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[zumbido de insetos]
[pássaros cantam]
[zumbido de insetos continua]
[pássaros cantam]
- [ave grasna] - [trovão]
[pássaros cantam]
- [trovões] - [aplausos]
[rugido de feras]
[aplausos]
[trovão]
[zumbido longo]
[zumbido desvanece]
- [zumbido longo] - [trovões]
♪ Eu sou o homem de Neanderthal ♪
[grunhe como homem das cavernas]
♪ Catando caramujo na beira, aramujo ♪
♪ Na beira, aramujo, na beira do rio ♪
♪ Na beira do rio ♪
♪ Eu ♪
♪ Vivo apenas ♪
♪ Com meus próprios meios ♪
[ave grasna]
♪ Eu ♪
♪ Vivo em penas ♪
♪ Com meus sentimentos ♪
♪ Nasci de um povo ♪
♪ Primitivo ♪
♪ Eu sou o homem de Neanderthal ♪
[grunhe como homem das cavernas]
[menino grunhe]
[pai] Chora!
Chora!
Mandei você chorar agora!
- [menino] Não vou chorar. - Chora!
- Não vou. - Chora, rapaz! Chora!
[pai ofega]
[pai grunhe]
Chora!
Chora!
[pai grunhe]
[irmão] Chora logo, Ney!
[pai] Não vai chorar, não?
Não vai chorar, não?
Hein? Você não vai chorar?
Tira essa roupa.
[mãe] O que é isso, Antônio? Antônio, para! Para com isso!
- Antônio, para! - Pra você aprender a ser homem!
Antônio, para!
É pra deixar seu filho aí!
Pra dentro, vocês! Passa pra dentro!
- O que ele fez, Antônio? - [Antônio] Não interessa!
[mãe] Os vizinhos estão olhando isso aqui? Hã?
[pássaro canta]
[chiado da vitrola] [música suave orquestrada]
Tomara que um caminhão atropele esse desgraçado.
Como é que é?
Nunca mais diga uma coisa dessas, ouviu?
[banda toca]
[locutor] E, agora, lá vem ela, a nossa Rainha da Mata!
Recebam-na com muitos aplausos.
Elvira Pagã!
Direto do auditório da rádio para a sua casa!
["Rainha da Mata" toca]
[plateia vibra]
Maravilhosa. Linda!
- Linda! - [assobio]
♪ Lá vem ela passando, a rainha da mata ♪
♪ Trazendo a bicharada Pra com ela desfilar ♪
♪ Traz um macaco, um elefante, e um leão ♪
♪ Só a cobra que não pode Desfilar neste cordão ♪
♪ Ai, ai, ai, ai! ♪
♪ Ai, ai, ai, ai! ♪
♪ Lá vem ela passando, a rainha da mata ♪
♪ Trazendo a bicharada Pra com ela desfilar ♪
♪ Traz um macaco, um elefante, e um leão ♪
♪ Só a cobra que não pode Desfilar nesse cordão ♪
[música desvanece]
[rugido]
[rugido]
[Antônio] Que pouca vergonha é essa?
Hum?
Eu não tô criando filho pra ser artista.
Isso é coisa de puta e viado.
Pedreiro também pode ser viado.
[Antônio] Como é que é?
Fica reto. Que nem homem.
Ombro para trás. Olha para mim.
Filho meu…
jamais vai ser artista.
Você entendeu?
Vai!
Mil e quinhentas vezes até encher a caixa d'água.
Vai!
[rangido de ferro]
Isso. Força!
Bom.
[rangido continua]
[rangido de ferro continua]
[rapaz ofegante]
[grunhe, arfa]
[Antônio] Sim, entendo, senhor.
Sim, eu entendo, tenente. Eu entendo.
Mas o senhor há de convir que eu servi esse país numa guerra.
Eu ganhei duas medalhas pela campanha da Itália.
Então, subir de cargo é um benefício que eu tenho direito.
Não, eu entendo, claro. Desculpa.
Eu entendo, senhor.
Sim, tá bom. Eu aguardo.
Obrigado. Até logo.
[telefone bate]
O que tá fazendo?
- Tá gastando água, fecha a torneira. - Sou eu…
Eu encho a caixa d'água todo dia. Posso gastar quanto eu quiser.
Fecha a torneira, Ney.
Não tá escutando o seu irmão, não, rapaz?
Tá surdo?
O senhor também não pode falar nada, né?
Porque sou eu que trago o balde pra lavar seu pé toda noite.
[grunhem]
- [irmão] Mãe! Mãe! - [Ney grita]
- [criança chora] - [mãe] O que é isso?
- Para! Vocês dois, para! - Vai embora da minha casa agora!
[mãe] Vai.
Eu saio, pai. Eu vou sair daqui com gosto.
Porque eu tenho nojo de olhar pra tua cara.
[mãe] Para. Antônio.
Ney!
- Ney! - O que aconteceu, Ney?
[mãe] Ney.
Larga disso, Ney.
Ney, seu pai está falando da boca pra fora.
- Não tá falando da boca pra fora. - Larga isso. Larga isso.
- Eu vou embora. - Não.
- Eu vou, mãe. - Não. Você não vai.
Vou, sim.
Eu vou.
E eu não vou só por mim, não.
Eu vou por você também.
Pra ver se você tem paz nessa casa.
Você não tem nem pra onde ir, Ney.
- Eu acho um lugar. - Não vai achar, Ney.
Não vai embora, Ney, por fa… Ney!
Vai, vai, vai. Vê se não volta pra pedir nada.
Não quero filho viado aqui nessa casa.
Eu não sou viado.
Agora, quando eu for, pai…
aí o Brasil inteiro vai saber.
[mãe] Ney!
[acorde de suspense]
[homem] Preparar pelotão!
Um, dois, três, quatro, cinco, seis Um, dois, três, quatro
Um, dois, três, quatro Um, dois, três, quatro
- Cinco, seis, sete, oito - Vamos, pelotão!
[grunhidos]
[homem] Vamos lá, força!
[grunhidos]
[vozerio]
Que rabo, filho. [ri]
[vozerio continua]
Bora?
Vamos?
[homem] Estava tendo algum problema de disciplina…
[conversa de fundo]
Mas ele me surpreendeu.
Ele é disciplinado, chega cedo, cumpre com as tarefas.
Em poucas palavras, se eu tivesse cem homens como seu filho,
meu pelotão seria perfeito.
[Antônio] Vim ver o que você estava aprontando.
Agora vou ter que voltar pra Campo Grande
e aguentar sua mãe jogar na minha cara que eu estava errado.
[riso]
[Ney] Juro! Não, bati continência pra ele.
E a sobrancelha dele, Cato, tremia.
Igual uma vara verde, assim.
- Tremendo assim. Aham. - [Cato] Sério? [ri]
- [Ney arfa] - [Cato ri]
Aí, você conseguiu derrubar seu pai.
Ué, ninguém mandou ele vir aqui.
Não era o que você queria quando se alistou na Aeronáutica?
Eu queria era sair daquela casa.
Muita briga.
[respira fundo]
Eu queria provar pra mim que eu consigo sozinho.
E escolheu justo o território dele?
Você provocou, Ney. Você cruzou a linha de combate.
[Ney pigarreia]
Ué, o que eu ia fazer? Ou eu me alistava,
ou eu, sei lá, eu casava.
Pois é. Podia ter casado.
[conversas de fundo]
[Ney ressona]
[acorde de suspense]
[respiração ofegante]
[Ney geme]
[Ney ofegante]
- [homem] Boa viagem, soldado. - [Cato] Obrigado, senhor.
[vozes ao fundo]
- [tenente] Até a próxima. - [Cato] Até.
[motor de avião]
[exala]
Não acredito que você tá indo embora.
Vou aproveitar esse avião da FAB e vou embora pra casa.
E você?
Já sabe pra onde vai?
Não.
Uma coisa que eu sei é que não vou voltar pra casa.
Ué, vem comigo, então.
Vamos pegar esse avião. Vamos junto pro Espírito Santo.
[risos]
Aí a gente faz o que lá?
[acorde de suspense]
Boa sorte.
Tchau.
[motor de avião]
[vozerio]
[coral] ♪ Tu não te lembras Da casinha pequenina ♪
♪ Onde o nosso amor nasceu ♪
♪ Tu não te lembras da casinha pequenina ♪
♪ Onde o nosso amor nasceu ♪
[professor] Ok. Eh…
Agora, só as meninas, por favor.
Contraltos.
Ok?
♪ Tu não te lembras da casinha pequenina ♪
♪ Onde o nosso amor nasceu ♪
♪ Ai ♪
♪ Tu não te lembras da casinha pequenina ♪
♪ Onde o nosso amor nasceu ♪
♪ Tinha um coqueiro do lado… ♪
Desculpe.
Continua.
♪ Um coqueiro do lado ♪
♪ Que, coitado, de saudade ♪
♪ Já morreu ♪
Você tem a voz rara como os castrati.
[risinhos]
É, a minha voz é fina.
- Eu sei. - [professor] Não.
É mais que isso, rapaz. É…
Sua voz é muito especial.
Como é que você chama?
Ney.
De Souza Pereira.
Mais um que caiu aqui, em Brasília.
- Eu? [ri] - É. [ri]
E o que você tá achando da capital da esperança?
Vazia.
[ri]
[rapaz] Por enquanto.
Aqui tem trabalho, isso aqui vai encher de gente.
Seu amigo tem razão.
Tem muito espaço.
[homem] Hum.
É de enlouquecer.
[rapaz ri baixo]
[homem] Você também é cantor?
- Eu? - [homem] Hum.
Não, eu trabalho no hospital.
Ah, a modéstia.
