro lado,

De acordo,

Somos os rejeitados do molhe.

Olha... caranguejos.

São dos de comer.

Esplendores e misérias de um burro,

Que raio de aparição é esta? És mesmo tu, Henrique?

Não. Sou o Max.

Tive chatices em casa,

Surpreendi a minha mulher

nos braços de um sacanóide,.

Corno, vá que não vá, mas anfitrião, nunca.

É bem feito! Não podes ver uma burra de saias.

Tens a mania que és um fauno!

Sou um fauno triste,

Desta vez, a minha mulher espetou-me o corno no coração.

Estou a sofrer.

Sim,

estou a sofrer,

São coisas que acontecem,

Bem sei,

Mas custa a digerir.

A lamúria do pobre Max.

Quero visitar uma mulher estrangeira.

Quero desvendar os enigmas do homem.

Desato os laços das minhas botas.

Procuro no homem e procuro na mulher.

Da face das mulheres apago as rugas.

Caminhei ao longo da margem gelada

e as focas sopravam dentro dos buracos.

Deslumbrado, escutei o canto do mar

e o límpido queixume dos gelos novos.

E, agora,

um espírito antigo faz jorrar a força

na casa das danças.

Já encontraram o corpo?

Não,

mas espero que o rio o tenha levado misericordiosamente

para as águas mais vastas do velho oceano,

Mas, se ele estivesse aqui, imagino-o a dizer-nos:

"Olhem o mar.

"Com um pouco de sorte ver-se-á o morto que passa...'

Talvez mesmo até ao Pólo Norte

para que, postumamente,

o seu sonho delirante se cumpra.

Já não há nada a fazer.

Onde quer que esteja, imagino-o feliz,

Sei que não é fácil, mas não deveria apoquentar-se mais com isso.

Tente distrair-se,

Vá para o Egipto.

Faça a descida do Nilo coma Catarina.

É uma rapariga livre e alegre.

Os crocodilos são o meu sonho

e, além disso, tenho uma casa no Gerês à sua disposição,

É evidente que o desaparecimento de um amigo

não nos deixa indiferentes,

mas não me sinto muito abatido,

Talvez um pouco agitado, um pouco apático,

Não, mas reconheço que me está a acontecer algo de muito estranho.

Tenho vontade de ir para a guerra,

Não tem nada de estranho.

O homem foi feito para a guerra, a mulher para o repouso do guerreiro,

O que é estranho é o despertar em mim de um temperamento guerreiro,

Sonho com fardas

e batalhas de onde saio coberto de glória.

Para alguém que foi objector de consciência

e que sempre teve aversão pelas armas de fogo,

temos de admitir que é bastante misterioso,

Podes alistar-te na Legião Estrangeira!

Tenho um amigo egípcio que é uma sumidade em psicanálise,

Isso não passa na cabeça de ninguém!

Não conheço o Jean, mas não acho que precise desse tipo de cuidados.

Sem esquecer que essas sumidades cobram fortunas.

Ele precisa é de tratar do seu estado geral,.

Uma estadia na montanha fazia-lhe muito bem.

A minha casa está à sua inteira disposição,

Ficaria como em sua casa,

Eu aconselhava-lhe, apesar de tudo, uma visita

e não esse tipo de tratamento idiota.

E se fizéssemos uma visita à tua amiga?

Qual amiga? Não tenho amiga nenhuma,

A menina dos teus sonhos, claro,

O Jean já tem idade para sonhar sozinho.

Os guerreiros estão sempre sós no campo da honra.

- Tens vontade de sonhar sozinho? - Sim e não.

Sim e não?

Desde que a minha mulher me deixou, sinto...

uma certa resistência, Como dizer?

Estás a querer dizer

que não fodes desde que a Carmen te deixou?

Nunca fui um grande fodachim,

mas desde ontem,

sinto um grande frio a entranhar-se no corpo todo,

- Um frio? - Um frio glacial

que, de repente, se condensou à volta da bacia

e a transformou num bloco de gelo.

O que é terrível e surpreendente, ao mesmo tempo

é que ando roxinho de tesão,

É o milagre da visitação amorosa.

É o milagre de Cherubino, meu caro Jean!

Non so piti cosa son, cosa facio...

É o canto do cisne,

Jean, tive um sonho,

Tu e o velho marinheiro vagueavam de noite,

mas no meu sonho iam com uma jovem,

a Catarina, por exemplo,

que conduzia uma carroça amarela puxada por um burro.

