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O Manolo � um animal
desta vez se excedeu. - Sim, mas � muito macho
Os meus sapatos? Viram os meus sapatos?
Um pouco mais acima. N�o, homem.
N�o, homem. Mais para l�.
- Avenida Donostiarra, n�4. - Que coincid�ncia, tamb�m vivo l�.
- Gosta da Lotte Von Mossel? - Vivi na Alemanha.
Fui motorista de uma amiga dela, tamb�m cantora, mas mais nova, claro.
A verdade � que tivemos um caso.
Esta can��o me traz recorda��es.
- Por que n�o ficou l�? - Eu que me pergunto.
Tome. Foi com a autora que trabalhei.
- � uma biografia de Lotte Von Mossel. - Meu Deus, cartas de Hitler...
Sim, acho que era um pouco nazi.
Vou lhe dizer algo que mais ningu�m sabe. Fui eu que escrevi essas cartas.
- Como? - Sei imitar qualquer letra.
O que n�o significa que seja um falsificador, hein.
Fiz por ela, pela Ingrid M�ller.
- A que estava louca por voc�. - N�o falsifico, mas ela me pediu.
E sabe como s�o as mulheres quando querem algo.
- E ningu�m descobriu? - Claro que n�o.
Nem o pr�prio Hitler, que descanse em paz, descobriria.
Velha, sabes quais foram as inova��es da agricultura do s�culo XIX?
Voc� pergunta pra mim? N�o sabe que sou analfabeta?
- Pergunte ao seu pai quando voltar. - Mas o velho tamb�m � analfabeto.
Mas no t�xi se aprende muito. E sai da cozinha que voc� me deixa nervosa.
- V� isso. Gostas do boneco? - Legal, v�.
- Est� "muita" louco. - E como v�o os trabalhos de casa?
- Uma merda. - Eu te ajudo.
Est� bem. Destes autores diga quais s�o rom�nticos e quais s�o realistas.
- Ibsen. - Rom�ntico.
- Lord Byron - Esse � realista.
- Goethe. - Tamb�m � realista.
- E Balzac? - Rom�ntico. Viu como � f�cil?
- Sim, "muita" f�cil. - Ajude-me.
- Tire as m�os. - P�ra de fazer palco.
- Porra. A Juani e a Vanessa. - O que foi?
Me d�o azar. Sempre que as encontro, acontece alguma coisa.
Manias. Tamb�m dizem o mesmo de mim.
Ah �? Se soubesse n�o o trazia.
Boa tarde. Anda, entra.
- Isso n�o sobe. - Est� uma pessoa a mais.
N�o reparou no aviso? Vai, Vanessa, sai.
- Se quiser, eu saio. - N�o, que saia a crian�a.
Para isso � que � jovem.
Vamos, vai fazer exerc�cio.
- Merda, deu pau. - Eu n�o disse?
- O que � que disse? - Falava de mim.
Vanessa! Estas ouvindo? Vai chamar algu�m.
- J� sabia que ia acontecer algo. - Que vai acontecer? Que vai acontecer?
Vanessa! Tas ouvindo? T� mandando tu ir chamar algu�m!
- Ent�o, tu � escritor? - Escritor, jornalista, fa�o de tudo.
- Tamb�m gosto de escrever. - Eu n�o.
- No t�xi ouve-se cada hist�ria. - N�o duvido.
- Sabia que vinha para c�. - N�o lhe escapa nada.
- O jantar est� pronto? - Daqui a um pouco.
N�o sei o que tem a tua vizinha, mas quando ela anda de elevador, ele d� pau.
- E que culpa tem ela? - Quando vou sozinho nunca d� pau.
- Ele tem respeito por ti. - Quem?
O elevador. E pela Juani, n�o.
Passa uma camisa para depois do jantar, estou com pressa.
Boa noite.
O alto crescimento demogr�fico levou alguns pa�ses a medidas extremas
em mat�ria de controle de natalidade. Mas qual � a situa��o no nosso pa�s?
- Queres uma madalena? - De jeito nenhum. N�o gosto de madalenas.
Ent�o vou comer duas.
- Na aldeia podemos ir pescar? - Claro.
- Tem um rio bonito l�. - Toni!
- Est�o me chamando, depois tu me conta. - Est� bem.
- � para ti... - O que foi?
- Que diz que a mulher espanhola... - Sim.
- ... na sua maioria... - Est� bem.
- ... conhece os anti-concepcionais... - O frango queimou um pouco.
- Porra! Voc� t� sempre distra�da. - N�o se preocupe.
S� queimou uma coxa, eu como.
- Pode comer tudo. - Me traz presunto para logo a noite.
Presunto? Cortei o �ltimo peda�o e � para o Miguel.
- ... usa algum anti-concepcional? - Est� bem, pronto, eu trago.
- Por que escolheu este? - E o mais seguro, n�o �?
Est� tanto frio em Madrid que se n�o me levares para a aldeia, morro.
- ... Pode dizer que m�todo usa? - Ant�nio.
Guarda a pele e os ossos para a sobremesa.
- Trouxeste aquilo? - Sim, toma, meu.
Me d� uma nota de mil.
- Toma um pouco. - T� zoando? N�o quero..
- A erva � inofensiva, j� provaste? - Claro que n�o.
Mas tamb�m n�o quero. O que foi?
Se tens idade para traficar tamb�m tens para fumar.
- Ent�o d� um pouco para eu provar. - ... por que escolheu este...?
- N�o, deixa esse para mim. - Um prato de madalenas.
� o melhor para a diabetes.
- Me esqueci que sou diab�tica. - Se esquece sempre na hora de comer.
Eu compenso amanh�.
Sim, acho que todas usam...
- Mas acabam por falhar... - Tens os p�s do teu pai.
Quando tu tira o sapato, o cheiro � igual ao dele.
- � um cheiro que n�o deixa respirar. - ... o �vulo.
- Por que escolheu... - Gloria, traz uma cerveja.
- N�o tem. - ... porque eu n�o ando por a�...
- Ent�o traz vinho. - Tamb�m n�o tem. S� conhaque.
- Achas que bebo conhaque no jantar?
- Me d� uma garrafa de �gua de Vichy. - Vou pensar no teu caso.
Trabalho o dia todo como um animal, chego a casa, como frango queimado
e nem posso beber vinho. Merda! - N�o grita, sen�o o meu a��car sobe.
Se n�o me der uma garrafa de �gua, tamb�m n�o vou deixar chupar os ossos.
- Que vergonha. Falar assim com a m�e.
Eu compro. S� n�o quer ir l� embaixo.
Trinta.
E a sobremesa?
N�o tem, al�m disso paguei a presta��o da casa e da televis�o.
E tens que me dar dinheiro para o dentista do Miguel e para o �nibus.
Deixaram o aviso do g�s e se n�o pagarmor at� amanh�, v�o cortar.
Era o nosso 1�anivers�rio. Na noite anterior t�nhamos sa�do para celebrar.
Deitamos tarde e bebemos demais.
Fizemos amor uma d�zia de vezes. Foi muito bom.
Na manh� seguinte estava cansada e n�o conseguia levantar.
Mas ele se levantou, suponho que movido pelo amor que sentia por mim,
para me preparar uma x�cara de caf�. O caf�.
Amor.
Nunca esquecerei aquela x�cara de caf�.
Bota pra mim tamb�m...
Fico doida com as espinhas.
N�o gostas?
Ol�, Toni. J� voltaste?
- Que � isso, filho. - Como vai a escola?
- Uma porcaria, como sempre. - O importante � teres uma boa letra.
- Como vai a tua caligrafia? - Saiu a ti. Tem uma letra linda.
Vamos ver como copias a minha assinatura.
Eu copiei a assinatura do meu pai e tu tens de copiar a minha.
� t�o importante como o apelido.
Vamos ver.
Voc� tem que escrever uma carta pra mim.
- Quero dar os p�sames a Paula. - Pede ao Toni para escrever.
Vamos ver.
Muito bem. J� fazes quase como eu.
Quer uma m�ozinha...
- Vou me preparar para ir embora. - Vai pegar uma gripe, sem sapatos.
Antonio, pelo amor de Deus, n�o esquece de me dar o dinheiro.
J� n�o tenho um tost�o.
Sem dinheiro para o �nibus, tive de vir a p� desde cascos de rolha.
- Por que voc� n�o pede pra minha m�e? - P�o-dura como ela �?
