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Do início, então, rapazes.
Acho que se pode usar os Stones como marcos.
Seguramente, souberam captar os tempos.
A onda hippie, de paz, amor e ácidos há muito que desaparecera
e os tempos eram outros.
Havia qualquer coisa no ar e Coppola realizava ''Apocalypse Now''.
Havia, sem dúvida, a sensação de que os anos 60 não tinham resultado,
e de que era preciso estoirar o sistema ou fugir dele.
Da capa do disco para a música...
...foi um disco dos Rolling Stones que não foi um êxito nem muito popular.
Em que ano foi? 72?
Conheço o folclore, obviamente.
Eles estavam a escapar, a fugir de lnglaterra.
Porque é que eles...? Foram, literalmente, postos na rua?
Exilados das Finanças inglesas. Parecia ser uma história popular do rock inglês.
Eles tiveram de ir embora e quase implodir, de certa forma.
A sensação de estar exilado, de estar... Não podes ir para casa.
Acho que essa música reflecte isso.
OS STONES NO EXÍLlO
ESTÚDlOS Olympic
Ele vai na direcção errada. Costumávamos ir por ali.
Vamos pelo caminho que usávamos.
Quando comecei a falar de fazer este filme,
disse: ''Não vamos fazê-lo.
''Nunca iremos onde gravámos.''
A tua cabina ficava ali, tu vivias ali.
Não, nem sempre, saía imenso.
- Aquela era a minha cabina. - Só quando o deixávamos.
Tentámos coisas experimentais, porque a sala era bastante grande.
Um intérprete podia estar ali,
enquanto eu estava aqui a fazer outra coisa.
Gravámos montes de versões de coisas, gravámo-las vezes sem conta.
Uma coisa sobre o Exile On Main St. é que não havia um plano específico,
limitámo-nos a acumular material sabendo que o usaríamos um dia.
Portanto, aparecíamos e gravávamos.
É mesmo estranho. Voltar a uma coisa que fizemos há 40 anos,
não importa, realmente.
Temos de ver as coisas no seu todo,
e retiramos coisas muito boas.
- Onde íamos? Sinceramente, uma seca. - E a coisa não melhora.
Aquela porra das sessões de gravação. Uma seca de primeira.
Que é que isso importa?
Lucífer do Rock, o flautista de Hamlin,
os milhões de jovens rebeldes que, nos anos 60,
tornaram a música rock a língua oficial da sua desfocada,
mas inconfundível demarcação da tradição...
A América da classe média nem queria crer no que se passava com os filhos.
Ouviam aquela música, comprava os álbuns deles,
capas de álbuns imagens dos rapazes deitados em casas, a enojarem os pais.
As pessoas pelo país pensavam: ''O que podemos esperar a seguir dos Stones?''
Top 40 americano.
A segunda maior banda estrangeira de sempre a entrar nas tabelas americanas
teve cinco singles em primeiro lugar e dez LP de ouro consecutivos.
A treta verde que criam não é musgo.
The Rolling Stones.
Estão mais satisfeitos agora?
28 de JANElRO de 1969
Em termos financeiros, insatisfeitos.
Sabem...
Sexualmente, satisfeito. Filosoficamente, vamos tentando.
Tínhamos estado a trabalhar no duro, éramos uma banda de grande êxito,
vendíamos montes de discos, mas não éramos pagos,
porque os contratos dos discos davam muito pouco retorno dos direitos.
Descobrimos que tínhamos um agente discográfico
que alegava que era dono de tudo quanto tínhamos feito
e que teria tudo o que fizéssemos no futuro.
Digressões, discos, canções... Ele dizia que era dono de tudo.
Portanto, tivemos de nos ver livres dele
e tentar sair daquela ridícula trapalhada bizantina
que tínhamos criado.
Deveríamos viver aquela vida,
limusinas, era preciso, e isto e mais aquilo e aqueloutro.
O dinheiro jorrava, portanto, estávamos sempre em dívida.
O meu problema de impostos - por Bill Wyman
Nenhum de nós tinha pago impostos. Achávamos que tínhamos pago.
Achámos que isso tinha sido tratado, mas não tinha.
Os impostos, no Governo trabalhista de Wilson, eram 93% .
Se ganhássemos um milhão de libras, coisa que não acontecia,
acabámos por ficar com 70 mil.
Portanto, era impossível ganhar dinheiro suficiente
para pagar às Finanças e ficar aqui, em lnglaterra.
Os Stones vão viver para França?
Havia a sensação de que estávamos a ser empurrados para fora do nosso país.
O Governo britânico receava o número de fãs que tínhamos, presumo.
Não podiam ignorar que éramos uma força a ter em conta
e, algures no fim do ano, tivemos de tomar a decisão.
Foi do gênero: ''Bem, todos queremos continuar, portanto, vamos embora.
Não estamos enraizados em lnglaterra, tínhamos corrido meio mundo.
Fizemos a digressão de despedida por lnglaterra,
bastante curta e com um toque de tristeza.
Lembro-me como se fosse hoje.
Toda a gente pensou que nunca voltaríamos.
Tínhamos um estilo de vida estabelecido para uma banda em digressão.
OS GLORlOSOS MORTOS
E todos nós somos muito britânicos, nos nossos modos,
com estúdios semi-suburbanos, belas casas de campo para viver,
e estávamos bastante felizes com isso.
Um estilo de vida sedados não está correcto, não era sedado,
mas era bastante centrado.
Este estilo de vida que tínhamos criado para nós,
e que é muito agradável, tinha de ter um fim.
Como se sente em relação a emigrar?
Não sei. Vamos mesmo?
Bom, é o que me dizem.
- Querem sair de lnglaterra ou não? - Não.
Não estava ansioso por isso?
- Por quê? - Por partir para França.
Gosta de lnglaterra?
Nesse tempo, se uma banda era importante em lnglaterra e saía do país,
era o fim, deixavam de gostar da banda.
É a porra do fechar do pano.
E depois, quando se sai do país por motivos fiscais, não é lá muito fixe.
Tive de sair do país para pagar os impostos que me cobravam.
Por isso tive de sair.
Que isso vos sirva de exemplo.
PARTlR PARA O EXÍLlO
a saída dos Stones
Oito exílios STONE
Le Monde FlM-DE-SEMANA 7 DE Abril de 197 1
Comecei a fotografar os Stones em 1964.
Ouvi dizer que a banda ia mudar em peso para o sul de França,
portanto, umas semanas depois, estava em Nice.
Perguntei: ''Acham que é possível
''tirar umas fotografias dos Stones no sul de França?''
E deram-me o nome do sítio,
Villefranche-sur-Mer, Villa Nellcote.
Fui lá uma tarde.
Não sabia que o Keith e a Anita estavam a viver lá.
Claro, a casa era lindíssima
e a luz, no sul de França, na Primavera, é incrível.
No fim, estava a agradecer a todos a bela tarde e tudo mais
e eles disseram-me: ''Podes ficar.''
Quanto tempo estiveste lá?
Seis meses.
Foi construída pelo Almirante Byrd. Era um almirante inglês.
A escada dava para a doca privada dele.
Portanto, comprei a lancha.
''Daqui a nada, posso ir preso...''
''Vamos divertir-nos enquanto estou livre.''
Toda essa era, pouco antes de partirmos para França, foi de disparates,
portanto, de certa forma, foi um alívio chegar a França,
tirar esse peso de cima e começar a aprender francês.
Anita em Nellcote.
Antes de mais, era o primeiro ano com o bebê,
portanto, ela estava também a ser mãe
e tratava mais ou menos de manter a tudo organizado.
Era a única capaz de discutir com o cozinheiro, o Fat Jacques.
Até ter tido o Marlon, vivíamos em quartos de hotel,
andávamos sempre de um lado para outro.
Portanto, para mim, ir para o sul de França foi óptimo.
Era um sítio maravilhoso. Muito romântico.
Perdi completamente a noção do tempo, enquanto lá estive.
Foi uma espécie de sonho.
Todas as manhãs, o Keith levantava-se às 8h00, 8h30 da manhã,
pronto para saltar para o carro, e tomar conta do filho, o Marlon.
Ninguém conhecia os Stones no sul de França,
e assim conseguiam viver e comportar-se normalmente.
Íamos ao jardim zoológico, íamos à praia.
À tarde, a Anita tomava conta do Marlon
e o Keith tocava.
Todas as manhãs era a mesma coisa.
Era uma vida normal.
Vimos muita coisa na imprensa musical aqui,
algumas fotografias vossas e uma senhora lindíssima chamada Bianca.
- Acredito. - Sim.
Todos os rumores que devem ter lido...
Alguma coisa a dizer sobre isso?
- Não. - Numa palavra!
Nem por isso.
Que posso dizer, além de rumores, rumores...
Mick Jagger veio a St. Tropez para casar sem alardes.
Tem sido caótico e a cidade está suspensa.
Sabíamos que eles iam casar e até sabíamos a data, mais ou menos,
e pensámos: ''Bom, é no sábado,
''e o Mick não falou nisso.
''Talvez seja melhor comprar-lhe um presente de casamento.''
Depois, o Mick ligou no dia anterior ao casamento
e disse: ''Olá, Bill. Quero convidar-te para a nossa festa de casamento.''
E eu disse: ''Está bem. Obrigado.'' Portanto, foi um bocado estranho.
- Podes parar de tirar fotografias. - Cala a boca, pá.
Veio gente de todo o mundo para o casamento.
Um músico teve de voltar para a digressão ou para as gravações, ou assim,
e outro não tinha que fazer.
Assim, como era hábito, acabou na casa do Keith.
No sul de França, quem tem dinheiro, consegue tudo.
De um lado, está Marselha,
que é um local conhecido pelos seus produtos ilegais,
e, do outro lado, está ltália, com a Máfia.
Juntam-se os dois e já se compreende.
Tinha um acordo tácito com o Keith.
lsto era muito simples.
Tu especializas-te em música e fotografia,
limitas-te a isso, e eu trato do resto.
No início, era interessante e divertido,
mas acontece que era fantasticamente perturbadora.
Na banda, na nossa vida, na nossa vida social, em tudo.
Detestei ter de sair de lnglaterra.
Saí porque quando estava lá,
tinha de tentar substituir tudo aquilo de que gostava, por não estar lá.
Era preciso, mais ou menos, comprar... tentar comprar chá PG Tips.
Depois, era preciso lidar com o leite francês, que não era igual.
Depois, comprava-se Bird's Custard e picles Branston e piccalilli
e todas as coisas inglesas que usávamos no dia-a-dia,
e era preciso importá-las porque não havia.
Não sou muito de mudanças. E não, não gostei...
E era inglês e não me via a viver em França e tudo mais.
Quer dizer, o aspecto mental da coisa era um bocado... estranho.
Durante o exílio, especialmente eu, não consegui falar francês ou assim.
Juntei-me aos Stones em Maio ou Junho de 69,
e não tinha ganho dinheiro suficiente, nem tinha trabalho feito a esse nível
para ter problemas de impostos.
mas uma das minhas mais vívidas recordações
foi ser levado para lá no nosso jacto particular.
pensei: ''Meu Deus. lsto é que é boa vida, isto é maravilhoso.''
Procurámos estúdios,
mas, especialmente no sul de França no início de... em 197 1 ,
não havia boas salas para trabalhar e o equipamento era rudimentar,
e ninguém se sentia à vontade nos sítios que andámos a ver.
Tentámos várias salas de cinema
e salões públicos que pudessem ser arrendados,
e nunca encontrámos um sítio adequado.
Acabámos por escolher a conveniência em detrimento do som
e escolhemos a cave da casa do Keith.
Dissemos: ''Temos um camião, o nosso estúdio móvel.
''Porque não esquecemos os estúdios e mandamos vir o camião
''resolvendo os problemas que surgirem?
''Assim, pelo menos, não temos de pedir ao intérprete
''sempre que queremos ligar ou desligar.''
Boa tarde!
Basicamente, acho que os Stones se sentiam mesmo exilados.
''Agora, somos nós contra o mundo. Que se lixem.''
lsso estava por trás da atitude.
Dissemos: ''Vamos todos fazer isto, rapazes.
''Vamos todos sair daqui, ser uma família e avançar,
''e este é o sítio certo.''
E, de certa forma, era estimulante.
Acabei por ir para lá porque foi para lá que todos foram.
Os meus rapazes com quem tocava rock'n'roll tinham abandonado o país.
Fomos convidados a ir para lá e fomos.
Não me importava de viver entre Nice e Monte Carlo.
Não me importava nada.
Não me importava nada com as miúdas do campo.
Sim, senhor, amigo.
O sul de França e um jovem de 20 e tal anos
músico de rock'n'roll, talvez fosse uma combinação poderosa.
Podem crer! É a altura em que arrotamos postas de pescada.
Podemos dizer isso? Acabo de dizer.
Nessa altura, os Stones, estavam bastante espalhados pelo sul de França,
por isso era difícil reunir toda a gente
durante períodos muito longos.
Reuniam-se uns dias
e depois todos queriam ir para casa ver a família.
Depois, havia o facto de a Bianca estar no fim da gravidez
nessa altura, por isso, o Mick estava constantemente em Paris
onde a Bianca estava.
Portanto, não eram as melhores condições.
Lembro-me de que, não conseguíamos começar.
