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Zulu
Olhe, que chique!
Ningu�m vai perceber que voc� trabalha aqui.
Parece uma madame.
E ent�o, terminaram?
Terminamos.
Tudo bem. Queridas, vamos.
STEFAN ZWEIG - ADEUS, EUROPA
Subpack by DanDee
Vamos ver onde ele vai sentar. Aqui.
-Bom dia. -Bom dia.
Pode nos arranjar uma mesa para os livros?
Uma mesa para os livros, r�pido!
-Olha, gente! Voc� viu aquela? -Sim.
-Quem que � ela? -� aquela...
Aquela escritora...
Ah, j� sei, cujo marido � o fundador do Sul Am�rica.
�! Lago� La�
La� Lagorotti!
Lagorotti, � isso!
Olha, aqui � o lugar dele.
Ainda depende muito do pre�o global do caf�.
Quando subir, o Brasil vai crescer.
-Mas, quando cair... -Entendo.
-Incr�vel! -Gostou?
Sabem o que Vesp�cio disse quando chegou � Ba�a de Guanabara em 1502?
N�o.
"Se o Para�so existe na Terra, n�o pode ser longe daqui".
Muito bom!
Dr. Zweig! Por favor,
uma foto com o Ministro Soares e as duas filhas do nosso presidente!
Com prazer!
-Obrigado. -Obrigada.
-Dr. Zweig, pode autografar o livro? -� claro.
A prop�sito, amanh� teremos o prazer de conhecer seu pai.
-Ah, sim. -V�o conhecer nosso presidente?
Espero que ele se comporte.
-� um prazer. -Obrigado. O prazer � meu.
Sr. Zweig, talvez as duas senhoritas Vergases
-tamb�m gostariam de um livro. -� claro.
-Vamos lhe arranjar um livro. -Que gentileza!
-O senhor � muito gentil. -Foi um prazer.
Tudo bom?
Ol�.
Quero lhes apresentar o presidente da Academia Brasileira de Letras.
Sr. de Souza. J� tive esse prazer ontem.
O prazer � todo meu.
E nos veremos em Buenos Aires.
-Minha esposa. -Muito prazer.
Encantado, senhora.
Claudio, como vai voc�?
Senhora...
-At� mais tarde. -Obrigado.
-Pode autografar o meu? -Com prazer.
-Obrigada. -De nada.
A vossa aten��o, por favor.
Em nome do minist�rio das Rela��es Exteriores do Brasil
e em honra do nosso convidado, o Dr. Stefan Zweig,
quero dar as boas-vindas a todos.
As suas obras chegaram muito antes do senhor.
Elas est�o expostas nas vitrines das nossas livrarias,
elas est�o expostas nas estantes em nossas salas
e, em particular, em nossos cora��es.
Essa � a �nica explica��o
para, ontem, terem comparecido mais de duas mil pessoas
� sua sess�o de leitura.
O nosso agradecimento ao seu editor,
o Sr. Abrah�o Koogan,
que o convenceu a nos dar a honra de sua visita
a caminho do congresso de escritores de Buenos Aires.
N�o me vou alongar mais, estamos todos famintos,
e a corrida de cavalos n�o vai esperar por n�s.
Estimado ministro Soares, senhoras e senhores,
como alguns dos senhores sabem, n�o vivo mais no meu pa�s.
N�o posso mais publicar os meus livros na Alemanha.
Me parece que, nestes poucos dias no Brasil,
eu encontrei mais amizades do que encontraria em anos!
Por favor.
Como alguns dos senhores devem saber,
j� n�o vivo mais na minha terra.
Na Alemanha, j� n�o posso publicar mais meus livros.
E me parece realmente
que, nestes poucos dias aqui no Brasil,
eu encontrei mais amizade do que em todos esses anos.
Muito obrigado.
Mas...
Mas, al�m dos prazeres pessoais que seu pa�s me proporcionou,
e apesar de sua beleza
e sua arquitetura ousada,
existe outra coisa que me causou uma impress�o mais poderosa
e que quero compartilhar com voc�s.
Toda na��o e toda gera��o
e, portanto, a nossa tamb�m,
precisa encontrar uma resposta para a pergunta mais vital de todas:
como chegamos a uma coexist�ncia pac�fica no mundo de hoje,
apesar de todas as nossas diferen�as
de ra�a, de classe e de religi�o?
Me parece que o Brasil encontrou a resposta.
Parece que, al�m da sua vegeta��o, a sua popula��o
� mais colorida do que a europeia.
Desde a minha chegada, na Ba�a de Guanabara,
eu tive a impress�o, como uma vis�o, do futuro.
Obrigado.
BUENOS AIRES, ARGENTINA SETEMBRO DE 1936
Com licen�a.
Abram caminho, por favor.
Sr. Zweig!
Desculpem, senhores.
Senhor, por favor, autografa meu livro?
Sr. Zweig, uma foto, por favor. Uma foto.
Sr. Zweig, por favor, olhe aqui para a c�mera.
-Uma foto, por favor. -Obrigada.
Mais uma, por favor.
Sr. Zweig, por aqui, por favor.
-Sr. Brainin! -Achei que tivesse me esquecido.
Meus colegas est�o l� em cima.
-Tenho que guardar o casaco. -Obrigado.
-Como est� seu pai? -Bem.
Est� escrevendo e traduzindo.
O trabalho significa mais para ele do que os netos.
Excelente. Quantos anos ele tem?
-Mais de 80? -�.
Tudo que posso dizer �: Belarus. Ele vai enterrar todos n�s.
Por aqui, por favor.
Dr. Zweig...
Ah, Sr. Leivick!
-Bom dia. -Como vai?
Sr. Oppenheimer.
-Sr. Sadler, n�o? -Estou impressionado!
E Adolfo Hirsch, outro fundador do Apoio aos Refugiados.
� uma honra para mim.
� uma honra para mim poder ajud�-lo.
Seu trabalho � bem mais importante do que os nossos.
Como a entrevista que o Sr. Brainin precisa me levar para fazer.
Pode ir. Nos vemos amanh� � noite para a sua leitura.
Estou ansioso.
Promovam bastante para lucrarmos!
Seu tolo! Est� esgotada h� tempos!
Sabia que, tirando a Palestina e os EUA,
Buenos Aires � quem aceita mais imigrantes?
-Bom dia. -Bom dia.
� porque ainda podemos entrar sem fazer escalas.
-Bom dia. -Bom dia.
� aqui.
-Bom dia. -Bom dia.
Dr. Zweig, Thomas Friedman, "New Yorker Magazine".
-Muito prazer. -Igualmente.
Por favor, sente-se.
-Muito prazer. -Sr. Zweig.
Prazer.
-Martinez. "La Prensa". -Muito prazer.
�gua, Dr. Zweig?
Um caf�, por favor.
Incr�vel!
Uma c�mera reflex de uma lente. E de onde veio?
Da Alemanha.
-J� esteve na Alemanha? -N�o.
S� a uma boa escola. Posso?
-Podemos falar alem�o? -Meu alem�o termina no card�pio.
Temos tradutores.
Ent�o vamos come�ar, senhores.
-Senhores, podemos come�ar? -Por favor.
Dr. Zweig, que signific�ncia pol�tica tem o Congresso dos Escritores?
80 escritores de 50 na��es se encontram por 10 dias.
Tem um enorme potencial intelectual,
mesmo que o PEN Club seja uma organiza��o pequena.
Compare-nos a um pequeno navio de passageiros
navegando entre coura�ados, contratorpedeiros e porta-avi�es
pelos sete mares.
Mas a bandeira que levantamos � de enorme signific�ncia.
Ela significa a liberdade de pensamento, de express�o
e a compreens�o internacional.
� a bandeira branca.
Hoje, mais do que nunca, sou seu leal porta-bandeira.
-Em 26 de agosto... -Com licen�a.
Sr. Zweig, o senhor e seu colega Emil Ludwig
s�o os �nicos representantes da literatura alem� neste congresso.
Qual � a sua posi��o em rela��o aos �ltimos acontecimentos na Alemanha?
N�o vou a Alemanha h� quatro anos.
Mas acompanha os eventos?
Tem contato com pessoas que deixaram a Alemanha?
Obrigado.
Pessoas que deixaram a Alemanha ou que s� v�o visitar
n�o sabem o que realmente est� acontecendo l�.
