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A NIKKATSU APRESENTA
Próxima paragem, lar Yokufuen. Alguém deseja descer?
Se não, prosseguiremos sem parar.
Pode seguir a marcha.
Yokufuen
Vou descer. Por favor, páre o autocarro.
Páre, se faz favor.
Eu disse que vou descer.
- Desculpe o incómodo. - Deixe estar.
Não se alongue, se possível.
Muito obrigada!
Não sabia se havia de dizer que ia descer.
O sítio para onde vou não é lugar de boa gente.
Estou-lhe muito agradecida.
Vá com cuidado. Partida!
Muito obrigada!
MULHERES DE GINZA
Produzido por: Tengo Yamada, Toshio Itoya Argumento de: Kaneto Shindô, Nisan Takahashi
Direcção de Fotografia: Yoshio Miyajima Chefe Electricista: Toshio Mori
Captação de Som: Nobumasa Fukushima Direcção de Arte: Takashi Marumo
Música: Akira Ifukube Edição: Mitsuo Kondo
Assistente de Realização: Buichi Saito Chefe de Produção: Hiroyoshi Hayashimoto
ELENCO:
Yukiko Todoroki, Mie Kitahara, Sumiko Hidaka, Nobuko Otowa
Murasaki Fujima, Sumiko Minami Fumiko Shimada, Ken Hasebe
Masao Shimizu, Taiji Tonoyama Kanda Takashi
Shojiro Ogasawara, Jun Tatara Nobuo Kaneko, Chôko Iida
Tôru Abe, Gen Shimizu Takeshi Mitsuda, Hiromu Kondo
Jun Hamamura Fumio Aoki, Jô Shishido
Haruo Yamada, Kenzô Kawarasaki Zenji Yamada, Setsuko Amamiya
Ryôko Akemi Fudeko Tanaka, Mieko Hirôka
Yôko Benisawa, Sachiko Soma Kumiko Jô, Kaoru Yamamoto
Hatsuko Wakabara, Haruko Mabuchi Ryôko Akashi, Yôko Takeuchi
Chizuru Yoshikawa, Miyako Asa Masami Miyaji, Kayako Ono
Sen Yamanobe, Toshio Murata Ichiro Sakai, Ken Mishima, Nobuki Hanamura
Susumu Uemura Gen Mihama, Tôru Sumikawa
Kenji Itami, Ryôji Chiyo Shiro Yanagise, Kenji Mizutani
Realizado por: Kôzaburô Yoshimura
Porque são encarnados a ave e o cavalo? Porque comeram a fruta encarnada.
Porque és tão branquinho, passarinho? Porque comi a fruta branca.
Porque és tão verdinho, passarinho?
Porque comi a fruta verde.
Um lar de idosos de Kita-Tama, Tokyo, recebeu a visita
de um grupo de crianças do infantário local
que veio às instalações para consolar os pobres velhinhos.
Os idosos alegraram-se como se fossem os seus netos no palco.
Para agradecerem a gentileza das crianças, os idosos escolheram
uma representante para tocar o shamisen.
As ameixeiras já estão em flor? Mas será cedo para as cerejeiras?
Os salgueiros voluteiam gentilmente
ao sabor do vento.
São ventos de montanha, caprichos do momento.
As cores multiplicam-se de par em par, costumeiras.
A senhora está cheia de saúde. Quantos anos tem?
Fiz sessenta e três.
Toca muito bem o shamisen.
É porque no passado fui gueixa.
Uma vez, estes meus cinco dedinhos tocaram na zona de Shimbashi.
Pena que, hoje em dia, só em sonhos.
Oh não, é mesmo a patroa!
Vamos embora.
Temos de ir.
O que se passa? Ei, vamos.
O Poder da Bomba de Hidrogénio
Madame, o que é que lhe deu tão repentinamente?
Sabem, aquela velhota... Há vinte e tal anos quando vim ser gueixa,
ela era a patroa do estabelecimento.
Era uma mulher de Edo cheia de genica.
A patroa de há vinte e tal anos agora está num lar.
E eu, que tenho vindo aprender a ser gueixa, agora sou a patroa.
- Sr. Tsuji. - O que foi?
Até uma gueixa gostaria de ver o filme da bomba H.
Mas, graças ao seu convite, acabei por ver um filme bem melhor.
A ida ao lar foi mero acaso, não me culpe.
Também nunca quis tocar shamisen num lar de idosos.
Ah, lembrei-me. Tenho de ir andando.
Para onde vai, madame?
Para casa do Eisaku.
Quem é esse tal de Eisaku?
É um universitário que a madame ajuda a pagar as propinas e com outros afazeres.
E outro tipo de ajuda, não?
Olá.
Bem-vinda, bons olhos a vejam.
- Ele está? - Está sim.
Sr. Yanoguchi. É a madame.
Sr. Yanoguchi.
- Olá! - Bem-vinda!
E as aulas?
- Hoje fiz gazeta. - E ontem?
- Ontem também. - E anteontem?
O que é que me comprou?
Mochis de dióspiro da confeitaria Irifune.
Agradeço a oferta.
Ó, Eisaku!
Não vais à escola para seres um grande técnico?
Porque é que andas a escrever romances outra vez?
Em vez de diários, escrevo romances.
Escuta, preciso que me prometas, como meu protegido,
que te tornarás num técnico de excelência.
Está bem. Prometo aqui e agora mesmo!
Quando conheceres uma rapariga respeitável,
e viveres numa bela casinha, com dois ou três filhos,
eu já serei uma avózinha.
Ouve, Eisaku.
Promete-me que, mesmo se um dia fores rico e famoso, nunca me abandonarás.
Os meus filhos serão os seus netos. Pode ser a governanta deles, se quiser.
Nem sabes o quanto me alegras!
Vou fazer um chá para nós.
A ver se percebi. A troco de favores no futuro,
a madame paga as propinas ao Eisaku?
Isso. Ela pôs um anúncio no jornal, e apareceram dez candidatos.
Estou a ver!
Escolheu o mais prodigioso dentre eles.
Ou seja, é como se tivesse comprado um seguro privado para a velhice?
Vocês, homens, não entendem os instintos maternais das mulheres.
Espera lá!
Esqueci-me de apostar na lotaria. O prazo fecha hoje.
Bem-vinda.
- Sai prémio? - Sai a todos, menina.
O amor maternal da Teruha voltou a despertar.
Qual amor maternal?
É o amor que dá à Satoko.
Satoko.
Quer lhe saiam só cinquenta ou cem yen, manda-os todos para o filho.
Só que ela já esbanjou mais de dez mil.
Mais valia ter enviado ao filho essa quantia.
Essa é a diferença entre mim e a Teruha.
Já vi que sim.
Não digas parvoíces. Se me saísse um milhão de yen,
deixava logo de ser gueixa e ia viver com o meu rico filho.
Aqui tem.
Foi o que ela disse.
''Se me sair prémio, deixo logo de ser gueixa''.
Então, o que está para aí a escrever?
Não posso, outra vez a maldizer as gueixas?
Nada disso. Tenho só o hábito de tirar notas.
Deixa-me que lhe diga, o senhor é um pouco estranho.
Primeiro, leva-nos a ver um filme sobre a bomba H.
O que anda a engendrar?
Na verdade, lá na redacção
queremos lançar uma reportagem sobre o distrito vermelho de Ginza.
Gostava de escrever sobre o dia-a-dia de uma gueixa.
É verdade.
Vai dizer que é tudo tráfico humano, não vai? Deixe-se disso.
Se não pudéssemos ser gueixas, vivíamos do quê?
- Há coisas que não se perguntam. - Pois é. Bem!
Adeus!
Esperem, é um mal-entendido. Peço desculpa!
Meninas, esperem!
Esperem lá!
Desculpem a intrusão, meninas.
Anda daí.
Com licença.
