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- Art Subs - 10 anos fazendo Arte para voc�!
Legenda - Ristoff -
Revis�o - Murrice -
Georg?
O que voc� ainda est� fazendo aqui?
Eles v�o fechar Paris. Logo n�o consegue mais sair.
- E voc�? - Vou embora amanh�.
- Pra onde? - Cassis.
- Onde � isso? - Marselha. Vou pegar um navio.
Tenho um visto de perigo para os Estados Unidos.
O que � isso?
Um visto para pessoas especialmente amea�adas.
Voc� est� muito amea�ado, n�?
Escuta!
Meu artigo. O jornal.
Voc� pode me fazer um grande favor.
Tem dinheiro a� pra voc� tamb�m.
Despache essas cartas para mim.
Por que voc� mesmo n�o faz isso?
S�o para o Weidel. Voc� o conhece, o escritor.
- O grande. Foi antigamente... - N�o o conhe�o.
- Por que voc� n�o faz isso? - Eu tentei.
A dona do hotel estava estranha.
Ficou com medo?
Eu diria que tive cuidado.
- De quem s�o as cartas? - Uma da mulher dele.
O que h� de t�o importante ali?
Ele acha muito importante.
A outra � do consulado do M�xico.
�ramos amigos, eu e o Weidel, t�nhamos o mesmo editor.
- N�o posso simplesmente... - Quando recebo meu dinheiro?
Quando entregar as cartas a ele.
Hotel Ryad, quarto seis. Espero por voc� aqui.
Como voc� vai pra Cassis?
Ainda anda com Heinz a reboque?
N�o.
- �timo. - Por qu�?
Ainda temos uma vaga no carro.
Mas s� uma.
Quer ir junto?
Vou junto.
Com licen�a?
Por que n�o espera l� embaixo?
Toquei a campainha.
- N�o ouvi. - Evidente que n�o.
- Procuro por um quarto. - Mostre seus pap�is, por favor.
Me mostre um quarto antes, por favor.
Escolha um. Estamos quase sem h�spedes.
Qual me recomenda?
Um com sol da manh�,
calmo e... barulho de p�ssaro do jardim.
O senhor � alem�o? � do governo?
Todos os h�spedes est�o registrados.
Houve fiscaliza��o h� duas semanas.
Sol da manh� e canto de p�ssaro do jardim.
Se for poss�vel.
Um momento. Vou buscar uma chave.
O 16, o quarto mais bonito.
Duas janelas grandes, lado sul.
Essa pessoa me causou muitos problemas.
Ele chegou no dia 15 � noite, logo antes da ocupa��o.
N�o fechei meu Hotel. Fiquei.
Meu pai dizia pra n�o deixar nada pra tr�s, sen�o � roubado.
O Sr. Weidel chegou at� mim com o corpo todo tremendo.
Achei estranho.
Me pediu pra n�o registr�-lo.
Mas o Sr. Langedon insistiu
no registro de todos os estranhos.
Precisa haver ordem, n�o �?
Weidel n�o queria registrar-se.
Sua mulher e ele sempre ficavam nesse quarto.
Eles o amavam.
E se o assunto � amor, fico fraca.
Assim sou eu, francesa.
"Uma noite apenas", eu disse.
Na manh� seguinte, n�o desceu. Abri a porta com a chave reserva
e encontrei toda a sujeira.
Ali estava ele, deitado r�gido em seu sangue,
com o pulso cortado.
E onde ele est� agora?
Conhe�o uma pessoa da pol�cia que vai resolver isso pra mim.
Morte de desconhecido, cremat�rio, funeral an�nimo.
Weidel me arrumou mais problemas do que a ocupa��o.
O que pretende fazer com as coisas dele?
Quer levar?
Quero apenas que tudo volte ao normal.
Seus documentos, por favor!
Ele est� ali! Ali!
Sou eu!
Onde esteve? Ficamos preocupados.
Claire, o que est� fazendo?
Eles v�o encontrar a c�mara.
Vamos falar que � o quarto do Jean.
O esconderijo dele. Ele sempre quis.
O Marzip�. Prometi ao menino.
A Melissa espera por ele em Marselha.
Vai com ele para as montanhas.
Isso ele n�o vai conseguir.
Providenciei inje��es de morfina e penicilina.
- Claire j� fez as malas. - Ele n�o vai conseguir.
Eles est�o passando um pente-fino no quarteir�o.
Uma vizinha esteve aqui hoje.
Ela descobriu a c�mara. Logo eles estar�o aqui.
H� um campo de concentra��o no vel�dromo.
Est�o revistando tudo.
Eles chamam isso de "limpeza da primavera".
Merda!
Tenho um Dietrich estacionado na frente da porta.
Voc�s v�o viajar por no m�nimo quatro dias.
Durante a viagem, podem deixar as persianas levantadas.
Para luz e ar fresco.
Nas paradas, precisam fechar. Sen�o chamam a aten��o.
Certo?
Quando chegarem na Melissa, esperem alguns dias.
Depois v�o para o Henry, nas montanhas.
- Como ele pode... - Com sua ajuda.
Voc� vai ajud�-lo.
Pega. Com a pressa, n�o consegui mais.
Obrigado.
Vamos!
Isso, preciso me associar ao clube.
As rodas est�o em ordem.
- Onde voc� tira f�rias? - Em Marrakesh.
Que legal!
Ele n�o sabia por quanto tempo j� tinha observado o Heinz.
Em algum momento, abriu a bolsa do escritor.
Por puro t�dio come�ou a ler.
