All language subtitles for Ettore Scola-La nuit de Varennes (1982)

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Original subtitles

A NOITE DE VARENNES

Argumento

M�sica

Fotografia

Produ��o

Realiza��o

Dedicado a Sergio Amidei

Nesta caixa, apresento o "Mundo Novo" com dist�ncias e perspectivas!

Uma moeda por cabe�a e poder�o v�-lo!

Senhoras e senhores, viemos directamente de Veneza

com esta barca e os nossos m�sicos

para vos mostrar esta maravilhosa inven��o

com a qual poder�o testemunhar

com os vossos pr�prios olhos

os maiores eventos da hist�ria,

sejam eles recentes ou distantes!

Senhoras e senhores! Tragam tamb�m as crian�as!

Tragam-nas a ver a grande m�quina! Venham, entrem, entrem!

Encostem os vossos olhos ao orif�cio desta maravilha!

� o espelho da hist�ria! Venham, venham! Subam!

Um de cada vez! Muito bem, senhor.

Eis o Rei!

O bom Rei Lu�s XVI, com a sua Rainha, que caminha por entre o seu povo.

Admirem o sumptuoso vestido da Rainha. Venham, constatem!

E agora, um grande evento!

Os que estavam presentes naquele dia poder�o rever esse dia nesta m�quina.

Bom dia, senhora!

Foi um facto muito importante, ocorrido h� dois anos, em 1789.

Em 1789!

Venham, venham! Apresento-vos "A Queda da Bastilha"!

"A Queda da Bastilha"!

Fortaleza de tiranos, pris�o de homens e ideias.

Cinco mil parisienses deixam as suas casas no 14 de Julho,

deixando ainda a dormir os seus filhinhos,

para construir um destino diferente.

Foram 83 mortos, 88 feridos! Pobres coitados!

Ora espreitem esta maravilha!

Espetada no gume desta espada,

poder�o admirar a cabe�a do director da Bastilha!

� o s�mbolo da queda do Antigo Regime e do triunfo do Terceiro Estado.

Dia 5 de Outubro, ainda em 1789,

10 000 mulheres esfomeadas e alguns homens vestidos de mulher,

deslocam-se a Versalhes para pedir ao Rei p�o para os seus filhos.

Para tal, fazem uma caminhada de seis horas sob a chuva.

E ao centro, uma mulher bel�ssima!

Com uma espada medieval!

� a fascinante Menina Th�roigne de M�ricourt,

apaixonada pela guerra, e pela revolu��o.

E pelos homens.

"Messalina" e Joana D'Arc,

grande amante das batalhas do amor e da guerra.

O Rei aparece na varanda e 10 000 mulheres gritam:

"O Rei a Paris! O Rei a Paris!"

Maria Antonieta com o seu amigo Axel de Fersen,

tem medo de se mostrar na varanda,

uma vez que o povo grita:

"Queremos a rameira na varanda!"

Mas eis que La Fayette a traz � varanda

e lhe beija a m�o diante do povo,

que, por ter bom cora��o, rapidamente se enternece e exclama:

"Viva a Rainha! Viva a nossa Rainha!"

E as mulheres regressam a Paris com os padeiros e as padeiras,

isto �, a presen�a de Suas Majestades em Paris garante p�o para todos.

Pe�am um evento e eu recri�-lo-ei!

Nesta caixa, apresento o "Mundo Novo" com dist�ncias e perspectivas!

Uma moeda por cabe�a e poder�o v�-lo!

"Acordo entre os subscritores e o autor de 'Noites de Paris',

"para receber duas c�pias ao pre�o de uma, dez lu�ses,

"do 'Monsieur Nicolas, ou o Cora��o Desnudado',

"cuja edi��o contar� com 450 exemplares.

"Os primeiros subscritores: Rei Lu�s XVI, a Rainha,

"pr�ncipes, Louis-Xavier, Charles-Philippe e Louis-Philippe

os embaixadores da R�ssia, Pr�ssia, Espanha..."

Da Inglaterra, Hungria, Sardenha, N�poles, Viena...

Exacto!

Permitindo ao cidad�o Restif pagar a pens�o � mulher

e os encargos judiciais.

Duzentos subscritores a dez lu�ses cada um d�...

N�o d� nada! Foi o meu pai quem escolheu o nome dos subscritores.

E at� � data, nenhum dos duzentos senhores se dignou a responder.

Os livros... n�o basta escrev�-los

e imprimi-los.

� tamb�m preciso vend�-los.

"O Meu Calend�rio"?

Cada dia do ano � dedicado a algu�m que o meu pai amou.

- Foram 365 mulheres? - N�o, muitas mais!

Muitas vezes, h� duas no mesmo dia, e �s vezes tr�s!

"Dia 8 de Fevereiro.

"A Irm� Pinon, das Irm�s de Bic�tre, tinha por encargo pentear-me.

"Eu gostava de enterrar a cara nas suas coxas

"e ela dizia-me, enterrando-me ainda mais a cabe�a,

"'Sim, meu pequeno, despenteia-te' e ela gozava.

"Dia 27 de Abril. Janet te Pr�cy. Primeira mulher que amei totalmente.

"Aconteceu num est�bulo, eu tinha 9 e ela 16.

"Foi a primeira vez para os dois, chor�mos de alegria, enla�ados.

"Dia 10 de maio. Mathilde Boujard. Conhecia-a num bordel.

"No entanto, alcan�ado o mais alto pico do prazer

descobrimos que eu era o pai dela: era a minha filha Mathilde..."

Eu sou a Agnes, n�o sou a Mathilde.

Somos muitas irm�s.

� escandaloso! Inaudito! Estou fora de mim!

V�-se!

S�o quase 400. Leremos as outras na pr�xima penhora.

Conte estes livros e inclua o n�mero no processo.

Eu posso dizer, s�o 1330 exemplares.

Eu conheci o seu pai h� muitos anos,

quando ele fazia a ronda das tabernas para ler as suas hist�rias ao povo.

Algumas vezes, acompanh�vamo-lo a casa,

para ele nos contar mais hist�rias.

A malvada da minha m�e dizia que aqueles que iam l� a casa

eram na sua maioria vagabundos e ladr�es.

A maioria, sim. Eu fazia parte da minoria.

Thomas Paine. "Os Direitos do Homem". Pref�cio � edi��o francesa.

Calculo que tenham pedido ao seu pai que imprimisse este livro.

Foi o pr�prio Sr. Paine.

Ouviu falar do famoso autor de "A Revolu��o Americana"?

- N�o v�o imprimi-lo de gra�a. - Claro que n�o.

Mas ele ainda n�o adiantou nada, nem para o papel nem para a tinta.

Seja como for, vamos confisc�-lo.

- Nem sei se tem o direito... - Mas eu sei.

"Penhora cautelar de qualquer fonte de lucro

at� que o devedor salde a d�vida." - Ent�o vai esperar muito!

Como ele pode pagar a d�vida, se lhe tiram as fontes de lucro?

� a lei.

Al�m disso,

se teve 400 mulheres,

e s� tem de pagar pens�o de alimentos a uma, j� � um bom neg�cio.

Sim! Um neg�cio que um homem da sua laia nunca conseguir� fazer!

D�-me uma esmola! Tenha d� dum desgra�ado!

Com o mesmo direito, meu amigo, podia eu pedir-lhe esmola a si.

Mas apertemos a m�o e prossigamos com Deus.

O meu nome � Nicolas Edm� Restif de la Bretonne.

- E o seu? - Carafon.

Carafon! Muito prazer!

Mocho!

Mocho, �s tu?

A bela Faustina!

- Que alegria! - Reconheci o teu passo apressado.

Como te corre a vida, Mocho?

Persiste em n�o me correr bem.

- Vinhas a minha casa? - Claro!

Estava no Caf� Manoury. De repente, pensei em ti e aqui estou.

Sempre adorei a tua extraordin�ria capacidade de mentir.

N�o pensaste nada em mim!

� verdade, passei aqui por acaso,

mas quando me chamaste, estava quase a pensar em ti, juro!

E vais entrar? Quero apresentar-te uma pessoa.

N�o, � tarde, tenho de trabalhar na impress�o dum livro esta noite.

Deve ser um trabalho urgente,

para um homem como tu se recusar a cantar uma can��o de embalar

a uma beldade de p�s pequenos, cal�ados de meias de seda verde

e calcanhares cor-de-rosa.

Cor-de-rosa?

O mais imperdo�vel dos meus erros

foi o de n�o aceitar a tua proposta de matrim�nio.

Ainda te lembras disso? �ramos t�o jovens!

Mas o meu neg�cio j� ia de vento em popa,

e eu podia assegurar-te dinheiro e raparigas sempre novas.

Sabes que sempre te preferi �s tuas raparigas.

Tempos que j� l� v�o...

Al�m disso, tu nunca conseguiste renunciar aos teus voos solit�rios.

Porque a noite foi sempre a tua casa...

Foste a primeira a dar-me o doce nome de Mocho.

- Nathalie! - J� te disse que � com M!

Despacha-te, Manon!

- Mariette! - N�o!

- Marcelle! - N�o.

Apesar da minha capacidade de mentir,

teria dificuldade em afian�ar que aqui n�o h� menores.

Anda, anda!

Alegria para os olhos, �xtase para a alma,

prova irrefut�vel da exist�ncia de Deus!

Ter amado outras criaturas

� como ter cravado mil vezes a pr�pria espada na �gua.

Pudera eu eternamente acariciar estes pezinhos de passarinho

e tocar estes subtis artelhos de cor�a.

� um grande homem das letras,

Nicolas Edm� Restif de la Bretonne.

Sim, Madame, mas devo fazer algo em especial?

Faz o que fazes sempre.

Na cama, os intelectuais s�o como os ferreiros, simplesmente falam mais!

Acariciar-te...!

- Hubertine! - Estou atrasada!

Que ser�o de inef�veis vis�es! Honra com sua beleza este local de do�ura!

A minha filha � camareira no Pal�cio Real.

Trata pessoalmente da sopa da Rainha. N�o tem nada com isto.

Porque chegaste t�o tarde? Esperava-te � janela!

Estava para sair �s onze, quando ouvi trancarem a porta do meu quarto.

Depois da meia-noite, destrancaram-me a porta e sa� para o corredor.

A empregada que puxava lustro ao ch�o viu sair a Rainha do quarto �s 23h30.

Ter� ido ter com o marido.

N�o! � sempre ele que a procura, e assaz raramente.

Disse que houvera muita agita��o na galeria que d� para a Rua l'Echelle.

Mas o guarda que dorme � porta do Rei diz que n�o viu ningu�m.

Mas o que sucede no pal�cio entre as onze e a meia-noite?

� um velho amigo.

E o maior curioso de Paris!

� meu dever profissional, sou escritor da verdade.

Afinal confirmam-se os boatos que se ouvem h� mais dum m�s em Paris.

Que boatos?

Ouvi passos e vozes,

mas quando sa� estava tudo silencioso.

Madame, sem querer apressar, aqui ainda estamos nos pezinhos...

Permanece um aristocrata.

Se o La Fayette n�o fugiu para o estrangeiro,

como os d'Artois, os Cond�, os Polignac e os d'�rleans,

� porque pensa como o Rei.

Esperam a interven��o dos outros reis da Europa para esmagar a revolu��o.

Ora ou�am: "Nas Tulherias, uma rainha perversa fanatiza um rei medroso

"que prepara uma Noite de S�o Bartolomeu para os Patriotas.

"A Fran�a envia ouro e armas para o estrangeiro,

"para que os tiranos reunidos nas fronteiras

encontrem os franceses esfomeados e desarmados."

Parece-me claro, n�o?

"'Lu�s Capeto' conta com o apoio do cunhado L�opold,

imperador da �ustria." - Irm�o da grande prostituta!

- Deseja alguma coisa? - N�o, n�o.

Sim... Procuro um amigo, um cocheiro.

N�o viu sair um coche h� um par de horas?

Um coche? N�o.

- E na Rua l'Echelle? - Que desse por isso, n�o.

Em suma, est� tudo normal. N�o houve nenhum movimento.