Em resumo,

sonhei tanto convosco

que foram perdendo a vossa realidade,

Sob a arcada,

um burro atrelado a uma carroça

onde Ariane,

uma jovem vestida de homem,

vende rosas,

O burro tem as partes genitais escondidas por um balde de plástico,

Quereis rosas?

Prefiro rosas, meu amor, à pátria.

Queremos alugar a tua carroça, meu bom menino.

Impossível, meu bom senhor.

Acabámos por hoje...

e não sou um bom menino.

O meu nome é Ariane.

Não te zangues, Ariane. Estava a entrar contigo.

Não é o primeiro que me toma por um rapaz.

Gosto de me vestir assim,. É bom para este género de trabalho,

Para nós é igual ao litro.

Tudo o que queremos é dar uma volta pela cidade,

Pago bem.

Têm que convencer o Lúcio,

Regra geral, a palha interessa-lhe mais do que o ouro

e hoje fartou-se de trabalhar.

Para trabalho igual, salário igual. Esse é o único problema?

É bem capaz de ser,

mas se pensam que é fácil, tirem daí o sentido.

E é para ir onde?

É para andar às voltas.

Vossemecês regulam bem? É melhor apanharem um táxi.

Queremos por força ir de burro.

Vai-vos custar os olhos da cara,

Henrique, dá uma nota de dez mil escudos

a Ariane,

Não vale a pena exagerar.

Generosidade a mais nunca é inocente,

O Lúcio não passa de um burro, não é nenhum Rolls Royce.

E é por quanto tempo?

Toda a noite, provavelmente.

Toda a noite?

Nesse caso, há que contar com uma ração suplementar de aveia,

mais... em números redondos,

fica-lhe à volta de doze contos.

Parece-me justo.

Henrique dá a Ariane

uma nota de cinco mil escudos,.

Quinze mil, caso chova.

Está bem. Vamos ver o que pensa o Lúcio.

Queres ir dar um passeio interminável, meu querido?

Ariane acaricia o focinho do burro

que, durante esse tempo,

tem a manga do casaco de Jean de Dieu presa nos dentes.

- Caiu-lhe no goto. - O quê?

Ariane diz que o burro está loucamente apaixonado por ti,

Há gostos para tudo.

Jean de Dieu retira discretamente a manga do casaco,

tira do bolso uns cubos de açúcar providenciais

e dá-os a Lúcio.

Este parece agradado com a guloseima.

É francês?

Jean de Dieu faz sinal que sim.

Afinal de contas, acho que estão com sorte.

Quando embirra com alguém não há nada a fazer.

Não há dúvida que não tem nada a ver com o célebre burro de Buridan

que provocou tantas discussões escolásticas, tão inúteis.

Ariane verifica mais uma vez o arreio do animal,

É um burro com piada,

O que é que esconde no balde?

O mesmo que você, julgo eu,

Já não uso fraldas.

Só é obrigatório na cidade

para não urinar na via pública,

- E onde é que fazemos caca? - Na via pública.

Isso prova que as nossas cidades são mais tolerantes com a merda.

Henrique, acompanhado pela sua inseparável garrafa de bagaço,

estende-se, rodeado de rosas.

Jean de Dieu senta-se ao lado de Ariane,

A carroça afasta-se, puxada por Lúcio

num trote rápido que faz soar alegremente os guizos.

A carroça atravessa Várias ruas de Lisboa

até à proximidade de um restaurante.

Vamos de vento em popa. E, com esta música,

só nos falta um cortejo de serafins.

Acordem-me quando chegarmos ao paraíso,

Já lá estás sem dar por isso,

O Lúcio vai mais depressa do que eu pensava,

É um burro veloz. Ainda é novo.

Se os solavancos o incomodam, posso ir mais devagar.

É agradável sentir o vento nos cabelos.

E o seu amigo?

É marinheiro. Está habituado ao balanço dos barcos.

E aos safanões da vida.

- Não se incomodem por minha causa, - Julguei que já estavas a dormir.

Estava a passar pelas brasas. Isso incomoda-te, meu caro Jean?

Absolutamente nada,

Está sempre na Graça?

Quase sempre, faça chuva ou faça vento, É o nosso ganha-pão.

É curioso. Passo muito por ali

e nunca reparei na sua carroça.