Prefiro morrer de fome do que pedir alguma coisa pra ela.
N�o sejas t�o orgulhosa.
- P�ra, homem, p�ra. - A coitada nem vai perceber.
J� tem idade para isso.
Que queres, homem? Antonio, Antonio.
E � preciso dinheiro para o dentista do Miguel. Tem de p�r aparelho.
Estou estragando o boneco.
N�o te devo. N�o te pe�o.
Vou embora daqui. Me esquece.
Paguei com ouro as tuas carnes morenas.
N�o digas mal, que estamos em paz.
N�o te quero. N�o me queiras.
Se me deste tudo, eu n�o te pedi nada.
N�o me atires na cara que tudo perdeste,
tamb�m por tua culpa perdi tudo.
Bem paga.
Se tu �s bem paga
� porque os teus beijos comprei.
E te deste a mim
por meia d�zia de tost�es.
Bem paga.
Bem paga.
Bem paga
foste, mulher.
As can��es da minha �poca eram mesmo bonitas.
Bem, Toni, escreve a carta.
- Qual � a letra que gosta mais, v�? - A letra? A da Grace Kelly.
Come�a. Querida Paula.
Espero que estejas t�o bem como n�s estamos, gra�as a Deus.
J� escreveste?
� meu neto Toni que est� escrevendo, se voc� ver ele, nem vai reconhecer.
- Espera, v�! Espera. - Imita bem as letras, como teu pai.
Hoje est� escrevendo com a letra da coitadinha da Grace Kelly.
J�? N�o escreveu? O que tu tens?
N�o sei. D�i muito minha barriga.
Isso foi algo que voc� comeu.
Claro, comemos sempre tarde demais.
Que chiqueiro � esse no corredor? Que isso? que aconteceu aqui?
Nada. O Toni vomitou em cima de mim.
Eu passo as 24 horas trabalhando e est� sempre tudo sujo.
- E por que voc� vomitou? - Sei l�.
- O que faz na banheira vestida? - Estou me limpando.
Tire a roupa toda e vista o roup�o, sen�o ainda pega uma pneumonia.
- N�o tem ju�zo nenhum. - Gloria, mulher, n�o te exaltes.
Ainda vai te dar alguma coisa.
- Ol�, Toni. - Ol�.
Faz um frio aqui na sua casa. Voc� est� com uma cara..
- Voc� se meteu com drogas? - N�o, s� experimentei.
N�o entendo para que voc� se meteu com drogas.
- Voc� n�o precisa emagrecer. - Drogas s�o um neg�cio, n�o um v�cio.
- Ah, como neg�cio est� bem. - At� logo.
Acabei de limpar isso, e veja como est�.
Voc� tem sorte, filha. Sozinha, sem ter que cuidar de ningu�m.
Mas o meu trabalho � duro.
Quem me mandou casar? Estava melhor solteira.
Ol�, Antonio.
- Voc� n�o tem um chicote a�? - Um chicote? N�o.
O cliente de hoje tem uma fantasia com chicotes.
E voc� sabe como s�o os homens. Se eu n�o levar um chicote, vai embora.
- N�o quer te bater com ele, n�o? - Nunca se sabe.
Deixa eu pensar. Acho que tenho algo que serve. Vem no quarto da v�.
- Deixa ver. - Ela tem muitos aqui, viu?
Com isso, se tu bateres muito podes mat�-Io.
- Que grande. N�o quebra? - Acho que n�o.
Mas traz de volta assim que acabares porque sen�o a v� fica...
N�o, assim que acabar com esse cliente, eu trago logo.
- Onde voc� est� levando esse pau? - T� levando emprestado, vou devolver.
N�o perde ele; � um tronco bonito.
Veja o que a tia Cristal lhe trouxe.
- O que � isso? - Um pau.
N�o encontrei um chicote, mas d�i tanto ou mais do que ele. Posso bater?
N�o. O que queria era uma cena comum..
de sadismo elegante e sofisticado, como se v� nos filmes franceses.
- Ent�o voc� n�o � um s�dico de verdade. - Claro que n�o.
Vim aqui me informar para escrever um romance pornogr�fico que venda muito.
- Mas j� vi que vou ter de inventar. - Ent�o inventa.
Para isso � que voc� � escritor.
Sai da�, vou sair da banheira.
- Conheces a fam�lia do taxista? - Sim.
Ela est� um pouco hist�rica, mas a coitada tem uma vida...
Trabalha como empregada de limpeza e tem dois filhos.
O meu irm�o precisa de uma empregada.
- Voc� acha que ela pode ir l� ? - Sim, claro.
- Se quiser eu pergunto. - E tamb�m podia ir na minha casa.
N�o seria mal se de vez em quando algu�m a limpasse.
- N�o quer que eu fa�a algo..? - Sim.. Vire uma mesa.
Estou tendo uma id�ia que pode vender mais do que o romance pornogr�fico.
Pensei que os escritores tinham mais v�cios.
Esses s�o os bons.
- Quando voc� volta? - N�o sei.
- Se n�o voltar, conto pra tua mulher. - N�o a conheces. Ela � uma v�bora.
Era s� um palha�ada para te excitar. Sou incapaz de fazer essas coisas.
� pena ter de ir trabalhar.
Toma.. E faz direitinho, como sempre.
S� isso? Pelo menos me d� 1000.
E te cobro 1000 porque tu � minha vizinha, sen�o era pelo menos 25%.
- Tu nem gosta de dinheiro. - Toma, gosto tanto como os outros.
Gosta mais do que de mim?
Mas isso � um segredo entre n�s os dois, n�o �?
Mas se der cagada, n�o quero saber de nada, sou s� um puto.
Isso, um puto. J� tens idade para andar na rua.
N�o sou assim t�o velho, s� tenho 14 anos.
Quanto mais cedo se souber o que � a vida, melhor.
Toma. E se tu quiser mais alguma coisa � s� pedir.
� melhor come�ar com a tia Cristal do que com qualquer desavergonhada.
- Obrigado, mas tu n�o � o meu estilo. - Ah, n�o?
- N�o, mas te joga pro meu irm�o. - Tamb�m gostaria.
Mas acho que com o teu irm�o � mais dif�cil do que contigo.
Se conseguires ficar com ele te dou essas 50 pratas.
- Quanto? - Essas 50 pratas.
Ent�o vou tentar.
Ol�, m�e.
- Isso s�o horas? - Estive na casa do Ra�l.
- Estiveste na cama com o pai dele. - E o que tens a ver com isso?
Sou dono do meu corpo.
- O que tem pro jantar? - Nada.
O que querias essa hora e no fim do m�s?
Se tu � dono do teu corpo, aprende primeiro a te alimentar sozinho.
- N�o deixaram nada. - J� que dormes com esse tipo,
pelo menos devia ganhar o jantar. Te esperta e aprende a viver a vida.
- Quer um calmante? Tira a fome. - N�o, me deixa nervoso.
- Olha como tu est�s. - Como � que estou?
Pede um bolo pra v�, pode ser que ela tenha pena de ti.
- Come um pouco desse refogado. - Est� muito velho!
Essa torrada � para o caf� da manh� do teu pai. Est� certo, come ela.
Que estavas fazendo por a�?
- Toni, ainda n�o terminamos a carta. - J� vamos, v�.
- Tome. O seu pau. - Isso de ser analfabeta � uma cruz.
- Sabes escrever, Cristal? - Sim, mas n�o t�o bem como o Toni.
Esse moleque vai ser fil�sofo.
A m�e disse para me dar uma madalena.
- Para qu�? - Voc� n�o jantou?
N�o, e estou esfomeado.
Vem pra minha casa, lhe convido.. Como eu tamb�m n�o jantei...
Vamos. Obrigada pelo pau, v�.
Um dos meus clientes perguntou se voc� n�o quer limpar a sua casa e a do irm�o.
Isso vinha mesmo no momento certo, mulher,
mas tenho t�o pouco tempo. - Vou lhe dar o endere�o.
- Nunca se sabe. - Obrigada, amiga.
Cristal, d� qualquer coisa para p�r no p�o amanh�, que n�o tenho nada.
- Claro, mulher, n�o se preocupe. - Deus lhe pague.
Reconhe�o que ela n�o � m�, mas para gostar de homens n�o h� como ela.
- O que visto para o jantar? - Sei l�, o que voc� quiser.
- Quero vestir algo que voc� goste. - Assim voc� est� bem.