Esse ser aqui tem a voz mais linda do coral.
Eh.
Eu quero mesmo é ser ator.
É isso que eu quero.
Você pode atuar e cantar.
Como nas óperas.
Você nunca pensou nisso?
Saudade do Palais Garnier.
Toda semana, uma ópera diferente.
Onde?
[rapaz ri]
O Eugênio acabou de chegar de Paris.
Ele estava morando lá.
[Eugênio] É.
Aí, você voltou por quê?
Porque a verdadeira desgraça do homem é não saber amar.
[música de piano suave]
- [música continua] - [gemem, arfam]
[Ney arfa]
Espera, espera.
[Ney exala]
Eu nunca fiz isso.
[exala]
Confia em mim.
Confia.
[música de piano continua]
[música para]
- Tira. Tira. - Ah.
Ué, por quê?
Tá apertada demais.
Eu sempre usei calça justa.
- Você não vai comigo assim. - [ri]
Tira.
Hum.
Eugênio, é única calça que tenho pra ir pra essa festa.
Bota essa minha.
Vai ficar lindo.
[Eugênio grunhe]
[estala a língua]
Eu não tô com fome.
Você não comeu nada na festa.
Bom, se fosse aquele garçom te oferecendo, você comia.
Eugênio, o rapaz estava trabalhando.
[ri com deboche]
Eu vi.
- Você viu, né? - Uhum.
É, você viu, você vê. Seu problema é esse.
Tudo você imagina.
[ri]
Isso aqui não tá funcionando mais.
- O que não tá funcionando? - A gente não tá funcionando.
[grunhe]
Deixa de ser criança, vai.
Eu não sou criança.
Eu nunca fui, nem quando eu era.
[estala a língua]
Achei que, quando fosse pra ser com um homem, ia ser diferente.
Que ia ser… bom.
Achei que com você ia ser diferente, mas não, é a mesma coisa.
É posse, ciúme, obsessão, a tua paranoia.
Isso aqui tá um saco.
- Ney. - Isso aqui tá um saco.
Olha pra mim.
- Olha pra mim. - Não!
Quero olhar pra onde eu quiser, Eugênio.
Entendeu? Eu quero vestir a calça que eu quiser.
Quero fazer o que eu quiser.
[coral vocaliza]
[coral continua vocalizando]
♪ Tu não te lembras da casinha pequenina ♪
♪ Onde o nosso amor nasceu ♪
♪ Tu não te lembras da casinha pequenina ♪
♪ Onde o nosso amor nasceu ♪
♪ Tinha um coqueiro do lado ♪
♪ Que, coitado, de saudade ♪
♪ Já morreu ♪
[coral vocaliza]
♪ Tu não te lembras das juras Oh, perjura ♪
♪ Que fizeste com fervor ♪
♪ Tu não te lembras das juras Oh, perjura ♪
♪ Que fizeste com fervor ♪
♪ Daquele beijo demorado ♪
♪ Prolongado que selou ♪
♪ O nosso amor, aquele beijo ♪
♪ Aquele beijo demorado ♪
Eugênio.
♪ …prolongado que selou… ♪
- Quer me matar? - [Eugênio grunhe]
Então mata agora, mata.
[Eugênio grunhe]
[coral vocaliza]
[Ney] Chega.
[chora]
[buzina de carro]
[vozerio]
- Nossa, tá muito chique. - Ai, isso eu pego lá.
Não tem que pagar nada.
Isso aqui não, olha.
Aqui é do ateliê de um amigo meu. Ele…
Ele corta as coisas, e o que sobra, trago pra mim.
- Faz mágica, né? - Eu gostei disso.
- Gostei. Ficou bom, né? - [moça 1] Tá chique, Ney.
Ficou bom?
Agora, a cereja do bolo.
[moças] Uh.
[moça 2] Fita cassete, né?
[Ney] Passei uma semana puxando fita.
[moça 1] Tá com cara de que deu trabalho isso aí.
[moças riem]
[Ney] Olha, linda!
[moças vibram]
[batidas na porta]
- [rapaz] Deve ser a Bete. - [moça 1] Pode entrar!
[moça 2] Assim.
[Antônio] Sua mãe e eu nos mudamos. Não sei se sabe.
A gente saiu da vila militar.
[pigarreia, funga]
[Ney] Ela me falou.
- É. - Quem foi que quis? Foi você?
Fui eu.
Eu pedi pra ir pra reserva.
Sabe, Ney, não tô concordando muito com o que tá acontecendo nesse país.
É. Tá estranho mesmo.
Acho que você fez muito bem.
É. [pigarreia]
Eh, a gente fez muito amigo lá, em Ilha Solteira, e fiquei pensando.
Eu posso te arrumar um emprego pra te ajudar a sair dessa.
Sair de qual, pai?
Estou trabalhando aqui. Com o meu artesanato.
- Entrei no teatro. - [Antônio ri debochado]
Isso dá dinheiro, Ney?
Isso vai garantir sua aposentadoria?
Não vou passar a vida pensando em me aposentar.
[Antônio] Claro que não.
- Tchau. - [moça] Tchau, Ney.
[Ney suspira]
- Tchau. A gente se vê no ensaio. - Ficou boa a peruca.
- Maravilhosa. - [rapaz] Beijo, Ney.
[Ney] Hum.
Olha, leva o cinto.
Você tem quase 30 anos já, meu filho.
Fica pulando daqui pra lá, de lá pra cá.
Sem objetivo na vida.
- E essa gente que frequenta aqui? - Essa gente, não.
São meus amigos. Aqui, tenha respeito, por favor.
Volta pra casa, Ney.
Sua mãe que tá pedindo.
Você não entendeu ainda, né, pai?
Eu escolhi isso aqui.
Eu escolhi.
Eu não tenho dinheiro.
Eu realmente não tenho dinheiro. Não tenho casa própria.
Tenho quase nada.
Mas eu sou feliz assim.
[Ney] Você quer almoçar?
- [Antônio] Não. - [Ney] Tem restaurante bom.
- A gente pode comer lá. - [Antônio] Tenho que ir.
Toma.
Pega.
Não quero.
Eu não quero mesmo.
É…
O senhor manda um beijo pra mãe?
- Vai lembrar? - Vou.
Pai?
["Réquiem para Matraga" ao violão]
[moça] ♪ Vim aqui ♪
♪ Só pra dizer ♪
♪ Ninguém há de me calar ♪
Tenta mais alto. Tenta mais agudo.
♪ Que seja ♪
Tipo assim…
♪ Pra melhorar ♪
♪ Se… se… ♪
♪ Se alguém tem que morrer ♪
É bom assim também.
- É bom assim, né? - Uhum.
♪ Que seja pra melhorar ♪
Agora é lindo.
♪ Tanta vida pra viver ♪
♪ Tanta vida a se acabar ♪
♪ Com tanto pra se fazer ♪
♪ Com tanto pra se salvar ♪
O mundo tem que escutar tua voz.
Luli, já vem você de novo.
Ney, lá vem eu de novo.
Ai, Luli, eu sou ator.
Eu sou ator, não sou cantor.
Ué, mas tudo é teatro.
[ri]
Não sou eu que estou dizendo, Ney.
Não é pra todo mundo que sai a carta da morte três vezes.
Já falei. Não, não é pra todo mundo.
- [Ney] Hum. - [Luli] Hum.
Esse Ney aí que a gente conhece…
esse Ney vai morrer.
Vai nascer um Ney novo.
[ruídos da mata]
- [zumbido de insetos] - [macacos gritam]
["Réquiem para Matraga" recomeça]
♪ Vim aqui ♪
♪ Só pra dizer ♪
♪ Ninguém há de me calar ♪
♪ Se alguém ♪
♪ Tem que morrer ♪
♪ Que seja pra melhorar ♪
♪ Tanta vida pra viver ♪
♪ Tanta vida a se acabar ♪
♪ Com tanto pra se fazer ♪
♪ Com tanto pra se salvar ♪
♪ Você que não me entendeu ♪
♪ Não perde ♪
♪ Por esperar ♪
[rapaz] Genial!
[sotaque português] A voz que estamos buscando.
- Não é bom demais? Não falei, João? - Bom ouvir isso.
Ele é a pessoa certa.
- Nunca vi um agudo desse. - [sotaque português] Deixa ele falar.
Eu falar? Não, eu quero que vocês falem.
Falem um pouco sobre a banda.
[sotaque português] Sim, pra já, somos só nós dois. Eu e o Gerson.
E a ideia é musicar poemas de autores já publicados.
Tipo, Manoel Bandeira, Solano Trindade, sabe?
Uma maneira de driblar a censura.
Mas vocês têm alguma coisa? Vocês têm repertório?
- Alguma música pronta? - Claro.
- Sim. - [Luli] Toca aquela do Vinícius.
Aquela é boa.
Não tá exatamente pronta ainda, mas…
É mais ou menos assim.
["Rosa de Hiroshima" ao violão]
♪ Pensem nas crianças ♪
♪ Mudas, telepáticas ♪
♪ Pensem nas meninas, cegas, inexatas ♪
♪ Pensem nas mulheres, rotas, alteradas ♪
♪ Pensem nas feridas como rosas cálidas ♪
♪ Mas, oh, não se esqueçam ♪
- ♪ Da rosa, da rosa ♪ - [Ney vocaliza]
- ♪ Da rosa de Hiroshima ♪ - [Ney vocaliza]
♪ A rosa hereditária ♪
- ♪ A rosa radioativa ♪ - [Ney vocaliza]
♪ Estúpida, inválida ♪
Ah, sua mãe! [ri]
[vozerio]
Pessoalmente, pra você!