Quando se trabalha não há tempo a perder com o trabalho dos outros.

É a era do cada um por si,

do salve quem puder a vida,

O Lúcio é que podia queixar-se,

Tens razões de queixa, meu querido?

Temos estado um pouco por toda a parte.

Os meus país eram muito pobres.

Emigraram e trabalhavam num circo no Luxemburgo.

Morreram quando trabalhavam no trapézio, pouco depois de eu nascer,.

Coisas que acontecem.

É a vida! Mas cá vamos andando,

Senhor, dá a cada um a sua própria morte

e que seja saída desta vida,

O Lúcio e eu conhecemos todos os caminhos do Norte:

Varsóvia, Praga, Budapeste, o Danúbio Azul,

Viena, Paris, Amesterdão e finalmente Berlim,

onde se ganha muita massa, Dá para comprar um puro-sangue!

E porquê toda essa errância, se me permite?

Porque os alemães detestam os burros. Preferem os porcos.

É porque os burros estão em vias de exterminação

enquanto que qualquer um, mesmo um merdoso, pode tornar-se um porquinho.

Henrique canta uma velha canção popular dos anos 40.

- Somos todos judeus-alemães. - Prefiro não compreender nada,

Não há nada para compreender, Quero dizer que, seja onde for,

os tempos são difíceis para os burros.

Têm os colhões muito pretos.

É verdade que nem sempre é fácil, mas tentamos defender-nos como podemos.

Com certeza, Sansão também se defendeu com uma queixada de burro.

Não teve outra saída. Chegou-lhe aos ouvidos que clamavam:

"Morra Sansão e todos os que cá estão!"

Não tem mais família?

Se tiver, nunca a conheci,

Talvez num recanto perdido de Portugal

ou, porque não?... nas Cévennes,.

Quando um burro fala,

o outro baixa as orelhas.

Boa noite e bons sonhos.

Que abelha o picou?

Acho que não se deu bem na marinha.

Não é obrigado.

A única descoberta do Luxemburgo

ficou a dever-se a um grupo de médicos.

Foi um acontecimento de tal modo raro que os luxemburgueses o festejaram

com fanfarras e salvas de canhão.

A grande pompa e circunstância durante três dias e três noites.

Até a própria Grã-Duquesa se dignou a sair da gaiola para...

. inaugurar a placa comemorativa. - Mas o que é que festejavam?

Esqueci-me.

E quando fico amnésico é porque a coisa não tem importância,

Com efeito, o que é que festejavam?

Já sei, Descobriram uma doença psíquica, ao que parece curável,

a que chamaram

a "doença portuguesa",

- Diz-te alguma coisa? - Nunca ouvi falar.

Perguntei por perguntar. Não é grave,

O seu amigo está sempre de mau humor?

Deixe-o falar. Vozes de burro não chegam ao Céu,

Hão-de chegar. Hão-de chegar.

-E o Jean? - Monto peças de teatro.

Uma vez em Berlim,

puseram-me asas de anjo para fazer figuração junto ao muro.

Mas, como não podia deixar o Lúcio sozinho, acabei por recusar.

O desejo de pôr asas...

é girinho.

Pergunta a Ariane se já sonhou que John Wayne

mexia maravilhosamente a bacia no Pólo Norte.

- O quê? - Pergunta se já sonhou

que John Wayne mexia maravilhosamente

a bacia no Pólo Norte.

Claro! Todas as raparigas sonham com isso.

Como?

A caravana passa

e a carroça pára junto do São Carlos.

Os passageiros descem,

enquanto Ariane pendura ao pescoço de Lúcio

um saco cheio de uma ração bem merecida de aveia,

Ariane diz, fazendo festas ao animal:

"Meu lindo burrinho",

Ouve-se uma ária do "Rigoletto" de Verdi.

Muito bem,

Isto vai ser magnífico,

Vamos beber um copo e continuamos.

Agrada-te o Verdi?

Magnífico. Venham comigo.

Brindam a quê?

As nossas personagens estão na sala de jantar do restaurante,

Brindam a quê?

À excelência do nosso horizonte,

Um criado aproxima-se da mesa com um prato.

A negociar oportunamente com a gerência,

Um horizonte bem carnívoro!

O "bom apetite" formal que abre a refeição

não deixa prever a substancial gula dos convivas.

Henrique aponta para as mitenes de Ariane.