Sentiu que era a sua l�ngua, sua l�ngua materna.
Havia palavras que sua pobre m�e usava
para tranquiliz�-lo quando tinha se tornado raivoso e cruel.
Havia nessa hist�ria muitas pessoas malucas,
um povo bem transtornado.
Foram quase todos envolvidos em coisas doentias e turvas.
Mesmo aqueles que relutavam.
Todas essas pessoas nessa hist�ria,
e uma parecia com ele pr�prio,
n�o o incomodavam por sua obtusidade
como incomodariam na vida real.
Ele entendia suas a��es porque podia acompanh�-las
do primeiro pensamento
at� que tudo acontecia como tinha que acontecer.
Por ter sido descrito assim pelo escritor, agora morto,
lhe parecia agora menos ruim.
Havia ainda duas cartas na mochila.
Uma do editor, que prometia tornar bonita a sua hist�ria,
hist�rias essas que infelizmente j� n�o se publicava mais.
A outra carta escreveu uma mulher. A sua pr�pria?
Que n�o esperasse por ela,
pois suas vidas em comum chegaram ao fim.
Lembrou das cartas que o Paul pediu para entregar ao Weidel.
Elas ainda estavam na sua bolsa.
Uma era do consulado mexicano,
confirmando que Weidel estava convidado a ir para o M�xico.
Visto e dinheiro para a viagem estavam � disposi��o.
A outra era de sua mulher. Ela precisaria reencontr�-lo.
Ele n�o deveria hesitar. Ela estaria esperando por ele.
Deveria ir � Marselha imediatamente.
Uma carta confusa. Mas uma letra limpa.
N�o. Limpa, n�o.
Pura.
Heinz.
Heinz.
Heinz.
Me larguem!
Me larguem!
L� na frente tem uma janela aberta.
Que fedor! Ele est� morto.
Vamos!
- Vou buscar as coisas dele. - Est� bem.
No dia seguinte, chegou � Marselha.
C�u azul, palmeiras ao vento.
Fazia frio. Era o mistral.
Ele estava cansado.
Ningu�m olhava pra ele. Isso que era o terr�vel!
N�o que olhassem fixamente para seu rosto imundo e cansado
ou sua roupa rasgada.
O terr�vel era n�o ser visto, como se n�o estivesse ali.
Ela bateu no ombro dele, ele se virou
e ali a viu.
Ela olhou pra ele, balan�ou a cabe�a
se virou e foi embora.
Ele ficou olhando.
O sobretudo preto e elegante, os sapatos finos, andar cansado.
Mais uma vez ela se virou pra ele,
olhou e seguiu seu caminho.
Nesse momento, soou a sirene da pol�cia,
houve uma batida policial e ele foi embora.
Poderia ficar no gol?
- Que horas s�o? - Mais ou menos 11 horas.
- N�o deveria estar na escola? - N�o. Hoje � domingo.
- Vamos jogar? - N�o jogo h� muito tempo.
- Voc� fica s� como goleiro. - S� como goleiro!
- Sabe o que est� dizendo? - Voc� � alem�o?
Tenho sotaque?
N�o, � que eles amam os goleiros deles.
- N�o sei se amam, n�o sei. - Pelo menos eles s�o bons.
� verdade.
Voc� � bom?
- Sim. - Muito bom?
Sim, muito bom.
Mostre-me.
Horr�vel!
- Por qu�? - Por que o qu�?
Por que ainda n�o fiz gol?
Por causa da sua perna de apoio. Ela mostra pra onde vai chutar.
Merda!
Voc� fala alem�o?
"Merda", "passe duplo", "Borussia Dortmund".
- S� isso? - Sei um pouco mais.
Preciso falar com sua m�e.
Meu nome � Georg. Sou um amigo do seu esposo.
Est�vamos vindo para c�.
Ele teve uma les�o na perna. Ela inflamou.
Ele morreu.
Ele procurava um hotel, onde poderia encontrar paz
e pudesse se esconder.
Todos os hot�is estavam lotados.
O s�timo hotel,
apesar da placa "lotado", tinha um quarto dispon�vel.
- Uma semana adiantado. - Uma semana?
Se tiver batida policial, estarei de novo de m�os vazias.
O senhor n�o tem visto de perman�ncia.
Mas eu nem quero ficar.
Isso o senhor tem que provar.
Como?
O senhor vai ao prefeito
e apresenta o visto e a passagem de navio.
Quer dizer,
que apenas posso ficar...
se puder comprovar que n�o quero ficar?
Quanto �?
Sabia que ela o denunciaria. Amanh�, talvez at� hoje.
Ele estava exausto. Quase que n�o se importava.
O pre�o do quarto cobrado pela mulher era obsceno.
N�o lhe restava mais nada.
Ele viu os outros, � toa, no lobby,
que esperavam contar ao novato suas hist�rias.
Quais pa�ses concedem vistos ou vistos de tr�nsito.
Mais tarde, j� no quarto, pensou no poeta.
Pegou novamente o �ltimo manuscrito.
Mas j� n�o o encantou mais.
A fome era perfurante e o gosto do cigarro, horr�vel.
Deitou-se na cama. Queria espantar a fome.
Pela manh� entregaria as coisas do poeta ao consulado,
receberia, quem sabe, uma recompensa
quando poderia comprar algo pra comer.
E ent�o...
Algo vai acontecer.
A fome estava insuport�vel.
Esse � meu contrato de trabalho.
Caracas.
Sou dirigente. Conhece Caracas?
Est� vendo? Eu deveria come�ar no dia 01/09.