- Este quer sarilhos. - É um cliente?
É um jornalista.
Satoko, fecha a porta.
Sim, senhora.
Oiçam, não é preciso estarem assim na defensiva.
Nem tente!
A malta dos jornais e dos filmes só quer esgaravatar nos nossos podres.
Recentemente, veio cá uma produtora de cinema.
Queriam fazer um filme sobre gueixas e observar-nos. E nós recusámos.
Mas eu sou vosso conhecido.
Quando tu entraste no concurso de beleza, aquele das misses,
quem é que pôs o teu nome na coluna do jornal?
- Quem foi, hein? - Ah, pois é.
Olha o certificado.
Fiquei só em terceiro lugar.
Tinha de me ter ajudado a ficar, pelo menos, em segundo.
Fazemos favores, não fazemos milagres.
- Mentira. - Impossível, não é?
- Impossível. - Porquê?
Ah, tinha-me esquecido.
O que é que te deu? Sempre tão esquecediça.
Esta aqui é pelo milhão de yen!
Os deuses já devem estar fartos dela.
Veja lá se não o castigam. Ouve, Kotoe.
- Deixa lá eles fazerem a reportagem. - Obrigado.
Pode ser que nos sirva de publicidade.
Tens razão.
Com boa publicidade, até um mendigo descalço compra sapatos.
Vês como sabes?
Para vocês é publicidade, para nós é negócio.
Por acaso não têm nenhuma história interessante para contar?
Algo fora do normal?
O nosso dia-a-dia é sempre fora do normal.
Bem-vindos.
Já sei!
Satoko, conta-lhes a história da vaca que se veio despedir.
- Está bem? - É uma belíssima história.
Quando vim embora, a vaca veio dizer-me adeus.
Uma vaca? Como assim?
O pai e o mano não chegaram a tempo, pois não?
Parece que não. Porque será?
O que se passa, Eizô?
Ouvi dizer que ias mandar a tua filha para Tokyo.
Para ser gueixa. E que, com esse dinheiro, compraste esta vaca.
É mesmo verdade?
Não somos os únicos aqui a fazer dinheiro com as nossas filhas.
De qualquer modo, antes de partir,
queria mostrar-lhe o que o seu dinheiro pôde comprar.
Vá, tenho de ir. Anda, vamos.
Adeus, manda cumprimentos à tua menina.
Mando, sim. Anda, anda.
Rápido, não há tempo a perder.
Vamos, rápido.
Sobe para o comboio. Aqui, aqui.
Vá, Satoko.
Dependemos de ti.
Não se preocupe, senhora.
Vejam, o pai veio!
Filha!
Filha! Satoko! Trouxe-te a vaquinha!
Olha bem para ela, Satoko!
Papá! É uma bela vaquinha.
Quando esta vaca der leite, deixaremos de ser pobres.
Satoko, vais ter de ser forte por esta vaca... por nós.
Papá, trata-a bem.
- Vá, vamos. - Mamã.
Vemo-nos um dia.
Não fiques doente, filha.
Adeus!
- Adeus. - Adeus.
Adeus!
Adeus, mana!
Filha, toma conta de ti!
Viva a mana!
Adeus!
- Adeus! - Adeus, mana!
É a Misako.
- Bem-vinda. - Estou de volta.
Perdoa-nos o incómodo desta visita.
A ouvir sozinha um jazz tão animado? Assim não tem graça nenhuma!
Estás a ver mal as coisas. Pensa assim.
O álcool também é algo a que chamaríamos de ''animado''.
E, mesmo assim, de vez em quando, dá vontade de beber sozinha, não é?
Há cerca de dois anos, quando a Misako tinha dezassete
foi escolhida, sem direito a opinar,
como esposa do trovador Katsunôsuke Tanizawa.
Na altura, ele já era um velhote de sessenta e dois anos.
Desde então que a Misako tem uma fixação pelo jazz.
Interessante.
Entende como ela se sente?
Não deve ser nada fácil.
Quando ela tinha dezassete anos, o seu marido tinha sessenta e dois?
Horrível! Que situação tão cruel!
Eu também tenho uma irmã que vai fazer dezassete.
Esse é um disco que já todas nós ouvimos vezes sem conta.
Olhe lá, essa última frase não é para escrever!
Estou sim? Residência Shizumoto.
O quê? Ah, o Sr. Tsuji? Aguarde um momento, se faz favor.
O que querem de mim?
Estou? O quê? Em Haneda?
Às dez? Combinado.
O Sr. Takanashi do Partido Liberal Democrata, o cliente favorito da madame,
volta amanhã da América. Aterra no aeroporto de Haneda.
Não me diga! A madame vai ficar tão contente!
Ficamos por aqui, querido Eisaku.
- Eu levo-a a casa. - A sério?
Então, que tal irmos beber um chá?
Olha quem é ele!
Sr. Yanoguchi, há quanto tempo!
Olá!
Não querem entrar por uns minutos?
Nem pensar! O Eisaku não bebe álcool.
Mas quem é que falou em beber?
Só queria trocar umas impressões sobre as tendências da literatura.
A minha patroa anda a dizer que a senhora desistiu dela.
Já que a senhora aprendeu a profissão com a minha patroa,
não lhe fazia mal vir visitar o bar dela de vez em quando.
Vá lá, entrem por uns minutinhos.
Façam favor.
Ah, peço desculpa.
Patroa!
- Patroa! - O que foi?
A Sra. Shizumoto e o Sr. Yanoguchi estão aqui.
Ai sim?
- Bem-vindos. - Há quanto tempo.
Faz tanto tempo que não nos víamos!
E tu também, estás boazinha?
Ultimamente, cada refeição sabe-me pela vida.
E já vi que o rapaz cresce rápido.
Oh, é verdade!
Para o Eisaku é um sumo de laranja, não é?
Pode ser, obrigado.
Para mim podes mandar vir depois.
- Para a patroa é um Highball, não? - Dá-me um White Horse.
- Eu também prefiro com uísque. - Com certeza.
Ó, Eisaku.
Sr. Yanoguchi, parabéns!
Que feito. Veja só.
Diz aqui ''escrito por Eisaku Yanoguchi''.
É impressionante, não é?
Ena, é mesmo um conto do Eisaku.
Não é nada de especial. Sou só eu a falar mal de mim próprio.
- Bun. - Sim?
O que importa agora é juntarmos os copos e brindarmos.
Patroa, para mim é um gim de abrunho.
- Esse é dos caros. - Deixa-a relaxar uma vez que seja.
Ah, pois é. Tenho um telefonema para fazer.
És qualquer coisa de outro mundo. Viraste existencialista?
- Consta que sim. - És mais Camus ou mais Sartre?
Eu adoro ''A Peste'' do Camus.
Estou?
Estou sim? Madame?
Sim, amanhã o patrão Takanashi regressa da América.
Sim, sim. Tal e qual.
Às dez em Haneda?
Combinado. Obrigada.
O que é que lhe deu, madame?
Hoje pago eu, combinado?
Bebam o quanto vos aprouver!
Madame, chegaram! Chegaram!
Boas-vindas, Sr. Takanashi
Calma, gente!
Senhor!
Com licença!
Diga, como é regressar a casa?
- Ainda agora acabei de chegar. - E qual a agenda daqui em diante?
Bem, será decerto a revisão constitucional e a questão militar.
Consta que o senhor foi jurado no concurso Miss Mundo.
Sim, e vou já ao cerne da questão. Ninguém bate as mulheres japonesas.
Madame, o paizinho chegou.
Vá lá falar com ele, não tenha vergonha!
Paizinho, paizinho!
Paizinho!
Paizinho, aqui! Estamos aqui!
Pai!
Bem, deixamos a conversa para outra ocasião.
- Gratos! - Papá!
Papá, aqui!
- Aqui estou eu. - Paizinho, um presente.