- Pronto. Entra outra vez. - O Charlie devia...
Sim, tornaria tão...
Andy, podes subir o volume do piano só um bocadinho?
... fora de tom.
Charlie, percebeste? Queres experimentar?
Seria bom mudar o som da bateria quando regressa.
Acabara de mudar para França,
e tinha de fazer uma viagem de seis horas e meia ou sete horas,
do sítio onde morava, em estradinhas secundárias.
Não podia fazer a viagem todas as noites, tocar e voltar para casa,
por isso, vivia com o Keith.
Vivia num quarto no primeiro piso e o Keith vivia num quarto enorme por cima.
Tínhamos... Era bastante... Quer dizer, era muito próximo, sinceramente.
De forma louca.
Trabalhávamos a qualquer hora do dia.
Portanto, se fossem 1 1 da noite, continuava mais doze horas,
ou se fosse meio-dia, continuava mais 12...
Até onde desse.
Por isso era preciso viver lá.
Tinha 21 anos, e lá estava eu, no sul de França,
a trabalhar com a melhor banda do planeta,
e a receber bom dinheiro vivo.
Ora, era muito fixe!
Foi a minha iniciação de como é possível viver realmente o rock'n'roll.
Nessa altura, os Rolling Stones eram o centro do mundo.
Podia estar de algum modo delirante,
mas a música era muito importante, nessa altura.
Foram os tempos áureos de: ''A música vai mudar o mundo.''
Todos esses disparates. E eles estavam a mudar o mundo.
O que muita gente esquece é que eles estavam a fazê-lo, realmente.
Os Rolling Stones, nessa época, já não eram uma banda de cinco instrumentos.
Eram uma banda de oito instrumentos,
com os trompetes, Jim Price, Bobby Keys,
com Nicky Hopkins.
E toda aquela gente tinha filhos.
E era do gênero, os Rolling Stones eram uma espécie de tribo.
Durante a noite, todos os músicos e técnicos,
durante o dia, toda a miudagem.
Portanto, é impossível separar a vida familiar
da actividade profissional da cave.
A tribo cresce cada vez mais.
Rapidamente.
De que amplificadores estás a sair?
Agora é que ele pergunta.
Fender...
A cave da casa do Keith era, de facto, uma série de salas separadas,
que formavam a cave.
No fim de contas, a separação era tão má
que tínhamos o piano numa sala,
uma guitarra acústica na cozinha,
porque tinha azulejos e o som era bom.
Os trompetes estavam noutra sala.
E havia outra sala, provavelmente, o estúdio principal,
onde estava a bateria e o amplificador do Keith,
e o Bill ficava lá, mas o amplificador estava no vestíbulo.
A cave era absolutamente atroz
e era muito, muito difícil de gerir.
Era muito húmida e as guitarras desafinavam imenso.
E o Mick não parava de queixar-se do som e...
O equipamento não funcionava como deve ser, as luzes apagavam-se,
e havia incêndios, era uma loucura.
Não eram as melhores condições. Foi difícil para todos nós.
Os cabos saíam e estendiam-se pelo corredor até ao estúdio móvel.
Sempre que queria comunicar,
tinha de andar por todas as salas e transmitir a mensagem.
Devíamos ouvir?
Bem, parti uma corda nessa.
Grande parte do Exile foi feito à maneira do Keith,
que é assim: toca-se 20 vezes, põe-se a marinar, e toca-se mais 20.
O Keith é parecido com um intérprete de jazz em muitos aspectos.
Quer dizer, ele sabe do que gosta, mas é muito descontraído.
Keith é uma pessoa muito boêmia e excêntrica, no melhor sentido.
A sério que é.
Nunca planeio seja o que for.
Provavelmente, essa é a diferença entre mim e o Mick.
O Mick precisa de saber o que vai fazer amanhã,
eu limito-me a ficar feliz por acordar e ver quem anda por perto.
O Mick é o Rock, eu sou o Roll.
Queria ser um executivo discográfico de primeira,
e eles eram os Rolling Stones,
tinham uma editora discográfica.
A Atlantic distribuía os discos dos Rolling Stones,
conseguimos um dólar por álbum e grande orçamento para produzir discos.
O acordo era: ''Consegues pôr os Rolling Stones a produzir um álbum
''todos os anos ou ano e meio?
''Porque eles andam a flutuar, andam a voar.''
E eu disse: ''Sim, sou capaz.''
Depois, comecei a observar o processo criativo deles.
Observava a forma como trabalhavam.
Ficava de boca aberta ao ver que Keith podia adormecer a fazer um coro.
O Mick não aparecia.
Eu ia de...
Tinhas de fazer três lados em três horas.
Os tipos demoravam uma semana a produzir uma faixa.
Às vezes, tinha uma ideia,
por isso, eu lançava-a para ver o que resultaria.
Saca-se o melhor da banda quando eles julgam que não estão a trabalhar.
Onde é... ''lsto é uma borla.''
E enquanto a fita está a gravar, é quando se consegue.
Esse período foi muito criativo para todos nós.
Quando entrávamos num estúdio pegávamos nas guitarras,
estávamos no nosso mundo.
Nada mais poderia interferir.
Tentar completar as canções, está aqui os acordes, ritmo,
e está-se a tentar criar a letra e uma melodia,
portanto, o processo de criação era muito, muito descontraído.
Começávamos a improvisar.
Qualquer coisa. Cada um para si.
E acabava sempre por ficar bestial.
Era o que aquilo tinha de bom.
Era tão pouco ensaiado como um soluço.
Era apenas... Não era propriamente combustão espontânea.
Ligou para lnglaterra...
Manda cumprimentos meus ao George Harrison.
E à mulher também, claro.
Era uma abordagem completamente diferente da música e da gravação
daquilo que eu já tinha visto.
Normalmente, sabemos o nome da canção que estamos a interpretar.
lsto é uma...
E depois deveria haver um acorde...
A melhor é Ventilator Blues.
Ensaiamos sempre e é um belo conjunto de acordes,
mas nunca a interpretamos tão bem como aqui, algo não está certo.
O Keith tocava ligeiramente diferente, o que não é o mesmo,
ou eu tocava mal.
lsso porque o Bobby disse: ''Porque não fazes isto?''
Eu disse: ''Consigo tocar isso.''
Ele disse: ''Sim. É isto.'' E ficava perto de mim, a bater palmas.
Eu só seguia o ritmo dele.
Onde arranjei tomates para dizer ao Charlie Watts
onde dois mais dois são quatro, é um mistério para mim.
Muitas vezes disse para mim: ''Filho, o que andavas a fumar,
''ou o que andavas a beber?''
Deus abençoe o seu bom coração e paciência. Deu-me ouvidos.
lsso mesmo, ouviram aqui,
Ensinei o Charlie Watts a tocar bateria.
Acho que nunca dissemos:
''Vamos fazer este ou aquele tipo de álbum.''
Ganham a sua própria personalidade, quando os começamos,
uma vez que saíramos do país e estávamos a gravar de forma diferente,
queria reduzir a coisa ao mais simples.
Tem-se dito que os Stones devolveram a música negra aos Americanos,
quais os primeiros músicos negros que vos atraíram para a música negra?
Chuck Berry, Little Richard.
Little Richard foi o primeiro que ouvi e que me deixou banzado.
Depois, o Chuck Berry,
e, mais tarde, o Bo Diddley, o Muddy Waters, o Jimmy Reed.
O Slim Harpo.
A lista é interminável, mas...
acho que quanto mais se aprecia música negra,
mais se tenta perceber de onde é que ela vem.
E assim, acabávamos a ouvir Robert Johnson,
Blind Lemon Jefferson, etcetera, toda a gente passa por isso.
Para mim, ainda agora, os intérpretes americanos são sempre os melhores.
É uma daquelas coisas que se tem. Para mim, é assim.
Mas sou um tarado por música negra americana,
porque é a música de que gosto, principalmente.
É a única...
É realmente a música que adoro.
Era uma banda muito ecléctica.
Fui criado nos anos 50.
Eu gostava de música pop, só não gostava de blues.
Eu adorava blues, mas adorava o Elvis, mas adorava música pop da treta,
como blues acústico e música country.
Gostávamos de tudo e, além disso, havia muito mais gente,
e era uma completa miscelânea.
Absorvíamos tantos tipos de música
desde que nos tornámos os Rolling Stones.
Talvez sentíssemos falta da América, sei lá.
O Mick e eu sempre adorámos música country.
Tocámos Midwest em 1964, 65,
e não ouvimos muito mais.
É o outro lado do rock'n'roll.
O Rock'n'roll, basicamente, é blues...
... e eles colocam uma melodia corridinha por baixo.
É a junção, é aquela adorável... que a música retrata sempre,
é o encontro de duas culturas.
Já agora, as melodias corridinhas são realmente interessantes
e há muito de... Em toda aquela música,
há muitas coisas que nos são muito queridas.
ARREPENDE-TE
TESTEMUNHAS DE JEÓVA
ROLLlNG STONES ESGOTADO
FESTlVAL DE MÚSlCA GOSPEL
Uma das coisas do Exile, julgo eu, foi que muita coisa
que apanhámos na estrada e ao longo do tempo acabaram por ficar.
Uma pessoa é influenciada pelo que ouve desde pequenina.
Provavelmente, algumas das coisas que componho ou toco
são coisas que ouvia em 1947.
O Rock'n'roll tem por base uma mistura.
O que sempre me agradou nele, quando pensava no assunto...
É uma bela síntese de música de brancos com música de negros.
E é um belo caldeirão para misturar tudo.
O meu pai vivia nesse mundo.
Era piloto de automóveis, traficante de droga e aventureiro.
Estivemos lá, creio, uns três meses,
como convidados de longo prazo do Keith e da Anita.
Havia muito tempo morto em Nellcote.
O processo criativo acontecia gradualmente no decurso do dia,
tanto quanto me era dado ver. Lembrem-se, eu era uma criança.
As pessoas sentavam-se por ali, tocavam guitarra,
e começavam a escolher pequenos trechos de música,
e depois, a altas horas da noite, começavam a trabalhar a sério.
Do início, então, rapazes.
A cave, à noite, era o epicentro,
e enquanto conseguíssemos manter-nos acordados, estávamos lá.
Era mais ou menos a área dos adultos,
porque havia muitas bebidas e muito fumo,
e havia garrafas de Jack Daniels a passarem de mão em mão.
O barulho era enorme e algo assustador. mas era também, antes do descontrolo,
um sítio onde todos queríamos estar.
Era tanto barulho. Era mesmo muito barulho.
la a Villefranche de vez em quando, à noite,
e ouvia música de Villefranche.
E espantava-me com a paciência das pessoas,
porque estava sempre a tocar, durante toda a noite.
Fazia muito calor,
especialmente na cave, onde eles estavam a gravar.
Parecia uma sauna. Denso e escuro.
Não sei como eles conseguiram, sinceramente.
Foi realmente um trabalho extremo de amor, creio eu.
Não.
O mesmo outra vez. Mantém uma inteira antes...
Não. O Charlie entra mais tarde.
- Acrescentaste só a guitarra? - Mais tarde, em dó.
E o Bill entra com ele?
Sim, e o Mick. MT, onde é que o Mick entra?
- Quando ele sentir, não muito... - Quando achares, Mick.
Eu dou-te um grito, uma coisa a meia oitava...
O que acontecia realmente era:
eles tocavam muito mal dois ou três dias, uma canção qualquer.
Depois, se o Keith se levantasse e começasse a olhar para o Charlie,
sabíamos que estava prestes a passar-se alguma coisa.
O Bill levantava-se e punha o baixo num ângulo de uns 84 graus,
e dizíamos: ''Ah, aí vem ela. Vão tocar a sério agora.''
Nessa altura, tornava-se a maravilhosa música divinal.
Muito bem. Aí vem. Passa o ré e o mi.
- Está bem? - Está bem.
Tens as pautas do solo?
LOVlNG CUP Jimmy Miller: Percussão
Quando entra em gravação, tudo o resto torna-se algo periférico.
Estávamos na cave a trabalhar, a trabalhar,
mas quando subíamos à superfície
ah, estavam em plena festa.
Portanto, nunca sabíamos quem íamos encontrar.
Nellcote nunca estava vazia. Havia gente por todo o lado.
Algumas pessoas apareciam e diziam: ''Não consigo ir para casa.''
''Fica no sofá. Fica no sofá grande.''
Um casal de cozinheiros franceses loucos fez explodir a cozinha.
Mas, além disso, não houve problemas graves em particular.
O Fat Jacques. Fazia aquilo explodir.
Ele era um drogado. Costumava ir a Marselha.
''Onde está o Jacques?'' ''É quinta-feira.''
''Ah, está bem. Foi ver se tinha sorte.''
Eu ia e vinha de Nellcote, de e para todo o mundo.
A falar com a Atlantic, para ver se conseguia a edição simultânea mundial.
Tornou-se a minha vida.
Quando se está a trabalhar com os Stones,
não se fica muito tempo, a menos que se torne a nossa vida.
Lembro-me, vividamente, fim de tarde, início da noite, uma refeição por dia.
Sentávamo-nos todos numa mesa muito, muito longa.
Fumávamos charros de haxixe entre pratos.
Havia uma cachimbo grande e toda a gente o passava.
