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Original subtitles

UM VER�O ESPECIAL

ARGUMENTO

PRODU��O

REALIZA��O

Este rapaz, o meu bisav�, Emmanuel Sonnenschein,

tinha apenas 12 anos quando deixou a sua aldeia,

no Imp�rio Austro-H�ngaro.

Teve de arranjar trabalho para sustentar a m�e e o irm�o,

pois o seu pai, dono da taberna da aldeia,

morreu durante uma explos�o na sua destilaria.

Sammy! Emmanuel!

Aaron!

O dono da taberna era muito querido na sua aldeia.

O seu t�nico, destilado de ervas locais,

ajudou muitos dos seus vizinhos a recuperar sa�de.

A receita secreta do t�nico, escrita num livro de capa negra em tecido,

foi encontrada no meio do cascalho.

O livro negro de apontamentos, escondido no forro do casaco dele,

foi a heran�a do meu bisav�.

Emmanuel arranjou um trabalho numa destilaria de Budapeste,

onde trabalhou horas sem fim.

Aos 25 anos, tinha constru�do a sua pr�pria casa e destilaria.

Ele fermentou o t�nico de ervas seguindo a receita do seu pai.

Chamou-lhe "Sabor da Luz do Sol", usando o nome da nossa fam�lia.

Sonnenschein significa "luz do sol".

Em breve, Emmanuel casava com Rose Deutsch.

Tiveram dois filhos, o meu tio-av� Gustave e Ignatz, o meu av�.

O "Sabor da Luz do Sol" foi um sucesso imediato.

Quando o irm�o mais novo de Emmanuel morreu,

ele e Rose adoptaram a filha �rf� do seu irm�o, Valerie,

a minha av�.

Boa noite, querido.

Bons sonhos e, amanh� de manh�, acordar�s feliz, saud�vel e a sorrir.

Deus te aben�oe. Boa noite.

Um, dois, tr�s, quatro.

Gustave!

A minha av� Valerie foi educada como irm� de Ignatz e Gustave.

Valerie desenvolveu uma paix�o pelo mais recente milagre do mundo,

a fotografia.

Ignatz decidiu estudar Direito e Gustave Medicina.

Nenhum dos filhos de Emmanuel tinha interesse

em continuar o neg�cio da fam�lia.

O meu bisav� n�o se importava.

Ele orgulhava-se dos seus filhos e das suas ambi��es.

Todos! Olhem para aqui!

Tenta afastar-te da �rvore.

Espera... Vai um pouco para tr�s.

Chega-te para tr�s.

Um pouco mais.

Agora, para a direita. S� um pouco.

Isso... P�ra!

N�o te mexas.

Minha irm�zinha, gosto muito de ti.

Tamb�m gosto muito de ti.

Gosto de ti de um modo diferente do Gustave e dos pais.

Eu tamb�m gosto de ti de um modo diferente.

Sinto muito a tua falta quando vais para as aulas.

- Ainda bem que est�s em casa. - Em breve volto para Viena.

- Leva-me contigo. - F�-lo-ei.

N�o as plantou? Floresceram sozinhas?

� verdade. Esta manh�.

Sr. Sonnenschein, � um milagre. Um verdadeiro milagre.

Podem tirar a cadeira?

Onde est�o eles?

Por a�, provavelmente a beijarem-se.

- Gustave! - Que est�s a dizer?

Sugiro que procurem nos Jardins do Museu. Costumam ir para l�.

Desculpem o atraso.

Esta sopa est� salgada.

O cozinheiro deve estar apaixonado.

- Devias ter feito tu a sopa. - Que queres dizer com isso, Gustave?

Tu e o Ignatz a beijarem-se ontem nos Jardins do Museu.

- E na Ter�a. - Enlouqueceste?

Por favor, n�o chores, Rose. Pe�o-te.

Vem comigo... Agora.

Pro�bo-te.

Deus Todo Poderoso criou a Natureza e as suas leis

e essas leis pro�bem o casamento entre irm�os.

Mas n�s n�o somos irm�os. Somos primos.

Eu tinha uma prima que amava...

...Sarah Bettelheim.

O nosso av� proibiu-nos de casar.

Disse que havia maldi��o no casamento entre pessoas com o mesmo sangue.

Eu amo a Valerie. Quero casar com ela.

"Quero" n�o � palavra para n�s, Ignatz.

Deus "quer", n�s "desejamos".

Temos de obedecer o que Deus quer que fa�amos. Eu obedeci.

Deus quer que vivamos sem poder e lux�ria,

duas coisas que podem levar-nos a destruir os outros e depois a n�s.

E, em troca, ele d�-nos conhecimento

e a capacidade para ler e interpretar.

E d�-nos amor familiar.

Amo-te. Amar-te-ei para sempre, porque �s minha irm�.

Nunca te abandonarei, como teu irm�o. N�o era capaz.

N�o me ames por obriga��o, Ignatz. N�o foi assim que a tua m�e me educou.

Sim, mas h�s-de casar, ter�s filhos e seremos sempre amigos.

N�o desistas de mim assim.

N�o te rendas a eles como um rapazinho bem comportado.

Tenho de ir.

Eu escrevo-te.

N�o, n�o escrevas,

a n�o ser para me dizeres que me amas a mim e n�o � tua irm�.

"Querido, estou num estado horr�vel. N�o paro de ouvir o que me disseste.

"Quando voltaste para Viena, chorei e vomitei durante a tarde toda.

"N�o deixo de sentir que te fartaste de mim, que me achas feia e est�pida.

"E tenho de ver-te, tenho de falar contigo,

"tenho de saber se deixaste mesmo de me amar,

ou se est�s apenas a obedecer aos nossos pais."

"Para qu� amares-me como irm�? Eu moveria montanhas por ti.

Estou apaixonada por ti."

Em Viena, Ignatz releu a carta de Valerie dezenas de vezes,

mas manteve a promessa que fez ao pai e nunca respondeu � sua prima.

Ignatz devotou-se aos estudos,

mas ficava acordado todas as noites, a sonhar apenas com a Valerie.

Sr. Sonnenschein, Miss Sonnenschein est� aqui para falar consigo.

Pode deixar aqui o seu guarda-chuva.

Quando estou nos teus bra�os sinto-me como se tivesse regressado a casa.

Como se tivesse regressado a casa, finalmente.

Tenho de fazer chichi.

Tamb�m eu.

Quando acabou os estudos,

Ignatz regressou a casa, em Budapeste, para junto da fam�lia.

Para Emmanuel, o meu av� Ignatz era a maior concretiza��o da sua vida.

Senhoras e senhores, apresento-vos o Dr. Ignatz Sonnenschein.

Doutor em Direito no Imp�rio Austro-H�ngaro e no Reino da Hungria,

que regressou atenciosamente a casa para viver connosco.

Depressa, filho. A tua m�e est� � espera.

Pedimos a Deus Todo-Poderoso para te aben�oar, meu filho.

Tamb�m lembramos, com gratid�o, o meu querido pai,

que descanse em paz, que faleceu num tr�gico inc�ndio,

mas deixou-nos o conhecimento que permitiu � fam�lia Sonnenschein

passar de propriet�rios de uma taberna de aldeia para advogados da cidade.

Estamos-te gratos, Deus Todo-Poderoso,

por teres poupado o livro de receitas do meu pai para o seu t�nico de ervas.

E agora, Sra. Sonnenschein, fa�a o favor.

Na noite passada, sonhei que t�nhamos perdido a receita.

- O que aconteceu, pai? - Meu Deus!

Estava num barco, � deriva. Voc�s estavam todos comigo.

O barco come�ou a balan�ar e eu sentei-me no meio,

para estabilizar o barco.

Uma onda enorme passou por cima de n�s e o livro de receitas desapareceu.

Foi apenas um sonho, pap�.

Por favor, meu Deus, que continuemos sempre a cantar.

"Jus primae nocti"...

Invoco o direito da primeira noite.

N�o tenhas medo...

J� estamos condenados ao inferno. Mais vale termos o proveito.

O sucesso depressa chegou para o meu av�.

Ele tornou-se um juiz, realizando um sonho de crian�a.

Em nome do Imperador, declaro aberta a sess�o.

Quando julgares algu�m, n�o esque�as quem �s.

E para te ajudar a lembrar...

...eis o rel�gio do teu av�.

� o rel�gio de um taberneiro de aldeia.

Agora � teu.

E isto...

...� para a tua secret�ria.

"N�o tomes nada por verdadeiro. V� tudo por ti pr�prio.

� este o conselho do teu pai."

O que foi?

Estava a pensar como seria fazer amor com um Juiz da Comarca.

Est�s a julgar um juiz? Qual o veredicto, por favor?

O juiz � um homem "duro".

As suas senten�as s�o frequentemente "firmes".

Mas sempre apaixonadas.

E o veredicto � uma senten�a de pris�o perp�tua.

Entre, Sonnenschein. Entre.

Sente-se.

- Quer um charuto? - N�o, obrigado.

- N�o fuma? - Sim, fumo.

Ent�o, tome um charuto. Aceite, por favor.

Todos... falam muito bem de si.

Dizem que � incorrupt�vel e bastante culto.

Estamos a consider�-lo para o Tribunal Central.

� uma honra, senhor, mas n�o serei um pouco novo?

N�o, de modo nenhum.

Tenho de ser franco consigo. Espero que o que vou dizer n�o o ofenda.

N�o � poss�vel o Tribunal Central ter um juiz-presidente

com um nome como Sonnenschein.

Gost�vamos de promov�-lo. Confiamos em si. Precisamos de si.

Mas ter� de mudar o seu nome para outro mais h�ngaro.

Estou a ver...

� claro que isto � apenas um conselho amig�vel, de homem para homem,

e n�o um pedido oficial. - Sim, � claro.

Afinal de contas, a decis�o tem de ser sua.

Obrigado. Sinto-me honrado.

Em que pensas logo, assim que ouves o nome "Sonnenschein"?

No meu amante.

- Sup�e que n�o era eu. - Ent�o em mim.

E se for algu�m que n�o � da nossa fam�lia?

- Algu�m judeu? - N�o necessariamente.

H�ngaro, n�o. De certeza.

O presidente disse-me que tenho de mudar o meu nome para outro mais h�ngaro,

se quiser ser juiz do Tribunal Central.

Que vais fazer?

N�o chores, por favor. Pe�o-te.

Isto significa que tencionas abandonar a f�?

N�o, pai. � claro que n�o. Nunca o faria, juro-te.

Nem eu.

Tamb�m queres mudar o teu nome?

Sim, pap�, quero.

E tu?

Muitos outros jovens m�dicos j� o fizeram.

N�o s� judeus, mas tamb�m eslovacos, s�rvios...

Estou a ver...

Os nomes n�o s�o atribu�dos por Deus.

Posso servir-me pela segunda vez, Sra. Sonnenschein?

Est� muito bem confeccionado.

E que tal Solyom?

"Sors". Descobri. Sors. Significa o mesmo em Latim e em H�ngaro.

Profecia, des�gnio, destino, dever...

Doutor Gustave Sors. N�o podemos escolher um nome mais vulgar?

Sors � perfeito.

O Ministro do Interior aprovou a sua candidatura.

O nome Doutor Ignatz Sonnenschein � alterado para Doutor Ignatz Sors.

Por favor, assine a declara��o.

Dr. Gustave Sonnenschein, o seu nome � agora Dr. Gustave Sors.

Valerie Sors...

- Desculpe. - Risque e volte a assinar.

Boa tarde, Doutor.

Vamos ter um beb�.

Mas tu �s minha irm�...

N�o sou tua irm�. Sou tua prima.

A minha m�e mata-me.

A mim tamb�m.

Amo-te muito.

- Desculpem o atraso. - Chegas sempre atrasado.

Minha querida m�e e pai, tenho uma informa��o a dar.

Estou a pedir a m�o da Valerie em casamento.

Segundo a lei, n�o estamos a fazer nada ilegal.

Estamos apaixonados um por o outro, como homem e mulher, h� anos

e os nossos sentimentos n�o t�m diminu�do durante...

Ela s� desmaiou, pai. Vai ficar boa.

Achas que a tua noiva podia dar-me uma "m�ozinha"?

Um copo de t�nico de "Luz do Sol", por favor.

Tome. Beba isto.

N�o sei o que fazer...

Eu disse-te para n�o a acolheres, mas tu insististe.

"A �nica filha do meu irm�o � �rf�, � nossa responsabilidade."

Agora, a tua responsabilidade � para com a tua fam�lia.

- Agora, insisto. Tirem-na desta casa! - Est� calada.

Por que devo estar calada na minha pr�pria casa?

- Cai em ti e pro�be-os de o fazerem! - N�o adianta proibi-los.

Os nossos filhos n�o est�o interessados em avisos do meu av�,

nem mesmo numa maldi��o de Deus.

Interessar-lhe-� a minha maldi��o.

Amaldi�oo-a! Que o seu ventre seque! Que nunca possa ter filhos!

O que queres de mim?