- Muito obrigado. - É tão bom vê-lo!
Olhe para aqui.
Viva o Sr. Takanashi!
- Viva! - Viva!
Viva!
Universidade de Ciências e Tecnologias de Tokyo
Yanoguchi.
Tu és o Eisaku Yanoguchi, não és? Anda cá.
Emprestas-me algum dinheiro?
Dinheiro? Eu nem te conheço.
Eu sou o Kazuhiko Takanashi.
Takanashi?
Vou-te explicar de que forma estamos relacionados.
O meu pai, Saburô Takanashi, é, digamos,
o amado da gueixa-mestre Shizumoto, a quem ele dá dinheiro.
Por sua vez, ela dá-te dinheiro para financiar os teus estudos.
Resumindo e concluindo, o dinheiro que tens nos bolsos
veio originalmente do meu pai.
Por isso, eu, que sou seu filho, tenho direito a pedir-to emprestado.
Tenho razão ou não, jovem Yanoguchi?
Obrigadinho. Já dá para pagar as injecções.
Contraí uma doença rara e preciso de tratamento. Vá, até à vista.
Espere! Espere!
Não se vá embora!
Estamos aqui! Paizinho!
Maldição!
Ele ia acompanhado.
- Oh, céus. - É inevitável.
A estação é já ali, podemos ir a pé.
Vida de pária não é fácil.
Depois da tempestade vem a bonança.
Os seus sentimentos davam para escrever um romance.
Peça ao Eisaku para escrevê-lo. Não acham boa ideia?
Esqueçam, ele só escreve coisas ''existencialistas'' ou lá o que é.
Ele não se interessa pela vida de uma velha como eu.
- Que idade tens? - Dezasseis anos.
- E de onde vens? - De Fukushima.
Ah, pois era.
- Foram cento e cinquenta yen, certo? - Certíssimo.
Olha lá, não devias desperdiçar o teu talento a ser criada.
Aprende a ser gueixa.
Se fores gueixa, poderás fazer muito mais dinheiro.
E aposto que a madame não se ia importar.
Se ser gueixa aliviasse o meu marido, até consideraria.
Mas acho que só o faria sofrer.
Talvez tenhas razão.
É uma questão difícil. Cada pessoa tem a sua forma de ver as coisas.
Mesmo assim, com esse talento é um desperdício.
Muito obrigada.
Obrigada. Até à próxima.
Vai com cuidado.
Que mulher mais chata.
Bem, vamos lá pôr mãos à obra.
Três mil yen... Muito come esta gente.
O que tens?
Nesta casa, come-se arroz branco três vezes ao dia.
Mas há algum arroz que não seja branco?
É por esse arroz que trabalhamos arduamente todos os dias.
Na minha aldeia, é só no Ano Novo ou em dias de festa.
Noutras ocasiões, não temos arroz que comer.
Jura? Então, deve ter sido o destino que fez de ti gueixa.
Neste mundo, uma menina do campo como tu,
ou uma filha de pescadores, como a Kotoe,
só dependem das vossas próprias capacidades.
A Sra. Kotoe é filha de pescadores?
É, sim.
Nunca pensei. Afinal, ela foi terceiro lugar no concurso Miss Japão!
A vantagem de se ser gueixa é que até uma filha de pescadores pode virar miss.
Condecoração Miss Japão 3º Lugar, Kotoe Fukushima
Bom trabalho.
- Boa noite, madame. - Boa noite.
Obrigada por ontem.
- Onde será o jantar? - Na sala do trevo.
Palavras do autor Jôbu Sakai
Que tal esta pose?
- Não... - Então e assim?
Assim está melhor.
Isso, o senhor pode permanecer nessa pose.
A menina de pé, baixa um pouco o candeeiro.
Isso!
Muda a luz um pouco mais para o lado.
Mais um pouco, isso, isso.
Olha lá, Tsuji, não te podes mexer. Pronto?
Aqui vai.
Muito obrigado, já podem relaxar.
Boa noite!
- Olá! - Desculpem a intromissão.
Muito agradecido.
Que maçada!
Kotoe, eu já tinha falado muito de ti ao Sr. Sakai.
Tínhamos dito que da próxima vez íamos a Ginza fazer uma sessão fotográfica.
Depois damos-te uma foto também, se quiseres.
Parece que de nós não queriam tirar fotos.
É natural, eu não sou uma mulher propriamente bela.
Nada disso. A tua beleza reside na tua mediania.
Embora sejas uma mulher comum, há algo de belo nessa normalidade.
Só uma mulher comum como tu pode ser bela a vida inteira.
Uau, deixa-me tão feliz com os seus elogios.
Tenho de lhe oferecer algo que beber. Bem, aqui está.
Kotoe, se o teu irmão não trabalhasse para a Autoridade Tributária,
até eu tentava seduzir-te.
Está proibido! Vocês escritores são só paleio.
Mestre!
Que tal uma foto dos dois?
Tsuji.
Muito bem.
Podem ficar onde estão.
Kotoe, serve uma bebida ao mestre.
- Assim? - Exactamente.
E que tal sorrirem para mim? Olhem para aqui.
É assim mesmo.
Assim está bem.
Levanta-o um pouco. Está óptimo.
Pois bem...
Mantenham essa pose, se fazem favor.
- Ainda não está? - Despache-se.
Bem, aqui vamos nós.
Olha quem é ela!
Bem-vindo de volta.
Uma lembrança para ti.
Ai, enchi-te de batom.
- Faz dois meses desde a última vez. - Tens toda a razão.
Gostas tanto de comprar coisas,
aposto que esbanjas o dinheiro todo em produtos nacionais.
Não tenho outro remédio. O meu inglês não chega para a noite.
Não me digas.
Ouvi dizer que foste ao aeroporto buscar-me.
Fui, pois.
Nós, as renegadas, fomos buscar-te a Haneda mas estava lá a tua família.
Quando eu e a tua filha te chamámos as duas de ''papá'',
o significado era completamente distinto, mesmo sendo a mesma palavra.
Pois claro.
Claro porquê?
Bebe mas é um copo.
- Tens algo para me dizer, não tens? - Tenho.
Mais vale ser franco contigo.
A minha filha, que está na universidade, anda muito rebelde ultimamente.
Quando lhe perguntei porquê, disse que é porque tenho outras mulheres.
As crianças ficam sempre do lado da mãe.
Já percebi. Queres acabar comigo, não é?
Bem, para já sim, é isso que quero dizer.
Logo agora que não nos víamos há dois meses...
Escuta.
Oficialmente acabamos, mas talvez possa vir de novo pela calada.
Não vou deixar de te ver.
Esquece, entendi perfeitamente.
- Estás zangada? - Quem, eu?
Aqui tens, para o que der e vier.
Com muito gosto.
De qualquer modo, já avisei a minha família
que hoje pernoitarei fora, por qualquer motivo.
Cada noite que o pai não dorme em casa, é uma noite que o filho se desvia.
Não me digas que também és amiga da mamã.
Digamos que, de certa forma, vim a entender os sentimentos da mãe.
Afinal, os filhos são especiais.
Especiais e sortudos. Até dá inveja!
Contudo, confio mais no invejoso que nos seus filhos.
Então, e que tal um brinde para a despedida?
Ao teu filho.
A todos os teus filhos.
Mesmo sendo gueixa...
continuo a ser a mãe de alguém.
Só o jovem Eisaku ainda não me abandonou.
O que está para aí a balbuciar?
Ainda é jovem. Devia aproveitar a vida.
- Boa noite. - Vá com cuidado.
Mas mesmo assim...
cheguei a uma conclusão.
Não tenho cem porcento de certeza, mas...
acho que as nossas vidas já estão delineadas.
Quem sabe?
Eu cá aproveito os meus dias ao máximo.
Não é isso que quero dizer!
Estou a falar do destino. Do destino!