Novas alian�as podem estar se formando
e virar tudo de pernas para o ar.
Eu passei dez dias no Brasil.
N�o sei dizer se as pessoas est�o satisfeitas com o presidente Vargas,
mesmo que essa tenha sido a minha impress�o.
O senhor n�o pode comparar a Alemanha de Hitler
com um governo moderado...
-Com licen�a... -Cavalheiros...
Calma. Um de cada vez.
Sr. Brainin, por favor.
Hoje come�a a 8� Reuni�o de Nuremberg.
Eu sei, Sr. Brainin.
Qual � a sua pergunta?
H� dez dias, em 26 de agosto,
foi anunciado que o servi�o militar alem�o
seria aumentado para dois anos.
Esperaram at� o final das Olimp�adas para fazerem o an�ncio.
Podemos tirar certas conclus�es.
Correto.
Que conclus�es o senhor tirou, Dr. Zweig?
� imposs�vel fazer previs�es sobre a Alemanha.
Todas as previs�es se mostraram erradas.
N�o vou fazer nenhuma previs�o.
Dr. Zweig,
eu adoro o seu trabalho
e adoro a l�ngua alem�.
O senhor concorda quando eu digo
que os alem�es est�o se preparando para a guerra
e est�o a caminho da barb�rie?
Como o senhor, eu leio os jornais e me sinto atormentado.
Mas n�o podemos ser radicais,
n�o devemos nos rebaixar ao n�vel intelectual dos nossos advers�rios.
Eu n�o vou falar mal da Alemanha.
Eu nunca falaria mal de nenhum pa�s.
Sem exce��o.
Ent�o a pol�tica ficar� sem a sua opini�o?
E, consequentemente, as v�timas da pol�tica tamb�m.
O Congresso vai discutir a fun��o da literatura na sociedade.
Na sua opini�o, que fun��o � essa?
Obrigado.
Os intelectuais devem se dedicar �s suas obras.
� sua ferramenta mais poderosa.
Estou come�ando a odiar a pol�tica,
porque ela est� se tornando o oposto da justi�a.
Ela trai a palavra com o slogan.
Os intelectuais devem ser justos.
Devem elaborar o entendimento para nossas contrapartes e advers�rios.
Um artista pode criar obras com dimens�es pol�ticas,
mas n�o pode abastecer as massas com slogans pol�ticos.
Minha for�a art�stica pessoal vem do positivo.
N�o consigo s� escrever sobre algo.
N�o consigo atacar, n�o consigo escrever por �dio.
E se...
Se meu sil�ncio � um sinal de fraqueza,
temo que viverei com esse estigma.
Franz Werfel, em "Os 40 dias de Musa Dagh",
escreveu sobre a situa��o pol�tica contempor�nea
sem comprometer sua integridade art�stica.
Werfel escreveu sobre a revolta arm�nia de 1915.
A nossa situa��o pol�tica atual d� ao livro uma explos�o
que, sinceramente, � um presente para a editora.
Eu me permito dizer isso,
pois vi o choque em que Werfel ficou
ao saber do destino dos �rf�os arm�nios.
Eles eram os catalisadores daquele romance.
Seu livro nunca teria liberado tanta pot�ncia
se ele n�o tivesse usado as crian�as s� para escrever sobre Adolf Hitler.
Esse livro pode ser comparado ao seu "Erasmus of Rotterdam"?
Eu adoraria que sim.
A Europa hoje se encontra entre o fascismo e a democracia.
Na �poca, ela era dividida entre o catolicismo e o protestantismo.
Erasmo se colocou entre as duas frentes e tentou unir o mundo.
E n�s, que acreditamos numa Europa futura,
devemos lembrar que, antes de ser europeu,
ele era um defensor fervoroso da paz,
embora tenha falhado.
Ent�o o senhor acredita que uma Europa pac�fica � poss�vel?
Sim.
Acredito numa Europa livre.
Acredito que, um dia,
as fronteiras e os passaportes ficar�o para tr�s.
Mas duvido que viveremos para ver tudo isso.
Meu pessimismo em rela��o ao futuro pr�ximo
infelizmente sempre foi justificado.
Minha �nica esperan�a s�o nos grandes movimentos
que atravessam os s�culos.
Para mim e, infelizmente, para os senhores tamb�m,
ser� tarde demais.
Pe�o perd�o, mas est�o chamando o Sr. Zweig,
pois a reuni�o vai come�ar.
-Senhores, obrigado por ouvirem. -Obrigado.
-Obrigado. -Muito obrigado.
-Igualmente. -Obrigado.
-Obrigado. -Muito obrigado.
-Foi um prazer. -Nos vemos l� fora.
Sr. Aita, onde fica...
-� esquerda, segunda porta. -Obrigado.
N�o vamos mais encontrar lugares.
-Sr. Aita, onde ele est�? -Ele j� est� indo.
-Sr. Marinetti, bom dia. -Bom dia, Sr. Duhamel.
-Sr. Ungaretti. -Bom dia.
Sr. Brainin.
Dr. Zweig.
� meu dever pression�-lo.
Estou decidido a n�o deix�-lo ir
antes de conseguir uma condena��o public�vel ao regime de Hitler.
Sr. Brainin, estamos longe disso.
E isso me faz manter o sil�ncio?
Sei o que est� acontecendo na Alemanha.
O senhor n�o me entendeu.
O senhor e eu n�o estamos apenas distantes.
No momento, somos alguns dos poucos que n�o t�m o que temer.
Desculpem. Bom dia.
Por isso devemos evitar pol�micas.
N�o vou fazer julgamentos do outro lado do mundo
numa sala cheia de gente que pensa igual.
Seria obsceno
e se esvairia sem import�ncia.
Todo gesto de resist�ncia sem risco ou impacto
n�o � nada, sen�o um grito por aten��o.
Preciso ir agora.
Ainda estou considerando a revista de que lhe falei em Nova York.
As melhores obras de judeus contempor�neos,
cientistas, escritores...
Sem pol�mica. Apenas qualidade intelectual.
Isso pode ser uma resposta � suposta "superioridade ariana".
O senhor acha que pode lutar contra a ditadura assim?
Com licen�a. Estamos atrasados.
Ouviu as novidades?
O congresso n�o concordou nem em condenar Franco.
Em vez disso, vai expressar sua solidariedade ao "povo espanhol".
N�o � um esc�ndalo?
O senhor n�o desiste, n�?
Vim de Nova York s� para essa entrevista.
Sou judeu.
Ele tamb�m.
Mas a voz dele importa. A minha, n�o.
Depois de Thomas Mann, ele � o autor alem�o mais lido do mundo,
mas se recusa a se pronunciar.
Ele defende sua independ�ncia.
Sua ilha de artista.
N�o. Ele � um covarde.
Ego�sta e t�mido.
Sr. Brainin, est� indo longe demais...
O contr�rio � verdade, Sr. Martinez.
O senhor n�o est� indo longe.
N�o existem mais ilhas. Me entende?
N�o existe mais independ�ncia.
-R�pido, vamos! -N�o consigo correr!
A ilha dele afundou faz tempo!
Em breve ele vai ter que nadar para um lado ou para o outro.
...mas talvez existam grandes escritores nazistas.
Quem s�o eles?
O homem que chegou ao topo da nova hierarquia liter�ria,
um homem chamado Blunck,
presidente da C�mara de Cultura do Reich,
publicou um livro alegando que as Am�ricas
n�o foram descobertas por espanh�is nem genoveses.
Como j� devem ter imaginado,
foi por um tal de Dietrich Penning,
um dinamarqu�s descendente de alem�es.
Acho que ter�o que substituir seu ador�vel monumento a Colombo
por um monumento a Penning.
Mas ainda mais empolgante � a quest�o de Jesus.
Como evitar o fato de que ele era judeu?
Isso � f�cil.
Outro professor alem�o, Franz von Wendrin,
provou que Jesus, "na verdade", era ariano,
nascido em Mecklenburg.
Veem como os descendentes de Kant se tornaram uns degenerados?
Quase todos os livros de Goethe foram banidos das escolas.
Um congresso internacional de escritores
pode continuar indiferente a esses assuntos?
O discurso oral
� a raz�o pela qual estamos reunidos aqui:
a liberdade de pensar,
a liberdade de se expressar
em igualdade e fraternidade para toda a humanidade.
