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O ex-núcleo de produção do instituto português de cinema apresenta
um filme fabricado por joão césar monteiro
Indo pela serra acima Diante do meu rebanho
Repicando o meu caldeiro E remendando a minha samarra
Quando me saiu uma loba Que era grande e era parda
história da Branca-Flor extraída de versões compiladas por
E levou-me uma cordeira A melhor do meu rebanho
textos: ésquilo (fragmento das eumérides)
Acima sete cachorros Abaixo cadela guardiã
Se me agarrardes a loba Boa ceia ganhareis
E se não ma agarrardes Ceareis com o cajado
música popular de Trás-os-Montes
E correram sete léguas Todas sete por terra arada
Ao fim das sete léguas Já a loba ia cansada
Peço-te a ti pastor Por Deus e pela tua alma
Que me chames estes cães Que me vou pela montanha
Tomai cães a cordeira Levai-a para o rebanho
Não queremos a cordeira Que foi mordida por loba
Só queremos a tua pele Para o pastor uma samarra
De onde vens?
Deixa-me guiar os teus sonhos.
Suster como a branda cabeleira das árvores ferradas à terra
sustêm a seiva e aragem.
Suster o desejo do par.
Pelos caminhos menos rectos prosseguirá a errância
sem entace aparente.
Sobre o rastro vêm inscrever-se os mais antigos sinais de toda a trama
e a perseguição.
Eles derivam sobre o trilho esquivo da promessa impraticável,
absortos como os deuses numa esperança mortal.
Na provação sem palavras, indesistentes,
eles são criados homem e mulher;
silentes sob a garra e larguíssimo voo das grandes aves,
do costume que agoniza,
da lenda tão antiga de uma reparação que sangre.
Contemplai como é povoado
de tritos simples e cristais da memória dos povos
o deserto do amor crescente, a travessia da culpa repartida,
desigual.
- Boa tarde. - Boa tarde.
- Boa tarde. - Boa tarde.
Que linda é!
- Parece uma moura! - Parece mesmo uma princesa.
Será alguma moura encantada?
Será? Se calhar será.
Antigamente havia muitas mouras encantadas.
Diziam as lendas que quando estiveram aqui os mouros
ficaram muitas mouras encantadas com grandes riquezas
e há quem saiba desencantar as mouras.
Mas não são para mim nem para ti.
Parece mesmo um princesa.
Se acaso é uma moura encantada ainda deve ser dos tempos de Maoma.
Diziam os antigos que nos tempos de Maoma, sabem quem era Maoma?
- Sim. - Maomede.
Maomede era o rei dos Árabes,
era de Damasco,
não sabeis onde é Damasco? - Nós não.
Damasco é a capital da Síria,
que é ao pé de Jerusalém.
E dali era o tal Maomede,
o tal Maomede que era o rei dos Árabes.
E depois,
ele era um criado de um rico dos Árabes,
de Damasco.
E depois, era um criado, era um caravaneiro
e depois morreu o patrão e casou com a mulher.
Como a mulher era rica,
com a riqueza que tinha e com a fama que teve,
chegou a ser rei dos Árabes.
E depois, um comandante das suas tropas chamado Tarik
mandou-o conquistar a Península Ibérica.
Vós não sabeis o que é a Península Ibérica?
- Nós não sabemos. - É Portugal e Espanha.
Não o mandou para cá com o sentido de conquistar terras.
Mandou-o porque ali tinham a sua religião, era o Alaenismo.
Como os nossos missionários
que partiram para Angola e Moçambique
a estender a sua religião.
Com as tropas que arranjou por essa África fora
Tarik fez a guerra do Guadalete
contra os lberos, dizia a história.
E depois, D. Rodrigo, que era o rei dos Visigodos
perdeu a guerra do Guadalete.
E depois os antigos, com esta dança dos pauliteiros,
faziam uma cantiga "D. Rodrigo perdeu a guerra".
D.Rodrigo era o rei, Pelágio era um príncipe...
D.Rodrigo era um rei
e depois fizeram-lhe uma cantiga que dizia assim:
Convidaram a D.Rodrigo
Há pão e há vinho E há carneiro por assar
Mas quanto mais valia Não o convidar, não o convidar
Os antigos também já faziam pouco uns dos outros.
E então era o tempo dos mouros.
E muitas mouras diz que traziam um fio de ouro.
E depois iam enroscando o fio de ouro
e se não se enganassem dizendo algumas palavras que eles sabiam,
se não se enganassem, o fio saía, saía, fazendo um novelo
e no fim saía moura encantada.
Se se enganavam nas palavras a moura ficava encantada outra vez
e não adiantavam nada.
Cada um trabalha no seu ofício.
Eu, se soubesse desencantar mouras,
ia ver se sacava uma tão bonita como aquela que aqui passou há bocado.
Mas não sei as palavras.
Porque as mouras diz que há que desencantá-las pelo meio da noite.
Eu pelo meio da noite dá-me medo. Há o lobo, não posso sair.