Boa noite.
Oh, que bom ver-te! Bem-vindo.
Eisaku...
Não podes andar na vadiagem até tão tarde.
Eu sei.
Precisava de falar consigo.
Fui a sua casa, mas não estava, então vim aqui para ver se estava.
Mas queres falar sobre o quê?
Podemos ir para outro sítio?
- Eu posso sair. - Não faças caso!
- Menina! - Ah!
- Até à próxima. - Obrigado.
Sintam-se à vontade.
Diz lá, o que tens para me dizer?
Bem...
O que se passa?
Talvez seja melhor falarmos quando estiver sóbria.
Já sei.
Arranjaste uma namorada, não foi?
Vamos brindar.
Podemos, se quiser, mas será um brinde de despedida.
Como assim... de despedida?
Eu vou deixar os estudos.
Mas porquê?
Eisaku, deixa-te de gracinhas e vai directo ao assunto.
Estou farto de depender dos outros.
Quando lhe pedi emprestado o dinheiro das propinas,
a única coisa que acabei por ganhar foi frustração.
O currículo não me interessa. O que importa são as minhas capacidades.
Queres dizer que recusas a minha ajuda?
Isso mesmo.
Ou seja...
já não aceitas ser o meu protegido?
Fique tranquila, a ajuda que me deu estes dois anos,
irei pagá-la de volta por inteiro.
Respeitinho! Não queres ser o meu filho adoptivo, é isso?
Não, não quero.
Entendi.
Nunca mais te quero ver!
Agora, se me permite.
Meu Eisaku, espera!
Para as tuas despesas diárias.
Aceita esta última ajuda.
Desejo-lhe as maiores felicidades.
Sr. Yanoguchi!
- Olá. - Então, já vai embora?
Sim, adeus.
Estou de volta!
Aconteceu alguma coisa?
Já vi que a conversa azedou.
Não digas nada.
Eu bem a avisei há dois anos que não imitasse gente excêntrica.
Cala-te, por favor!
Este mundo está cheio de gente cega.
Os homens acham que enganam as gueixas, mas eles é que estão enganados.
Vê só o exemplo da madame. Não concordas?
Concordo.
Uma madame famosa, gorda por sinal, costumava dizer,
''enquanto o mundo não se livrar das gueixas, não há-de melhorar''.
Pois eu digo às esposas deste mundo,
''se querem os vossos maridos satisfeitos, dêem-lhes aquilo que lhes é devido''.
O que foi?
Foi por isso que eu te avisei.
Não podes meter-te em sítios destes.
Satoko, desde quando tens esse gato aqui?
As mais sinceras desculpas.
Desde há uma semana. Ele apareceu aqui, estava perdido.
Diga-me, estou proibida de ter o gato?
O gato já cá está, não é?
Tens é de prometer que o bicho não foge.
Prometo!
Mas sabes, por muito que gostes dele, se ele se quiser ir embora, irá.
Estou sim?
Sim. Sim, está.
Patroa, é a mãezinha. Quero dizer, a madame.
O que é que esta quer?
Madame?
Sabe, a minha querida Bun está preocupada com o Eisaku.
Ele tinha ido pernoitar nalgum lado, não é verdade?
O que acha que aconteceu ao jovem Eisaku?
Não quero ouvir falar desse personagem.
- Voltei! - Bem-vinda.
- Voltei! - Seja bem-vinda.
Madame, os banhos públicos estão vagos.
A madame é tão inocente.
- Vem aí. - Quem?
Aqui está!
Aqui onde?
Eu bem disse que ela vinha.
- Tens um dedo que adivinha. - Às vezes.
Aproveitei que a banheira estava vaga para tomar um bom banho.
Estão a jantar?
Porque é que me ligaram há pouco?
Bem...
O Sr. Yanoguchi está doente.
Doente?
Consta que foi para a faina e acabou por se constipar.
Que insensíveis! Porque não me avisaram antes?
Então, mas foi por isso que ligámos, não foi?
Foi pois.
Aquele rapaz nem se sabe desenvencilhar sozinho, mas tem a mania das proclamações.
Talvez sofrer um pouco lhe faça bem.
A culpa é sua por ter tentado fazer de mãe dele.
Não era melhor casar com ele?
Misao!
Que coisa tão cruel de se dizer. Para mim, estás morta!
Espere, preciso do pano!
Obrigadinha!
Olha para ti, estás com boa cara.
O que achas?
É uma caturra.
Parece a madame.
Vá lá, não sejas mal-educado. Deu-me trabalho achar esta criatura.
Diz-me, Eisaku.
Eu fiz algo terrível por ti.
- Que coisa terrível? - Despoletei a ira da mãezinha.
Então, dei por mim a pensar...
Porque não me deixas pagar as despesas médicas?
Não se preocupe com as minhas despesas.
Mas eu quero ajudar. Eu percebo a tua situação.
Tu não queres que outros, como a madame,
assumam as tuas despesas porque não queres ser um fardo.
Por isso, pensei numa maneira conveniente para os dois.
Que maneira?
Eu empresto-te dinheiro. Com certificado e tudo.
Nesse caso, aceito. Estipulemos uma data de devolução.
Combinado. Olha que eu vou mesmo cobrar-te de volta!
Tens tratado da roupa suja?
É-me indiferente.
Está suja.
Ui! Tresanda a homem.
Clínica Tsukishima
Porque é que vieste tão longe, de Ginza, para aqui?
Não queria que a minha gente soubesse.
O ar de Tokyo não te faz bem aos pulmões.
Doutor...
Eu estou assim tão mal?
Para já, é provável que passe.
Por favor, cure-me.
Eu não tenho como voltar para a terra.
Enquanto não saldar a dívida, não posso voltar. Mesmo que corra perigo de vida.
Satoko.
- Foste fazer recados? - Sim.
Que tal este estilo? Dizem que está na moda.
Parece que tem lixo no cabelo! E está a piscar!
És mesmo campónia. Não sabes que este é o estilo mais modernaço?
- Ai sim? - Sim, é.
- Bem-vinda de volta. - Voltei.
Cheguei.
Que demorada, o que andaste a fazer? Sabes que estamos atarefadas!
Peço desculpa.
- Compraste o chá que te pedi? - Sim, comprei.
- Satoko. - Eu? Diga.
Tens de ser boa para as outras meninas.
Eu sei.
Tem toda a razão. Tens de ser boa.
Sei disso.
Neste mundo, sucedem muitas coisas árduas e tristes.
Mas essa é a natureza do mundo.
Há que manter a boa disposição e continuar a viver.
Quando algo difícil ocorre, devemos chorá-lo de vez.
Tendo chorado, devemos redobrar o nosso vigor para voltarmos mais fortes.
Sim.
Olha que é verdade. É esse o segredo.
Muito obrigada.
- Satoko, vem cá. - Sim, senhora.
Veio correio para si, senhora.
- Estás constipada? - Não.
Não me digam! Mais impostos locais para pagar?
Ultimamente, não faço mais nada.
- Leva estas para a Teruha e a Misako. - Sim, senhora.
Deixaste o ferro ligado no segundo andar, vai lá ver.
- Para si, Teruha. - Obrigada.
- Veio uma carta para si. - Grata.
- E para mim? - Não veio nada.
Será que algum dia será realidade, esse meu sonho de antão?
É do meu menino!
Vê só! É do meu menino! Nem posso crer!
O meu menino! Meu querido menino!
Madame! O meu menino, que deixei em Shizuoka,
diz que vem a Tokyo em visita de estudo.
Nem caibo em mim! Sinto-me como se me tivesse saído a lotaria.
O meu filho faz-me tão feliz.
Estou tão contente pelo meu filho!
Não querem ouvir a cartinha que ele me escreveu?
''Mãe... minha mãe...''
Diz que eu sou a mãe dele!