� uma m�xima t�o simples quanto perfeita
quanto a express�o "dignidade humana".
Uma m�xima que toda ditadura nega,
sen�o deixaria de ser uma ditadura.
A Alemanha, como todos sabemos,
deixou a comunidade internacional da PEN
em novembro de 1933.
Me alertaram para n�o dizer a maldita palavra "guerra".
De vez em quando, n�s, escritores, somos convidados
a estar neste Jardim do �den intelectual.
E, sim, eu preferia me ater
a uma aben�oada discuss�o entre a Am�rica e a �sia,
como foi representada aqui ontem por duas lindas mulheres.
Meus cumprimentos, Sra. Ocampo,
presidente do clube PEN argentino.
E a Sra. Sophia Wadia, delegada da long�nqua �ndia.
Mas eu devo, com um profundo arrependimento,
falar com os senhores com palavras mais substanciais e amargas.
De um congresso para o outro,
testemunhamos o n�mero de pa�ses censurados
crescendo.
Se conseguirmos nos encontrar novamente antes da guerra,
esse n�mero ter� aumentado ainda mais.
Qual � a linha entre a literatura e a pol�tica?
� poss�vel que nem todos n�s nesta sala de conven��o
tenha a mesma opini�o sobre a guerra?
Estou falando, porque acho que � meu dever alert�-los.
O destino dos escritores de l�ngua alem�
pode ser o seu destino amanh�.
Quando, em cem anos, um historiador
mencionar um congresso de pensadores e artistas
que aconteceu em 1936,
ele n�o vai mais poder dizer
que este congresso se calou diante destes perigos
que amea�am o intelecto e os servos do intelecto.
Obrigado pela aten��o.
Senhoras e senhores,
eu n�o acredito que estamos nos misturando
com o perigoso mundo da pol�tica
quando proponho homenagear
todos os escritores de l�ngua alem�
que foram for�ados ao ex�lio, a viver num pa�s estrangeiro,
ou foram presos num campo de concentra��o.
N�s pensamos em: Lion Feuchtwanger,
Thomas Mann, Heinrich Mann,
Klaus Mann,
Carl von Ossietzky,
Walter Benjamin,
Stefan Zweig, Alfred D�blin�
Ernst Toller, Hermann Kesten,
Alfred Kerr,
Oskar Maria Graf,
Else Lasker-Sch�ler,
Ludwig Marcuse,
Alfred Polgar, Joseph Roth,
Bertolt Brecht, Ernst Bloch,
Salomo Friedlaender,
Anna Seghers, Siegfried Kracauer,
Erich Maria Remarque,
Carl Sternheim,
Albert Einstein.
Vamos reafirmar nossa compaix�o fraternal
e profunda
e lhes desejar coragem
e esperan�a.
Antes de continuarmos com o discurso do Sr. Figueiredo,
vamos ouvir a tradu��o do discurso do Sr. Ludwig.
Primeiro, em espanhol e, depois, em franc�s.
Senhores delegados,
Hoje tenho a honra de lhes falar em nome...
O senhor quer ir ao banquete particular da Sra. Ocampo?
Tenho que confirmar at� o meio-dia.
PROV�NCIA DA BAHIA, BRASIL JANEIRO DE 1941
� bastante diferente
e, dependendo da regi�o, podem durar vinte anos,
mas aqui, na maioria das vezes, dura cinco.
A cana pode sobreviver por cinco anos.
Cortamos a cana rente ao ch�o,
os tocos voltam a arrebentar.
E precisa de doze meses para chegar de novo a esta altura.
Cortam a cana e t�m que esperar... Doze?
-Doze. -Doze meses at� crescerem.
-E o... -Sim.
Como � que se planta?
Isso � o mais f�cil.
Utilizamos apenas rebentos da parte de baixo.
T�m de ter dois a quatro n�s.
A cana tem que ter quatro n�s.
Enterra-os com terra para ficarem ligeiramente cobertos.
Enterramos a cana geralmente na terra.
Sabe quantos rebentos colocamos por cada hectare?
Sabe quantas canas plantamos por cada hectare?
N�o. N�o sei.
Eu diria que cerca de 20 mil.
� consider�vel.
Tome. Prove.
-Pode comer. -Tem que mastigar.
� doce, muito doce.
� doce.
Que del�cia! Muito doce.
Eu n�o disse?
Sabe quantos quilos de cana de a��car
um bom trabalhador consegue recolher num s� dia?
Esse, com certeza, n�o trabalharia aqui por muito tempo!
Tente de novo.
Bom... Talvez...
N�o fa�o ideia.
Stefan, me ajude. Estou cometendo gafes.
Vitor, tudo bem?
Tudo em ordem. N�o se preocupe.
Continue, por favor.
Vou buscar o Sr. Zweig.
Sr. Zweig!
Sr. Zweig!
V� embora!
A senhora tamb�m tem filhos?
N�o, n�o tenho filhos.
Eu tenho sete.
O mais velho tem dezessete anos.
O mais novo tem dois anos e meio.
N�s viajamos muito.
� dif�cil� Com filhos.
Onde mora?
Cinco� H� cinco meses... Viajar...
Tr�s meses, Rio, Argentina, Uruguai, Venezuela...
Meu marido faz apresenta��es, l�...
N�s temos uma casa na Inglaterra,
mas a guerra...
Ent�o tivemos que fugir.
A senhora � inglesa?
N�o, n�o... Alem�.
Mas, desde os seis anos, deixei a Alemanha.
Por qu�?
Ah... Guerra... Somos judeus.
Que dif�cil...
Muita gente... Muita gente �...
-Aqui n�o h� guerra. -N�o.
A senhora � ainda muito nova. Talvez venha ter filhos aqui.
-Ei! -O que ele quer?
Desculpe, Sra. Zweig...
Estamos muito atrasados!
-Bom dia. -Bom dia, senhor.
Onde estava?
Escrevi o telegrama para a filha de Cata
em nome de Eisemann.
� um momento muito inapropriado,
mas n�o sei mais a quem recorrer.
Vamos mandar um a Hanna e a Manfred
dizendo que estaremos em Nova York para cuidar da Eva.
N�o podemos perder esse avi�o.
-Ah, n�o! Vitor! -Estou bem.
-Tudo bem? -Tudo. Obrigado.
� sempre pra frente, sempre pra frente, senhor.
Est� tudo a�?
Passaporte, visto de resid�ncia brasileiro,
passagens de avi�o, vistos,
impress�es digitais, fotos,
convites para palestras...
Amanh� vamos pegar os comprovantes do seguro das bagagens
e a certid�o da alf�ndega.
Onde vamos nos trocar?
Est� fazendo -15 graus em Nova York.
Vitor...
N�o podemos ir direto para Recife?
N�o. N�o � poss�vel.
S�o cinco horas de carro, depois os voos...
N�o, por favor, n�o fa�a isso comigo.
O prefeito quer homenage�-los na prefeitura.
E agora ele aceitou reorganizar tudo na fazenda.
Se n�o formos, ele vai me matar!
N�o temos um dia sem recep��es.
� sempre muita gente. � demais!
Mas dos Santos conhece meu pai...
Podemos mandar um telegrama da fazenda?
N�o sei.
� sobre um visto para um amigo de Londres.
� importante.
O embaixador de Cuba tinha prometido,
mas agora faleceu de repente.
Agora temos que pedir � filha dele.
Posso tentar falar com o de Souza sobre um visto brasileiro.
O Brasil n�o emite mais vistos a judeus.
S�rio?
Vamos encontrar algu�m que possa mandar o telegrama de Cachoeira.
Eu cuido disso.
Est� bem. Vamos � recep��o do prefeito.
S�rio. N�o tenho ideia de como devemos fazer isso.
Amanh�, de Bel�m a Trinidade Seis horas e meia.
De Trinidade a Miami, nove horas e meia.
Depois, de Miami a Nova York. Mais nove horas.
E n�o podemos pegar as malas.
Ou pegamos os casacos agora ou congelamos em Nova York.
Que imagem linda! Eu congelado em Nova York com meu terno tropical.
Estava planejando meu show de palha�o em NY
com meu terno tropical em -15 graus.
O Dr. Zweig vai viajar para Nova York com seu terno tropical.
E l� est� fazendo -15 graus!
...essas cadeiras... -Bernardo!
Por que n�o est� pronto?