Quero que a m�e dos meus filhos compreenda os meus filhos.

- Ela n�o � tua filha. - P�ra com isso!

Se n�o calas essa boca, eu calo-a por ti!

Talvez possas falar com a tua Sarah Bettelheim assim, mas comigo n�o.

Comigo n�o!

Sou a tua mulher!

Ventos primaveris sopram nos mares.

Flor, minha querida flor.

- Nunca te perdoarei. - Porqu�?

Por casares com ele e n�o comigo.

O meu bisav� Emmanuel lembrou-se de uma tarde,

em que tamb�m ele esperava uma grande felicidade

quando pediu a seu pai permiss�o para casar com a prima, Sarah Bettelheim.

Mas a permiss�o foi recusada

e, desde ent�o, Emannuel n�o permitiu qualquer felicidade na sua vida.

Sempre que a alegria se aproximava, Emmanuel logo se interrogava:

"Qual ser� o fim disto? Que pre�o terr�vel terei de pagar? "

Olhem para aqui!

Ilustre Ministro, deixe-me apresentar-lhe o Dr. Ignatz Sors.

- Sim. O seu novo favorito. - Um jovem juiz muito promissor.

- O prazer � meu. - Ministro...

Presumo que leu o jornal esta manh�?

Dois membros do gabinete do Primeiro-Ministro foram acusados

de vender informa��o a especuladores imobili�rios.

Posso garantir-lhe que � um acto pol�tico nojento da oposi��o.

Daquilo que li, existem tr�s pontos no caso que acho... intrigantes.

Acha que os cavalheiros s�o culpados?

Perd�o, mas se alguma prova aparecesse no Tribunal,

nada podia ser feito, excepto... - Excepto?

Senten�as severas para todos eles.

Que aconselharia?

O caso pode ser devolvido � acusa��o para mais investiga��o,

a fim de assegurar que nenhum pormenor passe despercebido.

Pode ser um processo que consumir� muito tempo.

� um jovem inteligente, Sors. Invejo-o.

Mais outro assunto. Cinco ju�zes est�o prestes a reformar-se.

Precisamos depressa de substitutos. Gostaria de recomenda��es suas.

Jovens que pensam como voc�.

Achas-te esperto, n�o achas?

- Sim, acho que sim. - Est�s a agir como um cobarde.

Est�s a ajud�-los a encobrir o caso.

Acho que a oposi��o est� a tentar deitar abaixo algu�m muito importante.

No que me diz respeito, podem deitar todo o Governo abaixo!

N�o v�s que a corrup��o est� mesmo no centro da monarquia?

N�o. No centro est� um liberal,

um governante justo que tem mantido a paz entre pessoas muito diferentes.

O imperador tem uma vida de sabedoria por tr�s dele.

E tamb�m uma vida de opress�o!

Talvez isso por vezes fa�a parte da sua sabedoria.

Diz isso �s suas v�timas. Meu Deus! Ignatz, est�s a vender a tua alma.

- A quem est�s a tentar agradar? - Agradar?

Comecemos por ti e pelo teu simples cora��o h�ngaro.

Tenho de agradar � nossa fam�lia, � mem�ria do nosso av� Rabi

e � sua aben�oada Tora...

...ao imperador, ao esp�rito liberal, ao Direito Romano.

Tenho de agradar ao Governo e � oposi��o.

E o meu sentido de justi�a?

Tenho de agradar ao nosso irm�o que quer virar o mundo do avesso!

E o nosso pai, que quer manter o mundo exactamente como est�!

S�o estas as pessoas a quem tento agradar!

Queres ir apanhar ar, minha querida?

O s�culo XIX acabou. Viva o s�culo XX!

Feliz s�culo XX, mam�.

� o teu pai quem fala.

Ouves-me? Viva o s�culo XX.

Prevejo que este s�culo ser� de amor, justi�a e toler�ncia.

Desde que tenhamos sa�de, conseguimos resolver o resto.

Feliz s�culo XX!

Desejo-vos felicidade, para sempre.

- Que a crian�a seja forte e saud�vel. - Obrigada, mam�.

Dois dias depois, Valerie deu � luz o primeiro filho, Istvan.

� um rapaz. � um rapaz saud�vel.

Est� tudo bem, Rose.

Est� tudo bem.

- A maldi��o, Emmanuel? - O beb� � perfeito.

Meu caro Conde, apresento-lhe o Juiz Sors.

J� falei dele muitas vezes.

Sim, o homem que tem um canto no seu cora��o.

- O prazer � meu. Sou Forgach. - Ignatz Sors.

� um homem de ca�a?

- Creio que n�o. N�o. - Depressa se habitua.

Entre. � um prazer v�-lo.

- Por favor, sente-se. - Obrigado.

Deixe-me ir directo ao assunto.

Gostava de se candidatar ao Parlamento?

A s�rio.

Que est� a sugerir, Excel�ncia?

Arranjamos uma comarca adequada e pomo-lo na lista do partido.

- N�o creio que possa faz�-lo. - Por que n�o?

� jovem, ambicioso. As suas m�os est�o limpas.

As pessoas acham-no esperto, prova de que a monarquia est� iluminada

e que apoia os valores da classe m�dia.

Sinceramente, � o desafio ideal para si.

O meu av� foi for�osamente tentado por este convite

a juntar-se � classe governante.

Tens de sentir-te honrado por esse senhor fino e influente gostar de ti.

Desculpe, m�e, mas gra�as � influ�ncia destes senhores finos,

nunca houve tanta corrup��o, t�o miser�veis condi��es de vida

para a classe trabalhadora como neste preciso momento.

- Est�s a exagerar, Gustave. - A exagerar? Venha comigo � cl�nica.

Ver� trabalhadores tuberculosos, com gota, subalimentados,

e os seus filhos, enfraquecidos, quase famintos.

Venha comigo aos domic�lios, a quartos h�midos, com cheiro a mofo,

onde dormem tr�s pessoas numa cama. Idosos a dormir no ch�o da cozinha.

Pergunte aos padeiros por que roubam as migalhas no ch�o dos carros,

por que h� gente a fazer fila para comprar p�o duro?

Essas s�o as condi��es nos bairros mais pobres.

- O Governo n�o pode mudar tudo. - Por que n�o?

Tinha vergonha se o meu marido pertencesse ao gabinete

de um governo t�o corrupto.

N�o teriam todos vergonha dele? Sinceramente?

N�o sentirias vergonha de ti?

Apenas disse que me pediram para participar na elei��o. Mais nada.

Est�o a ficar desesperados. A monarquia tornou-se t�o fraca,

que pegam em qualquer um que fa�a com que pare�am respeit�veis.

Estamos orgulhoso por teres recebido esta oferta, filho.

Prova que a tua educa��o valeu a pena, que desempenhas bem o teu trabalho,

que �s respeitado.

Mas o nosso povo nunca deve subir t�o alto, mesmo quando convidados.

O homem que prov�m de outro lugar, � sempre suspeito.

A determinada altura, temos de parar e aceitar isto.

Se esperamos encontrar felicidade nesta vida,

temos de saber quem somos. - Ou mudar isso.

O meu tio Istvan era ainda crian�a

quando o seu irm�o Adam, o meu pai, nasceu.

A minha fam�lia est� contra o facto de eu ser candidato.

Porqu�?

N�o lhes agrada eu estar envolvido na pol�tica, de que maneira for.

Quem deve envolver-se na pol�tica se pessoas como voc� e eu n�o o fizerem?

Prefiro continuar a ser um juiz independente.

Independente? Independente de qu�? Do mundo?

Que assim seja. N�o vamos discutir, mas veja esta lista, por favor.

O Chefe da Pol�cia acabou de mand�-la.

S�o nomes de elementos de organiza��es socialistas.

Excel�ncia...

Sou obrigado a referenciar que o nome do meu irm�o consta na lista.

Sim, consta.

Explique-me por que motivo judeus ricos e cultos

est�o por detr�s das tentativas para derrubar este Governo?

Os judeus tornam-se doutores, advogados, professores...

Que mais querem eles?

Desculpa o atraso.

Que se passa?

H� informa��es que indicam fazeres parte de uma conspira��o

para derrubar a monarquia.

Que conspira��o? Que informa��es?

Meu Deus...

- Ent�o? - N�o sei de conspira��o nenhuma.

- N�o me mintas, Gustave. - A m�e e o pai v�o ouvir-te.

Talvez devessem participar. A casa deles pode ser revistada.

O seu precioso filho, o m�dico, pode ser preso.

O �nico aspecto que tem impedido a deten��o dos teus amigos e a tua

� a toler�ncia liberal. - Toler�ncia liberal?

Isso � alguma piada?

Toler�ncia � mis�ria e � fome,

ver milhares de oper�rios afundar-se na pobreza.

� esse o teu discurso dos com�cios?

Como podes estar contra o imp�rio

que permite a um judeu como tu tornar-se m�dico?

- Ou como tu. - Exactamente.

Sem o imperador ainda estarias a vender t�nico de porta em porta,

como o nosso av�.

S� acreditas neste conto de fadas do imperador por pura gan�ncia.

Acredito num sistema judicial forte

e no direito de integrar-me no pa�s que amo!

Integrares-te? Nunca ser�s aceite aqui.

Ser�s sempre tratado com desconfian�a.

S� o Movimento Oper�rio te aceitar�, pois partilhas de um inimigo comum...

...a explora��o. E o teu sonho � um objectivo comum: Revolu��o!

Olha, Valerie, um novo profeta judeu que quer destruir tudo.

N�o. Quero liberdade. E para obter liberdade, h� que lutar.

- E deixar sangue correr? - Sim, por favor.

Deixem-no correr. � esse o meu desejo.

Sabes o que desejo? Que Deus te arrancasse essa l�ngua da tua boca

para que parasses de cuspir essa tua doentia ruindade...

Ignatz! N�o!

Perfeito. Lan�aste-me uma maldi��o.

Ficas melhor com uma maldi��o minha, do que com uma senten�a de pris�o.

Parem os dois! Parecem Rabinos a lutar pela Tora!

- O teu marido gosta de sucesso. - Entrego-me � lux�ria ap�s o poder.

�s um s�bdito leal.

� isso que te torna feliz. Adoras o imperador.

Exactamente. Est�s do lado dele, n�o est�s? Est�o juntos, os dois.

Que queres dizer com isso?

Achas que n�o vos vejo a olharem-se? Achas que sou cego e est�pido?

- Est�s completamente louco? - Parem com isso! Os dois!

Querem saber o que quero?

N�o quero ser aceite pelas pessoas no poder,

ou por gente oprimida.

Querem saber o que quero? Quero orgulhar-me da minha l�ngua.

Quero olhar pela janela

e ver um pa�s que conhe�o e amo.

Quero crescer como uma flor silvestre, onde pertence.

Algum de v�s compreende isto?

Gustave adoeceu gravemente e esteve � beira da morte durante v�rios dias.

Ignatz ficou abalado,

ao acreditar que a sua maldi��o tinha provocado a doen�a do irm�o.

Assim que se levantar, pode ir...

...e combater na guerra.

"Assass�nio em Sarajevo".

"O Arquiduque Ferdinand, herdeiro do trono morreu"...?

Que se passa?

O imperador Franz-Joseph declarou guerra.

Foi este tiro que determinou o destino da Europa do s�culo XX

e todas as voltas e reviravoltas desta minha hist�ria familiar.

O meu av� tornou-se Juiz-Presidente da frente sulista.

Gustave tornou-se m�dico do Ex�rcito de alta patente.

O Imp�rio estava ansioso por iniciar a guerra contra a S�rvia,

para punir os S�rvios por aquilo que tinham feito em Sarajevo.

Ignatz foi chamado a Viena para uma audi�ncia com o imperador.

Para o meu av�, conhecer Sua Alteza Imperial

parecia ser o momento mais importante na sua vida.

Aproxime-se, Major, por favor.

O seu nome? Como se chama?

Sonnenschein... Sors.

O Major Ignatz Sors apresenta-se perante Vossa Majestade.

Por favor, sente-se, Sors.

Falaram-me muito bem de si.

N�o preciso ensinar-lhe a emitir veredictos justos.

Na realidade, queria conhec�-lo pessoalmente.

Quando estiver a realizar um julgamento,

pe�o-lhe para que se lembre que os soldados sentados � sua frente

representam muitas nacionalidades diferentes.

Juiz-Presidente do Ex�rcito de toda a frente sulista,

mantenha uma firmeza essencial.

Mas, por favor, respeite as diferen�as

e exer�a toler�ncia.

O imperador prometeu que a guerra acabaria no Outono.

Ele estava errado. A guerra continuou, durante anos e anos.

Ignatz ficou destacado como juiz na frente dos Balc�s,

onde aplicava senten�as severas.

Servir bem o imperador era a sua maior prioridade.

Longe de casa, n�o viu Valerie, ou os seus filhos

durante quatro anos.

Major?

O imperador morreu.

Nessa mesma noite, Ignatz recebeu um telegrama de Valerie.

Emmanuel Sonnenschein tamb�m tinha morrido.