Nós temos muitos nabos A cozer numa panela
Que não têm sal nem unto Nem presunto nem vitela
Olha que alforjas Olha que alforjas
Umas delgadas Outras mais gordas
Olha que alforjas Olha que alforjas
Umas de linho Outras de estopa
Nós temos muitos nabos A cozer numa panela
Que meu pai os apanhou A fazer própópó
Olha que alforjas Olha que alforjas
Umas delgadas Outras mais gordas
Olha que alforjas Olha que alforjas
Umas de linho Outras de estopa
Anda cá se quer vir Pega na capa e vamos
Que o caminho é de todos E a capa é de nós ambos
Olha que alforjas Olha que alforjas
Umas delgadas Outras mais gordas
Olha que alforjas Olha que alforjas
Umas de linho Outras de estopa
Dizia um livro de ronda que está enterrado um tesouro
desde a Penha das Palomas até à Penha do Mouro,
mas eu para mim não o quero porque não o sei gastar.
- O teu marido veio? - Sim.
- E que te trouxe? - Um abanico.
- E quanto custou? - Um real e um quarto.
Ai Jesus Meu escarabanilho
Que lhe custou Um real e um quarto
Ai Jesus Meu escarabanilho
Que lhe custou Um real e um quarto
Ainda me lembro destas coisas, destes bailes antigos.
Ainda me lembra quando o Tio São Roque...
Tu não te lembras do Tio São Roque?
Quando o Tio São Roque andava a fazer santos nas arribas?
Já não te lembras quando o tio São Roque fazia santos nas arribas?
Enquanto esculpia o nariz e os olhos
fazia-nos estar com uma perna no ar,
senão o santo não fazia milagres.
E nós ficávamos com uma perna no ar enquanto ele fazia o nariz e os olhos.
Depois tardava muito e nós cansados, cansados,
deixávamos cair e ele ralhava connosco,
dizia que o santo não fazia milagres por culpa nossa.
Lembro-me destas coisas assim, sabes?
Tu também não te lembras do Tio São Roque?
Lembro, lembro muita vez.
Ele tinha tanto santo feito aí, em madeira.
Santo António, com o cajado, na sua janela.
E nas arribas fazia-os em pedra. Aítinha muitos santos.
Ele gostava muito do Santo António.
Ainda me lembro do nome de alguns santos.
São Calisto. Ele gostava muito de São Calisto.
- São Calisto também era seu amigo. - E São Gregório.
Ele obrigava-nos a ficar com uma perna no ar.
Nós, garotos, todos cansados, e ele não nos deixava descansar,
senão os santos não faziam milagres.
Eu lembro-me.
Muitos desses santos existiam ainda não há muito tempo.
- E não eram mal feitos. - E os da janela também não.
A janela, tal como existia, com todos aqueles santos,
hoje valia bom dinheiro.
Não a haviam de ter estragado, embora a tirassem.
Havia pelo menos 4 ou 5 santos feitos na madeira da janela.
Estava uma coisa bem feita.
A janela tinha uma coisa redonda como uma estrela.
É isso,
e os santos estavam em ambos os lados na madeira das janelas.
Essa janela, se não a tivessem estragado,
hoje pagavam bom dinheiro por ela.
Os rapazes atiravam pedras à janela, por causa dos santos.
Porque eram mal educados.
E a cruz que fez perto da fogueira?
Ainda lá há vestígios.
Parece que foi a tia Sendinesa que partiu essa cruz.
E mais lá em cima, nesse rochedo que se chamava Pedra Aguçadeira,
Aí estava o relógio.
Metíamos uma pedra no meio e a sombra marcava as horas.
Como uma mediana.
Eu lembro-me.
Era o avô da Isabel.
- Não te lembras? - Dele sim.
Eu ainda me lembro quando ele fez dançar um grupo de gaiatos
no telheiro do meu cunhado, Filipe,
esse telheiro que herdámos
das irmãs do pai do Augusto.
Eu lembro-me de quando lhe guardávamos as ovelhas.
Ia-nos esperar todas as tardes quando regressávamos
e quando tinha tempo ia esculpir um santo.
Trazia até um pequeno cantil de vinho.
Sim, sim, sempre.
Obrigado.
Está bom.
Hoje temos um dia frio.
Mas olhe que panorama tão bonito, estas plantas, esta erva tenrinha.
Faz-me lembrar a história do burrinho.
A senhora não sabe a história do burrinho?
Quer que eu lhe conte a história do burrinho?
Então vou contar. Olhe,
era uma vez um burrinho
que num prado mui mansinho pastava com mansidão.
E ao pé dele descansava o seu dono que mostrava
ser feliz como os que são.
Mas eis que estranho ruído chega dos dois ao ouvido
e põe-se o dono a perguntar: "Ouviste ou foi ilusão?
São ladrões olha que são que te vão levar consigo."
Volta o burro o doce olhar ainda a roer devagar
e diz para o dono que o guarda: "E se um ladrão me levar
"acaso terei que usar em cima desta outra albarda?"
"Isso não", responde o dono. "Ainda que ladrões te tomem
"e com ladrões tu te vás essa ideia tola afasta
"pois uma albarda te basta e outra albarda não terás".
Então, disse-lhe o burrinho:
"Pois então fuja você porque o perigo certo é.
"Eu por mim fico a pastar.
"Pois se esta albarda que me assenta não diminui nem aumenta
"de que me serve abalar?"
Ensinava este burrinho a quem se mostra tolinho
e tratos a vida dá que é tolice afadigar-se
e em passos longos cansar-se para ficar onde está.
Por isso, digo eu:
"Seja pequeno ou grande, o meu voto ninguém merece.
"Porque depois do meu voto dado o dono do voto cresce
"e depois de estar lá em cima olha abaixo e não conhece".