''Tem passado bem? Eu também''.
''Ouvi dizer que anda em Tokyo uma gripe muito grave''.
''Por favor, não fique doente''.
''No próximo domingo, a nossa turma vai a Tokyo em visita de estudo''.
''Só de pensar em encontrar-me consigo,
o meu peito enche-se de alegria e antecipação''.
- ''Desde a última vez...'' - Estás aí parada porquê?
Vais queimar a roupa.
O que seria se causasses um incêndio?
O que faço?
- O que é que eu faço? - Então?
Não é minha. Espera aí...
Olha-me só para isto.
Tem um buraco no umbigo. É bom para arejar a pele.
Não brinques. Isto não é um trapo velho.
- Tem mais cuidado. - Perdoe-me.
Perdoe-me!
Estás a chorar? Sua parvinha!
Não estou assim tão zangada.
É uma peça de roupa entre centenas de outras.
O que é que te deu?
Katsunôsuke Tanizawa.
Aquele trovador itinerante? O que lhe aconteceu?
Consta que adoeceu na estrada e precisa de doações.
Que descaramento!
Tinhas mesmo de ser amante desse canalha, Misako?
Por mim, esse imprestável pode cair morto.
Ai, que até mete medo!
Não diria melhor.
Estou sim? Sim, correcto.
Aguarde um momento, se faz favor.
- Kotoe! - Sim?
Tens uma chamada.
Olhe, madame...
Não é para ti.
Estou sim? Daqui fala a Kotoe.
Maninho, és tu? Conta novidades!
A mãezinha quer enviar dinheiro. Precisa de carimbar a remessa?
- O que vais fazer com o dinheiro? - Esquece isso!
Lá vais tu ser manipulada por outro homem!
- Não é nada disso! - O quê?
Estás enganado.
- O que faço? - Vou já.
Não faço a mínima ideia.
- Sobre o quê? - Não é contigo.
Então, pronto.
O que é que deu a esta gente hoje?
Desculpa o atraso.
O que se passou, mano? Algo urgente?
Não, felizmente nada de urgente.
Mas fui transferido.
Ai sim? Para onde vais?
Para uns escritórios em Hachiôji. Fui promovido.
Sim? Parabéns!
Mas olha, mano, porque é que os impostos não baixam?
Desculpa?
E aquele dinheiro que te emprestámos? Andas a usá-lo para quê?
Políticas que fazem o Japão brilhar, políticas que fazem o povo feliz,
é aqui, no Parlamento, que são criadas.
O Parlamento do Japão...
Foi aqui que andaram à bulha?
Que sabido que tu és!
Um conhecido da mamã ficou ferido, aqui na testa.
Ai sim? Mas continuam a brigar?
Já não, as eleições terminaram. Agora, devem estar a descansar.
- Não tens frio? - Não.
Queres ir comer uma sopa de feijão e mochi?
Bem, deixa ver...
Espera aí, Yûichi.
Hoje sai um milhão de yen. Um milhão!
- Olá! - Viva.
Mamã, gosta de jogar na lotaria?
Sem a lotaria, não temos como viver os dois.
- Quanto custa a de um milhão? - Cinquenta yen.
Nesse caso, ofereço-lhe eu!
- Tu? - Sim.
- Tu ofereces à mãe? - Isso.
Muito obrigada!
- Se é só cinquenta yen, até eu tenho! - Já vi que sim!
E se os relâmpagos...
se apresentassem diante de mim?
Bem, ficamos por aqui.
Para aprender uma canção, primeiro há que entender a sua letra.
Por exemplo, ''As marcas de amor que gravei no meu braço'',
''São as cordas que içam as redes no meu travesseiro''.
Há que escamotear o significado de cada palavra.
O mestre fala por experiência, não é verdade?
A experiência é pouca...
O travesseiro nesta canção
é, obviamente, uma referência ao amor entre homens e mulheres.
Para uma gueixa, a arte importa, mas a almofada importa mais.
Nas artes carnais, quanto maior a dedicação ao serviço maior é a sua qualidade.
Ui!
Estou a falar a sério. Juro!
Vá, prossigamos com mais uma canção.
No céu nocturno, sopra o vento de Outono.
Por toda a parte, escutam-se os grilos, seu cantar.
Relembra-me a distante terra-natal, o céu sobre o meu lar.
Onde estais, queridos pais, e quando ireis voltar?
Diz-me.
Eu sei que sou um pouco mais velha que tu,
mas isso não te importa, pois não?
Claro que não. Achas mesmo que sim?
A sério?
Fico feliz por sabê-lo.
Mas sabes, eu e tu... Parecemos mãe e filho.
Quem é aquela criança, quem será?
Quem será que está sob a jujubeira?
Percebi tudo.
Madame.
Eu quero verdadeiramente casar com ele.
Não me digas?
Para mim, a noiva do Eisaku tem de ser uma mulher respeitável.
- Dona de bar não serve, é isso? - Exactamente.
É tal como dizes.
Se a dona de um bar não tem direito a casar com o Eisaku,
muito menos o terá a patroa de todas as gueixas.
Misao!
Roubas-me o meu tesouro e ainda te atreves a difamar-me?
Quem difamou primeiro foi a madame!
Muito falam vocês! Calem-se as duas.
A mim, o que importa é mostrar ao mundo a fealdade que me atormenta.
Já tenho como escrever um romance. Foram belas experiências.
Eisaku! Foi para isso que te envolveste com a Misao?
Quem falou em casamento não fui eu. Ou fui?
Então, são esses os teus sentimentos?
Vou dar um passeio.
Senta-te já!
- Seu imprestável! - Misao.
Parece que eu e tu afinal não éramos rivais nem inimigas.
Fomos ambas umas burrinhas.
Eisaku, tu és mesmo um espectáculo.
Nem te sabes desembaraçar sozinho, e mesmo assim insultas quem te ajuda.
Queres ver se essa tua tendência funciona no mundo real? Aventura-te.
Misao.
Vou-me embora.
- Bun. - Sim?
O Sr. Yanoguchi é mesmo diferente. Acredito que vá escrever um bom romance.
''Ó Virgens! Ó sedutoras''!
''Não percais o espírito que faz de vós quem sois''!
''O ardor da paixão leva à loucura. Não deixais que o fogo se descontrole''.
O que é isso?
Charles Baudelaire.
Madame.
E o banquete do Sr. Haruchô?
- Deixa estar. - Como assim?
Bem, vou indo, então.
Até logo. Bom trabalho.
A Satoko foi ao médico de tarde mas ainda não voltou.
Sei lá o que se passa com ela.
- Aqui tem. - Mais uma.
Mas já não há mais.
Há na loja de licor, não?
Claro que há.
- Vai comprar, então. - Está bem.
Estou sim? Residência Shizumoto.
Muito agradecida, como tem passado?
O quê? Eu?
Com o código de vestuário que tínhamos falado?
Claro que sim, sem problema.
É tudo uma questão de apresentação, não é verdade?
Aparecerei à hora combinada. Até lá, então.
Madame, parece que vão fazer um banquete para mim.
Um chá bastava. Tanta comida é um exagero.
- Kiyo, vem cá. - Ela acabou de sair.
Já não falta muito!
- Dê-me um maço dos número 3. - Não temos.
Ah, então pode ser este.
Oi!
Ora viva. Boa noite.
Olhem só a miss terceiro lugar!
E que bela roupa traz ela!
Vim em trabalho.
Esperem lá, o que fizeram com as fotos de Ginza? Nunca mais as publicam?
Tivemos de suspender o processo por decisão dos superiores.
O quê? Que desperdício.
Tinha prometido que ia escrever um texto normalíssimo a apresentar a zona.
Que pena.
- Mas era normalíssimo, não era? - Era sim!
Vens connosco?
Não menorizem a situação, é bem grave!
Os artistas e mestres que conheço viraram-me todos as costas.