Assim? Com grampos no cabelo?
Voc� quer que eu lhe mostre o vestido de noiva que fiz?
- Voc� vai casar? - N�o.
� para brincar a noite de n�pcias.
- Voc� sabe brincar disso? - Isso � coisa de crian�as.
- Gostas de te mascarar? - N�o.
As crian�as s�o mesmo chatas.
- Tens novas revistinhas da Lola. - Sim, encontrei no "Rastro".
- Me empresta? - Eu dou.
- Ficou bem? - Voc� est� sexy.
- Ainda bem que gostas. - Obrigado pela revistinha.
Quando a tia Cristal for para os EUA ainda vais sentir saudades minhas.
Eu tamb�m vou sentir saudades de voc�s.
Vamos fazer o jantar.
Miguel, o que fazes? Guarda isso e vai dormir, que � tarde.
Est� bem.
Velha, n�o vou pra escola, ta doendo meu corpo.
- Se deixasses de fumar... - Que fumar o que..
O problema todo � a poeira da casa.
- V�, deixa que eu me penteio. - Gosto muito de te pentear.
Eu sei que gosta de me pentear, mas j� sou crescido para me pentear, n�o?
- Que procuras? - Dinheiro, o que havia de ser?
Ontem a noite me assaltaram. N�o tenho nada.
Ent�o me diz o que fa�o hoje.
Vou limpar as duas casas que a Cristal me recomendou.
Que a Cristal te recomendou?
- Um cliente dela precisa de limpezas. - Odeio quando voc� pega clientes dela.
Eu tamb�m, mas o que posso fazer?
- Espera. Vou levar a garota pra escola. - Est� bem.
� bom mesmo, porque t� chovendo muito e n�o trouxe o guarda-chuva.
- O que acontece, por que voc� chora? - N�o foi nada, tive que bater nela
por n�o querer ir a escola. - Voc� � doidinha mesmo.
- Onde � melhor ficar do que no col�gio? - Na rua.
Marginal. Voc� � uma marginal, s� me d� trabalho!
Se voc� n�o for pra escola j� sabe o que lhe espera. Ser empregada como eu.
Ser empregada ou andar na rua, como a Cristal.
Claro que ela, em vez de ser empregada, prefere ser puta.
Sabe qual � o sonho dela agora?
Quer ser artista. J� viu isso. Com a cara de anjinho que tem.
Na idade dela s� se quer ser artista ou mission�ria.
Com a idade dela j� passava ferro, lavava o ch�o e ajudava a minha m�e.
E a �nica coisa que ela sabe fazer � quebrar tudo
e mijar na cama todas as noites. Todas as noites, olha como ela �!
Agora h� muitas crian�as assim.
A escola diz para a levar ao psiquiatra. Nem se fosse milion�ria.
Sim, nas escolas resolvem tudo com psiquiatras. Nem que fosse nos EUA.
- Sabes o que me disseram? - O qu�?
Que a moleca faz tudo para me chamar a aten��o.
Para que eu perceba que ela existe..
Mas quem � que eles acham que a pariu?
- Anda, atravessa sozinha. - Adeus, Vanessa.
- Te comporta. - E p�e o capuz.
- Tu vens comigo? - J� t� ficando muito tarde.
- Depois te empresto o guarda-chuva. - Ao menos uma vez emprestas-me algo.
Mulher, filha, Gloria, faz alguma coisa no cabelo porque t� horr�vel.
- Olha para essas pontas. - As pontas, a cor e tudo.
� que nunca tenho tempo para ir ao cabeleireiro.
Compra uma m�quina de frisar e um xampu de cor e pinta em casa.
- N�o v� como � o cabelo da Vanessa? - Uma m�quina de frisar?
- Claro. - Isso � um luxo.
Tenho que limpar mais casas, porque o que o Antonio ganha mal d� para comer.
Eu at� te emprestava, mas sou muito possessiva com as minhas coisas.
- Sim, eu entendo. - E a Vanessa tamb�m n�o quer.
- Est� bom o pre�o disso, n�o est�? - Que barata.
- A minha foi mais cara, mas � melhor. - Eu gosto dela.
Sim, n�o � m�.
- Onde vai? - Ao 3�esquerdo.
- A casa dos b�bados? - Acho que sim.
N�o suba, v� embora. N�o sabe onde se vai meter. Tome.
- Quem � a Sra.? - Gloria. A Cristal me mandou aqui.
Sim, claro. Entre. Est� tudo um horror.
� que eu e a minha mulher nos dedicamos a literatura.
- Por onde quer que comece? - Por aqui, pela cozinha.
A porteira mandou isso para o Sr.
- Obrigado. At� j�. - At� j�.
Lucas, mas que merda voc� faz na cozinha?
J� n�o se pode dormir nesta casa?
- O que voc� faz aqui? - Sou a empregada de limpeza.
Voc� quer me explicar que diabos est� acontecendo ??
� a nossa empregada. Ontem me esqueci de lhe dizer.
- Empregada? Desde quando temos uma? - Desde hoje.
Fiz por voc�, amor. Voc� n�o tem idade de passar o dia todo limpando.
Voc� precisa acabar essa maravilhosa com�dia que voc� escreve h� 10 anos.
- E como vc vai pagar, posso saber? - N�o se preocupe com o dinheiro.
De certo n�o pensas mexer na conta que temos guardada para a minha opera��o.
Mas voc� n�o precisa dessa opera��o. Voc� est� maravilhosa, como consegue?
- V�. V� a diferen�a, olha. - Parece uma chinesa.
- Tas vendo? - Pe�a desculpa para ela n�o ir embora.
- Desculpe o que aconteceu. Patricia. - Muito prazer. Gloria.
O Lucas n�o me tinha dito nada. Gosta de me fazer surpresas.
- Vou beber caf�, quer um? - Nesse caso, sim senhora.
N�o, deixe, eu fa�o. E n�o me chame senhora. Chame-me Patricia.
Ainda sei fazer caf�.
- Limpou isso r�pido. Como fez? - � o h�bito.
Limpar me deprime muito.
- Pedro, encontrei uma empregada. - O qu�?
- N�o querias uma empregada? - Qual � a tua comiss�o?
- S� quero te ver feliz. - Ent�o me d� um tiro.
- A Marisol me deixou de vez ontem. - Mas voc� j� n�o bebe.
Para ela � a mesma coisa. Tamb�m n�o me suporta s�brio.
- Queremos lhe ver essa noite. - N�o! N�o quero te ver.
Vai lhe fazer bem. Voc� sabe que gostamos de voc�.
- Eu n�o gosto. Me esque�am. - Bom, vamos a� esta noite.
- N�o, n�o. - Vou desligar.
A Patricia est� me olhando com cara de quem quer falar algo.
- Voc� quer me dizer o que acontece? - Estou euf�rico.
- E isso? - A editora recusou!
- E voc� contrata uma empregada. - Elas inspiram os escritores.
Capote escreveu a sua maior obra passando uma tarde com a empregada.
Mas para escrever como o Capote, precisas mais do que uma empregada.
Como ele, tamb�m bebo caf�.
- Venha, v�, veja quem est� aqui. - � verdade, outra vez.
- Como vai, meu? - Ol�.
- Tudo bem? - Como est�s?
- Bem, e a Sra.? - Bem, me d� uma moeda para jogar?
- Tome uma moeda. - Tenho um v�cio.
- � a �nica coisa que gosto em Madrid. - Ent�o? Conseguiste pass�-la?
- Sim. Trouxeste? - Toma.
Um grama. N�o �?
- Como est� o produto? - Est� bom.
Chegou de Amsterdam e est� �timo. Mas nem toquei nele.
Podes experimentar na boa, que � da pura, fica a vontade.
- Vejam o que ganhei de primeira. - Porra! Isso sim � sorte.
- Venham, eu pago. Que bebes? - Eu, um conhaquezito.
- E tu? - Conhaquezito.
- Para mim pede �gua mineral com g�s. - Uma �gua com g�s e dois conhaques.
Venham aqui ver a "Alhambra".
- � bonita. - Sim.
Na minha aldeia dizem que quem n�o viu Granada, n�o viu nada.
- J� foste a Granada? - N�o, nunca.
Nem eu.
- Ol�. - Bom dia.
- Ol�, bom dia. - Trouxe um boneco pra ti.
- Mas j� tenho um, n�o se lembra? - Est� muito sozinho.
