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Clube da Esquina.
Rua Divin�polis.
Bairro de Santa Tereza, Belo Horizonte.
Casa do Salom�o Borges.
O pai.
E a prole.
O pai, a m�e, onze filhos...
Dez agregados...
Um deles, eu.
E todos m�sicos.
E vizinhan�a... super legal.
E a esquina de baixo...
O pessoal sentado, olhando pra lua e fazendo m�sica.
� l�.
? Eu j� estou com o p� nessa estrada ?
? Qualquer dia a gente se v� ?
? Sei que nada ser� como antes ?
? Amanh� ?
? Que not�cias me d�o dos amigos? ?
? Que not�cias me d�o de voc�? ?
? Alvoro�o em meu cora��o ?
? Amanh� ou depois de amanh� ?
? Resistindo na boca da noite um gosto de sol ?
? Num domingo qualquer, qualquer hora ?
? Ventania em qualquer dire��o ?
? Sei que nada ser� como antes ?
? Amanh� ?
? Que not�cias me d�o dos amigos? ?
? Que not�cias me d�o de voc�? ?
? Sei que nada ser� como est� ?
? Amanh� ou depois de amanh� ?
? Resistindo na boca da noite um gosto de sol ?
? Num domingo qualquer, qualquer hora ?
? Ventania em qualquer dire��o ?
? Sei que nada ser� como antes ?
? Amanh� ?
? Que not�cias me d�o dos amigos? ?
? Que not�cias me d�o de voc�? ?
? Sei que nada ser� como est� ?
? Amanh� ou depois de amanh� ?
? Resistindo na boca da noite um gosto de sol ?
? Que not�cias me d�o dos amigos? ?
? Que not�cias me d�o de voc�? ?
? Sei que nada ser� como est� ?
? Amanh� ou depois de amanh� ?
? Resistindo na boca da noite um gosto de sol ?
NADA SER� COMO ANTES ?
NADA SER� COMO ANTES A M�SICA DO CLUBE DA ESQUINA
Ah, esse v�o aqui...
a caracter�stica mais bacana dele, apontada pelo Bituca, na �poca,
era a ac�stica, n�?
Porque pode ver que a voz reverbera um pouco aqui, n�?
Fica aquela voz aveludada, assim, gorda, n�?
O Bituca vivia sentado aqui, nesse lugar aqui, nessa escadaria aqui, tocando.
�, eu agrade�o muito a minha m�e
por ter me pedido pra comprar p�o e leite naquele dia,
porque eu conheci o cara naquele dia.
Foi um encontro para sempre.
Eu era uma crian�a, ele era um adulto,
e, de repente, olhei praquele cara e falei:
esse cara � meu amigo pro resto da vida.
Acho que ele teve a mesma sensa��o em rela��o a mim.
�, aqui � a escadaria.
Naquela �poca, as crian�as eram mais inocentes, n�?
Ent�o eu descobri, nesse pr�dio, que Papai Noel n�o existia,
o cara me falou dentro do elevador.
Esse cara eu nunca mais gosto dele,
porque ele acabou com a minha... acabou com a minha onda.
Assim, "Papai Noel n�o existe" o caralho.
Mas depois eu descobri que ele tinha raz�o.
- Papai Noel n�o existia? - �, ele tinha inteira raz�o.
E conheci o Beto um m�s depois, em cima de uma patinete, a dois quarteir�es aqui.
A gente dava rol� no centro, tinha muito amigo do centro, n�?
Os guris, as crian�as, eu fazia parte desse time.
O Beto j� da minha idade, o Beto tinha 10 anos tamb�m,
e a� eu abordei o cara e falei:
"Que patinete � essa? Que que � isso?! Eu nunca vi em Belo Horizonte."
O Beto tinha acabado de mudar do interior, de Montes Claros,
ent�o o pai dele era pintor, um compositor,
e o pai dele era marceneiro tamb�m,
o Beto herdou essas coisas tudo do Godofredo.
O Beto � luthier, ele � uma s�rie de coisas,
monta avi�o, tem brev�, voa.
O Beto gosta de emo��es fortes assim.
- �, ele gosta. - Sempre gostou.
E a� eu abordei o cara e falei:
"P�, essa patinete sua � muito linda, � maravilhosa.
"Eu n�o teria condi��es de ter uma patinete dessa,
"s� se Papai Noel me desse,
"mas Papai Noel me falaram que ele n�o existe." Entendeu?
E minha patinete, realmente, quando o L� me viu naquela patinete,
ele veio assim pra cima de mim,
chegou e falou: "Opa!"
Eu falei: "Opa!" Ele botou a m�o em cima da patinete assim...
"Nossa, essa patinete... Quer fazer neg�cio nessa patinete?"
Eu falei:
"Uai, pra mim fazer outro � mole, n�?"
� s� eu voltar na oficina l�. A� falei:
"Uai, o que � que voc� tem?"
A� eu falei: "O que eu posso dar em troca? Dinheiro eu n�o tenho."
Dez anos de idade, dinheiro eu n�o tinha nenhum.
A� eu falei com ele...
� que naquela �poca rolavam aqueles escambos, n�?
Os meninos faziam cole��o de n�o-sei-o-qu�, cole��o de moeda.
Eu lembro que uma das coisas que eu tinha na minha casa era uma cole��o de moedas.
E a� eu ofereci pro Beto a cole��o de moedas.
"Traz l� pra ver o que voc� tem,
"que de repente eu dou uma olhada, a gente faz um neg�cio e tal."
A� ele trouxe l� algumas coisas...
Trouxe uns pesos, uns ienes,
com aquele furo no meio, aquela moeda.
A� juntou aquele monte assim...
Falei: "Olha, beleza. Vamo fazer o seguinte...
"Voc� tem um d�lar? Aquele d�lar?"
Ent�o falei assim: "Voc� me d� esses tantos aqui,
"mais um d�lar, e t� fechado?" "Fechado."
"Pode levar a patinete."
? "Equatorial" de L� Borges ? (Beto Guedes / L� Borges / Marcio Borges)
? Vou dizer o que sei ?
? Lugar sem lei ?
