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Zulu
Maravilha.
É de avelã?
Raios, está quente.
O café está quente.
O Henry instalou uma daquelas geringonças.
- Uma máquina de café. - Sim.
- Ainda aqui estás? - Quero ajudar, chefe.
Com ele aqui, vamos ver se têm coragem de te raptar, tarado. É que nem pensar!
Para de me chamar isso!
Não é uma alcunha fixe.
Caramba. Que raio te devo chamar, então?
Sei lá. Lefty, Lucky, algo fixe.
Alto lá, as alcunhas não funcionam assim, bacano.
Vou chamar-te Espantalho.
- Porque sou alto? - Porque não usas a merda dos miolos.
Chama-me pelo meu nome, Lee, ou mando-te para a fábrica de autocarros.
Lee. Mensagem recebida, Lee.
Lee-Leva-nos-Tomates.
Lee Lunático.
Lee, nós protegemos-te, Lee!
Mas que típico…
A VERDADE OCULTA
A tua mãe já não gosta que durmas na livraria.
- Não é seguro. - Não é seguro porquê?
É esta. Consegues ver?
- Aquela? - Sim.
Vamos a isto!
Tem duas casas de banho,
algo pouco habitual num quadrúplex.
Disseste que era um dúplex.
É um quadrúplex.
É como um apartamento.
Seja como for, acho que seria perfeito para uma jovem
poder ter uma casa de banho só para ela.
Podes colocar as tuas cenas, como os champôs,
os vernizes e todos os artigos de beleza.
E esconder todos os rapazes cá em casa.
- Vickey? - Diz.
Saiu-te a sorte grande no espólio?
Vendeste todos os livros do Dale?
- Sim, vendi. Foi um negócio e peras. - Quem foi o sortudo?
Deixa-me adivinhar, o Ray?
Sabes que mais? Aquele malandro deixou-me pendurada.
Disse que vinha e não apareceu.
- Como? Quem comprou os livros? - Não faço a puta da ideia.
- Perdão. - Não te lembras?
Não, não me lembro. Havia umas 500 pessoas lá em casa.
Por falar em casas, queres arrendar esta?
Porque estou atrasada para uma depilação brasileira.
Como é o bairro?
É acessível.
Sim, mas é seguro?
Tulsa tem a taxa de criminalidade mais alta do país.
- Per capita. - Que deprimente.
Não sei, há uma esquadra engraçada aqui perto, se isso ajudar.
É…
Mas, na verdade, isso deve piorar as coisas.
Parece seguro. Temos negócio.
- A sério? - Ótimo!
Pronto, estou a vê-lo.
Olá. Aqui estás tu.
Posso?
Raios.
Envelhecer não é para os fracos.
Obrigado por teres vindo, Chubs.
Queria saber como está o assunto do otário do jornalista.
Disse-lhe para se afastar.
Disse aos meus advogados para tratarem do jornal, Heartland Press.
É uma revista de jornalismo narrativo.
Não me interessa. O gajo encurralou-me na casa de banho,
quando eu tinha a pila nas mãos, como um psicopata.
O gajo a fazer-me perguntas sobre skinheads e raptos!
Desculpa, não queria levantar a voz.
Há outro assunto.
Preciso que me faças um favor.
Se ganhar as eleições, vou precisar de uma equipa de segurança.
Para me proteger dos doidos como o Lee Raybon.
Se me fizeres este favor, este pedido,
serás a pessoa perfeita para o cargo.
Qual é o trabalho?
Bem.
É um favor e é delicado.
Quão delicado?
Precisa de um toque sensível.
Não fiques a ouvir muito tempo. Eles querem dinheiro.
Vais dar-lhes dinheiro.
Obrigado.
ANTIGUIDADES
- Quanto lhe deste? - Foi só um dólar.
Isto é por causa do tipo que foi à loja?
Olha, aprendi uma coisa na semana passada.
O mundo está louco e odeia escritores.
- A mãe diz que dizes sempre isso. - Digo o quê?
Que odeia escritores. Não odeia, só te odeiam a ti.
Está bem. Isso é de loucos.