Quando eu peguei aquele livro que você deixou lá em casa, eu abri…
- eh, e me deparei com esse poema. - [João] Uhum.
[Gerson] Que é um poema muito forte, né?
Aí eu pensei que fazia sentido colocar essa melodia
porque tem um contraste aí, né?
[Ney vocaliza]
[sotaque português] Não consegui pensar em adicionar muita coisa
porque eu acho que a beleza está nesse contraste que tu disseste.
Entre a força da poesia
e a simplicidade e a tua voz,
- nesse tonzinho bem simples. - [Gerson] Pode ser bonito.
♪ Pensem nas meninas, cegas, inexatas ♪
Ah, isso é lindo.
♪ Pensem nas mulheres, rotas, alteradas ♪
[Ney] Isso é bom.
♪ Pensem nas feridas como rosas cálidas ♪
[João] Agora, aqui.
[Ney] ♪ Sem cor, sem perfume ♪
- Tem aquele momento do… - [porta abre]
[homem, sotaque português] Está a ficar bom?
- [Gerson] Apolinário. - [Apolinário] Gerson.
[João, sotaque português] Meu pai,
poeta e editor de cultura do jornal A Última Hora.
Ele vai nos ajudar com a divulgação.
- [Apolinário] Podemos conversar agora? - Claro.
A sós.
[João] Vamos pra lá.
[Gerson] Foi ele que escreveu "Amor" e "Primavera nos Dentes".
Ah.
[João, sotaque português] Dez de dezembro.
[Gerson] Que é isso?
[João] Figurino.
[Ney ri]
João, barba e boina? Não.
[João] O que que tem?
É um símbolo da resistência.
Não tenho nada contra a Revolução, mas deixa o Che Guevara lá.
[Gerson ri]
Se não tiverem uma ideia melhor, ficamos com as boinas.
Estou a pensar em tirar algumas mesas.
E levar estas coisas lá pra trás. Assim ficamos com mais espaço.
[Ney] Tá.
[Ney] Onde é que eu posso ficar?
Aqui, ó. Este metro quadrado é teu.
O que é que achas?
Acho bom.
Agora vou fazer o que eu quiser aqui dentro, tá?
[Luli] Mas o que você pretende fazer?
[Ney] Eu não sei, Luli.
Eu só não quero virar um crooner da banda, sabe?
Essa coisa careta.
[Luli] Careta, Ney?
Não tem como ser careta com aquelas letras.
Ah, mas é que todo mundo já fez…
letras cifradas assim, sabe?
Eu queria fazer outra coisa. Eu queria…
[inspira]
Não sei, sabe? Colocar energia pra…
pra vibrar, pra girar. Colocar o corpo.
[rapaz] Acho que você precisa de um novo nome.
[Luli] Ah, eu concordo.
Porque Ney Pereira não dá. Ney Pereira é careta.
[rapaz] Qual é seu nome completo, Ney?
[Ney] Eu vou dizer. Olha.
Meu nome é Ney de Souza Pereira.
E o do seu pai, qual é?
Antônio Matogrosso Pereira.
[vozerio na TV]
[mãe] Eu gosto de "Ney Matogrosso".
O que você acha, Antônio?
[vozerio na TV continua]
Você não tem sapato, não?
[Ney exala]
É isso que te preocupa?
Está usando droga?
Antônio.
Olha, eu já usei droga sim, pai.
- Se o senhor quer saber. - É contra a lei, sabia, né?
[Ney] Uhum. Qual lei?
A lei dos militares?
[Ney suspira]
Também gosto de Secos & Molhados.
É um nome diferente.
- Chama atenção. - É. [ri]
Eu acho bonito.
Agora, eu vim avisar que é uma banda escandalosa, mãe.
- E é, meu filho? - É.
Escandalosa.
- Vim dizer pra não tomarem susto. - Hum.
Capaz de você se assustar quando me vir na plateia.
- Ah, é? - [risos]
Mas, cuidado, porque posso estar pelado.
- [mãe gargalha] - [Ney ri]
É verdade.
[mulher na TV] Imagine uma cidade inteira encerada com a enceradeira…
[Antônio exala]
[mulher na TV] Silenciosa, com movimentos leves e afinados.
["O Vira" toca]
[João] Vamos, gente.
[Ney] ♪ O gato preto cruzou a estrada ♪
♪ Passou por debaixo da escada ♪
♪ E lá no fundo azul ♪
♪ Na noite da floresta ♪
♪ A lua iluminou ♪
♪ A dança, a roda, a festa Vira, vira, vira ♪
♪ Vira, vira, vira homem, vira, vira ♪
♪ Vira, vira lobisomem, vira, vira, vira ♪
♪ Vira, vira, vira homem, vira, vira ♪
♪ Bailam corujas e pirilampos ♪
♪ Entre os sacis e as fadas ♪
♪ E lá no fundo azul ♪
♪ Na noite da floresta ♪
♪ A lua iluminou ♪
♪ A dança, a roda, a festa Vira, vira, vira ♪
♪ Vira, vira, vira homem, vira, vira ♪
♪ Vira, vira lobisomem, vira, vira, vira ♪
♪ Vira, vira, vira homem, vira, vira ♪
[homem] Bicha!
Viado!
Vira, vira homem, sim!
[banda continua tocando]
[indistinto]
[plateia vibra]
[inaudível] O senhor vai tomar no cu.
[plateia vibra]
♪ Bailam corujas e pirilampos ♪
♪ Entre os sacis e as fadas ♪
♪ E lá no fundo azul ♪
♪ Na noite da floresta ♪
♪ A lua iluminou ♪
♪ A dança, a roda, a festa Vira, vira, vira ♪
♪ Vira, vira, vira homem, vira, vira ♪
♪ Vira, vira lobisomem, vira, vira, vira ♪
♪ Vira, vira, vira homem, vira, vira ♪
[grita]
- [banda encerra a música] - [aplausos]
[plateia vibra]
[plateia continua vibrando]
Que papinho é esse, Moracy?
A gente acha que o seu comportamento tá se excedendo um pouco, Ney.
[sotaque português] Estão dizendo que somos uma banda de homossexuais.
Ué.
- Digam que vocês não são. - [Gerson] Não é tão simples, Ney.
- A gente é um trio. - O problema sou eu, então.
[João] Não é você.
São as suas roupas, a sua maquiagem, os seus trejeitos.
Meus trejeitos.
É, Ney, tudo remete à mulher.
Eu não me sinto uma mulher ali. Me sinto um ser indefinido.
Tô experimentando. Sou um bicho.
[Moracy] Pessoalmente, acho lindo.
Mas talvez um pouco ousado.
Não sei. Tô falando como empresário, tá?
Não tem nada de pessoal.
Também não precisa tirar a maquiagem.
É mais uma questão de suavizar.
Não.
Eu não acho.
Eu acho que tem que pisar mais fundo ainda.
E não sou só eu, não. Nós três.
Não queremos chamar mais a atenção.
Já tivemos duas músicas cortadas pela censura.
Ah é? Você está refém da censura agora, né, João?
Eu não estou de acordo.
Não sei o que o Gerson acha, mas eu…
["Sangue Latino" toca]
♪ Jurei mentiras e sigo sozinho ♪
♪ Assumo os pecados ♪
♪ Os ventos do norte não movem moinhos… ♪
[homem] Parou, parou, parou a música.
É proibido olhar pra câmera.
Ah, eu tô olhando pra quem tá em casa.
[homem] Mas não pode.
Não pode por quê?
[homem] Porque na TV é assim.
Vamos mais uma?
Sem olhar, tá bom?
Vai, câmera. Do mesmo ponto, tá? A gente segue daí.
["Sangue Latino" toca]
♪ Minha vida, meus mortos Meus caminhos tortos ♪
♪ Meu sangue lati… ♪
♪ …no-o-o-o-o-o ♪
♪ Minha alma cativa ♪
♪ Rompi tratados, traí os ritos ♪
♪ Quebrei a lança, lancei no espaço ♪
[diretor] Anota aí.
Não pode aparecer desse jeito com rabo de cavalo
e maquiado que nem mulher.
Moracy, me aponta na rua uma mulher com maquiagem igual a minha.
♪ E o que me importa é não estar vencido ♪
♪ Minha vida, meus mortos Meus caminhos tortos ♪
O quadril, esse quadril mexe muito.
É só deixar a câmera na minha cara.
♪ Meu sangue latino ♪
E esse olhar?
Que olhar?
É o único que eu tenho.
[música desvanece]
[mãe] Que lindo.
[arfa]
Precisa ficar rebolando de saia?
Isso não é uma saia, Antônio.
É uma calça de odalisca.
Não tá vendo, não?
[homem] Você sabe o que é andrógeno?
O dicionário diz "Andrógeno:
Comum ao homem e à mulher."
Afinal, os Secos & Molhados são a explosão de um novo caminho musical
ou de um comportamento?
[clique da câmera]
[clique da câmera]
[homem 1] Pessoal, cinco minutos, hein?
- [homem 2] Cinco minutos. - [homem 3] Cinco minutos.
[locutor] Tudo lotado, esgotado.
Todas as arquibancadas, cadeiras, poltronas, tudo, tudo.
[repórter] Quantas pessoas cabem aqui?
[locutor] São umas 20 mil. Agora dizem que tem fora mais 20 mil.
[música enigmática]
[homem] Ney Matogrosso, o líder do grupo, diz que eles existem atrás das máscaras.
[Ney] Ah!
- [suspira] - [palmas]
Já vai!
[exala]
[homem] Sr. Ney?
É da Secos & Molhados Produções. Pediram pra voltar com a sua assinatura.
- Você aguarda um minuto, por favor? - [homem] Claro.