Ignatz interpretou a coincid�ncia da morte do seu pai e do imperador

como sendo um press�gio estranho e importante.

Major, desculpe incomod�-lo.

- O Major � judeu? - Diga, por favor.

Sou secret�rio da C�mara Municipal

e tenho conhecimento dos oficiais julgados no conselho de guerra.

O Tenente Branko Susinsky � judeu.

Achei que o Major gostaria de saber isto.

Sou um oficial do imperador, antes de mais nada.

Boa noite.

Major?

Pe�o autoriza��o para informar que nos rendemos.

- Como? - Acabou, Major.

Est� contente, homem? Perdemos a guerra.

Perdemos, Major, mas estamos vivos.

Todos estavam radiantes com o fim da guerra.

No entanto, Ignatz sentia que tinha passado muito tempo,

pois o imp�rio liberal que tanto lhe dera, tinha ca�do.

Os teus filhos tornaram-se homens.

Um Adam muito gordo.

S�o muito boas, muito boas.

� dif�cil dizer isto, mas vou divorciar-me de ti.

Prometi criar os nossos filhos e respeitar-te, mas...

Vejo-me for�ada a aceitar-te como um homem

muito diferente do homem que esperava que te tornasses.

Agora, �s...

...um homem sem sentimento.

Sem sentimento?

N�o posso demonstrar os meus sentimentos.

� este o meu trabalho.

Tenho de controlar-me.

O Gustave � completamente diferente.

O Gustave?

O Gustave � teu amante, n�o �?

- Admite-o. - Est�s louco?

- H� quanto tempo me mentes? - Nunca te menti.

Ent�o, quando deixaste de me amar?

N�o parei. Sou tua irm�.

- Serei sempre tua irm�. - N�o �s minha irm�, �s minha mulher.

Um filho da m�e seduziu-te...

...e decidiste que agora sou teu irm�o.

N�o sou teu irm�o, sou teu marido.

Nem o meu irm�o, nem o meu marido podem dar-me o que preciso.

Sufoco sem amor na minha vida.

Para ti, � suficiente amar o imperador.

Tudo o que precisas � da ilus�o de que ele tamb�m te ama.

Ignatz! Fui clara!

Nunca acreditaste que eu estava apaixonado por ti?

- Nunca estiveste. - Estive!

- N�o! - Sim!

Eu amava-te!

Seduzi-te e deixaste-me, porque sabias que eu estava segura,

porque sabias que estaria sempre a teu lado, porque sou tua irm�!

- Amo-te. - P�ra!

Valerie, eu amo-te! A s�rio!

- Amo-te, Valerie. - P�ra!

Amo-te.

Mas eu amo-te...

Larga o urso de peluche.

Eu apanho.

Vais mesmo embora?

Vou.

Quando?

Acho que � melhor se for hoje, antes...

...que destruamos a nossa heran�a.

Amo-te.

E eu a ti.

A monarquia caiu.

Na Hungria, como em muitos pa�ses europeus, a revolu��o rebentou.

Em 1919, os Comunistas ganharam poder.

Para Ignatz, o Imp�rio e o casamento com Valerie

foram destru�dos no mesmo dia.

Cretinos ingratos!

Tudo o que t�m devem-no ao Imp�rio.

Gustave, agora conhecido como Camarada Sors,

tornou-se num alto funcion�rio do novo Governo h�ngaro.

Que achas que est� a acontecer l� fora?

Temos o poder, mas precisamos de leis. Podes ajudar a cri�-las.

Podes desempenhar um papel importante no futuro deste pa�s.

- Por que continua isto aqui? - Deixa isso.

Jurei praticar a toler�ncia, mas n�o tolerarei a vingan�a.

Lamento, mas as pessoas t�m de se vingar.

H� que mostrar ao povo que pode conquistar tudo, se quiser.

Eu n�o posso conquistar, s� convencer.

�ptimo. Ent�o, deixa-me tentar convencer-te.

Condenas pessoas em nome da monarquia, por isso �s culpado.

Primeiro, o meu nome estava na lista, agora � o teu.

Se n�o nos apoiares, estar�s por tua conta.

- Convencido? - Sai j� do meu quarto, por favor.

Tu e a cadela da tua irm� podem apodrecer no inferno!

Obrigado, m�e.

- Juiz Sors? - Ao cimo das escadas, ali.

Vem comigo.

Prendo-o em nome da Ditadura do Proletariado.

Esta casa ser� revistada.

Os seus suspens�rios e atacadores, por favor.

Est� sob pris�o domicili�ria at� nova ordem.

Valerie soube as not�cias e regressou imediatamente a casa.

- M�e... - Adam, Istvan...

- O que queres daqui? - Bom dia, mam�.

Ela foi autorizada a visitar Ignatz, no seu quarto uma vez por dia.

"Dr. Gustave Sors,

"o Comiss�rio do Governo organizou servi�os de sa�de

"para as crian�as do Proletariado.

O Dr. Sors distribui p�o e geleia �s crian�as da classe oper�ria."

- Estou encantado. - Queres p�o e geleia?

Se me consideras uma crian�a do Proletariado, por que n�o?

Trago j�.

"O povo pede, o povo recebe." A liberdade � assim, simples.

Mas o povo n�o quer liberdade, quer seguran�a.

Impressiona-me que saibas t�o bem o que o povo quer.

Meses mais tarde, com o apoio de ex�rcitos estrangeiros,

um regime militar derrotou os Comunistas.

Os l�deres revolucion�rios fugiram para o estrangeiro.

Gustave fugiu para Fran�a.

Ignatz recusou presidir a julgamentos revanchistas contra os Comunistas.

Foi for�ado a reformar-se. A sua sa�de depressa se deteriorou.

Esta sopa n�o tem sal.

- N�o est� comest�vel. D�-me o sal. - N�o, o m�dico proibiu.

N�o!

D�-me o sal, maldita!

Sua cabra!

- Kato, d�-me o sal. - N�o posso.

Istvan, vai busc�-lo.

N�o, pap�, faz mal � sua tens�o arterial.

D�-me o sal! Maldita fam�lia esta!

Desperdicei a minha vida por voc�s e nem posso comer uma sopa decente.

Ser� que ainda estou vivo?

Toma, meu amor. Por favor, p�e s� um pouco.

- Quer mat�-lo? - Se quero...

N�o tens vergonha? Em frente aos vossos filhos?

Tu � que queres mat�-lo, para poderes voltar para o teu amante.

- Mam�! - P�ra de chamar-me "mam�"!

Estou farta de te ver a destruir a minha fam�lia.

Seduziste o meu filho e fartaste-te dele!

- Mam�, pare, por favor! - N�o. Ouve-me!

� teu dever ouvir quando eu falo.

Vou expulsar-te desta casa.

Mas, primeiro, devolve o livro de receitas que roubaste ao meu marido!

D�-lo ao meu filho, pois pertence-lhe!

- De que est� a falar? - Sabes muito bem.

Da heran�a do meu filho. N�o vais roub�-la. N�o o permitirei!

Muito bem! Acabou-se a f�brica, mas vou procurar o livro, mam�.

Nem que tenha de deitar esta casa abaixo!

Ajudem-me.

Estamos � procura de um livro com capa negra, de tecido, certo, mam�?

Sabes muito melhor do que todos, n�o sabes?

Lamento muito.

O meu av�, Ignatz Sors, morreu no espa�o de um ano.

A sua m�e Rose, levada pela dor, morreu logo a seguir.

Valerie era agora a chefe da fam�lia.

Sors, vem connosco!

� aquele o rapaz judeu que est� sempre a sorrir?

- Sim, � ele. - De joelhos.

De joelhos, judeu!

Tira esse sorriso da tua cara.

Pensei que o cheirete da sinagoga tinha partido com os comunistas.

Ainda sinto o cheiro.

- Eu tamb�m. - Este judeu tresanda.

- Que cheiro � este? - � merda de vaca.

� um cheiro judeu.

Pede desculpa por estares a poluir o nosso ar, "rabi".

Pede desculpa!

- Pe�o desculpa. - V�s este sabre?

Se voltar a ver-te...

...fa�o uma circuncis�o � tua grande cabe�a.

H�s-de ver esse cretino miser�vel aos teus p�s, a pedir miseric�rdia.

Prometo-te. S� tens de aprender esgrima.

Quando eu largar isto, agarra-o no ar.

Agora!

Presta aten��o. Outra vez.

Mestre Anselmi, quero apresentar-lhe o meu irm�o mais novo.

Ele gostava de treinar connosco.

Apanha isto, por favor, J�nior, quando eu o largar.

"Bem. Muito bem." Outra vez.

O irm�o mais velho treinou-te bem.

Vai buscar um fato limpo para o teu irm�o.

A esgrima tornou-se a paix�o do meu pai.

Os anos passaram e o meu pai, Adam,

tornou-se um dos esgrimistas mais brilhantes do pa�s.

A minha av�, Valerie, tornou-se uma fot�grafa de sucesso.

O meu tio Istvan perdeu o cabelo ruivo

que tinha herdado da sua m�e.

Adam e Istvan eram os melhores esgrimistas do Clube C�vico,

t�o bons como os mais distintos do Clube de Oficiais do Ex�rcito.

Sr. Presidente, viu?

"Ataque da direita. Parada. Resposta: Touch� da direita."

Desculpe, Sr. Presidente, mas fui tocado.

"As ac��es s�o simult�neas. N�o houve toque. Em guarda."

"Est�o prontos? "

"Come�ar."

"Alto! "

"Ataque da esquerda. Toque da direita."

"Vence o da esquerda."

Sr. Presidente, n�o ganhei esta partida.

Por favor, Capit�o, n�o fique aborrecido.

Lut�mos muit�ssimo bem.

- Bom espect�culo. - Bem jogado.

"Bem, muito bem. Lindo."

Todos viram que foste o vencedor.

Podes ser um grande esgrimista, J�nior. Um campe�o nacional.

Se ficares no Clube C�vico ser�s um jovem e bom esgrimista,

mas ficar�s sempre em segundo lugar.

Mas os meus amigos s�o membros daqui... o meu irm�o.

Falei ontem com o General.

Ser�s bem-vindo no Clube dos Oficiais.

N�o acredito!

Ele perguntou-me se era verdade que eras judeu.

E o que lhe disse?

Disse-lhe: "N�o sei essas coisas. Sou italiano."

E o que respondeu ele?

N�o pode haver judeus no Clube dos Oficiais.

Tens de te converter.

- Converter? - Sim, sim, J�nior.

O pr�prio Jesus converteu-se.

- O que queres fazer? - Esgrima.

- A que n�vel? - O mais alto. � o Clube dos Oficiais.

- Queres converter-te? - Quero ser h�ngaro.

Achas que os senhores do Clube dos Oficiais s�o h�ngaros?

S�o alem�es, s�rvios e eslovacos.

Garanto-te que n�o � h�ngaro que tens de ser.

- Que tenho de ser, m�e? - Crist�o.

� uma loucura algu�m poder decidir a religi�o de outro,

s� para fazer parte de uma equipa de esgrima.

O teu pai e eu fomos ensinados pelo teu av�

a termos orgulho de sermos judeus h�ngaros.

Por isso, para eu me converter... nunca poderia...

Apesar de ter deixado de rezar quando era crian�a.

Criador do C�u e da Terra,

de tudo o que � vis�vel e invis�vel.

Creio em um s� Deus, Jesus Cristo, filho unig�nito de Deus.

Gerado � semelhan�a eterna do Pai.

Deus de Deus, Luz da Luz,

Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.

Gerado, n�o criado.

Desculpe, posso apresentar-me?

Adam Sors. E o meu irm�o, Istvan.

- Hannah... Wippler. - Podemos acompanh�-la a casa?

� muito am�vel da sua parte, mas o meu noivo est� � minha espera.

- Fica para outra vez, quem sabe? - Quem sabe...

Quem � ela?

� uma candidata � convers�o, uma do grupo.

- O teu irm�o est� interessado? - Assim parece.

N�o ter� uma tarefa f�cil em conquistar o campe�o.

Concordo.

Outro cora��o para ganhar, J�nior?

Adam...

Pai Nosso que estais no C�u,

santificado seja o Vosso nome.

Venha a n�s o Vosso Reino...

- Posso falar consigo? - Sim, claro.

� um pouco pessoal. Gostaria de falar consigo em privado.

Fa�a favor.

Qual � a sensa��o de ser cat�lica?

Estou a gostar.

O meu noivo queria que me convertesse.

Ele � de uma fam�lia antiga

e � importante para eles terem uma nora cat�lica.

- E voc�? - Eu amo-a.

Obrigada, mas j� lhe disse... tenho noivo.

Isso n�o muda nada.

Estou apaixonado por si e sei que me acha atraente.

Vejo-o no seu olhar.

Que v� exactamente no meu olhar?

O seu amor por mim.

N�o pode neg�-lo.

Receio que tenha interpretado mal o meu olhar.

N�o interpretei mal nada sobre si.

Nunca amei ningu�m como a amo a si.