As pessoas adoram-me. E não sei porque é que ela…
Olhem só quem é ele.
De lacinho. Aprecia só.
Aprecia alguém a mentir.
Boa sorte, Al. Desculpa lá.
Vejam só.
Lee Raybon, o rei de Tulsa.
Olá, Ray.
Queria passar pelo antiquário. Estás por aí?
Posso ir buscar os livros.
Adoraria ver-te, mas estou em Dallas numa feira de antiguidades.
Estás em Dallas?
Fica-te bem o xadrez.
Não sei se os cowboys vão achar piada.
Mas que alegria. Eu sabia que estavas aqui. Vi-te antes.
Eu sabia que sabias.
Francis, sempre que te vejo estás cada vez mais bonita.
E tu estás cada vez pior.
Isso foi porque passei a noite fechado na bagageira de um carro.
Porque te enfiaste lá dentro?
Porque fui assassinado.
Estás a ouvir-te? O Estado ainda te tira a filha se te ouve.
Sei que não tens os livros! E eu dei-te 1500 dólares.
Tecnicamente, só me deste um Joe Brainard roubado, e sabes que mais?
- Se calhar era falso. - Não era nada!
Disseste que compravas os livros!
Eu sei. Eu fui logo para lá, juro.
- Foste mesmo? - Tive de fechar a loja primeiro,
mas fui logo para lá. E aquela cabra antecipou-se.
- Quem? - A Catalina.
- A Catalina? - Uma velha ratazana de antiquários,
uma bruja, literalmente uma bruxa, Lee.
Ela deve ter enfeitiçado a tua ratinha Vickey.
- Se vende antiguidades, está cá. - Ela não está nada.
Expulsaram-na do mercado de antiguidades de Tulsa, há anos.
Agora vende tretas perto do lago Keystone.
É onde vive com um desgraçado qualquer.
Eras capaz de o adorar.
Ray.
Ray, não me vires as costas!
Precisas assim tanto dos livros?
Eu não preciso dos livros, mas sim do que contêm.
Deve ter sido a cena mais pretensiosa que alguma vez disseste.
Estás bem? Tens febre?
Com isso posso descobrir o assassino do Dale.
Eu não gosto nada de espalhar boatos,
mas o teu amigo Frank Martin, da Akron… - O que se passa com ele?
- Pois bem, ele conhece o Donald Washberg. - Toda a gente o conhece.
Sim, os influenciadores políticos e os abutres empresariais conhecem-no bem.
O Frank Martin joga golfe e bebe vinho do Porto.
Outro cretino que já nasceu rico.
E contrata ex-reclusos skinheads assassinos.
Isso não sabias. O Allen Murphy, ruivo, assassino.
O tipo que foi à livraria?
- Não devias estar a ouvir! Para de ouvir! - O que foi?
- Não ouças. - Acredita:
já há muito que deixei de dar ouvidos ao teu pai.
E eu sou o único que te conta a verdade.
O que é que isso diz sobre ti?
Não devia ter-te juntado ao Frank.
Olhem só quem fala em más companhias.
Achei que apoiavas segundas oportunidades, afinal também és um ex-recluso.
Eu sei que estiveste preso. A mãe contou-me.
Ela contou-te?
- Ouvi-a falar com o Johnny. - Ela contou-lhe?
- Ela disse que foi uma semana. - Foram quatro dias!
- E uma manhã. - Está bem.
Ela não disse o porquê.
- Céus, o que fui dizer. - A prisão não é tão má como pensas.
Há pessoas boas na prisão. O Nelson Mandela, o Muhammad Ali,
o Martin Luther King. - Pessoas negras ilustres?
Merle Haggard, Chet Baker,
- Oscar Wilde. - Charles Manson.
Se não fores preso, estás a fazer tudo mal.
- Poupem-me. - Eu fui preso
para tu não teres de ir. - Agora é o Salvador.
Não confies em ninguém, principalmente em homens no poder.
Ou doidas de Tahlequah.
- Sim, exato. - Fiquem bem.
- Não, vamos ao lago Keystone. - Não, não vamos.