N�o, por a� n�o, por cima. Por onde entram as estatuetas.
- Sim, � verdade. - Obrigado.
- Tanta seguran�a nem sei para que. - Os ladr�es nunca dormem.
Tome, v�.
Com que idade posso levantar o dinheiro com a minha assinatura?
Com 18 anos. At� l� � poupar.
- Mas como consegues poupar tanto? - N�o tenho v�cios.
Est� bem.
O que foi v�?
- Corre. - O qu�?
Veja. Ol�, lagarto. Diz algo pra ele.
Mas o cabr�o n�o se mexe. Deve estar hibernando, v�.
- Coitadinho. Deve passar frio. - N�o. Os lagartos est�o acostumados.
N�o, em Madrid faz um frio que nem os lagartos escapam.
Vem, vamos para dentro.
- Me d� pena deixar o lagarto aqui. - Sim, v�, mas...
- Olha, est� nos seguindo. - O qu�?
- Vamos lev�-lo? - Nem pense, a velha n�o vai querer.
- Que nome lhe damos? - Lagarto.
- N�o, lagartos tem muitos. - Chame de algo que goste.
Gosto de madalenas, do cemit�rio, dos sacos de pl�stico, do dinheiro.
- Ent�o vamos cham�-lo de "dinheiro". - Porqu�?
Porque � verde como as notas.
Bom dia.
Toni?
Algu�m me ajude.
Tive de subir os cinco andares a p�.
- O que foi? - Vem c�.
Vai l� embaixo buscar dois sacos que n�o consegui trazer tudo.
Se n�o arranjarem depressa o elevador n�o vou poder sair de casa.
Me sinto como uma presa.
Ora esta, Toni, voc� tamb�m pega os efervescentes.
- O que esse bicho faz aqui? - J� viste? � um lagarto.
- Encontramos ele no parque. - Um lagarto.
Mas voc� pensa que isso aqui � o jardim zool�gico, ou que?
- Me assustaste. - Deixe isso, que ainda se corta.
Saia daqui. J� fez o suficiente.
Podem come�ar a tirar esse bicho daqui.
- Ele n�o faz nada. Est� "invernando". - J� disse que n�o quero bichos.
Olha, ele se chama "dinheiro", gostas?
Eu e a vov� o encontramos no parque hoje de manh�.
- � t�o bonito. - Se te der espinhas n�o reclame.
Mas o que t�m a ver as espinhas com o lagarto, afinal?
Se n�o atirarem esse bicho para a rua, atiro eu.
Estou farta de voc�s at� � ponta dos cabelos.
Quando menos esperarem vou embora e depois quero ver como vai ser.
Onde est�o os calmantes? Onde est�o a porcaria dos calmantes?
Vou rezar pra Santo Ant�nio. Ele encontrar�.
Olha onde est�o os teus comprimidos. Est�s cega.
J� disse milhares de vezes para n�o tocarem nos meus comprimidos.
Mas n�o fui eu que os tirei da�.
Tas vendo? Te disse que o Santo Ant�nio os encontrava.
E o meu rel�gio? Onde est� o meu rel�gio?
- Viram o meu rel�gio? - Sei l� dele. Perguntas a mim?
Perdedora, �s uma perdedora. Perdes tudo.
- Procurem por a�. - N�o sei onde tens a cabe�a.
Vou ter de recorrer outra vez ao Santo Ant�nio. Vamos ver o que posso fazer.
- Tu �s a Gloria? - Sim.
- L� da aldeia? - Bem...
- A filha do Manolo. - Sim, sim.
N�o te lembras de mim.
Quantas vezes me mijaste a manta, minha filha. N�o te lembras.
Bem, eu era...
- Eras muito pequena. - Isso.
- Este � o teu filho? - Sim, chama-se Miguel.
- Casaste com o Antonio? - Sim.
- O filho dos Blasa? - Sim.
Minha filha. D� cumprimentos meus a tua sogra, lembro muito bem dela.
Da sua parte. Dou com certeza.
- O seguinte. - Agora � a nossa vez.
- At� depois. - Adeus.
- Diz que me viste. - Claro, claro. Adeus.
Entrem. Boa tarde. Boa tarde.
Senta. Senta como se estivesses em tua casa.
Fica a vontade.
A senhora, sente-se por favor.
Se for muito sens�vel, � melhor virar pra l�.
- Aqui h� coisas impressionantes. - J� n�o me impressiono com nada.
- Tem um filho bonito. Como te chamas? - Miguel.
- Gosta de crian�as? - Sim.
Sempre gostei.
- N�o tem filhos? - N�o, n�o.
- � triste um casamento sem filhos? - Sim, mas nunca me casei.
Sempre quis adotar um,
mas h� sempre tantos pap�is. - Al�m disso, saem caros.
Devagarinho.
Morde, morde.
- Morde. - E em rela��o a isso?
- Quando tenho que voltar aqui? - Vem aqui no meu escrit�rio.
Miguel, estive falando com o Sr. Doutor e ele gostou muito de ti.
- Eu sei. - Ele gostaria de te adotar.
Terias que viver aqui, claro.
Que voc� acha disso? Voc� j� sabe como estamos em casa.
- Tem v�deo? - Sim, Miguel.
- E uma aparelhagem? - Tamb�m, Miguel. Sony.
Quero um est�dio para pintar e um professor de pintura.
N�o se preocupe, Miguel. Te matriculo na escola de belas artes.
Vivo como acho que devo. N�o gosto que me controlem.
- Tem muita personalidade. - Eu gosto dele assim.
- Ol�. - A Gloria n�o est�?
- N�o. - E onde est�?
- N�o sei onde foi. - Mas � que...
...precisava dela agora. - Passa o dia fora de casa.
N�o se pode contar com ela para nada.
N�o te convido para entrares porque estou ocupada com a renda.
Gloria, veio uma mulher � tua procura.
- Quem? - Mas sou eu.
- O que �? - Tenho uma coisa para ti.
Sim, o que �?
- Vou embora, voc�s me aborrecem. - � uma ordin�ria.
- Sim, diz. - � que...
Vou embora.
- Queres ganhar um dinheiro f�cil? - Pelo amor de Deus, Cristal.
N�o tens de fazer nada.
- Ele est� sentado, esperando. - N�o sejas doida.
N�o achas que j� � tarde para come�ar?
- Al�m disso, o Antonio est� chegando. - Mas vai ser r�pido.
S� tens que estar na cama e ver. Este � exibi... cionista.
- Dinheiro mais f�cil n�o h�. - Mas se me tocar vou embora,
que hoje o meu corpo n�o est� para brincadeiras.
- Ol�. - Ol�. A minha amiga, um cliente.
- Minha Sra. - Como est�?
Sentem-se que vou come�ar.
A primeira vista posso parecer muito magro.
Mas s�o s� as apar�ncias.
Os bra�os, por exemplo, s�o mais musculados do que parecem.
Mas um homem n�o fode com os bra�os.
O meu tronco pode parecer um pouco magro.
Mas um homem n�o fode com o tronco.
As pernas? As pernas n�o s�o as de um desportista,
mas um homem n�o fode com as pernas.
Com que fode o homem? Tu. E tu?
- Com o caralho. - Com o caralho?
Exato. Era a� que queria chegar.
Porque tenho um caralho.
Cada vez que penetro na vagina de uma mulher, rasgo tudo.
- Meu Deus. - Por isso s� o fa�o com prostitutas,
que t�m a buceta mais aberta.
As mulheres normais t�m medo de fazer comigo.
Deviam gostar, mas t�m medo.
E a gala? Nem calculam como �.
Que brancura, que espessura,
que precis�o. Parece um g�iser. E �timo para a pele.
- Entre. - Que casa t�o acolhedora.
- Sim, mas n�o podemos viver aqui. - Mas eu gostei.
Olhe. Quero lev�-lo para a aldeia, sabe?
Para poder andar por l�, pelo p�tio, pelos gatos, pelas vizinhas.
N�o podemos continuar em Madrid. Nos afogamos, n�o sei.
A Gloria esteve esta manh� l� em casa e deixou isso.
O rel�gio. Eu j� sabia que apareceria. Santo Ant�nio nunca me deixa na m�o.
- O Sr. Por aqui? - Vim devolver o rel�gio a Gloria.
Esqueceu ele esta manh� quando foi limpar a casa.
- Obrigado por trazer. - Al�m disso queria falar contigo.