Era uma novíssima La Dolce Vita, um estilo de vida felliniano.
Na minha cabeça, eu tornei-me, de facto, um dos Rolling Stones.
Ficariam surpreendidos com o que uma criança de 8 anos e meio vê.
Vêem tudo. São como as corujas.
Obviamente, havia cocaína, porque o pai comprava.
Lembro-me de muitos charros. Enrolávamos charros.
Essa era, em grande medida, a minha função na vida, nessa altura,
ser enrolador de charros.
Quando se vive num meio decadente, existem trevas.
Aquilo era decadente. Nada era escondido.
Era tudo às claras.
Mas, nessa altura, o momento era de graça.
lsso foi antes das trevas.
Era, se assim se pode dizer, o nascer do sol antes do pôr-do-sol.
Raios, sim, havia erva espalhada por lá,
havia garrafas de uísque, de champanhe,
havia mulheres praticamente nuas.
Raios! Era o rock'n'roll, filho!
Sem isso tudo, não há rock'n'roll.
Toda a gente se divertia imenso,
mas era muito cansativo, se é que me entendem.
Estávamos a divertir-nos, mas queríamos voltar para casa.
O único que não estava nesse estado era o Keith,
que estava a ser abastecido na mansão dele,
com a banda a trabalhar na cave, deve ter sido o paraíso para ele.
Mais uma vez atrasado, Richards.
Não invejo quem cresce e tem de se levantar cedo para ir ganhar a vida.
Às vezes, eu acordava
e ouvia um estranho ribombar vindo da cave.
Depois, percebia que tinha dormido quase um dia inteiro,
e que eles tinham continuado a trabalhar.
Mas às vezes, se o Jimmy Miller estava lá,
e havia gente para operar os equipamentos,
eu dizia: ''Vamos começar.'' Eles diziam: ''Não está cá ninguém.''
Eu dizia: ''Eu faço, por agora.''
Era do estilo, estivesse quem estivesse por perto e se se tivesse uma ideia:
''Muito bem, reúne a malta e vamos a isto.''
Gravei o Happy com o Jimmy Miller na bateria,
o Bobby Keys no saxofone barítono, e eu na guitarra.
Foi basicamente assim.
Toda a gente entrava e saía de casa quando lhes apetecia,
portanto, comecei a ficar paranóica, era inacreditável.
Entrava na sala de estar
e estava um tipo sentado no sofá,
e ele sacou de um saco cheio de heroína.
Estava tudo a desintegrar-se e metemo-nos fortemente nas drogas,
ao pequeno-almoço, ao almoço e ao jantar.
No fim, especialmente, julguei que estava amaldiçoada.
Vamos recuperar a nossa alma!
Não tinha consciência, na altura, por estar habituado a tê-la à minha volta.
Naquela época, eu era apenas o Keith, era assim que funcionava.
Ele sempre viveu a vida à maneira dele
e acho que nunca se ralaram com o que eu ou você pensávamos.
Fi-lo, basicamente, para me esconder.
Esconder-me da fama e de ser outra pessoa,
porque eu só queria tocar e criar a minha família.
Com um cheiro de coca, eu passava por tudo e mais alguma coisa,
e estava-me nas tintas.
Meio de Setembro, o que acontece?
O Keith e toda a comitiva dele,
e todos os convidados, amigos e penduras,
estão todos dentro de casa, a ver televisão,
alguém assalta a casa e rouba oito guitarras,
um baixo e um saxofone do Bobby Keys.
Saíram porta fora e ninguém deu sequer por isso.
Era esse o nível de descontracção e estupidez que reinava ali.
Era um grande grupo de pessoas
e estão dependentes da engrenagem criativa.
Se a coisa começa a descarrilar e a não funcionar de forma eficiente,
toda a gente vai sofrer de alguma forma.
Pensamos que controlamos este estilo de vida maravilhoso e adorável
e há um momento em que controlamos,
mas, depois acontece que o estilo de vida começa a escolher-nos.
Esse é o problema.
De repente, estava a ficar frio e era Outono
e tínhamos montes de coisas
que tínhamos gravado num camião, numa cave.
O Mick e eu olhávamos um para o outro e dizíamos:
''Acho que já secámos isto. E secámos as outras pessoas.''
Havia uma sensação colectiva, julgo eu: ''Acabou. Está feito.''
Nem sequer me lembro de ver as pessoas partirem,
mas partiram certamente e muito depressa.
Eu, o Keith e mais umas quantas pessoas continuávamos lá
e acabámos por ouvir dizer que tínhamos de sair
porque íamos ser presos.
Nunca fomos presos e nunca nos puseram na rua.
Agora, tornou-se um sítio onde não devíamos ficar?
Sim, mas nunca nos puseram na rua.
ROLLlNG STONES REVlSTADOS
Senti-me uma marginal. Até me agradou a ideia,
a sensação de: ''Não podemos ir para todo o lado.''
Não havia alternativa, já não podíamos ficar pedrados,
portanto, é entrar noutra onda.
JESUS SALVA
Íamos sempre a LA para acabar os nossos discos.
Era uma espécie de... nosso ''modus operandi''.
Portanto, partimos para LA.
Foi divertido tocar com montes de músicos e amigos em LA,
interessante saber o que eles pensavam,
porque tudo o que se passara em Nellcote, era uma espécie de bolha.
Nunca tínhamos feito um álbum duplo,
portanto, nós não... Acho que fomos algo ingênuos.
Foi demasiado trabalho,
tendo em conta que tínhamos muitas pressões,
além de estarmos um bocado exausto com aquilo.
Lembro-me de o Keith até dizer: ''Estou completamente esgotado do álbum.''
Mas continuávamos a ter montes de canções inacabadas.
Algumas tinham letras fragmentadas e outras não tinham nada.
Portanto, tínhamos uma tarefa espinhosa pela frente.
É estranho perceber de onde surgem as letras.
Tumbling Dice,
sentei-me com a governanta e falei com ela sobre jogo.
Ela gostava de jogar dados e eu não percebo grande coisa do assunto,
mas falou-me nisso e fiz uma canção.
O Casino Boogie teria sido uma canção sem letra,
portanto, o Keith e eu fizemos uma coisa à William Burroughs: recortes.
Eu escrevia frases, empilhava-as e depois escolhia.
''Qualquer coisa! Temos de acabar isto.''
espero que compreendam
Juiz e júri
Excitação, Sem dormir
Pára-quedista dentro dela
Não há tempo à mão.
Fomos à Sunset Sound para acabar o disco.
A minha voz tinha de ser posta, os coros, e a voz do Keith.
Usámos guitarras com pedais e baixo clássico
Músicos extra que ainda não nos tinham ocorrido.
Muitos tretas com coros.
A primeira parte foi boa, mas é preciso manter o ritmo.
Aquelas sobreposições de pistas dão às canções uma volta completa.
Portanto, a experiência de LA tem muito a ver com isso.
Um pouco daquelas miúdas dá pano para mangas.
Todas as improvisaçõezinhas, como l Just Want To See His Face,
em que eu parto numa onda religiosa,
de repente ganham vida e vê-se.
''Era isso que pretendia quando estava a cantar.''
Havia imenso material e eu não parava de acrescentar coisas.
lsso é sempre preocupante.
Tínhamos de escolher as canções de que gostávamos, as versões
e ficar numa sala durante... sei lá quanto tempo,
e escolher tudo.
NÃO ALTERAR A DlSPOSlÇÃO
Misturavam eternamente. O Keith fazia misturas, o Mick fazia misturas
e discutiam qual delas era a melhor.
Era uma coisa que se prolongava indefinidamente.
Precisávamos de uma capa e com a mistura do disco feita,
o Mick e eu andávamos à procura em livros
só para ver estilos e coisas do gênero.
O Charlie e eu fomos a centenas de livrarias em LA,
comprámos montes de livros de fotografia.
E o Charlie teve a ideia do Robert Frank.
O Robert era perfeito para aquela época,
muito americano dos anos 50 e 60, um verdadeiro ícone.
lmaginámos que seria uma fotografia dos Rolling Stones,
entendem, pura e simplesmente uma imagem do Robert Frank.
Depois, o Robert disse que não, que não via a coisa assim,
que via a coisa com imagens de uma Super 8.
Eu disse: ''Vamos experimentar.''
SALVADOR
LlSTA DE PREÇOS
Ele vê uma coisa e nós ficamos a pensar para que raio está ele a olhar.
Quando está acabado e terminado, vai ficar com ar fantástico.
SALVADOR ESFAQUEADO
Sempre pensei, lá no fundo,
que o que estávamos a fazer não era só para a altura.
Portanto, faz-se o disco mesmo quando se está a dormir.
Eu até sonhava com aquela porcaria!
Pode ter havido a sensação:
''Certo, uma vez que decidimos sair de lnglaterra,
''bom, é melhor que esta treta funcione.''
Silêncio, por favor... A GRAVAR
Finalmente, não é aquela coisa a que estamos agarrados numa cave,
tentando descortinar que raio de merda se passava,
agora, acabámos este disco.
Só temos de arrumar tudo e enfiá-lo numa embalagem bonitinha.
Os cartazes. Fantásticos. Está lá em cima.
Vai sair e vamos para a estrada tocá-lo
e é excitante.
Stones... prontos para ''rolar'' outra vez.
E aqui, uma antevisão faixa a faixa de 'Exile On Main Street'
divulgada três semanas antes da saída,
o novo duplo álbum hard roqueiro dos Stones.
O Mick não gosta do resultado final.
Ele não vai gostar quando estiver acabado.
Não nos deixa acabar isto. Ele é assim.
O Mick não gosta de nada que se fez ontem.
Vamos fazer o de amanhã.
O que, de certa forma, é muito bom, porque nos mantém em movimento.
É um gênero diferente de disco.
É um trabalho muito expansivo e corajoso.
As críticas ao Exile, não se dirigiam a nada.
Mas isso também é uma coisa louvável do disco
que exibe muitos estilos e até múltiplos estilos numa canção.
Tem toneladas de singles de êxito retumbante?
Não. Não é o gênero.
Com o passar dos anos, adquiriu uma espécie de brilho mágico.
Provavelmente por causa da forma como foi gravado,
da crueza, das tensões implícitas.
Adoro as faixas, obviamente,
mas acho que quase não tivemos boas críticas a esse álbum.
De ninguém. Toda a gente dia mal do disco,
diziam que era uma treta e que nem pareciam os Stones.
E todos acabaram por fazer inversão de marcha nos anos seguintes,
dizendo que era um dos melhores álbuns que tínhamos feito.
obra-prima...
Eu só queria fazer música e ver como os sons são feitos.
Como se transmite essa sensação
e como acaba ela por resultar e tocar as pessoas?
Tem sido o mistério da minha vida e ainda o persigo.
Os Rolling Stones.
''OS STONES ESTÃO DE VOLTA''
''OS STONES EM MOVlMENTO''
''STONES AVANÇAM PARA A CONSAGRAÇÃO''
''STONES DlSPARAM PARA O TOP''
''STONES ARRASAM NOS EUA.''
''RASCAS COMO O RAlO E NO AUGE''
Rolling Stones. Mick louco. Mick louco. Dá uns bilhetes ao teu amigo.
É a canção de estreia com entrada mais alta da semana,
chama-se Tumbling Dice, da autoria da fenomenal banda rock
de quem a revista Time diz coisas fantásticas:
''A lealdade dos fãs não é para com o rock enquanto música,
''mas para com os Stones enquanto acontecimento socio-sexual.''
KROQ, Los Angeles, uma revolução rock com os Rolling Stones!
Vamos lá!
Exile On Main St. alterou drasticamente o vocabulário de gravação de discos.
Há texturas que ninguém tinha usado.
É tão louco, isto ter sido em França porque soa...
Literalmente, pensei, todas as noites,
que estavam em Memphis e eles iam comer churrasco,
e iam a festas, conheciam mulheres...
Se não fosse este disco,
teria pensado que os Stones só faziam isto.
Mas isto são vales e picos de criatividade e de expressão.
Adoro o disco porque é uma coisa do gênero
de confundir realmente um jornalista.
Obrigá-lo a repensar a sua carreira,
porque deixou de poder enquadrar os Stones.
Quer dizer, há quinze direcções ao mesmo tempo.
Acho que qualquer pessoa fixe
gostaria de ter estado presente durante o processo de criação.
Eu gostaria de ter lá estado. Disso não tenho dúvidas.
lsto é quase como se tivéssemos estado lá,
enquanto eles estavam numa sala a compor uma canção.
E isto é quase como dizer:
''lsto é o que éramos e é neste caminho que vamos.
''E não voltamos para trás.''
No que toca o rock'n'roll é como...
É como... ''Até que ponto é bom?''
De volta a Stargroves
Muitas vezes, quando voltamos a locais como aquele em que cresci,
eles já não são aquilo que eram, estão completa e totalmente mudados.
Existe uma estrada por baixo, e mais isto e aquilo...
Agora, há um centro comercial e não reconhecemos o local.
Enquanto que isto está completa e totalmente igual.
Eu vivi nesta casa de 1970 a 1975.
Tem muitas memórias, sendo uma o facto de termos gravado aqui.
Mas tem outras recordações para mim. Filhos, os meus pais, essas coisas.
O meu irmão viveu muito tempo aqui.
- Viveu? - Sim.