Então, dá-me os 1500 dólares.
Não volto a sentar-me naquele balde.
- Pus-lhe uma almofada. - Uma almofada.
- Entra. - Puseste uma almofada.
- Cheira aqui a merda. - Sim.
Céus!
Francis, tu gostas de viajar num balde. É como andar num carrossel.
Esta carrinha tresanda.
Parece que alguém cagou aqui.
Tenho um cartão de reformado, por amor da Santa.
Deve ser aqui, certo?
Sei lá, não vejo essa bruxa desde que o Obama era o presidente.
- Porque vive num barco? - Está com um caçador furtivo.
Acho que é a casa dele.
Ela enganou o pobre coitado para obter o visto de residência.
Já chega, Ray. Muito bem, vamos a isto.
Eu não posso ir contigo.
Se ela me vir, diz adeus aos livros.
Já te disse que ela é vingativa e maluca?
Além disso, isto está pejado de drogados.
Não podes deixar a Francis sozinha.
Eu vou contigo, pai.
É melhor não. Sacrifício infantil?
A bruxa é bem capaz de te cortar a cabeça e fazer um candeeiro.
Tu e o Ray ficam no restaurante. Eu vou à procura dos livros.
És o pai do ano.
Raios. Tirem-me daqui!
Deixem-me sair!
- Ele está preso? - Onde está… Não tem puxador…
Não tem… Olá. Obrigado.
- Fechas a porta? - Sim, fecho.
Sou o mais velho e tenho de me sentar no balde.
Foi a pior viagem de carro da minha vida.
Uma vez andei a cavalo e quase fui parar a um campo de férias horrível.
Para.
Liguem o rádio.
Sabes se têm saladas?
Vais pôr isto nos ovos?
Claro. Era o que a avó fazia. Fico logo cheio de energia.
Como queiras.
Olá, camaradas, entrem.
HISTÓRIAS DE PEIXES
Temos água da torneira e uísque do barril.
Um uísque duplo, por favor.
- Sim, senhor. - Ora bem, nós precisamos de um plano.
Ela não te vai dar os livros de bandeja. A Catalina tem um coração de pedra.
Se ela se apercebe do que queres,
esconde tudo ou inflaciona o preço.
- Se calhar nem passas da porta. - Entro onde eu quiser.
- Achas? - Acho.
- És o Salvador e o Batman. - Nunca contaste o que fizeste.
O que eu fiz?
Sim, para ires preso.
- Obrigado. - Não, obrigado.
Adoraria ouvir essa história.
Olha, já és crescida. Vou ser sincero contigo, está bem?
Havia uma rapariga, quer dizer, uma mulher.
Uma mulher?
Ela costumava frequentar a livraria.
Adorava a Eudora Welty, o Peter Winch.
Achei que era uma miúda fixe.
- Mulher. - Isso.
Fizemos uma escapada.
Fim de semana louco, e afins.
- Esta é a versão para maiores de 18. - Está bem.
Ela deixou-me em Tahlequah só com um sapato.
- Então, já percebeste. - O quê?
- Não. - É complicado.
- Lá isso é. - Ora bem, aqui têm.
E bota abaixo.
- Aqui tem, senhor. E para a donzela. - Obrigado.
- Saúde. - Mais alguma coisa, chamem.
Caramba, é forte.
O marido é caçador furtivo?
Marido falso.
Fiquem aqui.
Tenho um plano.
PROTEÇÃO DA VIDA SELVAGEM E PESCAS
- Pearl? - O que foi?
Faz-me companhia e bebe uma margarita.
Não quero margaritas.
Estás a chorar?
É o que se faz quando alguém morre.
Tens fome?
Preparo-te uma sandes.
Passa-me essa charcutaria.
- É mortadela. - E isso é charcutaria.
Tens de parar de beber.
Vou para casa da Avery.
Não posso ficar aqui.
Mas tenho mortadela.
Olá, Betty Jo.
Olá, Marty.
Ganhei a lotaria?
- Quem me dera. - Pois.
O Donald pediu-me para te entregar isto.