Vai, vai, vai, vamos mexendo! Vamos mexendo!
O qu�? O qu�? O que querem?
Chegaram! Chegaram!
Veste o seu casaco, Bernardo!
-Bernardo, pelo amor de Deus! -Meu Deus...
Chegamos muito cedo?
N�o sei.
Bernardo...
Fiquem aqui, que eu j� volto.
Que vergonha, Bernardo!
Espere! Espere!
N�o, n�o, n�o d�.
N�o me venha com espera. N�o me venha com espera.
Nada de "Bernardo".
Eu n�o vou fazer isso agora!
Vitor, Vitor, Vitor, venha c�! Venha c�, Vitor!
O que est� acontecendo? Eu tinha dito na C�mara Municipal!
Coitado...
Espero que ele n�o tenha um ataque do cora��o.
Est� tudo atrasado! Olhe essa bagun�a...
Se n�o nos mexermos, talvez nos esque�am.
Senhor!
Meu rei!
Eu tomei a liberdade de preparar uns drinques para os senhores,
porque est� calor, n�o � verdade? T� esse solz�o, n�o �?!
Mo�o, ele n�o est� entendendo o que a gente fala?
Muito obrigado. � muito simp�tico da sua parte.
Obrigada eu, meu querido!
Acaraj�, acaraj� da Bahia! Caseiro!
Vamos causar mais problemas se descermos?
Se quisermos chegar a Recife hoje, n�o temos op��o.
Fa�a o favor!
Claudia!
Olha a mo�a, que lindeza! Tudo bom?
Senhor!
Bernardo, voc� � o prefeito!
Vamos l�!
N�o coma de uma vez, sen�o vai sair daqui com uns quilinhos a mais!
Tamb�m n�o � assim, minha filha.
� pra avisar. Tem que saber mesmo, n�o �?
-Estou bem, Claudia? -Muito bonito.
Tem que falar quando � verdade!
N�o, n�o, n�o! Saia da�! Saia da frente!
Ai, meu Deus... Calma.
Por que est� me acontecendo isso?
-Calma, Bernardo, calma! -Como posso ter calma?
Meu rei, pode autografar seu livro?
-Autografa depois. -Autografa, mas n�o tem caneta.
Saiam da frente.
Cara Sra. Zweig.
-Bom dia. -Bom dia.
Dr. Zweig. Me encontrou assim deste jeito!
Lamento receb�-lo dessa maneira.
Oh, n�o, eu imploro.
Estamos muito agradecidos por nos receberem aqui.
Gostar�amos muito de ter ido � c�mara, mas...
A C�mara Municipal.
N�s temos que pegar um avi�o em Recife.
� muito bonito que o senhor nos receba.
O �nibus avariou! O pneu do �nibus furou.
Os convidados n�o podem chegar mais.
O outro �nibus de convidados teve um problema.
N�o tem import�ncia. Fazemos sem eles.
Por favor, n�o se preocupe. N�o importa onde eu esteja.
O Brasil foi a experi�ncia mais bonita que eu podia imaginar.
Vimos e vivemos momentos lind�ssimos.
Vimos a lavagem dos degraus da Igreja do Senhor do Bonfim.
A Europa � rica em passado, mas o Brasil � o pa�s do futuro.
A cidade toda lavando a igreja, dan�ando...
Foi muito bonito.
-A lavagem da igreja, Bernardo. -Muito bonita.
Muito bonita.
Senhor dos Santos, uma fotografia, por favor.
-Posso? -Com certeza, Pedro.
S� um momento. Claudia!
-Pode tirar! -Pronto.
Outra, outra. Por favor, Pedro.
Perfeito!
Com licen�a, mais uma foto agora.
Pronto! Muito obrigado.
E agora, com a sua permiss�o, queria lhe dirigir umas palavras.
Por favor.
-Mas tome um lugar, por favor. -Por favor, por favor!
Claudia, venha! Maria!
-Vitor. -O discurso! R�pido!
-O telegrama. -Ah, sim.
S�o dois.
-Os endere�os est�o aqui. -Certo.
A Maria vai pegar o primeiro carro para Cachoeira e enviar�.
-�timo. -Maria,
Venha c�.
Isso � um telegrama urgente do Dr. Zweig. � muito urgente.
Obrigado.
Claudia!
"O Brasil � a terra do futuro".
Ouvi estas palavras da boca
do maior escritor dos nossos dias,
um homem que escreveu de uma forma impressionante
sobre Erasmo, Maria Stuart, sobre Fouch�.
�, para n�s, uma grande honra
recebermos Stefan Zweig e a sua esposa!
Por favor, por favor.
Venham, venham!
Bem-vinda, Sra. Zweig.
Obrigada.
-Muito obrigada. -Muito obrigado.
De nada.
Todos sabemos.
Na Europa, prevalece a guerra,
e isso � terr�vel.
Mas, apesar de todos os horrores que cada guerra desencadeia,
consegui encontrar hoje algo de positivo.
Este 18 de janeiro de 1941 ficar� marcado nos anais da Cachoeira.
Porque o nosso cultivo de cana de a��car,
a nossa terra, ser� imortalizada
num livro sobre o Brasil de Stefan Zweig.
Que bonito! Que bonito!
� por isso que queremos lhe dar um presente.
Um presente da sua terra.
Uma recorda��o de forma musical, por assim dizer.
Que a paz regresse em breve.
E que o senhor e a sua esposa possam voltar em seguran�a
� �ustria.
Pois como diz um velho ditado brasileiro:
"Um homem sem p�tria n�o tem futuro".
M�sica!
Vitor, as flores s�o pesadas.
Obrigada.
NOVA YORK, ESTADOS UNIDOS JANEIRO DE 1941
N�o acredito!
O que disse?
Stefan!
� Landsberg mesmo!
Emil Landsberg! Acredita?
Um homem que detesta meu trabalho, que me prejudicou como p�de!
N�o exagere...
Eu o chamei para uma pr�-estreia de "Jeremias",
porque sou idiota o suficiente para perguntar a opini�o dele,
e ele o compartilha com toda Viena antes da noite de estreia!
-Stefan, isso faz s�culos! -E da�?
Ele pediu desculpas? Ou mencionou isso na carta?
E ele quer que logo eu lhe consiga um visto americano?
Emil Landsberg?
Ele nem conhecia Viena toda. Diferentemente de voc�.
E duvido que isso tenha mudado.
Sen�o, ele n�o se humilharia pedindo ajuda logo a voc�.
Todo visto requer uma recomenda��o.
E isso n�o se pede a um conhecido distante.
N�o acredito que estou tendo que me justificar!
E eu n�o acredito que voc� julgou
algu�m na situa��o de Landsberg
por um insulto de 25 anos atr�s!
Algu�m na situa��o de Landsberg?
Todo mundo na Europa est� na situa��o de Landsberg.
-O que voc� quer de mim? -Nada.
Lucka, Masereel,
os Ullmann, Berta, todos precisam de ajuda.
Foram as cartas que voc� me deu.
Ben est� chegando.
Quantas cartas minha editora recebeu?
Estou em Nova York h� 4 dias. O que posso fazer?
As pessoas lhe pedem ajuda, porque voc� pode ajudar.
Voc� � um homem influente.
Sabe como foi dif�cil conseguir um visto argentino
para Landauer e Landshoff?
Em todas as paradas na Am�rica do Sul,
passei as noites em claro escrevendo cartas implorando.
Eu perturbei a filha do embaixador de Cuba
no enterro do pai dela por causa de Eisemann!
Todos os embaixadores: Chermont, Mello Franco...
Todos me ajudaram, sim.
Agora me pergunto. Posso negar algum convite?
-Que bobagem! -N�o.
Eu s� envio pap�is. Sou s� "tolerado".
Voc� n�o est� implorando por nada.
Voc� pede o necess�rio, como todo mundo.
-Erika Mann, Herman Kesten... -Posso imprimir um visto especial?
Todo embaixador me faz favores pessoais.
Depois eles me mandam para tudo que � recep��o!
Porque eles ainda acham que sou um escritor famoso,
mas fui enterrado h� muito tempo!
Estou s� com as pernas para fora da terra.
Certo... Eu n�o conhe�o Chermont nem Mello Franco,
mas, claramente, eles parecem querer ajudar.
Sem voc�, eles n�o saberiam a quem ajudar.
O que o faz achar que est� incomodando?