Ele gostava muito de ter uma casa muito grande.
- Quem não gostaria? - Não o censuro!
Vou seguir-te.
O início das gravações de Exile on Main St. foi feito aqui, nesta casa,
portanto, as gravações iniciais de Exile on Main St. foram feitas aqui.
E quais foram? Lembras-te?
Sweet Black Angel foi feita aqui.
- Oh, é isto? - Sim.
E gravámos a percussão no relvado, num dia muito agradável.
E algumas das outras faixas que encontrámos
que eram extras no Exile que tínhamos estado a gravar...
Também foram gravadas aqui.
Portanto, as gravações iniciais de Exile foram feitas nesta casa.
Construímos um...
Um estúdio móvel.
- Pois foi! - Construímos o estúdio móvel,
para podermos ir onde nos apetecesse e gravar.
Sim, foi nesses tempos iniciais.
Então, comprámos um estúdio móvel, que era, de facto,
uma bela máquina....
Quer dizer, eficiente, com bom som e tudo isso.
E, portanto, nós...
lsto, acho, foi um dos primeiros sítios onde o trouxemos.
Estava sempre um gelo quando queríamos ouvir o playback.
Estava um frio de rachar, tínhamos de atravessar o jardim e montar tudo.
Preparámo-la e toda a gente vivia aqui.
Púnhamos os nossos amplificadores aqui
e lembro-me de termos muitos metais nas gravações que fazíamos aqui
e lembro-me de estarem ali em cima.
Bobby Keys e Jim Price estavam ali.
Sim, lembro-me de eles estarem acolá.
E eles, sabem... Lembro-me de estar aqui em baixo a dirigi-los.
''Eh, repete! Anda lá, consegues fazer melhor.''
Onde estavas instalado?
Ali, com um isolador em volta do ecrã.
- E eles a inclinar-se. - Pois, a dizer,
''Não, não deve soar 'ca, bum, bum', devia soar 'bum, bum, ca'.''
Estavam satisfeitos com o som que obtinham aqui?
Sim, era um som bestial.
Numa caixinha, consegue-se um som de bateria muito mauzinho,
portanto, é preciso enganar o som da bateria com todo o tipo de ecos.
Numa sala com esta acústica, saca-se um som de bateria retumbante
o que, nesse tempo, era...
Podemos mover coisas em salas grandes, aí é que está a beleza da coisa.
Como se os metais não tivessem bom ouvido, portanto, vamos para ali ou...
Usávamos todas as salas para gravar.
púnhamos amplificadores em todas as salas para sacar sons diferentes
e... Acho que não moveste a bateria, pois não, Charlie?
Oh, acho que não. E não tinhas autorização, portanto, não.
Esta era uma espécie de sala de estar.
- Continua a ser, não é? - E esta...
Quer dizer, uma forma diferente de estar.
- Não me lembro do que fazíamos aqui. - Nem eu.
Púnhamos amplificadores em todas estas salas.
Mas estão todas decoradas. Mas ligeiramente mais hippies.
Tínhamos um belo... quer dizer, um estilo de vida sedado não é bem...
Não era sedado, mas era bastante centrado
e era bastante estabelecido, de certa forma.
Geograficamente, era bastante estabelecida.
E todos nós somos muito britânicos, nos nossos modos.
E depois gravámos em vários sítios,
mas gravámos muito na Barnes, nos Olympic.
Portanto, tínhamos de vir para este período de aperto
onde este estilo de vida que tínhamos criado para nós,
e que era muito agradável, tinha de ter um fim.
lncluindo estar neste tipo de casas, para mim, de qualquer maneira,
viver e trabalhar nelas longos períodos.
Portanto, isso tinha de ter um fim.
E é no início de Exile on Main St.
Regresso aos Olympic Studios
Queres que diga o que foi gravado aqui?
Shake Your Hips, Sweet Virginia. Loving Cup.
l Just Want To See His Face. Acho que foi gravada aqui.
- Tens a certeza? - Essa foi em Nellcote.
- Acho que não foi. - Eu acho que foi.
Eu faço a pergunta.
Stop Breaking Down, essa foi aqui.
- Pode muito bem ter sido. - Lembro-me de a fazermos aqui.
Casino Boogie foi gravada aqui,
- Achas que sim? - Claro!
Temos muito desentendimentos quanto a isto.
Com a... Ele vai na direcção errada!
Não me lembro.
íamos por ali. Vamos pelo caminho habitual.
Foste guiado por puro instinto agora, é como...
Quando comecei a falar de fazer este filme
disse que nunca faríamos isto. - Aquilo era um estúdio.
''Nunca iremos onde gravámos.''
A tua cabina ficava ali, tu vivias ali.
- Vivia? - Costumavas passar pelo outro...
Não! Nem sempre, saía imenso. Aquela era a minha cabina.
- Só quando o deixávamos. - Estava muito por aqui.
A tocar tambor com um sino ao pescoço.
Dá sempre bom aspecto.
Não sei o que sucedeu ao... Esqueci-me dele hoje. Porra!
- Porque raio tinhas o sino ao pescoço? - Era um acessório de moda da época.
- Tinhas um sino, não tinhas? - Não, não tinha.
- Lembro-me de ti com sino! - Não. Tinha um lenço muito colorido.
Tentávamos coisas experimentais, porque a sala era bastante grande.
Podíamos sentar-nos em círculo e todos tocavam
ou um intérprete podia estar ali a fazer alguma coisa
enquanto eu estava aqui a fazer outra coisa. Ou podia estar na cabina...
Havia outro estúdio a que se podia ir ou... havia salas.
Ou era possível estar completamente isolado naquele tipo de gravação.
Portanto, há muitas... Por isso gravar numa sala grande é bom.
Sim, não marcávamos uma sessão de três horas, pois não?
Organizávamos sessões de três semanas.
O que fazíamos realmente era acumular o material
sabendo que podíamos usá-lo um dia. Então, vínhamos cá e gravávamos.
O Charlie e eu estamos a discordar sobre o que era gravado aqui.
Mas está anotado numa lista que julgo ser relativamente precisa.
- Dois cegos a ler um livro. - Pois.
Loving Cup.
Houve uma versão de Loving Cup feita em Nellcote,
mas estou quase certo de que uma foi feita aqui, mas... Não garanto.
O Charlie e eu discutimos sobre l Just Want To See His Face.
Stop Breaking Down, blues de Robert Johnson, foi gravada aqui.
- Shine A Light foi gravada aqui. - Sim.
Ouvi-a há dias na televisão e é fantástica, tão barulhenta!
- Pois. Queres dizer, a tua bateria? - Não, não, a tua cantoria.
A sério? Ah, sim.
Fizemos montes de versões de coisas, fizemo-las vezes sem conta.
- Ainda fazemos. - Pois é.
Muitas das boas coisas foram gravadas aqui.
Rip This Joint. Essa foi em Nellcote, não foi?
- Acho que sim - Shake Your Hips. Essa foi aqui.
Quer dizer... Não sei bem...
Disseste que foi gravada em Stargroves quando lá estivemos.
Gravámos uma versão lá, mas não a usámos.
Que mais fazíamos aqui? Consumíamos montes de drogas!
Mas trabalhávamos no duro, durante as sessões em que havia droga.
O problema é, nas gravações,
se consumimos droga, mas mesmo que não consumamos,
as pessoas apaixonarem-se pelo processo.
Em Nellcote, estivemos a gravar durante nove meses.
E depois fizemos um, dois... três.
Quatro,
cinco, seis,
sete, oito. Talvez nove faixas nesses nove meses. Talvez.
É uma boa média, um por mês.
Quer dizer, deveríamos conseguir gravar uma por dia, sinceramente.
Quer dizer, voltar dali a pouco, de dois em dois dias, talvez.
- Bom, onde é que íamos? - A coisa não melhora.
A porra das antigas sessões de gravação. Quer dizer, uma seca.
Quem quer saber essa merda?
A minha experiência com o Exile...
Lembro-me de o comprar, do dia em que o comprei.
Levei-o para casa, onde tinha duas grandes colunas, uma de cada lado da cama.
Estava na universidade, ''preparei-me'' e pu-lo a tocar bem alto.
E assustou-me.
Foi a minha primeira reacção. Tinha qualquer coisa...
Achei que aqueles tipos tinham saído pelo outro lado,
achei que havia ali qualquer coisa, por detrás daquilo, que...
''Quero ir até onde eles estão, mas não sei se vou sobreviverei.''
O meu amigo Angelo é um fã enorme dos Stones.
Perguntou-me: ''Alguma vez ouviste o Exile?''
E eu disse: ''Não.'' Nunca tinha ouvido.
E a primeira coisa que ele fez foi mostrar-me as capa,
e eu disse logo: ''Eh, lá! lsto é brutal!'' Estão a ver?
E depois ele pô-lo a tocar, e as canções eram todas...
Para mim... Estavam a compor canções que eram anti-religião, em alguns casos,
ou a questionar a sua fé,
e todas as canções me soavam como se fossem canções de igreja.
Tinham todas aquele ritmo...
Uma coisa deste gênero, ou então eram lentas, estilo blues.
Aquele tipo de interpretação, sabem? Lindas.
Ouvir aquilo alterou tudo o que eu pensava sobre os Rolling Stones.
Eu costumava ir a lojas de discos antigos
e comprar o que encontrava para a minha colecção.
E este foi um deles. Das imagens até à música.
E era um disco dos Rolling Stones que não era,
enfim, um dos álbuns mais populares.
Portanto, se eu o tivesse na minha colecção,
isso simbolizava, enfim, que eu era ultra, que eu era mega-fixe, certo?
E, quando temos 18 ou 19 anos
e uma mochila cheia de discos...
Hoje em dia, os miúdos andam por aí com, sei lá...
A música já não pesa nada, percebem? É só carregar num botão...
Mas, na altura, ter um mochila cheia só com as coisas mais fixes, um tipo nem...
Agora, os miúdos andam com a discoteca inteira. Com montes de músicas.
Mas quem tivesse as cenas mais impressionantes na mochila...
''O quê? Tens esse disco dos Stones?'' ''Sim, sim, claro que tenho.''
E este disco em particular, acho que foi o primeiro
onde senti que eles tinham a confiança necessária para dizer: ''Vão-se catar.''
E tinham as canções para isso, tinham os sucessos, portanto...
No fundo, a editora não lhes podia dizer nada.
As canções estavam lá. Mas, se ouvirmos bem,
dentro de cada canção é como se estivessem a dizer ''vão-se catar''.
Eu devia ter uns 24 ou 23 anos e estava...
Não tinha televisão, não tinha telefone. Vivia num apartamento
e tudo o que fazia era ouvir o Exile On Main St, sem parar.
E era tão gratificante. Era tão...
No seu todo, ainda é o meu álbum preferido de todos os tempos.
Seria a minha escolha para uma ilha deserta ou para o leito da morte.
Deixa-me feliz em todos os sentidos... A música, a emoção... as letras...
As histórias que eles contam, a grandeza, a ruína.
Percebem? Está tudo lá.
Para mim, o Exile On Main St. é a bíblia do rock'n'roll.
Acho que é uma união perfeita de...
...blues eléctricos com um toque de country e de música soul.
E acho que é o ponto alto dos Rolling Stones, para mim,
porque adoro o Mick Taylor.
Dá para sentir o que se estava a passar na vida deles, naquele ambiente,
enquanto faziam aquele disco.
Há uma corrente por baixo disto que eu não consigo identificar bem,
mesmo para quem também é músico. Não faço ideia de onde isso vem.
Estou a falar dessa corrente... desse presságio malévolo.
Não sei se era a intenção deles,
nem sei se era isso que estavam a sentir na altura,
mas há ali qualquer coisa. A começar pelas fotografias da capa, não?
Assim que tocamos fisicamente no disco,
sentimos que tem uma mensagem sombria.
Sim... É um mistério. Não sei de onde vem.
As lmagens...
Olhamos para a capa e é logo como se ouvíssemos, sei lá...
- Uma amostra. - Uma amostra das canções.
Já íamos lançados pela capa, sabem?
Quando a capa de um disco nos dá, enfim,
uma visão do som que ele vai ter.
Ninguém sabe o que isto significa, mas parece que ofende toda a gente.
Têm todas um ar grosseiro e sujo...
E, de certa forma, fizeram...
Na minha opinião fizeram com que eu, um tipo que costumava...
Durante uma parte da minha vida tive medo do rock'n'roll,
porque achava que ia contra a realidade e contra o bem,
mas, quando ouvi este disco fiquei com uma ideia positiva.
Tenho saudades do cabelo. Naqueles tempos, tinham um cabelo fantástico.
É curioso, se um inglês tivesse este penteado, era fantástico,
mas se fosse americano, era piroso. Nunca percebi essa.
Era aquela ideia dos ''freaks''. Eram todos cromos e sentiam-se como tal.
Eram mesmo os ''freaks''. Eram grandes estrelas, mas eram ''cromos''.
Era assim que se sentiam e era assim que se apresentavam, seres bizarros.
Sei algumas coisas sobre a fama, e uma pessoa sente-se mesmo cromo.
Para mim, é esse o ponto de vista, ou a narrativa, como disse, de todo o álbum.
É como ser... É como ver através dos olhos de um cromo
que está a ser observado pelas outras pessoas.
