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de João César Monteiro
As Bodas de Deus
comediantes:
Rita Durão
João César Monteiro
Joana Azevedo
José Airosa
Manuela de Freitas
Luís Miguel Cintra
Ana Velazquez
José Mora Ramos
Fernando Mora Ramos
Fernando Heitor
João Listz
Jean Douchet
Director de Produção Joaquim Carvalho
Som e Montagem Joaquim Pinto
Fotografia Mário Barroso
Chefe-Electricista Victor Miranda
Chefe-Maquinista Paulo Miranda
Guarda-Roupa Sílvia Grabowsky
Cenário Alfredo Furiga
Mistura Jean-François Auger
Sou enviado de Deus.
Vou ser chamado?
Não me deram instrução nesse sentido. És demasiado velho.
Serei poeira, mas poeira enamorada.
Fui enviado para te entregar esta mala.
Contém uma soma avultadíssima em dinheiro.
Quanto?
Não nos prendemos com pormenores. És rico como Cresus.
Podes comprar o que te apetecer.
- Ter caprichos? - Os mais extravagantes.
Derrubar governos?
A partir de hoje, és o homem mais poderoso da Terra.
Não tens de prestar contas a ninguém.
Nem sequer tenho que acender uma vela ao meu benfeitor?
Nem sequer.
Estás dispensado das ações de graças.
Nesse caso, acho que sou bem capaz de ficar com a malinha.
- O taco é em dólares? - Podes trocá-lo por marcos.
Vai sofrer menos flutuações.
Também me parece.
C'um caralho!
Deixe-me morrer, meu bom senhor.
Era o que faltava, depois da trabalheira que me deste.
Venho deixar esta criaturinha ao cuidado das irmãs.
Louvado seja Deus.
Dêem-lhe caldos de galinha e muito repouso.
Irmãs, demos graças a Deus e ao salvador desta pobre infeliz.
No mundo implacável e egoísta em que vivemos,
raros são aqueles que ainda se ocupam do sofrimento do seu semelhante,
pondo em risco a própria vida.
Não há pneumonia que entre comigo.
Como é que se chama, bom homem?
João de Deus.
Nome Santo. É crente?
Não é uma questão de crença, é uma questão de confiança.
Deus é obscuro.
Graças à sua boa ação,
os anjos e os serafins rejubilam no Reino dos Céus.
Madre, não transforme um pequeno impulso aquático
numa orgia celestial.
Tome lá cem escudos.
Mas não gaste tudo em vinho.
Deus a abençoe, madre abadessa, por esta santa esmolinha.
Que Deus o acompanhe.
Mais vale só...
que mal acompanhado.
Ó Agostinho, toma lá cem dólares, mas não gastes tudo em freiras.
Muito obrigado, meu bom senhor.
Verifico com alegria que ainda há gente honesta neste mundo.
As irmãs da caridade, pum! Têm um buraco no cu, pum!
Que lhes fez o Padre Santo, pum! Com a chave do baú, pum!
Oliveirinha da serra, o vento leva a flor
ó ai Olinda só a mim ninguém me leva,
ó ai Olinda para o pé do meu amor, pum!
- A madre Bernarda está? - Quem devo anunciar?
O Barão de Deus. Diga-lhe que mudei de classe.
- E a Joana? - Um amor-perfeito.
Raparigas assim são raras nos tempos que correm.
Serve crianças no refeitório da paróquia
e ainda nos dá uma ajuda nos trabalhos do convento.
Eu sei que não acredita em milagres,
mas não esqueço o dia em que, trémula de frio,
Joana me apareceu pela primeira vez.
Parecia um espectro saído de um campo de concentração.
Que força a mantinha viva?
A transfiguração é maravilhosa, não haja dúvida.
Os prodígios de Deus não cessam de nos surpreender.
A César o que é de César, a Deus o que é de Deus.
Porque não vai visitá-Ia?
Prefiro não.
Talvez se arrependa.
Arrepender? Esta não é propriamente uma comédia penitenciária.
Prefiro deixar este donativo para que nada lhe falta em caso de aflição
e para obras de beneficiação do convento.
Basta uma chuvada para fazer ruir o tecto.
Tantas notinhas!
Não serão manhas de Lúcifer?
É dinheiro imaculado. De hora a hora, Deus melhora.
Sede misericordioso.
Sou uma mulher de pouca fé.
É pena que não possamos celebrar esta dádiva
à volta de um honesto cozido à portuguesa servido pela Joana.
Comidinha caseira!
Irmã, irmã,
muito te será perdoado, mas livra-me dessas tentações!
Esta preciosidade é oferta da casa.
Bom apetite.
Estás-te a rir de mim?
Estou-me a rir, porque estou contente.
Ri-se na alegria do senhor.
Bem-aventurados os pobres de espírito,
porque será deles o Reino dos Céus.
Já que assim é, esperemos que o cozido esteja de chorar por mais.
Um pouco de farinheira, madre?
Chouriço de sangue.
Joana.
