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Quando as gentes falavam do seu passado com histórias...
explicavam o seu presente contando as suas histórias...
e previam o seu futuro com histórias...
O melhor lugar junto à lareira estava guardado para...
O Contador de Histórias.
De um antigo conto popular russo
O SOLDADO E A MORTE
O que é que tens no saco? Sinto o cheiro de biscoitos.
- É a tua imaginação. - Deixa-me ver.
Nem penses! Neste saco há coisas importantes.
Além disso, preciso dos biscoitos para a minha história.
Então, conta-a e assim podemos comê-las.
- É uma história antiga? - Muito antiga. Uma antiguidade.
Os biscoitos devem estar rançosos.
Começa a 1000 km de qualquer lugar.
Depois de uma guerra de 20 anos, um soldado muito honesto...
... com apenas uma moeda no bolso...
... e três biscoitos secos para o longo regresso a casa.
Era este o seu regimento. Os Hússares Reais.
Sim, o soldado percorreu os 1000km...
... assobiando uma melodia desafinada.
Tinha gasto a moeda e só lhe restava os três biscoitos secos...
... até que um dia encontrou um velho mendigo.
Então parou e juntou-se ao violino do mendigo.
Um tocava mal o violino, e o outro assobiava mal...
... mas ambos estavam muito contentes.
Que música tão alegre.
Não vale, por acaso, uma moeda?
Mais até, mas não tenho dinheiro.
Só tenho um biscoito que te dou.
És um bom homem, amigo, e eu agradeço-te.
Vá lá, come-o
És um homem bom que merece assobiar melhor.
E assim se foi o soldado, assobiando a sua melodia desafinada.
Mas aconteceu-lhe algo muito estranho, curioso e muito peculiar.
O seu assobio saiu-lhe assim...
Imagina como seria o assobio de rubis se soubessem assobiar.
Continuou assobiando pela estrada fora até que encontrou outro homem...
... muito triste e cansado.
Mas este tocava bugigangas no tambor.
O soldado parou e assobiou com um rubi...
...e dançou com as suas botas gastas, deslisando os pés e saltando.
E depressa entregou o segundo biscoito.
De repente, vejam com começou a dançar.
Sim, com um grande bailarino...
... um bailarino flamejante foi-se dançando pelo caminho.
No final, encontrou-se com um terceiro, um bêbado...
...sem nada que jogava às cartas junto ao caminho.
O soldado viu como baralhava o maço...
...e juntava os naipes, um atrás do outro, perfeitamente...
... então, aplaudiu-o
- Que belo jogo! - Não mereço, por acaso, uma moeda?
Mais até, mas não tenho dinheiro.
O soldado já só tinha um biscoito...
...e estava morto de fome, e então pensou.
Sempre podemos partilhar um biscoito.
O soldado tirou o seu último biscoito e partiu-o em dois...
...mas, sabem que mais amigos? Não se sentiu bem...
...por dar menos do que deu aos outros mendigos.
Então deu-lhe os dois pedaços.
És um bom homem.
E não mereces a má sorte de ter um só biscoito.
Fica com as minhas cartas, amigo...
...e que ganhes sempre com elas.
Fica também com este saco...
...é feio, mas muito útil.
Se mandares que entre nele uma ave ou um animal...
... ou o que for, a tua ordem se cumprirá nem instante.
E assim se foi, bailando e assobiando, com o coração alegre e o saco vazio.
Caminhou na quente noite e debaixo do sol brilhante até chegar a um rio.
Gansos.
Entrem no saco.
Um belo assobio.
Deu-mo um pobre mendigo desgraçado.
- Vens da guerra? - Sim.
- Com o saco cheio de despojos? - Não.
São três gansos que apanhei ontem. Quero comer um ao jantar.
Se mo cozinhares e me deres cama dou-te os outros dois.
Gosto de aves de caça.
Não te esqueças de me devolver o saco.