O que me faz achar isso?
Eu n�o acho. Eu sei.
Porque � muita coisa. � um exagero.
Metade de um continente fugiria para outro se pudesse.
Eu sei. Eu n�o vivo no mundo da Lua.
Mas voc� n�o est� sozinho aqui.
Talvez estivesse na Am�rica do Sul, mas aqui...
Maggie Shapiro, por exemplo.
Ela ficou conosco uma vez s�, no festival de Salzburg.
E, por seis semanas, ela insistiu que fic�ssemos no apartamento dela.
Eu n�o fa�o ideia de onde ela est� ficando!
Aqui em Nova York, cada vez mais gente quer ajudar...
Preciso sair da cidade. Quero viver isolado no interior.
Foi seu anivers�rio, n�?
N�o exatamente.
N�o?
Foi nossa comemora��o de ver�o depois que nos casamos.
Para duas pessoas, como os Ullmann,
precisamos de US$ 7 mil como garantia.
Quem conseguiria uma quantia dessas?
Pode pedir a um amigo uma vez, como pedi a Sholem Asch por voc�.
Mas conhecidos? Quem?
Passei quatro meses na Am�rica do Sul.
Com quem posso contar?
Eu estou contando cada moeda...
Est� bem, n�o cada moeda. Mas cada nota.
As coisas est�o perdidas. Na Inglaterra tamb�m.
90% de tudo que eu tinha foi destru�do.
Daria certo para Masereel e Friedenthal.
Eles saberiam se cuidar.
Mas Lucka? Ele tem uns 60 anos e nunca publicou um livro.
Os Ullmann est�o vindo s� com a roupa do corpo.
Ent�o a recomenda��o vai adiantar,
e vamos ter que pagar por anos!
De Rieger e Victor,
n�o ouvi uma palavra.
Mandei dinheiro para o Victor sem saber se ele est� vivo.
N�o posso continuar assim.
Preciso de uma pausa nos vistos e recomenda��es.
Por que n�o aceita isso?
Preciso trabalhar. Lhe escrevi do Rio implorando.
O que est� tentando me dizer?
Eu aceito.
Aceito todas as suas necessidades.
N�o digo a ningu�m em que hotel voc� est�
nem que est� aqui ou desde quando...
Eu n�o contei nem a Zuckmayer.
Eu aceitei que at� eu tenho que esperar uma semana para v�-lo
depois de n�o nos vermos por nove meses.
Depois de atravessar os Pirineus a p�.
Nove meses, Stefan.
O maior tempo que passamos separados desde que nos conhecemos.
Os meses mais longos da minha vida.
Cheios de medo e ang�stia.
Virei uma pessoa diferente.
N�o sei quantas vezes pensei que nunca mais veria meus filhos.
Batalhamos separadamente tantas vezes para sobreviver.
Talvez um deles n�o conseguisse.
Sabe quantas vezes me perguntei
-se eu o veria de novo? -Eu sei disso.
N�o sabe, n�o, Stefan.
N�o sabe o que � estar numa esta��o em Marselha, com 2.000 pessoas,
e estar na lista de Eleanor Roosevelt,
gra�as a voc�, entre outros poucos.
Julien e Lucienne acenaram ao longe.
S� Deus sabe onde est�o agora.
N�o deu nem para me despedir. Era muita gente!
Por favor, acalme-se.
A esta��o de trem em Paris estava t�o cheia,
que n�o dava para colocar a mala no ch�o.
Alix queria voltar para a Rue de Grenelle.
N�o voltamos por um fio.
Naquela mesma noite, a Gestapo apareceu.
N�o em Croissy, mas na Rue de Grenelle.
Salvamos nossa pele mais uma vez.
Da� a porta do elevador da embaixada abriu, e l� estava voc�.
Por coincid�ncia, no meio de Nova York,
uma entre sete milh�es de pessoas, logo voc�.
E voc� me diz que n�o devo v�-lo por uma semana
para voc� se recuperar da Am�rica do Sul?
E eu aceito.
Esperei at� ontem para te ligar.
Mas essas cartas de gente lhe pedindo ajuda...
N�o vou poup�-lo delas.
Eu as recebi, porque ningu�m sabia o seu endere�o.
Se quiser se livrar delas,
fa�a isso sozinho.
Fritzi...
Deve ser Lotte.
� claro. Abra a porta voc�, ent�o.
Tem que apertar o bot�o.
Schuschu!
Ele conseguiu chegar a Nova York!
-Alix! -As chaves est�o no meu bolso, mas...
Vamos morrer aqui fora.
Vamos, Schuschu!
� bom v�-la novamente s� e salva.
�.
Alix!
Estou indo.
N�o consegui encontrar Marillenschaps, m�e.
Fui at� ao mercado da Essex Street.
Voc� � louca!
Quer um caf�?
Est� muito escorregadio l� fora, m�e.
Vamos, Schuschu...
Meu Deus, ainda tem mais!
Me d� aqui. Alix, voc� � como meu pai.
Algu�m pede umas ma��s, e voc� traz a feira inteira.
-Quer dar isto a ele? -O que � isso?
O que � isto, Schuschu? O que �?
Salsicha.
E onde est� a madame?
Est� tomando conta da sobrinha.
J� deve estar chegando se o metr� estiver funcionando.
E ent�o?
O que eu tenho aqui?
Vou buscar o Herbert.
Vai a Columbia com este tempo?
N�o fique correndo atr�s dele.
Vou buscar meu marido no trabalho. At� mais.
Ah, �.
Agora voc�s s�o mo�as casadas.
�. Antes de Herbert e Karl irem para o acampamento militar.
Espero que eu possa conhec�-lo.
� claro.
Se n�o fosse por voc�, ele nem estaria aqui. Nenhum de n�s.
Quem garante?
Voc� conheceu Herbert quando ele era deste tamanho.
Eu conheci o marido de Alix quando ele era pequeno?
� claro. Herbert.
-Schuschu! -Passa fora!
Eu lhe escrevi sobre ele.
O filho dos Stoercks, que morreram na avalanche.
Ele morou conosco por seis meses. N�o lembra?
Aquele levado que vivia se machucando?
Ele mesmo.
Est� bem...
Vamos.
Entre a�.
Sente.
Vou levar uma fatia para o Herbert.
Embrulhe! Tem papel na cozinha.
N�o mudou nada desde os 15 anos.
Voc� a subestima, Stefan.
Voc� sempre subestimou as minhas filhas.
Antes de nos casarmos e at� depois do div�rcio.
Quando estava claro que Suse e eu n�o voltar�amos da Fran�a,
Alix esvaziou a casa em Salzburg imediatamente.
Ela empacotou tudo e guardou.
As primeiras edi��es que voc� dedicou a mim,
suas cartas, fotos.
Sem a Alix, nada teria sido salvo.
Depois ela colocou minhas coisas preferidas na mochila.
Ningu�m podia ajud�-la a carregar. Pelo contr�rio.
Para a chorosa Alma Werfel,
ela carregou uma mala com a m�sica de Mahler.
Voc� est� ouvindo?
Est� preocupado?
Com o qu�?
Lotte.
N�o.
Ent�o o que houve?
Fico pensando em Julien e Lucienne.
O pesadelo que voc� descreveu, aquelas pessoas...
Por que eles n�o estavam na lista?
N�o sabemos ao certo.
Os vejo na casa de veraneio.
Na nossa �ltima ida a Picpus.
�s freiras malditas.
N�o eram malditas. As incomodamos num domingo.
Elas nos trataram como bandidos.
Aqueles dois...
Da� os vejo naquela multid�o em Marselha,
como duas crian�as perdidas.
Sinto muito, Stefan.
-Eu sa� falando... -N�o, n�o.
Pelo contr�rio.
� que...
Essa magnitude...
Essa horrenda magnitude...
�s vezes penso em Roth.
Eu tamb�m.
Scheyer provavelmente tamb�m est� do outro lado.
Rieger, Victor...
Talvez estejam todos mortos.
�s vezes os invejo.
Posso fazer algo por voc�?
� muito bom v�-la!
Quer um caf�?
Meu f�gado j� est� preto o suficiente hoje.
Bolo?
Eu gostaria de um quarto.
Uma mesa para escrever.
N�o vou sair, e n�o deixe ningu�m entrar.
Deixe-me entrar, Schuschu.