- Movimento de que tipo? - Bom, do tipo... noturno.

N�o sei, �s vezes...

Boa noite, cabo.

- N�o eram dois? Est� sozinho? - Por enquanto, sim.

Darei o outro pacote ao criado. Espere aqui.

As senhoras v�o sair, mas n�o se aproxime muito.

Quem � o senhor?

Um desconhecido que n�o resistiu a prestar um favor a uma dama t�o bela.

- Como o encontraram? - Revistaram tudo!

E n�o podias impedi-los? Quando queres, sabes controlar os homens.

Os oficiais de justi�a querem levar algo, n�o querem "consumir no local".

O meu �nico trabalho!

O �nico rendimento que tive neste �ltimo ano.

Pobre filha!

Que pai desgra�ado te calhou na rifa.

O Sr. Paine diz que n�o te preocupes com o manuscrito, n�o tem urg�ncia.

Mas eu tenho! Urg�ncia que me pague!

- E quando te disse isso? - H� tr�s horas.

Passou a despedir-se, porque vai para Metz.

Vai ausentar-se v�rias semanas. Avisa-te quando voltar.

V�rias semanas...

E deixou dinheiro?

Algum.

- Mas foi para mim. - Para ti! Sua trai...

Disse que ia para Metz?

Pap�!

Al�m do dinheiro da penhora,

temos de pagar o talho, o padeiro e a papeleira!

Eles que esperem para enriquecer! Eu espero h� 60 anos!

Abram alas!

�gua! �gua fresca! Levem �gua para a viagem!

Passageiros para Sens, Auxerre, Macon, ocupem os vossos lugares!

Chap�us! Chap�us velhos!

Monsieur de Vendel e Sr. Paine.

Dois lugares para Metz na 3� carruagem � esquerda.

- O senhor � Sr. Paine? - N�o, � o meu amigo.

Est� ali um senhor para o ver.

Pediu que avis�ssemos quando o senhor chegasse.

Obrigado.

Boa viagem. Pr�ximo.

Monsieur Restif! O que faz aqui?

Sr. Paine!

A minha filha contou-lhe da malfadada penhora...

Infelizmente, carmina non dant panem.

Eu sei, mas n�o trago muito dinheiro comigo.

N�o � prudente quando se viaja. S� lhe posso dar alguns ducados.

Tome.

Mas n�o se preocupe. Acertaremos tudo quando eu regressar.

Venha, quero apresentar-lhe Monsieur de Vendel.

Apresento-lhe o meu amigo escritor Restif de la Bretonne.

Monsieur de Vendel possui fundi��es na baixa Als�cia.

S�o as �nicas onde se forjam traves com mais de tr�s metros.

Vamos estudar a realiza��o do meu projecto.

Apresentado � Academia de Ci�ncias: a ponte de ferro com um s� arco.

� ali, Senhora.

Despacha-te!

Uma ponte de cem metros sem pilares...

- Nem durmo a pensar nisso. - Meu Deus, que multid�o!

- At� logo. - Boa viagem.

- At� � vista. - Monsieur de Vendel...

Com licen�a...

- Cuide bem deles. - Com certeza.

E tenha muito cuidado. O outro tamb�m para cima!

S�o muito delicados.

Desculpe-me, tamb�m preciso de ir.

Por circunst�ncias imprevistas, n�o consegui reservar.

- N�o posso ajudar, estamos cheios. - Mas aqui � frente...

... podem ir tr�s.

Desde que tenha bilhete.

Mas posso pagar-lhe agora.

Estamos atrasados. Partimos ou n�o?

- E n�o h� aqui lugar para tr�s. - Para onde vai?

Talvez para Metz, mas talvez saia antes, depende.

Pergunte ali. Se lhe derem bilhete...

Obrigado, jovem. Vou num p� e venho noutro.

Viajaremos juntos.

- Para onde voc�s v�o? - N�o tive o prazer de o conhecer.

No entanto...

Talvez me engane, mas penso que j� nos vimos.

� pouco prov�vel, senhor.

Bem como a dama que acompanha.

Estou certo de j� a ter visto.

Isso ainda � mais improv�vel! A Senhora n�o se d� com a sua laia.

Um viajante alem�o confessou-se comovido com a amabilidade dos franceses.

Evidentemente, n�o se cruzou consigo.

Uma passagem para Metz. Desculpem, est� a partir.

E ent�o, n�o est�vamos de sa�da?

N�o � muito confort�vel viajar aqui, mas eu estou habituado.

Estamos atrasados!

- Sim, sim, vou j�! - Desculpe.

Empurraram-me.

Estou a estudar em Paris. Chamo-me Emile Delage. E a menina?

Marie Madeleine.

Esperem!

Esperem por mim!

Esperem por ele!

Um cavalo!

Um cavalo!

Preciso de apanhar a dilig�ncia! Preciso de um cavalo!

- Verei o que posso fazer. - Alugo-o. Quanto custa?

Tem a certeza de que os ducados daquele senhor eram falsos?

Claro que tenho! Os meus s�o verdadeiros.

Ora veja! Al�m disso, conhe�o-os bem!

Aquele g�nero de pessoa!

Um homem obscuro, um escroque, um viajante sem bagagem.

Reparou no desprezo com que o tratei?

- Espero que n�o fa�a uma reclama��o. - Reclama��o a que prop�sito?

A carruagem vai cheia, ele n�o tinha bilhete... N�o tem por que reclamar!

Eu detesto flores.

Imaginava o seu amigo Restif bem diferente.

O autor de "O Campon�s Pervertido" foi despedir-se do Sr. Paine.

- � uma pessoa estranha... - E como o imaginava?

Um fauno lascivo e obsceno?

Como tantos franceses, s� conhece "O Campon�s Pervertido"

e, talvez, "A Camponesa",

mas escreveu romances, novelas, ensaios...

- Obrigado, Senhora. - De nada.

Com�dias, tratados de filosofia, de f�sica!

E escreve diariamente "As noites de Paris".

Penso que a abund�ncia n�o significa qualidade.

Isto vale tanto para as obras da natureza como para as do homem.

� verdade, senhora.

Mas, gra�as ao seu estilo,

muitos acreditam que Restif de la Bretonne

seja pseud�nimo de Beaumarchais ou de Diderot.

Talvez.

Eu n�o as li, mas sei que as obras desse senhor

est�o cheias de pormenores t�o escabrosos

que mereciam ser queimadas na pra�a p�blica.

Juntamente com o autor?

Se dependesse dele, n�o hesitaria.

S� o vi sorrir no tribunal quando ainda n�o existiam j�ris populares.

A�, era ele absolutamente sozinho, a condenar as pessoas.

E n�o fa�as essa cara, querido!

E a senhora, leu-os?

Eu?! Os livros desse senhor? N�o, Deus me livre!

Eu li.

E com grande prazer.

Encontrei neles uma an�lise intuitiva muito invulgar

no estudo do amor entre o homem e a mulher do nosso bom povo.

Reconforta ver que ainda h� em Fran�a

aristocratas que n�o desprezam o povo.

Ningu�m aqui despreza o povo, caro senhor,

mas da� a convert�-lo em protagonista de obras liter�rias...!

Ent�o, tamb�m vamos ler esse Restif. N�o �, Monsieur Baldi?

Parece muito instrutivo.

Embora eu nesse campo j� seja bastante instru�da.

H� 4 anos, li algo dele muito interessante. Penso que num jornal.

Impressionou-me bastante.

Anunciava dist�rbios estranhos, acontecimentos, desordens.

E tudo aconteceu exactamente como ele previu.

Ricos, deixem de ser duros e insolentes!

Tenham cuidado, magistrados!

Prepara-se uma revolu��o, uma revolu��o funesta!

A nobreza n�o compreendeu o povo.

O clero n�o soube manter o contacto com ele.

Este povo lutar� contra a desigualdade,

e todos tomar�o consci�ncia da sua pr�pria import�ncia.

Escutem a voz de um plebeu que vive com o povo.

Frequentemente, o artista intui o que se sente no ar.

As causas e as responsabilidades do que vai acontecer...

... conhece-se bem antes dos outros.

Eu contaria os seus "artistas" entre os mais respons�veis!

Todos estes fil�sofos, enciclopedistas e escritores

que t�m desacreditado o regime com d�vida e ironia, como o Beaumarchais.

O seu "As Bodas de F�garo" prejudicou mais a nobreza do que mil bombas,

e apesar disso, � aplaudido na corte.

Por coqueteria e ignor�ncia.

Eu tamb�m o aplaudi.

A verdadeira ignor�ncia � n�o aceitar as cr�ticas que nos s�o dirigidas.

S�bias palavras, Condessa...

Desde que tamb�m se aceite o pior, quando acontece.

Receio que o pior j� tenha acontecido.

Meu Deus! P�ra!

Pare!

Ajuda-me!

Despacha-te!

Magoou-se? Tente levantar-se. D�-me a m�o.

Apoie-se em mim.

N�o tem nada partido?

N�o, nada, obrigado.

O senhor � um grande cavaleiro.

Fui, em jovem, mas j� l� v�o uns anos...

... como pode constatar.

Tamb�m passaram para mim.

Tive de recorrer �quele cavalo, se � que se lhe pode chamar isso,

por culpa do malandro que me deixou apeado.

Tenho de os alcan�ar, a ele e � sua condessa.

A sua fuga confirma as minhas suspeitas.

Est� mesmo bem?

Tranquilize-se, j� levei bem mais abaixo do que na cabe�a.

Ajude-me, por favor, a alcan�ar a dilig�ncia.

Nunca l� chegaremos com aquele cavalo. Fica-lhe em caminho, eu explico-lhe.

Ajudaria, mas como pode ver, a minha carruagem � quase uma "desobrigada".

"Desobrigada", carruagem de um s� lugar

assim chamada porque "desobrigava" o viajante

da obriga��o de convidar um amigo que prosseguisse a p�.

Perdoe-me se insisto.

N�o posso oferecer-lhe dinheiro, mas o meu reconhecimento sim,

e possivelmente, o da posteridade.

N�o estar� a comprometer-se demasiado?

Relatarei a aventura nas "Noites Revolucion�rias",

e falarei de si, se permitir.

Mas nem sequer me apresentei, Nicolas Edm� Restif de la Bretonne.

O Autor de "Pie de Fanchette", "A Filha Natural", "M�nage Parisien",

"Novo Abelardo", "Os Contempor�neos"? - Ao seu dispor!

E estou grato por n�o ter referido "O Campon�s Pervertido".

Li e pensei o mesmo.

Mas imagino que n�o seja uma das suas obras preferidas.

Como um pai que n�o prefere sempre os filhos mais favorecidos...

E eu, a quem devo a honra?

Cavaleiro de Seingalt.

Assim,

quando vi a Condessa apanhar a dilig�ncia

com os dois pacotes recolhidos nas Tulherias,

deduzi que estava no encal�o de algu�m importante.

As suspeitas que tive em casa da Madame Faustine eram fundadas.

Est� a dizer-me que neste momento Lu�s Capeto j� n�o est� em Paris?

Pode at� estar a viajar nesta mesma estrada.

Mas para onde...?

Custa a crer! Um tal medroso...

... que s� sai para ir � ca�a!

Dante j� o dissera, quando encontrou o Hugo Capeto no Purgat�rio:

"Eu fui a raiz da maligna planta que escurece toda a terra crist�,"

"e que raramente produz bom fruto."

Conheci esse Lu�s em pequeno.

Fui amigo do pai dele at�...

Que ano seria...?

Mil setecentos...

Mil sete...

Abram alas!

A dilig�ncia! L� est� ela!

- R�pido, aperte o cinto! - O cinto?

Sim, esse a�. Prenda-se.

J� vai ver. Segure-se bem!

Tu a�! Alcan�a a dilig�ncia!

Apanha-a!

Apanha-a!

O que fazem? N�o podem ultrapassar-nos!

Mais depressa!

- Mais depressa! - Porque aceleram?

Pare! Vamos matar-nos! Deixe-os passar!

Quero descer!

Ajudem-me! Voc� est� louco! Deixe-o passar!

- Para tr�s, para tr�s! - Vou desmaiar. Desmaiei!

