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UMA SÉRIE NETFLIX
Acredito nas forças todo-poderosas
do céu, da terra,
da água e do fogo.
Acredito no poder da Irmandade
e no círculo de confiança
que tudo protege.
Acredito nas forças todo-poderosas
do céu, da terra,
da água e do fogo.
Acredito nas forças todo-poderosas
do céu, da terra,
da água e do fogo.
Acredito no poder da Irmandade
e no círculo de confiança que tudo protege.
Acredito nas forças todo-poderosas
do céu, da terra,
da água e do fogo.
Acredito no poder da Irmandade
e no círculo de confiança que tudo protege.
Bem-vindo.
A partir de agora, renascerás na fé.
Serás mais um servo
do círculo de confiança.
Tal como os teus irmãos aqui presentes,
vais oferecer-te por inteiro a esta família de crentes
e protetores convictos da divindade…
… que vê tudo.
Agora estás convencido, certo, irmão?
Então, sê bem-vindo
ao nosso círculo do renascimento da verdade.
Agora, estás livre das tentações.
Totalmente livre!
Livre…
… do veneno emanado
pelos homossexuais, pelos alcoólicos,
pelos adúlteros, pelos mentirosos,
pelos fornicadores
e pelos traidores.
A partir de hoje,
estás protegido.
O advogado vai ver a tua mulher.
Ela deve ter com ela…
Não chores.
Ela deve ter com ela a escritura da casa.
- Entendeste? - Sim.
Ainda bem.
E fica de boca fechada.
Bico fechado.
Ela e tu também.
E nem penses
em queixar-te novamente
ao merdas do Borges.
Entendido?
Meu Deus!
Veja.
E não é um bolo de aniversário.
Que nojice, por amor de Deus!
Desculpe, padre.
O que é isto? Ossos de frango?
Parecem pilinhas cortadas.
Estava atrás do altar.
São restos de um tipo de oferenda que fazem aos cultos satânicos.
Junta tudo, Capece, para levarmos.
Vamos analisar e estudar tudo.
Eu?
Sim, idiota. Eu é que não sou. Tens medo? Tens nojo?
Tens medo de ficar com os cabelos em pé?
Sim, tenho nojo.
Pronto, padre. Problema resolvido.
Não está nada, Antín. A solução não é deitar esta porcaria fora.
Isto tem de acabar. Esta é a casa de Deus, um lugar sagrado.
Então, também não somos a Inquisição, padre!
O Benito Galván já não manda nesta prisão.
Agora, o diretor de Puente Viejo sou eu, Sergio Antín.
Um defensor da liberdade religiosa,
da aceitação da diversidade.
- Concordo totalmente. - Ainda bem.
Mas não concordo que usem a minha igreja para isto.
- A sua igreja? - Sim.
A igreja não é sua.
A igreja está na prisão e pertence ao governo, ao estado.
E o senhor não é bom a geri-la, porque tem poucos fiéis.
Sugiro-lhe que use o espaço da capela como uma sala polivalente. Sabe o que é?
Uma sala multiúsos que há nos edifícios.
Pode organizar atividades culturais,
religiosas, políticas e artísticas.
Assim terá mais fiéis.
Mas… Vamos ver se nos entendemos. Não se trata de fé.
- Então? - Trata-se de máfias, Antín!
- Que máfias? - As mesmas de sempre.
Os falsos profetas, que tiram dinheiro às pessoas.
E o senhor sabe.
- Padre… - Sabe, sim.
Não fale sobre tirar dinheiro às pessoas, porque eu, que não sou crente, sou ateu,
quando recebo o meu ordenado, descontam-me 30 e tal por cento
para os impostos para sustentar a vossa religião.
Sim. Eu financio-o.
E o padre queixa-se por o padre Umbanda
ou o pastor evangélico pedir o dízimo aos seus fiéis.
Afinal, trata-se de concorrência, de inveja.
Por favor, padre.
Em nome do Pai, do Filho…
- Que cheirete. - É horrível.
É, não é?
Toma. Podes levar.
O que está a fazer, idiota?
Deixe isso aí.
É da revista.
Não me chateies, Colômbia.
O que é confiscado fica confiscado.
Não. Devolve isso.
Vá lá, meu. Esquece isso.
Podes levar.
Traz um maço de tabaco e estamos quites.
Está bem. Amanhã trago.
O que estás a fazer?
Vá lá, meu. O que se passa?
És idiota ou estás a ter um AVC? Deixa-o.
Sabes o que se passa, querido?