Ele quer oferecer-te isso a ti e à Pearl.
São dez mil dólares.
Sim, estou a ver.
Ele pediu-me que te informasse que vai ficar com a propriedade.
Desculpa?
O Donald acha que a manutenção do rancho é uma grande carga para ti
e prefere que estejas num sítio mais fácil de gerir.
E desde quando acha que tem autoridade para fazer isso?
Ele não acha, ele tem a autoridade.
Por causa do acordo pré-nupcial que assinaste.
Um acordo assinado com o meu marido Dale, não com o Donald-Sem-Tomates
que te manda fazer o trabalho sujo.
Não sei os pormenores, Betty Jo, mas informaram-me
que o acordo foi entre ti e o fundo fiduciário da família.
O fundo tem o poder sobre a propriedade e já falaram sobre isto.
Mas olha, é como no Hamlet.
Mesmo confinado ao interior de uma noz, considero-me um rei do espaço infinito.
- Vai-te foder. - Vá lá, B…
Que se fodam as tuas nozes, desaparece do meu alpendre, Hamlet.
Betty, vá lá.
Achas que lhe deves alguma coisa?
Vou dizer-te uma coisa, Chubs.
O Donald não te é leal.
Ele não é leal a ninguém.
Mantém-te por perto enquanto fores útil.
Dás-lhe palmadinhas nas costas, seguras-lhe os tomates,
mas, quando já não precisar de ti, descarta-te.
E digo-te mais uma coisa, ele chora quando tem um orgasmo.
Merda, não precisava de saber isso.
Diz ao Donald que se foda, porque ele já me fodeu.
Não precisava mesmo de saber.
Vida Selvagem e Pescas!
Sargento… Agente especial Cooper!
Lee Cooper. Vida Selvagem e Pescas!
Olá!
Vida Selvagem e Pescas.
Bruxaria.
Agente Cooper.
Lee Cooper. Vida Selvagem e Pescas!
LIVROS
O que é isto? Caviar?
IRMÃOS BELUGA
Olá!
Estou a falar contigo.
Agente especial Lee Cooper.
Da Vida Selvagem e Pescas! Estás a ouvir?
- Francis? - Pai?
- Francis? - Pai?
Toca a acordar, idiota.
A serpente acordou.
Aguarda.
- Eu não… Está bem. - Cala-te, caralho.
Mas se eu pudesse… Está bem.
E não estavas assustado?
Até ao tutano.
E entraste sem hesitar?
Sim, nem pensei duas vezes.
Olhei-a nos olhos e disse: "Mãe, este sou eu.
Um orgulhoso homem gay."
Eu mal era um homem, tinha 15 anos.
Não sei o que me deu.
Ela tinha a bíblia aberta no colo e estava a fazer as orações matinais.
Claro que aquela bela cristã também tinha
um vibrador XXL escondido no meio da roupa interior.
Desculpa.
Devo estar a dar-te uma grande seca. O álcool deixa-me nostálgico.
Falar do pobre falecido Dale Washberg entristece-me.
Passou a vida toda dentro do armário.
Incapaz de mostrar a sua verdadeira faceta.
Por isso, acho que não foi homicídio.
Acho que aquele pobre homem estava cansado de sofrer.
Seja como for, acho que o teu pai é bom naquilo que faz,
mas, desta vez, está a fazer barulho por nada.
Já não devia ter voltado?
A Catalina está a fazê-lo passar as passas do Algarve.
Ou a queimá-lo vivo.
Mas o teu pai é uma fénix.
Ele há de voltar.
É por isso que o adoramos. Adoramo-lo.
- Vou fazer chichi. - Está bem.
Quem me dera. Passa-se alguma coisa aqui em baixo.
Sal!
Outro, por favor.
Perdão.
O que fazes aqui?
- Estava só… - Só a quê?
Vi as bandanas.
A porta estava aberta.
Não devia ter entrado.
Exato. Não devias ter entrado.
Como te chamas, picarona?
Jesse.
É inventário.
Vendo antiguidades.
Talvez possa comprar algo.
Queres comprar algo?
Os cristais são fixes.