Virginie, minha pequena!

Parem, parem!

Abrande, devem estar a parar para trocar de cavalos.

Podemos deix�-los passar.

Isso nunca!

O Cavaleiro Seingalt n�o come o p� de ningu�m, nem mesmo o do Rei!

E muito menos de uns desconhecidos!

Parem! Parem!

Mantenham a calma!

Para tr�s!

Deixem passar o Cavaleiro de Seingalt e Monsieur de la Bretonne!

Deem passagem ao talento!

Foi muito divertido!

P�ra! P�ra!

- Ajuda-me. - D�-nos qualquer coisa.

N�o preciso de ningu�m.

- D�-nos qualquer coisa! - N�o tenho nada!

- Traz o meu n�cessaire. R�pido! - Obrigado!

- Senhor, uma esmola! - O meu n�cessaire!

- Tu a�, onde posso refrescar-me? - Por aqui, senhor.

Diga-me, meu amigo,

esta manh� n�o viu passar por aqui uma berlinda vinda de Paris?

J� percebi... espere.

Tome.

Sim, esta manh�, pelas seis. Pediram onze cavalos descansados.

Tr�s cavalos selados para cavaleiros,

dois para um cabriol� e seis para uma berlinda enorme!

Nunca tinha visto nada igual.

N�o sei como passar� a ponte do Somme-Soude...

- E quem estava dentro do coche? - As cortinas estavam fechadas.

Mas parecia ser uma dama russa rica de regresso ao seu pais.

T�m uma bela viagem pela frente. Cubra-se, por favor.

O dinheiro n�o lhes faltava.

O chefe de escolta, um grande cavalheiro,

distribuiu escudos como se tossem centavos.

Fez o mesmo na muda de Claye e antes disso em Bondy.

Se c� estavam �s seis, devem ter deixado Paris cerca da meia-noite.

Tamb�m ouvi a voz de um menino. Ou menina.

Hora estranha para viajar!

Excepto para uma partida inc�gnita.

Meaux! Esta��o da mala-posta de Meaux!

- Sr. Baldi tem que fazer chichi. - Ou�a l�!

- Que ultrapassagem foi aquela? - De que fala?

Tanta pressa h� pouco e s� chegam agora?

J� disse que n�o tenho a honra de o conhecer.

Senhora, que viagem! Foram muitas sacudidas?

Sr. Paine!

Sr. Restif!

Deixei-o em Paris e encontro-o aqui!

Quero explicar-lhe a minha presen�a aqui.

Esta noite, em Paris, houve uma partida misteriosa.

E acredito saber de quem se trata.

Refere-se ao Rei?

- O senhor sabia? - Sim.

O Marqu�s de La Fayette,

que conheci quando combati na revolu��o americana,

entrou-me esta manh� no quarto como uma bala de canh�o a gritar:

"Os p�ssaros levantaram voo!"

- O leito do Rei aparecera vazio. - Ent�o partiu para seguir o Rei?

N�o, j� combinara viajar com Monsieur de Vendel.

Mas o senhor, o que faz aqui?

Observo.

E ent�o?

Estamos aqui, em Meaux.

S�o dez e meia...

Se partirem � meia-noite, devem estar pr�ximos de Montmirail.

Depois Chaintrix, Ch�lons,

Sainte-Menehould, Clermont...

Desculpa l�!

Verdun e Metz.

� claro.

Querem chegar � fronteira oriental

e juntar-se �s tropas de Als�cia, Lorena, Franche-Comt� e Champanhe.

S�o 90 batalh�es e 400 esquadr�es,

sobretudo mercen�rios su��os e alem�es.

A menos que...

se desviem em Clermont...

... at� Montm�dy,

a uma milha da fronteira com Luxemburgo,

onde est�o as guarni��es do cunhado.

S�o uns 12 ou 14 mil austr�acos prontos a marchar.

Sr. Paine, se esse seu plano correspondesse � realidade,

seria de esperar a restaura��o do antigo regime.

E o povo franc�s n�o o aceitaria.

Tamb�m n�o o vejo pronto a renunciar �s conquistas dos �ltimos dois anos.

Seria a guerra civil.

Pois �, o dia anuncia-se quente.

- Marie Madeleine? - Sim, Senhora.

- Marie Madeleine? - Sim, Senhora.

Vem tirar-me o v�u.

Ela n�o consegue tir�-lo sozinha?

Venha, Senhora.

A vida est� cada vez mais cara.

E os comerciantes n�o aceitam presta��es!

Nem confiam no papel-moeda de sua revolu��o!

- Est� de partida? - � aquela senhora dos pacotes?

No meu tempo, t�-la-ia seguido mesmo sem pacotes.

Se vir o Rei, dir-lhe-ei que o espere,

se quiser que um grande escritor relate a sua fuga.

Obrigado, Cavaleiro.

E n�s, que produzimos e criamos a riqueza do pa�s,

n�o conseguimos mais que impostos e desprezo.

- � mesmo verdade! - Detesto crian�as!

O meu pobre marido dizia sempre que 3/4 das nossas vinhas

estavam semeadas de impostos.

Mas voc�s compensam-se, comprando as terras dos conventos ao desbarato.

Os bens conquistados ao clero.

Abram alas!

Que cavaleiro estranho.

Pareceu-me que era ele, mas agora tenho a certeza.

Foi o homem mais alto que j� encontrei.

Na coroa��o do Rei, h� 17 anos.

Sim! � o Giacomo Casanova!

Tamb�m me pareceu, a senhora tem raz�o.

Vi-o h� muito tempo, na Corte do Cardeal de Rohan, em Estrasburgo.

Tinha uma s�lida reputa��o... de grande gal�.

- Porque n�o mo apresentou? Cazzo! - Virginie!

Senhores, a dilig�ncia est� pronta. Vamos partir.

Eu vou l� em cima.

N�o, Monsieur Restif. Fa�a favor!

- Insisto. - � muito am�vel.

Um cavalheiro aventureiro?

E naquela idade ainda n�o aprendeu como se viaja?

Dedicou-se a outras coisas.

Sim, � mesmo Giacomo Casanova, um cavaleiro veneziano.

- Nunca ouvi falar dele. - Nem eu.

H� que explicar

que, na �poca, o meu nome n�o inspirava grandes emo��es na Fran�a,

excepto naqueles, principalmente mulheres,

que me conheceram pessoalmente.

Embora tivesse publicado "Hist�ria da Minha Fuga das Pris�es de Veneza"

a fama s� me chegou muito depois,

ap�s o "Hist�ria da Minha Vida", que escrevi em franc�s,

e que foi publicado com muito sucesso ap�s a minha morte.

Que sobreveio, como todos sabem, em 1798.

Isso...

Nunca ouvi falar.

- Veneziano. - Ent�o, porque esperamos? Partimos?

Despachemo-nos!

Esta viagem nunca mais acaba!

Soubera eu que o autor de "Hist�ria da Minha Fuga das Pris�es de Veneza"

se escondia sob o nome de Cavaleiro Seingalt,

e ter-lhe-ia dito quanto o admirava.

Ao inv�s, foi ele quem me manifestou a sua admira��o.

Ao que percebi,

n�o me parece que a escrita seja a principal actividade desse indiv�duo.

Em Estrasburgo, era conhecido como jogador,

organizador de lotarias, criador de tecidos,

director de grupos teatrais, praticante de ocultismo...

E adivinho!

Mas eram coleccionador inveterado de aventuras de alcova.

Quando cheguei a Paris,

dizia-se que Madame Pompadour andava encantada com ele.

Parece que n�o h� mulher que resista ao seu compatriota!

Obrigada, Senhora.

E o senhor, Monsieur Restif, viajou com ele?

Sim, viajei com ele, mas garanto que resisti!

S� o vi de relance, mas deve ter sido um homem muito belo.

- Que idade ter�? Sessenta? - Talvez setenta. Mas que importa?

Em Bolonha, dizemos:

"Al joven par l'oc, par El bul al vec".

E o que quer isso dizer?

Quer dizer...

"Os jovens para o olhar deleitar os velhos para... na cama gozar."

Ao que vejo, � frequente na nossa velha Europa,

encontrar escritores que ao seu talento liter�rio

aliam um encanto irresist�vel.

N�o discutirei a qualidade liter�ria do Sr. Casanova,

mas quanto �s suas fa�anhas amorosas,

permito-me exprimir algumas reservas.

� muito alto.

De resto, disse-lho.

Os melhores amantes s�o sempre de baixa estatura. Est� provado.

Provado por quem?

O afluxo sangu�neo,

que d� ao membro viril toda a sua pot�ncia,

� t�o mais plena e impetuosa

quanto menor for a superf�cie corporal a irrigar.

J� intoler�vel numa caserna,

diante de senhoras, essa linguagem � revoltante.

N�o foi por acaso que o senhor escreveu "O Porn�grafo".

Que n�o o aconselho a ler,

pois n�o encontraria nada daquilo que espera, Sr. Magistrado.

Desculpe, desculpe...

- O que est� a fazer? - Quero dormir um pouco.

Troca de assento! Anda, v�!

N�o lhe falta insensatez.

Que vergonha!

Devias era estar calado!

- Ordin�rio como �s! - Virginie...!

Oito, nove, dez... Onze cavalos!

Devem ser os que foram trocados em Fert�-sous-Jouarre ou Viels-Maisons

e que regressam � mala-posta de Meaux.

Tamb�m podem fazer parte dum grupo.

� normal ver cavalos no campo.

Parece-me, n�o?

Um coche puxado por 6 ou 8 cavalos vai muito mais r�pido do que n�s.

N�o necessariamente, depende do peso da carruagem.

E n�o � f�cil encontrar tantos cavalos descansados,

principalmente agora, com a colheita do feno.

Mas voc�s arranjam sempre cavalos descansados...

Claro, mas somos um servi�o de mensagens estatal.

Os cavalos est�o � nossa espera na hora prevista.

Passaremos a viagem a falar de cavalos e troca de cavalos?

- Espero que n�o! - Obrigado. � muito am�vel.

Olha l� em cima, na carruagem!

Quem ser�o aqueles?

P�ra, Fran�ois!

Precisa de ajuda?

N�o, obrigado. O meu cocheiro j� foi buscar um mestre carroceiro.

Monsieur Casanova!

Como sabe o meu nome? Eu viajo inc�gnito!

A sua fama viaja com mais rapidez, e asseguro-lhe que n�o � f�cil.

� verdade, � for�a de correr, partiu-me o eixo da roda.

Venha connosco at� � pr�xima esta��o.

Senhora, recusar...

Obrigado.

Recusar um convite como o seu � mais um sinal da minha decad�ncia.

Mas tenho de cuidar dos meus pertences, � tudo o que possuo.

- Podemos deixar algu�m a vigi�-los. - Nesse caso...

O seu cabeleireiro, Madame. Talvez ele pudesse...

Monsieur Jacob?

Sim, senhora?

Fique junto do cabriol� de Monsieur Casanova.

Juntar-se-� a n�s na pr�xima esta��o ou na seguinte.

Senhora!

Eu acho que...

At� que chegue o cocheiro.

A Senhora sabe bem que pens�vamos... Talvez n�o seja o caso...

Obrigado pela ajuda, meu jovem amigo.

Obrigado por aceitar ficar. O meu cocheiro n�o deve tardar.

Confio-lhe todos os meus bens. Cuide bem deles.

- Fa�a favor... - N�o, eu vou l� em cima.

Estas belas senhoras nunca mo perdoariam!

Fa�a favor.

Tamb�m n�o quero priv�-las de sua companhia.

Francamente, tesouro, � uma situa��o delicada.

Dois cavalheiros t�o galantes, um deles estrangeiro...

- O que pensar�o de ti... - Sim, claro que sim.

O ar vai fazer-me bem.

- Monsieur Casanova... - Sim?

Aquele n�cessaire ali ca�do na estrada tamb�m � seu?

N�o caiu, eu � que o pus l� para alertar quem vem.

Agora pode p�r-se l� o senhor para prevenir eventuais acidentes.

Fa�a favor...

Marie Madeleine!

N�o os fa�a esperar!