O Mario Borges diz que o que é confiscado deve ser devolvido.
Entendeste, papi?
Nem diria que aquilo é um telemóvel. Tem uma capa de plástico e não funciona.
Onde está o Mario Borges? Viste-o? Borges!
Vem cá, Borges.
Ele está sempre presente.
Está? És o porta-voz dele?
Agora tens um distintivo? Quem to deu? O teu chefe Escobar?
Não.
Conquistei-o sozinho.
Sabes porque falo em nome do Borges?
Porque sei como pensam as pessoas falsas e miseráveis como tu e como ele.
E o que pensa o Sr. Borges dos lambe-botas?
Tens de te impor para deixares de ser empregada
e passares a ser a senhora da casa.
E meteres-te na cama com o marido da patroa.
E então?
Ouve o que te digo.
Toma, para a tua filha.
Não volte a tirar nada.
Baza daqui.
CAPÍTULO 6 "LUNA EM SAN ONOFRE"
O MARGINAL
Dá-me o cu, filho da puta!
Foda-se! Ia tendo um ataque cardíaco.
Acalma-te.
O que se passa contigo?
Ia tendo um ataque cardíaco.
O que fazes aqui? Problemas na vila?
Sim, meti-me em sarilhos.
Andava com uma mulher, e, depois, meti-me com outra, a filha,
mas a mãe apanhou-me com ela na cama.
E é isso. Tenho sempre problemas com as miúdas.
Por isso, fodeu-se tudo.
Esta carinha mete-me sempre em sarilhos. É sempre assim.
Tu não sabes como é.
Deus foi mauzinho para ti.
Vai-te foder!
Eu não disse a ninguém que estiveste aqui. Cumpri a minha palavra.
Eu sei. É por isso que estou aqui.
Sim.
Não tinha para onde ir, por isso…
Preciso de te pedir…
Sim.
Posso ficar aqui até arranjar alguma coisa?
Que cara é essa? Não sejas cabrão. São só uns dias.
Está bem, mas só uns dias.
- Sim, idiota. - E vais ajudar-me.
Claro. Não há problema.
- És o melhor! - Não quero problemas aqui.
Sim, eu sei. Entendido. Não te preocupes.
Preciso de um favor teu, Triste.
Arranjas-me um telemóvel? Tenho de tratar de umas cenas.
Estou ocupado.
Vá lá, meu. Tranquilo. Um telemóvel.
Vá lá, dá-me um beijinho. Vem cá, querido!
Muito obrigada.
Olá, Miguel.
Luna.
Como estás?
Que surpresa.
Sim.
Está tudo bem?
Sim, tudo bem.
Senta-te.
Sim.
Vim para falar contigo.
Sobre o livro?
- O que escrevi sobre ti perturbou-te? - Não.
Lê-lo fez-me recordar muitas coisas, mas fizeste bem em escrevê-lo.
Surpreendeu-me e, de certa forma, trouxe-me até aqui.
Estou aqui porque sei da situação com o teu filho.
Como descobriste?
Trabalho no tribunal onde foste.
Não sei se foi por obrigação por causa do que vivi,
mas decidi estudar Direito.
Passei no exame recentemente. Estou aqui para te ajudar.
Como me podes ajudar?
Acho que podemos arranjar uma forma. Temos de insistir. Temos opções.
Além disso, conheço bem a juíza Piñeiro. Ela era muito amiga do meu pai.
Obrigado, Luna, mas não és a pessoa indicada para me ajudar.
Espera, Miguel.
Tu salvaste-me.
Estou em dívida contigo.
Deixa-me ajudar-te.
"Olá, César. Como estás?
Na última carta, foste muito carinhoso. Não entendo quem te considera perigoso.
Mereces uma vida melhor e farei o possível para que isso aconteça.
Estou ansiosa por te conhecer. Paola."
Que querida! Está apaixonada por ti.
Está apaixonada por ti, idiota. Tu é que escreveste.
Posso ver? Com licença.
- Ela é mesmo linda! - Pois é.
Não te vem ver?
- Não sei. Pergunta-lhe. - Porque não a convidas?
Convidá-la para esta prisão de merda?
- E se se assustar e se for embora? - Não.
Além disso, não sei se vou acabar por morrer aqui.
A pior prisão está aqui, César.
Se quiseres, podes sair. Faz as coisas de outra forma.
Estás a dizer isso porque vais sair.
Responde-lhe.
- Está bem. - O que digo?
É a última vez. Não poderei escrever a próxima.
Eu sei.