? Que me incendeia ?
? Oh, voc�, meu amor ?
? Viver sem ver ?
? Evidente o espa�o, eu sei ?
? Nesta noite equatorial ?
? Eu vou sair outra vez ?
? Onde morre a trilha do meu sil�ncio ?
? Vou te buscar ?
? Clara dor tropical ?
? Lugar sem lei ?
Nessa esquina aqui, abordei o cara e falei: "Que patinete � essa?!"
A� em cima da patinete tava nada mais nada menos do que o Beto Guedes,
que virou meu amigo, meu parceiro pro resto da vida.
Tem que lembrar que voc�s dois tinham 12 anos de idade cada um.
Eu tinha 10 ainda.
Foi no ano que eu mudei pra c�. 10 anos.
- '60 e... - Isso que � amizade velha, hein?
�. A�, cara...
Aqui onde tem essa lanchonete, tinha um lugar que a gente sentava e ficava tocando viol�o.
E aqui eu e Beto fizemos "Equatorial", que depois voc� fez a letra.
N�s fizemos "Equatorial" nessa esquina aqui.
- � mesmo? Que legal! - Nessa esquina.
Eu n�o sabia que ela tinha sido composta aqui.
? Onde morre a trilha do meu sil�ncio ?
? Vou te buscar ?
Ah, que bacana, hein?
N�o tava previsto eu tocar viol�o, no meu schedule.
A� sobrou um viol�o na minha m�o, o que eu fa�o com ele? Toco, n�?
Ah, sei, entendi agora.
Eu n�o sei se � um d�.
Eu nunca tava em casa.
Sempre tava na esquina, tocando viol�o num lugar que a gente chamava de Clube Destino.
E a� teve um dia que passou um...
tava cheio de garotos e garotas na esquina
e eu, pra variar, tocando viol�o, tocando Beatles e Chico Buarque,
que era a minha especialidade, tocar Beatles e Chico Buarque,
a� passou um cara assim:
"� gente, vamo pra festa ali no O�sis."
O�sis � um clube aqui em Santa Tereza.
A� um menino falou assim:
"N�o, a gente n�o vai pro O�sis porque n�o tem dinheiro pra pagar ingresso pra uma festa."
"N�s somos duros, nosso clube � aqui na esquina, � o Clube da Esquina."
A� esse menino falou isso, Clube da Esquina,
a� eu j� falei "Clube da Esquina!", a� todo mundo: "Clube da Esquina!"
A� cheguei em casa e contei pra minha m�e, foi a primeira pessoa que contei.
Falei: "M�e, o lugar que a gente fica l� j� tem um nome, chama Clube da Esquina."
Ela atendeu o telefone e falou:
"O L� t� l� no clube dele, o Clube da Esquina."
Foi isso.
Agora, essa hist�ria Clube da Esquina j� tava t�o repertoriada aqui dentro de casa
que eu resolvi chamar a m�sica de Clube da Esquina
como uma private joke, como uma brincadeira interna nossa,
que s� n�s entender�amos o que era Clube da Esquina,
que n�o tinha nada.
E principalmente em refer�ncia ao L�,
porque tamb�m, naquele momento que eu vi o L� compondo com o Bituca,
tinha uma coisa tamb�m do L� n�o ser mais um menino,
j� tinha ido tomar uma batida com o Bituca.
E o Bituca que falou:
"Bicho, voc� j� percebeu que o L� n�o � mais um menino?"
Eu falei: "� verdade, cara, eu t� convivendo com ele todo dia."
Mas o Bituca levou um tapa quando o L� pediu uma batida de lim�o tamb�m.
"Por favor, uma batida de lim�o pra mim."
E ele chega e fala assim: "E outra pra mim."
Eu dei aquela olhada de irm�o mais velho, n�?
Mas o que eu vou fazer, n�?
Ficamos conversando, conversando.
A� o L� chegou pra mim e falou assim:
"Bituca, eu adoro as coisas que voc� faz,
"� um barato.
"Agora, eu tenho s� um problema:
"� que voc� e sua turma n�o gostam de mim."
Eu falei: "Mas como?"
"�, porque voc�s saem pelas noites e tal,
"todo mundo vai e ningu�m me chama."
A� eu falei: "Uai, L�, o neg�cio � o seguinte...
"sabe quando eu notei que voc� cresceu?
"Dez minutos atr�s, no m�ximo.
"Ent�o, vamos come�ar a fazer essas coisas que a gente n�o fazia, n�?"
A� ele falou:
"Tem umas coisas, Bituca, que eu componho..."
Eu j� fiquei assim, n�?
"S� que eu fa�o at� certa parte,
"o resto eu n�o costumo fazer."
A� eu falei:
"Vamo l� pra tua casa pra voc� tocar pra mim?"
Fomos.
De repente, ele come�ou a tocar...
Uma coisa assim e tal...
E eu falei: "Nossa, que coisa mais linda."
A� peguei meu viol�o e comecei a fazer outro solo
em cima daquele que ele tava fazendo.
E eu, como sempre, com a cabe�a pra baixo.
A�, uma hora, a gente parou,
eu olhei e tava o Marcinho Borges, sentado com um...
um caderno e uma caneta,
e a m�e deles, em p�, chorando.
A� nasceu "Clube da Esquina", a m�sica.
Em homenagem �...
� meninada toda, principalmente ao L�.
A� a minha ideia da letra foi exatamente situar essa coisa como um rito de passagem, n�?
O Clube da Esquina como um lugar onde os meninos viram homens.
Basicamente, a ideia que eu tinha na cabe�a era essa.
? Noite chegou outra vez ?
? De novo na esquina os homens est�o ?
? Todos se acham mortais ?
? Dividem a noite, a lua e at� solid�o ?
? Neste clube, a gente sozinha se v� ?
? Pela �ltima vez ?
? � espera do dia ?
? Naquela cal�ada, fugindo de outro lugar ?
? Perto da noite estou ?
? O rumo encontro nas pedras ?
? Encontro de vez ?
? Um grande pa�s eu espero ?
? Espero do fundo da noite chegar ?
? Mas agora eu quero tomar suas m�os ?