Sabe? Quando nos ultrapassou h� pouco, desmaiei.

Andemos!

De la Borde...

Sim, conheci um De la Borde.

Era rendeiro-geral de Lu�s XV...

... e seu primeiro camareiro, agora me lembro.

Sim, era o pai de meu marido.

Agora compreendo porque era um velho t�o sombrio e triste.

Na altura, ele ainda n�o sabia que viria a ter uma nora como a senhora.

Frequentou a corte francesa?

Todas as cortes da Europa disputavam Monsieur Casanova.

Nunca considerei isso um verdadeiro privil�gio.

As cortes n�o s�o as estufas de flores ex�ticas que todos imaginam.

Conheci tantas condessas e princesas enrugadas e abatidas!

Falo da minha �poca, naturalmente.

Agora, ao que vejo, as rainhas sabem escolher as suas damas de companhia.

Quem lhe disse, Monsieur, que sou dama de companhia de Sua Majestade?!

Pois �...

Quem me disse...?

Quem me disse que a senhora era...?

A senhora subestima as qualidades divinat�rias de Monsieur Casanova.

S�o apenas um dos segredos do seu sucesso.

O Monsieur Casanova disse que na �poca de Lu�s XV

o velho Conde de la Borde ainda n�o a conhecia.

Assim, a senhora desposou o jovem Conde

depois do casamento de Lu�s XVI e Maria Antonieta.

E Monsieur Casanova, devido � sua pron�ncia encantadora,

percebeu que a senhora � austr�aca, como Maria Antonieta.

Por outro lado, gra�as � sua fascinante silhueta,

Monsieur Casanova deduziu que tem a idade de Maria Antonieta,

e deduziu que foram companheiras de brincadeira na �ustria,

e que, quando se tornou Rainha,

a Maria Antonieta a chamou � Corte de Paris,

como...

... dama de companhia. Porque n�o?

E eu?

O que deduz de mim, Monsieur Casanova?

� italiana. Na verdade, bolonhesa.

Tem um temperamento aguerrido e o seu marido...

Marido? Mas eu sou uma artista! N�o tem nada a ver com arte.

Um marido...! N�o, � que...

Ele casou com uma tainha cozida

e hoje inventou que tinha um processo em Metz,

para vir comigo ao concerto.

- A senhora � m�sica. - Cantora l�rica.

E odeia o seu amigo, o tenor Baldi. Certo?

Meu Deus, como sabe?

Ouvi-a chamar o seu c�o.

Se estimasse o cantor Baldi, n�o lhe chamaria assim.

O homem � diab�lico! Adivinha tudo!

Monsieur Baldi, ouviu?

Ele sabe tudo sobre n�s!

L�-nos os pensamentos como um livro aberto.

Monsieur Casanova conjectura sobre quem lhe interessa.

Sobre mim n�o adivinha nada.

Respeitava simplesmente o seu luto.

Se uma vi�va � inconsol�vel, � zelosa da sua dor.

Se � consol�vel, esconde em p�blico a sua disponibilidade.

E se j� foi consolada n�o quer que isso se saiba.

De qualquer modo, prefere manter oculto o seu segredo.

Produzo vinho em Champanhe.

Uma actividade reconfortante!

Monsieurs Casanova e de la Bretonne, quero agradecer-vos.

Para mim, que nunca tive sorte com as senhoras,

� um privil�gio assistir a tais li��es de sedu��o.

Como comportar-se diante das senhoras,

como interess�-las...

... como intrig�-las.

Desculpem-me se me cubro,

mas fa�o-o apenas para vos tirar o chap�u.

Sinto que este senhor est� a tro�ar de n�s.

Pode permitir-se faz�-lo, dado que � um dos homens mais ricos da Fran�a.

Isso, para mim, n�o � importante.

Um dia, em Frankfurt, bati no banqueiro Salomon de Rothschild.

Talvez tamb�m por isso esteja hoje na mais absoluta indig�ncia.

Pois eu � como se tivesse batido em todos os banqueiros da Europa!

N�o, senhores! Enganam-se, afian�o-vos! Acreditem, sou sincero.

O vosso passado � t�o rico, que desvalorizam o presente!

Talvez da� n�o repararem nas aten��es destas tr�s damas.

N�o notaram os olhares que vos deitam?

E n�o se apercebem que, quem sabe, possa ser aqui nesta dilig�ncia,

entre duas esta��es, a sua mil�sima conquista, Monsieur de la Bretonne...

ou a sua, Monsieur Casanova. - Que ma�ador!

E porque n�o satisfazer a Monsieur de Vendel?

Reconhe�o que a situa��o n�o � muito favor�vel,

com seis dentro do coche, ou seja quatro al�m do necess�rio,

mas voc�s j� estiveram em situa��es igualmente desesperadas,

e no entanto sa�ram vencedores.

O senhor, por exemplo, Monsieur Restif,

recordo-me de lhe ter lido aventuras realmente arriscadas,

com aquela vez em que o marido tamb�m estava na cama,

ressonando tranquilamente.

- N�o! - Sim!

E tantas outras vezes, em condi��es ainda mais prec�rias!

Num confession�rio, no claustro dum convento, na copa de uma �rvore!

Com uma rapariguinha, enquanto ela fiava para a m�e cega!

Portanto, Monsieur Restif, n�o ser� um simples coche a desencoraj�-lo!

Se leu as minhas obras,

saber� que sempre preferi um tipo de mulheres que n�o viaja em coches!

E o senhor, como poderia fazer, para ensinar Monsieur de Vendel?

Talvez... Ora vejamos...

Primeiro uma intensa troca de olhares,

e depois, na pr�xima esta��o da mala-posta...

N�o, na pr�xima esta��o h� maridos � espera.

Deve acontecer aqui, no coche.

Podemos esperar que caia a noite,

e em viagem, no escuro...

N�o.

N�o h� tempo. A viagem terminar� antes do anoitecer.

Embora...

se possam...

... fechar as cortinas.

Assim...

N�o acho gra�a � brincadeira.

Fazer amor num coche, e talvez at� j� o tenhamos feito,

ou na alcova mais secreta, � a mesma coisa.

O importante � que...

� que no amor haja...

Haja...

Que haja...

... o qu�?!

Mist�rio!

Embora na Am�rica a luta tenha sido pela independ�ncia dos estrangeiros,

e n�o para transformar institui��es, como se passou convosco,

a revolu��o francesa � uma extens�o da americana.

� o in�cio de um processo que afectar� o mundo inteiro.

N�o sou da sua opini�o, e o embaixador americano tamb�m n�o.

Sentei-me a seu lado num jantar h� uns dias,

e disse-me que o novo acordo que se quer impor em Fran�a

contra a religi�o, contra a ordem, contra a propriedade,

suscita s�rias preocupa��es em todos os americanos.

Em todos?!

Nele! E nos seus amigos dos estados do Sul.

Que n�o veem com bons olhos uma constitui��o que prev� a igualdade

e a aboli��o da escravatura.

N�o, n�o! Tamb�m em Nova Iorque, Filad�lfia, Baltimore,

se receia que a Fran�a deixe de dar garantia de estabilidade

que permita o respeito dos tratados.

Com o risco que isto comporta de comprometer o com�rcio com a Europa.

A Am�rica n�o precisa de temer pelo seu com�rcio

enquanto na Europa se mantiver o h�bito de comer.

O Sr. Morris tamb�m disse, e eu creio que...

... se referisse a si e ao que escreveu sobre a vossa igualdade...

que os verdadeiros direitos do homem est�o inscritos nas leis da natureza,

pelo que n�o � verdade nem pode nem deve ser verdade,

que os homens sejam todos iguais.

Ao contr�rio do Sr. Morris e de si, se mo permite,

desejo que se fixem o mais depressa poss�vel os direitos de cada homem,

para que goze os frutos do trabalho na harmonia do interesse comum.

As na��es s� deixar�o de ser miser�veis,

quando as cortes reais deixarem de roubar

e a maioria viver como vivem agora poucos.

Nunca mais acaba!

Talvez n�o esteja a trabalhar! Dorme em p�!

Gilbert, trabalhas demais!

Despeja carv�o mesmo a dormir!

Eis a dilig�ncia!

V�o ter de parar na subida.

Ver�s que nos pedir�o ajuda.

For�a! Levem a madeira!

Senhores, a subida � �ngreme. Teremos que subir a p�.

Os senhores!

Vai l� v�-los a trabalhar!

Tanto fumo!

Vai fazer mal � garganta!

O que fazem aqueles jovens amorda�ados?

O que est�o a fazer?

Est�o a fazer carv�o.

E a senhora? Que �pera vai cantar em Metz?

O cartaz anuncia "Dido Abandonada" e "Don Giovanni".

"Don Giovanni"? A s�rio?

Assisti � sua estreia, em Praga, h� quatro anos.

Dirigida por Mozart, ao cravo.

Uns dias antes da estreia, Da Ponte teve de partir

e encarregou-me de o substituir nos ensaios.

E, com Mozart, que fala perfeitamente italiano,

adapt�mos alguns versos da �ria do Cat�logo. Conhece-os certamente!

Quantos mais altos-fornos acender, mais m�quinas p�e em movimento

e mais depende dos oper�rios.

Sim, e dos que os manipulam.

O Clube dos Cordelier usou a crise do assignat para sublevar os oper�rios.

Primeiro os chapeleiros,

depois os tip�grafos, os carpinteiros, e agora os ferreiros.

J� se reuniram em Paris para discutir na Pra�a da Greve.

� isso! Em vez de trabalhar, tiram folga!

J� vi isso.

Um oper�rio que p�ra,

que interrompe o seu trabalho sem aviso.

� o gesto mais aterrador que j� vi!

Aterrador!

Perdoe que um amador tenha incomodado uma artista.

Ora!

Al�m disso, � contralto. Leporello � bar�tono.

O Leporello � t�o grande como Sancho Pan�a!

Tem todos os defeitos. E a raiva do empregado

que inveja e detesta o seu patr�o!

A dada altura, ele canta:

"Quero ser cavalheiro e n�o quero servir mais".

� o sonho imposs�vel de todos os criados de todos os tempos.

Devo presumir que n�o aprova o que aconteceu em Fran�a depois de 1789?

Sob pena de desagradar a certos presentes, a minha resposta � n�o.

N�o concordo, porque tudo ficou mais feio.

Porque os cocheiros e os criados

se sentem autorizados a ser impertinentes e insolentes.

N�o estou de acordo,

porque choro a antiga Fran�a,

onde tudo era luminoso e harmonioso, onde, ainda que estrangeiro,

era agrad�vel viver e a dignidade era respeitada.

A dignidade � a primeira coisa que se perde.

Voc�s decidiram ter o povo como soberano.

Mas ele � o mais brutal e mais tir�nico dos soberanos.

Pro�bo-o de se exprimir assim!

Sim, dirijo-me a si, Monsieur Casanova!

Monsieur ou Madame!

Pois eu, ao inv�s, agrade�o-lhe.

Acaba de demonstrar que eu tenho raz�o.

Na velha Fran�a,

ningu�m...

com tal insol�ncia...

... me teria proibido de falar.

Ou�a, amigo.

S� se devem proibir os actos nocivos � sociedade.

As palavras tamb�m podem ser nocivas.

Talvez, mas proibi-las � sempre um passo em direc��o � tirania.

Ele � bonito, mas que car�cter!

Em Bolonha, chamam-lhes "quebra-tomates".

A menina tamb�m � encantadora.

Talvez um pouco escura, n�o?

O bom Deus ter� tido as Suas raz�es para os fazer negros.

Cuidado! Deixem passar!

Abram alas!

Merda!

- V� � merda! - Por favor, senhora!

Estes caminhos tornam-se realmente perigosos!

A natureza tem as suas exig�ncias.

Sim, boa ideia.

Maldita bexiga!

Chegar a esta idade para mijar continuamente

e com tanta dificuldade.

Caro Restif, somos sempre castigados por onde pecamos.

� verdade...!

Se fosse s� nesta zona!

Os olhos, as m�os, os p�s...

Tudo se enfraquece!

Eu, gota n�o tenho, mas sofro dos rins!