Tira as tuas luvas, petiza, Não estás a dar o biberão ao teu burro.

Ariane esconde as mãos.

Tenho frio nas mãos. É da má circulação,

- É porque tem o coração quente. - Coração de vento,

Passas-me o sal, Ariane?

Para o criado: Mais uma garrafa.

Vocês são insaciáveis. Benza-os Deus!

Hoje, não sei porquê, estou faminto como um lobo,

E vossemecê come e bebe sempre assim?

- Quando tenho apetite. - E tem esse apetite muitas vezes?

Depende dos dias.

Quando gosto do que estou a engolir

não costumo fazer-me rogado.

Chamo a isso tirar a barriga de misérias.

- Como se explica que seja tão magro? - Não se explica.

Dizem que os magros têm uma vida interior muito intensa,

Disseram-me que tinha a bicha-solitária

mas nunca consegui apanhá-la,

Sabes como se apanha? À unha.

Ensopa-se um naco de pão no caldo

ou em qualquer coisa gordurosa...

Azeite, molho bechamel, gelado de baunilha, o que quiseres...

Em seguida,

enfia-se o isco,

bem embebido no olho do cu,

e espera-se pacientemente que o verme morda,

Por fim, retira-se com todo o cuidado

para que a extracção do parasita seja integral

e não arranhe a pele do cu.

Até hoje a única coisa que saiu do meu cu

foi merda.

Merda e furacões.

Vossemecê é repugnante. Tirou-me o apetite.

Belo tema para uma refeição. Acho que também não consigo comer.

Estás muito sensível, Em que página vão?

Sessenta,

E poupei-vos as lombrigas, mas esses vermes fazem parte da minha infância.

Saíam-me por todos os lados, até pela boca e pelo nariz,

para não voltar a falar do meu pobre cu.

Cale-se, Henrique, senão vomito.

Não sabia que tinhas um estômago tão delicado.

Demasiado delicado para quem cheira a burro.

Eu não cheiro a burro.

Cheiro a burro?

Ariane deixa-se cheirar por Jean de Dieu,

- Ariane não cheira a burro. - Gosta?,.. É o meu odor natural.

É um perfume inebriante,

Transporta-nos para um campo de rosas.

Para um mar de rosas?

Cheira-lhe antes o cu.

Queres cheirá-lo tu?

Só se for cor-de-rosa. É cor-de-rosa?

Nunca o saberás.

Enganas-te redondamente, minha linda, Já o sei.

É de que cor?

Vou lá fora ver se chove.

Jean, pede-me um café, Não demoro.

E depois uma garrafa de whiskey para todos.

E a cor? De que cor é?

Henrique sai.

- Que cor é essa? - Não sei bem,

Deve ser uma cor indefinida, de contornos vagos e esbatidos.

É mentira. O seu amigo é um lunático.

Sem dúvida. O Henrique é um fantasista, gosta de divagar.

Além disso, acho que bebeu de mais.

Então, Catarina... Está tudo a correr bem?

Paul é um santo.

Por favor, continuem,

Bebemos de mais. É muito amável, Jean.

Digamos que fui bem-educado,

Talvez demais.

Prefiro. Pode-se confiar em si.

Quer ver? É cor-de-rosa,

O que é cor-de-rosa?

É uma prova de confiança, mas não diga nada ao seu amigo.

Não vou oferecer a sua confiança ao Henrique.

- Julgava que eram amigos. - Não de longa data,

E como pode andar com um tipo assim? É uma criatura imunda!

É uma longa história,

Admito que é um pouco excêntrico, mas agrada-me bastante.

Talvez, precisamente por não termos nada em comum.

Habitualmente, nós, as mulheres, raramente nos enganamos.

- Viu bem os olhos dele? - O que é que têm?

Não têm nada. São vazios e gelados.

São talvez os olhos de alguém que já não tem grandes ilusões,

Não, Por exemplo, vê-se que o Jean é uma pessoa triste,..

Mas quando se olha melhor, nota-se que os seus olhos ainda riem.

É só uma impressão,

Riem de quê? Nem sequer tenho a felicidade de ser infeliz,

Não acredito no que me está a dizer,.

Mas é a verdade, À minha vida não é uma vida, É uma aparência de vida,

Não acredito... Está a fazer batota, Jean!

A fazer batota, eu?... Com quê?... Com a vida?

Não. Com a morte!

Nunca tinha pensado nisso. Sobremesa?