Vamos convencê-la a visitar-te.
Só saberás o que sentes por ela
quando a vires, não é por foto ou por carta.
Certo?
Sim.
O que é isto, querida?
Fruta.
Bananas, maçãs e laranjas.
Vou abrir uma frutaria aqui?
O que faço com isto? Salada de fruta? E os bolos?
- Não. - Os biscoitos?
Por favor, querida.
Quando foi a última vez? Não me lixes.
Há quanto tempo não me fazes uma tarte? Por favor!
Acabou, Mario.
Não podes comer mais doces nem gorduras.
Levei as análises ao médico.
Acabou.
Sim.
Acabou mesmo.
Traz-me uma frigideira. Quero uma.
Há uma rapariga aqui que cozinha bem. Quero comer ovos estrelados.
Quero comer costeletas de porco e tortilhas com chouriço.
- É isso que quero! Deixa-me em paz! - E que te faça vir também.
Olha para mim, Mario.
Olha para mim.
Tens diabetes e hipertensão.
A minha sorte acabou.
Não tenho opções.
Sim. Sabes isso, mas não cuidas de ti.
O doutor perguntou como estão os olhos. Diz-me a verdade. Não mintas.
Este está igual.
Não te faças de parvo. O resultado do outro olho não foi bom.
Foi uma merda.
Sim.
Às vezes, incomoda-me um pouco.
A minha visão fica turva, não sei.
Às vezes, vejo o James loiro e de olhos azuis.
Tens retinopatia. Por causa dos diabetes. O médico disse-me.
Tens de cuidar de ti. Por favor.
Se te acontecer alguma coisa, eu vou atrás de ti, entendes?
Deixa-te de disparates. Ele entende tudo e fica deprimido.
Estás a deixar-te andar, Mario.
E não é de agora, já tinha reparado. Estás muito em baixo.
O que queres que faça? Estou preso! Vivo preso.
Vou morrer preso!
Também tenho de me privar da única coisa que me dá alguma satisfação
e um pouco de alegria, a comida?
Esteja gordo ou magro,
vão enterrar-me aqui, de cara para baixo, para crescer uma flor no meu cu.
Pareces uma menina assim quieto.
Quando o Mario chegar, vou contar-lhe o que disseste.
Parece que tens cinco anos. Se tens tomates, luta comigo.
- Tens? - Maiores do que a tua cara.
Outra vez a discutirem? Vocês dão comigo em doido.
A minha mulher pôs-me numa dieta a frutas.
A minha vida é uma merda.
És o único que me faz feliz.
Tu.
- Sim, tu. - Esse gato cheira a merda!
Estás a ver o mesmo que eu?
Sim, estou.
A minha princesa.
É tão linda.
Olha para o puto.
- Está feliz. Não para de assobiar. - Porque vai sair!
- Isso faria qualquer um feliz. - Ele tem planos.
Olá!
Não quiseram pagar ao Borges?
Não pode ser. Têm de pagar como os outros.
Outra vez isto? Querem que paguemos para trabalhar.
Vocês são malucos, rapazes!
Nós damos trabalho a quem precisa e somos compensados por isso.
Não queremos negociar com vocês. Diz isso ao Borges.
É melhor pensares bem.
Já pensei.
Não vou negociar com vocês. Não pagamos mais para trabalhar.
Já te responderam, Medina. Vai-te embora.
Assim não pode ser, Pastor.
Essa atitude leva a conflito
e o conflito é inaceitável entre irmãos.
Vocês é que causam conflito ao extorquir quem trabalha.
Não me parece. Só quero que estejamos de acordo.
- Somos homens de fé. - Não me venhas com a merda da fé.
Eu e tu acreditamos em coisas diferentes.
Eu respeito as tuas ideias. Todos os irmãos são bem-vindos.
Mas estes tipos têm de dar a sua parte.
Vou dar-te um conselho, Medina.
Se queres paz, não os pressiones. Não queiras ser inimigo deles.
É bom saber de que lado estás.
"Não podíamos adiar mais a nossa fuga.
Era naquela noite ou nunca.
Não podíamos voltar atrás."
Desde quando lês?
Desde que aprendi a ler.
Não. Não leias o livro desse idiota.
Quero ver se diz algo sobre nós em algum lado.
Não quero saber. Ele é escória.
Bom, eu discordo. Ele ajudou-me.
Estás a defendê-lo?
Não, estou a dizer que estou aqui graças a ele.
Ele ajudou-te por conveniência. Não conseguia fugir sozinho.
