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Cada noite, a minha vida é para ti
Como um jogo qualquer e nada mais
Porque, a mim, me atormenta Na alma
A tua frieza
Queria saber Se a tua alma é igual
À de qualquer mulher
Porque, a mim, me atormenta Na alma
A tua frieza
O meu sonho
Com grande paixão
Que vivas por mim
Como eu vivo, querida, por ti
Como eu vivo, querida, por ti
- E então? Como estás? - Bem.
- Estás tão bonita. - Bem...
- Vamos dar um passeio? - Sim.
Por aqui. Tem cuidado, não caias.
O que achas?
- Isto é seguro? - Claro.
- Tem um cheiro estranho, não? - Sim, a mofo.
Certo.
- Incenso, a sério? - Não estamos numa igreja?
Além disso...
Olha.
Está aqui algures.
Cá está.
Trouxe velas.
- Só te falta a Bíblia. - Não, trouxe algo melhor.
Olha.
Cá está.
Os ovos com cogumelos da minha mãe.
- E... um Crianza de mil pesetas. - Muito bem.
E onde roubaste tudo isso?
Esperas o quê?
Que celebremos com sangria? Não.
Não vais ser bruto, certo?
Fica descansada.
És tão bonita.
Onde estavas?
Em casa da Marisol.
... cidadãos. Esta tarde, em San Sebastián,
muita gente se manifestou pelo fim da violência terrorista.
Cada noite, a minha vida é para ti
Como um jogo qualquer e nada mais
Porque, a mim, me atormenta
Na alma
A tua frieza
Queria saber
Se a tua alma é igual
À de qualquer mulher
Porque, a mim, me atormenta
Na alma
A tua frieza
- O que foi? - Um dia, acontece-te alguma coisa.
Como?
Um dia, acontece-te algo.
Porque dizes isso?
És uma mentirosa.
O que se passa?
Nada.
O tipo da turma que não fala, o Pepe.
E o tipo cobre-se todo...
- Mesmo! - ... de mel, topas?
Imaginem o duche a seguir.
Mel, dos pés à cabeça.
Imaginem só.
Pegar-se-ia a tudo.
DIZ-ME O TEU NOME
Carmen.
Carmen.
Sei que estás aí.
Temos de falar.
Temos de falar.
Carmen! Abre, Carmen, por favor!
Ajudem-me!
Ajudem-me, por favor!
Ajudem-me!
Ajudem-me!
Alguém me tire daqui, por favor!
Ajudem-me!
Tens gritado.
Ninguém te vai ouvir.
Mas, se voltares a gritar, mato-te, ouviste?
Quero ir para casa.
Já não tens casa.
Trouxe-te leite com chocolate e bolachas.
O que estás a fazer, pai?
Porque fazes isto?
Vão procurar-nos.
Já falei com a Guarda Civil.
E que lhes disseste?
Que foram para Madrid.
Vamos, come.
E a mãe?
A culpa é dela.
Culpa de quê?
De te ensinar mal.
Mas, comigo, vais aprender.
Vais aprender a não desafiar.
A respeitar.
Vá, come.
Só podes usá-lo à noite.
Se vir fumo durante o dia, tiro-to.
E o que faço até anoitecer?
Virei mais vezes.
Estaria melhor em casa, pai.
Não, ainda não.
Já aprendi.
Sabes que faço isto por ti, certo?
Para te ajudar.
Quero voltar já.
Tenho muito frio.
- Tens frio agora? Mesmo com as mantas? - Sim.
Claro, como não te mexes.
Vamos. Anda cá.
Anda cá. Vá.
Basta!
Convida-me para um café, e falamos calmamente.
De quê?
Vá lá. Há dois dias que te bato à porta.
- Não bebo café, só água. - Água, então.
Disse-te que tínhamos de o selar.
- O que dizem os teus peritos? - Eles não viram nada.
Mas tu viste, certo?
O que raio está lá? É o ar? Algo tóxico? Um fungo? O quê?
São demónios, Rober.
Como assim, "demónios"?
Não, o que vi são... coisas minhas.
É o que fazem, brincam connosco, com os nossos medos.
Para nos enlouquecer.
- Não faz sentido. - Não, não faz.
Daí termos de os enterrar, para que se calem.
- Enterrá-los? - Temos de selar o buraco, Rober.
Para nada entrar nem sair.
A Sonia anda em cima de mim, Carmen. Não posso fazê-lo.
Se fizer algo em Fuensanta, denuncia-me.
Sim. Ela também fez coisas ilegais.
O quê?
O que aconteceu na igreja?
Um exorcismo.
Um exorcismo muçulmano.
Parece que a tua ex-mulher,
a mulher ateia e racional,
também crê em demónios.