Não consigo comer mais nada, mas tomava um café,

Três cafés e uma garrafa de whiskey irlandês.

O criado traz três cafés e uma garrafa de whiskey irlandês.

Ariane e Jean de Dieu tomam o café,

Jean de Dieu serve um whiskey a Ariane

e o copo destinado a Henrique.

Ariane põe o pires sobre a chávena de Henrique,

É melhor tapar o dele antes que arrefeça.

Vive com alguém?

Fui casado, A minha mulher deixou-me,

- Há muito tempo? - Este Verão decidimos ir a Espanha.

Uma manhã, acordei no quarto do hotel

e apercebi-me que a bela Carmencita tinha saído da minha vida,

Chovia, voltei-me para o outro lado e continuei a dormir.

E ainda sofre com isso?

Precisamente... O que me faz sofrer é a minha incapacidade de sofrer.

Pensei que o desaparecimento da Carmen era a coisa mais natural,

- É porque não a amava, - Amava-a..

... 6, de certo modo, hei-de amá-la toda a vida,

Talvez volte, Estou certa que voltará,

E porque voltaria ela?

Porque as mulheres gostam de ser amadas.

Pode ser que, neste preciso momento, ela o lamente

e esteja a reflectir,

Antes de reflectir já tinha flectido,

-E a Ariane? - Estou bem como estou,

E o amor, Ariane?

O amor?... O amor é filho da boémia. Não gosto de prisões.

Ariane ri-se.

Henrique volta acompanhado por um violinista cego.

Traz uma rosa vermelha na mão.

É um doido furioso. Eu tinha-o avisado, Jean,

Está bem disposto. O mundo não vai acabar por isso.

Este é o Ragno,

o Paganini de Siracusa

que velo por nossa causa...

mas antes disso vai dar-nos a honra

de tomar um copo.

Salazar em Siracusa teria dito aos seus netos:

"O quadrado da hipotenusa

não é igual à soma do quadrado dos catetos",

Henrique bebe o seu copo de whiskey de um trago,

volta a enchê-lo

e oferece-o ao músico.

Não está muito limpo, mas não tem importância.

Ragno está-se nas tintas.

A moral dos cegos é diferente da nossa.

Henrique come a rosa,

"Diário de uma criada de quarto”,

Henrique, esvaziando o copo de Ariane:

- "Diário de um pároco de aldeia", - Podias pensar na Ariane.

Somente uma rosa digestiva,

uma rosa de ninguém,

Come-se e deita-se fora,

Dizem que é bom para limpar os intestinos.

Jean de Dieu acaricia Ariane, que se abriga junto dele,

Ragno ataca "A Cavalgada das Valquírias",

Calma, cara de...

...aranhiço.

Os nossos ouvidos não suportam essas convulsões aracnídeas!

Vais-nos brindar, pianinho, com"La Vie en Rose'",

Henrique cantarola: "Quand tu me prends dans tes bras...”

Sou um artista, meu caro senhor.

Se julga que o dinheiro pode comprar tudo, estás redondamente enganado,

Vens de avioneta, meu filho... É Wagner ou não é nada!

Ragno prepara-se de novo para atacar as cordas do seu violino.

Henrique empurra-o para o exterior,.

Já que assim é,

vais tocar a tua rabeca à chuva.

Se é para ouvir essa merda, prefiro ouvir a música

do meu cu,

Vivam os cegos!

O cego espuma de raiva,

com uma certa dignidade, diga-se de passagem.

Bate em retirada, continuando a tocar, à guisa de protesto,

alguns compassos da Marselhesa,

antes de bater com a cabeça na porta de saída.

O pior dos cegos

é o que quer ver,

Ariane, Jean de Dieu e eu próprio

continuamos o nosso périplo até à entrada do Bar Maxhimself.

O nosso trio entra,

senta-se a uma mesa

e observa sem dizer nada,

A atmosfera é barulhenta e cheia de fumo,

Peço cervejas.

Entre os clientes, um grupo de skinheads.

Cheira a terra queimada! Devíamos ter trazido máscaras anti-tóxicas.

- Exageras, Isto não é Austerlitz, - Com certeza, É depois de Auschwitz,

O trabalho...

« liberta.

O grupo de skinheads entoa um hino.

O melhor fascista

é o fascista morto.

Não passarão!

Libertado o terreno,

Ariane e Jean de Dieu podem enfim valsar.