- Comigo? - Sim.
- Vamos at� ao bar. A Gloria? - Estava com a Cristal.
- As mulheres n�o est�o bem em casa. - Adeus, minha senhora.
- Sente ele l� dentro? - Sim, sim.
- Fala que t� sentindo ele. - Eu sinto.
- Fala que t� sentindo ele, amor. - Isso, eu sinto.
Estou sentindo muito bem, muito bem. Estou sentindo inteirinho.
- Fala que t� sentindo ele, amor. - Sim, sim. Sinto muito bem.
- Parece que estou quase. - Est�s quase gozando?
- Acho que sim. - Me diz como tu est�s gozando.
- Isso, estou gozando, estou gozando.. - Me diz!
- Isso, estou gozando. - Me diz como tu est�s gozando.
Isso, estou gozando. Estou gozando muito gostoso.
Quem bom!
Que bom, estou gostando tanto, estou me sentindo t�o bem.
Agora as 24 horas de Le Mans.
- Um copo de vinho. - Dois.
- Ent�o, o que tem a me dizer? - Agora passa o n�mero sete, o sete.
Vamos pral�.
Desde que vi as cartas falsas de Hitler,
n�o parei de pensar numa id�ia genial.
- E o que eu tenho a ver com isso? - Me escute.
Estou escrevendo as mem�rias de um ditador.
Com algumas corre��es, esse ditador podia ser Hitler.
Eu invento o texto. O Sr. escreve com a letra de Hitler.
Quando perceberem que temos as mem�rias autobiogr�ficas do ditador,
podemos pedir o dinheiro que quisermos por elas.
- Estou falando de milh�es, claro. - Sabes que estas me propondo um delito?
- Mas j� falsificou outras vezes. - Isso foi diferente.
Era verdade que Hitler tinha mandado cartas a Lotte Von Mossel.
- O que aconteceu foi que se perderam. - Isso foi o que disse Ingrid M�ller.
- N�o se meta com ela. - S�o milh�es. Fale com a Gloria.
- N�o tenho de pensar, nem de falar com ningu�m.
E tenha muito cuidado comigo porque posso denunci�-lo a pol�cia.
Vou fazer de camioneta. Uma Ford.
Antiga. Velha.
O arranque.
- O que foste fazer l�? - Pedir a Cristal a m�quina de frisar.
Acho que temos de conversar.
J� te disse milhares de vezes que n�o te quero ver com a Cristal.
N�o grites, homem, que ela ouve.
- A Cristal � como uma irm�. - � uma puta!
- O que � que isso tem? - Tamb�m te podiam confundir com uma.
Ai sim? Achas que com o corpo que tenho pagavam para dormir comigo?
N�o quero que trabalhes por a�. N�o vou lhe dizer de novo.
E podes me dizer como vou pagar os empr�stimos ?
E a televis�o e o condom�nio.
E a roupa dos moleques, o m�dico e a comida?
Sempre tiveste a cabe�a cheia de vento. S� pensas em luxos.
- Que pena. - Mas que luxos?
Nem sequer tenho sapatos para o Inverno. Vivemos como ciganos.
E agora vens me dizer que n�o queres que trabalhe.
- Como se fosse um capricho. - O dinheiro n�o � tudo.
- Ai sim? - A dec�ncia, por exemplo.
Podia ter mais dinheiro se tivesse menos escr�pulos,
mas por acaso sou honesto.
- Honestidade mata tua fome, �? - J� falei.
� proibido que a Cristal entre e saia desta casa.
E acabou-se o trabalho de ires limpar a casa do escritor.
Se a casa est� suja, eles que limpem ela.
Me d� o dinheiro e eu n�o vou mais.
- Por que n�o te maquias um pouco? - Por que n�o maquias o caralho?
Vaca.
Estou preocupada com a situa��o do L�bano.
O L�bano? O L�bano �s tu.
- O jantar est� pronto daqui a pouco. - Vou embora, j� engoli demais.
- Que voc� acha do meu plano? - D�gno de voc�.
- Mas n�o contem comigo. - S� preciso de 7.000 pratas.
Apenas para a viagem a Berlim e para a tradu��o para Alem�o.
- � a �ltima coisa que te pe�o. - N�o!
J� te disse que � imposs�vel.
Olha, Pedro, acho muito bom que estejas chateado com a Marisol,
mas � injusto ser o teu irm�o mais velho a pagar a fatura.
- N�o bebes um copo de vinho verde? - N�o parece muito verde.
- � da garrafa. - Obrigado, mas n�o quero provar.
J� sofri bastante nestes �ltimos meses para deixar.
- Pelo menos cheira. - Que cheiro forte.
Com esse tratamento at� perdeste o olfato.
Est� bem. Vou provar um pouco. Mas n�o me deixem abusar.
- Mas sabe a xerez. - Pedro, tenho vergonha de ti.
At� perdeste o paladar.
N�o vai fazer mal com todos os comprimidos que tomei?
Que todo o mal que te fa�a caia sobre a Patricia.
Que engra�adinho.
Bem, vou retocar um pouco a maquiagem.
E n�o bebam tudo, que tamb�m sou alco�lica.
- Conseguiu tirar alguma coisa dele? - Nem foi capaz de segurar uma caneta.
- Marisol.
- N�o pensas deix�-lo assim n�? - N�o vou ser babysitter.
- Marisol, voltaste? - Sim, amor, sim.
Anda, querido, vamos para a cama, est� bem?
Nunca me vai perdoar ser eu o g�nio da fam�lia.
Lucas, somos muito est�pidos.
- O que vamos fazer agora com isso? - Patricia, voc� n�o respeita nada.
- N�o se queixe. Quando voc� me conheceu, eu j� era cleptoman�aca.
Inventa algo e devolve! Eu tenho medo.
Quanto ser� que vale isso?
Por um Rolex e a cigarreira de ouro, 5.000 pratas.
Mas voc� pensa em vender os presentes da namorada dele?
� melhor. Assim ele a esquece mais depressa.
No sof�. Sempre foste muito caprichoso, filho.
- Ou�a, v�, o que acontece? - Nada.
O teu pai s� sabe me dar desgostos. N�o se coce tanto.
- � que me pica. - Que planos tens para hoje?
- Acho que vou a escola. - A escola? Outra vez?
Sempre a escola. Mas j� sabes mais que os professores.
- Por que o velho dorme na sala? - N�s chateamos ontem.
- E o Miguel, onde est�? - J� est� na casa do dentista.
N�o se preocupe, est� muito melhor que n�s.
Porra, o puto gosta de ser montado.
- Deixa eu te pentear. - Porra, v�, tens uma mania!
Se n�o fizer pareces um Ad�o.
- Por que voc� desligou? - Estou cheia de ouvir essa can��o.
- Quer um? - N�o, obrigado.
- Ent�o o que tem para me dizer? - Bem, � que...
...suo muito... e cai o cabelo. Este que tenho � posti�o.
- N�o sou dermatologista. - E tamb�m... sou um pouco impotente.
- Ah, bom. E com quem? - Como com quem?
- Sim, com homens, com mulheres? - Com mulheres, com quem havia de ser?
- Certeza que n�o gosta de homens? - N�o.
- Sai com mulheres? Tem namorada? - Sim.
- Da pr�xima vez traga-a. - Mas, o que tenho?
N�o � nada de grave. Na pr�xima sess�o investigamos as causas.
� que hoje me sinto muito mal. P�ssimo.
Com quem eu teria jantado ontem a noite? E a Sra. Quem �?
- A empregada. O seu irm�o me mandou. - Claro.
Por acaso sabe se ontem a noite jantei aqui com o meu irm�o e a mulher dele?
- N�o, senhor. - E com a minha ex-namorada?
- N�o, n�o sei. - Que porra mais estranha.
N�o se esque�a de trazer sua namorada para semana que vem.
Isso � coisa da Marisol. Levou tudo o que me tinha dado.
Carmen, sabe se ontem a noite a minha ex-namorada jantou aqui?
N�o sei. Acho que n�o. Te ligo mais tarde, at� logo.
Os passageiros com destino a Berlim, embarquem na porta 13, por favor.
Por que n�o me deixam morrer em paz?
- Quem � o senhor? - Lucas Villalba, escritor e cronista.
- Fala franc�s? - N�o.
- Deixe-me passar. - Quem lhe deu o meu endere�o?
- A sua editora. - Sacanas.