? Vou busc�-la onde for ?
? Venha at� a esquina ?
? Voc� n�o conhece o futuro que tenho nas m�os ?
? Agora as portas v�o todas se fechar ?
? No claro do dia, o novo encontrarei ?
? E no Curral del Rei ?
? Janelas se abram ao negro do mundo lunar ?
? Mas eu n�o me acho perdido ?
? Do fundo da noite partiu minha voz ?
? J� � hora do corpo vencer a manh� ?
? Outro dia j� vem... ?
Rolou uma festa aqui em casa.
A Leise, mulher do Fernando Brant, fazendo macarronada, n�o sei o que l�.
E gente entra pra l�, gente entra pra c�...
N�go tocando viol�o no quarto, n�go tocando piano no outro...
Aquelas coisas que tinha aqui em casa muito, n�?
E a� eu t� tocando piano
e ningu�m dando a menor bola pro que eu tava tocando, porque era uma festa, n�?
Rolando uma festa, ningu�m prestava a menor aten��o no que eu tava tocando.
A� teve uma hora que o Marcinho passou perto de mim e eu falei:
"Marcinho, acho que eu acabei de fazer uma m�sica aqui, presta aten��o."
A� o Marcinho falou assim: "P�, � uma m�sica muito boa."
- A� veio o Fernando, chamou... - A� o Fernando falou:
"Aproveita que tem dois letristas aqui em casa e vamo fazer logo essa m�sica."
A� voc� passou a� no come�o, apanhou n�s dois.
e contou a hist�ria, o que que era.
A� o Fernando � que tem esse neg�cio:
"Mas o que voc� estava pensando quando comp�s?"
O Fernando era bem assim, as letras dele, n�?
Fazia uma entrevista antes. Eu n�o, sa�a escrevendo.
Mas a entrevista do Fernando foi genial, porque o Lou falou:
"Eu tava aqui pensando: essa farra aqui em casa, cheia de m�sicos,
"todo mundo tocando,
"e eu tava aqui pensando nos Beatles,
"nos compositores dos Beatles, no Lennon e no McCartney,
"que jamais v�o saber que a gente adora eles e que a gente faz m�sica tamb�m."
O Fernando determinou, n�? "Ent�o vamo fazer sobre isso."
- �, foi super-r�pido. - O tema o Lou j� tinha dado,
ent�o vamo escrever sobre isso.
Vamo l�, Telo. Um, dois, tr�s, foi.
? Por que voc�s n�o sabem do lixo ocidental? ?
? N�o precisa mais temer, n�o precisa da solid�o ?
? Todo dia � dia de viver ?
? Por que voc� n�o ver� meu lado ocidental? ?
? N�o precisa medo, n�o N�o precisa da timidez ?
?Todo dia � dia de viver ?
Agora eu quero ouvir essa torcida forte dos Borges.
? Eu sou da Am�rica do Sul ?
?Eu sei, voc�s n�o v�o saber ?
? Mas agora sou cowboy ?
? Sou do ouro, eu sou voc�s Sou do mundo, sou Minas Gerais ?
Telinho, vamo repetir esse B a�.
? Eu sou da Am�rica do Sul ?
? Eu sei, voc�s n�o v�o saber ?
? Mas agora sou cowboy ?
? Sou do ouro, eu sou voc�s ?
? Sou do mundo, sou Minas Gerais ?
? Por que voc�s n�o sabem do lixo ocidental? ?
? N�o precisam mais temer ?
? N�o precisam da solid�o ?
? Todo dia � dia de viver ?
? Eu sou da Am�rica do Sul ?
? Eu sei, voc�s n�o v�o saber ?
? Mas agora sou cowboy ?
? Sou do ouro, eu sou voc�s ?
? Sou do mundo, sou Minas Gerais ?
? Por que voc�s n�o sabem... ?
? ...do lixo ocidental? ?
? N�o precisa mais temer ?
? N�o precisa mais solid�o ?
? Todo dia � dia de viver ?
Mais em cima agora.
? Por que voc� n�o ver�... ?
? ...meu lado ocidental? ?
? N�o precisa medo, n�o N�o precisa da timidez ?
? Todo dia � dia de viver ?
Diz a�, Torcida Organizada dos Borges!
? Eu sou da Am�rica do Sul
? Eu sei, voc�s n�o v�o saber ?
Vou brincar aqui.
? Mas agora sou cowboy ?
? Sou do ouro, eu sou de voc�s ?
? Sou do mundo, sou Minas Gerais ?
? Eu sou da Am�rica do Sul ?
? Eu sei, voc�s n�o v�o saber ?
? Mas agora sou cowboy ?
? Sou do ouro, eu sou voc�s ?
? Sou do mundo, eu sou Minas Gerais ?
Companheiros...
Acho que n�s tamo perdendo muito tempo aqui dentro.
A gente j� devia estar na rua.
E tamo aqui discutindo, batendo boca...
Discutindo cor de roupa
que n�s vamos usar ou deixar de usar.
Que � isso?!
Acho que essa reuni�o aqui � completamente in�til.
A gente devia terminar com ela agora e ir pra rua imediatamente.
� isso que eu acho.
Tem duas horas que eu t� aqui s� ouvindo bl�-bl�-bl� bl�-bl�-bl�.
- Alguma coisa desse tipo que eu falei. - Puta que pariu!
O Marcio t� atuando...
Eu sei que eu terminei a reuni�o, cara.
A Dilma � que lembrou disso.
Falou: "Marcinho, 'c� n�o lembra que 'c� terminou uma reuni�o?"
"Voc� teve um imp�" �, grande Mura!
- Beleza? - Grande Mura!
�i n�s aqui. Esse aqui � outro estudante daqui.
Eu me lembro muito bem que eu comecei na turma da pol�tica.
Eu era completamente um radical de esquerda, marxista, leninista, n�o sei o qu�.
Radical
A gente tinha que fazer a liga��o, comunicar aos outros col�gios, n�?
- Ah, �! Aham! - Das passeatas.
A� a gente saia, o �nibus de Get�lio Vargas passava aqui na frente.