- Desejam gelados? - Gelados? Nem vê-los.
Quem sabe se não estaremos no limiar de uma nova era?
Suportamos longamente a era do abandono.
Talvez estejamos a entrar na era da hospitalidade.
Com a recrudescência dos fascismos à perna?
Mingau-se.
Maldita cabeça, Madre.
Vou proferir uma blasfêmia,
mas como dizia Staline, o melhor fascista é o fascista mono.
Vou proferir uma obscenidade, madre,
mas como dizia um velho amigo meu:
"Trezentas velhas em fralda de camisa
e uma à frente a tocar flauta lisa.
"Maço, calhamaço, os colhões a marcar passo!"
Joana.
Graças sejam dadas ao meu Deus e meu Senhor
por tudo que nos destes, recebe¡ o nosso amor
E a tua mãe?
A minha mãe morreu vai para três meses.
Somos de Piódão. Não sei se conhece.
De passagem.
Não tínhamos mais ninguém.
O meu pai vive em França, mas nunca quis saber de nós.
Não há terra como a nossa.
Quando cheguei à gare de Austerlitz, não sabia uma palavra de francês.
Queria ir direita ao serviço de accueil de refugiados
de Saint-Joseph das Nações, mas ninguém se ralava.
Encolhiam os ombros e gronhavam, gronhavam...
Resmungam muito esses parisienses. Parecem baratas tomas.
Por fim, lá fui ter ao onziéme arrondissament.
Comi uma sopa e um naco de pão
e ao fim de três dias, lá dei com o paradeiro do meu pai.
O que é que o teu pai faz?
Trabalhava na Renault.
Agora só bebe.
Está no chômage.
Vive com outra mulher de quem tem mais três filhos,
mas também é uma desgraçada. Só chora.
Dormíamos todos a monte...
Eu tinha que fazer de cega.
De ceguinha?
Sabe, quando fazia de cega deixava mesmo de ver?
Ficava com dores horríveis nos olhos até me saltarem as lágrimas.
Era de olhar fixamente.
Olha para eu ver.
- E não tens vergonha? - Tenho...
mas que hei-de fazer?
O meu pai obrigava-me.
- A isso e a pior. - A pior, como?
Tenho de dizer?
Já tenho idade para ouvir cenas coisas...
A ir com homens.
Se me recusasse, moía-me de pancada.
A moral dos cegos é diferente da nossa.
O senhor é um santo,
mas já lhe dei muita maçada.
Coitadinho, até podia ter morrido enregelado por minha causa.
Enregelado não direi,
mas a meio da digestão de umas sardinhas de conserva,
podia dar-me uma congestão. Íamos os dois.
Ainda por cima, não faço falta a ninguém.
Já não estás só no mundo. Vou ausentar-me durante uns dias.
É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha
do que um rico entrar no Reino dos Céus.
Sou um homem rico, isto é,
privado do assento etéreo.
Ando cá por baixo a refazer a minha vidinha. Tenho uns afazeres.
O senhor é a minha luz.
Sou fraca candeia.
Deus não dorme.
Mas eu durmo.
Estavas, linda Inês posta em sossego, De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego, De teus formosos olhos nunca enxuto
Aos montes ensinando e às ervinhas O nome que no peito escrito tinhas.
Ó Mariano,
reserva-me uma passagem de avião para Pequim
em nome de Inês Pim.
Alice, que escrevo eu em cima do bolo?
Não sei. com licença.
Bom dia, senhor Barão. Dormiu bem?
Como um anjo. E os seus rins, como vão, Bardamu?
Um bocadinho melhor, senhor Barão.
Será devido à água?
Aquando da sua estada em Veneza,
o Senhor de Montaigne também passou por semelhantes tormentos.
São os anos que nos roem por dentro...
O seu bolo tem um ar apetitoso.
Sim, mas não consigo encontrar nada para inscrever nele.
Para inscrever o quê?
Qualquer coisa gentil, uma palavrinha de amor.
É para a Princesa Elana Gombrowicz. É bela de morrer.
Um verdadeiro poema.
Quem é essa princesa?
A bem-amada do Príncipe Omar Raschid.
Não conheço.
Um homem encantador. A prova viva que quando se é alguém de bem,
o petróleo não vos sobe à cabeça.
Inteiramente de acordo, Bardamu.
Femeeiro e jogador inveterado. O petróleo é inesgotável.
E Xerazade? Estará ela esgotada?
Diz-se que é o seu grande amor.
Vejamos, Bardamu, o amor é o infinito ao alcance dos cãezinhos de luxo.
Sois um céptico, senhor Barão. Tendes crianças?
Onde?
Vita vixit.
Eis a oferenda de um homem livre para inscrever no bolo da princesa.
Obrigado, senhor Barão. Bom passeio.
Tenho ouvido falar muito de si, meu caro Barão.
A sua reputação já chegou à minha melhor orelha,
caro Príncipe Omar Raschid.
As Mil e Uma Noites, sabe?
Intrigou-o o meu desejo de o conhecer?