E � por isso que queria que fosse minha mulher.

Mais tarde ou mais cedo, acho que vai aceitar.

- Acha que sim? - Sei-o.

V�, quando quero ganhar... ganho.

Ganhar o qu�?

- Quem planeia derrotar? - O seu noivo.

Voc� deve ser louco. Eu amo-o.

Tornei-me cat�lica por ele.

Ent�o, considere que o fez para mim.

Tenho mesmo de ir andando.

Posso atend�-lo, Sr. Sors?

N�o. N�o vou ficar.

- Por favor, fique e tome um caf�. - N�o, obrigada.

Por favor... Dois caf�s com natas.

� demasiado agressivo.

N�o, estou demasiado apaixonado.

Se j� estivesse estado apaixonada, compreenderia.

Estou aqui para falar com o Baron Felix Margittay.

- Adam Sors. - Margittay.

Sim, senhor. Eu sei.

Cavalheiros, quero apresentar-vos o Sr. Sors. Ele vai treinar connosco.

Adam Sors.

Consideramos que o capit�o Rossa n�o deseja conhecer o Sr. Sors?

De momento, n�o. Obrigado.

Cavalheiros, volto j�. Continuem a trabalhar.

Ilona, cuida do Sr. Sors, por favor.

Encontras as instru��es do General na minha secret�ria.

Amanh�, �s quatro horas. Traga o seu equipamento.

N�o se preocupe com nada, limite-se a lutar bem.

- Nome? - Adam Sors.

Religi�o?

Cat�lico-Romano.

- Patente? - N�o sou soldado.

Isso � estranho...

J� passa muito da meia-noite. N�o � permitido esse barulho.

Por que lhe chamam "J�nior"?

O meu irm�o come�ou a levar-me ao Clube C�vico para treinar

quando era novo. Ele chamava-me "J�nior", por isso...

Ent�o, J�nior, aqui est�.

� agora membro do clube dos Oficiais. Voc� n�o � importante.

� a sua pontua��o e a vit�ria da equipa.

Fixe isto e ter� o nosso apoio total.

Fez a escolha certa.

A assimila��o � o �nico meio poss�vel.

� tudo, J�nior. Est� dispensado.

Pare.

Mostre-me o seu pulso. J� foi canhoto?

Fui, quando era pequeno, mas o meu pai disse que n�o era normal.

J� tentou lutar com a m�o esquerda?

S� por brincadeira. A s�rio, nunca.

Mostre-me. Sem m�scara.

"Em guarda. Come�ar."

Pare. Aqui est� a nossa resposta. Brilhante.

Treinamos o seu p� e ombro esquerdos. Vai confundir toda a gente.

Imprevisibilidade. � nisso que consiste a esgrima!

Campeonato Nacional

O teu irm�o tem uma bela assist�ncia.

"Sors � esquerda, Rossa � direita."

Corte obl�quo no peito dele, no final. S� no final.

Onde vai? Este n�o � o seu lado.

Tenho de ir pela esquerda, ou n�o vai resultar.

Para mim? Tem a certeza?

Obrigada.

"Est�s aqui. Agora, vou ganhar para ti."

"Em guarda. Come�ar! "

Para ganhar o Campeonato Nacional de esgrima,

o meu pai teria de derrotar um advers�rio formid�vel,

o Capit�o Rossa.

Senhor, o toque � meu...

Ele quer ganhar o campeonato, ou um trof�u por boas maneiras?

Ele precisa de provar algo.

Bravo!

Bravo!

O toque � meu.

Pare com esse disparate. Raios, homem, lute!

"Timing" perfeito. Ele nasceu para a esgrima.

"Vencedor: Sors."

Um esgrimista de primeira �gua, Bar�o. Parab�ns.

Muito bem feito, J�nior. Estou muito satisfeito.

Para depois do jantar.

Obrigado.

Para a pr�xima, sem l�grimas. � demasiado judaico.

Importam-se de se beijar, por favor?

O meu mosqueteiro judeu.

- Est�s contente? - Estou. E tu?

Sim, Adam, estou.

- Parab�ns. - Obrigado.

- Parab�ns. - Parab�ns.

No ano seguinte, Istvan e Greta tamb�m casaram.

E pelo segundo ano consecutivo,

o meu pai ganhou o Campeonato Nacional de Esgrima.

Hannah e Greta tiveram 2 filhos, com 2 semanas de diferen�a uma da outra.

Hannah baptizou o seu filho Ivan.

Eu.

Ent�o, o irm�o mais velho trouxe-te de volta ao Anselmi,

para aprenderes esgrima, J�nior? - � verdade.

Eu ensino-te. Levanta-te.

- "Em guarda." - "Mestre"...

N�o � a postura correcta. N�o tens futuro.

Diz ao teu irm�o para trazer um irm�ozinho melhor.

Concede-me uma conversa em privado com o conselheiro, por favor?

Desculpe, mestre.

J�nior, posso oferecer-lhe 150 mil

se voltar a fazer esgrima connosco, no Clube C�vico.

- N�o � uma quest�o de dinheiro. - Duzentos mil.

Os membros da equipa nacional v�m todos do Clube de Oficiais.

250 mil � o limite. H� v�rios bancos envolvidos. � uma excelente oferta.

Recebe dinheiro e apoio total e ficamos com um campe�o nacional.

A meu ver, uma medalha de prata, no pior dos casos.

- Sr. Brenner, desculpe, mas eu... - Meio milh�o, J�nior.

A minha resposta � "n�o". � preciso ter uma equipa para este desporto,

um grupo com um objectivo comum.

E tem algo mais em comum com eles do que connosco?

- Sim, somos uma equipa. - E se comprarmos uns colegas seus?

Prop�e comprar Oficiais do Ex�rcito Real? O Bar�o Margittay?

Estes homens s�o cavalheiros.

Desculpe, Sr. Brenner, por favor.

Estas pessoas s�o nojentas. Vamos dan�ar?

Lamento, mas prometi ao Istvan a primeira dan�a.

Mas a pr�xima dan�a � tua, sem d�vida, querido.

Vais ter de contentar-te comigo...

Eles acham que podem comprar qualquer um.

Quem?

Aquele homenzinho ali. O Sr. Brenner e os seus amigos judeus.

Acham que o dinheiro � resposta para tudo.

O Sr. Brenner, especificamente? Ou os seus amigos judeus?

S�o todos iguais.

� uma perda de tempo prestar aten��o a estas pessoas,

ou mesmo incomodar-me a ser educado para com eles.

Pobre J�nior...

Amo-te muito, sabes?

Tamb�m te amo.

Temos sorte nesta fam�lia. Todos se amam.

N�o, Adam. Estou apaixonada por ti.

Todas as manh�s acordo a pensar em ti.

Espero que n�o fiques zangado por te dizer isto.

N�o, fico lisonjeado.

N�o sei ao certo que fazer, agora que me disseste isso.

Nada. Deixa-me apenas amar-te.

Na sua opini�o, quem � o melhor treinador neste pa�s?

O melhor homem para preparar a equipa para os Jogos Ol�mpicos?

- O Bar�o Margittay. - Exactamente o que quero ouvir.

Pergunta seguinte: Na equipa, quem pode ganhar para n�s?

Isso � uma pergunta dif�cil, General.

- Mas tem uma resposta? - N�o sei se tenho.

- De certeza que tem. Diga, por favor. - Prefiro n�o responder, General.

Raios, homem! Fale!

A equipa s� ser� forte se Tersikovsky parar de beber,

se Saray achar que a esgrima � mais importante do que a ca�a e a pesca,

e se Rossa acabar com as suas v�rias conspira��es e intrigas.

Estou a ver...

Por favor, escreva a equipa ideal.

Os elementos da equipa ol�mpica s�o...

...Capit�o Lugosy...

...Capit�o Saray...

...Capit�o Rossa...

...Capit�o Tersikovsky...

...Sr. Sors.

Este Ver�o, teremos apenas um objectivo.

Ganhar os Jogos Ol�mpicos.

� o vosso dever, como oficiais deste magn�fico Ex�rcito do pa�s,

inspirar um forte esp�rito patriota.

E provar ao mundo que a nossa na��o vive agora

e vive para sempre.

Obrigado.

Farias bem em n�o influenciar a selec��o, Sors.

Caso contr�rio, sou capaz de acabar contigo.

- Por que est�s sempre a sorrir? - Estou a sorrir?

Um dia, hei-de arrancar-te esse sorriso da cara.

Que se passa?

Que se passa?

Que raio se passa?

Algu�m responda!

Que est� a fazer, homem? O treino ainda est� a decorrer.

O treino acabou. Os cavalheiros j� foram embora.

N�o me v�? Sou invis�vel?

Desculpe, senhor, mas � um clube do Ex�rcito

e os militares decidem quanto tempo decorre o treino.

Os oficiais disseram-me para apagar as luzes �s dez horas.

- Acenda-as. - N�o, senhor. N�o vou acender.

- Sabe quem sou? - N�o me interessa quem �.

Sou Campe�o Nacional de Sabre e elemento da equipa Ol�mpica.

J� que n�o quer saber destas coisas, vou fazer com que queira.

Acenda as luzes!

Comunista cretino! A tentar sabotar o treino.

Senhor, por favor!

Saia!

Saia!

Adam...

- Greta. Passa-se alguma coisa? - N�o, nada.

Tenho estado � tua espera para te desejar boa sorte em Berlim.

Que aconteceu? Est�s aborrecido?

O seguran�a estava a ser dif�cil. Perdi o controlo.

- Deves ter tido os teus motivos. - Tenho vergonha de mim.

Estou sempre a sorrir?

Para mim, n�o o suficiente.

- Quase o matei. - Mas n�o mataste.

Pois n�o.

Talvez um dia me mates, quando te tiveres fartado de mim.

- Talvez. - Como me matarias?

- Estrangulavas-me? - Boa ideia.

Tenta. Agarra o meu pesco�o. Com for�a.

- O que est�s a fazer? - N�o suporto n�o estar contigo.

- �s a mulher do meu irm�o, Greta. - N�o sou mulher de ningu�m. Sou eu.

Istvan � meu irm�o. Amo-o.

O que te leva a pensar que lhe roubaria a mulher?

N�o podes roubar o que j� � teu.

Por que n�o te deixas amar?

�s o grande amor da minha vida, Adam...

...n�o o Istvan.

N�o.

N�o, Greta.

OLIMP�ADAS DE BERLIM, 1936

Senhoras e senhores, o h�ngaro Adam Sors, n�mero 144,

e o italiano Stefano Sarto, n�mero 72.

Este combate decide a medalha de ouro ol�mpica.

"� esquerda. Toque. Meus senhores, em guarda."

"Est�o prontos? "

"Est�o prontos? "

"Come�ar."

O sabre de Adam Sors partiu-se, senhoras e senhores.

Exactamente quando Sors parecia ter hip�tese de equilibrar a pontua��o.

"Venha, por favor."

"Escolha um sabre."

N�o, n�o.

Pai Nosso que estais no C�u,

santificado seja o Vosso nome, venha a n�s o Vosso reino,

seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no C�u.

O p�o nosso de cada dia nos dai hoje. Perdoai-nos as nossas ofensas...

N�o ligue ao ritmo dele. � melhor do que ele.

"Meus senhores, em guarda."

"Est�o prontos? Come�ar."

"Toque. Toque � direita."

Touch�! Adam Sors fez um toque fant�stico!

Talvez a nossa sorte mude agora. S� falta um toque para o empate.

"Parem. Ataque da esquerda. Toque � direita."

"Senhores, em guarda."

"Est�o prontos?"

"Come�ar."

Est�o quietos que nem est�tuas. A pontua��o est� quatro igual.

S� falta um toque para saber quem leva a medalha de ouro para casa.

"Ataque da direita."

"Contragolpe. Toque."

"A direita foi atingida. Ganha a esquerda, o Sr. Sors."

"Hungria."

"Sr. Sors."

Muito bem, J�nior. Obrigado.

- Muito bem. - Obrigado, General.

Obrigado.

A medalha de ouro � nossa.

Adam Sors, o tesouro nacional. O nosso maravilhoso tesouro nacional.

O teu pai teria ficado orgulhoso.

Adam Sors, devemos-lhe infind�vel gratid�o.

Caro rapaz...

Est� horrivelmente suado.

Acabei de telefonar ao Primeiro-Ministro. Est� radiante.

Vai mencionar a tua vit�ria durante a reuni�o de amanh�.

�s um her�i nacional, J�nior. Est�s contente?

Sr. Sors?

A sua mestria com a espada tamb�m � um trabalho de arte.

- Obrigado. - Chamo-me Laszlo Molnar.

Sou Presidente do Clube de Boston Pena e Sabre, em Massachussetts.

Deixei a Hungria depois da guerra.

Tem interesse em viver na Am�rica?

- Podemos tratar da sua cidadania. - � uma honra, mas fico na Hungria.

E porqu�?

A minha fam�lia e o meu clube est�o l�. Perten�o � equipa nacional.