- Sei lá. - Não o fez por gostar de ti.
Não sei.
Toma. Precisas de um cartão SIM.
Boa!
Sacana astuto! É fixe, Triste. Onde o arranjaste?
Tenho contactos.
- Ótimo. - Escuta.
- O que foi? - Não tens de tomar banho?
Sim, daqui a pouco.
Eu contei-te que contava os pelos púbicos que o Mario deixava no sabonete
quando tomava banho depois dele?
- O sabonete… - Vou comer para outro lado.
Tirava-os com a unha e colava um em cada azulejo.
- Adeus. - Vem cá, idiota!
Que merda é esta? Puta que pariu!
É o que há.
- Isto é minúsculo. - Não fui eu que os escolhi.
- Fabiola. - O que foi?
Isto é lixo, querida. Esta parte está preta.
Não são feitos aqui. Vêm assim.
Apenas os distribuímos.
Mas o que se passa? Somos ratos ou baratas?
- Nós comemos o mesmo. - Se gostas, problema teu.
Sabem o que se passa aqui? O Borges e o Antín estão por trás disto.
Sim. Tens razão, César. Fala com ele. Olha para isto.
Cheira a cu!
Puta que pariu!
O que estás a fazer?
O que se passa aqui?
Idiotas!
Selvagens de merda!
Comem de graça
e ainda arranjam problemas?
O que se passa?
Toma, Capece. Prova isto.
Isso parece-te comida?
Tu e as tuas reivindicações. O que queres? Costeletas?
Idiotas de merda!
Merda é o que nos dão de comer, filho da puta.
Ai sim?
Toma.
Come isso.
Se comeres, voltas para a tua cela.
Se não comeres, tu e os teus amigos vão para a solitária.
Come, imbecil!
Gostas?
Vão aprender a comer. Nem que seja pelo cu.
Maricas de merda!
Chefe…
O que faço com este?
Leva-o para a enfermaria. Queres levá-lo para casa?
Vamos.
Vamos.
Estes são os documentos que faltam.
Que dia interminável. Vai para casa, se quiseres.
Queria perguntar-lhe sobre a situação de um recluso de Puente Viejo.
Miguel Palacios.
Ele submeteu um pedido.
Não sei se se lembra.
Sim, sei tudo. Também conheço o cadastro do Palacios.
E conheço a tua ligação com ele.
Certo. Não estou a falar da situação que me liga a ele.
Não?
Seja como for, gostava de saber
porque é que ele te dedicou um capítulo do livro dele.
Gostava de saber porque recusou recomendá-lo ao tribunal de família
para recuperar a custódia.
Não sei nada sobre o miúdo. Não está sob a minha jurisdição.
- Mas sei sobre o Palacios. - Claro.
E o Palacios tem um longo cadastro, sabias?
E é muito violento.
Ele não está em posição de pedir nada.
E o pior de tudo é a falta de colaboração dele.
Após tudo o que aconteceu, ele escreveu um livro.
Para pôr todo o sofrimento dele em papel.
Eu entendo-a.
Só queria falar sobre a situação do filho.
Vejamos.
Eu tenho noção do momento que conheceste este delinquente.
Sei do teu sequestro
e de como ele ajudou a libertar-te.
Mas tudo o que ele fez foi a pedido do teu pai.
E também era do interesse dele fazê-lo para recuperar a sua liberdade.
O meu pai recusou-se a pagar o resgate.
- Ele fez a coisa certa. Sabes… - Não sequestraram o cão dele.
Sequestraram a filha.
Tens de esquecer este delinquente, Luna.
Acho que não percebeu. Não se trata do Palacios.
Quero ajudar o filho dele.
A situação dele é distinta da situação criminal do pai.
Não acha?
Que se foda A bófia que ma chupe toda
Eu cresci nas ruas Não há lugar para disputas
Eu bem sei como é Viver na prisão
Com tanta maldade à minha volta É como viver como um cão
Tenho quem me proteja
Enquanto canto Entra o Panda e não fraqueja
Continua!
Há abuso do poder
Somos os Sub-21 E têm de nos ver para crer
Quando fazemos um motim Ninguém nos consegue deter
Sabemos o que fazer Abusam de nós porque estamos presos
Boa! É a tua vez!
Dengue!
Vá lá, Dengue! Força, meu!
Os Sub-21 não têm palha no ninho
Estamos sempre no ativo E os rapazes gostam de beber vinho
Os miúdos não se cansam.
Não.
É assim que desanuviam.
Força, Panda!