A curiosidade é recíproca e natural nas crianças e nos sábios.
Suponho que conhece as minhas inclinações...
circulam rumores... É o preço da glória.
Gosta do jogo?
É raro jogar, mas confesso que me fascina.
A mim horroriza-me.
É como um fogo que me devora
e do qual anseio libertar-me, sair purificado.
É engraçado.
A mim o que me atrai é entrar no vício
e mergulhar vertiginosamente nele, até ao fim.
Pagar para ver, como se diz no póquer.
Que será necessário pagar para ver tudo?
Só o olho de Deus pode ver tudo.
É o princípio essencial da tragédia.
Aquele que joga contra Deus, está condenado a perder sem remissão.
Quem não arrisca, não petisca.
Entretanto, para refrear a ambição que mata o vilão,
é com prazer que me resigno a uma partida de póquer,
caso se digne aceitar a hospitalidade de uma casa amiga que é sua.
Conheço o seu país.
Boas gentes, pachorrentas.
Já levei à glória a banca do Estoril...
Omar, Omar, não me assuste...
Infelizmente, o meu país não é como o seu. As convulsões são permanentes.
Trate-as com um bom xarope. É remédio santo.
Não é assim tão simples, mas não falemos nisso.
Qual é a parada?
Ilimitada.
Deixa¡ toda a esperança, vós que centrais na Quinta do Paraíso.
A Princesa Elena Gombrowicz.
Encantado, querida Princesa. Haveis feito boa viagem?
Atravessamos o rio impassível.
Como é agradável não mais se sentir guiado pelos rebocadores.
Não se pode pedir melhor, salvo alguns Peles-Vermelhas estridentes
que não nos tomaram por alvos.
O rio deixou-me descer onde eu desejava.
Data do século XVI. Como a maior pane do palácio,
ainda que se encontrem vestígios de construções anteriores.
É o busto de um dos primeiros proprietários,
filho natural de D. Afonso de Albuquerque,
um dos vice-reis da índia.
Ó Vasconcelos, vai buscar as bagagens dos senhores.
Esta é a Celestina, jovem estudante de arqueologia,
que se ocupa das escavações que estamos a fazer
na pane mais antiga do palácio.
Há uma lenda, segundo a qual, algures,
está enterrado um tesouro hindu e para dizer a verdade,
já encontramos alguns maravedis. Celestina, não só toca cravo,
fala francês e está ao vosso inteiro dispor,
mas também vos conduzirá aos vossos aposentos.
Para além disso, se exprimirdes o desejo,
guiar-vos-á melhor do que eu saberia fazê-lo na visita ao palácio.
Um agradável repouso. Ver-nos-emos à hora do jantar.
Diz à Gertrudes que não dê os restos ao cão do Vasconcelos.
Amanhã, roupa velha para o almoço. Como de costume.
Sumptuoso.
Queira desculpar-me estas indicações sobre a economia doméstica.
Faça como se estivesse em sua casa, caro Barão.
Tem pé, Vasconcelos.
- Quer que traga outra garrafa? - Não te incomodes.
Já percebi que nas tuas mãos, a decantação será sempre "sui generis".
Queira desculpar-me estas instruções para uso da criadagem.
Como posso compreendê-lo, caro Barão.
Este doce é delicioso.
Pastelaria conventual.
Em isso vos interessando, a nossa cozinheira dar-lhe-á a receita.
A cozinha não é a minha fortaleza.
Ai, Princesa, ela é ao invés a minha fraqueza.
Todavia, como o seu prato não foi servido,
seríamos tentados a crer que não é doceiro.
Antes do póquer, sou um verdadeiro anacoreta.
Acabei.
Passemos ao café.
É verdade que o alho é propício à castidade?
Só um vampiro poderia responder-vos com exatidão, Princesa.
E ainda se encontram vampiros?
Nunca por uma noite como esta, minha querida.
Nunca sirvas a quem serviu. Podes ir à vida.
Um digestivo?
Somente na cama, antes de adormecer.
- E vós? - De bom grado.
O tabaco é o meu único estimulante.
Terminareis a que horas?
Marcamos uma hora limite?
Ao romper do dia, quando o galo cantar. Está de acordo?
Adoraria assistir à derradeira partida.
Nesse caso, será a beleza da Princesa que anunciará a aurora.
Dispensaremos o canto do galo.
E se eu não acordar?
Esperaremos por si, não é verdade?
Agora é melhor ires-te deitar para estares fresca como uma rosa.
Deixo-vos a minha rosa.
Dá quem tirar o primeiro rei.
M".
Estou.
Fico em cinco mil.
Estou.
Mais vinte mil.
Passo.
O primeiro milho é dos pardais.
M".
Estou.
Mais três mil.
Mais dez mil.
Mais dez mil.
Esses dez mil mais duzentos mil.
Estou.
Cavalão.
- Dormiste bem, minha querida? - Dormi maravilhosamente.
A última partida.
- Aceita um aumento das caves, Omar? - Qual é a sua proposta?