Sim.
As perucas.
- E estes livros? - Tu não queres esses livros.
Eu gosto do Jim Thompson.
Gostas do Jim Thompson?
Livro preferido?
The Alcoholics.
Esse não é o livro preferido de ninguém.
É o meu.
É sobre o quê?
Bêbedos.
És engraçada.
Senta-te. Apetece-te beber alguma coisa?
Olá, mano.
Apanhei uma ratazana.
Não sou uma ratazana.
Vida Selvagem e Pescas, Marlon.
Calma, calma.
Soube que andaste a investigar e, olha só,
apanhei-o com as calças na mão.
Vida Selvagem e Pescas não usa calças dessas.
Pareces o John Travolta em Febre de Sábado à Noite.
Ele tinha uma arma.
Claro que tinha.
É só um funcionário público à paisana,
mas é um tipo da sede central.
Dá para ver.
Deixa-me ver a arma.
É gira.
Matas pássaros com isto?
Está bem, calma.
Deixem-nos a sós, rapazes.
Ajoelha-te.
O sensual…
… e perdido…
… peixe-espátula.
O paladino do lago.
Polyodon spathula.
É um nome de dinossauro.
Spathula.
Não conheço o Jim Thompson.
Mas o meu pai conhece e adora-o.
Deve ser um falhado.
É um bom pai.
Ou tenta ser.
E onde está esse bom pai agora?
Não sei.
Estou preocupada.
Mi padre também era um falhado.
Vamos sentar-nos. Anda.
Houve uma altura em que o nosso pai podia navegar à vontade neste lago.
Os malditos russos não percebiam a diferença
entre o caviar de peixe-espátula e o de esturjão-beluga.
Mas o de esturjão-beluga é mais sofisticado.
Especialmente entre as elites.
E é isso que estamos a combater.
É o que isto é.
É uma luta de classes.
Sempre foram os ricos contra os pobres.
Não tem nada que ver com a cor da pele, seja ela negra, branca ou indígena.
Mas tu, Travolta,
tu és um dos ricos.
Por causa das tuas calças.
Vês?
Isto já não rende como dantes.
Se vendes metanfetamina apanhas 30 anos de prisão ou perpétua.
Mas o caviar…
O caviar nunca fez mal a ninguém.
Mas, para nós, é como se fosse ouro.
Só o vendemos como caviar beluga.
Certo.
Vais gostar disto.
Não, eu… Eu não…
Eu não…
- Isso. - É saboroso.
- É… - Mastiga devagar, rapaz.
Não, é muito bom.
Deixa-o escorregar bem pela goela abaixo.
Sim. Olha, eu…
Não sou da Vida Selvagem e Pescas.
Eu roubei este casaco. É um disfarce parvo.
Na verdade, andava à procura de uns livros.
Para quê?
Para os ler.
Espera lá.
- Andas à procura de livros? - Sim.
Só isso.
Merda, vieste bater à porta errada.
Mas, dada a estrutura da tua boca, jamais acreditaria nessa tua língua.
Nem eu.
Posso só dizer uma coisa?
Sim? Obrigado. Dá-me uma ajudinha.
Obrigado.
Estou muito interessado…
… no que estão a falar.
Peixe fora de água, malta.
Obrigado.
É um match. Começa a conversa.
Serves-me um café?
Simples.
Ver perfil.
É gira.
És o gajo do governador Washberg.
Ele ainda não foi eleito.
Não tens fé.
Repete lá o teu nome, ó avozinho.
Acho que nunca te disse.
Devo estar a imaginar coisas.
Eu sou o Allen.
Nunca te vi por aqui, Allen.
Ouvi dizer que o café era bom. Resolvi experimentar.
Ouvi dizer que foste um herói na cerimónia do Dale.
Chegaste a roupa ao pelo àquele jornalista.
E quem te disse isso?
Os meus colegas.
Da Akron.
Apoiantes orgulhosos da campanha do Washberg.
Aquele cabrão tem cá uma lata, o Lee Raybon.
Assediar uma família de luto.
Pois.
Lá lata tem ele.