Sim.
Isso...
Este � meu visto. Chegou a tempo.
Eles querem m�sica moderna. Tamb�m fiquei surpreso.
Sou especialista em Reger e Nono,
mas m�sica moderna em Caracas?
Quem escuta isso l�?
Eles querem doze fotos para o passaporte.
Veja aqui: um, dois, tr�s,
quatro, cinco, seis, sete...
oito, nove, dez, onze, doze, todas aqui.
Eu n�o sorrio, d� pra ver minha orelha.
� um grande erro, sorriso e posi��o errada.
- Sim. - J� fui recusado.
Ah, e o custo... Isso aqui � a passagem de navio.
O navio para duas vezes, nos Estados Unidos e no M�xico.
Por isso preciso do visto de tr�nsito.
Talvez pense: "Ele tem tudo.
O visto de tr�nsito � f�cil de conseguir."
Mas, n�o. Medo!
Eles t�m medo de desembarcarmos e de ficarmos por l�.
Sei.
- Tem algo pra comer? - O qu�?
N�o tenho nada pra comer.
Ele observava o dirigente
e todos os outros com suas hist�rias.
Como escaparam da morte.
Das crian�as, dos homens, das mulheres que perderam.
Das coisas apavorantes que viram.
Ele n�o queria mais ouvir suas hist�rias.
S� n�o diga que acha eles fofos. Eu os odeio.
Preferiria fazer picadinho deles.
Pertencem a dois americanos, Emmy e John Blumenberg.
Voltaram apressadamente de avi�o para Washington.
N�o posso condenar. John � judeu, como eu.
N�o puderam levar os cachorros. Devo lev�-los no navio.
Em troca v�o me ajudar para que eu consiga um visto.
Agora aguardo pelo visto de tr�nsito mexicano
e a merda do atestado veterin�rio.
Eu projetei a casa deles.
Ent�o pensou: "Isso � Marselha."
� uma cidade portu�ria.
E cidades portu�rias s�o cidades
em que hist�rias s�o contadas. Para isso existem.
E essas pessoas t�m todo direito de contar suas hist�rias
e de serem ouvidos.
N�o quero ficar no M�xico, eu...
Eu os odeio. Eles e seus cachorros.
Isso j� � demais. Est�o querendo nos deixar com medo.
- Meu seguro de vida. Merda! - Que loucura.
813.
� o senhor?
Sim.
O passaporte. Obrigado.
- Um visto. - Um visto de tr�nsito.
- Pra onde pretende ir? - Para os Estados Unidos.
O que est� fazendo?
Quero lhe mostrar essas cartas e esse manuscrito...
Posso ver seu n�mero, por favor?
Esse aqui?
Do que se trata?
N�o sou o c�nsul, apenas vejo do que se trata,
e ent�o encaminho adiante.
Venho em nome de Weidel.
- Weidel, o poeta? - Sim.
- Eu sou... - Um momento, por favor.
O c�nsul o aguarda. Por favor!
Sua mulher esteve aqui h� pouco.
Os dois vistos. As passagens de navio.
Uma ordem de pagamento.
Tem uma filial da Western Union
na Rua Canebi�re. Fica aberta 24 horas.
Faltam apenas tr�s semanas para a sa�da do navio.
Providencie urgentemente os vistos de tr�nsito
para os Estados Unidos e Espanha.
J� est�o construindo campos de concentra��o
em Aix e Cassis. E logo v�o come�ar com a limpeza.
Sinto muito, mas h� um mal-entendido.
N�o h� conex�o direta para o M�xico.
O senhor precisa de vistos de tr�nsito.
Eles t�m muito medo de quererem ficar.
Como se chama mesmo a sua mulher?
O nome da sua mulher.
O senhor n�o teria esquecido o nome da sua mulher.
Ela vem aqui quase que diariamente
e pergunta pelo senhor.
Marie.
� verdade. Marie.
Ela chorou compulsivamente.
Ela me abandonou.
Uma coisa me interessa. Uma pergunta.
Quem esquece mais r�pido,
o abandonado ou aquele que abandonou?
Me interessa saber o que pensa um escritor.
Eu quase n�o consigo me lembrar dela.
Nesta tarde o vi pela primeira vez.
Ele resgatou a ordem de pagamento,
estava sentado � mesa,
comia os peda�os quentes da margherita.
e bebia um "ros�" fresco.
L� fora passavam as pessoas com suas sacolas de compras.
"Em poucas semanas o medo e o caos tomar�o conta daqui
e n�o lhes ocorre ideia melhor do que ir �s compras", disse.
Contei a ele de um filme
em que zumbis ocupam um centro comercial.
"Sim", disse ele.
"Nem aos mortos ocorre ideia melhor".
Est� a fim de jogar?
Trouxe algo pra voc�.
N�o posso. Estou doente.
- Sua m�e est�? - Ela precisa trabalhar.
- Voc� escuta r�dio? - Est� estragado.
- Ele caiu alguma vez? - N�o sei.
Consegue consertar?
Posso tentar.
Voc� me ajuda?
Assim...
Isso...
Pode segurar aqui? Assim?
�timo... Agora segura sobre a chama.
N�o muito pr�ximo da chama. A temperatura aqui � menor.
Assim est� bom.
Vou pegar isso emprestado.
�timo. Um pouco pra frente.
Vamos ver se funciona.
N�o prenda a respira��o. Continue respirando.
Como no futebol. Continue respirando.
Aproxima a colher agora...
Isso.
Um pouco mais pr�ximo. �timo.