Continua.
Verifica se está tudo bem e assina, por favor.
Que vai acontecer ao Radi?
- O que o juiz decidir. - O juiz?
Sonia, ele vai ficar com um tutor até ter alta do hospital.
E o Omar e a Fátima?
Fizeram um ritual à criança, que teve um ataque de nervos.
Não é verdade.
- Sabes o que é um delírio? - Estavam a ajudá-lo.
Aquilo não é ajudar, é pôr em perigo um menor.
Falarei com os Serviços Sociais.
Miúda, que parte disto não percebes?
Vamos fazer queixa de ti pelo que fizeste na igreja.
- Não percebem porra nenhuma! - Exato. Não percebemos.
Não percebemos como estás metida nisto.
O que raio fazias naquela igreja a exorcizar um mouro?
Sonia.
O padre Ángel não se vai safar com isto.
Já avisámos o bispo.
O arcebispado nunca gostou de mim.
Vão gostar de se livrar de mim.
O que fizemos, padre?
Sabíamos que isto podia acontecer.
O quê?
O Radi acabar num hospital psiquiátrico? Os pais perderem a guarda?
É por isso que os vamos ajudar.
Como?
Realizando outra Ruqyah no hospital ou no tribunal?
Além da outra coisa.
O que vimos, padre. Eu e o senhor, aqui.
A qualquer momento, o Safir vai chegar e poderá explicar tudo.
Nem sei o que tenho dentro de mim.
Tenho medo.
- É normal. - Não. Não é normal.
Desde que fui atacada no campo, tudo é absurdo, irreal.
Parte de mim quer acreditar que não se passa nada
e que tudo vai correr bem.
Mas não é verdade.
E o que queres fazer?
Não sei.
É esse o problema.
Isto nunca me aconteceu, não saber.
Estou habituada a lidar com burocracias, polícias, juízes, preconceitos.
É o mundo que conheço.
Sei que argumentos usar, a que portas bater, convencer.
Deve ser muito difícil para alguém que salva outros há anos.
Nem consegui salvar a Badra.
Agora, a questão é quem te protege a ti.
- Daí a tua angústia. - O que faço?
Rezo? Até tudo passar? Até todos os medos se irem embora? Até...
Aí dentro, só tens um bebé.
E isso é o quê? Fé?
Não, o mal não tem corpo. Não pode nascer.
Está entre nós. Tem estado sempre entre nós.
- Se o expulsámos do Radi... - Fizemos mesmo isso, padre?
Se não o fizemos, temos de acabar o que começámos.
Há um provérbio chinês, daqueles que têm mil anos.
"Só quando te expões à aniquilação
descobres quão indestrutível és."
- Os provérbios são para pôr na parede. - Sim.
Mas este não. Este é real.
Sei porque estive lá.
Nas...
... trevas.
E tu acabaste de chegar lá.
Estou louca.
Estás louca?
Quem és tu?
A Antara.
De onde vieste?
- Chamaste-me. - Não.
A dor.
- O quê? - Fala comigo.
Diz...
Que significa isso?
Mata-o.
Mata-o.
O juiz manterá o Radi internado seis semanas.
Recomendação dos psiquiatras.
- Não podem fazer isso. - Acham que teve uma crise psicótica.
Ele não está louco. Temos de o tirar de lá.
O Radi está sob custódia judicial.
Não quero saber...
Deixa-a falar.
- Se o jinn ainda está lá... - Esquece o jinn.
Temos outro problema.
Podem acusar-vos de pôr o Radi em perigo
e tirar-vos os direitos parentais.
- O quê? - Não é certo.
- Mas é possível... - Ninguém mo vai tirar.
Daí termos de fazer bem as coisas.
Vamos. Deem-me a mão.
- Tens de a acalmar. - Em Marrocos, isto não acontece.
Não nos tiram os filhos.
Lá, o governo não funciona. Não é igual.
Estás a dar razão ao juiz?
Não lhe estou a dar razão.
Há que perceber como funcionam as coisas cá.
- Sim? - Padre, sou eu.
Estou com o Safir.
Estamos a caminho de Río Blanco.
Não, é melhor que não venham.
As coisas não correram muito bem.
O que fazemos? Onde nos encontramos?
É melhor em Fuensanta.
Vemo-nos lá.
Ouvimos gritos horríveis. Daí a Sonia o ter levado à igreja.
Porquê a igreja?
Para fazer a Ruqyah, é preciso alguém com fé.
- E a Fátima e o Omar aceitaram? - Todos aceitaram.
Mas, agora, o Radi está na ala psiquiátrica.
As pessoas estão nervosas em Fuensanta. Algumas querem partir.
Algumas querem... Muito bem, então.