Na desgraça da vila e escassez dos seus bens,
eu atrevi-me a prometer ao herói uma vitória contra as hostes do mal.
A minha própria vida.
A minha invocação tomou o alento da grande fé dos contadores de histórias.
Eu não sabia
que ao conduzir o emissário jovem a uma errância indecisa
me condenava à abjuração de todos os meus poderes.
Tomando ele o meu corpo e silêncio, vagueávamos por infernos pobres
sob o sorriso benévolo dos que esqueceram já as fórmulas mágicas
do desatamento dos encantos.
Eu me queria mulher ao desterrá-lo
da pequena comunidade de vivos e de mortos onde tinha comércio,
prometendo-lhe uma destinação muito mais extrema.
Ignorava porém como essa passagem régia
havia de fazer-se pelo dentro do meu corpo
nas suas terríveis metamorfoses.
Como uma pátria que de novo divaga
as suas lendas de esplendor e infortúnio,
eu, ocultamente suplicante,
perseguia a paz e a fecundidade de outra história.
Quando a raposa vai aos pintos Mal para os pais, pior para os filhos.
Ora escutai: estamos em conselho por causa do gado que nos falta.
Que quereis fazer? Damos uma volta à procura dele?
Para ver se há pegadas...
ou para descobrir a maneira como eles desapareceram.
Mas onde estão as pegadas?
Eu fui com o gado e não as vi, o gado não está assustado,
não vi lobos e ainda ontem o Xaíco se queixou que lhe falta uma ovelha.
O pastor também não viu pegadas.
De qualquer maneira é preciso procurá-las.
Não é ninguém da aldeia, aqui nunca se rouba.
Nem a roupa nos estendais, nem o pão nas eiras.
Então vamos dar uma volta por aí e não procuramos aqui na aldeia.
Damos uma volta durante o dia.
- E quando quereis ir? - Amanhã.
E a que horas vamos? Vamos cedo?
Bom, então escutai:
levantamo-nos cedo, almoçamos e partimos.
Levamos merenda e um cântaro de vinho
para não perdermos tempo a voltar.
Já estão todos avisados e amanhã partimos cedo.
Toca com a certeza que tens todo o tempo e todo o espaço.
Que te passou rapaz, que andas tão triste?
Que te aconteceu?
As ovelhas estão-me a desaparecer. Não sei que hei de fazer.
Isso é arte do Diabo. Vai por este caminho abaixo,
encontras um ribeiro com três meninas a banhar-se,
duas são más, uma é boa, é Branca-Flor, pede-lhe que te ajude.
Mira-me Miguel Como estou de bonitinha
Saia de burel Camisinha de estopinha
Tenho três meninas Não tenho que lhes dar
Ponho-me a cantar E ensiná-los a bailar
Mira-me Miguel Como estou de bonitinha
Saia de burel Camisinha de estopinha
Baila, Pedro, baila Senhora quero pão
Baila mais um pouco Que logo to darão
Mira-me Miguel Como estou de bonitinha
Saia de burel Camisinha de estopinha
Tenho três ovelhas E mais uma cordeira
Quero-me casar E não acho quem me queira
Mira-me Miguel Como estou de bonitinha
Saia de burel Camisinha de estopinha
Vamos para cama Vamos dormir
Eu levo a manta Eu levo o candil
Mira-me Miguel Como estou de bonitinha
Saia de burel Camisinha de estopinha
Vi vira gaita O gaiteiro não
Ó que pena tenho No meu coração
Mira-me Miguel Como estou de bonitinha
Saia de burel Camisinha de estopinha
- Dou-te a roupa com uma condição. - E qual é a condição?
- Prometeres que me proteges. - E como te posso proteger?
Que o teu pai restitua as ovelhas que me roubou.
Proteger-te-ei. Mas nunca dirás a meu pai que me viste ou me falaste.
Que queres?
Venho para que entregue as ovelhas que roubou.
Primeiro tens que me trazer um canado de vinho
feito com as uvas deste cacho.
Não te inquietes. Descansa a cabeça no meu regaço.
Aqui lhe trago o vinho.
Viste Branca-Flor?
Macá e malá se vi Branca-Flor ou esta a mim.
Entrego-te o rebanho quando tragas um pão feito desta farinha.
Deus acrescente o pão no forno e a Graça de Deus pelo mundo todo.
Em louvor da Virgem Maria, um Pai Nosso e uma Ave Maria.
Anda por aqui Branca-Flor.
Macá e malá se vi Branca-Flor ou esta a mim.
Só te entrego o rebanho quando me trouxeres uma guitarra
que perdi no fundo mar.
Mata-me
e atira-me ao mar.
Depois chama por mim três vezes.
Se à terceira não acudir, ai de mim e ai de ti.
Branca-Flor!
Branca-Flor!
Branca-Flor!
Entrego-te o rebanho, se casares com uma das minhas filhas.
Escolhe a que mais te agradar.
Vamos embora!
Canta a calhandra na serra
E lá no ar a cotovia
E à beira do riacho
Canto o melro ao vir o dia
Tirolero alegria
Tirolero viva a folia
Bora.
Anda, burrinho.
Anda.
Anda, vamos embora.
Isto é terra de pobre, quem não trabalha não come.
Há que trabalhar muito para não ter nada.
Arre, burrinho, vamos embora.
Vamos. Anda, burrinho.