Ele disse ao Donald que foi raptado por skinheads.
Sabes do que ele estava a falar?
Faço questão de me manter bem longe de skinheads.
Mas andas a segui-lo.
Qual é o teu interesse no meio disto tudo?
O mesmo que o teu, suponho. Ou o que supostamente devia ser.
Não estou a perceber.
Mantém-te na linha, avozinho.
EMPREITEIRO
Desculpa, entrei em pânico!
Entrei em pânico. Desculpa.
Só queria a porcaria dos livros.
Estava à procura de uma mulher chamada Catalina e…
O que disseste?
Catalina.
Agora é que lixaste tudo. Isso é outro nível de estupidez.
O que…
Estavas a ir tão bem.
Ele começava a gostar de ti. Dava para ver.
Tinhas de mencionar a maléfica.
- És o marido. - Ela roubou-lhe o coração.
E o barco.
A minha casa.
A casa flutuante dele.
Mas ele está bastante ressentido.
Não a conheço.
Como já disse, eu só…
Sei que parece parvo, mas ando à procura desses livros.
Sou escritor.
- Digamos que és escritor. - E sou.
Vais escrever sobre tudo isto?
Sobre o que viste e ouviste?
Alguém pode morrer.
Eu não vi nada.
Não me interessa o que vi.
Não interessa o que ouvi nem o que estão a vender.
Não quero saber do caviar.
- Cuidado. - Certo.
Estou do vosso lado.
Está bem? Estou do vosso lado de corpo e alma.
Já estive preso.
- A sério. - Essa é nova.
Nunca ouviste falar de Merle Haggard? Nunca ouviste falar do Mahatma…
Henry David Thoreau?
Pois, e eu já estive na Casa Branca.
Já estive na prisão mais do que uma vez.
- Isso faz de ti um durão? - Pronto, está bem.
Conta-nos lá a tua triste história, Sr. Escritor.
A minha triste história?
- Está bem. - Sim.
Está bem. Bem, se queres mesmo ouvir
a primeira coisa que vais querer saber
é onde nasci e como foi minha infância miserável
e toda essa treta à David Copperfield.
Mas não me apetece nada falar disso.
Primeiro, porque é uma seca.
Segundo, os meus pais teriam um enfarte se eu contasse cenas sobre eles.
Não é que não goste dos meus pais.
Só não quero falar disso.
Quero falar da primeira vez que consumi metanfetaminas.
Porra, agora sim.
Então, eu estou num Dairy Queen, em Fort Worth, Texas, a pedir um batido.
Esta rapariga está atrás de mim.
Uma mulher bonita.
Daquelas tão icónicas que podia sair numa capa de revista, estão a ver?
Certo?
Mas ele não me deixou aqui sozinha.
O amigo dele está aqui.
E está bêbedo, mas…
- Soa mal dito em voz alta. - Pois soa.
Pois.
Mas ele adora-me.
Eu sei.
Adora-te tanto que te deixa sozinha com bêbedos.
Esquece.
Quem sou eu para julgar?
Isto é bom. Obrigada.
És simpática, não foi o que ouvi.
O que foi que ouviste?
Quis dizer, não és como estava à espera.
Posso beber mais chá?
Claro.
Acordo nu dentro de um carro.
Mas não é o meu o carro.
Há um cão de três patas a lamber-me o olho e o Juan está amarrado
no banco de trás e eis que a polícia aparece.
- Pois. - O que aconteceu à rapariga em topless?
Nunca mais a vi.
- Raios. - Às vezes pergunto-me se era mesmo real.
É a história mais mirabolante que já ouvi.
Conto-vos o resto?
Enquanto aqueles polícias me levavam,
nu e assustado, para a carrinha,
só conseguia pensar na tremenda desilusão que seria para a minha filha.
Desiludi-a.
Ela só me tem a mim.
Tens razão.
E eu desiludi-a.
A sério. Estou ciente disso. Percebem?
Ela está na marina, neste momento.
À minha espera.
Sozinha.
Não a quero assustar nem que cresça na merda de um quadrúplex.
Quer dizer, eu… Não sei. Estou confuso.