Que sorte a sua! Eu, de gota e dos rins!

E n�o sei se reparou, mas estou um pouco surdo.

Como?

No fundo,

tudo aquilo que nos aflige, a pobreza, a doen�a

a dor, o sofrimento,

tem uma vantagem:

ajuda-nos a morrer.

Eu tamb�m fui visitar o Voltaire,

ao seu castelo em Ferney, em '78,

e embora estivesse moribundo, discutimos acaloradamente,

mas serviu-me um jantar sumptuoso!

Ajudem aqui! Bloqueiem as rodas com pedras!

Ponham as pedras, r�pido!

Empurrem agora! Com for�a!

Monsieur Baldi!

Monsieur Baldi, j� vou!

De Florange!

Cuidem dos meus outros bichinhos ali em cima!

Coitadinho! Meu pobre Monsieur Baldi!

Como treme!

Teve medo? O que fez?

O que fez, ali sozinho?

Esteve a lamber-se?

Um almo�o campestre, terminado h� pouco.

E n�o por gente vulgar.

Essa garrafa vem das adegas reais.

Claro.

Claro, � adivinho.

N�o. Apenas bom observador, embora j� n�o veja como antes.

Em tempos,

bebi esse vinho na mesa do Rei.

Sabe?

- Vi-o quando tinha quinze anos. - Verdade?

- Posso confessar-lhe um segredo? - Claro.

O senhor foi o meu primeiro amor.

Conheceu-me demasiado cedo, e eu a si, demasiado tarde.

� assim...

Os nossos companheiros de viagem esperam-nos.

Vendo-me afastada com um homem como o senhor,

poder�o ser levados a crer que esta � uma conversa... amorosa.

E foi-o para mim, Senhora.

Arranquemos!

"Os contra-revolucion�rios raptaram o Rei.

Os cidad�os de bem devem recaptur�-lo e entreg�-lo � Assembleia Nacional."

Assinado: "La Fayette".

Ordena-se ent�o:

deter a berlinda de seis cavalos em que v�o o Rei e a sua fam�lia.

- De seis cavalos? - Em que vai o Rei e a sua fam�lia.

Eu, Comandante Bayon,

do 7� batalh�o da 2� divis�o da Guarda Nacional,

enviado para persegui-lo pela C�mara de Paris,

na primeira pausa,

depois de seis horas de viagem,

envio o cidad�o...

Gabriel Vallet, Excel�ncia.

Gabriel Vallet...

� C�mara de Ch�lons,

com a ordem de executar

a miss�o supra mencionada

e de alertar as restantes C�maras at� � fronteira.

Se demorar mais do que uma hora acus�-lo-ei de alta trai��o!

Parta imediatamente!

Ouviram?

Ordem para deter o Rei e sua fam�lia!

N�o! Ningu�m pode deter o Rei!

A esta hora, j� ele est� � frente de mil hussardos!

A Senhora estava ao corrente?

Pois eu n�o sabia, Condessa, mas imaginei na noite passada.

O Rei foge por esta mesma estrada?

O Rei fugiu, talvez possa apanh�-lo...

O que pensa disto, Sr. Paine?

N�o sei o que vai acontecer.

Mas sei que um rei em fuga � menos rei a cada minuto passado.

- � o propriet�rio daqui? - Para vos servir.

No trono ou em fuga, nunca um rei me fez perder uma refei��o.

Ali, junto � lareira.

Eu tamb�m o vi, mas n�o era ele!

- N�o usava o manto vermelho. - Claro que era ele!

Vejam! Vejam-no aqui!

� tal qual!

O que tem para comer?

Supreme de trufas, perdiz ao vinhateiro,

foie gras, carpa com azedinhas,

queijos, vinhos, sobremesa... - Traga-me tudo!

Dizem que na carruagem iam 6 pessoas.

Uma senhora mais velha, duas jovens, uma bela, duas meninas e um criado.

Devem ser a Madame de Tourzel, ama dos Filhos de Fran�a.

Madame Elisabeth, irm� do Rei.

A senhora muito bela � Maria Antonieta.

E o Delfim vai vestido de menina. E Madame Royale, a sua irm�zinha.

E o criado de libr� e chap�u redondo...

Era o Rei?

De libr�?

O que tem de estranho?

Um rei n�o foge com a coroa e o manto de arminho.

Chamaria as aten��es!

Sua Majestade n�o fugiu.

Foi reunir-se aos seus aliados.

� para o bem da Fran�a.

O orgulho dos reis mergulha a humanidade na confus�o.

Se reina a confus�o em Fran�a, culpe-se quem quis um novo governo.

- O governo da desordem. - Adoro a desordem!

Virginie!

Cont�m-te, por favor.

Nenhum governo � bom,

porque enriquece sempre uma parte e empobrece a restante

para l� do que seria de esperar num estado natural.

A culpa dos governos � governarem demais.

Mas os piores...

... s�o os da monarquia e da aristocracia.

S�o as duas vigarices mais tir�nicas contra a humanidade.

Por exemplo...

Veja-se a Besta Real da Inglaterra, o meu bem-amado Jorge III...

Precisava de s�bditos a quem sugar no al�m-mar

para manter a vida luxuosa da Corte.

- O General La Fayette ditou isto? - Sim.

A que horas descobriram a fuga?

�s sete.

E o senhor, a que horas partiu?

�s oito.

E em Paris? O que sucede em Paris?

Est� em ebuli��o!

E como perceberam que eles tinham apanhado a estrada para Metz?

Porque queriam reunir-se ao Marqu�s de Bouill� na fronteira?

L�gico!

- Perdiz ao vinhateiro. - Que bom aspecto!

- Come sempre assim tanto? - Sim, Madame.

J� o fazia quando tinha outros prazeres, al�m dos de uma boa mesa.

Muito bem, muito bem...

Eu diria que em Fran�a � pior.

H� quatro mil fam�lias privilegiadas,

todas pr�ncipes de sangue, de armas ou de igreja. Todas hostis entre si.

E vegetam-na corte, afundados no v�cio e no abuso.

O senhor parece muito informado sobre o que acontece na Corte.

Mas talvez desconhe�a que essas quatro mil fam�lias

participam nas despesas do pal�cio e contribuem para obras de caridade.

Assim �, Madame!

O povo n�o quer caridade: bastam-lhe os seus direitos.

Direitos aos quais devem corresponder outros tantos deveres!

O maior dos quais � respeitar o Rei, que assim o � por direito divino.

Os aristocratas parecem ter sido os primeiros a descurar esse dever.

Fugiram para o estrangeiro, esquecendo-se do Rei.

- N�o concordo nada consigo. - N�o te exaltes, querido!

E quanto ao famoso "direito divino"...

Onde conquistou o Rei esse "direito divino"?

Estipulou algum acesso especial a Deus que ao povo � negado?

Ou � s� uma forma de passar o cargo de pai para filho,

para que depois de um le�o um asno possa subir ao trono.

Bom apetite, Cavaleiro, neste dia cheio de mist�rio.

N�o � assim, Madame?

E o senhor n�o come nada?

Agrade�o, mas eu tenho o costume de jejuar.

Pessoalmente, nada tenho contra as revolu��es.

Podem at� ser boas. Mas quem as faz nem sempre o �.

Receio que para voc�s, s� sejam bons os que n�o fazem revolu��es.

- Para n�s, magistrados, a nobreza... - Para voc�s...!

Quem s�o voc�s?

J� n�o julgam os nobres?

Marat tinha raz�o ao acusar La Fayette

de estar de conluio com o Rei. E com a grande prostituta!

Agora sou eu quem lhe pro�be de falar assim!

- E quem � para me impedir? - Ele n�o pode impedir nada.

Mas o senhor pode coibir-se de ser t�o intolerante! Acredite!

- Calma... - Nadine, vai limpar a mesa.

Estou desolado, Sr. Juiz, o seu queijo!

Ele tem um f�gado deste tamanho...!

Que viagem!

Obrigado, Armand.

Detesto pobres!

Monsieur Casanova, trouxe-lhe todos os seus bens e est� tudo em ordem!

Obrigado, meu amigo!

Madame, � servida?

- N�o, obrigada. - Melhor.

Princesa, d�-me um beijo.

Um beijo, o que te custa? Um beijo!

Por favor, d�-me um beijo!

Vem c�!

Aqui n�o nos veem!

Porque n�o, Princesa? O teu rei fugiu, eu vi.

Ele mesmo me disse: "Possui aquela porca!"

Que belo pesco�o!

Um belo pesco�o para meu cunhado.

� carrasco em Paris.

O que queres tu?

Est�s com ci�mes? Tamb�m queres um beijo?

Larga-me! Larga-me!

Foi ela que come�ou!

Est� bem, Sra. Condessa?

Acalme-se, agora...

O senhor ofendeu-me mais do que aquele desgra�ado!

O que sucedeu, Madame?!

Toda despenteada! Quem lhe fez isso? Aquele selvagem? Maria Madeleine!

Madame!

- O que aconteceu? - Nada que lhe interesse.

Sempre em cima de n�s, aquele! Despache-se!

Traz a caixa de j�ias!

D� c� isso!

Entra, n�o fales!

Os esp�ritos est�o perturbados.

Hoje...

... tudo � poss�vel.

Madame...

Ter� a amabilidade...

... de se despedir por mim,

da nossa turbulenta companhia?

Sr. Casanova...!

Ainda n�o encontrei consolo! A minha vida � um deserto!

Mal o vi, fiquei sem ar!

Na dilig�ncia, alcan�ou a sua mil�sima conquista!

N�o me rejeite, suplico-lhe! Hoje tudo � poss�vel!

O senhor acabou de o dizer! Concretize tamb�m a minha felicidade!

Fa�a uma loucura!

Leve-me consigo!

Podemos ir para minha casa, em Champanhe!

Ou aonde quiser!

Suplico-lhe... Giacomo!

Ch�re Madame, aquilo a que chama loucura

teria sido...

pura sabedoria at� h� algum tempo,

mas com 66 anos...

... adquire-se outro tipo de sabedoria,

que n�o traz felicidade,

mas que ao menos...

... sim, ao menos, evita as desilus�es.

Est� frio, hoje...

O que dizia eu? Sim!

Agrade�o a sua dupla oferta.

A sua beleza e a sua bela casa de campo.

Teria amado uma e outra...

Acredite-me...

Entre os dois, serei o �nico a lamentar.

N�o foi este velho que lhe cortou a respira��o,

foi o seu nome,

a sua reputa��o,

o seu passado.

Tudo coisas que, hoje...

... j� n�o existem.

De qualquer modo, ch�re Madame,

mais uma vez, obrigado.

Alegro-me por ter conhecido o grande Restif.

E guardarei uma preciosa recorda��o do Cavaleiro de Seingalt.

O seu cavalo morreu, Comandante. Rebentou-lhe o cora��o.

Mas, se quiser, posso mandar selar outro.

O senhor a�!

Fui sacudido na sela por 40 l�guas � velocidade de 6 l�guas por hora.

Tem um lugar a mais, prosseguirei caminho consigo.

Dado que mo pede com tanta amabilidade...

Veja, Madame,

os companheiros de viagem que a minha nova sabedoria me obriga a preferir.

Obrigado pela sua ajuda, jovem amigo. Foi preciosa.

- Lembrar-me-ei de si. - E eu de si, Monsieur Casanova.

Que pena n�o nos termos conhecido quando �ramos jovens! Quem sabe...?

Claro... Porque n�o?

Nunca se deve excluir nada por princ�pio.

Eu ajudo-o.

A minha gota!

Ora, � t�o �gil!

- Despe�a-se por mim da sua patroa. - Fique descansado.

Cavaleiro, a quem devo cobrar?

O supreme de trufas, as perdizes, as sobremesas, os vinhos...

Quem mos paga?

Pago eu, se gritar: "Viva a dignidade!"

- Viva a dignidade! - Bravo!

Aqui est�, bom homem.

Uma letra de cr�dito assinada pelo Conde de Wallenstein,

descendente do grande Wallenstein.

"Pela presente, reconhe�o...