Pode tirar.
�timo. Parece bom.
Vamos ver.
O que voc� tem?
Conhe�o essa m�sica.
Minha m�e cantava para que eu dormisse.
"Bacalhau...
vai pra casa."
"Elefante...
corre pra casa."
"Formiga...
rasteja pra casa."
"As l�mpadas brilham,
o dia acabou."
Minha m�e pergunta se essa � a sua profiss�o.
Sim.
Aprendi t�cnica de r�dio e TV.
Voc� se formou?
N�o.
Os fascistas chegaram antes.
Pode cantar a m�sica mais uma vez?
Minha m�e quer ver voc� cantando.
Borboleta...
Vai pra casa
Pequeno urso...
Vai pra casa
Bacalhau... n�o, espera.
Nada pra casa
As l�mpadas brilham
O dia acabou
Agora vem o bacalhau.
O bacalhau...
Nada pra casa
Elefante...
Corre pra casa
Formiga...
Rasteja pra casa
As l�mpadas brilham
O dia acabou
Raposas e gansos...
V�o pra casa.
Gatos e ratos...
V�o pra casa
Homem e mulher...
V�o pra casa
Ent�o ele quebrou.
Ele perdeu a voz, como se diz.
Geweint hat er wohl, er konnte es spuren. ???????w
Melissa e Driss olhavam pra ele.
Driss disse que j� era tarde. N�o queria ele ficar com eles?
Ele disse que ainda precisaria resolver algo com urg�ncia
e foi para o hotel.
Prometeu passar a manh� seguinte com Driss.
A m�sica n�o sa�a de sua cabe�a.
Tudo sonha E tudo muda
Na vida
A noite j� assenta Sobre nossa casa
Um momento!
Documentos! Autoriza��o de perman�ncia.
- Na mesa. - Ah, �?
Ent�o mostre aqui.
Mais r�pido. N�o temos uma eternidade.
Mam�e! Mam�e!
- Me soltem! - Mam�e! Mam�e!
Me soltem!
Ele viu a mulher. Como se estivesse apagada.
Ele ouvia o grito do homem e das crian�as.
Ele via os outros que, como ele, apenas observavam.
Eram impiedosos?
Estavam aliviados por n�o terem sido pegos?
Em uma das portas descobriu a mulher dos cachorros.
Seus olhares se cruzaram. Se olharam por um longo momento.
Ent�o baixaram os olhos.
Entendeu o que os mantinha todos t�o calmos e quietos.
Era a vergonha.
Eles se envergonhavam. Envergonhavam-se profundamente.
No dia seguinte, buscou Driss.
Ele o levou a uma feira empoeirada ao mar.
Minha m�e e eu vamos para as montanhas.
Voc� vem junto?
Se voc� conseguir...
Se voc� conseguir, chutar a lata na sarjeta,
n�s vamos treinar.
Aquela sarjeta ali? Est� bem.
Espera. N�o pode ser muito f�cil.
Perna de apoio...
Ah, merda.
N�o... Voc� tem uma tentativa ainda.
Espera. Est� muito pr�ximo. Mais um pouco pra tr�s. Sim.
Um pote de sorvete de chocolate.
Preciso resolver uma coisa. J� volto, est� bem?
Pra onde voc� vai?
Aqui do outro lado. Na casa com a bandeira.
N�o vai demorar. J� volto.
- Quer comer algo? - N�o.
Senhor Weidel.
Senhor Weidel.
Sim.
Por que n�o pediu um visto para os Estados Unidos?
Muitos dos seus colegas fizeram isso.
Temeu que seu pedido de visto fosse negado.
Correto?
Na s�rie de artigos publicada no "New Frontier",
sobre o fuzilamento dos trabalhadores em Almer�a,
com ajuda da CIA,
voc� teve participa��o.
N�o.
A "New Frontier" � um jornal comunista.
N�o tive participa��o.
Por que M�xico?
Acredita que comunistas s�o bem-vin...
J� disse que n�o tive participa��o naquilo.
O que quer no M�xico?
Do que quer viver?
Vou tentar exercer um of�cio manual.
Que of�cio que quer exercer?
De t�cnico de r�dio e TV.
N�o vai querer escrever um livro sobre tudo isso aqui?
N�o.
Mas essa � a tarefa dos escritores.
Quando crian�a, muitas vezes faz�amos excurs�es.
Muitas vezes, eram bastante bonitas.
Infelizmente...
no dia seguinte vinha o professor
e dava como tema de reda��o:
"Nossa excurs�o".
E depois das f�rias sempre havia a reda��o:
"Minhas f�rias".
Ou:
"Minhas mais bonitas experi�ncias de f�rias".
E mesmo depois do natal, ap�s a ceia e a festa
havia sempre a reda��o:
"Meu Natal".
Em algum momento me pareceu que eu apenas vivi isso tudo
para escrever uma reda��o sobre isso.
E para os escritores que estiveram comigo no campo,
as viv�ncias mais terr�veis s� foram vividas
para que pudessem escrever sobre elas.
O campo de concentra��o. A fuga.
A morte.
A guerra.
N�o vou mais escrever reda��es de escola.
Essa � uma confiss�o s�ria para um homem como o senhor.
Ele n�o reage.
Com licen�a.
N�o est� gostoso? Quer outra coisa?
Voc� quer ir embora?
Para os Estados Unidos?
Para o M�xico.
Quando?
No dia 23.
Com o "Montreal".
Podemos comer sorvete em outro lugar.
No porto, talvez.
Ou vamos treinar. P� de apoio.