- � Oficial do Ex�rcito? - N�o.

Ent�o, por que faz esgrima com oficiais de uma ditadura?

- Que quer dizer? - Viaja pelo mundo,

dando boa impress�o da ditadura que enforca pessoas inocentes.

De certo modo, comete o mesmo crime que eles,

sempre que glorifica o regime sanguin�rio deles.

Est� a dizer que fa�o esgrima para um regime e n�o para o meu pa�s?

Desculpe, o senhor n�o vive na Hungria, mas eu vivo.

As coisas ficaram mais civilizadas nos �ltimos anos.

"Mais civilizadas"? Sr. Sors, ou�a o que est� a dizer.

A Hungria atrai o desastre ao seguir cegamente a Alemanha.

Aceite este aviso como uma oferta,

em troca da sua espl�ndida vit�ria Ol�mpica.

Deixe o pa�s, antes que seja demasiado tarde.

BUDAPESTE

Excel�ncia, senhoras e senhores,

e cidad�os do nosso amado pa�s,

esta vit�ria reflecte orgulho num pa�s que amamos profundamente.

Cada membro desta equipa foi orientado por um profundo sentimento patri�tico.

Lut�mos pela gl�ria da nossa magn�fica p�tria,

para mostrar ao mundo que a nossa na��o vive

e viver�... para sempre!

Tenta descansar, J�nior.

Vais precisar de retemperar for�as para o que te espera.

Adam...

Abre quando estiveres s�, por favor.

Parab�ns, meu querido her�i e marido.

- Est�s contente? - Se estou contente? Tu est�s?

- Estou muito, muito contente. - �ptimo.

Ivan! Meu her�i!

"Rezei por ti enquanto apertava esta flor.

"Resultou. Ganhaste... v�s?

Precisas de mim. Se estiver na tua vida, ganhar�s sempre."

Quando ou�o os discursos do Adam

sobre "um esp�rito patri�tico, guiando o seu sabre... "

- Est�s a ser sarc�stica? - N�o.

� s� que, �s vezes, o que dizes � um pouco exagerado.

� um crime amar o nosso pa�s?

Ent�o, por que est�s a falar em mudar para a Am�rica?

Estou s� a falar. Apenas disse que os Americanos me convidaram. Mais nada.

- Mas tem orgulho em mim. - Estamos todos orgulhosos de ti.

N�o est�s orgulhosa do teu cunhado, Greta?

N�o podia estar mais.

- A m�e? - � claro que estou, querido.

Istvan, est�s orgulhoso do teu irm�o?

- Extraordinariamente orgulhoso. - Tamb�m eu estou.

V�s? Estamos todos orgulhosos de ti.

Entras?

- O meu irm�o? - Est� na casa de f�rias.

Estamos sozinhos.

- Queria celebrar a s�s esta vit�ria. - N�o queres ouvir, pois n�o?

N�o vou trair a minha mulher, nem o meu irm�o.

J� os tra�mos com cada pensamento nosso.

Sempre que o teu irm�o me toca, penso em ti.

- Tens uma amante? - Est�s louca?

- N�o me mintas! - N�o me chames mentiroso!

Queres mentir ao teu marido e esperas que minta � minha fam�lia?

Queres arruinar a minha fam�lia? N�o tarda nada, mentir-me-�s.

Que comportamento honrado � esse, essa tua honestidade?

- S� est� a surgir por medo. - N�o tenho medo.

- Sim, tens. - N�o tenho medo de nada.

�s um hip�crita! Estou pronta a fugir contigo, Adam. Para onde quiseres.

Pensei que tinhas um esp�rito livre. Enganei-me.

N�o saberias amar-me. S� te amas a ti.

N�o me vires as costas. Chega aqui.

Por que me amas, Greta?

Porque quando descobriste que eras canhoto, continuaste a ser canhoto.

Isso foi um milagre.

Est� bem. Ent�o, vou esperar pelo pr�ximo milagre.

N�o esperas um milagre de Istvan?

N�o.

- Pobre Istvan. - N�o sintas pena do Istvan.

O Istvan � profundamente satisfeito.

- Ele nunca mudar� nada na sua vida... - P�ra com isso, Greta.

� o que sinto, Adam.

Queres que v� agora para casa e diga ao Istvan: "Como foi o teu dia, amor? "

Que durma com ele e continue a ter um caso contigo em segredo?

N�o farei isso. N�o consigo.

- Nem eu conseguia. - �ptimo.

Agora, vai para casa e diz � Hannah que aconteceu algo horr�vel,

para que ambos me odeiem. - N�o vou dizer nada � Hannah.

Eu n�o te odeio.

Ent�o, o que queres?

Que deixe o meu marido e tu continues com a tua mulher?

Nenhum deixa ningu�m?

Acho que sim.

Vai para o inferno.

"A minha fam�lia e eu vamos hoje para Argel.

"A equipa de esgrima argelina tem-me procurado h� algum tempo

"e eu decidi aceitar a oferta deles.

Desejo-te tudo o de melhor, como sempre, Margittay."

Ele tamb�m me escreveu.

Pode imaginar como fiquei surpreendido.

- Ele � um traidor, General. - N�o � assim t�o simples.

A mulher do Bar�o � judia.

Por isso, os filhos dele s�o considerados judeus.

Ele � um traidor, General.

O anti-semitismo � a cren�a de gente rancorosa e fracassada.

� uma loucura partilhada que o Bar�o n�o podia aceitar.

Mas n�s aceit�mos.

O pior de tudo no anti-semitismo � ser uma filosofia de Filisteus.

� de mau gosto. N�o sei quanto tempo mais vou suportar isto.

A quarta cl�usula da Lei passou esta tarde no Parlamento.

Limita o envolvimento judaico nos c�rculos p�blicos e econ�micos.

No que respeita � nova Lei,

um indiv�duo � considerado judeu se ele pr�prio o �,

ou se tem, pelo menos, um dos pais, ou dois av�s,

que pertencem, � data da legisla��o, a uma congrega��o judaica.

Ou que tenham sido, antes da data da actual Lei,

elementos de qualquer comunidade religiosa judaica.

Do mesmo modo, e em adi��o ao descrito aqui,

todos os descendentes nascidos ap�s a data em quest�o,

ser�o tratados como judeus.

Por enquanto, a nova Lei n�o se aplicar�

aos que foram condecorados com medalhas de prata ou de ouro,

na guerra de 1914 a 1918.

O teu pobre pai estaria isento.

Ent�o, tamb�m estamos isentos.

... se o indiv�duo arriscou a vida, ou sofreu perda de liberdade,

em resultado de tais actividades,

bem como as suas esposas e filhos dessas pessoas.

A m�e est� isenta.

... os priores que exercem, ou est�o reformados,

ou os ministros da f� crist�

e aqueles que, sob os ausp�cios do Comit� Ol�mpico Internacional

ganharam o t�tulo de campe�es nos Jogos Ol�mpicos...

Somos n�s, estamos isentos.

Estamos totalmente isentos. Todos n�s.

- Eu n�o. - Sim, est�s. �s a minha mulher.

A mulher de um campe�o Ol�mpico.

Estamos isentos.

Kato, traz-nos ch�, por favor.

� para j�.

Em associa��es profissionais de Direito ou Medicina,

ou organiza��es de jornalistas,

engenheiros, teatro e artistas de cinema,

os judeus s� podem ser aceites

em n�mero que n�o exceda seis por cento da comunidade total.

Um judeu n�o pode ser Editor de publica��es,

ou membro de uma equipa editorial,

capaz de exercer influ�ncia na Direc��o Editorial

de qualquer peri�dico, ou jornal.

Um judeu n�o pode ser Director, Director Art�stico,

Empres�rio Liter�rio, nem empregado, mesmo que tenha sido designado,

encarregue da direc��o intelectual ou art�stica de um teatro.

Pedi para te ver, Sors, porque fui incumbido de chamar a tua aten��o

para um facto incontest�vel.

Isto � o Clube de Oficiais.

Se queres continuar a praticar esgrima,

sugiro que regresses ao teu antigo clube.

As leis n�o se aplicam a mim, Rossa. Estou isento por 3 diferentes motivos.

Sou Cat�lico-Romano.

O meu pai ganhou uma medalha de galantaria na Grande Guerra.

Sou um campe�o Ol�mpico.

- Tamb�m recebi o "Signum Laudis". - Isso s�o quatro motivos.

Muito bem.

Provavelmente, ser�s promovido a General.

S� estou interessado na esgrima...

...mais nada. - Ent�o, continua.

N�o h� nenhuma lei que te impe�a.

Mas n�o praticar�s connosco.

Sabes bem, � claro,

que nunca terias sido campe�o Ol�mpico

se n�o fosse o facto de dois dos membros do j�ri serem judeus.

Estas pessoas s�o criminosos, loucos, ou as duas coisas.

Imploro-te, por favor. Vamos embora daqui.

Se quiseres, podemos ir todos. Toda a tua fam�lia.

A Hannah, o Istvan, a tua m�e.

O nosso dever para com as crian�as � sair daqui enquanto podemos.

Imploro-te. Por favor.

Podemos ultrapassar isto, se continuares a amar-me.

A Hannah n�o pode ir e deixar os pais dela para tr�s.

Quando � que deixarei de ouvir falar da Hannah?

- Tu � que est�s sempre a falar nela. - Tamb�m querias isto.

� claro que n�o queria. Foste tu que come�aste. Tu � que querias isto.

O que mais te assusta, Adam? Eu, ou este pa�s?

N�o paras, pois n�o?

Se tenho de escolher, escolho a Hannah, que � minha mulher.

- Vais ter de desistir, Greta. - N�o posso abdicar de ti,

porque � isso que o amor faz �s pessoas.

Pelos vistos a ti n�o. N�o quero saber da tua fam�lia!

- Mato a minha fam�lia? - Sim, mata-os!

- Oxal� o Istvan estivesse morto. - C�us! �s monstruosa.

- N�o vejo outra sa�da. - Muito bem.

N�o quero voltar a ver-te.

- Feliz Ano Novo! - Feliz Ano Novo!

- Feliz Ano Novo. - Obrigada.

Feliz Ano Novo, m�e.

Greta...

- Ivan, feliz Ano Novo. - Feliz Ano Novo, pai.

Por favor, meu Deus, que continuemos sempre a cantar.

O teu av�, Emmanuel Sonnenschein,

costumava dizer "alegrem-se por terem nascido aqui".

"Esta � a Terra Prometida."

Estas coisas s�o tempor�rias.

- N�o concordas comigo, filho? - Sim, pai. Concordo.

Por amor de Deus, Adam, abre os olhos. N�o te iludas.

Tens receio de ver o que eles s�o tens receio que eles vejam o que �s.

N�o sejas rid�culo. N�o tenho receio de nada.

- S� n�o vou ficar aqui... - Adam, temos de sair daqui.

Hannah, fala com ele.

Podemos ir para a Am�rica, Austr�lia...

Temos de obter os nossos vistos antes que seja tarde de mais.

- Pelos nossos filhos, por favor. - Como ser� a nossa vida longe daqui?

Vendemos o "Sabor da Luz do Sol".

Sabes faz�-lo, m�e. Ensina-nos. Fazemo-lo e vendemo-lo.

N�o sei. O vosso av� tentou ensinar-me, mas nunca liguei muito.

S� me interessava pela fotografia.

- Onde estar� guardada a receita? - Por aqui, algures.

Ele estava sempre preocupado se se perdesse, ou fosse roubada.

- Vamos tentar encontr�-la. - Agora? � v�spera de Ano Novo.

Sim, agora. N�o vamos ficar aqui, sem fazer nada.

- Calma, Greta. Est�s hist�rica. - N�o digas isso.

Raios partam a tua inutilidade!

Raios partam a tua cobardia de judeu!

Quero viver. Quero que o meu filho viva.

Se querem morrer, tentando adaptar-se a esta gente, fa�am-no!

Fiquem aqui e morram. Mas eu n�o, nem o meu filho.

Greta, n�o deves dizer nada que soe a uma maldi��o.

Nesta fam�lia, n�o.

Durante dias a fio tentaram obter os visas,

mas as cotas tinham ficado esgotadas e as fronteiras fechadas.

Dr. Adam Sors, licenciado em Direito, residente em Budapeste,

nascido a 1902.

Nome de solteira da m�e, Valerie Sors...

Sonnenschein...

...foi mandado comparecer aqui com mantimentos para tr�s dias

e com roupa pr�pria para Inverno.

Sra. Sors, vou providenciar

para que ele fique nas casernas governamentais, em Budapeste.

- Farei tudo o que puder. - Obrigada.

Por favor, n�o.

Sors, uma vez disse-lhe que a assimila��o era a melhor escolha.

Queria pedir-lhe desculpa por ter dito isso.

Estava totalmente errado e pe�o desculpa.

Ainda queres continuar casado comigo?

Quero.

Quero.

O Ex�rcito Alem�o ocupou a Hungria.

A minha m�e e a minha av� foram mudadas para o gueto de Budapeste.