[Ney] João Apolinário Teixeira e João Ricardo. Sócios.
Hum.
Prestação de serviço. Funcionário.
Faz um favor pra mim.
Você volta lá, entrega pra eles
e diz que eu mandei limpar o cu com esse papel.
- [sotaque português] É só rebolar. - Só rebolar?
- É. - [ri]
- Ah, João, tá bom, então. - Não tô dizendo que a gente só faz isso.
- Pra você, parece que é. - Pode continuar me elogiando.
Acho que não consegues entender
- que temos tarefas diferentes. - Você quer separar a gente.
Você quer separar. Você quer separar e você vai conseguir.
Você vai conseguir, João.
- É isso. Você conseguiu. - Sou eu que estou a separar, não é, Ney?
João, você sabe o que seu pai tá fazendo, né?
Você viu o contrato, você leu.
Mas alguém precisa pôr ordem nas coisas.
Ordem? Ai.
Teu pai tirou o Moracy e entrou no lugar dele.
Não é assim.
O Moracy não prestava contas direito.
- Ele estava a desviar dinheiro. - Não. Não.
Não. O Moracy pode ser desorganizado, mas ele não é desonesto.
Não é.
- O meu pai está tentando nos proteger. - Proteger quem? Você?
A ele mesmo?
[suspira]
Eu não sei como é que você consegue ser conivente com isso.
Isso tá errado, João.
- Esse negócio não tá certo, não. - [João chora]
[chora]
É muita pressão.
[chora]
A gente ficou muito grande, muito rápido, cara, é muito assustador.
É assustador mesmo, João.
Assustador.
A gente perdeu o foco.
Deixou de fazer música.
Virou… Virou o quê? Uma máquina de fazer dinheiro
com todo mundo querendo tirar um pedaço da gente?
Que merda!
Eu não quero isso pra mim.
Eu não preciso disso.
Não.
Nunca precisei.
Não, Ney, espera!
Vamos pensar juntos.
Vamos viajar, só nós dois.
O que é isso, João?
O que é que tu quer? Uma lua de mel tardia? Hã?
Eu tô fora.
[porta bate]
[ruídos da mata]
[pássaros cantam]
[som sibilante]
[pássaros cantam] [zumbido de insetos]
[imita canto de pássaro]
[acordes enigmáticos de percussão]
[bateria toca]
[grita]
["Açúcar Candy" toca]
[vozerio]
[banda toca]
[vozerio continua]
- [rapaz] Boa noite. Boa noite a todos. - [todos] Boa noite.
Muito obrigado pela presença de cada um de vocês.
[banda continua tocando]
♪ As balas do teu 38 são como ♪
♪ Açúcar candy ♪
♪ No meu sangue ♪
♪ As tuas balas circulam velozes ♪
♪ Na minha veia ♪
♪ No meu sangue ♪
♪ As tuas balas… ♪
Percebi que você voltou mais radical neste seu primeiro trabalho solo.
Você acha, Fátima?
Você não acha?
♪ …maio ♪
♪ As balas do teu 38 são como ♪
O jornal Última Hora diz que você tem atitudes nojentas no palco.
E que você mancha a classe artística que tanto lutou pra ser aceita
- pelas famílias brasileiras. - Eu não tenho muito o que comentar.
Eu não leio esse jornal.
♪ As tuas balas me matam de prazer ♪
♪ As tuas balas têm mel… ♪
[rapaz] Silêncio, por favor. Pode continuar, Fátima.
Mas, Ney, por que você acha que as pessoas te agridem tanto?
[Ney] Porque elas se identificam.
Eu acho que elas veem coisas que existem nelas,
mas elas não sabem lidar.
- Por isso me agridem. - [mulher] Ney, aqui!
Ney, por favor.
♪ No meu dorso ♪
♪ Ai, precipício ♪
Não acha que é você que voltou agressivo?
Parece um bicho nocivo.
[ri]
Gostei.
♪ …ma-a-a-a-aio ♪ [grunhe]
Você cantaria os sucessos dos Secos & Molhados nesse seu show?
Gente, é outra fase.
[vozerio]
[Ney] Agora quero falar sobre o começo de outra coisa.
Posso cantar o que eu quero, do jeito que eu quero,
sem interferência de nada.
Mas o que a gente viu no palco hoje é a negação do Ney dos Secos & Molhados.
Parece que não é você.
Acha isso chocante pro teu público?
Eu espero que o meu público consiga ver diferente de você.
[acordes de baixo]
[geme]
[acordes de baixo]
Eu vou retirar.
Chega. Eu vou dizer uma última coisa.
O meu trabalho não se restringe aos Secos & Molhados, tá?
[arfa]
[beijo]
- [aplausos] - [público vibra, assobia]
[vozerio]
[rapaz] Tanto que já falei, gente. É isso que dá trazer qualquer um pra cá.
Onde já se viu?
Dormir com um cigarro aceso no colchão de água?
[moça] Não sei do que tá falando, Luisinho. Cheguei sozinha ontem.
Deve ser coisa da Sandra isso.
[campainha toca]
[Sandra] Nossa!
Da onde veio isso? Nunca ouvi.
Sandra, o nome disso é campainha.
Já acordou estressado hoje. Tá assim.
Você.
Ney. É o canalha da cobrança.
Ah.
Canalha.
Entra.
Pode sentar.
Senta.
Você pode escolher.
Pode levar o que quiser, porque meu dinheiro acabou.
[Luís] Vou pegar um café.
[porta fecha]
- Quanto falta para quitar a dívida? - Eu não sei. Eu não sei.
Eu só sei que o dinheiro que eu tenho
tá servindo pra cobrir o prejuízo do show.
Eu sabia que ia dar merda com aquele empresário.
[inspira]
E deu certo com algum?
Você tá sempre rompendo com alguém.
Sabe o que eu acho?
[Ney] Hum.
Acho que você tá muito tenso desde que saiu do Secos & Molhados.
Parece que você tá querendo provar que é capaz de…
fazer tudo, de existir sozinho.
Mas aí você tá dizendo isso por quê?
- Acha que não sou capaz? - Claro que você é capaz.
Não é isso.
[Ney inspira]
É que você tá tão preocupado com a crítica
que você esqueceu do público.
As pessoas te querem no palco.
Te querem vivo.
Quente.
[Ney] Hum.
Eu também quero isso.
Então deixa de ser bicho.
Vira gente.
[música delicada]
["Bandido Corazón" toca]
[Ney] ♪ Bandido ♪
♪ Bandido corazón ♪
♪ No deja de te amar ♪
♪ Bandido, bandido corazón ♪
♪ No puedo controlar ♪
♪ Quero te pedir minhas desculpas ♪
♪ Isso sempre acontece ♪
♪ Tenho um coração que é desvairado ♪
♪ E nunca me obedece ♪
♪ Eu já sou um cara meio estranho ♪
♪ Alguém me disse isso uma vez ♪
♪ Meu coração é de… ♪
Deu certo. Já deu.
[Ney] ♪ Mas o que salva É a minha insensatez ♪
♪ Bandido, bandido corazón ♪
♪ No deja de te amar ♪
♪ Bandido, bandido corazón ♪
♪ No puedo controlar ♪
♪ Eu que sempre fui chegado ♪
♪ Ao romance e aventura ♪
♪ Eu talvez seja condenado ♪
♪ A viver perto da loucura ♪
♪ Por isso quero te pedir Minhas desculpas ♪
- Gostoso! - ♪ Eu canto mais uma vez ♪
♪ Meu coração é desvairado, eu sei ♪
♪ Mas o que estraga é a sua timidez ♪
♪ Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai ♪
♪ Ai, ai, ai, ai, ai ♪
♪ Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai ♪
[risos]
[banda toca ao fundo]
[plateia grita]
[aplausos]
[vibram]
[banda continua tocando]
Gostoso! Eu te amo!
Gostoso!
[homem] Que delícia!
Gostoso!
- [assobios] - [plateia vibra]
[mulher] Tira!
[homem] Ney, eu te amo!
[plateia vibra]
[gritam]
Ui!
[mulher] Delícia!
[homem] Tira minha roupa, Ney!
[banda toca mais alto]
♪ Bandido, bandido ♪
♪ Bandido, bandido ♪
♪ Ai, ai, ai, ai, ai ♪
♪ Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai ♪
♪ Bandido, bandido ♪
♪ Bandido, bandido ♪
♪ Bandido ♪
♪ Bandido ♪
[plateia vibra, grita]
[Ney] Uau. Foi bom o show?
- Foi maravilhoso. - Eu adorei.
Tem um pessoal querendo falar com você.
Quem?
São censores.
Boa noite, com licença.
A gente veio aqui fazer algumas observações sobre o show.
[Ney] Pois não.
É que tem alguns gestos seus que são um tanto quanto libidinosos, né?
[Ney] É, eu sei, mas é de propósito.
Isso aqui é um show de teatro de revista.
[censor] É.
Mas, no sul, é uma coisa, aqui pra cima, não fica bem.
O público do nordeste não tá preparado.
Principalmente pro momento em que você…
- Quando você faz aquele… - Balança a pélvis.
Isso, isso.
Balança a pélvis.
Engraçado que eu acabei de voltar de Teresina.
- O show foi ótimo. Foi bom, né, Luís? - Uhum.
Eu pensei que o Recife fosse um pouco mais avançado.
Quantas vezes o senhor faz esse vai e vem?
[Ney] Como é?
Esse requebrado aí, quantas vezes?
- Quantas vezes? - [censor] Hum.
[inspira]
- Luís, acho que umas… - [Luís] Umas seis?
Eu acho que é isso, umas seis vezes, mais ou menos.
[censor] Pois faça metade, então.
Três vezes tá bom, pronto.