Vamos, anda burrinho...
Vedes esta espada?
É a prova de que o meu pai nos quer matar.
Precisamos de fugir, agora.
Logo que, com o dia,
desapareçam os poderes de minha mãe.
Mata-os!
Ide aparelhar aquele cavalo, que anda como o pensamento,
e não o que corre como o vento.
Assim, ninguém nos poderá alcançar.
O meu menino se transforme numa horta e eu num hortelão.
Vistes passar por aqui um rapaz e uma rapariga,
montados num cavalo que corre como o vento?
Vendo alhos e compro nozes, compro nozes e vendo alhos,
vendo alhos e compro nozes, compro nozes e vendo alhos.
Que o meu menino se transforme numa ermida e eu num ermitão.
Vistes passar por aqui um rapaz e uma rapariga,
montados num cavalo que corre como o vento?
Tiim-tim-tim, toca a missa, vai o padre para o altar.
Tim-tim-tim, toca a missa, vai o padre para o altar.
Divagámos, claudicantes, como um exército dual
pelas veredas mais desviadas,
par solitário em demanda da grande via onde acháramos
a abolição simultânea do vício da soberania e do costume gasto.
Ofuscado pela névoa que a ornava dos grandes esplendores remotos
das águas móveis na aurora e dos globos estelares nocturnos,
eu seguia essa sombra
em retirada da demasiada fronteira entre os dias e as noites,
a ignorância altiva,
a virilidade sem sulco.
Eram talvez as águas da minha memória mais arcaica
que mimavam de lágrimas o seu corpo ornado dos ouropéis da origem,
e eu ia na promessa a que me havia incitado, dócil e renitente.
Desenhada na névoa das primícias,
parecia a compactez dos nossos corpos em deriva,
toda a humanal existência possível,
donde a preparação das terras e das tendas retirava sustento e novidade.
Alentado por uma humildade muito nova,
pois que ela era mulher e desconhecida,
e tomando assento sobre a recente memória das suas feitiçarias,
eu me julguei erradamente votado a trazer a notícia do advento dela
e das suas colheitas a todas as povoações,
abdicado de mim e dos meus,
no seguimento daquelas coxas dulcíssimas em viagem ondulante
por meandros de riacho e de lombas de terra arada,
cuidando que ela detinha a rota mais segura.
Eu não sabia que o seu destino
se encorpava da extensão do meu membro
e da apelação do meu nome.
Eu não sabia que movíamos montanhas passageiras
na retina dos nossos olhos,
apenas por lhe haver escutado, altivo, o desafio cândido,
e de que ela tão somente prosseguia o meu segui-la.
Eu não sabia que os elos que os antecessores legam
sobre o intransponível de outro modo
se haviam erigido sempre da dual ilusão que nos mantinha,
fileira escassa e fiel à lei severa do percurso árduo,
tadeando os casais dos homens e a sua sucessão sem júbilo,
na preparação do amor.
Ru-ru-ru
Papinhas no cu, Fizera-las eu, comera-las tu.
Ru-ra-ru
Papinhas no cu, Fizera-las eu, comera-las tu.
Grande e dolorosa e secular foi a atenção dos homens
aos malefícios da separação das terras e à infecundidade.
Onde, onde, descansarei a compaixão sem objecto
e a vacuidade do meu ventre?
Algumas comunidades e corpos estão condenados ao aquém,
de onde não é possível a religação,
ultrapassada a ponte que é a antiquíssima vitória sobre o vácuo,
a construção de ogivas,
a mensuração da tessitura da pedra contra a passagem da carne,
cantámos sobre a morte e o esquecimento,
como se houvera, de entre nós, surtido novo corpo,
resplandecentes como iniciados, perdêramos a condenação da origem,
começaria então deveras a descida sobre o território em transe
e a vera guerra dos nossos corpos acesos
contra a suspensão da diferença.
Havíamos de gerar ou perecer sem história.
Oh deuses novos! Calcastes aos pés as leis antigas.
Arrancastes-mas das mãos,
mas eu, desgraçada, a quem vós desonrastes,
hei de fazer sentir a esta terra todo o peso da minha ira.
Hei de vingar-me,
do coração lançando sobre a terra um veneno,
um veneno que a torne estéril.
Advirá então à folha uma lepra mortal
e igualmente mortal para a criança,
abatendo-se sobre a terra, deixará,
oh justiça!,
bem impressas no solo,
manchas fatais a todo o ser mortal.
Gemendo, pergunto-me: que fazer?
frei ser motivo de chacota?
Irá desprezar-me o cidadão?
Temível foi a afronta.
Triste a humilhação que as desditosas filhas da noite suportaram.
Não fostes humilhadas.
Razão não tendes pois para com tão extrema fúria
tornardes impossível, deusas que sois,
a cultura da terra aos seres mortais.
Eu sou, e Zeus o sabe,
a única das deusas a saber
onde está a chave do aposento em que se guarda o raio.
Mas não nos é mister usar aqui do raio.
Acede aos meus conselhos.
Não lances sobre a terra imprecações sem tino
que impeçam de crescer os frutos.
Refreia a negra vaga da tua ira amarga.
Pensa sim que hás-de ser profundamente venerada
e que onde eu habitar habitarás também.
Terás neste vasto país as primícias da terra que,
no dia do nascimento e no dia das núpcias, sempre te serão ofertadas.