Ent�o viu que o menino chorava.
Como ele tentava reprimir as l�grimas.
Eu preciso ir embora daqui.
Ele viu o esfor�o, queria consolar o menino
e explicar por que precisava ir embora.
Merda! V�o � merda, voc�s todos.
- Como est� o dirigente? - Ele n�o sobreviveu.
O senhor pode me convidar pra almo�ar?
- Como? - Pode me convidar pra almo�ar?
Os cachorros comem muito. Quase n�o tenho mais dinheiro.
N�o contei com essa demora
pra conseguir o atestado veterin�rio.
Espere.
A mulher tinha me dado um bilhete.
Ela era surda e muda.
Eu vou...
H� muitos refugiados querendo ganhar algum dinheiro com isso.
Deixar um bilhete com um brinquedo sobre a mesa
pedindo doa��o.
Mas a mulher aqui procurava por um m�dico para seu filho
e tinha esperan�a de encontrar um entre os alem�es.
Partiu pra perguntar entre os refugiados.
Encontrou rapidamente um m�dico em um hotel no porto.
Um pediatra de Kassel.
- Bom dia. - Sim?
Me disseram que aqui haveria um m�dico.
Um momento.
� para voc�.
Precisamos de um m�dico, com urg�ncia.
Quem precisa?
Um menino, de mais ou menos cinco anos.
- O que ele tem? - N�o sei.
Acho que n�o est� conseguindo respirar.
Por que n�o foram para a emerg�ncia?
Ele � ilegal. Ele e a m�e dele.
- Voc� n�o? - Eu tamb�m.
- � longe daqui? - Dez minutos.
Um momento. Vou pegar minha bolsa.
- At� mais tarde. - Sim.
- Ele comeu algo? - N�o sei.
E o vi ontem pela �ltima vez.
N�o sou o pai.
� filho de um amigo.
O amigo faleceu. N�o faz muito tempo.
- A m�e � surda e muda. - Qual o nome do menino?
- Driss. - Africano?
Melissa, a m�e, � do Magreb.
Driss tem asma.
Tente respirar fundo.
Voc� pode se vestir.
Esteve muito ao ar livre nos �ltimos dias?
Voc� precisa ficar de cama alguns dias, est� bem?
Sua m�e precisa cozinhar algo pra voc�.
Voc� tem uma comida preferida?
N�o? Deve ter algo que goste em especial, n�o?
Panqueca ou algo assim?
Ent�o sua m�e talvez possa cozinhar isso pra voc�.
Vou cham�-la.
Pode vir.
S� a m�e.
� um forte ataque de asma. Ele precisa ficar na cama.
S�o pingos simples. Tr�s vezes depois da comida.
O mistral n�o faz bem pra ele.
Minha m�e e eu vamos para as montanhas.
Isso vai ser bom pra voc�.
- O que o senhor fez ao menino? - Como?
Algo deve ter feito ao menino. Ele n�o queria ver o senhor.
Que o senhor nem p�de entrar no quarto.
Eu vou abandon�-lo.
N�o vai junto para as montanhas?
N�o.
E ele tinha esperan�a que fosse junto no lugar do pai.
E por que n�o vai junto?
Eu vou para o M�xico.
O qu�?
O qu�?
- Tamb�m quero ir pra l�. - E por que n�o vai?
- Faltam documentos? - N�o. Tenho todos.
- Quando sai o seu navio? - Na ter�a-feira.
Qual o problema ent�o?
Eu tamb�m terei que abandonar algu�m.
- Quem? - Uma mulher.
Posso convid�-lo para o almo�o?
Poder�amos ter partido j� h� tr�s semanas.
N�o precisava do maldito visto ou do visto de tr�nsito.
Tudo estava resolvido. J� estava com as passagens.
J� t�nhamos quase partido.
As �ncoras j� estavam iluminadas, como se diz.
Ent�o ela desembarcou. E fui atr�s dela.
E agora n�o consegue mais sair daqui.
Eu, sim.
Tenho visto, visto de tr�nsito e passagem.
Ter�a-feira sai o "Esperanza", �s 21 horas, hangar 12.
Com passagem por Lisboa e Montevid�u.
Recebi hoje os vistos de tr�nsito
para Portugal e Uruguai.
Vai embarcar?
Em duas semanas, tudo aqui vai desandar. J� est�o em Lyon.
E o senhor vai deix�-la pra tr�s?
Preciso montar uma cl�nica. J� est�o me aguardando.
� o meu trabalho. N�o posso esperar mais.
- Ela est� sabendo? - Eu disse a ela.
Preciso ir. H� pessoas em perigo precisando de mim.
- Ela sabe. - Eu entendo.
O senhor entende?
Sim, eu entendo.
Est� com a consci�ncia pesada e quer a minha b�n��o.
Penso que n�o est� em condi��es de distribuir b�n��os.
Nem mesmo consolo.
Encontrou ele?
- Aqui. Coma algo. - Obrigada.
Pega.
O senhor que estava procurando um m�dico.
Sim, fui eu.
O senhor aqui j� se decidiu.
Ele vai pro M�xico e vai deixar um menino para tr�s.
Pra que isso?
O senhor j� se decidiu. Ou entendi algo errado?
O senhor ama o menino. Isso � evidente.
Vi como ficou quando ele n�o o quis no quarto.
Mesmo amando-o, vai deix�-lo pra tr�s.
Mas ele n�o � meu filho.
Que import�ncia isso tem? Ela tamb�m n�o � minha esposa.
Ele ainda ouviu os passos dela, o som dos sinos de entrada.