N�o dou entrevistas. Estou ocupada. Saia.
- Mas temos que conversar. - Me deixa em paz.
Vim da parte do Antonio, o seu antigo motorista.
Ant�nio. O pobre diabo.
D�-lhe os meus cumprimentos Ele ainda a ama.
- Mas o que est� fazendo? - Me suicidando, n�o v�?
N�o vai se suicidar antes de conversarmos.
- Onde � o banheiro? - Al�. Me deixe morrer em paz.
A sua carreira est� acabada. N�o tem dinheiro, s� recorda��es.
- N�o se adaptou aos tempos modernos. - Eles � que n�o se adaptaram a mim.
- Comigo pode ganhar muito dinheiro. - N�o confio em voc�.
Antonio � um grande falsificador. Escrevo as mem�rias de Hitler.
E ele podia falsificar o manuscrito.
- O que tenho de fazer? - Convenc�-lo.
J� o fez antes. Est� aqui a prova.
- Por que devo ajud�-lo? - Salvei sua vida.
- Mais uma raz�o para te odiar. - Se n�o me ajudar,
- lhe denuncio como falsificadora. - T� nem a�.
Pense em Lotte Von Mossel. Est� morta.
O que seria da reputa��o da sua amiga?
- Que tenho que fazer? - Fale com Antonio.
Diga que vai lhe ver em Madrid.
- Diga que precisa dele. - Mas agora estou muito pra baixo.
Melhor ainda. Ele vai pensar que � de emo��o de o ver.
Atende.
- Al�? - Antonio, � Ingrid M�ller.
- Sra. M�ller, que surpresa. - Tenho andado para te telefonar,
- mas n�o queria te incomodar. - Incomodar-me?
- Penso muito em ti. - Nunca te esqueci.
Penso em ti todos os dias.
- Antonio, gostaria de te ver. - Se eu soubesse.
Posso ir a Madrid para conversamos sobre um assunto?
Vir aqui?
- Para me ver? - Se n�o te importares, gostaria muito.
- Quando? - Em breve, eu te aviso.
Tenho um problema e s� tu podes me ajudar. Me ajuda?
- Claro que sim. Pode contar comigo. - Obrigada, Antonio.
Agora que falei contigo me sinto muito melhor.
- Estou t�o sozinha. - N�o, voc� tem a mim.
Obrigada, querido. Adeus.
- Muito bem. - Adeus.
- Vais jantar aqui hoje? - Sim.
O que te fez mudar de humor? A chamada dessa mulher?
- N�o fale assim da Ingrid M�ller. - Nunca nos deixa em paz.
- Mas, o que te fez a Sra. M�ller? - A mim nada, e a ti?
- Est�s com ci�mes. - Quem, eu?
Voc� estava babando enquanto falava com ela no telefone. N�o tenho ci�mes.
Por mim voc� pode voltar para a Alemanha quando quiser.
Gloria, voc� est� ficando doida. Toma cuidado.
- Mas o que � isso? - Nada, um lagarto.
Mas n�o faz mal a ningu�m. � muito bonzinho.
Te disse para n�o sair da caixa. O meu filho � muito sens�vel.
- N�o sou a �nica doida desta casa. - N�o admito que fales assim dela.
Aqui quem manda sou eu.
- Se n�o concordas, a porta est� ali. - Est� bem.
Filho, n�o discutam por minha causa.
Sou eu que tenho de ir para a aldeia.
- A Sra. Est� em sua casa. - N�o gostam de n�s, "dinheiro".
E o lagarto tamb�m est� em sua casa.
- Nunca saberei. N�o sou bom aluno. - �s um �timo aluno.
Podes fazer o que quiseres.
Gostaria de estudar agricultura. Podia ficar na tua fazenda.
- Ficaria muito feliz com isso. - Pensei num cargo importante...
- Podemos fazer uma fazenda na aldeia? - Claro que sim, moleque.
... e preferes o fazenda, os cavalos.
- Vamos ao parque ver se vemos algo? - Pode ser.
- Que deseja? - Boa noite. "Minilip" (calmantes).
N�o se vendem sem receita e al�m disso foi retirado do mercado.
- Ent�o me d� "Bustaid". - A mesma coisa.
- Eempre me deram sem receita. - Isso foi muito mal feito.
Ent�o me d� "dexedrinas" ou qualquer coisa do g�nero.
- � que estou muito mal dos nervos. - Deve ter a s�ndrome.
- A s�ndrome? E o que � isso? - Olhe, senhora. V� ao m�dico.
Diga-lhe que � drogada para ele lhe dar uma receita.
Eu drogada?
- Ainda por cima me insulta!! - Tudo o que me pediu s�o drogas.
Sou drogada e o que devo fazer? Assalt�-la e lev�-los a for�a?
J� lhe disse quais s�o as normas.
E quais s�o as normas quando temos de trabalhar o dia todo e nos d�i a alma?
Isso � problema seu.
- Gloria, est�s surda? - Estou fazendo o jantar.
Gloria, vem c�.
O que foi? Seu porco. Utilizaste os meus grampos para limpar os ouvidos.
- Esta tarde n�o vou trabalhar. - Porque, ganhaste na loteria?
A Sra. M�ller vai chegar e tenho de busc�-la no aeroporto.
- Passa a minha camisa branca. - E que vais fazer com ela?
- Onde vais lev�-la? - Pra dar uma volta na M-30. Vai gostar.
- Passa logo que tenho pressa. - Passa tu, se quiseres.
O que foi? Gloria, n�o quero discutir.
- O que aconteceu? - Nada, me deixa em paz.
- J� lhe disse para passar a camisa. - E eu j� lhe disse pra voc� passar.
Que est�s dizendo?
Nunca mais me bata!
Dinheiro? Dinheiro?
Vai. P�e o detergente.
� para hoje ou que?
- Quero ver o programa da televis�o. - Programa? Isso, regula o programa.
Assim vais aprender.
Fica aqui quietinha e v� como a m�quina trabalha at� acabar.
Quero ver televis�o e vou ver.
N�o h� televis�o para ningu�m. Como n�o tens escola vais limpar a casa.
- N�o pensa que n�o far�s nada. - Se o papai estivesse aqui,
n�o me tratavas assim.
- Se mentir de novo leva um tapa. - � verdade.
N�o responda! Nem me imites.
J� te falei. Se te mexer vai ficar de frente pra parede.
Velha ressentida.
N�o trate ela assim, sen�o ainda fica traumatizada.
Ah �? Traumatizada estou eu. A vaca � igualzinha ao pai.
- Com as costas a mostra. - A mostra?
Sim, e um pouco mais curto, sen�o pare�o uma freira.
- Por onde? - Por aqui. Assim como as modelos.
- Assim? - Um pouco mais.
Com as costas a mostra. Deixa eu ver.
Mas que merda de moleca, porra. A minha jarra.
- Mas foi tu! - A minha jarra. Eu mato ela!!
- Podia jurar que ela est� na cozinha. - Estou te dizendo que foi ela.
- N�o fique assim por uma jarra. - Olha, Cristal.
As vezes penso que s� tens sensibilidade na buceta.
- Que ordin�ria. - Vem c�.
Maldita seja. Eu te disse. Eu te avisei.
- Ol�. - Ol�, Gloria.
- Me d� a fotografia. Rasgue. - O que foi?
N�o est�s vendo? A Juani est� batendo na Vanessa.
N�o posso ver essas coisas.
Pronto. E agora tu n�o vai sair daqui at� quando eu quiser.
Se pensas que �s mais forte que eu, est�s enganada.
- Juani, � s� uma crian�a. - Crian�a? N�o a mimes, n�o merece.
Que apodre�a sozinha.
Que apodre�a sozinha. Odeio ela.
N�o diga isso. N�o se odeiam as m�es.
Me odeia porque lembro o pai.
- Ele foi embora por culpa dela. - As vezes um pai n�o resolve nada.
- Olha, por que n�o me adotas? - Olha que tamb�m n�o sou boa m�e.
- Ent�o eu te adoto. - Dizes cada coisa.
- O que tens? - Nada. Estou cansada, sabe?
- Vou fazer o jantar. Adeus amor. - Adeus.
Vou dar um ponto nisso e amanh� tu pode vir experimentar.
Me empresta um pouco de louro para fazer a sopa ?
T� com sorte, hoje mesmo comprei um raminho.
Ela t� ficando doida. N�o sabes a cena que ela fez por causa de uma jarra.