Hás-de então achar bons os meus conselhos.
Eu, sofrer essa humilhação?
Oh, eu e a minha alma antiga,
obrigada a viver neste país como alguém impuro e desprezível.
Ah não! É só cólera o que eu respiro.
É só rancor.
Ai terra! Quanta dor trespassa as minhas carnes.
Quanta dor me fere o coração.
Oh noite, minha mãe, escuta-me!
Outros deuses, com seus ardis invencíveis,
me arrebataram antigas honrarias
e me reduziram ao nada.
Desculpo a tua cólera.
És mais velha do que eu e mais sábia por certo tens que ser.
Com quanto me dotasse Zeus também de grande discernimento.
Mas heis-de lamentar deixar este país em troca de outra terra.
Pois já vos profetizo que com o andar do tempo
crescerá a glória desta cidade
e que se conquistares lugar honroso junto ao templo de Erecteia,
verás mulheres e homens em cortejo
ofertarem-te o que de outros mortais jamais conseguirás.
Não lances tu porém neste lugar que tanto prezo
esses sangrentos dardos que devastam as entranhas dos jovens
e que sem vinho algum beberem os embriagam de raiva e de furor.
Não faças, como se faz aos galos,
fervilhar de cólera o coração dos meus concidadãos.
Não lhes inspires nunca discórdias intestinas
que possam incitá-los uns contra os outros.
Já nos chega a guerra com o estrangeiro
sempre ao alcance de quem aspira à fama.
Mas nada de combates entre aves da mesma capoeira.
E aqui tens o que de mim podes esperar:
partilhar comigo, venturosa, honrada e bem tratada,
este lugar que os deuses tanto prezam.
Eu, sofrer essa humilhação?
Oh, eu e a minha alma antiga,
obrigada a viver neste país como alguém impuro e desprezível.
Ah não! É só cólera o que eu respiro.
É só rancor.
Aiterra! Quanta dor trespassa as minhas carnes.
Quanta dor me fere o coração.
Oh noite, minha mãe, escuta-me!
Outros deuses,
com seus ardis invencíveis,
me arrebataram antigas honrarias
e me reduziram ao nada.
Não. Não deixarei de bem te aconselhar.
Não quero que te queixes que uma velha deusa como tu
foi banida por mim, que sou mais nova, e pelos mortais desta cidade,
ignominiosamente expulsa desta terra.
Se respeitas a veneranda persuasão,
se as minhas palavras podem abrandar e vencer teu coração,
ficarás aqui.
Mas se não queres ficar, iníqua tu serás,
castigando esta cidade com o ressentimento e uma cólera
que só podem ser nocivos ao meu povo.
Pois licitamente gozarás da tua legítima parte
e sentir-te-ás honrada neste país.
Diz-me, Rainha Atena, que viver será o meu aqui?
Será um viver sem quaisquer penas.
Não o rejeites.
E que honras terei caso aceite?
Casa nenhuma poderá sem ti ser próspera.
E para gozar de tal poder acaso poderei contar contigo?
Velarei pela sorte daqueles que te honrarem.
E dás-me garantias para todo o porvir?
Para quê fazer promessas que poderão falhar?
Já me sinto subjugada pelo encanto destas palavras.
Abjuro da minha cólera.
Se aqui te mantiveres conquistarás amigos.
Que queres então que eu cante em prol desta terra?
Cânticos que lhe augurem uma feliz vitória.
Soprem sobre este solo as brisas que vêm da terra, das ondas do mar,
do céu, soprem em dias de sol.
Cresçam numa constante prosperidade os frutos da terra e do gado
e protegido seja o sémen dos mortais nesta cidade.
Quanto aos ímpios, extermina-os.
Pois, como bom jardineiro,
desejo que à raça dos justos não possam causar dano.
Eis o que te compete.
Quanto às lutas assassinas onde se adquire glória,
essas têm a ver comigo.
Velarei para que esta cidade saia vitoriosa e honrada entre os mortais.
Aceito viver junto de Pallas
e não desdenharei de uma cidade
onde Zeus omnipotente e Ares se abriram.
Precioso reduto que protege o altar dos deuses gregos.
Na minha fatal benevolência faço votos
para que um sol resplandecente faça brotar da terra em abundância
os bens úteis à vida.
Eis o que o meu amor por esta cidade conseguiu.
Prender a este sítio poderosas e intratáveis divindades,
elas a quem o destino encarregou de tudo regular na vida humana.
Quem não souber conciliar-se com tão temíveis divindades
nunca saberá de onde partem os golpes que se abatem sobre si.
À presença delas o arrastam os crimes de seus pais,
e enquanto faz gala da prosperidade que tem,
elas de cólera silenciosamente o vão minando e reduzindo a pó.
Nunca um vento funesto açoite as árvores.
Eis os meus benefícios.
Que o fogo, que impede os rebentos de abrirem,
jamais passe as raias desta terra.
Que as tristes moléstias que devastam as colheitas jamais daqui se abeirem.
Que a terra alimente as fecundas ovelhas
que a seu tempo dois cordeiros hão-de parir.
E que o produto extraído de um solo rico
honre para sempre a tão ditosa dádiva dos deuses.
Acaso ouvis, vós que guardais esta cidade,
o que ela se propõe realizar?
Sim, entre os imortais e os deuses subterrâneos,
de grande poder goza a augusta Erínia.
