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A floresta é sobrevoar, admirar,
assombrar -se e quase sempre
desistir. Esquecesse que temos um bicho para caçar, rapaz.
Mas Halim não desistia.
Mas não te preocupes, é um bicho que não tem muita coragem.
Vamos trazer o danado Lugarota.
O Acauá, vem chuva forte por aí.
Ele me contava esse e aquele caso, dos gêmeos, de sua vida, de
Zana.
E eu juntava os cacos dispersos, tentando recompor a tela do passado.
Emelie, estou bem.
Nosso garoto é forte.
Sempre foi.
Estes leites secam.
Tu também.
Não me importa.
Vai lá.
Vai lá, Dona.
Vai lá, vai lá.
Isso lá é o jeito de voltares para casa.
O importante é que ele está em casa, Zona.
O jeito é que você está se deslocando.
Não, mãe.
Não, mãe.
Não, mãe.
Não, mãe.
Não, Memé. Não, Memé. Não sabe falar mais nada.
Foi tudo o que disse desde que chegou.
o trapo que
fizeram contigo.
Nosso filho foi maltratado em tua aldeia.
Nosso filho foi maltratado em tua aldeia. Não queres ver? Não queres ver?
Nunca queres ver!
Ah, legal!
Ele chegou!
O meu irmão chegou!
Harry, é tu?
Que tarde, eu te entendi, seu treinador.
Você é uma mulher, Harry.
Não estou tentando me acostumar com a ideia.
Eu preciso de você.
Também preciso de me acostumar.
Vamos. Vamos.
Será tudo certo, meu filho.
Agora sim, estás em casa.
Eu preparei outro quarto pra ti, meu filho.
Seu irmão vem mais tarde.
Vem na hora do jantar.
Não importa quem ganha ou quem perde.
Numa guerra nunca há território suficiente para enterrar todos os dias.
Muito prejuízo. Um ovo, galinha ouro, mas ninguém tinha dinheiro pra comprar.
Bob é que gosta de trocar frango fresco por ter sido encalhado.
Iago, imagina isso.
Imagina mesmo, rapaz. Manaus foi invadido por cingueiros famintos. E o
racionamento de energia, então, uma calamidade.
Ora, ora, Estelita.
Dizem isso de camarote. Nossos peixes tragavam. Tu tens gerador.
que sei o que tive que aguentar nessas noites infernais. Enquanto o Abelardo se
aproveitava da escuridão das ruas para assediar as mocinhas nos cabarets.
Estou quieto, Estelita.
Estou quieto.
Tudo melhora depois de uma guia.
Nos damos nós aqui e agora diante deste banho.
O que é que é a Sifra Ambulância?
Eu adoro isso aqui.
Está aí bem? É delícia.
Estou comendo o Líbano.
Com o que, senhor?
Estava dormindo e acorda.
Perguntei. Você não acha a pirra do domingo tão boa quanto a do Líbano?
Chu, como não sabe?
Nunca me fez lá no livro do pai. E o que comias?
O que fazias?
Não vai nos contar sobre onde estava?
Sobre a aldeia?
Sobre os meus parentes?
Não há nada.
Nada aqui contado.
Vocês precisam ver a bagagem que ele trouxe depois de cinco anos no Líbano.
Uma trouxa velha, fedorenta. Dana, trouxas velhas são coisas que a gente
esquece. Dana, trouxas de roupas velhas são coisas que a gente esquece. Trouxe
uma carta, um presente, nada.
Como pode? Deve ter esquecido a língua no Líbano também, não é?
Como é calado esse gêmeo, gente?
Isso é bem diferente do irmão.
São iguais, Estelita.
Têm o mesmo corpo, o mesmo coração.
Isso é Homer.
Mas que manguete, hein?
Obrigada pela festa.
Meu, o tempo só fez os dois ficarem mais parecidos.
Halen nunca deixou de pensar no reencontro dos filhos, no convívio após
separação. Aconteceu um ano antes da Segunda Guerra, quando os gêmeos
completaram 13 anos de idade.
O quê?
Ali!
O que aconteceu? O que fizeram com ele?
Quem fez isso com ele?
A cicatriz já começava a crescer no rosto do diabo.
A cicatriz, a dor e algum sentimento que ele não revelava e talvez
desconhecesse.
Levou a pior é o cara de coice.
Cara de lacral.
Silêncio!
Todos para a sala de aula.
Meninas. Os gêmeos.
Não voltaram a falar um com o outro.
Os pais tiveram que conviver com o filho silencioso.
Temiam a reação do gêmeo ferido.
Temiam o pior, a violência dentro de casa.
Então Halim decidiu.
A viagem, a distância que prometia apagar o ódio, o ciúme e a violência.
Jorra, bebê.
O que vamos fazer?
Não vamos fazer nada agora.
Nada.
Nada.
Nem falar.
Palavras vão desarmar nossa rede.
Esquecer a briga do gente.
E dizer que nada aconteceu.
O que aconteceu?
Eu quero falar sobre tudo.
Mas não aqui. Não aqui não.
O que esperar?