Vinte pessoas foram destinadas a uma casa min�scula.

Sra. Sors, quando eles come�arem a movimentar-se, v� para o s�t�o.

Ele diz que devemos ir para o telhado.

Comecem a vir em grupos de dez!

Algumas semanas depois os judeus dos guetos foram reunidos

e marcharam at� um destino desconhecido.

A minha m�e Hannah estava entre eles.

Ningu�m sabe onde e como ela foi morta.

A minha av� Valerie conseguiu escapar para um esconderijo seguro,

no s�t�o de uma amiga.

O General n�o conseguiu ajudar-nos.

E o meu pai e eu fomos para um campo de trabalhos for�ados,

junto � frente Russa.

Tu! Com a ligadura branca! Aqui!

O que � isto? Decora��es para a �rvore de Natal?

Sou o Dr. Adam Sors, oficial do Ex�rcito H�ngaro.

Para que est� este trapo branco no teu bra�o?

- Onde o compraste? Quanto custou? - Sou o campe�o nacional de esgrima.

O que �s tu?

Sou detentor de uma medalha Ol�mpica de ouro.

Olha para mim. Levanta-te.

Levanta-te!

Vou ensinar-te o que �s... �s lixo!

�s um judeu fedorento! Despe-te, judeu!

Tira a roupa toda! Toda!

Volto a perguntar-te, judeu. O que �s tu?

Adam Sors, Advogado. Oficial do Ex�rcito H�ngaro.

O que �s tu, judeu?

Adam Sors, campe�o de esgrima da Hungria.

Detentor de uma medalha Ol�mpica de ouro.

Deve haver algum problema com os meus ouvidos.

O que achas que �s, judeu?

Adam Sors, campe�o de esgrima da Hungria.

Detentor de uma medalha Ol�mpica de ouro.

Adam Sors, campe�o de esgrima da Hungria.

Detentor de uma medalha Ol�mpica de ouro.

Pendurem-no na �rvore.

E agora, o que �s tu, judeu?

Adam Sors...

...detentor de uma medalha Ol�mpica de ouro para a Hungria.

Os vizinhos suspeitavam que os judeus estavam escondidos na casa de Greta

e chamaram a Pol�cia.

Os nazis h�ngaros rebentaram a porta

e arrastaram o meu tio Istvan, Greta e o filho at� �s margens do Dan�bio,

onde foram mortos, tal como milhares de outros judeus de Budapeste

e os seus corpos foram mandados para o gelado rio.

Cinco dias ap�s a morte deles,

os Russos libertaram Budapeste do controlo Nazi.

E a II Guerra Mundial acabava.

Ap�s a minha fam�lia ter sido levada,

Kato fez as suas malas e escondeu-se algures, na sua aldeia.

Sou eu...

Gustave...

O teu irm�o.

O Partido Comunista chamou Gustave do seu ex�lio, em Fran�a.

Apesar da sua idade, regressou � pol�tica com grande entusiasmo.

Ivan...

O teu pai?

Tamb�m mataram o Adam.

O que aconteceu?

Ele disse que era um oficial h�ngaro.

N�o admitia que era um judeu.

Foi por isso que o mataram?

Quantos estavam l�?

- Tr�s pol�cias do Ex�rcito. - Quantos eram voc�s?

N�o me lembro. Talvez... dois mil.

- E eles eram s� tr�s? - Estavam mais 10 guardas no campo.

Como podiam 13 guardas deter duas mil pessoas?

Eles tinham armas.

Por que n�o correste at� eles para lhes tirares as armas?

Uma ou duas pessoas podiam ser alvejadas, mas davas logo conta deles.

- Podias ter fugido. - E ia para onde?

Para qualquer lado.

- N�o tinha para onde ir. - As pessoas escondiam-te.

Em Fran�a, esconderam-nos.

As pessoas odiavam-nos ou tinham medo de n�s.

Para sobreviver, t�nhamos de ficar juntos, como um grupo.

Ficaste l� e viste-os a matarem o teu pai?

N�o.

N�o sabiam que eu era filho dele. Tiveram de prender-me e eu...

- O que fizeste? - Chega!

Nada! Fiquei quieto.

Era tudo o que podia fazer. N�o podia fazer nada.

Devia alistar-se na Pol�cia e ajudar a prender os sacanas dos fascistas.

Posso falar com o General.

Devia estudar. Ele n�o acabou a escola.

Diz aqui que o seu pai era advogado.

Sabia que ele tem exactamente o mesmo nome

do melhor esgrimista h�ngaro de sempre?

Era o meu pai.

- Adam Sors era o seu pai? - Era.

Eu costumava praticar esgrima, mas nunca tive esse talento natural.

O seu pai era imbat�vel. Era um m�gico.

Onde esteve durante a guerra?

Estive com o meu pai.

Veio o local certo.

Vamos apanhar todos aqueles sacanas fascistas.

N�o pode haver perd�o para o que aconteceu aqui.

N�o posso culpar os Alem�es.

Foi organizado pelas autoridades h�ngaras,

foi levado a cabo por empregados civis h�ngaros,

presidentes da c�mara, pela Pol�cia, oficiais dos caminhos-de-ferro.

Foram indiv�duos h�ngaros simp�ticos, comuns que fizeram o trabalho sujo.

Quem criou as leis para os judeus? O Parlamento.

A maioria das pessoas voltou-se para o outro lado.

Pense no seu pai.

A sua fun��o � encontrar os assassinos dele.

Veja por baixo do sof�, Rosner.

- Diz-nos como apareceu isto aqui? - N�o sei. Nunca vi isso antes.

� cego, mas agora consegue ver?

Desculpe. Essas coisas s�o pessoais.

"Os teu beijos sabem a mel de ac�cia... "

- Escreveu isto? - Sim. Sou poeta.

Apenas um poeta? Ficou a escrever e a ver os seus amigos matar gente!

O Dr. Adam Sors foi o melhor esgrimista do mundo...

Um tesouro nacional!

...que foi varrido pela tempestade...

Que raio quer ele dizer com "varrido pela tempestade"?

Sors foi assassinado!

Centro de esgrima... Dr. Adam Sors.

J� est� contente?

Gosta de brincar aos pol�cias e ladr�es?

Gosto. Obrigado, general.

Venha alistar-se no Partido Comunista. Precisamos de jovens

em quem podemos confiar, como voc�. Concorda, camarada Sors?

Apresente-me a sua inscri��o, directamente.

Agora podem ver como foram estes partid�rios finalmente capturados.

Aterrorizaram as pessoas que j� tinham sofrido pavorosamente

sob um dom�nio Bolchevique durante 25 anos.

O nosso Ex�rcito est� a combater uma cruzada contra o Diabo Vermelho

e est� a sair vitorioso.

Os campos de pris�o s�o um para�so para os famintos soldados russos.

Pelo menos, aqui t�m p�o para comer.

Testemunhem os horr�veis crimes do Terror Vermelho

a abandonar agora as aldeias. Os beb�s moribundos.

- Ent�o? - Fomos apanhados no meio disso.

N�o havia hip�tese de recusarmos. Limit�mo-nos a ver. Foi horr�vel.

Conseguiu ver bem, n�o foi?

Limitou-se a ficar ali e n�o fez nada. Limitou-se a ver.

- Limitou-se a filmar, certo? - Sim.

Foi para a frente Russa...

...17 vezes.

Porqu�? N�o teve medo?

- Nunca tinha estado na frente Russa. - N�o me minta. Est� filmado.

A filmagem real foi classificada como secreta.

Recebi ordens para filmar cenas que parecessem ter vindo da frente Russa.

Constru�mos a aldeia russa, a encena��o, o cen�rio.

Foi tudo filmado a 20 quil�metros de Budapeste.

De quem foi a ideia?

Foi sua?

Foi sua?

Acha que � um artista? � da pior esp�cie.

Nem sequer lhe ocorre que o que fez foi um crime.

Nunca magoei ningu�m.

Depois da guerra, filmei o primeiro filme do Partido Comunista.

- Nunca segurei numa arma na vida. - Nunca segurou numa arma?

V�, pegue nela.

� menos pesada que a sua c�mara e � a sua oportunidade para me matar.

Acabe o que os seus cretinos amigos fascistas come�aram!

V�! Pegue na merda da arma! Pegue nela!

Seu merdas!

Pegue neste l�pis.

Escreva os nomes de todas as pessoas com quem j� trabalhou.

Todas.

Est�o todos escritos? At� o seu amigo realizador de cinema?

Ele deu-nos 25 novos nomes.

Fazem tudo para sobreviver.

No primeiro dia na Hungria, a Gestapo recebeu 10 mil cartas de pessoas

a denunciarem-se umas �s outras. Nada de que possamos orgulhar-nos.

N�mero sete: Fekete Nagy.

Ele j� escreveu linda poesia.

Recebeu maus conselhos dos amigos. Risque-o.

Mas ele escreveu artigos pr�-nazis. Denunciou v�rios escritores.

N�o, ele � um grande poeta. Grande...

N�o o deixaremos publicar durante algum tempo. Risca-o.

- J� est�. - Quinze.

- Laszlo Pan. Risca-o. - Mas h� 22 cartas contra ele.

Ele recusou ajudar todos que se dirigiram a ele.

Aconselhou pessoas que estavam a ser investigadas a cometer suic�dio.

Estava assustado. � um rapaz do campo numa grande cidade.

J� fica feliz por dar uso ao traseiro.

- E os seus discursos racistas? - Convenceram-no a isso.

N�o vamos prejudicar um talento genu�no.

Assust�-los � o suficiente. No fim, eles trabalhar�o connosco.

S�o os diletantes que queremos apanhar.

A maioria dos verdadeiros fascistas... s�o ileg�veis.

E os fascistas que se passaram para o nosso lado? Deixamo-los?

Cada novo regime exige trai��o.

At� consolidar o seu poder, usa os traidores

e depois livra-se deles.

O que se passa?

Estou a pensar no meu pai.

N�o seja impaciente.

Meus caros camaradas,

foi-me dada a honra de falar em nome dos que, entre n�s,

foram condecorados neste dia especial, o anivers�rio do Camarada Estaline.

Expressamos a nossa profunda gratid�o para com o Camarada Estaline

por eliminar o fascismo da face da terra

e libertar o nosso pa�s do diab�lico dom�nio nazi.

O Camarada Estaline mostrou-nos o caminho.

� nosso dever continuar a sua luta

para encontrarmos todos os cobardes fascistas, onde quer que se escondam,

e destru�-los.

Ofere�o a nossa gratid�o eterna ao Camarada Estaline,

que nos conduz at� ao mundo de amanh�,

onde todos os homens ser�o iguais,

onde a explora��o e a humilha��o ser�o desconhecidas:

No mundo do Comunismo.

Acende a luz.

- Parab�ns, Major. - Obrigado.

- Parab�ns. - Obrigado, Rosner.

Chegue aqui, Ivan.

Quero apresentar-lhe alguns soldados de infantaria.

Este � o Major Sors.

Olhem bem para ele.

Camaradas, um dia, ter�o todos pavor dele.

N�o �, Ivan?

J� tem filhos?

Quem faz discursos t�o estimulantes, deve, de facto, procriar.

Por que parece infeliz? Todos aqui o adoram.

- N�o estou infeliz. - Olhe para ali.

Parece-me um homem infeliz.

- Passa-se alguma coisa? - N�o se passa nada.

�ptimo. Mas n�o vou perder tempo a bajul�-lo, como todos os outros.

At� o General disse que em breve seria Ministro.

�ptimo.

- Desculpe se estou a aborrec�-lo. - N�o est�.

- Mas gostava de falar consigo. - Tenho tempo.

- Quando? - Agora.

Agora n�o posso, estou de sa�da. Os meus filhos est�o sozinhos.

Posso acompanh�-la a casa.

O homem infeliz vai fugir e quer que lhe mostrem a sa�da das traseiras?

Tenho de ir.

N�o gosta de ser beijado?

N�o posso fazer isto. Tenho fam�lia. Que sou eu...?

Desculpe.

Veja.

Bom dia, Camarada.

Ontem � noite, vi-o a sair da �pera com Carole Kovacs.

Devo avis�-lo de que ela j� � casada.

Um conselho paternal.

Ela disse-me que tinha marido e dois filhos.

Ele trabalha no Minist�rio dos Neg�cios Estrangeiros?

O marido dela destruiu a sede da Gestapo, em Paris.

� um dos her�is da Resist�ncia francesa. N�o o queira como inimigo.

O marido dela pertence ao c�rculo do General.

A vida � cheia de surpresas, n�o �?

Voltemos ao trabalho.

Vi que a sua luz estava acesa.

Pe�o autoriza��o para entrar, Major.

Concedida, Major.

S� vim para lhe desejar boa noite.

Boa noite.

- Sou a primeira? - Sim.

Que tens feito desde que come�aste a fazer a barba?

Estive num campo de concentra��o.

�s capaz de ser o primeiro homem por quem podia apaixonar-me de verdade.

E o teu marido?

Admiro-o.