E quanto aos homens sem dúvida são elas quem traça o seu destino.
Para uns canções apenas,
para outros uma vida imersa em pranto.
Eu afasto os flagelos que prematuramente matam os homens.
Dai às doces virgens a alegria de poderem viver junto de um esposo.
Vós, barcas, soberanos juízes da sorte dos mortais,
vós, filhos de nossa mãe, deuses que distribuis a justiça,
e que junto de cada lar, marcais a todo o instante
vossa presença justíceira, venerada por todos os deuses.
Que alegria eu sinto ao vê-las favorecer assim o meu país.
Bendita seja a persuasão
cujo olhar soube guiar minha língua e minha boca,
perante a sua recusa tão selvagem.
De Zeus, deus da fala, é a vitória.
Vencemos sempre nesta nossa rivalidade em prol do bem.
Que jamais a discórdia, do mal tão sequiosa, atroe esta cidade.
Que o pó da terra, embebido no negro sangue desta gente,
em seu furor jamais exija represálias que possam ser ruína da cidade.
Permutem alegrias, mútuo sentimento de amizade,
e no ódio sejam solidários.
É este, entre os mortais, para muitos males remédio.
Pois não se encontram elas já na senda das palavras boas?
Vejo agora que a presença destas terríveis figuras
grandes vantagens trará à minha cidade.
Sim, se amor com amor retribuindo, de honras sem par as rodeardes,
estareis aptos a guiar este país e esta cidade
pelo caminho mais recto e mais justo.
Dia após dia percorremos sem falas as bouças desviadas
e os vales dos regatos límpidos,
qual mor torrente que de coisas passadas desobriga.
Dormindo e jubilando sobre palhas,
inexoravelmente encaminhámos o defluxo dos nossos corpos
para a untuosidade do coágulo ferruginoso
que haveria de religar-nos ao chão.
Descíamos no tempo e nos espaços vagos entre as cidades,
rumo a uma opacidade maior,
a carne ou casa fixa, alguma margem basta.
Devínhamos então muito jovens, quais criaturas silvestres,
olvidados de qualquer culpa,
afectando, pueris, os modos do paraíso,
separados e vagos como anjos carnais resplandecentes de uma luz primeva.
Bom homem, quem o amarrou?
Foi o meu senhor que me mandou amarrar aqui a esta nora.
Trabalho até ao sol-posto e depois...
... para ir para casa, tenho que andar duas horas a pé.
Ganho 17 escudos por dia,
tenho uma mulher e dois filhos,
que posso fazer?
E, além disso,
os senhores têm empregados que nos mandam prender.
Assassinos!
Pode ir-se embora.
Sente-se.
Lamento muito o incidente,
mas não posso tolerar este tipo de perturbações nas minhas propriedades.
A nós, cabe velar pela sorte destas terras,
e impedir que nelas germinem ervas daninhas.
Há uma ordem no mundo,
e, custe embora
o arrepio da nossa consciência,
sou um seu guardião.
Você agora é minha convidada.
Há um homem que foi morto.
Eu sei.
Eu sei.
Em tempos era bom trabalhador.
Outro homem foi humilhado. Preso como uma besta de carga.
A minha mulher...
... Os meus filhos.
O mais velho sai ao pai.
Carácter forte, inteligência disciplinada.
Está em idade de cheirar as primeiras saias,
mas tudo indica que não virá nunca a ser piado pelo couce da fêmea.
Se não o estragarem, aposto, com legítimo orgulho,
que temos homem para a governação desta casa,
quiçá deste país.
A mãe dos meus filhos é a virtude em pessoa.
Nunca lhe ouvi a voz, e durante 20 anos
tem honrado um leito honesto, embora pouco caloroso, como agora se diz.
É pálida, atreita a enxaquecas, mas boa parideira.
Pelo tempo das colheitas, ele manda as criadas varejar o trigo maduro
para com os grãos caídos na terra alimentar as perdizes.
Jesus ainda fez prodígios muitos outros,
creram e viram, não que os bem-aventurados,
viste porque Tomé, crestes tu.
Jesus disse-lhe:
"Achtung!, meu Deus e meu Senhor".
Disse-lhe, e Tomé respondeu "To be or not to be",
fiel,
mas incrédulo.
Matthaus achtundzwanzig:
Angelus Domini descerit descerídis et dixit mulieribus:
conquerit ressurerixt sicut dixit Aleluia.
Mxau, 'tá bem, mxau, mxau
Palavra de salvação.
Glória a vós, Senhor.
Por este santo evangelho perdoai-nos.
Irmãos, irmãs, amigos, cunhados e outros,
o maná que caiu do céu não era um, eram três.
Era a fé, a esperança, a caridade.
A esperança não é nada sem a fé;
a fé não é nada sem as obras.
As obras são a caridade, a caridade são as esmolas.
É preciso haver quem dê esmolas, é preciso haver quem as receba.
Porque muitos serão chamados, e poucos os escolhidos.
É necessário que haja, pois, muitos a receberem as esmolas,
poucos aqueles que as dão
porque esses são os que se salvam.
Creio em um só Deus...
... Pai Todo Poderoso, criador do céu e da terra,
de todas as coisas visíveis e invisíveis.
Creio num só Senhor, Jesus Cristo, filho unigénito de Deus,
nascido do Pai antes de todos os séculos.
Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.
Gerado não criado, consubstancial ao Pai.