Mão forte.
Mão forte é o que eu esperava.
Os meninos precisam disso.
Precisam demais.
Precisam demais.
Como pode dizer isso?
Como pode dizer isso? Eu amo os dois!
Como se fossem um!
Eita, dois!
Dois!
Irmãos de verdade.
Você decidiu isso?
É isso?
E a outra?
E a outra?
E a outra, Dani?
Tu estás decidido?
Estás decidido, então?
Minha Zara.
Me deixa, Salim.
Não é pra tanto.
Os meninos já cresceram. Vão se entender melhor.
Longe de nós.
Já disse o que queria, Alem.
Saia! Sai!
Tá, tem a minha fé, Bruna.
A caçula vai ficar bom, dona Jana.
Era o que eu mais queria, rapaz. Que os dois se entendessem longe de nós.
Mas quando eu contei isso para a Zaba, ela ficou doente.
Tu sabes que eu só fiz isso por ela, pela Zaba.
Sempre por ela.
Até o impossível.
Um dia tu ainda vais conhecer uma paixão assim.
Goraz.
Que bom contar com vocês.
Eles estão vindo. Meus filhos, Jacob e Omar.
Por que Zana demora ali?
Zana está com o coração apertado.
São dois, os dois. Sem o gelo, vai dar tudo certo.
A mãe vai escrever pra vocês sempre, vocês respondem as cartas.
Vai dar tudo certo.
Fale para Zana. Fica tranquilo.
Coragem. Você vai gostar da nossa aldeia.
Lembra -se? Que menino lindo.
Parabéns.
Quem faz?
Quem faz?
Não se preocupe.
Ele vai adorar a viagem.
Pegue sua mala, Yahu. Está chegando a nossa hora.
Lá então.
Domingos! Domingos!
Domingos!
Domingos!
As cartas que ela escreveu.
Dezenas, centenas talvez.
Cinco anos de palavras.
Nenhum mais posto.
Agora ele estava de volta.
Um rapaz tão vistoso e alto quanto outro filho.
Por que não moraste tanto?
Estava em busca de um orquidejara para ti.
Ah,
eu te não encontrei.
Não é mesmo, meu
lanchador, esse meu caçula?
Olha, Tiago.
Então, de amor, não vais dar um abraço em teu irmão?
Então,
sobrou comida para mim?
Omar, pelo que parece, tu já estás mais que bem alimentado. Boa comida, não
quer, Edmar?
E nessa casa, a la cheia é Deus e testemunha.
Não há como não ficar satisfeito.
Ao fim da guerra e à volta de Aúba.
Que nunca mais caia de perto de nós.
O entusiasmo pelo heróico atuação dos nossos excepcionários.
Entrega -se as expansões de júbilo, enchendo as ruas com o festivo clamor da
alegria. Soldados do Brasil, soldados da liberdade.
O que é isso?
Mas me diz, naquela noite, a primeira depois da volta de Yao, a coruja rasga a
mortalha, sobrevoou a casa.
prenúncio de morte ou apenas uma superstição.
Música Música
Quando Yahu voltou do Líbano, eu ainda tinha esperança, sabes?
Que ele e o irmão pudessem se entender, que a Zana ia sossegar tendo o filho de
volta.
Do jeito que foi.
Não podia dar certo. Não deu mesmo. Nem pro que embarcou, nem pro que ficou
aqui.
Aí a vida foi dando voltas e foi me cercando, me acuando.
A vida é assim, rapaz.
A gente fica andando numa linha reta.
De repente dá uma cambalhota.
E a linha...
Dá um nó sem ponta.
Ainda tem tempo.
Eu posso?
Tem docinho com caroço dentro para chupar, como tu gosta.
Faltou açúcar?
Estás linda, meu filho.
Senhores ouvintes, com muita alegria, nossa saudação é minha.
Deixa eu
rir. É
saudade, hein, mama?
Não te atrase.
Quem de longe os via caminhar tão juntos tinha a impressão de que os dois irmãos
estavam conciliados para sempre.
Nos primeiros meses da chegada de Yao, Zana deu atenção equilibrada aos filhos.
Os gêmeos recebiam a mesma mesada e estudavam no mesmo colégio. A
igualdade
era um privilégio. Era também um transtorno.
É viáculo, imagina.
Sim, professor.
Há quanto tempo não frequentas a escola?
Cinco anos.
Perdeste muita coisa, então.
Sem escola.
Não tinha escola na minha aldeia.
Silêncio!
Sabes que vais ter que correr atrás para alcançar a turma, não sabes?
Sim, professor.
Silêncio!
Por favor.
Ele foi aprendendo, soletrando,
cantando as palavras, até que os sons dos nossos
peixes, plantas e frutas, todo esse tupi esquecido, não embolava mais na sua
boca.
Pai... Pai... Aplauso...
Que isso,
meninas?
Menino... E então nas arcadas das pétalas do irado?
Os grilos em festa começam na orquestra, febris a tocar.
E as breves falendas vão leve, perendo.
Embando, girando, valsando, voando no ar.
Sente -se agora!