Se conseguir, vou para norte, mas preciso de dinheiro.
- Não. Ficas até que to diga. - Já nem posso vender haxe.
- Arranjo-te algo. - Quando?
- Tem calma. - Não posso. Isto foi culpa tua.
- Chega. - Não.
Tens de me ajudar antes que piore.
Piore? O que queres dizer com isso?
Não pedirei que me contes o que aconteceu na igreja. É contigo.
Tal como sei o que aconteceu no buraco.
Falei com a Carmen.
Temos de fazer algo.
Algo?
Ela sofreu com o que o pai lhe fez.
E sabe, tal como nós, que há algo marado lá em baixo.
Ela não está louca.
Nunca disse que ela está louca.
Então, acabemos com isto.
Podem declará-lo um parque natural
ou património de Castilla-La Mancha. Desisto.
Não quero uma pedra daquele sítio.
Mas façamo-lo juntos.
Não depende de mim, Rober.
Os mouros ouvem-te e seguem-te.
Quiseste levá-los para lá.
Podemos arranjar outro sítio.
- Eu ajudo-te. - A fazer o quê?
A começar do zero.
O que viste, Rober?
Não importa.
Só tens de os reunir
e contar-lhes a verdade.
Aqui tens.
Café com leite
e uma sandes.
Está quente.
Vá. Bebe antes que fique frio.
O que estás a fazer?
Não!
Não... Ajudem-me...
Ajudem-me!
Onde estás?
Onde estás?
Onde raio estás?
Fala comigo.
Já não falas comigo?
Já não falas comigo.
Ninguém sai.
- Onde estás? - Ninguém sai.
- Ninguém sai. - Mentirosa.
Não.
- Não! - Ninguém sai.
- Não! Chega! - Ninguém sai.
Ninguém sai.
- Ninguém sai. - Mentirosa.
- Basta! - Um dia, acontece-te algo.
- O que estás a fazer? - Ninguém sai.
Está tudo bem.
Não há problema.
Que sítio é este?
Vais ficar bem.
Não, tenho de sair daqui.
- Tenho de... - Vamos cuidar de ti,
tal como dos outros.
Dos outros?
Não os ouves?
Eles também sofrem,
como tu.
E não pode sair.
O que não pode sair?
A dor, Carmen.
Não.
Não.
Não.
Não!
Não me digas que o bispo te mandou vir repreender-me.
Júlio César não disse, ao ser apunhalado:
"Também tu, Brutus?"
Vens tarde. Ele já enviou os capangas dele.
Agora, não.
Vim ouvir-te, não repreender-te.
Muito bem.
Deram-me uma semana para...
... fazer as malas e ir embora.
Não te ofereceram outra paróquia?
Não, apesar de ter adorado que me enviassem para a Amazónia, Papua...
Papua não, pelo amor de Deus.
Lá, comem pessoas.
Meteste-te numa bela embrulhada.
Como sempre.
Então, o exorcismo foi real?
- Muçulmano. - Céus!
Devia ter-te impedido quando me falaste de Fuensanta.
Não, a culpa não é tua. Não te martirizes.
Não, decerto tens as tuas razões...
Sim, não quero arranjar desculpas, mas...
... senti que tinha de o fazer.
Tinha de ajudar o rapaz.
Mas porque não falaste com ele?
Com o bispo?
Temos de discutir as coisas, Ángel,
até as mais loucas. É para isso que serve a religião.
Ela serve para ajudar.
O miúdo é muçulmano, e fez o seu testemunho de fé.
Sim, mas isto não é só sobre fé, Lucio.
A religião é sempre sobre fé. Caso contrário, é outra coisa.
- Que coisa? - Não sei.
- E também não nos diz respeito. - Não? O mal não nos diz respeito?
O mal não depende de Deus.
Existe, mas para que façamos escolhas em liberdade.
Que liberdade tem um miúdo de 12 anos?
A liberdade de decidir.
Se não há escolha, não há virtude.
Ele não escolheu ter um demónio dentro.
Nem escolheu amar Deus sobre todas as coisas.
- Escolheu, o Deus dele. - O Deus dele.
Claro, o problema é esse.
E tem mais de 1000 anos.
Não é algo que vamos resolver.
Dá-me esse charuto.
Se não tens para onde ir,
tenho um quarto a mais na quinta.
Apesar de seres do tipo que prefere Papua, mesmo que te comam.
- Radi! - Radi!
Radi!
- Radi! - Radi!
- Radi! - Radi!
Radi!
Radi!
Radi!
Radi!
Radi!
- Radi! - Radi!
Vocês...
Tenho de falar com o meu filho, por favor.
Deixem-me falar com o meu filho. Tenho de falar com ele.
- Ele está mesmo ali! - Por favor...