Pronto, pronto...
-Oi, sogrinha. -Oi, Karl.
Olhe, m�e. Nos encontramos na porta.
Ol�, Sra. Zweig.
Oi.
Sra. Zweig.
-Oi, Lotte. Muito prazer. -Igualmente.
Entre.
S�o para a senhora.
Dr. Zweig, Karl H�ller.
-� uma honra. -Sem formalidades. Prazer.
Neste frio...
Um pouco de cor, sempre ajuda.
Como est� a sua sobrinha?
-Sendo tratada com muito carinho. -Que bom!
A casa dos Schaeffer � uma b�n��o. S�o educados, honestos.
-�, s�o. -Schuschu, � culpa sua!
Saia!
Os Schaeffer est�o fazendo o melhor que podem.
-Mas...? -E s�o luteranos.
E isso � uma b�n��o?
Eles deixaram a Alemanha em protesto, n�o necessidade.
-Algu�m quer caf�? -Sim. Coloque �gua quente.
Eva est� com saudades de casa.
Ela s� tem 11 anos e mal come.
-Que tal um ch�? -Fa�a um ch� de erva-doce.
Ch� com rum. Seria perfeito.
Karl!
N�o pode...
-Desculpe. Est� horr�vel. -N�o se preocupe.
� como uma su�te de lua de mel tem que ser.
�. Nossa su�te de lua de mel...
Pensamos que n�o achar�amos nada adequado em Nova York.
-Mas quando vimos este lugar... -Que se dane o Waldorf Astoria!
"Uma das noites mais frias do ano.
Nosso ar europeu n�o est� s� ficando frio,
mas sufocante.
Amanh� eu s� queria pegar minhas coisas e ir embora.
Mas que a alegria do moleiro vagueie.
E se ele n�o tiver aonde ir?"
-Eu n�o queria interromper. -N�o interrompeu.
"A necessidade pura nos pega pelo pesco�o.
E agora que est� repuxando a �ltima camisa que tenho,
me pego pensando
que talvez haja um motivo para isso nos ter acontecido.
Da� podemos chamar de 'destino' e nos entregar,
podemos colocar nossas m�os no colo ou sobre a cabe�a
e aceitar o que vier,
que toda a luta chegaria ao fim.
Mesmo se eu tentar..."
Eu atendo!
"N�o consigo reconhecer nenhuma raz�o para isso
no horizonte pol�tico.
Ent�o devo continuar essa batalha desigual
contra nossos perseguidores,
contra a pobreza, a neglig�ncia,
e, o mais dif�cil de tudo, meu orgulho e minha autoestima.
Ent�o, me ponho diante do senhor como um mendigo pedindo ajuda.
Ehrenstein".
Voc� est� certa, Fritzi.
O que � meu trabalho?
O que � qualquer coisa comparada a esta realidade?
Ol�! Tem algu�m aqui?
Ben!
Ben, me desculpe! Por favor, entre.
Quem � Ehrenstein?
Minha amiga querida! Bem-vinda a Nova York!
-Que bom que est� aqui! -Um velho amigo.
-Quando chegou mesmo? -Faz quase dez semanas.
-Stefan! -Ben!
-Que bom v�-lo! -Igualmente, Stefan.
Finalmente os dois chegaram em seguran�a.
�! Me d� seu casaco.
Lotte! Parece que o Brasil lhe fez bem!
Muito bem.
Com licen�a.
-Voc� est� �tima. -Obrigada.
Cuidaram dela como uma rainha. Eu j� n�o importava.
Fui t�o mimada, que Stefan vai ter que procurar uma secret�ria nova.
Ben, esta � minha filha, Suse, e o marido dela, Karl H�ller.
Este � Ben Huebsch, da New York Viking Press.
E o melhor editor que algu�m pode querer.
Stefan, por favor. Muito prazer.
Palavras de Feuchtwanger. Ponha a culpa nele.
Desculpe a pergunta, mas que apartamento lindo!
Onde o encontrou?
Um amigo nosso americano que nos visitou em Festspiele...
Me d� isto.
-Nos emprestou... -Que sorte!
� maravilhoso, n�?
N�o lhe dei parab�ns pelo casamento.
N�o importa. Eu tamb�m n�o lhe dei.
N�o... Eu n�o estava esperando.
Gra�as a Deus Lion est� seguro em Los Angeles
depois de se esconder por meses em Marselha.
-Meses? -�. Ele foi preso duas vezes.
Estou feliz por voc� e pelo Stefan.
De verdade.
-Est� tudo bem? -Est�. Obrigada.
Que maluco?
-Varian Fry! -�.
O cara que Eleanor Roosevelt mandou para Marselha.
Foi o homem que nos ajudou.
Ele mandou um �nibus nos buscar na fronteira espanhola.
-S�rio? -�.
Um editor de arte e entretenimento de Nova York. Uns 30 anos.
Tinha uma lista da primeira-dama
com o nome de centenas de pessoas que ele deveria encontrar e resgatar.
E ele conseguiu.
� material para uma hist�ria e tanto, n�, Stefan?
N�o v�o se sentar?
Com licen�a, por favor.
Ben, caf�? Conhaque?
N�o encontramos seu Marillenschnaps preferido.
Meu Deus! Quase esqueci. Um momento, por favor.
Ben pode escrever um convite para Julien.
-Assim os colocariam na lista. -Pe�a a ele ent�o.
Quer �gua?
Pegue uma toalhinha para ela.
Obrigada, mas n�o adianta.
O ar desse aquecedor � um veneno para asma!
Nova York � um veneno, assim como Londres.
Ainda mais vindo dos tr�picos para -20 graus.
Ent�o... Eu tenho aqui
uma miss�o... Que eu tenho que dar...
P�o e sal.
� moda europeia.
Para a casa nova.
Muito obrigada, Ben!
"Para o bem-estar,
o con..."
Confronto?
-"Conforto"! -"Conforto"!
"Para a boa conviv�ncia", E lembran�as da minha esposa.
-Muito obrigada! Que gentil! -Obrigada.
Agora que est�o morando em Sheridan Square...
Red Allen? � um dos melhores trompetistas de jazz.
�, sim. Ele parece ser muito bom.
-Se importam se eu colocar? -� claro que n�o. Coloque.
Ah, Stefan! Sua correspond�ncia.
Agora tenho algo para os n�mades.
J� decidiram aonde v�o?
N�o.
Talvez ao Rio.
S�rio? E Nova York?
Viena toda est� aqui, Berlim toda est� aqui.
E n�o sou Thomas Mann, que d� 30min a cada pedinte.
Os meus me tomam uma tarde inteira.
Por isso as pessoas v�m a voc�.
Tenho pesquisado.
Nas pr�ximas semanas, haver� um convite da Universidade de Yale.
Em New Haven, a 2:30h de trem da Grand Central Station.
E tem o Hotel Taft.
D� para andar at� a esta��o de trem e at� as bibliotecas.
� ideal para intelectuais como voc�s dois,
que n�o t�m tempo de tirar a carteira de motorista.
E � perto de Nova York, ent�o podem receber convidados.
Interessante!
S� preciso de Friderike.
Como �?
Voc� tem que me ajudar
a buscar minhas lembran�as perdidas para a minha biografia.
Est� escrevendo uma autobiografia?
Autobiografia? Que maravilha!
E o livro sobre o Brasil?
Precisamos de mais duas ou tr�s semanas para transcrev�-lo.
-Ent�o, terminou? -Sim.
Nossa! Vamos fazer um brinde ent�o!
Desculpe. � s� um teste.
Acabei de consertar a c�mera.
Acho que o livro vai ficar razo�vel.
O Brasil foi uma experi�ncia incr�vel!
As diferentes ra�as vivem juntas t�o naturalmente,
que nos pareceu um milagre, comparando com a Europa.
Quero lan�ar em cinco l�nguas ao mesmo tempo.
O qu�? Ao mesmo tempo?
As vers�es alem� e francesa podem ser impressas no Brasil.
E a vers�o em ingl�s? Cassel est� fazendo?
-Koogan d� conta? -Depende da comunica��o.
-A Buchbinderei foi bombardeada. -O qu�? E sua casa em Bath?
O Balzac ainda est� l�. 2 mil p�ginas de anota��es.
-Mas Stefan... -Voc� n�o entende o problema.
Como posso passar 40 livros e minhas anota��es pela censura?