Por Ele, todas as coisas foram feitas, e por nós, homens,
e para nossa salvação, desceu dos céus,
e incarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria e se fez homem.
Que assim se veja a força da Igreja!
Que assim se veja a força da Igreja!
- Tens um cigarro? - Tenho sim.
Quando me levas a dar uma volta?
Qualquer dia.
Qualquer dia levo-te a dar uma volta.
Agora não te posso levar porque o serviço é muito,
como tu vês tenho isto tudo por limpar,
tenho os cavalos para tratar... de maneira nenhuma.
Agora não há vagar nenhum.
Mas num feriado, num domingo...
Sim, está bem, um dia de feriado ou um domingo.
Mas sabe, há um problema.
Pode vir o seu pai...
... Se calhar depois é um caso sério.
Não...
O que fazes tu depois do trabalho?
Depois do trabalho, o que eu faço...
trabalhar, o meu serviço é aqui,
os meus camaradas, quando chega a hora deles, vão-se embora,
e eu tenho que tratar dos animais, tenho que ficar ao pé deles,
não me posso abalar.
E onde é que dormes?
Durmo ali, numa casa ali ao lado, onde dormem os cavalos,
é lá que eu durmo, tenho que guardá-los de noite,
tenho que ficar ao pé deles. - Com os cavalos..
Tenho que ficar a guardá-los, não posso abalar.
Nos fins-de-semana, com quem é que ficas?
Nos fins-de-semana, com quem é que fico?
Sim.
Pergunta bem.
Não posso abalar, nos meus fins-de-semana tenho que estar ali.
Que é isso?
É o arreio dos cavalos, estou a limpá-los que é para,
talvez hoje, ainda vamos dar uma volta.
Sempre me levas a dar uma volta?
Sim, levo sim.
Anda.
Eu ouvi dizer que...
não sei quando é que foi, aí há uns dias,
ali no Monte da Chaminé, parece que houve uma gente que,
não sei, se revoltou,
queriam mais ordenados, e depois juntou-se muita gente,
e havia lá uns dois... ... facínoras que,
enfim, nestas alturas há sempre...
... Obrigado...
e começaram a fazer não sei o quê,
a Guarda Republicana foi lá, matou-os, eu até assisti à agonia...
O sr. D. Miguel decerto tem conhecimento,
aquilo não teve importância, mais uma daquelas coisas
que agora vão já acontecendo com certa frequência,
mas os rapazes foram lá e...
Sim...
Não, resolveu-se, não é?
Não, estavam bem agoniados, morreram bem, morreram bem...
... com todas as... enfim, foram assistidos...
Então o problema resolvia-se facilmente.
Ó senhor Padre, eu... dá-me licença,
eles o que não querem é trabalhar.
Não querem, querem estar à sombra, querem...
Pois, o problema resolvia-se.
Se nós tivéssemos mais liberdade de movimentos,
bastaria realmente arrecadar aí
uma meia dúzia de cabecilhas que por aí andam e isso resolvia-se.
Assim estamos sujeitos a coisas destas de vez em quando...
- Mas... eram facínoras, não é? - Não.
Os do costume, não é? Aquela meia dúzia...
- Os do costume... - De há uns tempos para cá...
Isso são facínoras.
Às Vezes, exagera-se um pouco.
Os rapazes só querem um bocadinho mais de pão, talvez, não...?
Não, não querem mais pão...
no fundo, o que eles querem é levantar os outros,
e obrigar os outros a querer mais pão - e já o têm.
Sim, mas a Guarda toma conta disso, não é?
Pois, a Guarda, quer dizer, toma conta disso, mas que trabalho.
Mas que trabalho, desta organização extraordinária...
Como diz o nosso patrão, não nos compete fazer outra coisa
e havemos, realmente, de ultrapassar isto, não é?
Repare que os mataram bem, quer dizer,
porque não os mataram assim de uma maneira...
Bom, isso é uma coisa que eu gostaria de esclarecer:
os guardas não tiveram culpa absolutamente nenhuma, não é?
Eles provocaram a situação de tal forma que não havia ali saída.
Não havia, não...
Ou ficavam os guardas ou ficavam eles.
Mas a Igreja...
Não, a Igreja...
... a Igreja não poderia ajudar
a atitude da força pública que é a Guarda Republicana...
É isso, Sr. D. Miguel, é isso. É isso.
Não acha?
Em vez de se andarem pelas metafísicas,
e a encomendar os moribundos,
é melhor que tratassem dos vivos, e esclarecer...
E da gente nova. E da gente nova, desculpe.
E da gente nova. Mas a verdade é esta: parecem facínoras.
Bem, mas a gente nova, a gente nova... quem é a gente nova?
Rapazes novos...
Não serão lá muito velhos na idade,
mas nestas andanças, não são nada novos, não é, nada novos.
São os mesmos.
Não, foram bem mortos, e isso é indiscutível.
Gostei da maneira como morreram, porque...
é curioso, porque na agonia, portanto, quando eu, enfim...
... até pediram um padre. Achei curioso. Fui lá...
Olhe, os meus rapazes fizeram tudo para que chegasse a tempo.
Se isso não aconteceu, enfim... nós fizemos o que pudemos.
O que mais uma vez prova...
... a idoneidade da organização, que realmente respeita...
vamos lá, respeita mais a morte até, do que a vida.
A calma, a ordem.