E ent�o ela sumiu na noite.
Ele deixou o Mont Ventoux logo depois dela.
Quando se virou, viu o m�dico abandonado e solit�rio na mesa.
Aparentemente chorava.
Ent�o, foi ao seu hotel em sua pr�pria solid�o.
- Pois n�o? - Georg.
De ontem � noite.
Ele n�o se encontra.
O senhor pode esperar. Logo ele estar� de volta.
- Ch�? - Sim. Obrigado.
- Onde ele est�? - Foi mais uma vez ver o menino.
Aconteceu algo com o Driss?
N�o.
Reavalia��o.
Ele � um bom m�dico. Excelente.
Conhece uma boa loja de usados?
- O que procura? - Nada. Quero vender.
Est� sem dinheiro?
Tamb�m.
Talvez ele demore.
Ele deve confirmar sua passagem ainda.
- Ent�o ele vai mesmo embora? - Sim, com certeza.
E a senhora vai ficar?
- O que me sobra? - Tamb�m gostaria de ir embora?
Ele disse que voc�s j� estavam de partida. Como ele disse?
"As �ncoras j� estavam iluminadas.
Ent�o ela desembarcou."
- Algo assim. - Sim.
Mas agora a senhora ficaria no navio?
O que mudou?
Tudo.
Quem esquece mais r�pido?
O abandonado ou aquele que abandonou?
O que acha?
- Ele me esqueceu. - Quem?
Meu marido.
- Como sabe disso? - O c�nsul me disse.
Que c�nsul?
O mexicano.
Ele j� desconfiava disso?
Eu tinha dito a ele que precis�vamos ir embora.
Ele estava sentado na frente dela e a ouvia.
Ele escrevia, fumava e bebia.
Enquanto ela contava
como tinha abandonado o seu marido, o Weidel...
Ent�o vieram os alem�es...
em Paris
e embarcou no carro do m�dico
e fugiu dos alem�es.
Foi f�cil embarcar no seu carro
e escrever uma carta de despedida,
uma definitiva.
Como ela procurou seu marido,
por todos os lugares em Marselha...
no consulado mexicano, na rua na frente do americano,
na Canebi�re, no Mont Ventoux.
Sua procura desesperada e sem sentido.
Desde ent�o eu o procuro.
E todos acabaram de v�-lo ou de falar com ele.
...ou acabaram de falar com ele.
O pessoal da Western Union...
- dos mexicanos. - Do consulado americano,
- do mexicano. - Chego sempre atrasada.
Os abandonados n�o esquecem nunca, se diz.
Mas isso n�o � verdade.
Eles t�m as can��es bonitas e tristes.
Com eles est� a compaix�o.
Com aqueles que abandonam, com eles ningu�m est�.
Eles n�o t�m m�sicas.
Marie!
Ele n�o esqueceu a senhora.
Ele se esconde de mim.
Por que desceu do navio?
Queria voltar pra ele?
N�o sei.
Ent�o por que o procura?
Porque ele tem o meu visto.
Sem ele n�o consigo mais sair daqui.
E escrevi uma carta
que um conhecido levou pra ele, em Paris.
Escrevi pra ele, pra que viesse pra Marselha,
que nossos vistos estavam prontos.
E ele recebeu a carta.
Isso eu sei.
A senhora ama o m�dico?
Vou cuidar de voc�.
Quem � voc�?
- O que faz aqui? - Queria falar com voc�.
Ah, �?
O menino est� melhor. A cortisona est� fazendo efeito.
Em dois, tr�s dias, ele pode brincar de novo.
Comprou mochilas!
E cal�ados para trekking.
� uma loucura o que pretende fazer.
O que pretendo fazer?
Quer ir com ela atrav�s dos Pirineus.
J� vendeu a passagem?
J� vendeu a passagem?
Consigo para a Marie visto e passagem para o M�xico.
O senhor pode ir.
Vou com a Marie em seguida.
No dia 23 com o "Montreal".
Agora estou curioso pra saber quanto o senhor quer. Cinco mil?
Mas precisa, digamos, dois mil de adiantamento.
Precisa subornar v�rias autoridades.
Mas o senhor tem bons contatos
e podemos ficar felizes por termos encontrado voc�.
N�o quero nada.
Essa resposta diminui ainda mais a sua credibilidade.
V� embora, por favor.
Preciso dos dados da Marie.
Nos encontramos �s 14 horas no Mont Ventoux,
e levo o visto e a passagem.
Ele disse que viu, atrav�s da janela,
Marie e Richard sentados.
Ent�o ela olhou como se soubesse que ele estava ali parado,
e sorriu.
Mais tarde estariam sentados juntos.
Ele tinha o visto e a passagem.
Richard n�o queria acreditar
e foi at� as autoridades portu�rias
para verificar a passagem.
- Vou verificar isso. - Verifique!
Os dois ficaram sentados, esperando.
Pareciam um casal apaixonado.
Eu vi que estavam de m�os dadas.
E que Marie chorava.
Ele diria mais tarde que nunca sabia se Marie
chorava l�grimas de felicidade ou de desespero.
Eu vi que ele a beijou e que ela consentiu.
Ent�o Richard voltou, pediram pizza e vinho
e comemoram com reserva, como disse Richard.
� que ainda faltavam os vistos de tr�nsito
da Espanha e dos Estados Unidos.
- Quando parte o seu navio? - No dia 23.
Desse m�s?
Acredito que m�s que vem n�o haver� mais nenhum navio.