Durante a guerra, na Resist�ncia, ele fez-me sentir segura.

- � um homem muito corajoso. - Mas n�o o amas?

Amo, mas...

Acho que casei com ele porque sabia que iria proteger-me.

Foram tempos terr�veis.

- E agora, ele n�o te protege? - N�o sei.

Est�vamos em Paris durante a guerra. Foi diferente.

Todos n�s t�nhamos o mesmo objectivo.

Mas desde que regress�mos, n�o sei. Tudo mudou aqui.

Era melhor em Paris?

Pertenceu ao teu tetrav�.

Do nosso av�, Aaron Sonnenschein.

Talvez o d�s aos teus filhos, um dia.

� t�o lindo.

Este peixe est� maravilhosamente confeccionado, Kato.

Do que mais senti falta no meu ex�lio foi dos teus cozinhados.

- Gustave, est�s a seduzir a Kato? - Vejam s� quem est� com ci�mes.

Por que casaste com o Ignatz e n�o comigo?

Porque �ramos loucos de mais, meu querido.

O modo como os teus seios balan�avam...

Agora, j� n�o balan�am, lamento.

A tua av� era uma beleza. Ainda �.

Est�s preocupado que possa seduzir a tua av�?

Nada me surpreenderia nesta fam�lia.

N�o foi maravilhoso crescer nesta casa... Gustave?

O aspecto mais maravilhoso foi esperar ser tocado por ti.

Dia ap�s dia, ano ap�s ano.

Ningu�m pode tirar-me essa mem�ria.

E agora, a �nica coisa que falta �...

- O "Sabor da Luz do Sol".

- Era assim t�o bom? - Maravilhoso.

- Ficavas b�beda? - Um pouco.

- Um pouco b�beda e muito feliz. - H� dias, dei com uma garrafa vazia.

Mal descubramos a receita, a Kato e eu vamos fazer novas quantidades.

Est� ali um pouco.

Meu Deus! Que sabor maravilhoso numa gota t�o pequena.

Deixa-me ver.

- � delicioso. - Kato...

Ontem � noite tive um sonho...

Sonhei que o quintal estava cheio de flores.

E voc�s sabem o que significa esse sonho.

Significa que algu�m nesta casa est� apaixonado.

- Tens de aprender a tocar piano. - Como vou fazer isso? Quando?

O teu tio e eu podemos ensinar-te depois do trabalho.

O Gustave �s segundas, quartas e sextas

e eu �s ter�as, quintas e s�bados.

N�o tenho aulas aos domingos? Que vou fazer com tanto tempo livre?

Mas n�o podes viver sem saber tocar m�sica.

Morre, filho da puta!

N�o quero saber do meu emprego, do meu marido, s� quero saber de ti.

- Deixa-o. Vamos viver juntos. - Est�s a falar a s�rio?

Estou, sim. Arranjamos uma casa para n�s.

N�o conheces o meu marido. Ele encontrar-nos-ia e matava-nos.

- Somos adultos e amamo-nos. - E eu adoro os meus filhos.

Ele nunca me deixaria lev�-los comigo.

E eu nunca conseguiria deix�-los.

Para ti, � f�cil. �s s� tu.

Podes mudar de ideias e deixar-me passados uns meses. Como sabes?

- Como sabes que a nossa rela��o... - N�o. Eu quero-te. Eu sei.

- Ainda n�o acredito em ti. - Direi a todos. Direi ao teu marido.

Promete que nunca dir�s uma palavra sobre mim a ningu�m. Nem ao Knorr.

Por que est�s a falar dele?

Porque sei que ele � teu amigo.

Mas tamb�m � amigo de outras pessoas.

Promete-me.

Prometo.

- Que se passa? - Nada.

- Pareces estranha. - Estou com receio.

- De qu�? - De estarmos a ser observados.

- Por quem? - Por todos. N�o te conhe�o.

Isto � pior do que a Resist�ncia.

Sente-se, Camarada. Sente-se.

Sente-se!

Descobrimos uma conspira��o monstruosa

apoiada por dinheiro estrangeiro.

- Adivinhe de onde? - Dos Estados Unidos.

Errado.

De Israel.

A conspira��o � completamente sionista.

Tr�s elementos do Comit� Central,

dois generais, um major da Pol�cia, um grupo de m�dicos,

professores universit�rios... todos judeus!

Que deviam agradecer as suas vidas � Uni�o Sovi�tica e o Ex�rcito Vermelho.

Estes cavalheiros judeus pensam que conseguem enganar

trabalhadores pobres, pouco sofisticados como n�s,

porque leram o seu precioso Talmude.

Tamb�m est�o a planear apoderar-se do Movimento dos Trabalhadores.

Nenhum deles jamais sequer pegou num martelo.

Olhe para estas m�os. S�o m�os de trabalhador.

Estas pessoas est�o do nosso lado para se vingarem dos fascistas

e n�o porque acreditam no Movimento dos Trabalhadores.

Eles dizem que h� anti-semitas neste pa�s.

E de quem � a culpa?

Quem tem os melhores empregos? Os judeus... l� estamos n�s outra vez.

Vieram mais judeus dos campos de concentra��o do que os que envi�mos.

A sua fun��o � meter esses sacanas na pris�o

e acusar todos eles.

Isto n�o ser� assim t�o f�cil, Sors. Voc� tem uma liga��o pessoal a isto.

- Eu? - Andor, Knorr...

...o seu querido patr�o. Ele � um dos cabe�as disto tudo.

� imposs�vel.

Temos filmagens do Knorr

a falar com agentes israelitas.

Leia isto.

Voc� pode ser suspeito por estar t�o pr�ximo do Knorr.

Mantenha judeus afastados da sua equipa.

Diga-me do que est�o a acusar-me.

Conspira��o sionista...

...com o intuito de derrubar o Estado Socialista.

Est�o loucos?

Mandaram-me interrog�-lo.

Vamos come�ar.

Obrigado.

Quando se alistou na conspira��o sionista contra o Estado?

Nunca. Nunca me alistei em nenhuma conspira��o contra o Estado.

Temos provas filmadas do seu encontro com agentes sionistas

no jardim do museu, no dia 15 deste m�s...

Feitas pelo seu amigo realizador. Quem fez o meu papel?

Isto n�o � uma brincadeira.

Que liga��es tem com agentes sionistas?

Nenhumas. J� lhe disse.

Nunca me encontrei com agentes sionistas. Nem conhe�o nenhuns.

- Nem antes da guerra? - N�o.

E no seu orfanato?

J� ouviu falar da palavra "sionismo"?

- Claro que sim. - Onde?

No orfanato tinha um amigo...

Ele e alguns dos seus amigos queriam emigrar para a Palestina.

Mas eu juntei-me aos Jovens Socialistas.

Ent�o...

Por que n�o foi para Israel com os sionistas,

se o seu melhor amigo estava com eles?

Porque eles eram religiosos e eu n�o.

Se n�o houvesse os Jovens Socialistas,

provavelmente estaria agora a viver num "kibbutz", em Israel.

N�o est� a ver?

N�o tive de ter vergonha das minhas origens nem de me orgulhar delas.

O que lhe aconteceu durante a guerra?

Fui apanhado e deportado para Auschwitz.

- Havia l� sionistas? - Sors!

- Chega deste disparate. - N�o, n�o � disparate.

� melhor que compreenda que isto n�o � um jogo.

Estou a fazer-lhe perguntas sob ordem de pessoas superiores.

Como oficial deste departamento, � um suspeito. Est� preso.

Agora, se n�o responder �s minhas perguntas, as coisas v�o piorar.

E voc� percebe o que quero dizer. H� aqui muitas provas

que o aponta como um dos l�deres desta conspira��o.

Por isso, se n�o confessar, n�o sair� daqui.

N�o retenha a respira��o.

Por que est�o os judeus envolvidos em tudo? N�o lhe chegou Auschwitz?

At� mesmo voc� nunca se libertar� de Auschwitz. Foi o nosso baptismo.

Mas h� algo que deve saber.

Sobreviver a Auschwitz n�o torna um homem melhor, ou maior.

Est� marcado na sua mem�ria. Nunca poder� ser apagada.

� esse o problema.

Qual o intuito desta vida miser�vel?

A pr�pria vida... estarmos aqui.

H� muito tempo �ramos felizes.

S� restam dois de n�s. S� h� dois Sonnenschein.

Vai tudo voltar a ser t�o dif�cil, av�.

Que raio quer dizer com "ele est� a negar"?

D�em uma tareia a esse filho da m�e.

O homem j� sofreu muito, General. Ele sobreviveu a Auschwitz.

� estranho como o sofrimento dos judeus parece comov�-lo.

N�o sabe que outras pessoas tamb�m sofreram?

Pessoas vulgares foram largadas na frente, para combater,

ou ficavam em casa e combatiam � entrada de suas casas.

- Estas pessoas n�o interessam? - Com o devido respeito, General,

ap�s a sobreviv�ncia em Auschwitz, uma tareia n�o o far� falar.

N�o � o homem que interessa, Sors, mas o tipo de tareia.

N�o me parece que a culpa do Knorr possa ser provada sem uma confiss�o.

- Ent�o, d�em-lhe uma tareia. - Ele � um comunista firme.

� um pol�cia ou o raio de um escuteiro?

Se ele continua a dizer que � comunista,

fa�am-no entender que a confiss�o dele � importante para o partido.

A nossa primeira prioridade � dar a conhecer ao mundo

que o Movimento dos Trabalhadores n�o est� sob o controlo do sionismo

e que Marx e Engels n�o s�o profetas judeus.

A prop�sito, n�o sabe a sorte que tem por o seu tio ter morrido.

"Reuni�o dos veteranos no Hotel Gellert".

Esta gente vivia no ocidente e devem ter levado uma lavagem ao c�rebro.

Teremos estes traidores na nossa m�o dentro de duas semanas.

Outra quest�o...

...para quem � que a sua av� tira fotografias?

Para ela pr�pria. � apenas uma fot�grafa...

Uma fot�grafa?

Est� rodeado por pessoas question�veis, n�o est�?

Tem namorada? Se sim, investigue-a.

Vamos tentar evitar mais surpresas desagrad�veis.

- Tenho de perguntar-te uma coisa. - Pergunta.

- O caso Knorr... - N�o vou falar nem ouvir falar disso.

- � importante para mim. - N�o quero saber nada sobre isto.

Por que me pediste para vir aqui?

N�o me envolvas nisto. Por favor, n�o.

Quem beneficia em fazer de mim o inimigo?

Ou ser� que volt�mos ao anti-semitismo como solu��o?

N�o h� ideias novas?

Em Outubro de 1944 voltou a ser capturado pelos fascistas.

Foi condenado � morte e fuzilado.

O seu corpo caiu ao Dan�bio, sob a ponte Margaret.

Por que continua vivo?

Toque, se n�o acredita no que v�.

Viraram-no contra mim.

Somos crian�as de uma ra�a infeliz.

Quem � o traidor? Voc�, ou eu?

Como se atreve a apresentar-me esta merda de confiss�o?

- Isto � uma brincadeira? - General, vejo-me obrigado a informar

que as provas acabaram por n�o ter fundamento.

Estou convencido que Knorr � inocente de pr�ticas de sionismo e conspira��o

para derrotar a Rep�blica do Povo.

- Montaram-nos uma armadilha. - Cuidado, Sors, ou ser� o pr�ximo.

Capit�o Rosner!

- General? - Vai tratar do caso Knorr.

Quero que interrogue o Sors sobre o relacionamento dele com o Knorr.

- Como suspeito? - Como testemunha... para come�ar.

Tem sorte por eu estar directamente envolvido na sua grande promo��o.

Deixa a Pol�cia antes que seja demasiado tarde.

- Foi por isso que me chamaste? - Amo-te, Carole.

Estou a pedir-te que fujas comigo.

Para onde? Para o mato fornicar com a minha saia para cima?

Estava errada a teu respeito, em amar-te. Julguei-te diferente.

Preciso de algu�m seguro, calmo, forte e n�o um neur�tico como tu.

Achas que corres perigo por causa de mim?

Ent�o...

...acabou?

Sim.

Como queres acabar?

N�o � assim t�o complicado.

Levantas-te, sais pela porta e fecha-la.

�s uma cabra insens�vel.

S� amas um homem se ele alimentar a tua ambi��o.

� a verdade.

Queres a verdade? Est� bem.

Estou gr�vida e n�o sei quem � o pai.

O teu marido?

Ou ele, ou tu.

O que vais fazer?

Vou tratar do assunto.

Est� um homem sob a janela.

Acho que j� o vi antes.

Vai para o inferno.

Uma vez, deixei o teu av�. Apaixonei-me por outro homem.

O teu av� e eu n�o est�vamos a entender-nos.

Ele n�o era o tipo de pessoa que eu esperava que fosse.

O outro homem era...

...apaixonado, um amante maravilhoso.

Isso � importante, querido.

Ele deu-me uma medalha gravada com as palavras "Amo-te".

Mas quando o teu pai teve problemas com os Comunistas, voltei para ele.