"a obriga��o de saldar, daqui a seis meses,

"o pagamento da minha d�vida

"avalizada por sua excel�ncia, o Conde de Wallenstein...

"pelo valor em francos...

"P�r a soma em quest�o no espa�o em branco,

"a favor do senhor,

"p�r aqui o nome do credor.

"Assinado e aprovado...

... pelo Cavaleiro de Seingalt."

Jean-Louis Romeuf, ajudante- -de-campo do General La Fayette.

Passou por aqui um capit�o da Guarda Nacional vindo de Paris?

Acaba agora mesmo de sair, numa carruagem,

mas esteve aqui mais de uma hora. - Tenho de partir j�! Um cavalo!

E uma carruagem, evidentemente!

Beba, Senhora, o seu chocolate...

Sempre lhe fez bem.

Beba enquanto est� quente. Acalme-se, Madame, por favor!

A multid�o que invadiu a pra�a e as ruas em torno das Tulherias

entrou no pal�cio,

mas s� para olhar, ningu�m tocou em nada.

Nos aposentos do Rei,

uma mulher do mercado sentou-se diante do leito de cerim�nias.

- Vende cerejas a seis soldos a libra. - N�o s�o caras.

As pessoas amontoavam-se em monumentos e campan�rios.

O General apareceu, indiferente a amea�as e insultos,

enfrenta a multid�o e pergunta:

"� necess�rio prender o Rei para a salva��o p�blica?"

Todos gritaram que sim.

E o General responde: "Ent�o assumo pessoalmente a responsabilidade!"

Senhores, quando quiserem. A dilig�ncia est� pronta.

Ent�o a ordem de capturar o Rei em fuga transmitida pelo Capit�o Bayon

foi dada pelo meu amigo La Fayette?

Mas nas ordens do General n�o se fala de captura ou de fuga.

S� diz: "O Rei foi raptado por contra-revolucion�rios".

Eu mesmo o escrevi, consoante o que me ditou.

Ent�o esse Capit�o?

Com que arb�trio p�de alterar as ordens do vosso General?

Foi La Fayette quem vos ordenou que partissem?

A mim, sim.

Ao Capit�o, foi a Assembleia Nacional.

H� que reconhecer que a ideia do rapto � genial

como tentativa de salvar a coroa.

Porque o ter� feito?

� uma inven��o que pode ser fonte de perigosos conflitos

entre as v�rias correntes da Assembleia.

Madame, veja quem chegou!

Anda!

Monsieur de Romeuf!

Mas quantos oficiais seguem hoje o Rei?

Condessa de la Borde...

Anda!

Sempre por �ltimo!

E eu onde fico?

Aqui est� a nossa carruagem!

Que tortura!

Sim, sim, sim!

Quero absolutamente sentar-me junto do cocheiro.

Virginie, controla-te, n�o � lugar para uma dama!

Uma dama � sempre uma dama!

Sente-se onde se sentar!

Fa�a favor, Madame.

J� que se fala tanto de revolu��o...

Por uma vez quero faz�-la!

- Sento-me ao lado do cidad�o cocheiro! - Mas Virginie...!

N�o, belo oficial. Aqui vai Monsieur de Vendel.

Cidad�o! Viste o Rei? Quem viu o Rei?

Fugiu disfar�ado de lacaio.

Partiu sem deixar endere�o!

- Ele que se sente! � insuport�vel! - Tu tens casa?

Se n�o, vai para as Tulherias! Est� para alugar!

Pede-se a quem encontre o Rei que o devolva ao est�bulo!

O que vai fazer agora, Tenente Romeuf?

Tem planos?

Quando chegarmos a Ch�lons,

irei � C�mara pedir informa��es sobre os raptores do Rei.

Precisamente aonde o Capit�o Bayon, que partiu com o Casanova,

ter� ido saber not�cias do Rei fugitivo.

Raptado ou em fuga, o Rei fez bem em livrar-se dos Jacobinos

que o retinham nas Tulherias.

Humilhado por tudo e por nada diante da Assembleia,

era apenas a sombra de um monarca.

Mas o povo apoia o Rei. Chama-lhe "o bom pap�".

O povo gosta dele e far-lhe-� uma grande festa quando regressar.

Poder� ser assim, Madame, mas as pessoas mudaram muito.

A gente da cidade e do campo deu-se conta que � pobre.

Naturalmente! E com a propaganda revolucion�ria que fazem os Clubes...

E entretanto come�ou a questionar-se se depois de mortos

os �ltimos ser�o realmente os primeiros.

E perante a incerteza, come�aram a preocupar-se com o "lado de c�".

N�o, Monsieur Restif.

Eu mesma poderia citar centenas de exemplos do amor do povo pelo Rei,

como a viagem de Sua Majestade a Cherburgo.

Dia 21 de Junho de 1786.

Inaugura��o do porto de guerra de Cherburgo.

Na presen�a do Rei Lu�s XVI,

foi rebocada para o mar a �ltima das oito gigantescas torres c�nicas,

que, ancoradas no fundo do mar, delimitar�o o porto de Cherburgo.

Tive pessoalmente a sorte e a honra de assistir.

Nas palavras de Segur, o Ministro da Guerra, foi um "banho de gente".

Os vivas de 20 mil cidad�os silenciavam as salvas de 600 canh�es.

Sei que n�o aprova uma �nica palavra do que digo,

mas se o tivesse visto em Cherburgo, com o seu manto vermelho...!

Era o meu rei, a minha religi�o...

... e o meu ideal.

Posso v�-los tamb�m, Condessa?

Obrigado.

Os vossos bilhetes, por favor.

- Vamos para Metz. - Obrigado, Senhor.

- Eu tenho um concerto em Metz. - Obrigado, Madame.

- Tamb�m vou para Metz. - Obrigado.

- Nancy. - Certo, senhor.

- Eu moro aqui. - Eu sei, Madame Gagnon.

- Madame, fez boa viagem? - Sim, obrigada.

Gaspar, vem buscar a bagagem de Madame.

Madame, � tudo muito estranho.

Passaram aqui h� duas horas e n�o cinco. E sem escolta!

Na Pont de Somme-Vesle, o Duque de Choiseul partiu com os hussardos

um quarto de hora antes da chegada da carruagem.

E n�o esperaram?!

Mas o tro�o mais seguro da viagem � depois de Ch�lons!

Em cada esta��o h� cada vez mais soldados! O que aconteceu?

Ningu�m sabe!

Vou procurar mais noticias.

O que ter� acontecido?

Quando a carruagem chegou, eu estava no albergue dos Sauce.

- E algu�m falou com os viajantes? - Sabe-se l� se era ele!

Claro que era! Era a cara impressa nos assignats! Olha aqui!

Cumprimentei-os e uma bela senhora respondeu-me com a m�o.

Isso explica a chegada esta manh� de tantos soldados.

Mandaram-nos vir aqui escoltar at� Metz um tesouro que vinha de Paris.

Assim tranquiliz�mos os alde�es e confraterniz�mos como os Drag�es.

- E ent�o? - Ent�o o qu�?

A que horas era prevista a passagem do "tesouro"?

�s cinco.

�s seis, chegou um cabriol� com um tipo muito estranho.

Tinha trancinhas e lacinhos por todo lado!

E o cabelo todo frisado!

- E estava vestido de amarelo. - O Leonard?

O que fazia ele aqui, aquela bichona?

Entregou um bilhete do Duque de Choiseul ao nosso Capit�o D'Andoins.

Dizia: "O tesouro n�o passar� hoje".

Sim, mas depois o "tesouro", ou algo muito precioso passou.

E como passou!

�s sete e 45 chegou uma berlinda.

Nunca vi uma t�o grande! E um cabriol�.

Mas o Capit�o mandara desaparelhar os cavalos e dado folga...

- E o que fez o Capit�o? - O que podia ele fazer?

Aproximou-se e disse: "Isto foi mal combinado.

"Se n�o se despacharem, est�o perdidos.

Mudem os cavalos, partam e n�o se fala mais nisso."

E quando o Drouet voltou dos campos onde recolhia o feno, e viu...

- Quem � esse Drouet? - O nosso chefe da mala-posta.

Vendo aquele coche, recomendou aos postilh�es

que n�o esgotassem os cavalos na subida do Argonne.

E agora diz que acha ter reconhecido o Rei e a Rainha,

porque quando era Drag�o os viu em Versalhes.

Como se o Drouet se cruzasse com o Rei em Versalhes!

E quando chegou um funcion�rio com uma ordem de Paris...

- Ditada pelo Capit�o Bayon? - N�o sei.

Mandava-nos impedir a fuga do Rei.

N�s, da Guarda, desarm�mos os Drag�es sem problema e prendemos o capit�o.

Depois o Drouet foi � C�mara

e o alcaide encarregou-o de ir de imediato no encalce da carruagem.

E o Drouet partiu para Verdum como seu amigo Guillaume.

O "Cabe�udo"!

Ent�o as medidas de seguran�a do Bar�o de Goguelat n�o funcionaram!

- Porqu�? Ter� havido trai��o? - N�o! Oficiais ineptos e desleais,

c�maras favor�veis � Nova Constitui��o!

E o nosso bom povo?

Porque n�o os protegeram, ao reconhecer o seu Rei e a sua Rainha?

N�o sei, Madame. N�o sei.

N�o percebo.

Visto de perto, s�o t�o diferentes!

Esta noite parecem distantes, fechados... hostis.

Ingratos!

Foi uma honra viajar consigo. Continua��o de boa viagem.

Saint-Menehold, Ch�lons,

Montmirail, Meaux!

- Podemos seguir. - Espere um momento.

Muito bem!

Madame?

Quando quiser, podemos ir.

Madame?

Adelaide!

O que fazes?

Est�s encantada? Anda para casa.

Hoje acordei com o pressentimento que me ia acontecer algo importante.

E quando o Rei e a Rainha passaram aqui com os filhos, pensei:

"Ser� um grande dia para a minha pousada!"

Mas enganei-me.

Quando chegaste,

percebi que...

era um grande dia...

.. porque tu vinhas c�.

Posso beber qualquer coisa depressa?

Nicolas!

Nicolas!

- Nicolas! - Nanette!

Giacomo!

- � o Nicolas Restif! - J� tive o prazer.

- � o marido da minha pobre Z�phire. - M�e!

Meu filho!

� o marido da nossa Z�phire!

O qu�?! Casou com a nossa Z�phire?

A vossa?

A dele? A tua!

A nossa Z�phire, � dos dois.

Nicolas, o Giacomo foi o meu primeiro amor.

- Ent�o � meu sogro? - E o senhor � meu genro!

- Senta-te. - Aqui ao teu lado.

Que dia!

Assim, os tr�s juntos.

- Nanette, por favor, Nanette! - Vai-te embora, Platon!

A mesa est� completa.

Monsieur Casanova!

Monsieur Restif, Madame de la Borde espera-o para partir.

V�o andando, Monsieur Restif prosseguir� comigo.

- Sim, j� vos alcan�amos. - Como queiram.

Chispe � Sainte-Menehould!

O grande chefe com as suas m�ozinhas de ouro...!

Est� c� para o fazer.

O aspecto � delicioso.

Se desejar jantar, temos cavala � chefe,

pato recheado com molho t�rtaro, chispe � Sainte-Menehould...

- E para sobremesa... - Traz o que tiveres de melhor!

Tudo, tudo, tudo! S�o meus convidados!

Nicolas!

Giacomo!

Passado um ano, a Z�phire deixou-me.

Deixou-me por um mundo melhor. Pelo menos, esperamos que seja.

Sim, uma pneumonia.

- Levou-a em tr�s semanas. - Ningu�m me avisou!

Eu, que era pai dela!

Ouve... Posso confessar-te uma coisa?

Acho que a tua Z�phire n�o era minha filha.

Tamb�m me atribu�ram filhos demais.

Mas enfim, como se diz:

"Pater semper incertus est".

A m�e tamb�m � incerta.

Acho que nunca tive qualquer rela��o com aquela Madame Nanette.

Estou farto de puxar pela cabe�a, mas n�o...

Ent�o porque confirmaste o que disse a minha sogra?

Sei l�, por amor � intriga, galanteria, sentido dram�tico...!