E assim o taberneiro cozinhou-lhe o ganso com cravinho e mel...
...e trouxe-lhe uma garrafa do seu melhor vinho.
E o soldado comeu-o todo, chupou os ossos...
...e bebeu o vinho e ali ficou bailando até de madrugada...
...quando ele mergulhou...
...de cabeça na cama.
Três dias depois, acordou e olhou pela janela.
Sobre a colina, viu um palácio.
Pareceu-me ouvir-te. Dormiste bem, soldado?
Bastante bem.
De quem é aquele palácio?
- E por que é que tem os vidros partidos? - É o palácio do czar.
Foi, outrora, lugar de valsas, fabulosos bailes, riquezas e festas.
Agora demónios usam-no para jogar às cartas.
- Demónios? - Sim, demónios.
Todas as noites entram agitados a gritar e a jogar às cartas.
As pessoas decentes não se aproximam porque eles são muito maus.
É um belo palácio. Alguém devia encarregar-se dos demónios
Em exército tentou afugentá-los.
Pela manhã só ficaram as sombras e não estou a mentir.
São demónios muito malvados que gostam de apostar.
- Creio que os irei visitar mais tarde. - Isso é uma loucura.
Louco ou não, o soldado foi-se...
... com o saco na mão e o assobio nos lábios...
... até à entrada do palácio.
No interior havia muito silêncio...
... como se as paredes sustivessem a respiração...
... e esperassem.
Temos visitas.
Um hóspede.
- E está a assobiar. - Assobia bem.
- Eu quero o seu assobio. - Olá.
Olá.
Dizem que vocês gostam de jogar às cartas.
E então...
- O que é que apostamos? - A alma?
O assobio.
Os dentes.
Eu colecciono dentes.
De acordo. E vocês o que apostam?
Temos 40 baris de ouro. Parece-te bem?
Muito bem.
Tragam os baris.
Bem.
Joguemos, então.
E assim começaram a jogar.
O soldado distribuiu as cartas...
... e ganhou.
Creio que ganhei esta ronda.
E voltou a ganhar.
- Estás a fazer batota? - Eu faço batota e perco na mesma.
- Eu também. - Dá outra vez.
De acordo.
O soldado deu e ganhou.
E os demónios começaram a aborrecer-se...
... até que começou a sair fumo dos suas cabeças.
Fumo.
O soldado ganhava todas as partidas...
e os demónios faziam todas as batotices conhecidas para não perderem...
...mas perdiam.
Ao amanhecer...
... os 40 baris de ouro...
estavam empilhados, atrás da cadeira do soldado...
...que assobiava com alegria por ter ganhado.
Bem, meus amigos...
...suponho que agora deixaremos o jogo.
Não, de maneira alguma.
O que deixaremos são os teus ossos depois de te comer!
Nunca se sabe quem come quem.
- Sabem o que é isto? - Um saco.
- Um simples saco. - A sério?
Então, pelo amor de Deus, entrem no saco.
- O quê? - Não!
- Tem piedade. - Deixamos sair e não voltaremos mais.
Não fazem mais barulho na região?
- Por favor, deixa-nos sair. - Matas-nos à pancada.
Solta-me.
Não te solto, rapaz, até que me jures ser meu fiel servidor para sempre.
- Juro. - Terás que cumprir a promessa.
Ouve, caiu-me o pé.
Pois é. Agora vai-te embora e lembra-te onde é que ele ficou.
Os demónios fugiram para o inferno...
...trancando as portas com medo que os seguira...
...o soldado e o seu saco.
E ficaram quietos tremendo com calafrios e fumegando.
Mas o soldado não tinha tempo para eles.
Era o preferido do povo e o Hússar do Czar.
Mas, ainda que às vezes a vida nos sorria...
... o último a rir é sempre a morte.
Sim...
...tudo corria muito bem para o nosso amigo...