Tens de tentar encontrar alegria na tua vida.

J� viste como este caf� � delicioso com leite quente?

Na Primavera, Estaline morreu.

E a luta pelo poder come�ou dentro do Partido Comunista.

Os comunistas sovi�ticos revelaram os horr�veis crimes de Estaline

e as v�timas de Estaline, homens como Andor Knorr, foram aclamados her�is.

O General foi preso, mas nada mudou.

Um bando substituiu outro e a ditadura comunista continuou.

Por ter trabalhado directamente com Andor Knorr,

pediram-me para identificar o seu corpo.

Soube que Knorr fora t�o severamente espancado,

que morreu de hemorragias internas.

Desculpe, incomod�-lo. Chamo-me Sommer.

A vi�va do Andor � minha irm�.

Ele falou muito de si e do seu pai, claro, o campe�o Ol�mpico.

Importa-se de fazer um discurso no funeral?

Como sabe, ele era ateu. N�o posso pedir a um Rabi.

Guarda de Honra, preparar o fogo de sauda��o.

Fogo!

Ombro-arma!

Guarda de Honra, esquerda.

Marchar.

Com licen�a.

Andor Knorr...

Um dos seus assassinos dirige-se � sua campa, para se despedir.

Fui o seu primeiro interrogador,

a quem voc� treinou para defender a causa, sem piedade.

Ach�vamos que �amos criar um mundo melhor para as pessoas,

mas, em vez disso, torn�mo-lo muito pior.

Como servidores de criminosos famintos pelo poder,

tamb�m n�s nos torn�mos criminosos.

Os nosso pol�ticos mentiram ao povo, dizendo que praticaram o bem

e depois o povo mentiu aos pol�ticos, dizendo que acreditava neles.

N�o estou apenas a despedir-me de si,

tamb�m estou a despedir-me de mim.

Fiquei parado, a ver o meu pai...

...ser torturado e executado e eu n�o fiz nada.

Depois, vi-os fazer o mesmo a si

e n�o fiz nada.

Na sua sepultura prometo fazer tudo o que estiver ao meu alcance

para punir aqueles que transformaram os ideais em crimes.

Logo a seguir � guerra, descobri uma cita��o na secret�ria do meu pai.

Dizia: "Temos receio de ver claramente

e de sermos vistos claramente."

Na altura, n�o percebi o seu significado,

mas agora percebo perfeitamente,

pois isto � precisamente o que se passou connosco.

Andor Knorr...

...meu amigo...

...adeus.

- Porque est� a chorar? Est� de luto? - Estou a avis�-lo.

Disse coisas no seu discurso que n�o toleramos a ningu�m,

nem se os tempos tivessem mudado. - V� para o caralho!

- Sabe com quem est� a falar? - Com quem?

Outro incidente assim e sai da Pol�cia.

� s� dizer. Estou pronto a sair.

Sabe qual � a diferen�a entre um trabalhador e um judeu?

Se um trabalhador n�o gosta de alguma coisa, vai-se embora sem se despedir.

- Um judeu despede-se, mas fica. - Rosner, v� para o caralho!

Sa� logo da Pol�cia.

Sabia que tinha de trabalhar contra o regime,

que expor os crimes deles iam ajudar-me a lidar com a minha culpa.

OUTUBRO DE 1956

Comunismo nunca mais!

A confus�o deu origem ao caos.

O povo reuniu armas contra o Ex�rcito Sovi�tico

e, mais uma vez, deu-se a revolu��o.

Foram dez dias de euforia inicial,

durante os quais a liberdade parecia alcan��vel.

Mas quando os tanques russos apareceram em Budapeste,

o povo foi para a rua e lutou contra os intrusos sovi�ticos.

Vamos ser escravos, ou homens em liberdade?

Eis a quest�o. Respondam-me!

Por todos os deuses da Hungria,

juramos aqui que jamais voltaremos a envergar o manto da escravatura.

Amigos...

Amigos, o comunismo est� a desmoronar-se.

Podem passar sobre n�s com os tanques e espalhar o terror,

mas a ditadura comunista foi derrotada!

Estamos unidos, hoje, o juiz e os acusados... unidos!

Esta revolu��o n�o � sobre pol�tica, mas sobre moralidade!

Deixem-nos mostrar-lhes a nossa for�a.

O mundo inteiro est� a ver-nos. N�o podemos ter medo!

Vamos! Mostrem-lhes!

Por fim, a Resist�ncia era in�til. A Revolu��o falhou.

Espere!

� bom t�-lo de volta.

Um filme com o meu discurso foi usado em tribunal como prova contra mim.

Fui condenado a cinco anos de pris�o.

Se achas que fizeste o que era certo, consegues suportar qualquer coisa.

Tem a certeza?

Assisti ao colapso de Governos, uns a seguir aos outros,

e todos acham que conseguem durar mil anos.

Cada novo Governo declara sempre o �ltimo criminoso, corrupto

e promete sempre um futuro de justi�a e liberdade.

N�o � permitida discuss�o pol�tica. O seu tempo acabou.

Meu querido, n�o est�s na pris�o, eles � que est�o.

Levante-se, por favor.

Fui libertado tr�s anos mais tarde.

- Falta o meu rel�gio. - O que procuras?

- O meu rel�gio de bolso. N�o est� c�. - Se o puseste no saco, continua l�.

N�o est� aqui nenhum rel�gio. Veja.

- Desapareceu. - Ent�o, � porque nunca esteve a�.

Como assim? Eu pu-lo aqui dentro. Estava aqui.

Dizes que te roubei?

N�o, mas o rel�gio que herdei do meu bisav� desapareceu.

Pu-lo neste saco e n�o est� c�.

Importa-se de voltar para tr�s e ver se caiu do saco?

Maluco.

N�o est� l� nada.

N�o me vou embora sem ter o meu rel�gio de volta.

- Guarda. - Saia.

Sim?

- Procura algu�m? - Chamo-me Sors.

- Procuro a minha av�. - Deve ser o que prenderam.

Av� Sors...

O seu neto est� aqui.

V�, av�? Disse-lhe que mais tarde ou mais cedo deixavam-no sair.

Vem at� ao meu quarto. Este � o meu neto.

- Ledniczky. - Ivan Sors.

Ilona Ledniczky.

Quem s�o estas pessoas, av�?

N�o posso ter um grande apartamento s� para mim. Mas n�o faz mal.

S�o boas pessoas.

- E a Kato? - A Kato est� �ptima.

Voltou para a aldeia dela.

N�o suportou partilhar a casa.

Est� mais velha do que eu.

H� espa�o para mim?

Talvez possamos ficar com o quarto da criada, mas est�o l� cinco pessoas.

- Perdi o rel�gio de bolso, av�. - N�o importa, querido.

Coisas bem mais importantes t�m desaparecido.

Amor... pessoas... o que � um rel�gio de bolso?

Pensei no bisav�, que talvez mo tivesse tirado.

Talvez seja bom acreditar em algo.

Nunca fui muito crente.

Se Deus n�o existe e nunca existiu...

...por que sentimos tanto a Sua falta?

Por que nos torn�mos comunistas, av�?

Era o nosso destino.

As leis para os judeus, os campos de concentra��o...

Afinal de contas, foram os Comunistas que nos libertaram.

Nunca poderia ter sido comunista, como tu, ou como o Gustave,

mas, mesmo quando era crian�a, sentia repugn�ncia

ao ver como lutavam os pobres por migalhas no ch�o, na carrinha do p�o.

A pol�tica tem destru�do as nossas vidas.

Ao mesmo tempo... a vida era bela.

Gostava de acordar, todas a manh�s...

...sempre tentei fotografar o que h� de belo na vida.

Mas nem sempre foi f�cil.

O que est� a ver, av�?

A luz est� sempre a mudar.

O que queres fazer da tua vida?

N�o sei.

Tenho de comparecer na Pol�cia uma vez por semana.

Dif�cil...

Dev�amos tentar encontrar a receita.

Continua escondida nesta casa. Procura muito bem por todo o lado.

"Procurar" � o �nica coisa que tenho feito.

Tem a certeza que este livro de receitas existe,

ou s� ouviu falar dele? - Vi-o quando era mi�da.

Ilona, importas-te que o meu neto procure na estante?

- Estamos � procura de uma coisa. - Venha. Entre, av�.

Come�o por baixo?

N�o, n�o.

V� aqui atr�s.

Av�?

- N�o consigo respirar. - Abra a janela.

Estou aqui.

Como se chama?

Consegue dizer o seu nome, por favor?

Valerie Sonnenschein.

Av�, o seu nome � Sors.

Valerie Sors.

Sra. Ignatz Sors.

Valerie Sonnenschein.

- Como est�s? - Bem, obrigada.

- E as crian�as? - Est�o �ptimas.

- N�o mudou nada? - N�o. Nem por isso.

Lamento n�o ter dito nada no teu julgamento.

- Os meus filhos e a minha fam�lia... - N�o tem import�ncia.

N�o me importava de falar contigo, se n�o achasses t�o desagrad�vel...

N�o, claro que n�o.

- Preciso do teu n�mero de telefone. - Com licen�a.

Ela n�o sofreu.

A bengala dela est� ali ao canto.

Major, como est�?

Est� contente por ter sa�do finalmente da pris�o?

- Linda bengala. Magoou a perna? - N�o.

N�o tenho rosto.

Meu querido filho Ignatz,

deixaste agora a seguran�a na casa onde nasceste,

a fim de atingires o teu objectivo de vida: tornares-te juiz.

Criar leis, como Mois�s fez,

praticar justi�a, como o Rei David,

e exercer poder, a partir do qual Deus nos marcou, ou protegeu, talvez,

durante milhares de anos.

Est�s a entrar num novo mundo, onde ter�s certamente sucesso,

pois tens o conhecimento.

Os estudos foram sempre o nosso religioso dever como judeus.

A nossa exclus�o da sociedade tem-nos dado a capacidade

de nos adaptarmos aos outros e de nos apercebermos das liga��es

entre o que parece diferente.

Mas se sentes que tens poder, enganas-te.

Se sentes que tens o direito de estar � frente dos outros,

por pensares que sabes mais do que eles, est�s errado.

Nunca te deixes levar pelo pecado da vaidade.

A vaidade � o maior dos pecados,

a fonte de todos os outros pecados.

Nunca abandones a tua religi�o por Deus.

Deus est� presente em todas as religi�es.

Mas se a tua vida se tornar uma luta pela aceita��o, ser�s sempre infeliz.

A religi�o pode n�o ser perfeita, mas � um barco bem constru�do,

que pode manter o equil�brio e levar-te � outra margem.

A nossa vida n�o passa de um barco � deriva, na �gua,

equilibrado pela permanente incerteza.

Sobre as pessoas que ir�s julgar, fixa isto:

Tudo o que fazem � lutar para encontrar uma esp�cie de seguran�a.

S�o apenas pessoas como n�s.

Assim sendo, n�o deves julg�-las na base da apar�ncia, ou do boato.

N�o confies em ningu�m, examina tudo por ti pr�prio.

N�o te associes ao poder. Despreza as posi��es dominantes.

N�o ostentes o que � teu.

Possuir bens e propriedades, n�o significa nada, no final.

Bens e propriedades podem ser consumidos pelo fogo,

destru�dos por uma inunda��o, extorqu�dos pela pol�tica.

N�o aceites o que n�o conheces.

Isto causa ansiedade e ficas doente.

Exerce disciplina.

Penso em ti, com todo o meu amor.

O teu pai, Emmanuel Sonnenschein.

Gostaria de solicitar a altera��o do meu nome.

- Quer mudar o seu nome? - Quero.

- Mudar "Sors"? - Sim.

Para qu�?

Sonnenschein.

Soletre, por favor.

S- O-N-N-E-N-S-C-H-E-l-N.

E qual � o motivo?

Por que quer alterar o seu nome?

Por motivos familiares?

Problemas no trabalho?

Problemas legais?

Pela primeira vez, andei na rua sem sentir que estava a esconder-me.

O meu bisav� Emmanuel deve ter sido o �ltimo Sonnenschein a sentir isto.

Sabia que a �nica forma de encontrar um significado para a minha vida,

que a minha �nica hip�tese nesta vida seria reconhec�-lo.

Lembrei-me das palavras da minha av�.

"Tenta fotografar o que a vida tem de belo. "

Na altura em que acabei esta hist�ria,

a terceira e tr�gica contrariedade do s�culo XX tinha acabado.

Depois da monarquia e do governo fascista,

o regime comunista tamb�m se esfumou.

Lembro-me do livro de receitas que t�nhamos perdido

e percebi de repente que o segredo da fam�lia

n�o seria encontrado nas suas p�ginas.

Foi preservado pela minha av�,

a �nica na fam�lia que tinha o dom de respirar em liberdade.

Tradu��o Carlos Valentim

Adapta��o e Legendagem S�lvia Santos / CRISTBET, Lda.

Subtitle Ripped by Bruness @ iNSPiRE

Revis�o: demamussa | 2011

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