A minha fortuna é mil vezes maior daquilo que está em jogo.
Mais ou menos.
Mas é uma soma fabulosa! A minha liquidez não seria suficiente.
Se perco o que está na mesa,
isso já vai provocar uns pequenos abalos nos meios financeiros
e, quem sabe? Uma queda no preço do barril de petróleo...
Não percebo nada disso.
A finança fica desvairada por uma ninharia.
Omar é um ser muito sensível.
Choraminga por causa de um arranhão.
Sê bela e cala-te.
A proposta do Barão é muito aliciante, mas pede ponderação.
Vai fazer estragos.
E pensas que não suporto a dor?
Cheira-me a carne humana.
É um odor acre.
Não sei se gosto.
Foi um ato irrefletido.
Apresento-lhe as minhas desculpas.
Que diria dos meus poços de petróleo?
Não digo nada. Não me apetece ter os americanos à perna.
E dos meus palácios?
Um deles, verdadeira joia de arquitetura islâmica,
possui um harém com cem concubinas...
Lindíssimas, escolhidas a dedo.
E quem alimentará todas essas pequenas boquinhas?
"There is no home like home", diga-se o que se disser.
Dê as canas, Omar e deixemos ficar as coisas no pé em que estão.
Cem mil.
Quinhentos mil.
Estou.
Dois milhões.
Fica em seis milhões.
Doze milhões.
Vinte milhões.
A minha cave.
Tem um valete e um dez.
É o melhor jogo.
Não estou aqui para enganar ninguém. Sou um clássico.
Se com o seu trio sai um fullen...
ou porque não um póquer,
ganha.
De outro modo, perde.
É evidente que meto a minha cave.
Trio de damas.
Sequência à dama. Tire as duas outras canas.
Se dobrar...
A fortuna de uns faz a desgraça de outros.
Sequência ao rei. De hora a hora, Deus melhora.
Há dias assim...
Glória ao vencedor, honra ao vencido.
Sone ao jogo...
azar ao amor.
Se eu jogasse, não seria por dinheiro.
Há os que jogam por feijões.
Os que jogam por dinheiro
partem do princípio que o dinheiro é a coisa mais importante na vida.
Não necessariamente.
Só se pode jogar com o que se tem.
Seria capaz de me jogar?
Se fosse minha, provavelmente não.
Sou uma mulher livre.
E tu Omar?
Não há mais bela prova de amor que a ditada pela renúncia.
Para uma mulher,
ser tirada à sone por um lance de dados é a oferenda mais preciosa.
Raras são as que a saborearam.
Joguei e fui jogada, gozei e fui gozada...
Oh sim. Bem jogada e bem gozada.
Uma lenda ignorada por Homero menciona o rapto da bela Helena,
a mesma que mais tarde provocou a guerra de Tróia,
levada por Teseu e o seu amigo Pirítoo
quando, ainda virgem,
oferecia um sacrifício a Ártemis no templo de Lacedemônia.
Antes de partir para os Infernos afim de raptar Perséfone,
Teseu e Pirítoo tiraram-na à sone.
E qual dos dois heróis ganhou a bela Helena?
Teseu, bien sûr!
Que tenha obtido as primícias do himeneu da núbil beleza
deve tê-lo favorecido no futuro combate com o Minotauro.
Eu também quero ser tirada à sone.
Tudo o que eu possuo não vale um dos vossos cabelos.
Tudo o que eu possuo já é teu.
Sem piedade para o vencido.
Pobre vencido.
A que horas?
À las cinco de la tarde.
À las cinco en punto de la tarde.
Ay, que lerribles cinco de la tarde.
- De acordo? - De acordo.
As pombinhas da Catrina andarão de mão em mão
foram ter à quinta delas ao Pombal... - Princesa, que faz aí?
Os meus primeiros passos na investigação arqueológica.
Titubeantes?
A Princesa é prodigiosamente dotada...
Não tenho qualquer dúvida.
Basta ter olhos.
O que é essa coisa a teus pés? Parece uma escrava.
Isto? É um osso de frango.
Desse modo, não chegaremos a pane nenhuma.
Venho dar uma ajuda.
Omar repousa. Não deveria fazer o mesmo, antes da partida decisiva?
Não consigo concentrar-me.
Sou toda ouvidos...
Dentro de meia hora ao pé da Europa raptada. Ultra-secreto.
Morro de impaciência. Já voe¡ para lá...
Se for à bruta, pode danificar irremediavelmente algo de precioso.
Assumo a inteira responsabilidade.
Estou-me nas tintas para quebrar mais bilha menos bilha.
Se o tesouro for precioso, podem chover pás e picaretas!
Chamem os bombeiros!
Elena!
Antes dos dados decidirem a vossa sone,
queria exprimir-vos, Princesa,
a minha profunda gratidão por me terdes concedido este encontro.
É com o maior prazer que vos escuto...
Durante alguns instantes, tive medo,
dada a sua natureza confidencial,
que suscitasse da vossa pane uma natural reticência.