-Tente! -Sempre h� um jeito.
-Hanna, m�e da Eva, pode mandar. -Exatamente!
PETR�POLIS, BRASIL NOVEMBRO DE 1941
Sr. Zweig?
Dr. Zweig!
Dr. Zweig!
Achei que fosse o senhor.
Com licen�a.
Por favor, me ajude.
Est� tudo bem?
Espere. J� vou descer.
Sr. Feder!
O que faz aqui?
Eu queria pegar um �nibus para o Rio.
Erna e eu vamos nos mudar de l� em tr�s dias.
-S�rio? -�.
Mas esqueci meus �culos. Vou ter que voltar.
Seremos vizinhos. Que maravilha!
Que bom v�-lo! Como est�?
� bom v�-lo tamb�m.
O senhor mora neste bairro?
N�o exatamente. Um pouco mais longe. S� estava...
Lembra-se do que Simon disse quando o senhor morou em Paris?
"O Kurf�rstendamm inteiro est� transbordando em Paris."
Agora est� transbordando em Petr�polis.
O senhor j� � um come�o!
Est� subindo tamb�m?
Por que n�o?
N�o sei quando o pr�ximo �nibus sai para o Rio.
Preciso encontrar o de Souza �s 15h.
O pr�ximo �nibus parte �s 10h30. Ainda d� tempo.
Onde era seu apartamento em Berlim?
Leipziger Stra�e, n�mero 3. Entre Wilhelmstra�e e Potsdamer Platz.
Ah, � claro.
-Lembro vagamente. -E agora...
Agora vamos morar aqui, no final desta rua.
N�o foi f�cil achar algo que eu possa pagar.
O aluguel para imigrantes est� subindo at� em Petr�polis.
-Por que n�o me disse nada? -Por favor...
-Desculpe, mas tenho que... -Eu o acompanho.
-S�rio? -� claro.
Vamos dividir uma casa com os Levy, de Osnabr�ck.
A esposa � de Karlshuhe.
Ela faz um caf� �timo, mas fala muito.
Sempre reclama do marido.
Em 5min, eu j� sabia de tudo:
a filha dela, uma historiadora da arte,
casou com um m�sico com o dobro da idade dela.
A m�e n�o gostou nada disso.
Nossa, a� vem ela...
Sr. Feder! Ainda est� aqui?
Vou apresent�-los. Dr. Zweig, senhor e senhora Levy.
Nossa! � claro!
-� uma honra! -O prazer � meu.
Ele � Stefan Zweig.
Eu soube que faz o melhor caf� de Petr�polis.
-Preciso voltar. -Para casa? Com prazer.
Eu lhe fa�o um caf�.
Eu queria ir fazer compras, mas meu marido s� comprou uma sacola.
S� Deus sabe como as compras de uma semana cabem numa sacola!
Desculpe, mas est�o me esperando em casa.
-N�o tem problema. -Ele n�o tem tempo.
-Teremos outra oportunidade. -�.
Tchau.
-Bom dia. -Bom dia.
Bom... � aqui.
Vamos nos mudar dia 1� de dezembro.
Hoje n�o �...
Hoje �...
N�o acredito! E n�o me disse nada?
-Feliz anivers�rio. -Obrigado. � muito gentil.
Eu sei, porque o anivers�rio de Erna � em dois dias.
-O estou atrasando, deve estar... -N�o. Proibi comemora��es.
N�o podemos comemorar nestas circunst�ncias. Vamos.
Tolst�i disse:
"Homens de 60 anos devem se esconder como animais velhos".
Logo Tolst�i?
Ele passou dos 80 anos!
Talvez ele gostasse de se esconder.
Sua esposa est� em casa?
Lotte est� em casa, sim.
Voil�!
N�o � Leipziger Stra�e, mas...
Voc� vai ver. A vida aqui � boa.
Sinceramente, assim espero.
Mas...
Se voc� diz, quero acreditar.
A cada caminhada aqui, vemos coisas lindas.
D� para viver uma vida barata e modesta.
-Pegue algo para beber. -Obrigado.
E, acima de tudo, vai viver em paz.
Ah, aqui est�.
J� leu o jornal hoje?
Est� falando do porta-avi�es brit�nico?
Leve-os. Para o �nibus.
-Voc� recebe o "The New York Times"? -Duas vezes por semana.
Que beleza! Muito obrigado.
Aqui � a sala de jantar dos Levy.
Podemos usar de escrit�rio tamb�m.
O trabalho � mais importante.
Raramente me senti t�o relaxado como nos �ltimos tr�s meses.
Nada como trabalho, caminhada e leitura.
Olhe esta vista!
N�o � incr�vel?
De que o lembra?
-Do esconderijo de Tolst�i? -Semmering.
Uma Semmering tropical.
Agora que voc� falou...
Do outro lado do mundo.
Olhe essa natureza!
Sempre fico impressionado com sua beleza.
A casa de veraneio do de Souza fica atr�s da montanha.
Depois lhe mostro. Tem at� uma biblioteca.
� fraquinha, mas...
N�o faz tanto calor quanto no Rio.
D� para sobreviver bem ao ver�o.
Olhe, um papagaio.
Olhe.
Um Para�so.
�.
N�o temos do que reclamar.
N�o.
N�s, n�o.
Como algu�m aguenta?
E n�o posso me juntar quando algu�m diz
que Berlim levou uma surra boa.
N�o aguento como as pessoas falam!
Ou escrevem. Otimistas linguarudos...
A guerra no mar est� perdida.
Estamos no come�o da guerra. Talvez no meio.
Mas ningu�m diz em voz alta.
Mas a pior parte
� que n�o h� oposi��o � guerra,
em nenhum pa�s.
Voc� tem que pegar seu �nibus, n�?
Por favor, desculpe. Meu f�gado est� preto de novo.
No Rio n�o consegui parabeniz�-lo pelo seu livro sobre o Brasil.
-Gostou? -Achei maravilhoso!
E todos que conhe�o concordaram.
Fico feliz.
Tamb�m devo parabeniz�-lo pelo seu sucesso.
Ah, �? Bom...
"Bom"? Eu vi os n�meros das vendas.
Ent�o tamb�m deve ter lido as cr�ticas daqui.
Eu n�o entendi nada. Qual � o problema de Costa Rego?
Olhe. Aquela � a casa do de Souza.
Ao lado, a de Gabriela Mistral,
a famosa poeta e diplomata chilena.
Uma mulher muito inteligente.
-Vou apresent�-lo a ela. -Com prazer.
Mas voc� declarou seu amor a este pa�s.
Foi publicado no mundo todo, e logo o Brasil o atacou.
Quer saber?
Talvez fui pouco cr�tico sobre certas coisas.
Mas como podem acus�-lo de ser pago pelo governo?
De Souza tamb�m ficou horrorizado.
N�o ligo para os nacionalistas. Mas os esquerdistas tamb�m?
Na minha opini�o, ficaram com inveja.
A gente desenvolve uma casca grossa.
Enfim, estou feliz de n�o morar mais no Rio.
Viu os burros carregando cestas?
-Vi. -Eu adoro!
Seu artigo no "Jornal do Brasil" sobre Einstein ficou fant�stico!
Li em voz alta para Lotte.
Posso lhe pedir um favor?
O que quiser. � seu anivers�rio.
-Voc� joga xadrez, n�o? -Mais ou menos.
Comecei um conto novo, meu formato impopular preferido.
Longo demais para o jornal, curto demais para um livro.
Talvez abstrato demais para as pessoas.
Venha, vou lhe mostrar um atalho cat�lico.
E o assunto � meio remoto. Um conto sobre xadrez.
Se importa de jogar contra mim? Sou um p�ssimo jogador.
Mas me esfor�o.
Comprei o livro sobre xadrez de Tartakower.
Lotte ri de mim quando a mando jogar como Alexander Alekhine.
-Joga comigo? -Eu adoraria!
Obrigado.
Mas tenho que voltar, ou vou estragar meu anivers�rio para Lotte.
Voc� saiu do seu caminho para me acompanhar.
O ponto de �nibus � ali.
Tenho que ir para l�. Rua Gon�alves Dias, 34.
-Anote. -Pode deixar. Feliz anivers�rio!
-At� mais. -At� mais.
J� voltou, Sr. Zweig?
Queria que tiv�ssemos o mesmo anivers�rio...