Gostava que as coisas mudassem aqui.
Acho que é a altura certa.
Não. Assim não.
Há outras coisas para fazer. Olha o Brian.
Daqui a dois meses, terá um emprego, uma namorada, uma vida.
Para haver pessoas com o Brian tem de haver pessoas como nós, lutadoras.
Eu sei que queres matar o Medina.
Mas não é fácil.
Ele tem apoio.
O Medina é mau, mas não é o pior.
Ele faz-se de santo, mas é um filho da puta.
Acho que tem de morrer.
Acho que tens de negociar um pouco.
Ceder. Não é bom estares sempre em confronto.
Mas eu estou cansado.
Cansado de ser maltratado.
Joguem limpo, cabrões.
Força, Clemente!
Tudo bem, padre?
Um pouco de lúpulos e cevada não faz mal a ninguém, certo?
Traz copos.
Molhar os lábios não é pecado.
O padre do meu bairro costumava dizer isso,
mas o cabrão aproveitava-se até de surdos-mudos
e o dinheiro era sagrado.
O que foi? Está chateado? É por causa da comissão do Borges?
Ele cobra o que quer, mas o negócio não é assim tão bom.
Os miúdos começam a revoltar-se. E nós é que temos de andar em cima deles.
Estou a ser pressionado dos dois lados.
Entretanto, o Borges está ali deitado como um cão velho
e fica com o dinheiro todo.
A Sagrada Escritura diz
que temos de ganhar o pão com o suor do rosto.
- Até breve. - Fica bem.
Não à custa do sangue dos outros.
Enquanto nós saímos para trabalhar e para fazer as coisas,
o velhacas do Borges e o filho da puta do Antín lucram.
O mundo é assim.
Os de baixo financiam os de cima. As ovelhas veem a vida a passar.
Mas se as ovelhas decidirem trabalhar juntas,
podem mudar as coisas.
Se trabalharmos juntos, pinamos todos, certo?
Tome, é por conta da casa. Acabámos de beber no templo.
O que foi?
Quero dar cabo de ti antes de saíres.
Vais ficar-te pela vontade.
Vais dar cabo dele?
Temos de o felicitar, certo?
Ai sim? Porquê?
Amanhã sais daqui! É um bom motivo para te felicitar.
Luta!
Sabes que não sou muito invejoso.
Na verdade, não sou nada invejoso.
Mas invejo-te um bocadinho.
Porque toda a gente quer sair desta vila de merda.
César.
César!
Agora, lá fora, as coisas estão uma merda.
Aviso-te já que está tudo muito mau.
Eu posso ajudar-te.
Nem que seja só para começares.
Não, não é preciso. Não te preocupes. Tenho amigos que me vão ajudar.
Pois é. Tens um bófia amigo que escreve livros.
É um poeta.
- O que se passa, Mario? Tudo bem? - Sim, porquê?
O que foi? Estás nervoso?
Ofereci-me para o ajudar lá fora. Qual é o problema? É mau?
Está tudo orientado, não precisamos. Obrigado.
- Vamos. - És um miúdo muito ingrato.
O chefe ofereceu-te ajuda.
Mas nem sequer lhe deste ouvidos. Desrespeitaste-o.
Aqui dentro, ele tem quem o proteja,
mas isso não lhe servirá de nada lá fora.
Quem desrespeitou quem?
Tenho pena de vocês.
Daqui a uns dias, estarei lá fora, com a minha família.
Serei livre. Vocês continuarão aqui.
Parem, merda!
Porque isto não é uma vila, como disseste, Borges.
É um cemitério. Tu estás mais morto do que vivo.
Para, Colômbia! Não vale a pena. Ele não se vai aguentar.
Estive a ver o teu processo e tenho algumas perguntas.
Não, eu não quero falar disso. Não preciso de um advogado.
Não é para ti, Miguel. É para ajudar o teu filho.
Preciso que assines isto.
O que é isso?
- É para te poder representar legalmente. - Não preciso disso.
Já te disse que não quero que sejas minha advogada.
Estive a pensar. Um miúdo vai sair daqui. Conheço-o há uns anos. Ele quer ajudar-me.
Ele podia ser o guardião do Lucas.
Não.
Não devia ser um ex-recluso.
Mas ele é um rapaz fantástico.
É responsável. Nunca se meteu em sarilhos.
- Somos grandes amigos. - Isso é bom, mas não.
É melhor não ser ele. Não vão gostar da ideia.
Neste momento, não tenho mais ninguém.
Está bem.