Nem por sombras, caro Barão. Sou uma mulher simples e adoro segredos.
E podereis vós perdoar a um pobre mortal a humana fraqueza,
fruto do desespero de querer fazer batuta com o destino?
E que vida seria a nossa atormentada pelo remorso?
Perdoo-vos porque sofro ao ver-vos nesse estado
e cabe às mulheres perdoar.
Mas Omar, poderá ele perdoar-nos?
Não estamos num pé de igualdade.
Omar tem sobre mim uma enorme vantagem.
Omar é um amante prodigioso. Atinge a vintena.
Por ano?
Por dia.
É bonzinho...
Não vos inquieteis por causa disso.
Há muitas maneiras de cultivar uma mulher.
Credes que foi por um capricho do acaso que aceitei ser jogada?
Acalmai-vos e tende fé.
Eu fé, tenho.
O que sucede comigo é que a sone me é madrasta.
Rezarei por vós, meu querido.
Elena, meu amor, conhecemo-nos tão mal...
Biblicamente?
De todas as maneiras e feitios.
Meu tolinho!
É preciso começar por algum lado!
A sarça ardente!
Que tendes, meu querido? Um ataque de epilepsia?
Não.
Um ataque de tesão.
Conheceis o tema bíblico?
A casta Susana e os velhos.
Se não me engano, é um suplemento grego do livro de Daniel.
Exatamente.
O motivo foi tirado de uma estampa de Aneas Vico.
É um azulejo de transição entre a tradição mudejar
e a modernidade do Quattrocento italiano.
Este representava o Massacre dos Centauros nas bodas de Hipodamia.
A barbárie que se seguiu deve tê-lo achado demasiado licencioso.
Saboreemos esta paz.
"O meu pobre coração, aflito e louco.
"Não pôde nunca libertar-se do amor da minha amada.
"No dia em que serviam o vinho do amor,
"a minha taça ficou cheia com o sangue do meu coração!"
Sem Elena não posso suportar a vida.
Se a perder...
Penso no deserto.
Inumeráveis são as formas de vida que o povoam,
contrariamente ao que se imagina.
São resistentes e aptas a fundar uma vida nova
porque é a extrema aridez que as forma.
Grandes são os desertos.
Meu caro Omar.
Aproveitemos esta hora de clarividência.
O jogo é apenas transferência, não gera riqueza.
Mas se Elena mudar de mãos, e em boas mãos ficará,
é porque no fundo, nunca vos amou. Perdê-Ia é para vós um ganho.
Pelo contrário, que significa para mim perder os meus bens?
Ficar literalmente "in naturalibus", como se diz.
Tendes de convir, que mais vale a mone que tal sone.
Não permitiria nunca que chegásseis a semelhante estado.
Seria para mim um privilégio continuar a ter-vos como amigo
e oferecer-vos um alto cargo de conselheiro. Seríeis respeitado.
Não, obrigado.
Não sei dar conselhos e detesto a respeitabilidade.
Sois vós o anfitrião.
Adeus, meu amigo.
Omar partiu? Sem dizer nada?
Disse...
L'a amor che move il sole e l'altre stelle.
Não é um sacrilégio?
As santas imagens foram roubadas no tempo das invasões francesas,
provavelmente pelas tropas de Napoleão.
Não tendo convicções religiosas, não vejo razão nenhuma
para restituir a esta capela a sua função de lugar de culto.
O novo deus aparece em todo o seu esplendor.
Ita missa est.
Preferia que não me tomásseis por um oficiante do deus-dinheiro.
Admito porém que este altar é um lugar de depósito irônico para quem,
sem se servir, se serve dele.
Elena,
vós sois a minha única deusa...
a única que desejo conduzir ao altar.
É um pedido de casamento?
É o famoso beijo-vaca.
Sei vícios.
Está em perfeito estado e a sonoridade é a ideal
para criar uma envolvência íntima nesta bela sala.
E quando é que achas que a Princesa pode começar o dedilhado?
Quando o senhor Barão entender. Eu, para além de umas afinadelas,
continuo a viver de biscates. Isto está uma miséria.
Começas as lições depois da lua-de-mel.
E em que pé estão as coisas para hoje à noite?
Está tudo a postos, mas há um pequeno contratempo...
Reparável?
Reparável se oleado em devido tempo.
A mão-de-obra qualificada encareceu muito
e o senhor Barão pretende um trabalho asseado...
Quantos sois?
Poucos, mas bons. Todos ex-presidiários. Duros de roer.
Nem debaixo da tortura lhes arrancam uma palavra.
O sigilo é de oiro. Quanto?
Mais uma quinhentada?
Quem paga adiantado é sempre mal servido.
Acho uma roubalheira, mas seja.
Quantos são hoje?
Seis.
O que é barato sai caro. Vai ser trigo limpo.
Disparas exatamente depois de "da moita é che m¡ ama-te".
Entendido, Sparafucile?
Não se preocupe, senhor Barão. Conheço a partitura de cor.
Verdiamo, verdiamo!
Sparice!