...o bom soldado e o seu saco mágico.
O Czar tinha-o recompensado e tinha-se tornado rico...
...tinha-se casado e tinha um filho. Viviam todos no castelo.
Tudo era uma bendição.
Até que um dia...
...porque o destino é inconstante...
...e a sorte é cruel...
...o seu filho apanhou uma terrível febre.
Está pior.
Chamaram médicos, curandeiros e boticários...
...e o quarto do filho cheia de barbas cinzentas...
...e de gestos de dúvida.
mas a febre continuava a subir...
...e o filho ficou inconsciente.
Então os barbas cinzentas deixaram os seus lugares para os sacerdotes...
...que murmuravam e rezavam.
E chegou um homem vestido de negro para tirar as medidas do caixão.
O que fazemos?
Tenho os lábios cansados de rezar...
...e os joelhos doridos.
E de tanta preocupação, perdi o assobio.
E digo que isto é obra do demónio.
É obra do demónio.
E onde pára o meu demónio?
- Estou aqui, Excelência. - Como chegaste aqui?
Coxeando, meu senhor. Você tem o meu pé.
Se curares o meu filho, devolvo-to.
Apresento-te à minha esposa. Este é o meu demónio.
Muito prazer.
- O prazer é meu. - Sim, vi que o seu filho estava doente.
Deixa-me vê-lo.
Veja aqui, Excelência.
Vejo uma pequena criatura.
É a Morte, Excelência. Onde está?
Aos pés do meu filho.
Bem. Vai recuperar.
Só nos devemos preocupar quando se põem à cabeceira.
Agora molhe o seu filho com água deste copo.
És maravilhoso.
Fazemos o que podemos.
Podia, agora devolver-me o meu pé? - Com certeza.
Obrigado.
Precisa de mais alguma coisa, senhor?
Se me deres esse copo, deixo-te ir livre.
A sério?
Obrigado.
Que lindo, flores negras.
E assim o soldado começou...
...um novo trabalho como curandeiro e percorreu o mundo de camelo.
...com o seu copo mágico.
Se visse um homem doente, levantava o copo.
Quando a Morte estava aos pés da cama...
...molhava o doente com água e este enchia-o de agradecimentos e bênçãos.
Quando a Morte estava à cabeceira...
...o soldado negava com a cabeça e solenemente retirava-se...
...enquanto os parentes se lamentavam da sua tardia chegada.
Mas pagavam igualmente.
Ainda que na maioria das vezes...
...deixava a todos felizes, surpreendidos e agradecidos.
Tudo corria bem até que um dia...
...quando estava longe de tudo e todos recebeu uma mensagem da sua terra...
a contar-lhe que o Czar estava doente...
... e este o queria ver.
Cheguei demasiado tarde.
Salvas mendigos, ladrões, cães e gatos.
Mas não salvas o teu senhor.
Se a Morte precisa de um novo amigo...
...não posso fazer-lhe frente.
Então permite que me leve a mim em seu lugar.
Não.
O Czar foi como um pai para mim, foi o meu grande amigo.
Se alguém tem de ir em vez dele...
...que esse seja eu.
Senhora.
...leva-me a mim e perdoe o Czar, peço-lhe.
Louvada sejas.
Louvada sejas.
Esposo meu, não há outra maneira?
Sabes o que é isto?
Um saco.
Sim, é um saco...
...então entra no meu saco.
Apanhei a Morte no meu saco!
Minha esposa.
Não vês? Apanhei a Morte no meu saco!
Que me dizes?
Está bem, não? A Morte ficou presa.
A notícia, que passou de boca em boca por entre a boca das 50 mulheres do Czar...
...depressa chegou ao ouvido de toda a população.
Propagou-se como uma bisbilhotice, já que assim era.
E em 4 minutos e meio toda a gente já o sabia.
Em 17 minutos, já todo o país o sabia.
E na manhã seguinte...