- Porque será? - Sei lá.
Bem, tenho de ir trabalhar.
- Até logo! - Adeus.
Vendo bem, talvez ainda dê.
Acredito que sim.
Vamos embora.
O trinta e cinco não sai. O que se passa?
Vou já dar uma vista de olhos!
Cheguei.
Anda cá.
Madame.
Madame!
O que te deu? Até me assustaste.
Recebi uma chamada do Eisaku.
Já não tenho nada que ver com ele.
- Kiyo. - Sim?
Quantas vezes a Misako usou o telefone estes dias?
Bem...
Digamos que foram cinco.
Um dos romances que o Eisaku escreveu
foi o vencedor de um prémio literário!
Ai sim? Um prémio literário?
- Quem diria? - É verdade!
Finalmente foi reconhecido como autor.
Parece que ele afinal não era apenas um empecilho.
E ele diz que quer encontrar-se connosco. Vem hoje à noite.
O Eisaku? Aqui?
Quer dizer que ele não nos abandonou?
Ele deve querer estar connosco para nos agradecer.
Nem sei o que dizer.
Misao, hoje vamos pôr de parte as nossas diferenças.
E não devemos pedir nada do Eisaku.
Hoje é para lhe darmos os parabéns de todo o coração.
Concordo.
Já há muito tempo que não me sentia tão entusiasmada.
Também eu.
Mas temos de prometer que não vamos ter esperanças do Eisaku.
Prometido.
Mas fico triste.
E que tal bebermos para afogarmos as tristezas?
Acho muito bem.
- Uísque não-diluído? - Pois claro!
Olá!
Cunhada?
Ah, cunhada!
Oh, bem-vinda!
Olá! Está um tempo maravilhoso.
Hoje é sábado e o meu irmão deve voltar de Hachiôji.
Já voltou! Está ali ao fundo a pescar.
Ai sim? Vou lá ter com ele.
Mano!
O quê? Ah!
Diz-me, mano.
O que foi?
Estou a pensar deixar de ser gueixa.
Ai sim? Acho bem.
Ainda por cima, não sou nada popular.
Estou fora de moda. Até dá dó!
Se alguma vez foste popular, foi por eu ser da Autoridade Tributária!
Não me digas? Mas que relação há entre as gueixas e os impostos?
Os doutores.
Para lhes baixar os impostos, faziam-me o favor de te visitar.
Nada de particularmente excitante.
Quem sabe?
Desde que fui para Hachiôji que perdi ligação com esses doutores.
E, por isso, perdeste clientela.
Nem acredito que digas coisas dessas com tanta naturalidade.
É a verdade pura e dura. Enfrenta-a.
Para gueixa, és muito descuidada.
Ainda por cima, um deles elogiou-me pela minha beleza mediana.
E fui terceiro lugar no concurso de misses!
Isso foi porque cada pessoa podia votar várias vezes.
Eu sei. Comprei o jornal e votei quinhentas vezes em mim mesma.
Mas acho que desististe na altura certa.
Agora tens de aprender a ser uma mulher de honra.
Por favor, não fales assim comigo...
Para uma gueixa ser popular, tem de ser famosa.
Ser normal não chega?
Exactamente. Nos dias que correm, não chega.
Upa!
Com calma.
Mamã! Mamã! Eu quero!
Já vai...
Porta-te bem.
Está bem?
Que tal?
Eisaku
Tão bonito.
- Está muito bem feito, não acham? - E as letras também.
Madame, onde é que ponho isto?
- No lado de fora, à direita. - Está bem.
Ele chegou!
Bem-vi...
Oh, eras tu.
Desculpe.
A cozinha estava atulhada.
A Teruha disse que ia para Hakone hoje à noite.
A sério?
Ora bem...
O que é que lhe aconteceu? Nunca mais vem.
Posso ir-me embora? Tenho mais que fazer.
Espere mais um pouco.
Com licença.
- Rápido, por favor! - Sim!
Obrigado por vires. Estávamos à espera!
Ora essa.
- Bem-vindo! - Anda daí, vamos!
Pensávamos que já não vinhas.
Estávamos preocupadas. Por aqui.
Ah, é verdade.
- O que foi? - Um momento.
Bem-vindo, anda.
- Senta-te aqui, Eisaku. - Está bem.
Que alegria que nos deste!
Quem te viu e quem te vê.
Apenas cheguei aqui graças ao vosso apoio.
Estou-vos grato.
Isso agora não importa. Vamos brindar!
Sim, brindemos com o que temos!
- Sim, aqui tens. - Obrigado.
Não é preciso.
- Esta festa é para ti. - Não me digas que não bebes?
Eu vim para tratar de um assunto.
- Tratamos disso depois. - Pois é!
Recebi 450.000 yen do prémio literário.
Oh, muitos parabéns!
Parabéns!
Então, vim aqui para vos pagar de volta o dinheiro que me emprestaram.
A mãezinha cuidou de mim por dois anos.
Custei-lhe 10.000 yen por mês em despesas. Em dois anos, 240.000.
As despesas de educação foram cerca de 30.000 por ano, 60.000 em dois anos.
Obrigada por esperarem!
Bem, vamos começ... ah, tanto dinheiro!
- Pira-te! - Sim, senhora.
30.000 por ano, 60.000 em dois anos.
Total de despesas, 300.000 yen.
Pelas dores de cabeça, juntei mais 50.000, num total de 350.000.
Aceite-os.
À madame, 4.200 yen pelas despesas recentes.
A acomodação, 7.500 yen.
No total, são 11.700 yen, mas arredondei para 12.000.
Como agradecimento, mais 3.000, num total de 15.000.
Mas não estás feliz pelo prémio literário?
Afinal, não vieste para nos ver.
Tornei-me capaz de pagar de volta as minhas dívidas, logo vim fazer isso mesmo.
Mais do que receber este dinheiro todo, o que eu queria
era só 1.000 yen para comprar tabaco.
Aceite o pagamento.
No nosso mundo, só recebemos esse dinheiro nas despedidas.
Se só nos querias pelo dinheiro, podias ter dito.
- Não precisamos do teu dinheiro! - Só estou a cumprir o meu dever.
Mas qual dever?!
És indecente!
Seu imprestável!
Madame! Madame, acalme-se!
Ainda queres defender este homem?
Obrigado por tudo. Com a vossa licença.
Sobrou sopa. O que faço com ela?
Tu aí!
Normalmente, fico grata quando me pagam.
Mas o dinheiro que recebemos hoje é diferente. Frustra.
Já estamos habituadas. Os homens gostam de fazer de nós parvas.
No fim, vamos acabar num lar de idosos.
E lá, vamos morrer tristes e sozinhas!
Chiça, que seca!
Madame, dê-me aí um copo.
Maldição!
Estás de bom humor, tu.
Quando a ira é demasiada
nunca é demais uma tigela de saké.
Ai, tão bom.
Quando estava a mudar de comboios, pensei em saltar para a linha e matar-me.
Mas, ao pensar como seria se morresse,
acabei por voltar para casa viva.
Mas quando é que eu vou ser famosa?!
Madame!
Madame, é um incêndio! Na vizinhança!
Onde? Onde? Onde foi?
Não me digam!
Será fogo posto?
Vai aparecer nos jornais.
Quem me dera ter sido eu a pôr o fogo!
Fazia este dinheiro e esta casa explodirem!
Mais valia...
Não é a lavandaria? O que terá acontecido?
Talvez um ferro de engomar esquecido?
''Parasita'' de Eisaku Yanoguchi
Encontrei. É este, é este.
Madame, veja só o conto escrito pelo Eisaku.
Por ele e por ti.
Não seja assim, este foi o conto premiado!
Chega aqui, chega aqui.
É este mesmo.
Estimados clientes. Estimados clientes.