Estamos a ser observados.
A vossa beleza ofusca tudo.
Não pode ofuscar a vossa nobreza, Barão.
Sua excelência não tira os olhos de cima de nós.
Abaixo a tirania da liberdade!
Boa da liberdade! Viva Deus!
Exponho os meus peitos às balas dos tiranos!
Mas não estamos num país livre?
Não, enquanto não se vir livre de nós.
Estamos no poleiro.
Juntos, podíamos conquistar o mundo.
E quem o carregava às costas?
Quem dá o que tem, a mais não é obrigado.
E vós, fodões encarniçados,
que pensais agradar às moças belas,
por terdes uns marzapos que, estirados,
vão pregar com o focinho nas canelas,
sabereis aqui, desenganados,
que não são tais porrões do gosto delas.
Pois não lhes poderá causar recreio
todo aquele que passar de palmo e meio.
Dizíeis...
Barbaridades.
Comei.
Este é o meu corpo.
Pela manhã, o cono está bem derretido,
por causa do brando e doce calor da noite, que o marinou e aboborou,
e que assim é bem melhor e saboroso.
Como os cofres. Querem-se secretos.
" Vitam impedere amori". É o segredo.
Ai, fominhas, fominhas...
Então, princesa, vamos a isto?
A colhoada ainda se apresenta pimbalhante,
mas há sintomas de melhoria...
"Qualquer um se pode enganar",
disse o ouriço-cacheiro
ao descer da escova dos sapatos.
Sabes onde para a princesa?
Saiu de manhã. Levou o carro.
Terá dito para onde ia?
Quero lá saber! Deve ter ido apanhar miosótis.
Ai, o meu rico dinheirinho!
Sangue-frio é que é preciso.
Não há-de ser mone de homem.
O pior foi não ter deixado pentelho.
Que se foda a princesa!
Implante¡ a República!
Meu primeiro, chegue aqui, que há objecto estranhos.
Será obra de monárquicos?
E isto?
Alfa ômega para Pipi. Temos Caça Grossa.
Estou arruinado, Leonor.
Não se apoquente, meu barãozinho. Princesas há muitas.
Que vida será a nossa com este rebento nos braços?
- É menino ou menina? - É menino.
É o meu pé de meia.
Obrigado,
minha benfeitora.
Tão lindinho...
Tanto beijinho...
Vai à maminha do papá.
Aquilo era uma pouca vergonha! Ela de rala ao léu pela quinta fora
e ele sem poder com uma gata pelo rabo, feito doido atrás dela.
"Dá-me a coninha, dá-me a coninha!"
O Senhor Barão era amigo de dar aos pobres.
Quem dá aos pobres, empresta a Deus...
Era um santo. Tu nem sequer lhe chegas aos calcanhares, meu Judas.
Por trinta dinheiros até vendias a tua mãe.
Se o homem ainda tem tranca, tanto melhor para ele.
Tomara eu! A minha já não se endireita.
O lençol estava imaculado.
Ó Vasconcelos, por aqui não te governas.
Governado está ele.
O senhor Barão nem sabe da missa a metade...
Vai à adega buscar umas botelhas para bebermos. Já tenho a língua seca
e esta história merece uns copos e uns punhetaços.
Vai lá, víbora. Estás a ouvir?
Não sou nenhum pau mandado.
Ó Gertrudes!
Bolinhos de bacalhau e um arrozinho de grelos.
Estarei de volta à hora do jantar.
E onde vou desencantar grelos nesta época, meu bom senhor?
São rosas!
Feijãozinho frade.
Não se pesca uma alforreca, pois não?
Oh, Celestina...
depenado já estou.
Vai cavando, cavando...
A esperança é a última a morrer.
Toma, toma!
Alega ignorar a existência do material de guerra encontrado,
após busca das forças da ordem na Quinta do Paraíso,
bem assim como os intuitos com que ali terá sido depositado.
Entre este facto e os acontecimentos produzidos no Teatro de São Carlos
não vê qualquer ligação,
dado que é absurdo pretender-se transformar o gesto grotesco
de uma sociedade que morre de tédio num ato de rebelião armada.
Nunca a burguesia se atreverá a enfiar o cano dos canhões
no céu da própria boca.
Evite¡ um banho de esperma.
Embora admita que o seu comportamento
terá provocado distúrbios que o ultrapassaram,
pretendeu apenas divertir-se, ir para a pândega,
nunca tendo tido em mente o recurso a meios violentos
para derrubar o governo.
Não tenho alternativa de esquerda.
Isto está feio, Sr. João de Deus. Mesmo muito feio.
Ai do lusíada, coitado.
Vou-lhe mostrar umas fotografias interessantes.
Não sou grande apreciador de fotografias pornográficas.
E estou-me cagando para os seus gostos, Sr. João de Deus.
Quero é saber se conhece ou não a mulher.
A cara está tapada.
Assim do pé para a mão não estou a ver quem seja.
Pelo cu não chego lá.
E esta?
Sou eu e a Princesa Gombrowicz no camarote de São Carlos.