Tá certo, tá bom.
Recado dado.
Tenha uma boa noite, viu?
[rapaz] Parabéns pelo show.
- [ri abafado] - Ah.
O que… [ri]
- Por que tu falou seis vezes? - Eu ia falar o quê?
- Sei lá, 20! Falava 20. - [ri]
- [Ney] Hoje. Hoje. - [Luís] Hoje?
Deu mais de mil pessoas, fácil.
Tem um monte aqui no hall.
Olá gente, tudo bem? Calma.
Vamos só organizar uma fila aqui bem direitinho
que ele vai atender todas vocês, tá bom?
- Olha! - [fã 1] Tudo bem?
[Luís] Um pouquinho mais pra trás. Ele vai atender todo mundo.
- Opa. Pode tirar foto, sim. - [vozerio]
[Luís] E aí, como é que você está?
Gostou do show?
- [fã 1] Gostei. - [fã 2] Maravilhoso.
[música de suspense]
- [Cato ri] O Cabo Dias, lembra? - Eu lembro.
Nossa.
Imagina o Cabo Dias assistindo ao seu show hoje.
Ia bagunçar a cabecinha dele.
Bagunçou a tua?
[inspira] Ô…
[Ney] Hum.
Você é corajoso, Ney.
[Ney pigarreia]
Por que você tá dizendo isso?
[suspira] Eu…
Eu casei, tive filho.
Cumpri o protocolo todo.
Você tá feliz, Cato?
Eu amo meus filhos.
- Bom. Que bom. - É.
[Cato ri]
Pra mim, você continua o mesmo, Cato.
- Ah, é? - É. O mesmo Cato.
[Cato ri]
Vivo.
Alegre, bonito.
[Cato inspira]
[Ney exala]
[inspira] Eu preciso ir embora.
Já amanheceu.
É isso.
A gente aqui de novo, Cato.
Se despedindo.
Foi bom te ver.
["Postal de Amor" toca, com Fagner e Ney Matogrosso]
Foi bom que você me viu.
[Cato ri]
Manda um beijo nos seus filhos.
Tá?
[Ney] ♪ Meu amor ♪
♪ Sem cor, velho postal, amor banal ♪
♪ Sem nenhum ♪
♪ Sem nenhum valor ♪
[Fagner] ♪ Nessa noite ♪
♪ Meu pobre amor de papel ♪
♪ Esqueça a cor ♪
♪ Do anúncio lá do céu ♪
[Ney] ♪ Na arcada principal ♪
♪ Secreto mal ♪
♪ Numa noite de néon ♪
♪ De papel crepom ♪
♪ Na arcada principal ♪
♪ Secreto mal ♪
♪ Numa noite de néon ♪
♪ De papel crepom ♪
[música continua]
[Ney e Fagner] ♪ O mar ♪
♪ Vai e volta ♪
♪ Com o gosto ♪
[Fagner] ♪ Do licor que ficou ♪
♪ Da tua boca ♪
[Ney] ♪ Do suor que ficou ♪
♪ Na minha boca ♪
[Ney e Fagner] ♪ Vai deixando Minha parda voz ♪
♪ Parda voz, parda voz, parda voz ♪
♪ Parda voz de louca ♪
[Ney] ♪ Louca, louca, louca, louca Muito louca ♪
[Ney e Fagner] ♪ Muito louca ♪
♪ Louca, louca, louca, louca, louca Louca, louca, muito louca ♪
♪ Muito louca ♪
♪ Louca, louca, louca, louca Louca, louca, louca, muito louca ♪
♪ Muito louca ♪
♪ Louca, louca, louca, louca, louca Louca, louca, muito louca ♪
[Fagner] ♪ Tão blue, tão bom ♪
[Luís] Com licença.
Bom dia, Ney.
Ei, vamos acordar?
Vai passar o dia inteiro na cama?
Olha. Aqui.
- [Ney] Que isso? - Não quer?
[Ney] Tem quatro copos ali.
Ué, nunca sei quantas pessoas vou encontrar aqui, Ney.
Que horas são?
[Luís] É quase meio-dia.
Ah, tá cedo.
[Luís] Pelo amor de Deus, cedo, Ney? Cedo, sério?
Não faz ideia da quantidade de coisa que já aconteceu aqui nessa casa.
Logo de manhãzinha, o presidente do Flamengo te ligou.
Tá convidando você pra assistir a um jogo de futebol lá no Maracanã.
[normal] Teve também uma moça, que não quis se identificar.
Mas ela ligou a respeito de um tal de licor de morango
que vocês combinaram de tomar, Ney.
Bom, e não foi só o telefone.
Tem algumas pessoas ue vieram bater aqui,
- na porta de sua casa. - Não. Luís!
[Luís] Teve uma fã doida.
Ela disse que queria te entregar, adivinha?
Uma mobilete, Ney.
Ela chegou na mesma hora que eu estava enxotando um barbudo fedendo a álcool,
gritando teu nome, dizendo que queria falar contigo urgente,
só depois a Lidoca veio me falar que se tratava do Raul.
Seixas.
Raul Seixas, Ney. Eu botei ele pra correr.
Depois dá uma ligada pra ele. Inventa alguma desculpa.
- Luisinho, deixa eu descansar. - [Luís] Calma.
Mas eu nem te contei a melhor notícia do dia.
Olha pra cá.
Olha pra cá, Ney. Saiu.
[Luís ri]
Olha. Peguei hoje cedo, lá na Mesbla.
Estava embalado naquele plástico da vergonha.
[Ney] Hum.
Essa censura é um absurdo, né? Uma foto tão linda dessa.
Esse plástico serve pra divulgar ainda mais o trabalho.
[Luís] Sim, vai ser sucesso, eu tô sentindo.
- Vender todas as cópias. - Tomara.
- [Luís] Uhum. - Sabe por quê?
Porque vou pegar esse dinheiro
e procurar um lugar que eu tenha um pouco mais de privacidade.
- Sabe como é. - [Luís] Vou junto com você?
Ai de você se não me levar.
["Não Existe Pecado ao Sul do Equador" toca]
[Ney] ♪ Não existe pecado Do lado de baixo do Equador ♪
♪ Vamos fazer um pecado ♪
♪ Rasgado, suado, a todo vapor ♪
♪ Me deixa ser teu escracho ♪
♪ Capacho, teu cacho, um riacho de amor ♪
♪ Quando é lição de esculacho Olha aí, sai de baixo ♪
♪ Eu sou professor ♪
♪ Deixa a tristeza pra lá Vem comer, me jantar ♪
♪ Sarapatel, caruru, tucupi, tacacá ♪
♪ Vê se me esgota, me bota na mesa ♪
♪ Que a tua holandesa… ♪
- [amiga] Oi. - Ai. Caramba.
[vozerio]
[música encerra]
[risos]
- [Ney] O que você viu ontem? - Não posso revelar.
- Que misteriosa. - Mas eu tô presa nessa noite.
- [Luís] Sei. - Vou te contar.
[amiga] Ih.
[Luís] O que foi?
Olha, tu não brinca não, hein?
O cara é herdeiro da Som Livre, filho do todo-poderoso.
[Ney debocha]
Aquele bebezinho….
[amiga] Ah, bebezinho, amor. Vai nessa.
[Ney] Como é o nome dele?
[amiga] Cazuza.
Cazuza. E se tu falar três vezes, ele aparece.
- Ah é? Cazuza, Cazuza, Cazuza. - Cazuza. Cazuza.
[Luís ri]
[amiga] Ih.
- Acabou por aqui. Vambora. - [Luís] Ih, acabou pra gente. Aham.
- Sai. - [riem]
[amiga fala indistinto]
[Cazuza] Fica assim.
- [clique da máquina] - [Ney] Hum.
[ri]
[grunhe]
Eu fico imaginando o tanto de coisa que você pega aí nessa maquininha.
Eu gosto de fotografar.
[clique da máquina]
Quando eu tiro foto,
eu enquadro mistério
e engulo tudo.
[riem]
- [Cazuza] Eu sou faminto. - Uhum.
Cazuza, olha o que vai fazer com essas fotos.
Não precisa ficar grilado.
Isso aqui é tudo pra mim.
[amiga] Adorei a casa nova, Ney.
Olha. Adorei, adorei, adorei, adorei.
[Ney] Você curtiu?
Mas não quero mais ouvir falar de coisas velhas, tá?
- Chega de velhos. - [Cazuza] Chega de velhos.
[amiga ri]
Ih, troca comigo.
Troco, ó.
Assim, vocês dois.
[amiga] Hum.
Com drogas ou sem drogas?
Com drogas. Fica.
[clique da máquina]
[clique da máquina]
["Encantado" toca]
- Posso te dar um beijo? - [Ney] Por que não?
[Ney] ♪ Era um rapaz ♪
♪ Estranho e encantador ♪
Vambora. Ai, Cazuza, vamos.
- Vamos. - [amiga] Vambora.
[Ney] ♪ Ouvi que andara… ♪
- [Ney] Tchau. - [amiga] Tchau.
- [Ney] ♪ Viajar ♪ - [campainha toca]
- [Ney] ♪ Viajar ♪ - [campainha toca]
[Ney] ♪ Toda a terra e o mar ♪
- [amiga] Acabou, tchau. - [Cazuza] Hum, tá.
[Ney] ♪ Menino só ♪
♪ E tímido ♪
♪ Mas sábio ♪
♪ Demais ♪
Vem, Cazuza.
Vem, Cazuza. Vem.