Tenho uma prenda para ti,

- Tem o teu nome, - Ariane?

Cuida dela, Vou trabalhar,

Jean de Dieu, Ariane e Henrique

sentados à mesa, tomam o pequeno-almoço.

Finalmente, tudo está bem quando acaba bem.

- Viagem ao fim da noite. - Ariane olha para Jean.

Não vamos voltar a ver-nos?

Com certeza,

Sabe onde pode encontrar-me

e eu gostava de passar um dia destes no teatro.

Serás sempre bem-vinda,

Deixo-vos. Apetece-me ir desentorpecer a bacia,

Vou contigo.

Ariane, minha irmã,

de que amor ferida,

morrestes na orla em que fostes abandonada?

Quem sois?

Paul.

Max Monteiro,

Muito prazer. Eu conheço-o.

De reputação.

Bastante má.

Obrigado, meu querido,

Estou a escrever

e penso em si...

para o papel de um amigo que nos deixou,

E se um dia lhe apetecer passar por minha casa,

Jean e eu gostaríamos de lhe ler algumas páginas

dessa obra dramática.

Oiça, Sr. Paul:

as suas palavras sensibilizam-me muito.

Fazemos uma saúde?

Disseram-me que ia representar brevemente,

Sim, mas é que eu sou...

Não me sinto bem com este objecto porque...

Estou mais inclinado para o outro lado. Quer dizer...

O que é que tem?

Porque está nesse estado?

"Sonhei que John Wayne mexia maravilhosamente

"a bacia no Pólo Norte,

"logo, vou-me pôr a milhas e em grande velocidade,

"As chaves do carro estão em cima da mesa da cozinha,

"Dei de comer aos cães

"e mandei mugir as vacas.

"Podes muito bem tratar da casa,

"Estou farto da felicidade campesina. Boa sorte. Paul",

Não levou nada com ele. Nem sequer uma mala.

- O que é que acha? - Tiveram algum desaguisado?

Nem por sombras.

Até fizemos amor.

Foi de uma ternura espantosa,

Quase como da primeira vez.

Não sei o que lhe dizer, Marianne... Estou consternado.

Paul é a última criatura que imagino a partir para o Pólo Norte,

Sou da mesma opinião.

Ele gosta excessivamente do seu conforto

para empreender este género de aventura insensata.

Obrigado.

Perdão! Nem sei onde tenho a cabeça.

Esqueci-me que tinha deixado de beber,.

Não. Retomei os velhos hábitos. Um copinho só me fará bem,

Enfim... Não passa pela cabeça de ninguém,

e sobretudo pela de Paul, partir assim, de repente, para o Pólo Norte,

É impensável, Tem toda a razão.

Deve ser uma brincadeira,

Em primeiro lugar,

em nome do Pai,

do Filho,

do Espírito Santo

e da Gloriosa Mãe.

Gostaria de ser essa mulher estrangeira...

a quem apagará as rugas

destes amores perdidos...

É incrível,

Não acredito no que estou a ver,.

São eles!

- Eles quem? - Henrique,

Ariane e Lúcio,

Eu te saúdo, velho oceano!

Era uma vez um pequeno navio

Que nunca navegou...

Estás a olhar para mim, Jean?

Desculpa-me o golpe baixo,

mas gato escaldado de água fria tem medo.

A Ariane vai-te tricotar um par de meias de â

e eu vou-te enviar um cachalotezinho para as tuas descidas no rio.

Aguenta-te, meu velho francês. Só mais um esforço.

Não sou nada "merdiático”, não é isto verdade?

São completamente doidos!

Por quem se tomam eles? Não terão nenhuma hipótese de sobreviver,

A menos que mudem de ideias pelo caminho.

Não mudam.

Esses casmurros irão até aos confins das estrelas.

E se fôssemos, também nós,

mexer maravilhosamente a bacia no Pólo Norte?

Oiça, Marianne:

mexamos maravilhosamente a bacia, ainda que não passe de um capricho,

mas não quero ouvir falar mais no Pólo Norte. De acordo?

Sim, meu querido,

- Lamenta não ter partido com eles? - Um pouco.

A beleza convulsiva será erótico-velada, explosível-fixa,

mágico-circunstancial ou não será.

Em cima do canapé, nunca na vida,

Tradução João César Monteiro

Legendagem Pedro Póvoa / CRISTBET, Lda.

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