Princesa, um corno, Sr. João de Deus!
Trata-se de uma e da mesmo pessoa em ambas as fotografias,
Albertine Flabelais!
Procurada por homicídio e assalto à mão armada.
Não lhe deitamos a mão por uma unha negra.
Para lhe ser franco,
eu a mão ainda lhe deitei, mas mais nada.
Albertine disparue... Dou alvíssaras!
O senhor já deu o que tinha a dar.
É tudo o que tem a dizer sobre a famigerada Albertine?
Só tenho bem a dizer.
Vamos voltar ao princípio para desvendar o fio da meada.
Durante um ceno tempo, o senhor trabalhou numa geladaria em Lisboa,
cuja proprietária é procurada pela polícia por presumível envolvimento
numa rede internacional de droga e prostituição.
- É mulher para isso e muito mais. - Conhecia-a bem?
Como o meu dedo. Cartel de merdelim.
Se souber do seu paradeiro, isso poderá funcionar como atenuante...
Não, obrigado. Não como desse pão.
Faz mal, Sr. João de Deus, mas não temos pressa.
O senhor...
foi internado num asilo psiquiátrico
por exibir, em pleno dia, num jardim público
os órgãos genitais a uma menina de sete anos.
Pura lição de anatomia.
O pai tinha-lhe ensinado que o coração está no lugar do pênis.
Em meu fraco entender,
foi pena ter-se ficado pela educação sentimental.
Cuspiu num olho de um inspetor de polícia.
Ainda foi no tempo do fascismo. Hoje em dia, já não gasto saliva.
Não estou a ser exaustivo, Sr. João de Deus.
Estava pacientemente
a recordar-lhe alguns pormenores de uma vida
que, desgraçadamente, não deixa grandes margens para dúvidas,
no que se refere a um comportamento doentio
que situamos no domínio da psicopatologia criminalis.
Basta, aliás, um olhar de relance à sua configuração craniana,
a óbvia desproporção com o resto do corpo,
para nos apercebermos que estamos perante um espécime
cujos traços correspondem à tipologia atrás mencionada.
Têm-me dito que o meu viso se assemelha a uma efígie romana.
Qual Roma, Sr. João de Deus? A Roma virtuosa e patriarcal,
ou a Roma decadente e debochada?
Quantos Césares fui...
Instalou-se à grande e à francesa na Pousada de Santa Isabel
e sumiu-se sem dizer água vai.
Roma não paga aos assassinos dos seus generais.
Isso significa que se recusa a pagar?
Fui atraído a uma cilada e apunhalado pelas costas.
Não podem ver uma camisa lavada a um pobre.
Apropriou-se indevidamente de um título nobiliárquico...
A nobreza está na alma, não está no nascimento.
Os factos demonstram a saciedade, Sr. João de Deus,
que usou de estratagemas vários para atingir propósitos fraudulentos.
Não é verdade.
Eu fui um milionário. Não tenho culpa de ter sido roubado.
Como acha que comprei a Quinta do Paraíso?
Estamos na posse de todos os elementos relativos a esse negócio.
A propriedade foi adquirida a pronto pagamento,
por um quantitativo superior ao seu valor real.
Nunca tive jeito para o negócio. Acha isso algum crime?
Não acho nada, Sr. João de Deus. Estou apenas a ouvi-lo...
Tenho uma repugnância instintiva pelas instituições bancárias.
Assim sendo, decidi comprar um cofre,
daqueles antigos com sistema de segredo
e coloquei lá o grosso da maquia.
Esta manhã, ao acordar,
dei-me conta que o cofre estava arrombada e o dinheirinho voara.
Pelos vistos, o segredo não serviu de nada.
Eu nunca soube guardar segredos.
Mas vai guardar este: sabe que acredito piamente nessa história?
Eu não lhe dizia, inspetor Pantaleão?
A verdade é como o azeite: vem sempre à tona de água.
Se me permite, vou regressar a penantes, que se faz tarde.
E se não é indiscrição, para onde pensa que vai?
Lar, doce lar.
Em período de austeridade, pode já não dar para extravagâncias,
mas para um bacalhauzinho com todos ainda se arranja.
Deixe-se estar, Sr. João de Deus. O senhor já não tem onde cair mono.
O seu Paraíso foi confiscado.
- A que título? - Provisório e cautelar,
mas não se preocupe.
Basta que esclareça um pequeno pormenor.
E qual é ele?
Como é que o modesto empregado de uma geladaria
se vê subitamente na posse de uma fortuna astronômica?
Meu Deus, meu Deus,
por que me abandonaste?
- E o velho Lívio? - Morreu.
Com tanto filho da puta que anda por aí...
O bom filho à casa torna!
Eu não estou doido.
Tenho sido manejado como um puro manequim.
Deus é que me arranjou este lindo trinta e um,
mas quem é que acredita na minha história?
Eu próprio já tenho a mente confusa...
É precisamente por isso que estás aqui: para dissipar as confusões.