♪ Eis que uma vez ♪
♪ Num dia mágico ♪
♪ O encontrei ♪
♪ E ao conversarmos ♪
♪ Lhe falei ♪
♪ Sobre os reis ♪
♪ Sobre as leis ♪
♪ E a dor ♪
♪ E ele ensinou ♪
♪ Nada é melhor ♪
♪ Que dar amor ♪
♪ E receber ♪
♪ De volta amor ♪
[música desvanece]
Nossa.
[exala]
Que foi?
Senti uma coisa…
que fazia tempo que eu não sentia.
De ficar só com uma pessoa e me sentir bem.
Acho que alguém tá apaixonado.
- Eu tenho certeza. - [Cazuza ri]
- [Ney] Hum. - [Cazuza beija]
[Cazuza cheira pó]
- Vai? - Não.
- [amiga] Eu vou. - [Cazuza] Hum.
[amiga cheira pó]
Eu não tenho vocação.
- [amiga] Hã? - Pra sofrer por amor.
[amiga ri]
Não tenho.
- Você tem? - Claro que sofre, cara.
- Quando você se apaixona, sofre. - [Cazuza] Claro que não.
E sofre pra caralho.
Você fica refém da pessoa e bate na merda, vai até o fim.
- Sofre. - [Cazuza] Sofre.
Sofre, mas tem que sentir prazer sofrendo.
- [Ney] Ah! - Que história é essa?
Acham que viro refém de alguém sofrendo por amor?
Eu não viro refém de ninguém, não.
Hum.
Pra mim, o amor é uma prisão que escolho pra inventar minha própria liberdade.
É muito mais simples. O amor é uma utopia.
- Uma utopia que nasce do corpo. - [amiga ri]
É físico, palpável.
- [Luís] Cazuza, palpável? - Acho que o amor tá no cheiro, sabia?
No cheiro do corpo do outro. O pé no fim do dia.
- [Luís grunhe] - [Cazuza ri]
A boca, assim, de manhã cedo.
A gente é bicho, a gente é bicho. A gente tem que farejar pra sentir.
É isso!
Quem quer farejar que nem bicho?
- [Ney] Onde tu vai, Cazuza? - Quem aqui?
- Quem quer farejar que nem bicho? - [amiga] Eu, amor!
- Yara. - [Yara] Hum?
Hum?
Viu o Cazuza?
[Cazuza ri]
Todo mundo perguntando se eu tô bem.
Não pareço estar bem? Hã?
- Não fode, porra. - [Ney] Ei.
- Vem cá. - Pra onde?
- Ali. - Pra onde?
- Vamos juntos. - Não vou pra casa, Ney.
- Vem comigo. Vem. - Sai, Ney!
Pegajoso.
[música dramática]
[vozerio]
[música desvanece] [campainha toca]
- [vozerio, risos] - [campainha toca]
[batidas na porta]
- [campainha toca] - [Cazuza geme]
- [risos] - [campainha toca]
[batidas na porta]
- [Cazuza] Shh. - [batidas na porta]
- [Cazuza] Paizinho! - Ou, ou. Ei!
- Que isso? - Quê? Sou um fantasma?
Não, não, não. Não, Cazuza.
Vem.
Não. Quem é você?
- Não! - [Cazuza] Psiu, psiu.
Só uma última, vai.
Que cara é essa?
Tem três dias que você sumiu.
E tu aparece assim, com traficante a tiracolo.
[Cazuza] Traficante, não.
- Cheirando pó na minha mesa. - [risos]
Ele é meu amigo.
Tá. Então vou pedir pra você e seu amigo se retirarem de casa, por favor.
- Não tá feliz em me ver? - Quero que saia, Cazuza.
- Não preciso sair. - Quero que saia.
- A gente acabou de chegar. - E quero que saia agora.
- Ficar a noite. - [amigo cheira pó]
- Você tá careta. - Não.
- Tá careta. - Você tá fedendo.
E você tá careta.
- Cheio de moralismo. - Sou o quê?
- Moralismozinho. - Não sabe nada de mim, garoto.
- Não sabe nada de mim. - Sei tudo de você.
- Não sabe nada de mim! - Tu é bicho ou não?
Hein?
Tu é bicho?
[cheira]
Sai.
Só um beijinho.
- Vem, paizinho. - Sai, Cazuza. Sai!
- Sai, garoto. Leva ele. - [Cazuza] Deixa ele aí.
- Fica aí. - Chega, chega.
Papo. Isso é papo.
Não!
Porra, Ney!
- Caralho! Meu pó! - Leva!
- Meu pó! - Leva.
- Leva! Cazuza! - Tira a mão dele! Tira a mão!
Porra!
Sai, sai daqui. Cazuza, para.
- Tira a mão de mim. - Para. Para.
Bate no outro, porra.
- Vem. Dá outro. - Você quer?
[Cazuza] Dá outro aqui, olha.
[Ney] Sai!
- [Ney] Seu bosta. - [Cazuza] Sai.
[Ney] Você não tá bem, cara. Não tá bem.
Merda.
- [risos] - [arfa]
[exala]
[batidas na porta]
- [risos] - [arfa]
- [vozerio] - [risos]
[exala]
[homem] Deixa preparado tudo aí pra gravar.
Mazzola.
Tô com a impressão de que não…
Não sei, cara, não tô me sentindo muito confortável… [indistinto]
[Mazzola] Ney, Ney.
- Essa música… - Não te ouço.
Eu não te ouço, Ney.
Vai lá no microfone. No microfone.
Olha só, a música é ótima, a música é ótima.
Ela vai ser o hit do disco. Tô te falando isso.
[suspira]
É, mas sendo hit ou não, entendeu? Não tô preocupado com isso.
Vamos fazer o seguinte.
Vamos colocar sua voz na base, e a gente vê como fica.
[inspira]
Ai, você me conhece, quando não gosto, eu não funciono.
Não, não bateu em mim, sabe?
Eu sei, meu amor. Mas é que nem sempre bate de primeira.
Dá uma chance pra música.
Você… Vamos fazer assim, olha.
Grava,
ouve,
pensa.
Mostra pra alguém, o que você quiser.
[Ney] Hum.
[Mazzola] Se não gostar, depois a gente conversa.
Tá, se…
se eu não gostar, não entra no disco.
Tá?
Tá bom.
Beleza, vamos gravar. Vai, vamos gravar.
[Ney] ♪ …de lo… ♪
Tá muito massa, Ney. Bota no disco.
Gonzaguinha, eu não sou do nordeste.
É um forró, eu nunca cantei forró.
Entendeu? Eu fico me sentindo, sei lá, um intruso.
[Gonzaguinha] Não precisa se preocupar com isso.
Quem tá falando isso é o filho do rei do baião.
Rapaz, sabe o que é?
É que eu fico pensando que se você não gravar essa música,
quem é que vai gravar?
Porque presta atenção na letra.
Quando você interpreta, ela ganha um outro contexto.
Perfeito.
[Gonzaguinha] Porque aí debocha, provoca, torce o significado.
É muito bom.
[inspira, expira]
Ney,
imagina isso no palco.
["Homem com H" toca]
♪ Nunca vi rastro de cobra Nem couro de lobisomem ♪
♪ Se correr o bicho pega Se ficar o bicho come ♪
♪ Porque eu sou é homem Porque eu sou é homem ♪
♪ Menino, eu sou é homem Menino, eu sou é homem ♪
♪ E como sou ♪
♪ Nunca vi rastro de cobra Nem couro de lobisomem ♪
♪ Se correr o bicho pega Se ficar o bicho come ♪
♪ Porque eu sou é homem Porque eu sou é homem ♪
♪ Menino, eu sou é homem Menino, eu sou é homem ♪
♪ Quando eu estava pra nascer ♪
♪ De vez em quando eu ouvia ♪
♪ Eu ouvia a mãe dizer ♪
♪ Ai, meu Deus, como eu queria ♪
♪ Que esse cabra fosse homem ♪
♪ Cabra macho pra danar ♪
♪ Ah! Mamãe, aqui estou eu ♪
♪ Mamãe, aqui estou eu, sou homem com H ♪
♪ E como sou ♪
[vendedor] A água mineral!
[música continua]
O pessoal tá migrando pra uma festa.
- Ah, é? - Tá a fim?
Aquelas pernas ali vão?
[risos]
♪ Cobra ♪
♪ Homem ♪
♪ Pega ♪
♪ Come, porque eu sou é homem ♪
♪ Porque eu sou é homem ♪
♪ Menino, eu sou é homem Menino, eu sou é homem ♪
♪ Eu sou homem com H ♪
♪ E com H sou muito homem ♪
♪ Se você quer duvidar ♪
♪ Olhe bem pelo meu nome ♪
♪ Já tô quase namorando ♪
♪ Namorando pra casar ♪
♪ Ah, Maria diz que eu sou Maria diz que eu sou ♪
♪ Sou homem com H, e como sou ♪
♪ Nunca vi rastro de cobra Nem couro de lobisomem ♪
♪ Se correr o bicho pega Se ficar o bicho come ♪
♪ Porque eu sou é homem Porque eu sou é homem ♪
♪ Menino, eu sou é homem Menino, eu sou é homem ♪
♪ E como sou ♪
♪ Cobra ♪
♪ Homem ♪
♪ Pega ♪
♪ Come ♪
[homem] Gostoso.
♪ Nunca vi rastro de cobra Nem couro de lobisomem ♪
♪ Se correr o bicho pega Se ficar o bicho come ♪
♪ Porque eu sou é homem Porque eu sou é homem ♪
♪ Menino, eu sou é homem Menino, eu sou é homem ♪
♪ Nunca vi rastro de cobra Nem couro de lobisomem ♪
♪ Se correr o bicho pega Se ficar o bicho come ♪
♪ Porque eu sou é homem Porque eu sou é homem ♪
♪ Menino, eu sou é homem Menino, eu sou é homem ♪
- ♪ Nunca vi rastro de… ♪ - [música desvanece]
- [homem] Acho que vou nessa. - [Ney] Não.