...era o tema de conversa em 1000 línguas diferentes.
A Morte estava presa.
Não me lembro do grego.
É assim.
E o soldado, em caso de dúvida, saiu em viagem com a Morte no seu saco...
...e procurou a árvore mais alta do bosque mais frondoso...
...e trepou-a para colocar o saco no ramo mais alto.
Mas sem querer, caiu.
Embora não haja nada como ter prisioneira a Morte para amparar uma queda.
E todos deixaram de morrer?
Sim.
As batalhas eram muito estranhas.
Na maioria dos lugares havia guerras, mas eram muito estranhas.
No fim de um dia de massacres, espadas e explosões...
...fechas que cobriam o céu e lanças que sibilavam selvagens...
...ninguém morria.
Os soldados olhavam os seus inimigos, esgotados...
...mas intactos.
Os duelos matinais duravam até à meia-noite...
...e os rivais iam para casa confusos.
Os amantes contrariados atiravam-se pelos precipícios...
...e tinham se voltar para cima.
E o meu amigo, o soldado, tornou-se o homem mais famoso do mundo...
...porque de a vida tornou-se eterna.
O soldado passava as horas no seu castelo assobiando como um rubi.
Até que um dia, olhando pela janela...
...viu que o seu jardim estava cheio de pobres vagabundos...
...de seres andrajosos que apenas se mantinham de pé.
Estavam à espera da Morte...
...queriam que ela os libertasse, mas isso não acontecia.
E o soldado não conseguiu suportar tanta dor.
Assim, regressou ao bosque.
Morte?
Eu sei que te enganei...
...mas agora tens de me levar e devolver ordem ao mundo.
Morte.
Regressa.
Mas a Morte temia o soldado e o seu saco.
... e, então, não queria voltar.
O soldado ficou condenado a ver como envelheciam e morriam todos os outros...
...mas a Morte não vinha por ele.
Não, o soldado...
... como um velho arenque fumado, como um carne seca...
...continuou a viver até não suportar mais.
E arrastou os seus ossos secos...
...até aos confins da terra...
...onde tinha começado a sua descida ao inferno.
Sim?
Aqui está um pecador para entregar a sua vida.
Sim. O que é isso que traz?
Nada, apenas um velho saco.
Um saco!
Deixa-me passar, peço-vos.
Vai-te. Não te aproximes e leva daqui esse saco horrível.
E para onde vou?
Não queremos saber, vá-se embora.
Não vou se não me der um mapa para chegar ao Céu...
...e me disserem como entrar.
E quero também 200 almas que vocês já não usem.
150.
- Não sabem o que é isto? - Não mexa assim no saco.
Está bem, 200.
Segue por este caminho até não poderes avançar mais...
... e logo sobe directamente...
...até que teres a sensação de estar de cabeça para baixo.
É essa a entrada para o céu.
Depois...
...segue a música eclesiástica.
Quem se aproxima das portas do Céu?
Sou o soldado que apanhou a Morte...
...e trago 200 almas do inferno...
...para que Deus me perdoe e me deixa entrar com elas.
As almas podem entrar...
...mas sem ti.
Vão em frente. Que Deus as abençoe.
Leva isto, amigo...
...e quando estiveres lá dentro...
...ordena-me que entre no saco.
Lembra-te que salvei daquele forno.
Mas no Céu não há lembranças.
E as almas tudo esquecem.
O soldado ficou à espera a um passo do paraíso.
Até que muito tempo depois...
...esquecido...
...deu meia volta e voltou a caminhar na terra.
E, tanto quanto sei ainda hoje continua vivo.
É muito triste.
Não, meu amigo, o soldado é alguém único.
Deve estar nalgum lado a fazer as suas coisas.
De certeza?
Vamos.
Podes comer o biscoito.
- Sabes o que é isto? - Um saco.
Bem, se é um saco, entra no saco.
Estava só a experimentar.
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