Podemos tentar.
Ótimo. Obrigado.
Ele sai amanhã. Podias esperar por ele lá fora.
Eu vou mandar-te algum dinheiro para lhe dares para os primeiros meses.
- Estarei à espera dele. - Obrigado.
Mas tens de assinar isto, Miguel.
Preciso de saber a situação do teu filho, de falar com ele.
Ver como ele está.
Para isso, tens de assinar isto.
É necessário.
A Piñeiro não gosta de mim.
Mas gosta de mim. Conheço-a bem.
És mesmo jeitosa, filha da puta.
Os anos não passam por ti.
Porque tens tudo bloqueado?
Filho da puta!
O que queres? Vai a outro lado.
Calma, meu. Conserta o carro e nós vamos embora.
Não quero problemas. Vão a embora.
Arranja esta merda já!
Vai a outro lado, meu.
Não estás a perceber, filho da puta.
Arranja o meu carro.
Magoaste-te?
Acho que não.
Ajuda-me a sair. Não sei como entrei.
Que nojice, meu.
O que fazemos? Deixamo-los no terreno abandonado?
Estes cabrões? Sim.
Ainda falta cortar o carro e levá-lo para o compactador.
Pois é. Ao arménio, no lado oeste?
Sim, espero que não me chateie. Não trabalho para ele há algum tempo.
Já não faço isto. Acabaram-se os carros caros.
Agora, estou bem com a polícia.
Sempre foste um bufo.
Cortas pessoas, carros… É tudo igual para ti.
Não me fodas.
Espera, foi o meu telemóvel. Arregaças-me a manga?
O que estás a fazer?
NÃO TE VOU ACEITAR.
Filha da puta!
Puta de merda!
SE ME QUERES VER, VEM TER COMIGO À ESQUINA DA CONDARCO E JONTE.
Estás ocupado?
Não. Senta-te. Dá-me um minuto.
- Queres falar comigo? - Sim.
Primeiro, quero mostrar-te algo.
O quê?
"B".
Fixe.
Pode não significar muito para ti,
mas o anjo fez-me acreditar que eu teria outra oportunidade.
Se fizesse bem as coisas.
E não me quero esquecer disso.
De onde saí, de quem me ajudou, de nada.
- Estará sempre comigo. - Pronto.
Para, senão fazes-me chorar. Vem cá.
Escuta.
Falei com a Luna, a advogada que me está a ajudar.
Perguntei-lhe se seria possível seres o guardião do Lucas.
Boa!
Queres?
- Claro. Eu faço isso. - A sério?
Boa!
Obrigado.
Ela estará à tua espera amanhã.
Vai pôr-te a par de tudo. Há papelada a tratar.
É muito trabalho. Vou mandar-te dinheiro que recebi do livro.
Vai dar-te para os primeiros meses, caso o Lucas precise de algo.
E…
Isto é uma carta para o Lucas.
Não sei se o vais ver daqui a dez dias, dois meses, três meses…
- Mas, quando o vires, dá-lha. - Está bem.
E aqui tens o número da Luna.
Chama-se Luna Lunati.
Ela vai ajudar-te no que precisares.
No que precisar?
Vai saber-me bem um pouco de amor.
Vou ligar-lhe.
Cuidadinho.
Estou a brincar.
Pronto.
Sei que te disse isto 200 vezes e que estás farto de me ouvir.
Não sejas estúpido. Tem cuidado. Está bem.
Quando te cheirar a sarilhos, foge.
- Sempre. - Claro.
- Escreve-me, vamos falando. - Certo.
Obrigado por tudo, meu.
Não sei o que seria de mim sem a tua ajuda.
Agora vais ajudar-me lá fora.
Claro. Serei os teus olhos lá fora e vou cuidar do teu filho até saíres.
Não podemos perder a esperança. Certo?
- Tens algo com que brindar? - Sim.
Sempre. Espera.
Pega nesse copo.
- Pronto. - Saúde!
Espero nunca mais te ver cá dentro.
Com licença, Sergio.
Foste buscar o meu pequeno-almoço a Mar del Plata?
Sim, fui a pé. Mais alguma coisa?
Não, obrigado.
Dezassete.
- Outra ou ficas? - Outra.
O patrão está a pôr-se bonito!
Não dá muito trabalho.
E então?
Ainda não saíram.
Mas estão a sair.
Ali está ele!
- Brian! - Brian!
Força!
Fuma um charro!
Já é Natal?
Parece.
Continuamos?
Legendas: Maria João Fernandes
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