- Fica. - [homem ri]
[Ney] Fica.
Dr. Marco de Maria.
- Era nisso que estava pensando? - [Ney] Eu estava.
Que foi? Não combina?
Não, eu acho que tem muito "mar" no teu nome.
- Nunca tinha reparado nisso. - Tem "mar" demais até.
Vamos dar um mergulho?
- Vamos, é seu médico que tá mandando. - Não confio.
- Ah, não confia em mim? - Não confia no mar, Marco.
[Marco ri]
Você é uma pessoa completamente diferente de quem você é no palco, sabia?
O que você pensou que ia achar?
Não sei, eu pensei que você fosse mais…
impulsivo.
Não sei se essa é a palavra. Explosivo talvez.
[Ney] Ah…
O palco é a minha fantasia.
É…
não sei, minha válvula de escape.
É o lugar onde eu ponho uma máscara pra conseguir extravasar.
- Sabe? - [Marco] Uhum.
É o lugar onde você libera os seus demônios?
Libero. Libero todos eles.
E, ali, eu tento "desreprimir" as pessoas e a mim, também.
E o Ney da vida?
O Ney da vida? O Ney da vida sou eu.
[Marco] Eu sei, né?
Mas o que ele quer?
[Ney] Não quero muita coisa, não.
Eu quero um pedaço de terra, água,
bicho, mato.
Eu topo, sabia?
- Ah, é? Você topa? - [Marco] Aham. [ri]
Agora, vamos dar um mergulho.
- Vem. - Não.
Um mergulhinho, um mergulho cura tudo.
- Eu prometo, cura tudo. - Ô. Será que eu vou?
- Ah. Não sei. - Então vai ficar olhando.
[Ney] Vai lá, Dr. Marco.
[Marco ri]
- Essas pernas, hein, paizinho? - [Ney ri]
[Cazuza] Hum?
[Ney] Não acredito. [ri]
Eu quero.
Olha o cheirinho dele, olha.
[Cazuza] Ah. [ri]
- Vai lá, pode se servir. - [Cazuza] Hum.
- Não vai ficar com ciúmes? - Eu, com ciúmes, Cazuza?
Nem de mim, nem de mim? Hum?
Você é a cruz que eu carrego nas costas.
Então me carrega.
[Cazuza ri]
- Chama ele. - Marco!
Marco!
Será que ele me viu?
Ah, viu.
Olha, eu fiz o que deu com o que tinha, tá?
- Que era nada. - [Ney ri]
Ney, tô falando sério. Você tem que comer melhor.
Não pode ficar o dia inteiro na praia só com uma gema de ovo na barriga.
Por falar em praia…
o Cazuza vai te procurar, tá?
Quem?
Cazuza.
Eu vi você olhando pra ele.
- Prazer. Marco. - Cazuza.
Ah, seu ex?
- [Ney] Não é meu ex. - Ah, não?
- [Ney] Não. - É o quê?
Não é meu, não é seu. Ninguém é propriedade de ninguém.
[Marco] Hum.
O que ele quer comigo?
- Quer transar. - [Marco] Oi?
Oi, Marco.
E ele pede permissão pra você pra transar comigo.
Ele não pediu permissão, ele veio me avisar.
É diferente.
[conversa]
[Ney] Por mim, não tem problema.
Vai lá.
Encontra o rapaz.
Entendeu?
Mas a gente precisa ficar falando sobre isso?
A gente pode não falar também, é mais gostoso fazer escondido.
- Não é isso que tô falando. - Não é o que prefere?
É pra eu ficar te contando os detalhes também?
Conta aquilo que você quiser contar.
- Tudo, que você vai querer ouvir. - Não quero ouvir tudo.
De jeito nenhum.
- Quero ouvir só o que for bom. - Talvez eu conte.
- Talvez eu não conte. - [Ney] Hum.
[Ney] Acorda, Cruz!
- [tapa] - [Cazuza grunhe]
- Qual é, Ney? - Acorda pra ganhar dinheiro!
Qual é?
Acorda pro dia nascer feliz. Eu vou gravar essa música, Cazuza.
- Não vai. - Eu vou.
- Não vai. - Eu vou.
- Não vai. - Eu vou sim, Caju.
- Não vai. - Não quer tocar na rádio?
- É música de trabalho da banda, Ney. - Ah. [ri]
- Não vai. [ri] - Pois vai ser a minha, também.
[público vibra]
["Pro Dia Nascer Feliz" toca]
[público vibra]
[homem] Gostoso!
[gritos]
♪ Todo dia a insônia Me convence que o céu ♪
♪ Faz tudo ficar infinito ♪
[plateia vibra]
♪ E que a solidão É pretensão de quem fica ♪
♪ Escondido, fazendo fita ♪
♪ Todo dia tem a hora da Sessão Coruja ♪
♪ Só entende quem namora ♪
♪ Agora, vambora ♪
♪ Estamos, meu bem, por um triz ♪
♪ Pro dia nascer feliz ♪
♪ É, pro dia nascer feliz ♪
♪ Pro mundo inteiro acordar ♪
♪ Pra gente dormir ♪
♪ Dormir ♪
♪ Pro dia nascer feliz ♪
Ah, não.
♪ Essa é a vida que eu quis ♪
♪ O mundo inteiro acordar ♪
♪ E a gente dormir ♪
[todos vibram]
[Ney] ♪ Todo dia é dia E tudo em nome do amor ♪
♪ Ah, essa é a vida que eu quis ♪
♪ Procurando vaga Uma hora aqui, a outra ali ♪
♪ No vai-e-vem dos seus quadris ♪
Gostoso!
♪ Nadando contra a corrente ♪
♪ Só pra exercitar ♪
♪ Todo o músculo que sente ♪
♪ Me dê de presente o seu bis ♪
♪ Fodia pra ser feliz ♪
♪ Fodia pra ser feliz ♪
♪ Pro mundo inteiro acordar ♪
♪ E a gente dormir, dormir ♪
♪ Pro dia nascer feliz ♪
♪ Pro dia nascer feliz ♪
♪ O mundo inteiro acordar ♪
♪ E a gente dormir ♪
- [plateia vibra] - [aplausos]
[campainha toca]
- [Ney] Oi, minha mãe. - Meu filho.
Minha mãe.
- [mãe beija] - [Ney] Hum.
Como é que ele tá?
[água escorrendo]
Ele tá dormindo.
Não vou acordar, não.
Se deixar, ele dorme o tempo todo.
O remédio é forte.
Mãe, deixa eu te ajudar.
- [mãe] Não, já tô acostumada. - Não, vou ajudar.
Pega outra… outra tábua.
E ele, mãe? Tá dando muito trabalho?
[mãe] Você conhece seu pai.
Só faz o que ele quer.
Aliás, vocês dois.
- Tudo farinha do mesmo saco. - [Ney] É? [ri]
A gente é parecido, é, mãe?
[mãe] É.
Rígidos,
cabreiros,
difíceis de dobrar.
Só eu sei.
Sargento Matogrosso.
Hum.
Mãe, às vezes, eu acho que…
a maior autoridade que eu já enfrentei foi o meu pai.
Parece que tudo que eu fiz, minhas escolhas todas…
parece que foi só pra contrariar a vontade dele.
[exala]
E você contrariou bastante, sim.
Mas ele aprendeu com você também, meu filho.
[Ney] A senhora acha?
Eu lembro a primeira vez que a gente te viu no palco.
[música suave]
[trovão]
[mãe] Quando a gente chegou em casa, ele foi procurar teu disco.
Ficou ouvindo lá na sala, bem alto.
Eu perguntei se ele tinha gostado do teu show.
Aí ele chegou e disse…
- Ney é um grande artista. - [mãe] "Ney é um grande artista".
[Ney funga]
Hum.
[ri]
Ele disse, é?
["O Mundo é um Moinho" toca]
[aplausos]
♪ Ainda é cedo, amor ♪
♪ Mal começaste ♪
♪ A conhecer a vida ♪
♪ Já anuncias ♪
♪ A hora de partida ♪
♪ Sem saber mesmo o rumo ♪
♪ Que irás tomar ♪
♪ Preste atenção, querida ♪
♪ Embora eu saiba que estás decidida ♪
♪ Em cada esquina Cai um pouco a tua vida ♪
♪ Em pouco tempo Não serás mais quem tu és ♪
♪ Ouça-me bem, amor ♪
♪ Preste atenção ♪
♪ O mundo é um moinho ♪
♪ Vai triturar Teus sonhos tão mesquinhos ♪
♪ Vai reduzir as ilusões a pó ♪
♪ Presta atenção, querida ♪
♪ De cada amor ♪
♪ Tu herdarás só o cinismo ♪
♪ Quando notares ♪
♪ Estás à beira do abismo ♪
♪ Abismo ♪
♪ Que cavaste ♪
♪ Com teus pés ♪
Ai…
- Eu fui muito duro com você, Ney. - [Ney] Hum.
[suspira]
Eu me arrependo.
Não precisa, pai.
Não vamos ficar remoendo coisa.
Isso é passado.
Né?
A gente tá aqui agora.
Você tá aqui.
Ney Matogrosso…
meu filho.
♪ Presta atenção, querida ♪
♪ De cada amor ♪
♪ Tu herdarás só o cinismo ♪
♪ Quando notares ♪
♪ Estás à beira do abismo ♪
♪ Abismo ♪
♪ Que cavaste ♪
♪ Com teus pés ♪
[aplausos]
[moça] Aproveite, é só nesta quinta, sexta e sábado.