A gente parava o �nibus, ia no spray e pichava o �nibus, n�?
"Passeata, 16 horas, Faculdade de Direito!"
- Era isso mesmo, era legal demais. - Era legal demais.
Movimento estudantil era maravilhoso.
Muita gente aqui foi pra luta armada, alguns morreram, n�?
- E muita gente... - Sa�da daqui.
- ... a arte aqui de dentro
era visto pelo grupo pol�tico, com frequ�ncia, como alienado.
N�s fomos movidos por duas coisas antes da m�sica.
A m�sica veio como consequ�ncia dessas coisas que a gente se envolveu incrivelmente,
que eram o movimento estudantil e o cinema.
Essas duas coisas tiveram maior import�ncia at� na est�tica das nossas m�sicas, n�?
Sem d�vida. O cinema, ent�o...
Ent�o acho que o Clube da Esquina � fruto do movimento estudantil e do cinema.
Aqui...
era o Cine Tupis,
onde eu assisti "Jules e Jim" com o Bituca pela primeira vez.
- E a�... - E eu assisti "Help!"
E viramos m�sicos, n�? Viramos compositores.
E a gente entrava nos cinemas do Centro de Belo Horizonte, tinha muita sala de cinema,
E a gente entrava da maneira mais inusitada.
Cada cinema, a gente inventava...
A gente procurava um pr�dio do lado que desse acesso.
A gente passava por uma janela, passava por cima do telhado,
A� a gente sa�a no banheiro das mulheres e, do banheiro, entrava na sala do cinema.
E as m�sicas de cinema...
L� em casa tinha muitas, n�?
Ent�o eu ia ver.
Meus pais adoravam m�sica de cinema, e eu tamb�m.
Ent�o o cinema sempre fez parte da minha vida.
Minhas m�sicas s�o sempre peda�os de filmes.
Uma das coisas que eu falei com o Bituca,
foi que eu achava que aquela amizade entre Jules e Jim
era o retrato da minha amizade com ele.
E o Bituca assinou embaixo
e falou: "� a nossa amizade. N�o parece n�o, � a nossa amizade."
"Vamo embora compor."
E da�, realmente, aquele filme
ajudou a solidificar e amalgamar a minha amizade com ele,
formou a minha amizade com ele, basicamente.
? "Um Girassol da Cor do Seu Cabelo" de L� Borges ? (L� Borges / Marcio Borges)
? Vento solar e estrelas do mar ?
? A terra azul da cor de seu vestido ?
? Vento solar e estrelas do mar ?
? Voc� ainda quer morar comigo? ?
? Se eu cantar, n�o chore, n�o � s� poesia ?
? Eu s� preciso ter voc� Por mais um dia ?
? Ainda gosto de dan�ar ?
? Bom dia, como vai voc�? ?
? Sol, girassol, verde, vento solar ?
? Voc� ainda quer morar comigo? ?
? Vento solar e estrelas do mar ?
? Um girassol da cor do seu cabelo ?
Ele estava deitado com a cabe�a no meu colo,
a gente tava num �nibus indo pra Nova Era,
que era a casa do tio Fernando e da tia Francisca, meus tios queridos.
Ele come�ou a ver o...
o c�u azul e o mar e o dourado e os raios do sol entrando no �nibus.
Era com aquela m�ozinha esquerda dele e tal.
A� terminou a m�sica e falou assim: "Aqui, �, botei a letra na m�sica do L�."
A� cantou pra mim.
A� eu falei: "Uau, que coisa mais linda. Canta de novo."
A� ele falou: "� pra voc�."
? O meu pensamento tem a cor de seu vestido ?
? Ou um girassol que tem a cor de seu cabelo? ?
? O meu pensamento tem a cor de seu vestido ?
? Ou um girassol que tem a cor de seu cabelo? ?
? O meu pensamento tem a cor de seu vestido ?
? Ou um girassol que tem a cor de seu cabelo? ?
Quando eu e o Bituca morava em Belo Horizonte,
eu falava que eu era o Miles Davis e ele era o Coltrane.
"N�o, eu sou o Miles."
Engra�ado que depois ele conheceu o Miles pessoalmente.
"Eu sou o Miles, Bituca. N�o, senhor."
"N�o, eu sou o Miles."
A gente ficava nessa, porque era o nosso grande...
Agora, esses caras escutavam muito o Miles Davis.
Eu n�o conhe�o nada do Miles Davis.
Conheci um dia, uma coisa que algu�m me mostrou de curiosidade.
Ele tocando uma m�sica, ele no palco...
A� a m�sica tocando ia ficando grande, grande, eu tava quase perdendo paci�ncia.
A� ele pega o trompete e t� assim...
D� uma nota, abaixa o trompete e fica olhando pro baterista.
A� o baterista faz um... Entendeu? Achei estranho.
Quer dizer, n�o conhe�o nada do jazz.
Entendo tudo que t�o tocando, tem hora que eu n�o entendo.
� tudo quebrado, � tudo pulando, ningu�m...
Eu realmente n�o...
Tem seu valor, � claro, n�o t� aqui desmerecendo, mas n�o � a minha praia.
Algumas coisas do Milton, fundamentalmente, ou do Toninho Morta,
t�m esses compassos compostos,
porque esses caras eram jazzmen tamb�m.
Wagner Tiso, Toninho Horta...
Milton Nascimento... Esses caras todos adoravam o Miles Davis,
adoravam o John Coltrane, adoravam essa turma da pesada,
das antigas, os mais modernos...
Esse povo foi criado ouvindo o melhor da m�sica universal.
Porque a maioria deles tamb�m adorava ouvir um Debussy...
Entende?
uma Su�te do Bach, uma coisa importante, erudita.
O erudita d� uma base s�lida pra compor.
Voc� tem um elemento forte de influ�ncia de composi��o.
Voc� tem influ�ncia do qu�?
Voc� tem influ�ncia do Chopin, a forma musical do Chopin,
e assim por diante, n�?
A forma��o musical do Ravel...
E a� vai, n�?
Pra compor e, no meu caso, pra fazer orquestra��o,
eu ouvia isso desde menino, n�?