E eu... Céus, estas histórias dão cabo de mim!
A minha interpretação das histórias deste disco
é que são sobre como é ser simultaneamente o rei do mundo
e estar completamente alienado da normalidade.
Para mim, Exile On Main St. é isso.
Eles são estrelas de rock, portanto, são grandiosos,
estão acima de tudo o resto, portanto, estão lá mas não lhe pertencem.
Portanto, andam por aí,
a ver tudo através da óptica da alienação e, enfim...
Há muita solidão e muito desgosto.
O disco tem muita alma.
Cada vez melhor...
É óptimo... É muito inspirador ver
como foi odiado quando saiu e como é adorado hoje em dia.
É algo inspirador para quem também está a lançar discos.
Mas... Sim, não é acessível. Não é um disco popular e acessível, de todo.
Não tinha canções muito populares
e acho que isso confundiu muitas pessoas, na altura, vindo dos Stones.
Mas eram eles no seu melhor. Os Stones, quando estão no seu melhor,
são uma banda de blues incrível, e isto são eles a fazer isso mesmo.
Portanto, é um retrato perfeito deles.
Quando ouvi isto, estávamos em 1994.
Eu já conhecia o logótipo dos Rolling Stones.
Estava impresso no meu cérebro. Via-o sempre que pensava nos Rolling Stones.
Pensava no Mick, sabem?
Percebem, pensava... A banda, sabem?
E isto era... Enfim...
Se não fosse este disco, teria pensado que os Stones só faziam isto.
Mas isto são cumes e vales de criatividade e expressão.
Há uma aprendizagem. Porque já estávamos em 93, certo?
Aquilo era um disco antigo. Como os outros discos deles, sabem?
Mas aquilo que me mostrou foi...
Ser um artista... não é só fazer canções populares.
É preciso ter uma obra completa, percebem?
Ecléctica, estranha, avant-garde,
ou directa, percebem,
centrada na actualidade, ou então não. É isso que os grupos têm de fazer.
Sim, todo este disco é...
Desde a capa até tudo o resto...
Dá para perceber que estavam numa fase em que queriam avançar por ali
e não se importavam de ofender o povo.
Parece-me que se divertiram a fazer o disco.
É raro ouvirmos um disco onde parece que os autores se estão a divertir.
Não falo a ninguém sobre este disco, e não quero falar sobre ele.
É como se fosse o meu disco. É o meu disco especial, pessoal, privado.
Lembro-me de estar com o meu namorado e ele dizer: ''Vamos pô-lo a tocar!''
E eu disse: ''Não! Não posso fazer isso contigo.''
Provavelmente, ele queria ter sexo ao som do disco, e eu disse: ''Não!''
Estão a perceber? lsso para mim era inadmissível.
Jamais o poria a tocar enquanto... Nem era capaz de jantar com o disco a tocar.
Para mim isso seria um sacrilégio. Seria... errado.
É um disco para ouvir quando me sinto no topo do mundo,
ou quando alguém me partiu o coração, ou quando alguém morreu,
ou quando preciso... enfim, de reencontrar as minhas coordenadas musicais.
É uma viagem pelo som.
Hoje em dia, podemos simplesmente clicar e escolher cada prato.
''Hoje, só quero comer milho.''
E o cozinheiro diz: ''Prove o peixe. Fica óptimo com o milho.''
''Não, não, vou comer só milho.''
''Mas preparei este peixe delicioso que, em termos de sabor...
''As especiarias do peixe ficam mesmo bem com o milho doce.''
''Não, guarda lá a merda do peixe. Eu só quero o milho.'' Percebes?''
E, como têm a oportunidade de fazer isso,
estão a perder uma refeição fantástica, uma obra completa fantástica.
E este é um desses casos.
Põe-se a tocar, de uma ponta à outra, e isso dá cor à nossa vida.
Adoro esse disco porque é o gênero que coisa que baralha um jornalista,
obriga-o a repensar toda a sua carreira,
porque já não pode pôr os Stones em determinada categoria.
É como se fossem ao mesmo tempo em 15 direcções diferentes.
E eu adoro que eles fiquem completamente baralhados.
As raízes do Exile...
Foram para além dos blues
e entraram noutras áreas da música americana do sul, o gospel e o country.
Acho que ouviram o melhor que a música americana tinha para dar.
Conseguiram combinar, como eu disse,
aquela espécie de R&B e de blues eléctricos com música country
e como música soul muito profunda, do sul.
E até a capacidade do Mick para encarnar um velho cantor negro de blues,
na maneira de cantar, foi bastante impressionante,
para um magricela inglês.
Oiço aquilo e sinto é que o melhor da minha terra, sabem,
ao longo da Route 66, e junto ao rio Mississípi, onde eu cresci.
Eles conseguiram inspirar-se nisso e integrá-lo na sua música soul inglesa.
Eu nasci em Memphis, portanto, costumava ir até Beale Street
onde havia tipos a tocar nas esquinas que me faziam pensar:
''Pá, estes tipos são melhores que tudo o que passa na rádio.''
Mas nunca os ouvíamos a eles na rádio.
E, depois, surgiu uma banda destas que, enfim...
Trabalharam muito... e chegaram a um ponto em que tocavam o que queriam.
Tinham o mundo na palma da mão
e podiam tocar a música que lhes apetecesse.
E, de certa forma, na música deles, estavam a tentar representar
as pessoas que nunca chegariam a ser ouvidas na rádio.
A América não ligava aos seus verdadeiros músicos,
os músicos criados cá dentro. Nunca lhes tinha ligado.
Mas, se um branco fazia uma versão nova, que acabava por ir dar ao mesmo,
aí já era bom, já era fabuloso.
Mas aqueles blues originais, do sul profundo, esses músicos
nunca ganharam o dinheiro que deviam nem ficaram com os louros,
nem receberam os elogios até terem 90 anos ou estarem mortos, sabem?
Era um pensamento algo deprimente.
Foi preciso chegarem cá uns ingleses e dizerem:
''Eh, vocês se calhar têm aí uma coisa interessante!''
E há algo muito bonito na forma como eles viram a América
e nas partes da América a que eles deram valor,
que foi o sul profundo, afro-americano... Prefiro chamar-lhe negro, mas...
Música que era realmente americana.
É possível ver o impacto dos blues noutros gêneros musicais e noutras culturas
e depois misturados e filtrados, digamos assim, pela câmara dos Rolling Stones.
É interessante aprendermos mais sobre nós pelo ponto de vista de outras pessoas
e acho que a América estava a passar por isso,
mas isso demorou muito tempo a fazer efeito, com este disco.
Do início, rapazes...
Quando se fala na música do diabo, é daquilo que estão a falar.
O sacana do diabo.
Soa mesmo bem.
l Just Want To See His Face... Na primeira vez que a ouvi, ia morrendo de medo.
Pensei: ''Oh, não. Vou cair morto já aqui.''
''Não quero falar de Jesus, só quero ver a cara d'Ele.''
E depois falam em ajoelhar-se e agradecer a Deus, e é como se...
Têm tudo controlado.
E aquelas raparigas negras a cantar: ''l just wanna see his face...''
Não estão nada de acordo. Elas acreditam em Jesus, e com muita força.
Houve algumas coisas que me surpreenderam
e que achei que talvez estivessem mal feitas,
mas que depois, mais tarde, me pareceram fantásticas.
Uma delas é o início da faixa Ventilator Blues.
Depois dos primeiros acordes de guitarra, devia haver um bombo.
Devia ser: ''When your...
''...spine is cracking...''.
Devia haver um bombo naquele sítio, e não há.
E isso irritou-me, a primeira vez que a ouvi.
Os tambores começam mais acima, com a caixa clara.
Mas agora adoro, é a minha parte preferida da canção.
lnclino sempre a cabeça nessa parte.
Acho que vou cantar a Loving Cup. Gosto imenso dessa.
Essa sempre me fez querer ser... Eu queria...
Lembro-me de sentir isso... Vão mesmo passá-la?
- Claro! - Hilariante. lsto é o máximo.
Não vos lembra noitadas e assim...
Devem ter passado noites nos bares, numa dada fase da vossa vida,
em que não têm dignidade, sabem? Adoro isso.
Devemos ter passado? Se calhar, ainda lá estamos, não sei...
Ouve a maneira com ele canta: ''guitar...''
Há uma sensação de abandono, tanto na voz como na guitarra.
Um abandono tão grande. Não têm medo de se expor, estão a dar tudo.
Parece uma coisa a desenrolar-se, como a tromba de um elefante.
Não era só uma piada, dizer que podia mudar o mundo.
Podia mesmo arrastar a cultura juvenil para um ideal novo,
existia mesmo esse potencial.
Não têm saudades de bandas que perturbam a fibra da sociedade?
Não têm saudades do tempo em que a sociedade tinha uma fibra perturbável?
Agora, o que perturba a nossa fibra? Nada. Já ninguém faz nada assim.
Já não há estrelas de rock.
Adoro a Rip This Joint por ser tão barulhenta
mas diria que a Sweet Virginia é a canção improvisada mais tocada de sempre.
Quem não conhecer a Sweet Virginia, mais vale ir para casa.
É provavelmente a única canção que, quando estamos com uma banda,
podemos todos tocar essa canção juntos, porque faz parte da nossa genética,
em termos de história musical.
Contexto social...
Muito bem. Estão todos instalados?
Não quero ninguém a andar por aí. Sou uma pessoa muito nervosa.
O que aconteceu com o Exile On Main St. foi completamente diferente.
E acho que a...
Não há dúvida de que eles tinham uma espécie de bandeira,
que representavam toda a cultura do rock'n'roll.
E tinham de mudar, acho eu. Ou acharam que tinham de mudar
ou acharam que tinham de procurar outra forma de se tornarem...
Como é que iam progredir? Para onde ia avançar a música deles?
Como ia ser? la transformar-se em algo novo?
E foi uma retaliação contra tudo o que vinha de trás, acho eu.
Não estavam a... repudiar os seus trabalhos anteriores,
mas tinham de pensar de outra forma e parecia uma luta terrível.
Estou a par da... mitologia
que rodeou a criação do Exile On Main St.
desde o momento em que foi lançado.
E, ao longo dos anos, sobretudo quando comecei a gravar com eles...
Fiz muitas perguntas, fiquei com uma imagem mais nítida sobre o disco, mas...
Essa mitologia teve um impacto muito forte em mim, em 1972.
A informação revelada foi pouca, mas mudou a minha vida.
As drogas tinham mudado...
lsso é um factor muito importante nisto, certo?
Passou daquela coisa que nos fazia rir para algo muito diferente.
E a política tinha mudado, pá. O Nixon estava a arrasar o Camboja e o Laos...
Foi uma época esquisita.
Em 72, tinha eu acabado um trabalho sobre o Joseph Conrad, para a escola,
e aqueles tipos lançaram aquele álbum.
E eu sempre os tinha visto como líderes, percebem?
E a mensagem que eu recebi foi:
''Venham connosco. Vamos na direcção errada, contra a corrente, rio acima,
''e vamos curtir com o Capitão Kurtz.''
E isso foi... E as imagens que foram surgindo
deles a gravar o álbum reforçavam isso.
Agora tinha de as ver de novo, mas a ideia que tenho delas
é que eles pareciam os prisioneiros de guerra em Hanói, sabem?
Uma imagens a preto e branco, muito duras.
E eles estavam num sítio muito distante, assim como no Senhor das Moscas.
Era uma espécie... Não iam cumprir as leis e estavam a dizer:
''Saltem daí enquanto ainda podem. O navio está a afundar.''
Era... Era apocalíptico. Era sombrio e profético.
Mas, ao mesmo tempo, era bastante atraente, pá...
Estavam a divertir-se. E era muito fixe.
É um disco assustador.
Foi uma década extraordinária, não há dúvida.
E tinha de acabar. Tinha de chegar ao fim.
Porque havemos de culpar os Rolling Stones por esse fim?
la acabar de qualquer forma.
Não digo isso só por causa da passagem de 1969 para 1970.
Os anos 60, na realidade, acabaram aí em 73 ou 7 4.
E portanto tiveram de apontar a algo novo.
E também procuravam outras formas de contar uma história com a música,
conjugando todas as influências que tiveram ao longo dos anos.
Enfim, blues, rock, gospel, tudo junto.
É importante para muitos músicos, acho eu,
porque há uma união entre a forma como tocamos e a forma como vivemos a vida.
Naquele disco isso é claro, pá. E isso é diferente.
A descontracção, a franqueza, a confiança...
A confiança em relação ao mundo e naquilo que estão a tocar.
''Não me vou perder,
''não interessa se estamos a acelerar ou a abrandar.''
O importante é a sensação, é viver aquele momento.
É um disco muito Zen, pá.
Tem tudo a ver com viver o momento e apreciar o momento.
E acho que não há melhor exemplo disso.
Portanto, um músico não pensa só: ''Quero fazer música com este som.''
É mais: ''Quero viver a vida assim.''
Main Street fica na baixa de LA.
Não há mais real que aquilo, é uma zona muito pobre.
Eu mudei-me para LA no início dos anos 70. Em 1972 morava lá.
Em 73, estava a filmar Os Cavaleiros do Asfalto,
algumas cenas em Nova lorque, o resto em LA, na Main Street.
E era a área mais pobre.