[locutor] Começa agora o Jornal da Tarde.
Uma doença misteriosa,
totalmente desconhecida há cinco anos,
transformou-se na epidemia mais violenta do século.
A síndrome é fatal.
Até agora, não há cura.
O vírus da AIDS não está no ar, nem no meio da rua,
mas já tomou conta da vida da população das grandes cidades.
De três a dez milhões de pessoas no mundo inteiro
estão contaminadas pelo vírus,
segundo a Organização Mundial de Saúde.
O Brasil já registrou 2.775 casos até agora.
O Ministério da Saúde informa ainda
que o Brasil tem no mínimo
trinta e quatro novos casos de AIDS.
[acorde sinistro]
[Ney inspira]
[inspira]
Hum.
[vozerio da TV]
[telefone toca]
[telefone toca]
[Ney] Shh.
[telefone toca]
Alô.
É ele.
[Marco grunhe]
[Ney] Quando foi isso?
Quem foi dessa vez?
PARA NEY MATOGROSSO
[Ney suspira]
Ney?
[música melancólica]
[inaudível]
[inaudível]
[música continua] [inaudível]
[música desvanece]
"O nosso amor a gente inventa."
[Ney] Uhum.
"Todo amor
que houver nessa vida."
"Vida louca."
"Vida fácil."
"Eu preciso dizer que te amo."
- Diga. - Te amo.
[risos]
É… "Exagerado".
"Faz parte do meu show."
Eu gosto desse repertório.
Eu gosto mesmo.
Eu acho que essas músicas, elas dizem o que você pensa do mundo,
da vida.
Tô feliz que você topou dirigir esse show.
Pode ser que seja o último.
Não precisa disso, né?
Eu tô fraco, Ney.
É, mas tuas ideias estão fortes.
Tem uma música nova que eu fiz.
Mas não sei se vai caber nesse show.
Canta pra mim.
♪ Disparo contra o sol ♪
♪ Sou forte, sou por acaso ♪
♪ Minha metralhadora cheia de mágoas ♪
♪ Eu sou um cara ♪
♪ Cansado de correr na direção contrária ♪
♪ Sem pódio de chegada Ou beijo de namorada ♪
♪ Eu sou mais um cara ♪
♪ Dias sim, dias não ♪
♪ Eu vou sobrevivendo sem um arranhão ♪
♪ Da caridade ♪
♪ De quem me detesta ♪
[funga]
Essa música tem que encerrar o show.
["O Tempo Não Para" toca]
[Cazuza] ♪ Te chamam de ladrão De bicha, maconheiro ♪
♪ Transformam um país inteiro Num puteiro ♪
♪ Pois assim ♪
♪ Se ganha mais dinheiro ♪
♪ A tua piscina tá cheia de ratos ♪
♪ Tuas ideias não correspondem aos fatos ♪
♪ O tempo não para ♪
♪ Eu vejo o futuro repetir o passado ♪
♪ Eu vejo um museu de grandes novidades ♪
♪ O tempo não para ♪
♪ Não para, não, não para ♪
[música para]
[acorde sinistro]
[suspira]
[exala]
[acorde sinistro desvanece]
[acorde tenso]
[acorde desvanece]
Eu não consigo entender.
Não fiz nada diferente de ninguém.
Não importa, Ney.
Você tá livre.
- Isso é um alívio. - Alívio pra quem?
Que alívio, Marco?
Alívio pra mim, Ney.
Sabe muito bem que eu podia ter te…
[Ney estala a língua]
Ai…
Às vezes, eu sinto que o meu corpo é uma arma.
Está vendo?
Não.
Isso é o que querem que a gente sinta, Marco.
É o jeito que querem que a gente pense. Não é.
Não tem culpa. Ninguém tem culpa de nada.
Você ainda vai querer ficar comigo?
Que pergunta é essa?
Pode ser que você não aguente, Ney.
Vou ficar puro osso.
Um monte de mancha na pele.
Ferida.
Meu cabelo vai cair.
Tem gente que desmaia de tanto vomitar.
Tem cefaleia crônica, tosse com sangue.
- Parou, né? Tá bom. - Diarreia fora de controle.
Chega.
Mas é, Ney.
É o que vai acontecer.
É o que acontece. Não tem médico que salve, sabe?
- Esse vírus veio pra matar a gente. - Não.
Não. Não!
Se ele veio, é pra mostrar que a gente existe!
Que a gente é humano.
Viu? E que a gente ama!
- Eu te amo, Marco. - Eu, também.
[Ney] Te amo.
[Marco chora]
Eu tô aqui.
Eu tô aqui. Viu?
[chora]
- [Marco] Não, não, não, não. - Eu sou assim.
- Eu sou assim. - Uhum.
A gente vai passar por isso junto.
- Não vou aguentar se você ficar assim. - Não, eu vou ficar bem.
Te amo.
["Pedra de Rio" toca]
Pode por aqui, por favor.
[Ney] ♪ Sequei ♪
♪ O meu pranto enxuguei ♪
♪ Nesse sol ♪
♪ E nele um rio virei ♪
♪ Pedra de rio ♪
♪ Pedra de cais ♪
♪ Pedra de casa e de pó ♪
♪ Pedra de muro e de mó ♪
♪ Pedra rolada de rio ♪
♪ Beijo a testa ♪
♪ Afago a morte encurvada ♪
♪ Cansada de tanto ♪
♪ Tempo viver ♪
♪ E no meu rio ♪
♪ Rio de pedra navego ♪
♪ Meu barco voa sem vela ♪
♪ Rio e navego ♪
♪ Sozinho ♪
♪ Perdido rio ♪
♪ De você ♪
♪ Ah, meu rio ♪
♪ Você é meu rio ♪
♪ E eu ♪
♪ Pedra de rio ♪
♪ Perdido rio ♪
♪ Ah, meu rio ♪
♪ Uh, uh, uh, uh, uh, uh ♪
♪ Uh, uh, uh, uh ♪
♪ Uh, uh ♪
[música encerra]
[bipe]
[bipe]
[bipe]
[bipe]
[bipe]
[bipe]
[bipe]
[ruído de riacho]
[pássaros cantam]
[galhos quebram]
[Ney] Passo nessa estrada sempre, sabe?
Sempre quis conhecer esse terreno.
- Isso aqui faz tempo que tá à venda? - Não muito.
O antigo dono tentou fazer uma estrada aqui.
Mas a primeira chuva que deu, caiu pedra, tronco de árvore.
[Ney] Ah, é?
[ri] Aí a mata tomou conta de novo.
[Ney] É.
A natureza fala.
[pássaro canta]
Esse rio aí vai até lá embaixo.
Ele cruza toda a propriedade.
Como é que é o nome do rio?
É o Rio Mato Grosso.
["Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua" toca]
[público vibra]
[Ney] ♪ Há quem diga ♪
♪ Que eu dormi de touca ♪
♪ Que eu perdi a boca Que eu fugi da briga ♪
♪ Que eu caí do galho e que não vi saída ♪
♪ Que eu morri de medo Quando o pau quebrou ♪
♪ Há quem diga ♪
♪ Que eu não sei de nada ♪
♪ Que eu não sou de nada E não peço desculpas ♪
♪ Que eu não tenho culpa Mas eu dei bobeira ♪
♪ E que Durango Kid quase me pegou ♪
♪ Eu quero é botar ♪
♪ Meu bloco na rua ♪
♪ Brincar ♪
♪ Botar pra gemer ♪
♪ Eu quero é botar ♪
♪ Meu bloco na rua ♪
♪ Gingar ♪
♪ Pra dar e vender ♪
♪ Eu, por mim, queria isso e aquilo ♪
♪ Um quilo mais daquilo ♪
♪ Um grilo menos disso ♪
♪ É disso que eu preciso Ou não é nada disso ♪
♪ Eu quero é todo mundo nesse Carnaval ♪
♪ Eu quero é botar ♪
♪ Meu bloco na rua ♪
♪ Brincar ♪
♪ Botar pra gemer ♪
♪ Eu quero é botar ♪
♪ Meu bloco na rua ♪
♪ Gingar ♪
♪ Pra dar e vender ♪
[público ovaciona]
[assobios]
[aplausos]
["Dizem Que Sou Louco" toca]
[Ney] ♪ Dizem que sou louco ♪
♪ Por pensar assim ♪
♪ Se eu sou muito louco ♪
♪ Por eu ser feliz ♪
♪ Mais louco é quem me diz ♪
♪ E não é feliz ♪
♪ Não é feliz ♪
♪ Se eles são bonitos ♪
♪ Sou Alain Delon ♪
♪ Se eles são famosos ♪
♪ Sou Napoleão ♪
♪ Mais louco é quem me diz ♪
♪ E não é feliz ♪
♪ Não é feliz ♪
♪ Eu juro que é melhor ♪
♪ Não ser o normal ♪
♪ Se eu posso pensar que Deus sou eu ♪
♪ Se eles têm três carros ♪
♪ Eu posso voar ♪
♪ Se eles rezam muito ♪
♪ Eu já estou no ar ♪
♪ Mais louco é quem me diz ♪
♪ E não é feliz ♪
♪ Não é feliz ♪
♪ Eu juro que é melhor ♪
♪ Não ser o normal ♪
♪ Se eu posso pensar que Deus sou eu ♪
♪ Sim, sou muito louco ♪
♪ Não vou me curar ♪
♪ Já não sou o único ♪
♪ Que encontrou a paz ♪
♪ Mais louco é quem me diz ♪
♪ E não é feliz ♪
♪ Eu sou feliz ♪
[música encerra]
[ruídos de mata]
[ruídos de mata continuam]
[ruídos de mata desvanecem]
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