Minha m�e era professora de piano,
chegou a dar umas aulinhas pro Bituca.
Eu estudava com ela no in�cio, depois eu parei tamb�m,
porque eu queria ficar descobrindo acorde, em vez de ficar tocando cl�ssico, n�?
Muita influ�ncia da fazenda,
muita influ�ncia do ramo cigano, do leste europeu, que a gente tinha.
A gente se reunia... Eu um pouco menos, porque era mais novo,
mas se reunia aqui assim em naipes de acordeons,
oito acordeons, violinistas, tocando pelas ruas e pela cidade.
Pegava trem de ferro que tinha naquela �poca,
parava nos lugares, a fam�lia descia,
e come�ava a executar qualquer coisa na esta��o, no centro da cidade.
Quando eu passei em Zagreb, em outros lugares do leste europeu,
eu via gente tocando violino na esta��o, com pandeirolas, com tudo.
Eu falei: "P�, minha fam�lia t� a�."
Foi o Loco que me trouxe um disco dos Beatles,
e eu com aquela cabe�a cheia de choro, m�sica cl�ssica, etc e tal,
quando eu escutei "I Should Have Known Better,"
tocou uma vez, eu estranhei, estranhei muito.
A� tocou a segunda, eu comecei a prestar aten��o,
a� eu falei: "Putz!"
A� eu deixei quieto. No outro dia, peguei o disco todo, escutei mais uma vez...
A� acabou, cara.
Ser� que eu mexi aqui? Se eu aumentar...
Vou solar s� quem �...
Outro dia, o L� teve aqui, a� eu falei: "P�, me deu saudade, sabe, daquela..."
A� eu fui pro computador ali e gravei o que a gente cantava.
E a gente era bem aplaudido, porque...
Era "I'll Be Back", que tem tr�s vozes.
Tem uma voz que fica parada, reta, e tem uma primeira e uma segunda.
Depois que ele me mostrou, ele n�o escutou tanto Beatles como eu escutava, entendeu?
Porque eu escutava e eu tirava tudo.
Eu escutava demais, eu era alucinado.
Eu pegava e escutava aquilo, era oito horas por dia, sabe?
Pegava uma m�sica e ficava tr�s, quatro horas tocando s� o baixo de uma m�sica.
At� tirar assim.
E a nota era d�, mas d� durava quanto tempo, entendeu?
Eu ia at� chegar no limite da precis�o de tirar as m�sicas.
Era um Beatles mineiro, n�?
Beatles de Minas Gerais.
� dif�cil, porque o Beatles tem muita qualidade.
Era importante que houvesse esse movimento em torno de Beatles e do rock,
pra ganhar o p�blico mesmo.
Bituca tava na turma do jazz, que �ramos n�s.
De repente ele viu os garotos... Beatles, n�o sei o qu� assim...
Ele viu um outro vento, uma outra hist�ria. A� ele: "Opa!"
["I'll Be Back" (Lennon / McCartney), por The Beatles]
A minha origem � tambor.
A minha vontade de tocar era tanta que comecei a invadir os terreiros.
Comecei a invadir os terreiros e pedia pra tocar e tal.
Um dia aconteceu assim, eu era bem pequeno...
Fui numa festa, todo mundo reclamando:
"Cad� o Nelson? Cad� o Nelson que n�o veio? Hoje em dia de festa aqui no terreiro."
A� eu falei: "Mo�a, eu sei tocar."
Ela falou: "Sabe nada, menino." Eu falei: "Eu sei tocar."
Porque de tanto ouvir os pontos dos Orix�s, tava tudo decorado.
? Quando Ogum partiu pra guerra, ele mandou orar orar, orar orar ?
? Orar orar, Oxumar�, orar orar, orar orar ?
? Quando Ogum partiu pra guerra, ele mandou orar orar ?
? �, morena, quem temperou? Cigana, quem temperou...? ?
Segundo ano: ? �, morena, quem temperou... ?
Terceiro ano: ? �, morena, quem temperou... ?
? �, morena, quem temperou? Cigana, quem temperou o cheiro do cravo? ?
Isso � rock n�o, n�? Isso � afro.
? �, morena, quem temperou? Cigana, quem temperou o cheiro do cravo? ?
? Ah, menina, quem temperou? Cigana, quem temperou a cor de canela? ?
? A Lua morena, a dan�a do vento O ventre da noite, o Sol da manh� ?
? A chuva cigana, a dan�a dos rios O mel do cacau e o Sol da manh� ?
? �, morena, quem temperou? Cigana, quem temperou o cheiro do cravo? ?
? Ah, menina, quem temperou? Cigana, quem temperou a cor de canela? ?
? A Lua morena, a dan�a do vento O ventre da noite, o Sol da manh� ?
? A chuva cigana, a dan�a dos rios O mel do cacau e o Sol da manh� ?
? Ah, morena, quem temperou? Cigana, quem temperou o cheiro do cravo? ?
Lembro que se construiu uma melodia modal, com tr�s acordes perfeitos:
D�, Sol, R�, uma coisa muito simples.
Voc� v� que � uma coisa assim, misturando o regionalismo com uma...
com uma identifica��o, uma influ�ncia at� do jazz.
Com essas melodias todas inusitadas.
Ent�o o Bituca sempre foi um craque nisso.
Ent�o j� tava pronto, eu s� simplesmente toquei.
N�o teve nada que eu tivesse criado.
�s vezes, na hora, a gente muda um pouco o dedilhado,
mas essa aqui nem teve como.
Essa foi colada mesmo.
Uma das coisas que estava na cabe�a da garotada era o rock progressivo.
Depois que o rock foi se desmembrando, tava vindo dos Beatles pra...
o rock entrando num lado pra m�sica pop,
mas o progressivo j� fazia uma fus�o com a m�sica erudita,
com a m�sica na frente.
E acho que isso influenciou todos n�s.
A gente descobriu o Genesis, eu e o Vermelho,
compramos um disco e ficamos loucos,
mostramos pro Beto e o Beto odiou
nos primeiros dois dias.
No terceiro dia, o Beto nos ligou, porque ele n�o parava de ouvir.