O dia ainda n�o acabou.
N�o quero pression�-la
Feliz anivers�rio!
-Obrigado, meus amigos! -Feliz anivers�rio!
Lhe desejo muita sa�de, felicidade e satisfa��o.
E, mesmo que seja um tanto ego�sta,
muito sucesso nas suas publica��es.
Onde esteve? Desculpem.
Encontrei Ernst Feder. Ele vem morar aqui.
-S�rio? -Obrigado pelas palavras.
Quer um gole?
Feder foi editor do "Berliner Tageblatt", depois...
Obrigada.
O que foi?
N�s passamos muito tempo tentando pensar
num presente para voc�.
Algo que lhe desse prazer de verdade.
Conversamos com sua esposa
e, depois de muita reflex�o, pensamos numa coisa.
Esperamos que tenhamos acertado.
Agora quero que feche os olhos.
-O qu�? -�. Feche os olhos.
Vamos. Feche os olhos.
N�o pisque!
Voc� fiscaliza mesmo!
Pode abrir agora.
Meninos...
Voc�s...
Para mim?
Quem � voc�?
Quem � voc�?
Ele se chama Plucky.
Plucky! Oi, Plucky!
Voc� me entende?
Entende alem�o? Ele me entende.
� um fox terrier de pelo duro.
� do canil do Bar�o do Rio Branco.
Voc� � um bar�o, com o melhor pedigree.
Voc� � um bar�o?
Voc� � um bar�o?
Um bar�o?
Um bar�o nobre?
Um bar�o muito nobre?
-Vamos lev�-lo para passear! -� claro.
Vamos!
Espere. Mais uma foto com Lotte.
Paulina, voc� tamb�m.
N�o se mexam.
Muito bem!
Paulina, tira uma nossa?
N�o vamos para Nova Friburgo por causa da chuva.
Olhem para c�.
-�timo. -Muito obrigado.
-Mas podemos ir a Teres�polis. -Sim.
J� conhece Teres�polis?
J�. � linda.
-� parte do presente. -Obrigado.
Vamos?
-Vamos. -Vamos.
Minha m�e fez pat� de f�gado para n�s e mandou um beijo.
Deus aben�oe a sua m�e.
Tenham um bom dia!
Tive que vir ao Brasil para apreciar a culin�ria judaica.
-Vamos tirar uma foto? -N�o.
Vamos. Sei que adora os burros! Venha!
Oi! Posso tirar uma foto? Obrigado.
-Bom dia. -Bom dia.
O senhor � que � o escritor famoso, n�o �?
-Bem, eu... -Sim, � famoso no mundo inteiro.
-Obrigado. -Obrigado.
Dois burros velhos numa foto.
-Voc� primeiro. -Plucky, venha.
-Obrigado. -Cuidado.
-Prontos? -Sim, vamos.
Voc�s me deixaram feliz de verdade!
Que bom ouvir isso!
E voc� tamb�m, � claro.
EP�LOGO - PETR�POLIS, BRASIL FEVEREIRO DE 1942
N�o, � conjuntivo.
Deve ser "necessite", e n�o "necessitava".
-Ah! "Necessite". -Sim, conjuntivo.
"Necessite de for�a especiais..."
N�o, O plural � "for�as", e n�o "for�a".
"Necessite de for�as especiais".
� mesmo "anivers�rio"? Deixe eu dar uma olhada...
"Mas depois dos sessenta anos de idade..."
Est� escrito "idade", e n�o "anivers�rio".
Deve ser: �Mas aos sessenta anos..."
"Mas, aos sessenta ano..."
-Monteiro! -Sim, Senhor Comiss�rio.
Volte para teu posto no p�tio, por favor.
-Sim, senhor. Est�o esperando uma grande multid�o.
Porque o Koogan est� demorando tanto tempo?
Seria muito mais f�cil para ele com seu alem�o.
-Senhor de Souza, por favor... -N�o, "por favor" digo eu.
Tenha paci�ncia!
Leva, pelo menos, duas horas do Rio, mesmo pegando a...
Sr. Comiss�rio. Temos de inspecionar o resto do quarto
para procurar mais subst�ncias, por favor.
Ao seu dispor.
"Cabe�a erguida". "Cabe�a erguida". Parece...
Ereta, talvez?
Meu Deus, o tempo est� passando...
-Debaixo do colch�o, negativo. -O invenc�vel?
A gaveta da mesinha de cabeceira.
Pap�is, negativo.
Por favor, senhora, n�o pode entrar.
Fotografias rasgadas, pap�is, pap�is...
Escritos a m�quina, escritos a m�o...
-Negativo. -E o guarda-roupa?
-Por favor. -Custa-me acreditar!
-Uma coisa t�o inesperada... -Obrigado.
Ser� que eu posso ver?
Comiss�rio, � poss�vel alguma privacidade para a consulesa Mistral?
-Com certeza. -N�o h� nada!
-Doutor. -Obrigado.
De qualquer forma, j� terminamos.
Plucky!
Desculpe, senhora.
Me perdoe.
Voc� tratou muito bem deles.
Meus p�sames.
N�o se sabe bem o que se passou, acho que foi envenenamento.
Eles foram descobertos, os corpos pelo jardineiro e pela criada
e durante � tarde... Muito obrigado por terem vindo.
-Muito obrigado. -Meus p�sames.
N�o se sabe bem o que se passou.
Como eu estava dizendo, julga-se que foi�
Dona Gabriela Mistral�
Julga-se que foi envenenamento.
Foram encontrados ao meio da tarde.
Foram encontrados pelo jardineiro e pela criada.
Eu vim assim que pude, que eu estava perto
e n�o se sabe bem os pormenores...
Pode atender, por favor.
A pol�cia esteve a�, os m�dicos tamb�m...
Mas n�o se sabe ainda bem ao certo o que ter� acontecido.
A �nica certeza � que foi envenenamento.
Nada aponta para um crime. N�o h� ind�cios disso.
Ernst...
Zweig deixou uma carta, mas est� em alem�o.
E Gabriela Mistral gostaria que fosse lida para a assembleia...
-Com certeza. -Muito obrigado.
� claro.
"Petr�polis, 22 de fevereiro de 1942.
Declara��o.
Antes de deixar a vida por vontade pr�pria e mente s�,
sinto a necessidade de cumprir uma �ltima tarefa:
agradecer profundamente ao Brasil, este pa�s maravilhoso,
que deu a mim e ao meu trabalho um descanso t�o hospitaleiro.
Dia ap�s dia, aprendi a am�-lo mais.
Eu n�o preferiria construir uma vida nova em nenhum outro lugar
agora que o mundo que fala minha l�ngua desapareceu para mim
e que minha terra espiritual, a Europa, est� se destruindo.
Mas, aos sessenta anos, temos que buscar for�as extraordin�rias
para recome�ar do zero.
Minha vida foi cansativa, com muitos anos na estrada.
Ent�o acho melhor encerr�-la na hora certa,
com a cabe�a erguida.
Uma vida na qual o trabalho intelectual
sempre foi de pura alegria e liberdade pessoal,
o maior bem que se pode ter no mundo.
Agrade�o a todos os meus amigos.
Que eles vivam para ver o amanhecer depois de uma longa noite.
Eu sou muito impaciente. Vou antes deles. Stefan Zweig".
Obrigada. Muito obrigada.
Eu que agrade�o.
Vou esperar l� fora.
Obrigado.
Claudio...
Al�?
Sim.
Sim, aconteceu uma coisa, mas n�o posso confirmar nada.
N�o, n�o sabemos nada ao certo neste momento.
N�o, por favor, n�o posso dar nenhuma informa��o.
N�o, senhor, eu estou dizendo
que n�o posso dar nenhuma informa��o neste momento...
...bendito � o fruto do Vosso ventre, Jesus.
Santa Maria, m�e de Deus, rogai por n�s, pecadores,
agora e na hora da nossa morte. Am�m.
Pai nosso, que estais no C�u,
santificado seja o Vosso nome.
Venha a n�s o Vosso reino,
seja feita a Vossa vontade.
Assim na Terra como no C�u.
O p�o nosso de cada dia nos dai hoje.
Perdoai as nossas ofensas,
assim como n�s perdoamos a quem nos tem ofendido.
N�o nos deixeis cair em tenta��o, mas livrai-nos do mal. Am�m.
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