Deveria ter solicitado o visto de tr�nsito da sua esposa
junto ao seu. Ser� dif�cil...
Registre ela simplesmente sob a rubrica:
"Acompanhante de requerente de visto de tr�nsito."
Quer me ensinar sobre o meu trabalho?
O senhor � estranho.
Porque quero viajar com minha mulher?
H� alguns dias n�o queria isso.
O senhor contava sobre trabalho verdadeiro,
sobre o parasitismo do escritor.
Como isso o enoja.
Agora gostaria de me contar sobre amor verdadeiro?
Os dois, M�xico, casa pequena com jardim.
O senhor chega do trabalho e sua esposa,
que conheci e que � muito...
muito graciosa,
est� l� sentada,
cortando os temperos para o jantar.
E o senhor a observa entre os arbustos...
Talvez o senhor devesse se tornar um escritor.
Com esse recibo, pode retirar os documentos em alguns dias.
Obrigado.
S� mais uma pergunta.
O que foi a �ltima coisa que escreveu?
"Um homem morreu.
E deveria fazer inscri��o no inferno.
Ele aguarda em frente a uma porta bruta.
Ele espera um dia, dois.
Ele espera semanas. Meses.
Anos, at�.
Em algum momento passa um homem. O homem que espera pergunta":
"Poderia me ajudar? Devo me inscrever no inferno."
"O outro o observa dos p�s � cabe�a
e diz":
"Mas, meu senhor, isso aqui � o inferno!"
Richard n�o queria ser acompanhado at� o navio,
mas Marie fez quest�o.
Richard estendeu a m�o a Georg
e ent�o manteve a porta aberta para Marie
como se ela que estivesse de partida.
Ele me disse que subiu para esperar pela Marie.
Sobre a mesa ainda estava a garrafa de vinho
que beberam para se despedirem.
Ele se sentou e continuou bebendo, sozinho.
Ele fumava, ele esperava.
Foi pra janela, abriu.
E a viu chegando.
Espere ainda.
Venha.
Venha.
Desculpe.
Pelo qu�?
Pelo que est� pedindo desculpas?
N�o vou com voc�.
N�o posso ir com voc�. Vou ficar aqui.
Para que ent�o tudo isso?
Eu queria que o Richard partisse.
Ele precisa ir para o M�xico.
E voc�?
Vou procurar pelo meu marido.
Georg.
Espera.
Espera.
Marie, seu marido est� morto.
N�o.
Ele n�o est�.
Ele contou que Richard j� estava embarcado
quando alguns oficiais franceses reivindicaram as cabines pra si
e ele e outros tiveram que desembarcar.
Ele ainda ouviu a hist�ria deprimente de Richard
Marie sentou ao seu lado para consol�-lo.
Mas estava inconsol�vel e destru�do.
Ele, Georg, ainda estava sentado na janela.
Pareceu a ele que estava ali a noite toda.
Em algum momento ele se foi.
Nem lembrava mais como se despediu.
Olhou mais uma vez para Marie. Seu olhar n�o foi correspondido.
Ele ent�o vagou pela noite antes de ir para o hotel.
Estava deitado pensando: em alguns dias estaria longe.
Ali lembrou da m�sica que cantou para o Driss.
Nunca sentiu tanto frio.
Driss?
Sou eu.
Bom dia.
Estou procurando Melissa e Driss.
Esse � o apartamento deles.
Eles partiram.
Para onde?
Pra longe.
Quando partiram?
Obrigado.
Com licen�a.
Com licen�a.
Posso convid�-lo para o almo�o?
Obrigada.
- Sa�de. - Sim.
Sa�de.
- Onde est�o seus cachorros? - Longe.
Fugiram?
Mortos.
- Sinto muito. N�o sabia... - N�o quero conversar.
Gostaria apenas de comer e beber sem estar sozinha.
Ele contou que ela ainda apertou um cigarro,
ap�s o caf� pagou a conta e ent�o foram passear na noite.
Rudy Ricciotti foi o arquiteto...
Acabou ainda falando, sobre o arquiteto,
Ricciotti, a passarela,
que interliga de forma t�o grandiosa
o bairro Panier com o antigo forte
e que por essa, entre outras raz�es,
havia se alegrado com a vinda para Marselha.
Esse pr�dio foi coberto com esse desenho de concreto.
E a vista de dentro dele tamb�m � muito bonita.
Me d� um tamb�m?
Ainda fumaram um cigarro juntos.
Ele disse que se sentiu apoiado nesse momento.
Que p�de esquecer Marie e tudo estava em sil�ncio.
Ele passou os �ltimos dias em seu quarto,
esperando.
Disse que s� queria ir embora.
S� sa�a ainda � noite.
Uma vez viu Richard, que causou uma p�ssima impress�o.
Ele disse que se escondeu, como um covarde.
Que tinha medo de encontrar a Marie.
Ent�o fez as malas.
Era a �ltima noite.
Na tarde seguinte ele embarcaria e sumiria.
Finalmente encontrei voc�.
Todos se viraram pra eles.
Meus clientes pareciam agressivos
com esse abra�o apaixonado.
A felicidade alheia incomoda
quando se � atingido pela infelicidade.
Era uma atmosfera opressiva em Mont Ventoux.
Avignon estava passando, como se diz, por uma limpeza.
Os campos j� estavam cheios e j� come�aram as deporta��es.
Agora estavam avan�ando sobre Marselha.
Contou que ela sussurrava pedindo que a levasse junto.
Que ela teve muito medo de n�o encontr�-lo mais.
Foram para o hotel dele.