E o nome do primeiro filho dele � Gabriel, em homenagem a Peter Gabriel.
Quando ganhei o disco do Genesis, eu reuni a turma toda pra gente ouvir,
Porque levei um susto. Falei: "Caramba, parece que isso aqui � Minas Gerais."
O Genesis.
E era, s� que a gente n�o tinha ouvido a m�sica inglesa.
Veja s�!
Ent�o voc� pega o G�nesis, o Focus,
toda aquela... Yes, aquela turma, parece muito,
sem um ter ouvido o outro.
["Trem de Doido" (L� Borges / M�rcio Borges), por L� Borges]
? Noite azul ?
? Pedra e ch�o ?
? Amigos num hotel muito al�m do c�u ?
? Nada a temer ?
? Nada a conquistar ?
? Depois que esse trem come�a a andar, andar ?
? Deixando pelo ch�o os ratos mortos na pra�a ?
? Do mercado ?
? Quero estar onde est�o ?
? Os sonhos desse hotel muito al�m do c�u ?
? Nada a temer ?
? Nada a combinar na hora de achar o meu lugar no trem ?
? De n�o sentir pavor dos ratos soltos na pra�a ?
Eu falei: "L�...
"a gente vai fazer um disco que vai se chamar Clube da Esquina.
"Ent�o vamo resolver todo mundo que...
"que faz parte da vida da gente."
E a� chamou o Beto Guedes,
Toninho Horta e mais uma por��o de gente.
Wagner Tiso, todo mundo, etc.
E eu cheguei l� na Odeon e falei pra eles:
"Olha, a gente vai gravar um disco duplo
"e vai se chamar Clube da Esquina."
A� o pessoal da Odeon falou:
"N�o, n�o vai, n�o, porque tem um rapaz a� que ningu�m conhece
"e voc� n�o � esses caras que vendem
"isso ou aquilo, n�o sei o qu�, outra coisa."
A� eu falei com eles:
"Bom, se voc�s n�o querem, muito bem,
"eu vou procurar outra gravadora para fazer."
A� tinha um cara l� na Odeon
que, entre as v�rias coisas que a gente chamava ele, era o Pai dos M�sicos.
Que � o Adail Lessa.
E a�, o Lessa foi falar com os diretores da Odeon
e falou assim: "Olha, os meninos s�o bons, deixa eles gravarem."
De repente, juntou todo mundo no Clube da Esquina.
Acho que o resultado sonoro,
al�m da diversidade, de influ�ncia musical de cada um,
o background que cada um tinha,
acho que foi muito pela...
As m�sicas sa�ram com caracter�sticas muito pessoais,
por ex., a gente gravava de manh� e de tarde.
Quem chegava mais cedo, gravava a primeira m�sica.
A� um n�o tinha tomado caf� da manh�, descia pra tomar caf�.
A� chegava um outro, entendeu?
Ou tinha uns que chegavam meio-dia e j� ficavam l�,
ou pra tomar o caf� da manh� e subir,
ou pra tomar um chope e j� ficar, e vir l� no final da tarde.
Ent�o a gente n�o tinha muito crit�rio de hor�rio,
quem ia, quem ia chegar.
Ent�o, �s vezes faltava baixo, o Beto Guedes pegava o baixo,
�s vezes faltava... Eu toquei muitas m�sicas de baixo.
P�, eu n�o queria pensar se t� me chamando ou se n�o t�, entendeu?
Eu falo: "Pera a�. P�, t� faltando aquilo ali." A� eu ia l� e pegava.
N�o tinha medo, receio de...
de pegar uma percuss�o e tocar perto do Robertinho Silva, entendeu?
Eu n�o tinha que ler nada, ningu�m tinha que ler nada,
ent�o eu j� falava, t� todo mundo igual a mim aqui, entendeu?
As pessoas chegavam j� no est�dio cheias de ideias, todos eles,
Reunia aquele mundo todo de gente,
e era uma confus�o, que o Beto tocava baixo numa e o Toninho bateria.
Depois, o Toninho tocava baixo e o Beto bateria.
Na hora, todo mundo ficava em volta do t�cnico,
"Aumenta a guitarra," "abaixa o baixo," "bota um reverb na voz."
Eu e o Beto adorava tamb�m mexer nos bot�es.
Adorava o fade-out, fazer aquela musiquinha abaixando.
Tinha que ser no bot�o, ent�o n�o era nada autom�tico, era tudo manual mesmo.
Terminava a grava��o... V�rias vezes, terminava a grava��o,
a gente tirava todas as coisas e fazia uma festa, ficava dan�ando.
Passava a noite dan�ando dentro da gravadora.
Ah, �? � essa mesmo?
Voc� sabe as notas dessa a�?
D�, Mi bemol, F� sustenido, L�.
D�.
L�, D�.
Vamos do in�cio, n�?
� melhor eu atacar a partir da�,
porque se n�o fica besteirol pra l� e pra c�, um vai ou fica.
Fique livre, � vontade.
Fale assim: "Eu n�o quero tocar agora," "agora eu quero."
N�o, a� eu vou ficar quieto. � um vai ou fica danado.
Isso antigamente, n�?
Vai direto.
Cad� os pratos, nem trouxe, n�?
Faz o final, esse final dos pratos pra entrar no...
N�o, mas a� ainda vai voltar o tema, n�?
Foi o solo que eu fiz l�, mas foi uma coisa muito natural.
Ele falou pra fazer um solo,
a� eu n�o gostei do solo que eu fiz, porque eu n�o tinha...
Eram, sei l�, 16 compassos de m�sica.
A� o que que eu fiz? Eu misturei um pouco de caracter�sticas.
Por exemplo, eu fiz...
Oitava, que o Wes Montgomery fazia, que a gente j� ouviu.
A� eu usei muita ter�a, por exemplo.
Que s�o coisas mais de violeiro caipira.
Ent�o o solo � misturado de single note, com as oitavas e com as ter�as.
Ent�o, assim, foi uma sorte. Quando foi...
Eu falei, n�o, me d� uma chance pra fazer...