- Por ter quebrado uma jarra. - J� sabes como ela �.
O que foi? Conspirando nas minhas costas? Toma.
Eu por acaso te critico por tu seres uma puta?
Educo a minha filha como me sai da... Bom, n�o quero dizer uma blasf�mia.
J� percebi porque ela � assim. Foi por isso que te saiu... como saiu.
- E como � que saiu? - N�o me fa�as falar. Estou cheia.
E eu estou cheia de ti, vaca.
N�o sei pra que tens uma filha se n�o sabes dar carinho.
- E por que n�o vais tomar no cu? - Desculpem, mas n�o estou para isso.
- J� chega de porrada. - Eu vou contigo e levo o vestido.
V�, "x�".
� o pagamento por ser simp�tica.
Nunca mais encomendo vestido dela.
E quando digo isso, � s�rio.
Est� ressentida porque ningu�m lhe d� bola.
Eu sei que nem todas t�m um corpo como o meu.. que enlouquece os homens.
Mas tamb�m as feias podiam ser um pouco mais educadas.
N�o suporto os gritos. Detesto gritos, sou assim.
- Mas nem dela nem de... - � o lagarto da v�.
Tem sangue.
Dinheiro, anda c�.
Antonio. Antonio.
Que rel�mpago. Valha-me Deus.
Vamos nos cobrir.
Deus nos proteja.
Est� a ficar inchada.
Dinheiro, dinheiro. Onde estar� o lagarto?
Deve ter sido algo muito pesado.
- Isso cheira a esturro. - Pois essa sopa n�o cheira nada mal.
- Procuram algo? - Tem alguma barra de ferro?
- Um bast�o de basebol? - Uma chave-inglesa?
- N�o. N�o temos nada dessas coisas. - Vamos registar tudo o que c� est�.
Est� bem. Fa�am o que t�m a fazer.
- Quer uma tigela de sopa? - N�o, obrigado.
- Tome a senhora. Vai lhe fazer bem. - Nunca mais vou poder tomar sopa.
Compreendo o que sente, mas temos que conversar. S�o s� uns minutos.
Como queira. Vamos para a sala.
- O seu marido tinha inimigos? - Talvez. N�o era flor que se cheire.
- Alguma vez o assaltaram no t�xi? - Claro que sim.
Assaltaram na semana passada mesmo.
- Ele denunciou o assalto? - Acho que sim.
Os ladr�es se vingam das den�ncias, mas � estranho atacarem aqui.
- H� tanta gente m�. - Inspector, inspector!
- Se bobear descobriram algo. - "Dinheiro"
- O que foi? - Encontramos esse pau e tem outros.
- Paus? - A v� gosta de trazer do parque.
- Procurem bem. - Vou ao banheiro, se puder.
Quando ela sair do banheiro procurem bem e registem tudo.
J� estivemos l�, chefe.
- Confirmem. � uma mulher estranha. - Olhei bem esse pau e n�o tem nada.
- Ent�o deixa a�. Essas portas est�o fechadas com chave.
- Arrombem. - Sim, chefe.
�gua de Vichy da Catalunha.
- Efervescentes e madalenas. - Efervescentes.
S�o da v�. � viciada nos doces e nos efervescentes.
- Por isso que fecha com chave? - Tamb�m � muito miser�vel.
- E onde est� a v�? - Sei l�. Talvez no cinema com o neto.
Onde estava quando aconteceu o crime?
- E agora o que fazemos? - N�o sei, � uma casa t�o pequena.
E t�o estranha.
Tinha posto a sopa no fogo e como n�o tinha louro, fui pedir pra vizinha.
Fiquei l� um pouco, conversando com ela e com Vanessa.
e com a minha vizinha, Cristal.
- E onde vive a sua vizinha, Cristal? - Na esquerda de quem sai.
Ficou muito tempo falando com elas?
N�o, 20 minutos porque a Juani tinha batido na Vanessa e eu fui consol�-la.
Depois a Cristal me acompanhou e...
...quando descemos o encontramos.
- Viram ou ouviram alguma coisa? - Nada.
Com a M-30 aqui ouve-se tanto barulho que n�o d� pra ouvir nada.
- Registramos tudo e... ...nada. O que tem no sapato?
- E o lagarto tamb�m � da v�? - Sim, gosta muito de animais.
- P�ra! Por que mataste? - Os bichos me deixam nervoso.
- Era a �nica testemunha que t�nhamos. - O lagarto?
- Sim, o lagarto viu o assassino. - Quando?
Bom, fiquem aqui que vou interrogar os vizinhos.
Atire pela janela.
- N�o quero mais sangue nesta casa. - Desculpe, senhora.
- � a Cristal? - Cristal Scott.
- Me mostre os documentos, por favor. - N�o tenho aqui.
Tenho de procurar porque n�o me lembro onde pus.
N�o est�o aqui.
Deixa eu procurar.
- Tome. - Aqui diz Carmen Mart�nez.
- Sou atriz e cantora. - J� percebi pelo vestu�rio.
- � algum crime ter talento? - Depende do seu uso.
Deixe-me fechar.
- Houve um homic�dio aqui ao lado. - Sim, encontrei o corpo.
- Conte-me como foi, com detalhes. - Voc� se senta? ou lhe mostro a casa?
Sente-se.
O que fez na �ltima hora?
Estava em casa da minha vizinha Juani, a do sexto, experimentando um vestido.
Quando chegarmos em casa vestimos roupa seca.
Mas o que � isso? � o dinheiro, e est� morto, Toni.
- "Granda merda". Se bobear, caiu, v�. - N�o, mataram ele!.
- Quer beber qualquer coisa? - N�o, obrigado.
- Eu quero. - O taxista era seu admirador?
Sei l�. Era muito antip�tico e era casado com a minha amiga, Gloria.
- O que pensa de mim? - Onde vive a sua vizinha Juani?
- No sexto. - N�o saia daqui.
- E onde iria? - Temos coisas para conversar.
N�o, eu n�o tenho que conversar mais nada contigo.
N�o est� certo. Uma pessoa est� em casa e vem outra pessoa e mata.
N�o est� certo. Porque por exemplo uma mulher como eu,
que vive sozinha e que tem tantos objetos de valor.
N�o est� certo. E voc�s deviam fazer alguma coisa.
- Mataste! Assassina! - O que acontece?
- Era a �nica alegria desta casa. - A minha sogra.
- Encontramos o lagarto morto na rua. - O lagarto tamb�m?
- O lagarto tamb�m, como? - Por favor, Cristal.
Voc� n�o pode lev�-los para a sua casa enquanto acabamos isso aqui?
- O que aconteceu? - Porqu�?
- S� tem fofoqueiras aqui. - N�o aconteceu nada.
- Ol� meninas. - Vai tomar no cu.
- S�o estas a Ingrid M�ller? - Claro que n�o.
- Ent�o ela n�o vem. - � estranho. O Antonio tamb�m n�o.
- Vamos telefonar. - Espera que eu aponto o n�mero.
Espera um momento. Desculpe, tem uma caneta?
- Sim. - Obrigada.
- Vamos l� ver se... - Perd�o, o que est� aqui escrito?
Espera um pouco.
Que Ingrid M�ller se suicidou.
- A Ingrid M�ller se suicidou. - E mataram o Antonio.
- Mas porqu�? - Sei l�, talvez por amor.
- Coitadinhos. - Coitadinhos de n�s.
- Era a 1� vez que algo ia dar certo. - Voc� � muito azarado mesmo.
- Toma. - Obrigada.
Que obrigado que nada! Me d� o dinheiro!
N�o preferes que te pague de outra forma...?
- Est�s brincando? Quero o dinheiro. - Porra, osso duro de roer.
Como est�, v�?
- Como queres que esteja, minha filha? - Tem que ser forte.
Sim, mas quero ir para a aldeia.
N�o quero morrer em Madrid, longe de casa, como o meu filho.
- E como o lagarto. - Tenha calma, que vamos para a aldeia.
- Ol�. - Ol�.
- Ol�, Gloria. - Ol�, Cristal.
- For�a, v�. - Obrigada, Cristal.
Venho da casa do teu amigo escritor e j� n�o precisa de mim.
Se souberes de alguma coisa, diz pra ele que me faz falta.
- N�o se preocupe que eu digo. - Obrigada.
- Queres dinheiro emprestado? - N�o, a gente se arranja.