Era parecido com os bairros sociais de Bowery, onde eu cresci,
no Lower East Side, a zona italiana.
Há uma sensação de exclusão, de viver nos limites da sociedade,
ou à margem, melhor dizendo, não é nos limites. As pessoas não contam.
Supostamente não contam. Mas, mesmo assim, estão ali.
Vejam isto, por exemplo... As fotografias incríveis do Robert Frank.
E repara-se nos actores secundários.
No desespero de quem vive em segundo plano.
Todos esses elementos têm a sua influência.
É preciso conhecer Main Street para...
E também há o facto de ''main street'' ser um termo usado para descrever...
Como direi?
...as cidadezinhas americanas com as suas vedações caiadas.
Mas as ''main streets'' de Los Angeles ou Nova lorque... são muito diferentes.
Talvez tenham adoptado essa imagem de marginais e rebeldes, claro.
Os cantores de rock fazem isso, são rebeldes, mas eles eram diferentes.
Eram de uma... realidade diferente, que apontava o caminho a seguir.
Deixa-te ir...
Acho que este álbum foi um ponto de viragem,
foi como se largassem tudo o que vinha de trás.
Para mim, este, o Let lt Bleed e o Sticky Fingers...
Marcou, decididamente, o meu rumo como artista.
Diria que são, provavelmente, os artistas de rock mais influentes da minha vida.
E este disco representa uma liberdade
e um distanciamento do convencional e da norma,
a liberdade de abandonar o território conhecido
e, como eu dizia, isso tem muito a ver com...
O que acontece na nossa arte é deixar tudo o que é familiar para trás
e partir pela estrada fora, com todo o nosso circo.
Outro detalhe deste disco é que nunca procurei as letras no Google.
Não quero mesmo saber as letras exactas.
Estou muito afeiçoada àquilo que julgo que as canções dizem,
e as letras têm tantas palavras
que, obviamente, já apanhei várias partes,
sei, basicamente, aquilo que estão a dizer,
mas não quero saber exactamente o que estão a dizer.
Porque é muito forte.
É um disco especial, nesse sentido, e aposto que muitos sentem o mesmo.
Acham que perceberam o disco
e hão-de ir para o caixão a acreditar nisso.
No fundo, o que é que significa?
Significa...
Significa aquilo que está no centro de uma estrela do rock, tudo aquilo...
Sejamos honestos, por trás daquela insolência há uma grande insegurança,
e acho que este disco é um retrato perfeito, digamos, da essência
daquilo que fez deles estrelas de rock.
Enquanto crescia,
imaginava os Stones como uns selvagens assustadores,
que só vivam para o sexo e para as drogas. E quando ouvimos o disco,
apesar de esse ser talvez o ambiente do disco,
ou o ambiente sonoro do disco,
a qualidade da música em si é fantástica, percebem?
Tem alguns dos maiores momentos de sempre na bateria, do Charlie.
E, apesar de pensarmos nos Rolling Stones como sendo...
...um grupo muito descontraído nas gravações,
uma espécie de bandalheira do rock'n'roll, digamos assim, no fundo não são.
Em minha opinião, são uns dos melhores instrumentistas pop
e são algumas das melhores... gravações de rock
no que diz respeito aos arranjos, de todos os tempos.
E acho que, se alguém prestar atenção à música de hoje,
se ouvir o que se faz por aí,
em quase todas as grandes bandas de rock vai ouvir a influência dos Stones.
O Exile foi o disco que me fez dizer:
''Muito bem, estes tipos vão ser eternos.
''Vão estar em cima de um palco, aos 95 anos, com Nikes calçados...''
Eu já te vi, Mick. Ele anda sempre de Nikes, é o máximo.
Quando eu cheguei, mas, na altura, eu era um cromo.
E, quando eu fiz o meu disco, inspirado no deles...
Já agora, uma vez encontrei-me com o Mick em LA,
quando eles estavam, sei lá, numa festa de lançamento de um disco,
mas de um nível do outro mundo,
em que até vinham jornalistas do estrangeiro, sabem?
E ele olhou para mim...
O tipo, o produtor com quem eu trabalhava apresentou-me e disse:
''Ela fez o Exile ln Guyville.''
E ele olhou para mim com ar de quem me perdoava
por fazer algo tão horrível como o meu disco.
E se ele soubesse como eu adorava este disco,
e como se tornou no símbolo de uma personagem masculina para mim.
Era como se tivesse tido uma relação com o tipo que canta estas histórias.
Ele era o meu namorado, e eu estava a responder: ''Por favor, ama-me.''
Eu então: ''Seu imbecil!'' Ou fosse o que fosse que lhe estava a dizer,
ao tal tipo imaginário, foi isso que este disco representou para mim.
Era todos os homens que tinha amado e achado espectaculares,
e que se tinham destacado no mundo do rock de Chicago
e que não me ligavam nenhuma, ou então ligavam,
ou brincavam comigo, ou fosse o que fosse,
mas eu tinha uma relação pessoal profunda com este disco.
E não estava a fazer crítica, estava a gritar com o meu namorado imaginário.
Ninguém me fez perguntas sobre o Exile On Main St.
quando eu estava a fazer, ou quando lancei o Exile ln Guyville,
excepto para dizer: ''É mesmo resposta a cada canção? Não me parece.''
E, sinceramente, acho que isso é machismo,
porque teriam de ser mulheres para perceber o que eu estava a fazer.
Os homens diziam: ''Bem, aqui não há trompas.
''Não há metais.'' Não percebiam de todo.
As novas faixas do Exile...
Não sei o que levou a esta decisão.
Recebi uma chamada do Mick, no começo de 2009,
a dizer: ''Estamos a pensar em reeditar o Exile
''com algumas faixas novas, nunca editadas,
''estarias interessado?''
''Sim, claro...''
Portanto, de repente,
recebi o equivalente a umas 200 caixas de fitas magnéticas, talvez mais.
Agora, vinha tudo em discos de computador, claro.
Quando comecei, recebi um fax do Keith. Um fax muito sério.
Dizia: ''Não tentes fazê-las soar como o Exile. Já vão ser incluídas no Exile.''
E isso foi muito sábio, e ele tinha toda a razão.
O essencial era... deixar aquilo seguir o seu caminho.
Não tentar arranjar.
Era material de arquivo, no fundo.
Algo que pesou nas decisões foi...
...não editar o material que já circulava em gravações piratas,
temos de acrescentar algo de novo.
Vamos tentar achar as pérolas, como a Sophia Loren, que ninguém tinha ouvido.
Ninguém tinha ouvido essa, não havia gravações piratas. Soube mesmo bem.
Ou a Aladdin Story, que foi ouvida e também gravada pelos Death ln Vegas.
Não sei se alguma vez... É fantástico...
Eles fizeram uma gravação dessa, uma gravação muito fiel.
Mas ninguém a tinha ouvido com a letra. Portanto, aí estava uma coisa fixe.
No fundo foi... tentar criar algo interessante para as pessoas,
algo que se aguentasse como um todo.
Estávamos só à procura de mais três ou quatro faixas.
Acabámos por terminar 1 1 ,
e, para ser franco, ainda lá há mais.
E muitas já tinham sido ''roubadas'', para o Tattoo You e o Goats Head Soup.
E há material bom que ficou de fora porque não calhou nesse período.
A linha que separa o começo do Exile
e o fim do Let lt Bleed ou do Sticky Fingers não é muito nítida.
Portanto, algumas das fitas,
que talvez tivessem material relevante para o Exile, também tinham outras coisas.
A primeira que pus a tocar dizia Honky Tonk Women, e eu disse: ''Quê?''
Pus essa fita a tocar e..
Eram as novas gravações feitas antes da gravação final da Honky Tonk Women.
Eles deviam editar aquilo. Dá para seguir a evolução...
Começa com Country Honk, que eles levaram até onde puderam,
mas não era para ali que queriam ir,
e, no dia seguinte, começaram de novo
e o lan Stewart estava a tocar piano em estilo honky tonk.
E o Keith tocava nos intervalos daquela música que enchia o ar.
E, por volta da nona gravação, tiraram o piano,
e ficou só aquela coisa angular, rítmica, que ele estava a tocar
que faz todo o sentido se ouvirmos o piano,
mas quando ouvimos aquilo, pensamos: ''Uau!''
Como é que alguém...
Nunca ouvi nada assim, como o começo da Honky Tonk Women.
A começar pela afinação, até àquele ritmo cheio de ângulos.
É uma viagem muito interessante Mas havia todo o tipo de material.
Mas acho que a gravação da Loving Cup
que está nas faixas de bónus é...
É a minha coisa preferida, para ser franco. É...
Representa...
Quando falámos sobre ter rock descontraído sem ser abandalhado,
até que distância do centro de gravidade cada um pode puxar
sem perder a força centrífuga...
Esta versão da Loving Cup
leva isso até ao limite, e é fantástico, pá.
É simplesmente... E a voz do Mick nessa canção...
É aquela atitude, percebem?
Tinha de ser um tipo daquela idade
que faz aquilo que lhe apetece, para cantar com aquela atitude.
E é tão... Acho que capta mesmo o espírito disto.
Adoro essa faixa. E é diferente.
Gira em torno da guitarra, em vez de girar em torno do piano.
Não é uma canção gospel, ao contrário da que saiu no disco.
Mas, ignorando a escolha da gravação final, tomaram a decisão certa.
É simplesmente divertido. Divertido de ouvir.
Já ouvimos o material todo dos Beatles
e ouvimos grande parte do material do Dylan.
E, enfim...
Acho que não há muita gente que signifique tanto para nós,
cujo som tenha tantos rastilhos emocionais que transcendam as notas.
É isso que torna os Stones únicos.
Quando ouvimos o aquecimento das cinco cordas, quando o Keith toca aquilo,
ou quando ouvimos a voz do Mick,
ou até quando ouvimos o Charlie a levantar do prato de choque,
no dois e no quatro, como mais ninguém faz... Quando ouvimos essas coisas,
quer os Rolling Stones queiram quer não,
isso acende uma série de rastilhos emocionais que transcendem os discos.
E isso é um elemento essencial disto.
Foram precisos anos, e, no fundo,
foi preciso tocar música com os Rolling Stones,
tocar mesmo viola baixo com eles,
durante as sessões e entre as canções, e assim,
para perceber o que se passa naquela banda.
Os Rolling Stones... ouvem-se mesmo uns aos outros.
Reagem depressa, tal como quando estão a conversar.
É uma banda muito conversadora.
O diálogo musical entre eles é...
É jocoso.
E é descontraído, e é rápido..
lsso aplica-se tanto às conversas entre eles como à música.
E haja o que houver entre alguns deles, em termos pessoais,
acho que se evapora tudo quando começam a tocar.
E são muito descontraídos. Lembram-me muito o Miles Davis.
Miles Davis era o exemplo do jazz.
A banda que ele tinha, nessa altura, com o Herbie Hancock,
o Wayne Shorter, o Ron Carter e o Tony Williams,
era descontraída, flutuava sobre aquela bateria fantástica,
e confiante... e um bocadinho convencido.
E é assim que se deve tocar rock'n'roll.
Sem fazer pose, sem rigidez, sem exibicionismo.
Não é um disco exibicionista. Não diz: ''Vejam a velocidade a que eu toco.''
É um disco com muita alma.
Nunca é demais realçar a importância do Mick Taylor.
Foi outra coisa que aprendi ao ouvir isto.
É um óptimo adversário para a forma de tocar do Keith.
É diferente daquilo que ele tem com o Ronnie,
em que se fala do encaixe entre as guitarras.
Aqui há dois estilos muito diferentes
que ressaltam um do outro de uma forma única.
É uma característica muito forte das gravações desse período dos Stones.
Outra coisa que eu compreendi
foi como o Bill Wyman é um baixista fantástico.
É um baixista genialmente louco.
Eu sou baixista, posso aprender os segmentos dele, nota por nota,
mas nunca seria capaz de os inventar.
Ele pensa como um guitarrista,
e toca nos intervalos em que um guitarrista poderia tocar
de uma forma muito melódica,
e o tom do baixo não é aquele som forte e grave.
É quase um som nasal.
É quase como se fosse a sétima corda da guitarra.
Mas, de repente, inclui umas coisas tipo James Jameson,
uma base estilo funk, que um tipo fica...
É muito sofisticado.
É um músico enigmático...
...mas é um elemento tão importante deste material...
Se há uma coisa, uma coisa fundamental
que eu aprendi sobre o Exile ao ouvir este material,
é que, se calhar, tudo aquilo de que nós ouvimos falar aconteceu mesmo,
mas, quando estavam a gravar, tinham tudo controlado.
Era impossível compor aquelas canções todas
e gravar aquelas canções todas, e tocá-las tão bem como eles tocaram,
se não estivessem na sua melhor forma.
A mitologia tem de incluir força sobre-humana
e tem de reconhecer
que eles são mesmo profissionais, que são mesmo uma grande banda.
Exile On Main St. não tem nada rasca.
Quando prestamos mesmo atenção,
notamos uma descontracção, mas isso não é o mesmo que descuido.
Não há nada descuidado no Exile. E tem material mesmo muito bom.
E além disso, nas coisas que não foram incluídas no álbum,
vê-se a ligação, vê-se a ligação a...
Como em Aladdin Story, por exemplo, que agora tem outro nome...