Ele falou: "S� n�o pode ficar fazendo muito tempo,
"s� te dou mais uma chance, porque s� tem dois canais."
Ent�o tem que gravar, depois junta tudo num canal pro Bituca fazer a voz.
E no final foi ficando...
A gente vai ficando mais serelepe, mais alegre.
O final, n�?
Que � a coisa de conclus�o, n�?
Voc� v� como a frase �.
De fechamento mesmo.
Ent�o o solo tinha uma hist�ria bacana, que eu sempre gostei.
Hoje eu nem lembro mais dessa hist�ria, mas s� sei que o solo virou.
["O Trem Azul" (L� Borges / Ronaldo Bastos), por L� Borges]
Viajei muito com o Bituca de trem pra l� e pra c�.
De carro, de n�o sei o qu�. A gente...
? Voc� pega o trem azul O Sol na cabe�a ?
? O Sol pega o trem azul Voc� na cabe�a ?
"O Trem Azul" me deu muito problema na �poca,
porque as pessoas come�aram a achar que era �cido.
Ent�o os malucos come�aram a bater � porta.
Pra saber: "E assim, quem que tem �cido?"
Eu falava: "P�, eu n�o tenho �cido."
Falando sobre o Clube da Esquina, ele � muito facetado.
As m�sicas foram feitas por v�rias pessoas.
E eu digo assim: p�, tem horas que eu acho que essa m�sica � minha.
E � como se fosse mesmo, sabe?
Eu amo todas as m�sicas desse momento, como se fossem minhas.
Pra mim, n�o... Sabe?
�... Sei l�.
N�o sei se isso acontece pra todo mundo, eu acredito que n�o.
Mas a minha ideia do Clube da Esquina � que a gente tem uma coisa coletiva,
mas ao mesmo tempo sem ter que amarrar.
Robert Crumb era genial, n�?
Aqueles desenhos dele com aquele pez�o assim.
Keep on Truckin'.
Keep on Truckin'. Adorava ele.
Ent�o � o seguinte...
No meio dessa turma toda a�:
Milton, L�, Beto, Toninho, Wagner, Nivaldo, Nelsinho �ngelo, todo mundo, n�?
- Fl�vio Venturini. - Fl�vio Venturini.
Quer dizer, os caras, cada um tem a sua digital, a sua identidade,
e o tipo de m�sica que � de cada um mesmo.
N�o tem mistura.
Essa diversidade foi extremamente rica pra que voc�s tamb�m
encontrassem modos diferentes de compor pra cada um.
Essa coisa da amizade da gente, que � uma coisa factual,
gerou tamb�m uma entidade que n�s criamos subterr�nea,
chamada Socorros Costa.
A� eu: "abelha fazendo mel, vale o tempo que n�o voou,"
"o destino que se cumpriu, de sentir seu calor e ser tudo."
"� isso a�, � isso a�, t� pronto!"
Ent�o eu contribu� com esses versos, mas s�o aqueles versos que n�o merecem coautoria.
Foram feitos de generosidade de um amigo pro outro, entende?
A� criamos essa situa��o com o Murilo,
outras m�sicas do Murilo, o Murilo completou com versos meus,
eu completei versos do Murilo com versos meus,
o Murilo completou versos do Ronaldo com versos dele.
E a� criamos entre n�s tr�s essa coisa, essa institui��o do Socorros Costa.
O Fernando n�o participava do Socorros Costa.
- �, o Fernando falava comigo. - �, ele n�o participava.
Porque o Fernando n�o deixava buraco, n�? Ent�o n�o precisava.
N�o precisava de socorro.
A� peguei um �nibus pra Belo Horizonte, fomos pra um boteco,
falei: "Fernando, tem uma coisa pra voc� fazer."
Ele: "Mas o qu�?"
Eu falei: "Uma letra pra uma m�sica minha."
"De jeito nenhum! Eu gosto muito de suas m�sicas, eu gosto de tudo, etc. e etc.,
"mas eu n�o mexo com m�sica.
"Como � que vou fazer? Eu n�o mexo com isso, n�o sei fazer."
"Voc� sabe. Se n�o sabe, vai aprender."
E ficou aquele neg�cio, n�s discutimos a noite quase que inteira.
A� uma hora ele chegou e: "E se n�o ficar boa?"
"Voc� faz a m�sica, e se a letra n�o ficar muito boa, tudo bem.
"Vai ser a m�sica que n�s vamos cantar pras bebedeiras, n�?"
A� voltei pra S�o Paulo.
Passei um tempo l�, a� voltei pra Belo Horizonte, chegamos l� no boteco,
tava a turma toda reunida assim, e o Fernando com uma folha na m�o.
"E o que � essa folha a�, Fernando?"
"N�o, n� nada n�o."
Eu falei: "Uai, que n�o � nada?! Se t� na tua m�o � porque � alguma coisa."
Eu tinha esquecido at� do neg�cio da "Travessia", n�?
A� ele falou: "Toma."
E saiu morrendo de vergonha, foi pro banheiro, sei l� o qu�.
E a� eu peguei a letra, achei demais,
mas eu n�o queria falar pra ele que tava demais, n�?
Eu falei: "Fernando, n�s precisamos de um viol�o, uma coisa pra ver se t� tudo certo."
Claro que tava!
Eu melhorei muito depois do Fernando, isso eu confesso.
O Fernando tinha uma espontaneidade, n�?
O Fernando tinha uma genialidade de escrever simples. Espont�neo e simples.
Era tudo que eu tentava e n�o conseguia, n�, cara?
A� eu j� tinha umas 15 m�sicas com o Bituca
quando o cara me apresenta a "Travessia", cara.
A� ele pegou minhas 15 m�sicas e jogou no lato de lixo,
embolou e: "Comece de novo, velho."
Vamos fazer um brinde ao Fernando.
- Vamos fazer. - Isso! - Fernando Brant!
- Beleza pura! - Fernando Brant!
Um craque!
Eu escrevi um poema uma vez pro Fernando Brant...
Tem uma religiosidade, em Minas Gerais tem uma religiosidade,
n�o � nem catolicismo, nem nada,
que passa pra m�sica da gente.