Estou aqui na condição de prisioneiro.
A tua liberdade depende de ti.
Depende dos caprichos de Deus e esse grande sacana está-se nas tintas.
Cala-te boca,
quanto mais barafusto, mais me enterro.
É costume dizer-se que pela boca morre o peixe,
mas não me parece que na situação em que te encontras,
que tenhas grande coisa a perder,
tanto mais que estás a conversar com um velho amigo.
Ou também já não acreditas em mim?
Explicar a origem divina do vil metal é tão complicado ou mais,
do que explicar a origem do universo. - E tu acreditas nisso?
Sou bem capaz de ser o último dos crentes.
Se lhe aparecesse um Enviado de Deus com uma mala cheia de bago,
também não acreditava?
Cada um acredita no que quiser.
Claro!
Temos cá internado um Enviado de Deus.
Fardado de Oficial da Marinha?
Só são permitidos os uniformes hospitalares,
mas não lhe conheço inclinações náuticas.
Com o azar que tenho não deve ser o mesmo.
Este toma-se por Jesus Cristo depois da Ascenção.
Vais vê-lo amanhã. Tem delírios místicos.
Não me cheira.
É o mesmo que procurar agulha em palheiro.
Viste o Enviado de Deus?
Qual deles? Aqui somos todos Enviados de Deus.
Bem me parecia...
Quem diria! Não me reconheces?
Nunca o vi mais gordo,
e não dou cigarros.
Mete os cigarros no cu.
Encontramo-nos no Parque da Pena, deste-me uma mala cheia de bago
e vendeste-me que eras Enviado de Deus, lembras-te?
Eu? Isso não cabe na cabeça de ninguém.
Por que carga de água é que eu lhe ia dar de mão-beijada
uma mala cheiinha de dólares? Sou maluco, mas não sou estúpido.
Desta não te saias, meu filho da puta!
Larga-me, antes que eu grite por socorro.
Não suporto loucos furiosos.
Tens que me livrar desta alhada! Dê por onde der.
Não sei do que estás a falar.
Já fui, de facto, Enviado de Deus,
mas agora estou sentado no trono celeste,
à direita do Pai.
E eu que me lixe!
Quando eu subi aos céus, Disse para todos os monais...
Fodam-se vocês agora, Que a mim já não me fodem mais.
Levante-se o réu.
Levanta-te tu, meu filho da puta.
Estou inocente, para mal dos meus pecados.
Silêncio!
Silêncio, se não mando evacuar na sala.
Tens visitas.
Levas uma rica vida!
Vou cumprindo escrupulosamente a pena o melhor que sei e posso.
Quando chegar o Inverno e o frio começar a apenar,
talvez o cárcere te dê menos vontade de ouvires a cantoria.
Não estamos aqui para incomodar ninguém.
Meu caro:
do cadáver de um homem livre pode sair acentuado mau cheiro,
nunca sairá um escravo.
Vim, mal soube da desgraça.
A maior desgraça foi ter nascido em Portugal. E a tua vida?
Também nem tudo são rosas.
Mas há que aguentar e cara alegre, cá continuamos.
Não há-de faltar cama, mesa, e roupa lavada.
Daqui até lá não me doa a mim a cabeça.
Dizem que é um instantinho, mas a viagem parecia não ter fim.
O coração batia muito.
Mas não impona, estou aqui para o que der e vier.
Estou mais crescida.
E será da minha vista ou as maminhas também te cresceram?
Estou na mesma. Deve ser por causa da blusa.
E achas que posso ver só uma?
Tenho estado a pão e laranjas.
À frente do guarda?
Finges que estás com comichão, desapenas três botões
e o boi não dará por nada.
São pequeninas...
São as únicas.
Há tanta beleza nelas
que se não as guardas depressa, dá-me aqui para o badagaio.
Tenho desfiado o rosário dos dias e das horas.
Eu também, Joana.
Pensa-se muito, quando, para onde quer que nos viremos,
encontramos sempre quatro intermináveis, monótonas paredes.
Tem-te, não caias, digo de mim para mim.
E se caíres, nunca te esqueças que também se aprende a cair.
A carne é fraca, mas o vento paira livremente sobre as águas.
Já não falta muito para ser posto em liberdade.
E que farei eu com ela? Estou velho e cansado.
Se me quiser, ficarei sempre junto de si.
Eu querer, quero. E tu esperas pelo pobre prisioneiro?
Tenho estado à sua espera.
Chegou finalmente a hora de assentar. Prisão perpétua?
Deus escreve direito por linhas lonas.
Acabou o tempo da visita.
Joana,
deixa-me um pentelho,
um pequeno fio de Ariane...
E como faço?
É simples, metes a mãozinha
e encontrarás terreno cultivado.
Semear para colher.
É para recordação.
Punheta celular não é punheta, é falta de convívio.
Ó Joana,
que estranho caminho tive que percorrer para chegar junto de ti.
E aqui acaba esta comédia.
Transcrição e Legendagem: Alexandre Betlencoun/CRISTBET Lda.
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