Professor, não tinha nenhum poema mais bem comportado pra recitar, não?
Não dá.
Criança.
Não vendo o rio, é negro.
É o rei do fundo.
A correntez trepitando, arrasta uma palmeira, quanto mais o muro.
Pois bem, do seio túrgido do abismo, há de romper a maldição do morto.
Depois, o meu cadáver, negro, lívido, Irá seguir na esteira da canoa.
Pedite ainda?
Que paz!
Que alguma mentira ou que alguma oculta. Queres sair da sala, Omar?
Não, senhor.
Castro Alves exige muita concentração de todos.
A começar pela tua.
Sim, senhor.
Era tremendo aquela dor.
Levantava, enfim.
Partimos, Diques, na fúria de Smith.
É, chamar.
Levante -se já daí.
E se eu não quiser?
Levante -se já.
Não conversa de meu irmão?
Tu, fez alguma coisa com isso? Que isso, colega?
Tá nervosinho?
Vai cortar meu rosto também?
Depende. Prefere um beijo, é?
Tá uma gracinha, menininha. Não fale assim de seu irmão.
Precisava ver o vexame que passei lá na escola.
E a Ubi me jogou no pátio, feito um cãozinho.
Não fale assim de seu irmão. Eu passo o dia e preciso de educação. Isso sim.
Lá no Líbano.
Aconteceu alguma coisa com ele, não foi?
Zana não respondia.
Talvez nenhuma agressão tivesse sido tão violenta quanto a brusca separação.
Diabo.
Agora era ele que se isolava, trancava -se no quarto e vivia o mundo dele e
de ninguém mais.
O pastor, o aldeão apavorado na cidade. Talvez isso, ou um pouco mais.
O montanhês rústico que urdia um futuro.
Então, Domingas, pegaste tudo.
Não esqueças da água.
Aline e Habib, estamos prontos. Pra que tanta fruta? Lashu, quantos dias,
quantas noites acha que vamos passar na praia?
Quando estás com fome, não falas assim.
Quando estás com fome, queres mais é comer todas as frutas.
Domingas!
Viva!
Segura, Domingas! Cuidado, cuidado.
Calma!
Calma!
Não resista a fruta tão gordura como você. Não faz isso.
Não comas a fruta do chão.
ainda estás assim.
Vamos.
Eu não vou.
Como não vai?
Tchau, bebê.
Vocês tomaram um sol, vocês daram um mergulho, olha pra quê.
Outro dia.
Obrigado.
Ué!
Onde está a aranha?
Eu acho que ela prefere um outro concorrente ao campeão.
Voltaste então, Rana?
Estou aqui, mamãe.
Guardaste tudo, Domingos? Ainda gostas de desenhar?
Só desenhava quando estava contigo.
Tu ainda faz pássaros?
Esse aqui qual é?
Não lembrastes?
Chapim.
Essa aqui é a cigana, não é?
Não esqueces, então.
Foi do português. Um pouco.
Já lembraste.
Esqueci que fazia tanto calor aqui dentro.
Como tu aguentas? Já me acostumei.
Eu vou me acostumar também.
Não precisa.
Já és um homem.
Tem seu quarto lá em cima, é mais fresco.
Além do mais, não ouve os gritos da dona Estelita e do senhor Abelardo.
Nem os macacos.
Os macacos eu gosto.
E eu gosto daqui.
Sempre gostei.
Vou fazer um suco. Tem jabu madurinho no quintal.
Estou mesmo com sede.
A gente vive com sede aqui.
Homem de junho.
Mas junho que acaba com sede, foi?
Seja um maduro no quintal.
Eu sei.
Se não comer logo...
Teu
pai, tua mãe?
Eu não sou otário.
Ainda demoro.
Olha aqui!
Sabe que fui campeão?
Vences todo ano, Omar.
Perdi uma vez.
Te lembra?
Mas ganhou umas 20, não foi?
Foi.
E tem outras 20 por ganhar!
Domingas! Domingas, chegamos!
Domingas!
Domingas! Estás bem, Domingas?
Daqui a pouco não vamos mais precisar de brasa para assar o peixe.
O peixe mau está na brasa. Já temos visita.
É para mim, mamãe.
Mamãe! Mamãe!
Seu José.
José de quê?
José de Assis. Muito prazer.
Eu sei bem quem és.
Tantos médicos.
Tantos advogados interessados em mim.
Escolhe logo este perrapado. O que estás esperando?
Vá lá. Vá, vá, vá. Não me entendeste?
Vá lá. Volte embora daqui.
Está surdo. Ainda por cima é lento.
Vai me matar para adivinhar.
Nunca mais estás me ouvindo.
Quem? Quem era?
Quem era?
Dominga!
Dominga!
Dominga!
Desculpa, dona Antônia, o seguinte é a hora.
O que está acontecendo, Dominga? Você está bem?
Domingas mudou muito naquele verão, o mais quente em muitos anos.
Passava horas sozinho, quieta, talvez porque escondesse um
segredo.
Um segredo sobre o qual Halen nunca quis falar.
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