- A ordem é isso, não é? - Exactamente.
A ordem é isso, não é, o respeito pela morte.
Eis-me arredada nas areias da margem.
Este é o lugar da separação das terras
onde o divagar atingiu o seu auge.
Rotunda como esta extensão de águas que sobre si mesma se move
perdi, pelo peso do meu corpo emprenhada de peso,
a faculdade de caminhar nos ares.
Que airosa fora a minha promessa,
e eu imitava as deusas mais amáveis condenadas a uma juvenilidade ímpar.
Não sem chorar, oh águas, a interrupção abrupta dos jogos.
Aquele amigo meu, citado e errante, foi posto ao lenho.
E eu, conforme as aparências do meu estado de origem soberana,
recebi alimento e veneração dos mortais mais iníquos.
Eis-me diante das águas do contínuo fervor que geme,
daqui empreenderei o caminho de regresso.
Invoco sobre mim o crime que despoja da glória abominada e solitária.
Quais vós, grandes águas descidas, apelarei de uma rota muito íngreme
um fio de água glorioso.
Sustentada pela crença inicial dos amantes,
retirei outrora do meu corpo esfacelado e lançado às profundezas,
um instrumento sublime a tanger contra a morte.
Mas não fui ainda submetida à cólera, à injustiça,
e à misericórdia dos homens.
Retrocedo agora o território
onde as deusas incólumes e as mais antigas lendas já não são plausíveis.
Entrego o meu corpo e os seus frutos
à necessidade e às bênçãos mais comuns.
Oh águas do limite, totalmente ignorantes da inocência e da culpa,
devoradoras dos ardores dos humanos e da sua navegação,
devolvei-nos o dom materno que incita ao reatamento dos percursos,
ao fio doce da celebração dos ritos fraternos,
na cadeia sangrada de geração em geração.
Homem, este é o teu filho.
Com licença.
Boa tarde.
Boa tarde.
- Está frio? - Está muito frio.
- Querem-se aquecer? - Queremos aquecer-nos um bocadinho.
Sentem-se, sentem-se.
Eu até venho cansado
e aflito.
Encontrei-me lá com os lobos e vi-me à rasca com eles.
Ai que menina tão linda.
Querem pão?
Queríamos uma buchinha se pudesse ser.
Então sirvam-se, sirvam-se.
Aquele senhor também. Coma, coma.
Coma também uma bucha.
Nós vamos acabar com ele...
Comam à vontade.
A fogueira é que está boa.
Comam à vontade, comam.
Queres uma codinha?
A fome não é grande, mas pão apetece-me sempre.
Escorrega-te pelo estômago abaixo.
Ainda se fosse um golinho de água, ao menos
juntamente com este pãozinho. - E uma febra?
Uma febra ainda ia melhor, mas...
Então com licença, meus senhores.
Vamos lá comer um bocadinho a ver se não arrefecem os dentes.
Nem o estômago.
A braseira é que está boa.
- Têm frio, têm? Aqueçam-se - Temos muito frio.
Vimos lá da serra, muito fria.
Da Gralheira.
Eu andei a arrancar um carro de toros,
mas como estava o monte muito molhado, vim-me embora.
E eles também eram duros para mim. Eram reais, eram muito duros.
- Tinham muitas raízes. - Pois tinham.
O ferro da enxada é que os corta.
O ferro da enxada é que pagou e as minhas mãos também.
Até se me encheram de calos.
Mas vá lá...
- Do trabalho é que sai tudo. - Dê a teta à menina, dê.
- Já dei. - Coitadinha.
Muita fominha apanhou hoje.
- E a senhora vive aqui sozinha? - Não...
passei agora por aqui para descansar, para dar o leite à criança.
Está bem.
Estava com tanto frio...
E fez bem em ter o lume aceso, senão...
Morríamos com frio.
Mulher, o que é que fazemos para a noite?
Que havemos de fazer? Temos que ir às trutas.
Cozes batatas...
E o pote?
E a panela?
Temos que ir pedir a um vizinho.
Fazia o favor, emprestava-me essa criança por um bocadinho?
Tome-a lá um bocadinho.
Ó minha linda.
Minha linda, minha linda.
Ó minha rapariga.
- A chaminé não tira bem o fumo. - Pois não.
- A casa ardeu, não ardeu? - Ardeu.
Isto já é muito antigo, muito velho.
Ardeu. Está quase a cair.
Destaparam-na por cima para entrar o ar.
- Sérgio, olha quem ali vai! - Onde?
Ali em baixo!
Viste passar por aqui três homens com um menino ao colo?
Não, nós vimos passar por aqui três lobos.
A cabra nunca mais despega.
O que é um rosto, uma crosta de terra aberta,
se não for exposto a outro rosto que o sofra,
a mãos que o lavrem e apazigúem.
Da fadiga dos vossos olhos, sob a intermitência de luz e treva
e fractura dos nexos, decifrai este corpo que abre.
Eu te baptizo, criatura de Deus,
pelo poder de Deus e de Virgem Maria.
Se for rapaz será Gervás, se for rapariga será Senhorinha.
Personagens e intérpretes por ordem de entrada:
Filmagens iniciadas em 23/9/75 e concluídas em 15/7/77
Locais
Custo da produção: 4.000 contos
Duração 123 minutos
Processo eastmancolor 35 mm
Guarda-roupa
Laboratório de imagem
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