Quando me deitou os bra�os ao pesco�o, mal entrei na sua pousada,

tinha a certeza de nunca a ter visto.

Mas porqu� negar?

Porqu� desagradar a uma mulher que j� n�o � jovem, diante dos conterr�neos?

Ent�o j� n�o sou teu genro.

Visto que j� n�o sou teu sogro...

Eu tamb�m n�o tenho a certeza

que a minha Z�phire seja filha de Nanette.

Numa viagem h� muitos anos,

acabara de enviuvar da Z�phire, e cheguei �quela pousada.

A dona acabara de perder em Paris uma filha que se chamava Z�phire.

Que coincid�ncia!

Ainda que alguns pormenores n�o encaixassem realmente.

Mas porqu� aprofundar mais?

A dor de Nanette era t�o sincera...

E estava t�o feliz por ter encontrado o marido da coitada da filha...

Al�m disso, naquela �poca,

a Nanette ainda tinha uma beleza perturbadora.

E assim mistur�mos as nossas l�grimas

durante tr�s dias, no seu leito.

"Nas Tulherias, uma rainha perversa fanatiza um rei medroso

"que prepara uma Noite de S�o Bartolomeu para os Patriotas.

"A Fran�a envia ouro e armas para o estrangeiro,

"para que os tiranos reunidos nas fronteiras

encontrem os franceses esfomeados e desarmados."

- Cavaleiro, espere, eu ajudo-o. - Anda!

Ajuda-me!

Uma esmola, por favor.

D�-nos qualquer coisa.

Vivo h� mais de seis anos na Bo�mia, no castelo do Dux.

Sou bibliotec�rio do Conde de Wallenstein.

Sou uma esp�cie de bobo da Corte

alvo de humilha��o dos criados que me desrespeitam e insultam!

Por isso, fugi.

Dirigi-me ao Duque de Weimar e � Duquesa da Sax�nia.

Apenas lhes pedi um cargo adequado ao meu nome, � minha dignidade!

Impuseram-me uma espera humilhante!

- Sentamos ali? - Sim.

Dois emiss�rios do Conde de Wallenstein procuraram-me em Paris

para me dizer que o Conde lamentava e me pedia que regressasse ao castelo.

At� pagou... Obrigado.

...algumas notas de cr�dito que eu assinara em seu nome

a certos judeus alem�es.

Mas a verdade � que ele quer que eu regresse porque se entedia!

Quer que eu lhe anime os ser�es e os h�spedes. Espera, eu mostro-te.

Nobres damas e cavalheiros!

Vou contar-vos hoje o que sucedeu quando fingi cair do cavalo

mesmo frente � casa das duas irm�s mais virtuosas de Dresden,

a Marika e a Birgitt.

Prontamente me acudiram e me estenderam no seu leito,

e pedi-lhes que trouxessem do alforje do meu cavalo

uma garrafinha com um unguento milagroso,

que n�o era sen�o vinho de Borgonha.

Depois pedi-lhes que a passassem na zona magoada,

e que me massajassem o corpo com os seus dedos h�beis...

Restif...

Estou muito cansado.

Creio que � hora de voltar ao porto.

Mas quero faz�-lo sozinho, com meus pr�prios p�s!

Sem a escolta dos gendarmes!

Foi por isso que os despistei em Paris!

- Um cavalo descansado! Depressa! - Trago j�, Dr. Mangin!

Dr. Mangin, que se passa? Aonde vai a esta hora?

Para Paris!

A C�mara de Varennes encarregou-me de avisar a Assembleia Nacional.

O Rei e a fam�lia real foram detidos!

Est�o na casa de Monsieur Sauce, o vice-presidente de Varennes.

Foram detidos � entrada de Varennes h� duas horas

por um punhado de patriotas alertados por Monsieur Drouet,

o chefe da mala-posta de Sainte-Menehold.

- A popula��o cercou a loja, armada. - Loja de qu�, desculpe...?

Monsieur Sauce fabrica velas, vende especiarias e produtos coloniais.

Varennes? Onde fica?

A umas seis l�guas daqui, na estrada de Montm�dy.

Foi uma sorte o Drouet encontrar os postilh�es

que regressavam com os cavalos.

Avisaram-no onde � que a dilig�ncia se tinha desviado.

Caso contr�rio, Drouet teria seguido em frente, direito a Metz e Verdum.

Foi uma sorte para quem?

Noite de vig�lia...

O espect�culo muda, o povo sobe ao palco.

E o teu Maquiavel escreveu:

"Todas as correntes s�o pesadas e todos os lugares s�o opressivos"

"para quem j� viveu a liberdade."

Quando era seminarista proibiam-nos de ler "O Pr�ncipe".

Imagino que penses ir at� Varennes.

Sa� de Paris para alcan�ar o Rei e assistir ao que viesse a suceder.

E o que escrever�s sobre os Bourbons, prisioneiros numa f�brica de velas?

Nem Shakespeare conseguiria transformar isto em trag�dia.

Eu n�o escrevo trag�dias.

Prefiro o que vejo.

Ali est� a minha dilig�ncia.

Eu prossigo para Verdun.

N�o me alegra a ideia de assistir ao funeral do Rei.

Mas o povo franc�s n�o deseja a sua morte!

Meu caro Restif,

quando um rei � feito prisioneiro n�o por outro rei

mas por um chefe de mala-posta � como se estivesse morto.

Aguarde aqui.

Herr Casanova, Conde de Wallenstein encarregou-nos de o levar at� ele.

Jawohl! Encontraram-me.

Mas isto n�o acaba aqui!

Quando era jovem, escapei a carcereiros piores.

Quando era jovem...

Mas a juventude � um defeito que se corrige rapidamente.

Restif... Faz-me um favor.

Quando voltares a Paris, visita o Goldoni.

Est� velho e doente. E quase cego.

O novo regime retirou-lhe a pens�o que recebia como ilustre artista.

Aos poucos, vendeu toda a biblioteca.

- Mora num s�t�o na Rua Dauphine. - Prometo! Conta comigo.

Adeus.

Cuidado! Aten��o!

Afastem-se!

Abram alas!

O Rei ia mascarado de criado!

Criado de Maria Antonieta!

- Voc�s a�, de onde v�m? - De Ch�lons.

- E n�s, de Montmirail. - Prossigamos para Varennes!

Esta dilig�ncia vai para Varennes!

Capit�o, somos um servi�o p�blico, esperam-nos em Metz.

- E a n�s, em Varennes! - Sim, em Varennes!

Eu vou para Metz! Tenho neg�cios � espera! Temos os dois, Sr. Paine.

- Tamb�m vamos para Metz! - N�o h� outra dilig�ncia?

Sim, eu arranjo outra, d�-me tempo.

- Encontramo-nos na Baixa Als�cia. - As minhas fundi��es esperam.

As bagagens!

V�o para a esta��o de posta em Varennes!

V�o para Varennes!

E a nossa bagagem?

Acalma-te!

Compreendo que estejas preocupado.

Tu aqui,

a tua mulher sozinha em Paris num dia como este...

Porque n�o vais ter com ela?

Apanhas o primeiro coche para Paris e amanh� de manh� estar�s em casa.

N�o! Mas vim at� aqui...

- � ent�o...? - E tu?

Sabes que tenho de continuar.

Tenho o meu concerto... N�o te preocupes comigo.

- Mas n�o vais ficar aqui sozinha! - Eu?

Estou sempre sozinha.

Sempre estive, estou habituada.

Virginie, querida! Sozinha como? Tens-me a mim! Tens a tua arte!

Tu...!

� mais f�cil libertarmo-nos dum rei do que da pr�pria mulher!

Quanto � minha arte... Tr�s notas no primeiro acto.

No fundo do cen�rio com as coristas...

S� me contrataram gra�as a ti e aos teus contactos.

N�o fa�as essa cara! N�o estarei s�!

Monsieur Baldi proteger-me-�!

N�o �, Monsieur Baldi?

Al�m disso, Monsieur de Vendel far� o mesmo caminho

e talvez aceite fazer-me alguma companhia.

- Com muito gosto, ser� uma honra. - Obrigada.

Meu querido, tratas das cestas dos c�ezinhos? Manda-os tir�-las.

Est�o a� uns c�ezinhos!

Madame?

Madame?

Madame, Monsieur Emile queria...

Monsieur Emile sou eu.

O Emile gostava que eu fosse com ele, a aldeia dela � aqui perto.

Mas eu disse-lhe que primeiro tenho de lhe pedir autoriza��o.

E se por acaso, Madame n�o te autorizar,

o que far�s?

N�o irei contigo.

Ent�o n�o o amas.

Espera!

Madame sempre cuidou de mim.

Levou-me para casa dela quando eu tinha 9 anos.

Madame, talvez eu para ele n�o passe de uma curiosidade,

mas hoje, pela primeira vez,

tive vontade de rir e de chorar.

Marie Madeleine...

O que queres tu fazer?

Podes vir ou ficar, mas decide tu.

Anda.

Madame, esta noite acontecem tantas coisas... desagrad�veis...

No meio desta desordem,

o que pode fazer um pobre homem como eu com cem oper�rios �s costas.

Talvez um pobre homem n�o deva ter cem oper�rios �s costas.

Sr. Paine...

Perdoa-me aquilo de hoje?

Nunca tive tanto medo.

Mas...

N�o s� por culpa daquele louco que me agrediu.

Medo dos discursos, das pessoas, de si...

De tudo aquilo... que n�o conhe�o e do que estou prestes a perder.

A Corte � como uma cama fofa.

Como o manto vermelho em Cherburgo ... era a seguran�a.

N�o sou dada a ideais.

Por mim, se outro ideal me transmitisse a mesma seguran�a,

aceit�-lo-ia bem.

Al�m disso...

O meu pai fabricava cerveja, imagine os ideais...

Ent�o?

Perdoa-me?

Era apenas medo.

E amanh�, n�o ter� medo?

A ingratid�o dos reis � proverbial.

A dos reis ca�dos... � feroz.

Quer voltar a tranquilizar-me esta noite?

N�o, tem de ultrapassar isso sozinha. Todos temos medo.

A f� e os ideais s�o tentativas de suplantar o medo.

Mas devemos encontrar...

... os ideais que nos conv�m.

Sim, Condessa.

Se verificarmos que n�o nos conv�m, devemos ter a coragem de os mudar.

� a mudan�a que me faz medo.

Quando os gatos e os bobos deixam a casa dos amos,

s�o perseguidos a pedradas.

Nos Direitos do Homem e na Constitui��o Americana,

substituiu-se a palavra propriedade por "busca da felicidade".

O senhor era feliz, Monsieur Jacob?

N�o.

Sempre tive medo de perder o que tinha.

Al�m disso, detesto a felicidade!

"Velas e Produtos Coloniais"

Fizemos seis l�guas em hora e meia durante a noite.

Encontr�mos os meus postilh�es que regressavam com os meus cavalos

e alertaram-me que a berlinda com os cavalos frescos

sa�ra da estrada de Verdum para apanhar a de Varennes-Montm�dy.

N�s tamb�m mud�mos de direc��o,

eu conhecia um atalho

e �s 23h30 eu e o meu amigo Guillaume cheg�mos a Varennes.

E junto � igreja,

encontr�mos a berlinda e o cabriol� � espera da mudan�a de cavalos.

N�o sabiam que os cavalos j� estavam prontos h� uma hora.

Mas na sa�da da outra ponta da aldeia.

A poucos passos daqui. Meia milha, e podiam ter-se salvado.

Felizmente, no albergue "Bra�o de Ouro" ainda havia clientes,

tudo bons patriotas.

Esbo��mos ent�o um plano.

Algu�m viria aqui acordar o Sauce, o presidente da C�mara,

e n�s os dois far�amos uma barricada no meio da ponte

para bloquear a sa�da da dilig�ncia. - E a entrada dos soldados.

Enquanto isso, meu marido saiu � rua para interrogar os viajantes.

- No entanto, eles diziam-se russos. - Mas falavam todos franc�s.

R�pido, r�pido! Um m�dico!

Uma dama do s�quito est� com uma crise... de c�licas.