- Tenho que ir; � um trabalho especial. - Boa sorte, amiga.
Decidi ir para a aldeia com a v�.
Ainda bem. Assim me livro de todos.
- Voc� pode vir com a gente, se quiser. - E para onde irei?
Sei l�. Te convidei para n�o ficares aqui sozinha.
- Deves te importar muito como fico. - Claro que me importo. Que vais fazer?
- P�r papel novo, a casa est� um nojo. - Queres que te ajude depois?
N�o quero que ningu�m me ajude. Vou fazer sozinha.
- Vamos pedir dinheiro no banco. - Para qu�?
- Para os tickets at� � aldeia. - Est� falando s�rio?
- Sim, v�. - N�o � para me animar?
N�o. Vamos.
- Abre a porta, Toni. - J� vou.
- Ol�. - Boas. A gloria?
Ol�. Est� ali dentro.
- Que est�s fazendo? - Encontrei este papel barato
- e vou col�-lo em toda a casa - O barato as vezes sai caro.
Posso deix�-la aqui? Agora sem escola, n�o confio que ela fique sozinha.
- Ent�o deixa ela a�. - Se n�o se comportar, te mato.
- E te penteia! - Deixa ela em paz.
- Bom, obrigada. At� logo. - Queres uma revistinha?
- � que tenho muita coisa para fazer. - Prefiro ficar vendo o que fazes.
Ent�o voc� vai se divertir. Tenho de descolar tudo e depois colar.
- Se quiseres, te ajudo. - Obrigada, mas �s muito pequena.
- Eu fa�o. - Eu sei fazer. V�.
- Vanessa! Tens poderes. - Sim, desde pequena.
- H� mais alguma coisa para fazer? - Colar o novo papel na cozinha.
Eu fa�o isso.
- A minha namorada, Carmen Mart�nez. - � um prazer.
Sentem-se. � uma sorte ter namorada.
Assim tudo ser� mais f�cil.
A impot�ncia acontece devido ao que chamamos
- "ansiedade de execu��o". - Sim, claro.
Se d� muita import�ncia ao coito, o que leva a um problema.
- H� outras formas de ter prazer. - Sim, muitas. Muitas.
Para evitar esta ansiedade temos de evitar a ere��o.
Vamos come�ar por uns exerc�cios de reestimula��o, entendem?
- T�m uns corpos... bonitos. - Obrigada.
Por isso joguem e gozem com eles, mas nada de ere��o.
E obviamente, nada de penetra��o.
Dessa forma a ansiedade desaparece.
Mas se "ele" ficar... ...entende?
- Ereto? Acho que n�o. - Sim, mas..
- Mas se "ele" se ficar... - Nesse caso � com voc�s.
- Obrigado, Carmen. - Como obrigado?
E s�o 100 pratas por seres pol�cia.
- E o meu nome art�stico � Cristal - Para mim �s Carmen.
Isso � s� um trabalho. E os exerc�cios de reestimula��o � outra sess�o.
- Cristal, que surpresa. - Ol�, Gloria.
- Mas que fazes aqui? - Viemos limpar.
- J� conheces o inspector Polo. - Sim, como est�?
- Ainda n�o h� ind�cios concretos. - N�o interessa.
O Antonio est� morto, por isso investigar para qu�?
A encontro em todo lugar. E me olha de uma maneira.
� que a coitada precisa de uma boa dose de sexo.
V� se voc� se cura e d� uma m�ozinha pra ela.
Que me contas? Falaste algo?
Claro que n�o. O nosso arranjinho � um segredo profissional.
- Vai tirando a roupa. - N�o, � melhor voc� tirar.
Acho que est� fingindo.
E p�e uma m�sica mais agrad�vel.
Temos de aprender ingl�s. Como voc� quer ter sucesso em Las Vegas?
- O que voc� vai fazer em Vegas? - Triunfar, claro.
O que voc� acha que um corpinho desse vai fazer em Las Vegas?
Vem c�, pequeninho. Vamos ver como est� o seu corpo.
- Vamos examinar o seu tamb�m. - O meu?
Mas como te atreves? Isso � "high quality", quer dizer, muito bom.
Me toca vestida, que � mais sensual.
- Grandes m�sculos. - Fa�o exerc�cio f�sico.
- Um pol�cial tem de ter m�sculos. - Sim, eu n�o me importo.
- Gostas? - Sim, � bom.
- Ent�o n�o devias me cobrar. - N�o pensas em me dar calote n�?
- Se n�o cobrares, esque�o a hero�na. - Qual hero�na?
- Ali na caixinha chinesa. - N�o �s capaz de parar de xeretar?
Assim n�o te curas nunca, sabes que depois estas coisas d�o mau resultado.
� que me excita mais se n�o me cobrares.
As vezes tomo pra emagrecer. Sabia que tira o apetite?
- Sim, tu t� muito bem. - Tu quer � me comer.
Bajulador, tu �s um bajulador.
Ai, que pol�cial est�pido.
- Est� s� meio mole. - J� � um princ�pio.
Eu gosto, mas me provoca um pouco de ansiedade, como disse o psic�logo.
- Esquece o psic�logo. - Ent�o esquece a hero�na.
Tu j� � meia hero�na.
- O que estas fazendo? - Libertando as energias.
- H� modos mais normais de fazer isso. - Ah �? Para mim n�o servem.
- Como vai a investiga��o? - N�o sei. Ningu�m sabe de nada.
Ningu�m viu nada. N�o h� nenhuma pista, � um caso muito dif�cil.
Tenho te visto muito com a Cristal.
- N�o achas que ela � a assassina? - Por que me pergunta isso?
Porque ela n�o sabe nada.
Fui eu que matei o meu marido com uma pata de presunto. Assim.
- N�o diga absurdos. � perigoso. - T� nem a�..
- Toni, vai marcar lugar no �nibus. - Sim, vamos.
J� vou. Vou beber �gua. Pega um lugar na janela.
- Sim. - Mas.
- Olha a Blasa. - Paquita.
- Voc� est� aqui. - Sim.
- Como voc� est�? - Vou a aldeia.
- Voc� vai pra aldeia? - Sim.
Eu tamb�m vou. J� soube do seu filho.
- Os meus sentimentos. - Obrigada.
- Voc� sabe quem morreu da aldeia? - Morreu muita gente.
- J� n�o h� velhos. - Ah, s�rio?
Sim, mas � melhor serem os velhos
- do que os jovens. - Claro.
O coitado do Torrezno se enforcou.
- N�o esperou pelo Senhor. - Isso � horr�vel.
Se enforcou. E a mulher oito dias depois tamb�m morreu de desgosto.
- Meu Deus. - Nem calculas os velhos que morreram.
E est� muito frio. Ainda bem que levas lenha para nos aquecer.
Me d� isso, que � da v�.
Pare de tomar aqueles calmantes, certo? N�o te fazem bem.
Desde que o teu pai morreu que n�o os tomo e estou cada vez pior.
Claro. � esse o problema, mas tem calma que isso passa.
- Voc� acha que sim? - Sim. Toma, tenho uma coisa para voc�.
- Mas onde voc� foi buscar esse dinheiro? - Poupan�as.
Lhe conhe�o t�o pouco, meu filho.
- Voc� vai � escola na aldeia? - N�o, vou procurar trabalho no campo.
Depois de todos os sacrif�cios que passamos para lhe educar.
Eu lhe escrevo, est� bem?
Nunca se esque�a que sou tua m�e.
- Adeus, Gloria. - Adeus, v�.
- Adeus, Gloria. Suba. - Adeus.
- Senhora Paquita. - Se cuide.
- Sim, n�o se preocupe. - Que estas com uma cara p�ssima.
N�o quero saber que voltaste a tomar os calmantes.
- Miguel. - Ol�, m�e.
- J� soube do pai. Onde aconteceu? - Na cozinha.
Bateu com a cabe�a e morreu.
N�o disse nada porque n�o queria que voc� sofresse.
- Ficarei aqui. Voc� precisa de um homem. - E o m�dico?
A princ�pio era divertido, mas sou muito jovem para me prender a algu�m.
O Toni foi me ver.
- Me disse que iam para o campo. - J� foram.
- O pai sentiu a minha falta? - Tinha tanto trabalho que...
...nem sequer se deu conta de que voc� n�o estava aqui, mas...
...eu sim, tive saudades suas.
Fico muito contente por voc� ter voltado.
FIM
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