Mas é a ligação entre Between The Buttons e Exile. Há uma ligação.
Muitas destas coisas...
Aliás, basta ouvir estas 18 canções,
para dizer: ''Uau, de onde é que isto saiu?''
Mas existe uma certa linhagem, uma ligação.
Keith Richards fala sobre: criar um álbum...
O Mick e eu, às vezes, antes de iniciarmos um álbum,
dizemos: ''Que tipo de álbum queremos fazer?''
E eu digo: ''Fazemos um álbum dos Rolling Stones.''
É o máximo a que consigo reduzir a coisa.
É uma questão de nos surpreendermos,
é sobre o que acaba por sair.
Se soubesse tudo o que deveria ser tocado,
talvez o resultado fosse uma seca tremenda, entendem?
Tendemos a compor canções, independentemente de outras actividades.
Não é uma daquelas coisas em que nos sentamos e dizemos:
''Altura de compor canções.''
É uma coisa que acontece durante o dia,
Podemos estar a afinar uma guitarra e, quando damos conta, temos uma canção.
Se tivermos sorte.
Nunca forcei a composição de canções.
É uma... A ideia surge.
Como uma antena. Sabem, ''A chegar, a transmitir.''
Álbuns, o que se consegue, dizemos: ''É aquele álbum.''
Muitos álbuns passam para o seguinte.
Algumas das coisas que fazemos...
Por exemplo, no Sticky Fingers, mais para o fim tínhamos mais do que usaríamos
e dissemos: ''Vamos guardar.''
Portanto, ''empurramos'' o material assim,
e o álbum acaba por ser aquilo que lá fica,
mas, para nós, habitualmente, o processo é contínuo.
Mas é assim: ''Vamos usar estas 12 canções, e como é que lhe chamamos?''
''Já sei, Beggars Banquet. Já sei, Let lt Bleed, Exile On Main St.''
Portanto, pegamos em pedacinhos de coisas que estão sempre a acontecer.
Ainda é assim. Num bom dia, ainda consigo compor uma canção
a cave...
O que me interessava, e acho que aos outros também,
ao não gravar propriamente num estúdio profissional de gravação -
era o facto de ser novidade.
Porque, antes disso, pensava-se sempre...
''Para gravar um disco, é preciso ir para estúdio.''
Esta ideia de que, se se parte uma perna, é preciso ir ao hospital.
Descobrimos que podíamos partir pernas facilmente sem grandes chatices,
que podíamos criar um ambiente em que podíamos trabalhar.
Acho que começámos por pensar que seria uma experiência
e que, depois, passaríamos a um estúdio profissional.
Quando nos instalámos e as coisas começaram a acontecer,
era só: ''Para quê a chatice? Temos o que queremos aqui.''
Portanto, era uma questão de fazer experiências, era muito isso.
Quer dizer, perdermo-nos nas malditas caves... Era enorme.
Por isso, podíamos dizer: ''Tentamos a bateria naquela, para a canção tal
''porque tem mais eco, mais reverberação.''
Ou incluíamos o baixo noutra sala.
Num sítio daqueles era possível fazer experiências,
descobrir o melhor local para cada instrumento.
Tem um som muito denso
em que se nota perfeitamente que foi gravado lá.
Diria que o início do primeiro mês foi muito ''toca e foge''
ver se conseguíamos sacar alguma coisa daquilo,
mas a coisa começou a fluir,
e, como digo, dissemos: ''Não temos de ir a lado algum. Fazemos tudo aqui.''
E eu disse: ''Bestial. Nesse caso, eu fico. Vou desfazer as malas.''
trabalhar com trompetes...
Acho que sempre quisemos também ser um pouco uma banda de soul,
e os trompetes...
eram...
Eu não teria dito...
Talvez fosse porque eram o Bobby e o Jim Price,
eram os dois mânfios,
não era uma secção de metais completa,
coisa que pode ser muito trabalhosa.
Com apenas dois tipos, os metais inserem-se bem na dimensão da banda.
Providenciaram a textura extra que procurávamos,
Basicamente, éramos um pouco uma banda soul, de certa forma, à época.
O Bobby e eu trabalhávamos juntos há uns anos
até percebermos que... nascemos no mesmo dia, em tudo iguais,
com umas horas de diferença apenas.
Eu disse: ''O único problema do Bobby é que ele é texano.
''Além disso, é bestial.''
no Álbum...
Nunca determinámos que seria um álbum duplo
até finalmente ficarmos sem canções
e dissemos: ''Ena, há canções a mais para um álbum,
''mas há demasiadas coisas boas.
''Não podemos cortar este.''
Portanto, decidimos editar um duplo.
Às vezes, é a parte mais difícil de criar álbuns -
por que ordem pomos as canções?
Habituamo-nos a ouvi-las, a misturá-las,
e a dizer: ''Essa funciona bem a seguir a esta''
e trabalhamos dessa forma.
É um pouco como um quebra-cabeças.
às vezes, temos uma boa faixa,
mas não funciona, de algum modo,
a seguir a outra faixa ou antes de uma outra.
E, claro, há sempre a treta
de que outra pessoa tem uma opinião completamente diferente,
e, assim, temos de... ''Bem, atiramos uma moeda ao ar ou quê?''
Mas é um processo e tanto.
Fomos bem-sucedidos, presumo,
a esse respeito,
nos conjuntos que acabámos por arranjar.
lsso é importante num disco.
Podemos ter o mesmo disco, as mesmas canções,
mas se estiverem em determinada ordem
às vezes, pode não combinar bem.
Aí é que está a parte difícil -
fizemos um grande disco e sabemos que o material é excelente,
mas será que o conjunto resulta bem?
No Exile, acho que conseguimos.
Trata-se apenas de, acho, ter mais um pouco de espaço para manusear.
Sabem, mais canções, mais tempo.
lnicialmente, foi recebido
com algumas reservas e cepticismo,
mas começou a ganhar ímpeto
e continuou por aí fora,
e até há quem diga agora: ''É o melhor álbum que fizeram.''
Quanto a isso, não sei, mas continuo muito orgulhoso dele.
Nunca consigo escolher... Quer dizer, qual o melhor para mim?
Nunca poderia pensar nesses termos.
Penso apenas: ''Bem, foi o melhor do que fazia na altura.''
voltar à estrada...
Estão habituados a ver-nos a fazer mudanças nesta vida,
mas sim, também não fomos para a estrada durante muito tempo,
e, muito francamente, tivemos de nos habituar às coisas que mudaram
nos cerca de dois anos em que não saímos em digressão.
A tecnologia tinha mudado imensamente.
Quer dizer, de facto... Tínhamos PAs, o que agora soa estranho,
mas quando trabalhávamos nos anos 60...
a maioria dos PA era uns altifalantes pequenitos
pendurados num lado de uma parede,
um dos quais normalmente funcionava e era apenas o da voz.
Portanto, tivemos de aprender a pôr microfones nos monitores,
portanto, tivemos de nos actualizar muito, para começar.
Não demorou muito, mas havia muito mais coisas a ter em conta.
Antes, íamos para o palco com esperança que nos ouvissem. Nada mau.
Bill Wyman fala sobre: mudar para França...
Era excitante ir para Cannes, andar à beira da água, na praia
e ver as miúdas em topless, coisa que não se via em lnglaterra,
e miúdas nuas e tudo isso.
Essa parte era divertida.
E começar por aí,
e depois, muito mais tarde, encontrar...
... artistas famosos, pintores.
Eu conheci. Quanto aos outros, não sei. Foram embora mais cedo.
Foi...
E viver numa casa muito agradável.
Viva num sítio chamado Bastide de Saint Antoine,
que ficava perto de Grasse, onde fazem o perfume.
E... Tinha jardins lindíssimos
com flores silvestres muito altas e coisas assim,
e tinham as suas próprias vinhas
e faziam vinho.
Conseguia entre 400 e 600 garrafas de vinho das uvas todos os anos,
vinho que bebíamos, era vinho da casa.
Eu ia para o jardim, podia tirar fotografias da Natureza
e via belíssimas cobras da erva de uns dois metros.
E foi mesmo muito interessante.
Já agora, sempre adorei a Natureza.
E fiz muitos filmes em película
de louva-a-deus a comer insectos e coisas do gênero.
Adorava tudo isso. Mas depois, quando chegou a altura de gravar,
quando finalmente mandaram o estúdio móvel dos Stones para a casa do Keith,
muito conveniente para o Keith, não?
a cave...
Havia uma escada que descia
e que dava a volta. No fim da escada, fazia uma curva
e havia uma sala.
Provavelmente, tinha à volta de três metros quadrados.
Era aí que gravávamos.
E a sala aquecia a tal ponto
que a condensação escorria pelas paredes e por tudo aquilo.
O amplificador do meu baixo ficava debaixo das malditas escadas,
mais ou menos por ali.
Os intérpretes de trompete estavam no fundo do corredor, na cozinha,
quando estavam a fazer coisas ou vozes.
Estava tudo espalhado.
Não víamos o técnico de som
e ele não nos via - Andy Johns, e Jimmy Miller, o produtor.
Eles não nos viam, não tínhamos contacto com eles.
Portanto, havia sempre conversa
E parecia um forno.
Não era muito propício para fazer música, sinceramente,
e foi um milagre termos conseguido.
aparecer...
Presumo que tínhamos lá a banda, toda a banda lá,
provavelmente 30% a 40% do tempo.
O resto do tempo era apenas bocadinhos.
Eu e o Charlie, e... O Mick não tinha vindo, o Mick Taylor não veio,
eu, o Charlie e o Keith, para trabalharmos nalguma coisa.
No dia seguinte, o Keith não queria ir porque o Mick não estava,
depois o Mick aparecia e via que o Keith não estava lá,
por isso, no dia seguinte não aparecia.
E, às vezes, reuníamos todos lá para fazer uma sessão
e o Keith nem assim aparecia. Estava lá em cima a dormir,
e nós... O Charlie tinha vindo cinco horas,
eu e o Mick Taylor tínhamos ido duas horas, o Mick tinha ido uma hora,
e o Keith lá em cima,
e nem sequer descia para a sessão.
Era uma loucura.
sobre Mick Taylor...
Em termos musicais, ele era melhor músico
do que qualquer um dos membros da banda, sem dúvida.
Era jovem, era...
Céus, algumas das coisas que fizemos eram...
absolutamente espantosas.
Ele era incrivelmente maçador em palco.
Ficava parado a olhar para a guitarra
e fazia acordes, melodias e solos
absolutamente fantásticos,
mas só... assim, entendem?
Céus, o público só lhe via o cocuruto.
E sempre pensei que ele podia ter sido um pouco mais... atento ao público...
Mas quem sou eu para falar, não é?
Não ando muito aos saltos.
Em 30 anos com os Stones, devo ter dado uns três passo em palco.
ouvir o álbum terminado...
Quando chega a essa fase,
é diferente de quando começou,
temos nomes de canções e pensamos...
e pensamos: ''Tumbling Dice? Qual é essa?''
E depois ouvimo-la e dizemos: ''Ah, sim,
''é a faixa que chamávamos isto ou aquilo, ficou com nome diferente.''
E Keith imaginava nomes engraçados.
Chamava uma, por exemplo...
''General Election'' ou coisa parecida, entendem?
E acabava por ficar All Down The Line ou...
Assim, quando víamos a lista de títulos álbum, o que tinha ficado,
não sabíamos qual era qual, por não as conhecermos com esses títulos.
Porque o Mick escrevia as letras muito mais tarde, frequentemente,
nós fazíamos as faixas e ele fazia as letras e punhas-as nas faixas.
Ouvíamo-las tantas vezes
que eram apenas...
que não queríamos ouvi-las durante algum tempo.
E com o Charlie era o mesmo.
Ele diz: ''Não oiço. Depois de pronto o álbum, não o oiço.''
Digo: ''Eu também não.'' Não ponho o disco a tocar.
Quando recebo o disco, não o ponho no gira-discos para o ouvir.
O Keith ouve. O Keith põe a tocar nas três semanas seguintes sem parar,
todas as noites, todas as manhãs, dia e noite, com o volume no máximo.
E ele faz isso, abençoado seja, é o que ele faz,
ser um Rolling Stone...
Voltámos às raízes com o Beggars Banquet
e continuámos nesse caminho.
Não vejo muita diferença entre o Exile On Main St,
os dois álbuns anteriores e o seguinte, de facto, o Let lt Bleed.
São todos meus álbuns preferidos, esses quatro são os meus preferidos,
de toda a carreira.
Acho que foi nessa altura que atingimos o auge,
musicalmente, em termos de criatividade e invenção
e em palco, éramos dinamite.
Ninguém se aproximava de nós em palco, ninguém.
ser um Rolling Stone...
Todo esse período foi incrivelmente intenso e criativo para todo nós
porque era um novo começo para a banda
e tinham assinado um novo contrato com a Atlantic Records
e tínhamos, pelo menos em teoria,
de editar pelo menos seis álbuns em seis anos.
Se não andássemos juntos nem a gravar,
andávamos em digressão.
Lembrei-me agora que a maioria do tempo estávamos em estúdio
ou andávamos a divertir-nos uns com os outros
ou andávamos na estrada.