Sra. Shizumoto, do sétimo quarteirão de Ginza,
a sua casa está em chamas. Apresente-se ao local imediatamente.
- Teruha! - O quê?
Sra. Shizumoto, do sétimo quarteirão de Ginza,
a sua casa está em chamas. Apresente-se ao local imediatamente.
Rápido! Rápido!
Abram! A casa está a arder!
Que barulhentos!
Que desgraça! Que desgraça!
O que é que estão a fazer?
Sra. Kiyo, aconteceu uma grande tragédia!
- O quê? Onde? - Na sua casa!
O quê?
Vamos embora!
- Está ali? - Parece que sim.
Kotoe!
Kotoe!
Aconteceu algo muito grave! O nosso bairro está em chamas!
Oh, a sério?
Fujam! Rápido!
Não empurrem! Mantenham a calma!
Esperem!
Bun, estás bem?
- A situação está difícil. - Onde estão?
Ali mesmo, não vêem?
- E tu estás bem? - Estou sim!
Madame! Madame! Que desgraça!
- Madame! - Madame!
Não vá!
Por favor! Madame!
Madame...
Madame!
Como é que isto nos foi acontecer?
Foi tudo culpa minha!
Ah, cuidado!
Saia daí, é perigoso! Venha, vamos!
- Tem de sair! - Larga-me!
- É perigoso! - Não quero ir!
Caros cidadãos, vamos ajudar-nos uns aos outros na prevenção do fogo.
O descuido gera incêndios.
Estou sim?
Espere um momento.
Sim?
Aguarde.
Estou sim? Diga.
A culpada pelo fogo na casa da Sra. Shizumoto
foi a própria proprietária, Ikuyo Shizumoto.
Trinta e oito anos.
Confessou na cena do crime.
Confessou na cena do crime, certo? Muito bem.
Sobre o fogo na casa da Sra. Shizumoto.
Parece que a madame deixou o ferro ligado.
Nós queremos apurar os factos do incidente.
Para escrever uma boa história.
- Já vi que sim. - Temos imenso material e tudo.
- Vá, a conversa fica para a próxima. - Então, mas...
Está bem...
Boa noite.
Sobre o responsável pelo crime...
Sabe quem foi o verdadeiro responsável?
Já percebi, sim.
- Mas... - Adeuzinho.
Oiça!
Ah, boa noite!
Você aí!
Sou o ex-Comandante do Exército, chamo-me Shikao Matsunaga.
Durante a guerra,
quando a Sra. Kotoe ainda era aprendiz de gueixa, fui o seu primeiro marido.
- Não tenho tempo para isto. - Foi ela quem pegou fogo à casa!
Como?
Já lhe revelei os factos, quanto me pode oferecer?
Aguarde um momento.
Boa noite!
Saudações!
Mas que sarilho que aqui temos!
Veja só. Perdi metade dos boletins da lotaria.
Isso é que foi azar.
Kotoe, não te deixes abater.
Mas houve um denunciante anónimo que diz que a responsável foste tu.
Ai sim?
Mas é verdade. O fogo foi posto por mim.
- Não brinques. - Publiquei-o no jornal.
O quê?
- Não digas parvoíces. - Estou a falar a sério.
Desculpe lá.
O quê? Mas que coisa horrível...
Por aqui.
É a pessoa de quem mais se fala.
Menina Kotoe.
Oh, muito boa noite!
''A Tragédia de X'' de Ellery Queen
Tanto alarido. Só nos vêm dar dores de cabeça.
Senhores jornalistas, já chega. Vão-se embora.
Amanhã há mais.
- Comandante. - O que foi?
A coisa está preta.
Como assim?
Anda a ler romances de detectives outra vez?
Mas tens preconceito, é?
O protagonista, Drury Lane, tem umas boas tiradas.
Queria falar consigo sobre o incêndio na zona oeste de Ginza.
Chegou a hora.
Quando ocorre um crime, primeiro um detective tem de pensar
quem teria mais interesse em cometer tais práticas?
- Não é? - Diga?
Ou seja, o marido da Kotoe, que na altura tinha dezoito anos,
tinha uma posição de chefia no exército e esteve na guerra?
Mas que bela coincidência.
Perdoa-me!
Já agora, quanto é?
Quando não fala, só nos complica a vida. E se disser alguma coisa?
Na verdade, tem sempre o direito ao silêncio.
Falar ou não, a escolha é sua.
- Saudações. - Estejam à vontade.
Contudo, só porque confessou ser a responsável,
não significa que esteja determinado que o seja.
Sem provas que o sustentem, é impossível.
Já que confessou, coopere mais connosco. Entende?
Eis o cerne da questão, qual a sua motivação para o fogo posto?
O que fruiria deste crime?
Nós temos de o determinar.
O ferro que provocou o incêndio.
Obrigado.
- E a madame? - Não diz coisa com coisa.
É destas.
És tão barulhenta. Vai mas é dormir, pá!
Já não aguento mais!
Duas confissões. Qual será a verdade por detrás deste caso?
Fogo posto? Duas confissões até agora. Incêndio na residência Shizumoto, em Ginza.
Quem será o real responsável? Duas confissões no incêndio de Ginza.
Não percebo nada disto.
Nem eu...
- Ah! - O que foi?
Consegui! Vê só! A lotaria!
Não me digas?
Últimos três dígitos, 6-0-0.
O quê? Mas só te saíram 1.000 yen!
Não me digas, tanto alarido por 1.000 yen.
Estou sim? Residência Shizumoto.
Como assim? Ah, entendi, vou já.
A polícia ordena que estejamos já na esquadra.
Pois.
Satoko, podes ir lá?
Desculpa-nos.
Tem de ser, para evitar uma desgraça ainda maior.
Posso.
Eu vou, conto convosco para cuidarem das coisas.
- Foi mesmo ela? - Sim.
- Tu, investiga os factos. - Sim, senhor.
Vamos lá, então.
Chefe de Esquadra
Entre.
Comandante.
Isto está cada vez mais esquisito.
Esquisito?
Fui eu quem causou o fogo.
Deixei o ferro aceso na saia da Sra. Kotoe.
A culpa é minha.
Um ferro na saia?
Três criminosas? O misterioso incêndio de Ginza.
Enquanto chefe, o que acha deste incidente?
Não parece que seja um crime com cúmplices.
Pois não, nisso tem razão.
- Não faço a mínima. - Não nos serve para nada.
Mickey Spillane?
Olhem que a realidade é mais complicada que a ficção.
Está aqui o jovem autor Eisaku Yanoguchi.
- Yanoguchi? - Rápido, vamos!
Esperem, não entrem!
Saiam daqui, saiam!
Sr. Yanoguchi, como se sente por testemunhar?
E como se tem sentido?
Só causam sarilhos, vão-se embora.
O que é que tu queres, pá?!
Meus senhores.
Seria melhor se escutassem.
Não seja por isso.
Diga lá.
Paguei de volta a minha dívida às duas senhoras.
Actualmente, não temos qualquer relação de dependência financeira.
Contudo, é inegável que, ao nível emocional, dependi delas.
Essa é uma cruz de dor que levo às costas hoje mesmo.
Curioso.
Essa dor, essa tortura psicológica...
Gostaria de escrever um texto de média extensão que as explorasse.
Não demora muito tempo até um ferro gerar um incêndio, pois não?
Na altura do fogo, eu e a madame estávamos na livraria.
Uma hora antes, fomos ver um filme.
Naquele cinema com o ecrã grande.
- O Cinema Scope? - Sim, esse.
Esse mesmo.
Com que então foi no Cinema Scope?
Vês? Nós temos um álibi!
Não estou a falar consigo, menina.
- Está bem! - E depois?
E depois, foi isso que sucedeu?
Sim...
Estava tão saturada do mundo, que me deu uma enorme vontade de o queimar.
Ao olhar para o incêndio, pensei no quão perfeito era.