- Acredito na tua história. - Obrigado.
Tem demasiados pormenores para ser mentira.
Acho que és mesmo um escritor.
Obrigado.
Devias escrever sobre nós. Sim. Daríamos um bom livro.
Os Irmãos Beluga.
Bom título.
Às vezes, gostaria de ser escritor.
Gostaria de lhe contar a verdade sobre a minha alma,
mesmo que me tenha enganado.
Sou aquilo a que chamam um disléxico poético.
Tenho uma ideia.
Tens papel e caneta?
Espero não vomitar, Sal. O meu estômago parece um mar revolto.
- Estou a torcer por ti. - Ótimo.
- Vamos embora. - O que foi?
- Tenho os Jim Thompson. - Como? Onde está a Catalina?
- Vem aí. Vamos embora! - Tenho de pagar a conta.
O teu pai safou-se, como sempre.
- Estás a gozar? Despacha-te! - Espera. Sal!
Catalina, é como se os antigos de um sopro…
- Espera, sopro não, sonho. - De um sonho criassem a tua existência.
- Tu rebentaste… - Não.
Tu caíste na minha vida como o pôr do sol no lago Keystone.
A tua alma entrelaçada na minha e visões de ti a dançar
como as miragens nas histórias de piratas de outrora.
Sou um homem apaixonado e creio que é por isso que me amas.
Mas para ser todo teu, tenho de matar a minha paixão.
É um beco sem saída.
Se nunca mais contar com a tua companhia,
vou estimar as memórias que criámos juntos.
Se seguires em frente, bem, será um homem sortudo.
Raymond Mosley.
Catalina Estragon.
Devia ter adivinhado que estavas por trás disto tudo. Que golpe baixo, Ray.
Até mesmo para ti. Mas nunca tiveste classe.
Sabes lá o que é isso? Nem que estivesse tatuado nas tuas mamas.
- Chúpame la concha, Fagin de meia-tigela! - O que me chamaste?
Se não conheces Dickens, não mereces estes livros.
- Ela roubou os meus livros. Agarra-os. - Não. Para! Por favor.
Se te achares capaz de me dar mais uma oportunidade,
moverei vales e montanhas para te dar a vida que mereces.
- Boa sorte! - Lee.
- Diz. - Pura poesia, amigo. Obrigado!
Espero que a Catalina veja em ti o que eu vejo em ti.
Já somos dois.
Francis!
Francis!
Francis!
- Pai? - Francis!
Pai. Pai!
Nem imaginas, estou tão feliz por te ver.
- Encontrei. - O que é que ele tem?
- O que foi? - Não olhes.
- Porquê? O que está no barril? - São os livros. Mas não faz mal.
- Está tudo bem. - Para!
Quem faria tal coisa?
- Aquela cabra! - Merda!
- Merda! São primeiras edições! - Nós tentámos.
- Desculpa. - Ray!
- Pai, está tudo bem. - Não!
- Para! - Não está nada bem!
- Eu tentei. - Não!
Um sujeito ajudou-a. Nós tentámos. Até lhe disse que os comprava.
Merda.
Só sabes que estás bêbedo quando te levantas.
Não sei porque é que o Sal me deu tanto uísque.
Talvez porque estavas sempre a pedir.
Deve ser verdade.
- Pai. - Sim.
- Pai, para. Vá lá. - O quê?
Disseste que não querias os livros,
mas sim o que continham. Então, encontrei o que estava nos livros.
Conseguiste as cartas?
Como conseguiste as cartas?
Agrediram-me com um arpão!
Obrigaram-me a comer ovas de peixe-espátula!
Como conseguiste?
Como?
Acho que as roubei.
"A família pode ser peculiar.
Adoro o meu irmão Donald, mas ele está aliado às forças do mal."
Não, espera. Lê outra vez.
Eu disse que ele está aliado às forças do mal.
O Donald está a tentar encher os bolsos.
Anda obcecado em satisfazer as próprias ambições.
E vai usar esta família até mais não, só para saciar a sua ganância.
Tradução: Ana Maria Silva
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