O que tem de permanente estar com os Stones,
desde o primeiro momento, de facto,
quer dizer, desde que me juntei à banda,
ia a casa do Mick em Cheyne Walk
e ele punha velhos discos de blues a tocar.
O mesmo com o Keith. Tinha sempre implícito...
uma sensação enraizada de blues,
o que era realmente...
o que tornava tudo muito especial.
trabalhar em Nellcote...
Acho que foi uma batalha para o Keith e para a Anita
quando iniciámos o processo de gravação,
porque o ambiente doméstico se mistura com...
para não usar um termo muito pomposo, com arte.
O ambiente doméstico e a arte não se dão bem, necessariamente.
Apesar de estarmos a gravar numa cave
que estava separada do que se passava na parte de cima,
havia constante falhas de electricidade e...
Comparado com a forma como os discos são gravados hoje, era muito primitivo
e muito básico.
Sabem, lembro-me do Mick ter de cantar usando...
ter de usar outra divisão da cave,
talvez uma casa de banho fora de uso, ou assim, para a parte vocal.
Basicamente, tiveram de transformar aquilo na casa deles,
e é claro...
... que acabou por ser uma espécie de estância de férias para todos os amigos
e para os amigos de toda a gente.
E, no meio daquele ambiente de férias e festas,
estávamos a tentar gravar um álbum.
Anita Pallenberg fala sobre os anos 70...
Nessa altura, todas as outras miúdas eram, do gênero, muito...
não da classe média, mas muito sossegadas e queriam ter filhos
e queriam casar e tudo isso e eu...
Não estava nos meus planos.
Queria apenas viver plenamente o sonho
em Nellcote...
A casa era absolutamente espantosa,
era extraordinária e muito decadente.
Pertencia a um almirante chamado Alexandre Bardes ou Bordes,
e era um almirante inglês
que coleccionava plantas exóticas.
E assim, em cada viagem que ele fazia, trazia as plantas para casa
e enchia o jardim com araucárias, embondeiros...
Quer dizer, parecia uma selva.
Havia sítios em que nem me atrevia a ir.
E toda a casa era... era majestosa
e muito grande, muito, muito estilo decadente.
Sem mobília - lembro-me de levar tapetes.
Estão todos nas fotografias de Dominique Tarlé.
Digo: ''Ah, aquele tapete...''
Nós levámos os tapetes. Portanto, vivemos lá nesse estilo
rock'n'roll, hippie, seja o que for, tudo no chão, basicamente.
Toda a gente que ia lá ficava chocada.
Sabem, diziam: ''Como é possível que uma casa lindíssima
''tenha tantos brinquedos no chão e...''
Os melhores sítios para as guitarras -
todos os sofás agradáveis e tudo mais, eram para as guitarras.
Era preciso sentarmo-nos sempre algures...
Quer dizer, o Keith continua a fazer isso,
sempre pôs a guitarra no melhor sítio, no melhor lugar.
sobre crianças...
Foi bestial. Todos participaram.
Não sei, à noite íamos pô-los na cama e era só.
Não sei como era possível dormir com todo aquele barulho,
mas os miúdos são miúdos, por isso...
E eles também tinham uma atitude óptima par com os adultos,
e os adultos também tinham de lidar com eles,
especialmente o Jake e Charley que eram mais velhos que o Marlon,
O Marlon era ainda bebê, com 2 anos.
Mas os outros eram sempre muito exigentes
e confrontavam-nos e brincavam com eles
Não, foi bastante bom, uma boa onda.
sobre as visitas...
O almoço era sempre ao ar livre e o jantar era sempre...
Lembro-me de andar sempre a correr para a cozinha.
''Precisamos de mais isto, de mais aquilo...''
Era realmente... Não sei quem pagava,
mas estou certo de que custava uma fortuna.
E todos os vinhos e tudo mais,
e havia sempre bebidas alcoólicas em casa.
Era uma espécie de brigada do bar aberto, basicamente.
E alguns eram bastante maçadores
e eu fui ficando cada vez mais farto de toda aquela gente
e passei a pôr gente na rua.
Lembro-me de estar no cimo das escadas
e de atirar... de esvaziar um quarto em que alguém tinha dormido
e de atirar montes de roupa escada abaixo.
E toda a gente dizia: ''Ela é um monstro!''
Foi o que acabei por fazer, por pôr toda a gente na rua.
Depois, comecei a mudar de quarto
e durante algum tempo, dormi num quarto por cima do estúdio móvel.
Mas esse era parte da estratégia da fuga, caso fôssemos apanhados.
Tínhamos um caminho de fuga planeado,
por isso, podia-se saltar da janela do quarto onde eu dormia,
e saltar para o autocarro e sair muito rapidamente
porque a alternativa eram imensos corredores e escadarias.
Tínhamos a coisa bem delineada, tudo muito bem estudado.
na baía...
Os iates eram incríveis...
Era o porto mais fundo do Mediterrâneo,
e lá estava a Sexta Frota,
os alemães estavam lá, e toda a malta da Marinha andava por lá.
A Sexta Frota aparecia e tinham LSD,
e toda a aldeia se abria
e a aldeia era invadida por montes de gente,
e havia tiroteios, era uma espécie de...
Sim, era uma espécie de fronteira, como estar no Faroeste.
Montes de marinheiros a andar de um lado para o outro.
lsso era mais interessante do que o que se passava em casa, para nós.
Portanto, íamos para lá, para junto deles
e fingíamos que éramos piratas e todo o tipo de disparates.
Alguns até tinham crânios e bandeiras de piratas,
portanto, era mais ou menos o elemento de ligação com essas pessoas,
mas elas não pensavam assim.
E depois, quer dizer, o Keith, saía na lancha dele,
ficava sem gasolina,
atirava foguetes e tínhamos de ir a Villefranche buscá-lo.
Mas isso acontecia muito.
sobre a vida com os Rolling Stones...
Quando vivemos com eles, é o que se vê. Não se vê...
O que as pessoas de fora vêem...
É uma espécie de realidade em que se vive.
E eu sempre achei muito triste
que as pessoas dissessem: ''Era só sexo, drogas e rock'n'roll.''
Era rock'n'roll, drogas e sexo, por essa ordem.
sobre o Álbum...
Quando saiu, sim, fiquei muito orgulhosa deles.
Também fiquei orgulhosa do Keith.
Gostei logo dele, desde Rip This Joint até ao fim.
É espantoso, realmente especial.
Charlie Watts fala sobre: mudar para França...
Fui realmente a França e comprei uma casa
e instalei-me lá.
As outras pessoas alugavam casa ou algo assim.
E eu escolhi um sítio, é tipicamente meu,
muito parecido com o norte de Gales, o equivalente em França.
Ficava a milhas de tudo, no meio das montanhas, por isso...
Mas ainda tenho a casa.
viver e trabalhar em Nellcote...
Era uma velha - bem, velha - moradia estilo Eduardiano, uma coisa linda.
O Keith tinha uma varanda fabulosa de onde se via a uma imensa distância...
Onde ficava? Nellcote... Em Cap Ferrat ou coisa parecida.
Boa acústica na cave, tinha uma adega enorme.
Não era uma casa pequena.
Eu estava numa espécie de contentor de carvão,
mas a acústica era boa para a bateria, a bateria soava lindamente.
cumprir horários com os Rolling Stones...
Para o Keith, o tempo era uma coisa muito elástica.
Era muito pouco T-E-M-P-O porque significava...
Ele é assim mesmo agora, que está sóbrio.
O tempo do Keith é...
Não falo do tempo em que toca, mas a hora de se levantar e pôr-se a mexer...
É normal para o Keith trabalhar desde as oito da noite
até às três da tarde do dia seguinte.
E o Mick trabalha das oito da noite até à meia-noite
e vai para casa.
Portanto, enquanto baterista, estava no meio dessas duas facetas.
Por isso foi bom em Nellcote, porque era possível fazer isso.
Não importava quando eu ia para a cama.
Não, a sério. O Keith trabalha assim.
De qualquer maneira, e com muitas outras coisas a acontecer,
podíamos não trabalhar dois dias
e depois trabalhar dois dias seguidos sem dormir.
trabalhar com o Keith...
O Keith gosta de fazer uma boa faixa, mantê-la,
e tocar vezes sem conta,
durante pelo menos um ano.
Ele gosta disso.
O Mick e eu tendemos fazê-la, voltar a ouvir
e nunca mais lhe pegar.
E o Mick ouve quando faz a mistura e acabou.
O Keith toca as músicas infinitamente.
Por isso é que o Keith é bom para...
Se lhe perguntarem sobre uma faixa que fizemos há dois anos,
ele lembra-se e sabe...
Se for boa, ele sabe e toca-a.
É muito bom...
O que quero dizer sobre ele ser um intérprete de jazz é que ele toca assim,
a forma como toca é... É muito fácil tocar com o Keith.
Muito fácil.
O nosso único crítico somos nós próprios, francamente.
Ele não diz: ''Oh, isso é horrível.''
E não pára de tocar se acontece alguma coisa.
É assim: ''Se é assim que queres fazer, vê o que acontece.''
''Eu não gostei, mas tu gostaste.''
Ele é muito acessível, é muito fácil tocar com ele.
E se for bom, ele farta-se de elogiar.
Portanto, é muito fácil tocar com ele.
Bom, já não toco com ele há muito tempo.
É muito confortável tocar com ele
o Álbum...
O que acho que aconteceu com o Exile
foi o facto de se passarem coisas estranhas connosco
e as canções que foram compostas para os álbuns que usámos...
... Tínhamos outras coisas que nos ocupavam...
como o Casino Boogie e todas essas coisas,
normalmente são afastadas, não usadas,
mas acabam por vir lentamente à superfície
e precisávamos delas para fazer aquilo e...
Foi assim...
E, às vezes, as melhores coisas passam-nos ao lado.
Passam, sejamos nós quem formos.
O Mick não gosta de usar uma coisa de há dois dias, portanto, passa.
Não é culpa dele, é assim que a coisa evolui.
E, às vezes, temos uma ideia para um álbum, que devia ser de tal forma,
e acabamos por descartar outras canções.
E foi mais ou menos isso que aconteceu com o Exile.
Escolhemos muita coisa que fora descartada de álbuns anteriores,
de uns quantos álbuns.
criatividade vs drogas...
Dizem sempre isso dos grandes escritores.
''Todos os grandes escritores são alcoólicos.'' E dizemos: ''Não, não são.''
Olhamos para eles e pensamos: ''Que raio, os maiores eram-no realmente!''
A maioria.
Fitzgerald, todos eles. E é assim: ''Eh lá! Espera lá.''
Portanto, talvez seja verdade. Não sei.
Durante anos disse-se isso dos músicos de jazz.
Eu ia também perguntar isso...
Ora, talvez tenhas razão. Quantas pessoas copiaram Charlie Parker
por ele ser tão grandioso e tão marado ao mesmo tempo?
Muita gente.
Mas acho que não o tornou mais grandioso do que ele já era.
Talvez tenha feito com que passasse mais tempo na música, não sei,
porque é isso que faz, dá cabo do...
Quanto a isso, não sei realmente.
E quando se é mais jovem, aguenta-se bem.
Quando somos mais velho, não aguentamos.
E também já não nos cai tão bem.
Ronnie Wood fala sobre: conhecer os Stones...
Lembro-me de estar com os Stones na Olympic,
quando os conheci, com a Faces, a Small Faces,
quando eu andava com eles.
Eles cantavam...
... faziam o coro de Get Off My Cloud, coisas do gênero.
Muito boas memórias de festas,
porque a Olympic tinha três estúdios.
Estavam os Faces num,
os Stones noutro e o David Bowie noutro.
Toda a gente se encontrava na cantina e era: ''Como vai isso? Bem?''
o entendimento de Exile on Main Street...
Lembro-me, sim. Foi um grande momento da minha vida.
Do gênero: ''Os Stones têm de sair de lnglaterra!'' Sim.
E também levei com as Finanças.
O Governo começava a andar à caça das grandes estrelas do rock ricas?
Caçaram-me 80 mil ou assim, o que significava ter de sair de lnglaterra,
e disse: ''Agora compreendo do que tratava o Exile.''
Porque, tal como o público em geral,
demoraram anos a perceber a qualidade do álbum.
Quando saiu era um álbum duplo,
foi óptimo para mim,
mas realmente...
não compreensível para o grande público.
Dizia-se: ''Álbum duplo?
''Esses tipos acham mesmo que podem fazer um álbum duplo?''
Quer dizer, era o dobro das canções. Eram todas fantásticas.
aprender a ser um Rolling Stone...
Nasci com essas canções na boca, de qualquer maneira.
Podes dizer qualquer canção do álbum e eu sabia-a.
Não tive de aprender.
Quando me juntei à banda, em 7 4 ou quando foi,
quando tive de aprender 160 canções ou coisa que o valha,
foi a minha iniciação no Woodstock.
Acabei por ensiná-las à banda.
Conhecia as canções. Nunca as tinha tocado, mas conhecia-as.
sobre a nova mistura de Exile...
Bem, o Mick é um picuinhas porque sempre foi, até hoje.
Ainda hoje remistura o Exile.
lsso mostra bem.
Nunca está... suficientemente perfeito.
Do ponto de vista dele.
Mas do meu,
é diferente.
Entra na cabeça, é perfeito, quer as faixas estejam misturadas ou não.
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