C�licas? Ainda v�o dizer que foi por causa do que comeu em minha casa!

Tu, vai chamar o Doutor!

Corre, v�! O m�dico! Despacha-te!

S�o desculpas para atrasar a partida!

Para Paris!

Para Paris!

As crian�as dormem! As crian�as dormem!

Estes sinos...!

Dois enviados com ordens da Assembleia Nacional

e do General La Fayette.

O homem que prendeu o Rei, o presidente da C�mara, Sr. Sauce.

Vice-presidente. O Presidente est� ausente. E eu n�o prendi ningu�m.

A emo��o do momento, a neblina da noite,

a pr�pria seguran�a dos viajantes, desaconselhavam a viagem.

Da� t�-los convidado a repousar-se em minha casa, � tudo.

Regressados � carruagem, gritei ao Sauce:

"Se os deixar passar ser� culpado de alta trai��o!"

Sim, ele gritou isso.

� o Sr. Drouet, chefe da mala-posta de Sainte-Menehould.

E quando o Sauce quis ver os passaportes,

um homem vestido de criado abeirou-se da janelinha

e ordenou aos postilh�es que prosseguissem.

- Eu gritei: "Parem ou disparamos!" - Sim, ele gritou isso.

E ordenei aos jovens de Varennes que apontassem os fuzis!

Que n�o estavam carregados!

Mas eu n�o sabia.

E os viajantes muito menos. Desceram e seguiram o Sauce.

Imaginem a minha agita��o.

Em plena noite, a casa cheia de reis! A preparar quartos e refei��es!

Mas quando Sua Majestade abra�ou o meu marido

comovi-me at� �s l�grimas.

Sentimo-nos como uma fam�lia que encontrou o pai

depois de o ter dado como perdido.

O Rei disse-me: "Em Paris vivia rodeado de punhais.

"Quis refugiar-me junto dos meus fi�is s�bditos da prov�ncia

para gozar a paz e a liberdade perdidas".

A liberdade! A liberdade de fugir para o estrangeiro, claro!

Drouet! Um monstro vomitado pelo inferno!

O Rei disse-me que s� queria chegar a Montm�dy, a algumas l�guas daqui.

Sim. Onde o espera o carniceiro Bouill�

para o escoltar at� � �ustria ou o Luxemburgo!

N�o! Ir� para a Paris e j�! Preparem a dilig�ncia!

Para Paris, agora!

L� em cima est�o a descansar. L� em cima est�o a descansar!

Estes sinos!

Veem? Veem que confus�o?

Ainda bem que voc�s chegaram.

Venham, venham ver Sua Majestade.

Passagem aos Representantes da Na��o. Chegaram da Capital.

Esperemos que este assunto traga vantagens � nossa pequena aldeia.

O Rei prometeu-nos benevol�ncia,

mas contamos sobretudo com a da Assembleia.

Enviei logo o Dr Mangin a Paris para avisar que o Rei � meu h�spede.

Tamb�m transferi...

... uns velhos canh�es para o outro extremo da aldeia,

s�o de madeira, mas de qualquer modo...

Passagem aos Representantes da Na��o.

Por favor, com licen�a.

Condessa de la Borde! Tamb�m aqui est�?!

Bar�o de Goguelat!

- Mas o que fez o senhor? - Nada,

um tiro pelas costas enquanto tentava contornar a Guarda Nacional daqui

vir dar a esta maldita loja!

E que o sucedeu ao seu plano "infal�vel" para escoltar o Rei?

Contra-ordens, atrasos, hussardos amotinados.

O cabeleireiro da Rainha que perde a cabe�a e manda o General retirar-se!

Sim, mas entretanto ter� outro plano um pouco mais... "infal�vel"...

H� que retardar a partida do Rei at� que chegue o Marqu�s de Bouill�,

que j� mandei prevenir em Montm�dy.

Propus tamb�m ao Rei uma sa�da em armas,

mas ele n�o quer!

E como censur�-lo?

Sou oficial, venho de Paris! Deixem passar os representantes da Na��o.

A idiotice provoca mais danos que a trai��o.

E n�o h� revolu��o que a elimine.

Majestade, dois enviados da Assembleia Nacional.

Sir...

- O Rei... - N�o pode afastar-se muito.

Os interesses do Estado n�o...

Em Paris, degolam-se pessoas.

Os nossos filhos, nossas mulheres, nossas m�es podem ser assassinados.

E eu, por acaso, n�o sou m�e tamb�m?

A Rainha!

- Trazemos um decreto da Assembleia. - Onde est� esse decreto?

Nas m�os do Tenente Romeuf, ajudante-de-campo do General.

Monsieur de Romeuf!

Nunca imaginei...!

N�o esperava alcan�ar-vos, Majestade. Foi o azar que o quis.

Estou aqui para vos servir.

J� n�o h� rei em Fran�a.

Que insol�ncia!

N�o quero que isto suje a cama dos meus filhos!

Sua Majestade tem raz�o!

Do seu ponto de vista...

Leva-me!

- Quando ela entrou, tapou o nariz. - Levem-me daqui.

Sim, as velas de Versalhes fedem menos que as nossas!

Mas ele � um encanto!

Quando abra�ou o meu marido, comovi-me at� �s l�grimas.

Sentimo-nos como uma fam�lia que encontrou o pai

depois de o ter dado como morto.

Deixem passar!

Senhora, o seu chap�u! Entre, vou buscar as bagagens!

Uma c�pia de "O Amigo do Povo"!

Ou�am! Ou�am!

"O Amigo do Povo" acaba de chegar de Paris! Ou�am o que diz Marat!

"� uma cruel compet�ncia ter raz�o com seis meses de anteced�ncia!"

- Deixem passar! - N�o previ h� muito a fuga de Lu�s?

- Venha, refresque-se l� em cima. - "Perante a not�cia da fuga do Rei,

"as cidades cerram portas e denunciam os conjurados inimigos da revolu��o!

"Ontem, Lu�s XVI deitou-se, depois de obter junto dos seus financeiros,

"o ouro, ao qual atribui todas as virtudes, as �nicas que ele conhece.

"O pai dos franceses abandonou portanto o seu posto,

"com a esperan�a de nos enviar, em troca da sua r�gia pessoa,

"a uma guerra estrangeira e uma guerra civil que durar�o anos!

"Que parta, este vil monarca, para nunca mais voltar!

"� chegada a hora de fazer rolar as cabe�as de Bailly, de La Fayette,

"de todos os malvados do Estado-Maior e dos traidores da Assembleia!

Necessitais de um tribunal militar ou estareis perdido!"

Para Paris!

"Como � poss�vel que uma fam�lia,

"a cuja conserva��o tristemente index�mos a sa�de do Imp�rio,

"tenha conseguido escapar-nos em pleno centro de Paris?!

"Com quem devemos aliar-nos?

"Com o nosso Estado-Maior e sobretudo..."

- Precisam de mais alguma coisa? - N�o, obrigado.

O Rei queria fugir � Guarda Nacional

e ao povo miser�vel de Paris,

confiando nos generais...

... e no bom povo do campo.

Ao inv�s, uma vez na estrada,

voltou a encontrar a Guarda Nacional e o povo miser�vel do campo.

Quer dizer que a deten��o de Lu�s XVI � a vit�ria do povo miser�vel?

Falo de m�rito, n�o de vit�ria.

H� pouco, na rua, observei os rostos dos camponeses.

N�o eram rostos emocionados,

rostos de filhos felizes que reencontram o pai,

como disse Madame Sauce.

Naqueles rostos, liam-se hist�rias de fome,

de mis�ria, de humilha��es.

E o temor de que ainda n�o seja hoje o dia em se acabam as injusti�as.

Para isso, ainda ter�o de esperar uma pr�xima ocasi�o.

"... chorar� e afogar-se-� no seu sangue!"

"... de Bailly, esta fuga preparada h� muito

"pelos traidores da Assembleia Nacional!

"Preparem-se para reivindicar os vossos direitos

"e defender a vossa liberdade,

para exterminar os nossos implac�veis inimigos!"

Senhores, esqueci-me de vos agradecer.

A viagem foi longa e terminou mal,

mas a vossa companhia far� dela uma recorda��o menos penosa.

Condessa, poderia satisfazer a minha curiosidade?

O que h� nestes pacotes misteriosos

que ajudei ontem � noite a levar para fora do pal�cio?

Ent�o era o senhor?

Agora vejo, desconfiei de si desde o primeiro momento.

� justo ter sentimentos de desconfian�a em rela��o a n�s,

homens de letras, cronistas, jornalistas...

Somos uma ra�a de espi�es.

N�o participamos, n�o intervimos,

e, no entanto, descrevemos, classificamos,

e, �s vezes, confundimos tudo.

Da�, e a Condessa vai desculpar, sermos uma ra�a de gente...

... muito curiosa, n�o �?

Monsieur Jacob...

� o traje que Sua Majestade envergava na inaugura��o do porto de Cherburgo.

Amanh� � Corpus Christi

e Sua Majestade devia us�-lo em Montm�dy,

diante das suas tropas armadas.

Ser Rei deve ser exaustivo.

Quanto mais pesado, mais bonito.

Se o Rei tivesse viajado com estas roupas,

talvez tivessem vacilado na hora de o prender.

Majestade...

A Paris! A Paris!

Viva a Na��o!

O Rei a Paris!

- Viva a Assembleia! - Viva a Na��o!

A Paris!

� o que se ganha em viajar.

E aqui veem, senhoras e senhores,

o Rei que sobe ao pat�bulo acompanhado pelo seu confessor.

Exactamente a 21 de Janeiro de 1793.

J� o pusemos na "M�quina de Ver", no "Mundo Novo".

Venham, venham ver!

� o Lu�s XVI!

E c� est�!

A cabe�a do Rei de Fran�a que cai no cesto,

cortada pela guilhotina!

Venham, senhoras e senhores! Tragam as crian�as tamb�m!

Contemplem com os vossos pr�prios olhos

os grandes acontecimentos da Hist�ria!

N�o empurrem!

Senhoras e senhores,

venham ver a hist�ria do mundo com imagens em movimento!

A realidade torna-se fantasia, e a fantasia realidade!

Nesta caixa m�gica, mostro-vos o "Mundo Novo".

A vossa revolu��o aqui descrita!

E todos os homens da liberdade! Todos os que trabalharam...

Nicolas Edm� Restif de la Bretonne,

no capitulo XVII do 2� volume de "Noites Revolucion�rias",

no ano de 1792, escreveu o seguinte...

A corrida dos factos e das ideias por vezes cansa-me.

Agora, para me consolar, vou passear ao futuro.

E vejo o homem de 1992 a ler a nossa hist�ria.

Esfor�o-me por o ouvir e ou�o!

A severidade do seu ju�zo aterroriza-me profundamente.

Haver� quem nos acuse de falta de humanidade;

enquanto que os extremistas, como sempre, a aprovar�o.

E parece-me ver que daqui a dois s�culos

haver� na Europa um governo novo e �nico.

Mas tamb�m vejo nas p�ginas da hist�ria

os sobressaltos terr�veis que ter�o abalado a Europa.

Parece-me ouvir os leitores a comentar entre si:

"Que sorte temos de n�o ter vivido naqueles terr�veis tempos

em que a vida humana n�o tinha qualquer valor."

O mal, � sabido,

uma vez passado, � uma alegria.

Sobressaltos daqueles serviram para mostrar ao homem o valor da paz.

Como uma doen�a faz perceber o valor da sa�de.

"Que gente t�o sensata", gritar� um velho chato como eu.

"Mas voc�s s�o sempre os mesmos, s�o iguais aos de h� dois s�culos.

"S�o compostos pelas mesmas mol�culas org�nicas

"e se hoje est�o em paz,

"� porque as ditas mol�culas est�o fartas de guerra.

"Mas fiquem atentos...

"Uma vez descansados, sentir-se-�o de novo fortes

"e receio bem...

... que tudo recomece."

Senhor...

Tradu��o e Legendagem SARA DAVID LOPES - RTP - Produ��o

Ripadas por: CtrlAltDel Sincronizadas por: RicardoB/2020

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