- Fátima. - Ele está ali.
- Deixem-nos falar com ele. - Radi!
Sei que não correu como esperávamos,
mas não podemos desistir.
Se queremos ajudar o Radi e salvar Fuensanta,
temos de continuar.
Com toda a fé do mundo,
porque não enfrentamos uma coisa qualquer.
No Islão, os mortos não se manifestam.
Alá criou os jinns de fogo sem fumo,
e nenhum corpo lhes pertence.
Por isso, a criança que falava pela boca do Radi pode
ter existido, mas... - O Abdelhakim?
... é, na verdade, um jinn a fingir que é ele
a agir de forma muito estranha,
como se fosse vários jinns.
Como?
Os jinns podem ser violentos.
Podem matar, brincar e divertir-se com os corpos.
Mas nunca vi um fazer tudo isso ao mesmo tempo.
No Radi, vi raiva, ternura
e angústia.
- E como se explica isso? - Encontrando a fonte.
Aquilo de que se alimenta.
Há dez anos,
quando estive preso em Tindufe,
aprendi que aquele sítio, no meio do deserto,
fazia surgir o nosso pior.
A ansiedade, o desespero, a angústia.
Demorei muito a perceber
que era isso que alimentava os jinns.
Era a fonte deles. A loucura dava-lhes vida.
Assim, tivemos de aprender a cuidar de nós,
a controlar os nossos medos,
porque, sem eles, os jinns não podiam entrar.
Eles possuem quem tem medo?
Quem tem medo, quem sofre,
quem não está em paz.
Alguns presos não o controlavam e tivemos de lhes fazer a Ruqyah.
Mas os jinns que expulsámos nunca mais voltaram.
O que aconteceu ao Radi, então?
O Radi é uma criança e...
Não tem os sentimentos e medos expressos pelo jinn.
Não é a fonte deles.
Naquele buraco, ele deve ter encontrado algo horrível,
uma dor enorme.
- E de onde vem essa dor? - Do Caçador.
O Caçador,
a deformada,
os emparedados.
Toda essa dor concentrada naquele buraco que ficou fechado séculos.
- Nesse caso, temos de o voltar a selar. - Pelo contrário. Há que libertá-los.
Libertar quem?
Quem está lá emparedado.
Temos de ir lá abaixo e encontrá-los.
Pulverizar os corredores com água de rosas.
- Temos de realizar a Ruqyah nas ruínas. - Sim.
Provocaram tudo isto. Trouxeram os jinns.
E o desespero ainda está lá,
a alimentar um jinn que está com cada vez mais raiva, ódio
e desejo de vingança.
Lá, só estarão crânios e ossos. Vamos libertar isso?
Almas, Sonia. Vamos libertar almas.
- Que almas, padre? - Almas que precisam de enterro.
De descanso.
A responsabilidade é tua.
Se não o tivesses deixado descer,
ele estaria bem.
Se não o tivesses feito...
... o meu filho... - Chega, Fátima.
O meu filho estaria bem.
Não vais fazer nada?
O quê?
Lutar pelo nosso filho. Lutar!
Os médicos dizem que farão queixa.
E vais deixá-los?
Vais deixá-los decidir?
O que queres? Queres que arranje confusão?
Com o hospital? Com Espanha?
- Com os tribunais? Com quem? - É o nosso filho.
Se ficar lá, morre.
Vais deixar que o matem?
Que raio? São quase 23 horas.
- Vou bazar. - Como?
O Safir voltou. Vai dar porcaria. Vou para Bilbau.
- Como queiras. - Como assim?
Não, tínhamos um acordo.
Vendia o haxe e ficava com o lucro, mas já não dá.
- E então? - Preciso de dinheiro.
- Tira o pé. - Preciso do dinheiro.
- Tira o pé. - Arrisquei-me por ti.
- O pé. - É justo.
Ou denuncio o teu plano à Guarda Civil?
Pelo amor de Deus!
Dá-me o dinheiro e bazo!
Sai da minha casa.
- Não quero problemas. - Ai não?
Podia alvejar-te e ninguém descobriria.
- Calma. - Calma?
Desaparece daqui!
Maldição!
Como um jogo qualquer
E nada mais
Filha...
Porque, a mim, me atormenta...
Radi!
A tua frieza
Meu amor.
Filho. Ouve.
Vamos sair daqui, sim?
Vamos juntos. Vamos para casa.
Sim, filho?
Queria saber
Se a tua alma é igual...
Vá, não tenhas medo.
À de qualquer
Mulher...
Radi!
Radi! Ele é meu filho! Soltem-me!
Soltem-me! É meu filho!
A tua frieza
Legendas: Vânia Cristina
Supervisão Criativa Mariana Vieira
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