N�o � m�sica religiosa, � m�sica que tem uma religiosidade.
"Paix�o e F�", o refr�o,
o Fernando falava que tinha escrito esse refr�o como se fosse uma cantoria popular.
"Velejar, velejei."
E a outra parte, n�o, a outra parte � um coment�rio mesmo, uma cr�nica at�, n�?
Que ele fala "j� bate o sino" e tal.
Descrevendo mais ou menos a prociss�o, n�?
Beto Guedes que faz o bandolim da introdu��o, ali�s, toca a m�sica toda no bandolim.
["Paix�o e F�" (Fernando Brant / Tavinho Moura)]
? Velejar, velejei No mar do Senhor ?
? L� eu vi a f� e a paix�o ?
? L� eu vi a agonia da barca dos homens ?
? J� bate o sino, bate no cora��o ?
? E o povo p�e de lado a sua dor ?
? Pelas ruas capistranas de toda cor ?
? Esquece a sua paix�o para viver a do Senhor ?
? Velejar, velejei ?
? No mar do Senhor ?
? L� eu vi a f� e a paix�o ?
? L� eu vi a agonia da barca dos homens ?
? Velejar, velejei ?
? No mar do Senhor ?
? L� eu vi a f� e a paix�o ?
? L� eu vi a agonia da barca dos homens ?
Um, dois, tr�s, quatro.
Um, dois, tr�s, quatro, cinco.
Eu, de brincadeira, costumava dizer que a m�sica � mineira assim.
Voc� v�, vai encaminhando.
Um, dois, tr�s, quatro.
Um, dois, tr�s, cai no buraco.
Um, dois, tr�s, quatro.
Um, dois, tr�s, quatro, cinco, caiu no buraco de novo.
Eu tirava o p� do pedal e os caras falavam:
"P�, o Robertinho � malandro."
"Ele para o pedal na hora que tem o compasso composto."
Se voc� botasse esse metr�nomo rel�gio,
uma m�quina contando exatamente a mil�sima de segundo.
o mil�simo de segundo, pelo amor de Deus,
n�o tem santo que aguenta.
A gente atrasava, adiantava um pouquinho, atrasava...
Mas tudo um pouquinho, ent�o...
Como a gente anda. A gente n�o anda...
Sabe? Assim...
Com os passos cravados assim.
Sem sair um mil�simo de segundo, n�?
Isso n�o existe.
As coisas s�o flutuantes, s�o soltas.
Voc� v� que � o contorno das montanhas de Minas.
Ent�o, todas as melodias dos mineiros s�o assim,
com intervalos longos.
N�o tem mar l�, ent�o � tudo montanha e tal, por isso que tem esses intervalos grandes.
E cada um coloca a harmonia dentro do seu background de conhecimento.
Ent�o, varia de um para o outro,
mas todos eles t�m melodias acentuadas.
Isso n�o existe nos compositores em geral no Brasil.
Isso � uma caracter�stica da m�sica de Minas Gerais.
["Clube da Esquina n� 2" (M. Nascimento / L. Borges / M. Borges)]
? Porque se chamava mo�o, Tamb�m se chamava estrada ?
? Viagem de ventania ?
? Nem lembra se olhou pra tr�s Ao primeiro passo-asso-asso... ?
? Porque se chamavam homens, Tamb�m se chamavam sonhos ?
? E sonhos n�o envelhecem ?
? Em meio a tantos gases lacrimog�nios Ficam calmos, calmos, calmos... ?
? E l� se vai mais um dia ?
? E basta contar compasso ?
? E basta contar consigo ?
? Que a chama n�o tem pavio ?
? De tudo se faz can��o ?
? E o cora��o na curva de um rio, rio, rio... ?
? De tudo se faz can��o E o cora��o na curva de um rio, rio, rio... ?
? E l� se vai mais um dia ?
? E o rio de asfalto e gente Entorna pelas ladeiras ?
? Entope o meio-fio ?
? Esquina mais de um milh�o Quero ver ent�o a gente, gente, gente... ?
Eu costumo dizer que eu conheci primeiro a voz do Bituca.
Minha m�e pediu pra eu comprar p�o e leite,
pro caf� da tarde,
e a� eu t� descendo os 17 andares
e, a medida que eu ia, quanto mais eu descia, mais eu me aproximava de um som.
Um falsete e um viol�o, uma coisa assim... o canto da sereia.
A� de repente eu cheguei no quarto andar,
e me deparei com um neguinho, jovem, magrinho, tocando viol�o.
A� eu parei diante do cara
O cara parou um pouco de tocar o viol�o.
Eu lembro que at� falei: "N�o para, n�o, que t� lindo."
Era o Bituca.
Quando eu me dei conta,
o p�o que eu ia comprar pro caf� da fam�lia tinha ido pro saco j�.
Eu falei: "Nossa, minha m�e deve estar louca comigo, espero eu voltar
"e eu aqui com esse cara na escadaria, ele tocando viol�o e a gente conversando."
Legenda: Lucas Gabriel
? Eu j� estou com o p� nessa estrada ?
? Qualquer dia a gente se v� ?
? Sei que nada ser� como antes amanh� ?
? Que not�cias me d�o dos amigos? ?
? Que not�cias me d�o de voc�? ?
? Alvoro�o em meu cora��o ?
? Amanh� ou depois de amanh� ?
? Resistindo na boca da noite um gosto de sol ?
? Num domingo qualquer, qualquer hora ?
? Ventania em qualquer dire��o ?
? Sei que nada ser� como antes amanh�
? Que not�cias me d�o dos amigos? ?
? Que not�cias me d�o de voc�? ?
? Sei que nada ser� como est� ?
? Amanh� ou depois de amanh� ?
? Resistindo na boca da noite um gosto de sol ?
? Num domingo qualquer, qualquer hora ?
? Ventania em qualquer dire��o ?
? Sei que nada ser� como antes amanh� ?
? Que not�cias me d�o dos amigos? ?
? Que not�cias me d�o de voc�? ?
? Sei que nada ser� como est� ?
? Amanh� ou depois de amanh� ?
? Resistindo na boca da noite um gosto de sol ?
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