Mas, então...
Quando percebi que não tinha sido eu a pôr o fogo,
já tinha dito que era eu a culpada.
Perdoem-me pelo caos que criei.
Sabe, eu só queria ser famosa.
Ultimamente, não tenho conseguido actuar...
Desculpem-me.
Só vos causei incómodo. Peço perdão.
Três mulheres a confessar.
Duas já negaram as suas confissões iniciais.
Só resta a aprendiz de gueixa, a menina Satoko.
O que farias se quem confessou viesse ter contigo,
pedisse desculpa e dissesse que era tudo mentira?
O que eu faria? Sei lá!
Sim?
Desculpem o incómodo.
A madame e a gueixa chamada Sra. Kotoe já podem ir para casa?
- Claro que podem. - Está bem.
Dá-lhes só mais uns minutos.
Muito bem, vou indo, então.
A madame e a gueixa estão a tramar alguma.
Quem é que no seu perfeito juízo inventa que pôs fogo a uma casa?
É pena, a desculpa que queria ser famosa até colava.
Mas, quer dizer, há limites para a ingenuidade.
Consta que houve um outro incêndio na vizinhança uma semana antes.
Sim, parece que foi perto do edifício da Dentsu.
Se for verdade...
Obrigada.
Nunca mais dêem testemunhos falsos, entendido?
Sim...
- Dê cumprimentos ao Comandante. - Venha visitar-nos se estiver perto.
- Cheguei! - Cheguei!
- Bem-vindas! - Bem-vindas!
Não deve ter sido nada fácil, madame!
Foi um apuro dos diabos.
Não há lugar como o nosso lar, não é verdade?
Devem ter falado de mim no jornal!
- Sim, falaram! - Tens o recorte?
Vocês meteram-se numa grande alhada.
Mas o que fazemos com a Satoko?
Foi ela quem pôs fogo à casa...
- Madame, sabe... - Sim?
Isso é mentira.
Desculpe-nos.
Na verdade, nós...
quando vimos a casa neste estado, e com a madame detida pela polícia,
ficámos muito preocupadas com o futuro do nosso negócio.
Então, pensámos que, se houvesse um novo responsável,
a madame poderia voltar para casa.
Por isso, incriminámos uma pessoa inocente.
Não me digam!
Mas o que é que vocês fizeram?
Ao discutirmos quem poderia ser o criminoso ideal,
concluímos que deveria ser a Satoko, por ser menor. Os seus crimes seriam perdoados.
Então, instruímos-lhe que se confessasse.
A Satoko concordou, e confessou.
Quer dizer que a menina...
Correcto, ela não foi responsável.
- A sério? - Isso mesmo.
Coitadinha.
Eu posso ir à esquadra dizer que fui eu, para resgatá-la!
Estás louca, só pode.
Peço as mais sinceras desculpas.
Mas deixe a menina voltar para casa, não foi ela quem pôs fogo à casa.
Fomos nós que a incriminámos. Pedimos imensas desculpas.
Ai sim?
Esperem um pouco.
''A Tragédia do Y'' de Ellery Queen
Comandante.
Comandante, bem...
Não temos qualquer suspeito do crime.
- Não há suspeito? - Não.
Que parvoíce vem a ser essa? Onde há fumo, há fogo!
- Alguém repare o tubo da caldeira! - Sim, senhor.
Na verdade...
Desculpe.
Você vem da clínica de Tsukishima.
Sim, sou médico.
- O que deseja? - Gostaria de ver o Comandante.
Há outros agentes em serviço para além do Comandante.
Tem de ser o Comandante. Se o vir, ele entenderá.
O Comandante tem mais que fazer!
Não, não tenho. Estou tão desocupado que nem sei o que fazer.
Sou o Comandante, o que quer de mim?
Bem...
Eu gostaria de testemunhar a favor de Satoko Ono.
Eu sei que ela não é a responsável.
Ai sim? Muito bem, faça favor.
Está bem.
Entre. Conto com vocês.
Não precisa fazer cerimónia.
De acordo.
- A minha identidade. - Está bem.
Sente-se ali ao fundo.
Mas que belo gato tem aí.
Este gato é a prova da inocência de Satoko Ono.
Desculpe?
Momentos antes do incêndio,
Satoko veio ao meu consultório e disse que tinha sido repreendida por ter o gato.
Como não podia tê-lo, pediu-me que ficasse com ele. É o seu álibi.
Pelo que sabemos, as gueixas deixavam a Satoko ter o gato em casa.
Não creio que tenha sido repreendida.
Não me diga? Que bizarro.
Decerto sabes quem é este gato.
Sim.
Toma.
Naquele dia, tiraste o gato de casa porque foste tu quem lhe pôs fogo, correcto?
Doutor!
Seria uma pena se o gato tivesse morrido. Senta-te.
Disseste que te esqueceste do ferro de engomar na saia da Sra. Kotoe.
Mas a saia tinha desaparecido no incêndio da lavandaria.
Sim, tem razão.
A verdade é que queria voltar para casa.
Queria ver o rosto da minha mãe.
Pensei que, se houvesse um fogo, a madame me deixaria voltar para casa.
Fui eu quem pegou fogo à casa.
É a verdade.
Tinha vindo para a inocentar dos seus crimes,
mas acabei por trazer à tona a sua culpa.
São coisas que acontecem.
Quando a lavandaria pegou fogo, tive esta ideia.
Então, naquele dia, a patroa Kiyo tinha ido jogar pachinko.
E achei que era o momento certo.
O que se passou?
Doutor, fique com este gato.
As gueixas gritaram comigo quando o descobriram.
Ao ver o fogo e a confusão que tinha causado,
senti medo mas também vergonha.
Não sabia o que fazer.
Então, para libertar a madame da esquadra,
as gueixas sugeriram que eu me entregasse.
Disseram que eu era a criminosa ideal por ser menor.
Pediram-me que fizesse o sacrifício pela madame indo à polícia.
Como era eu a verdadeira criminosa, aceitei o seu pedido.
Eu só fingi que era criminosa
porque tive medo de admitir que o era de verdade.
De qualquer modo, não viverei por muitos anos devido aos meus pulmões doentes.
Se tiver de ser, dêem-me a pena de morte.
Mas, antes, deixem-me ver a minha mãe.
A minha querida mãe!
Mãe!
Número dezasseis.
O Comandante está a chamá-la.
Vem cá.
Satoko.
Satoko.
A vaquinha finalmente começou a dar leite.
Pensámos que podia ser bom para a tua saúde, então trouxemos-te um pouco.
Queres beber?
Mamã!
Eu fiz algo horrível!
Não chores, filha.
A mãe sabe...
Sua parva, se querias estar com a tua mãe podias ter dito!
Se tivesses dito antes...!
Tem toda a razão!
Por terem cuidado da minha filha,
quero agradecer e pedir desculpa.
Aceitem esta vasilha de leite.
Senhor Comandante.
Que tal um copinho?
Não era preciso. Mas obrigado.
Bem, bebamos.
Estejam descansados que paguei pelo leite. Não conta como suborno!
Senhor Comandante, obrigada por tudo.
As mais sinceras desculpas.
Ora essa.
Apareçam de vez em quando.
E nós estendemos-lhe o mesmo convite!
Adeus.
Esquadra da Polícia de Ginza
Meninas, temos de pôr um sorriso no rosto e fazer as coisas como deve ser.
E temos de reparar a casa até à Satoko voltar.
Tudo menos morrer queimada num lar.
Nem mais!
Ah, lembrei-me! Os novos kimonos chegam hoje!
Pois é! Hoje à noite, temos banquete!
Não temos tempo a perder. Temos de fazer pela vida!
Vamos lá, então.
As Mulheres de Ginza
FIM
Tradução do Japonês: André Pinto Teixeira Legendagem: Miguel Patrício
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