Ela j� estava com tudo. Mostrou sua mala.
Estou com muita sede.
S� tenho �gua.
N�o tem problema.
Contou que ela estava exausta, sentada ao seu lado na cama,
e pediu por um copo d'�gua.
E mais tarde no banheiro, no espelho, pensou de novo
no poeta infeliz, seu marido,
e queria contar tudo.
Quando voltou ao quarto, a viu deitada na cama.
Olhou pra ela. Parecia suave, calma e em paz.
Pela primeira vez a viu assim.
Deve ter corrido de um lado pro outro durante dias e noites.
Em algum momento, o dia clareou e precisaram ir para o consulado
e ent�o rapidamente para o navio.
Logo estarei de volta.
Ele disse que n�o duvidou em nenhum momento
que conseguiria os documentos a tempo.
Eles ainda tinham tr�s horas at� que o navio partisse.
Ele viu Marie ali embaixo, no sol matinal.
Ela colocou a m�o sobre os olhos.
Senhor Weidel!
Lembrou do Driss, que tamb�m esteve sentado l� embaixo.
Sr. Weidel.
Com o sorvete, que n�o chegou a tocar.
- Sim. - E ent�o seu nome foi chamado.
Marie!
Ei!
Para o porto, por favor.
Como nas compras de natal, em Nova York.
- Voc� j� esteve em Nova York? - Sim.
Ele comprou esse sobretudo pra mim l�.
- Richard? - N�o, meu marido.
Ele, com certeza, vai estar em p�
junto � amurada, olhando para o porto.
No trem ele tamb�m senta sempre na dire��o contr�ria.
- �? - �.
Que amurada?
U�, do navio.
Que navio?
Nosso navio. O "Montreal".
De onde voc� tirou que ele estar� no "Montreal"?
Isso me disse o mexicano.
Voc� esteve novamente no consulado?
Imagina a cara dele,
quando ele estiver parado na amurada
e sussurro o seu nome e ele se vira pra mim.
Ele n�o vai estar parado na amurada.
Vai!
Vai, sim.
E ele vai me perdoar.
Eu o conhe�o. Ele vai rir e me perdoar.
Voc� vai gostar dele.
Essa � a sua passagem.
E...
voc� precisa preencher o n�mero aqui.
Aqui est� o visto de tr�nsito.
- Est� bem? - Obrigada.
- Vai cuidar disso? - Sim.
Pare, por favor.
- O que houve? - Esqueci de uma coisa.
Georg...
- � importante? - Vou em seguida.
Al�?
Al�?
Richard?
O que voc� est� fazendo aqui de novo?
- N�o deveria estar no navio? - Use essa passagem.
- Pegue apenas o necess�rio. - N�o estou entendendo.
Contou que o Richard ficou olhando fixamente pra ele
e soube que precisava inventar logo uma hist�ria.
Para a verdade n�o havia tempo.
Ele pediu dinheiro a Richard.
Richard parou de perguntar e deu dinheiro a ele, cinco mil,
quase todo seu dinheiro.
Deu sua passagem e Richard se apressou para a rua.
Ele estava parado l� em cima e Richard l� embaixo
esperando pelo taxi.
Quando chegou, Richard olhou mais uma vez pra cima.
N�o havia ali um pouco de desprezo no olhar?
Richard o julgou um passador, um traficante de pessoas,
algu�m que ganha dinheiro
com a necessidade dos refugiados.
Olhou o mar. Em algum momento ouviu a sirene do navio.
Ent�o viu, l� fora, no mar, o "Montreal".
Quando sumiu do horizonte, esperou mais um tempo.
Ele me olhou com olhar cansado. Sorriu.
Estou entediando o senhor?
Perguntou se estava me entediando.
- O que pretende agora? - Tenho dinheiro.
Os cal�ados para trekking do m�dico me serviram.
Vou tentar sobre os Pirineus.
O senhor mesmo disse que era loucura.
Avignon j� est� ocupada?
Sim.
Posso deixar isso com o senhor?
Claro.
Marie...
- Com licen�a. - Pois n�o?
Uma amiga deveria ter partido ontem no "Montreal".
E queria pedir, se...
Karim, cuide do 12. R�pido. N�o temos muito tempo.
Poderia verificar na lista de passageiros
- se ela realmente partiu? - Como se chama?
- Marie. - Marie...
Weidel. W-e...
e...W-e-i-d-e-l.
- Marie Weidel. - Marie Weidel.
- Sim. - Sim, ela esteve no navio.
Esteve?
Sinto muito.
Normalmente damos aten��o aos passageiros, mas...
Chegaram aos limites da cidade. A limpeza come�ou.
O que est� dizendo?
- Pensei que soubesse. - O qu�?
O "Montreal" atingiu uma mina na frente das Ilhas Baleares.
Ele afundou. Ningu�m sobreviveu.
Meus sentimentos.
Ele estava sentado de costas para a porta.
Toda vez que a porta se abria, ele se segurava.
Como se ele se esfor�asse pra n�o virar a cabe�a.
Para n�o olhar para o espelho.
E ainda assim ele fazia isso.
A Marie poderia aparecer
como n�ufragos aparecem na costa por meio de salva��o milagrosa.
Ou como a sombra de uma morte, com sacrif�cio e ora��o ardente
arrancada do submundo.
Eu tentei alert�-lo, ofereci um esconderijo.
Pela manh�, come�ou a limpeza.
Mas ele...ficou sentado...
e esperou...
por ela.
- Art Subs - 10 anos fazendo Arte para voc�!
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