All language subtitles for A History Of Britain - Pt8 - The British Wars

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Original subtitles

Inglaterra e Esc�cia,

dois reinos divididos at� este per�odo da Hist�ria.

Em 1603, uniram-se sob uma �nica pessoa,

Jaime VI da Esc�cia e I de Inglaterra.

Ele queria ficar conhecido como o rei da Gr�-Bretanha.

Mas o que era esta nova coisa no mundo, esta Gr�-Bretanha?

Nos primeiros anos do s�culo XVII,

apenas os cart�grafos lhe poderiam dizer.

Um deles, um ex-alfaiate atarefado chamado John Speed,

publicou o seu atlas de 67 mapas chamado

"O Teatro do Imp�rio da Gr�-Bretanha",

cobrindo cada cent�metro da Esc�cia, Gales, Irlanda e Inglaterra.

O que estava por detr�s do atlas de Speed

era uma vis�o optimista de uma Brit�nia feliz e harmoniosa,

unida sob um rei que estava determinado a trazer a unidade

depois de s�culos de guerra e �dio.

E no Vale do Cavalo Vermelho, em Warwickshire,

John Speed teve um vislumbre de como este "c�u na terra" brit�nico

poderia parecer.

"Prados verdejantes com um manto verde t�o adornado de flores,"

"que a partir de Edgehill podemos contemplar outro �den."

Em 23 de Outubro de 1642,

outro homem, o rei Carlos I,

inspeccionou a mesma paisagem a partir do mesmo local.

Os prados estavam agora cheios, n�o com vacas e flores de camp�nula,

mas canh�es, lan�as e mosqueteiros.

Ao cair da noite, havia 3 mil corpos brit�nicos deitados na lama gelada.

Aqui em Edgehill, o �den transformou-se no G�lgota.

Nos longos anos que se seguiram,

as na��es que Jaime e Carlos desejavam unir,

iriam destro�ar-se mutuamente em guerras civis sanguin�rias.

Iriam perder-se centenas de milhares de vidas

em batalhas, cercos, epidemias e fome.

Uma contagem de corpos crua n�o � capaz de medir a enormidade de um desastre

que chegou a praticamente todas as partes da Gr�-Bretanha,

da Cornualha ao condado de Connaught,

de York �s H�bridas.

Destro�ou comunidades de par�quias e condados,

que atrav�s do tumulto da Reforma tinham conseguido chegar a acordo

sobre a forma como o pa�s devia ser governado e quem devia govern�-lo.

Homens que haviam partido o p�o juntos

tentavam agora quebrar a cabe�a uns dos outros.

Homens que haviam julgado juntos, julgavam-se agora uns aos outros.

No fim de tudo,

iria haver uma Gr�-Bretanha unida tal como os Stuarts tinham desejado,

mas n�o seria um reino unido...

seria uma rep�blica unida.

Tradu��o e legendagem: docsPT

UMA HIST�RIA DA GR�-BRETANHA

AS GUERRAS BRIT�NICAS

As guerras civis n�o foram apenas um acidente desafortunado

ou uma ocasi�o para se vestir como cavaleiros e cabe�as redondas.

Na verdade, foram um acontecimento muito pouco brit�nico,

uma guerra de ideias,

ideias que importavam profundamente aos contempor�neos,

pois no seu cerne residia uma discuss�o sobre liberdade e obedi�ncia.

Essa discuss�o tornou-se letal aqui em Edgehill,

e iria ecoar ao longo de gera��es atrav�s da hist�ria brit�nica.

Na realidade, essa discuss�o nunca se dissipou por completo.

Para os sobreviventes, ao olharem para tr�s, o caso era simples.

"Se o rei deve governar como um deus por sua vontade"

"e o povo deve se governado pela for�a como animais,"

"ou se as pessoas devem ser governadas por seu pr�prio consentimento."

Sim, esta � a voz de um republicano no ex�lio, Edmund Ludlow,

mas essa mesma voz, essa mesma mem�ria,

seria ouvida atrav�s dos s�culos

e em revolu��es bem longe das nossas praias,

na Am�rica, em 1776,

na Fran�a, em 1789.

Vai contra a nossa natureza, n�o vai?

Um pouco embara�oso, para n�o dizer doloroso,

sermos vistos como fonte de revolu��es.

N�o � l� muito brit�nico.

Toda aquela gritaria, toda aquela agita��o de b�blias,

toda aquela matan�a.

Ser� que tudo n�o passou de uma aberra��o?

Bem, na verdade, n�o.

Estas guerras foram o cadinho da nossa hist�ria moderna,

pois dos fogos dessas guerras

acabou por emergir uma monarquia genuinamente parlamentar.

Claro que ningu�m entendeu isso na �poca,

ningu�m estava a ler um gui�o que ordenava:

"V�o em frente e sejam democr�ticos".

Ent�o, quando Carlos se tornou rei aos 24 anos de idade,

ningu�m no seu perfeito ju�zo poderia ter imaginado

uma guerra entre o Parlamento e a Coroa.

Nenhuma sucess�o em mais de dois s�culos

havia sido t�o tranquila ou desprovida de amea�a.

Carlos pode ter sido menor que a vida,

com uma express�o triste, dolorosamente formal,

privado ao ponto de ser misterioso, defensor insistente do decoro,

t�o frio, t�o impass�vel e p�lido como m�rmore.

Mas para muitos, isso era um contraste bem-vindo em rela��o ao seu pai, Jaime,

que havia sido ruidoso, pedante e grosseiro.

Mas desde o princ�pio, para aqueles que prestaram aten��o,

havia algo amea�adoramente distante

em rela��o a este pequeno homem num grande cavalo,

demasiado arrogante para se preocupar com um cortejo de coroa��o.

Um homem que acreditava que os reis eram pequenos deuses na Terra.

Carlos via-se como o pai da na��o,

e como qualquer pai do s�culo XVII,

ele pensava ser respons�vel pelo bem-estar da sua fam�lia,

mas em troca, esperava ser obedecido cegamente.

� claro que, tal como Jaime antes dele,

ele ouvia o povo atrav�s dos seus representantes no Parlamento,

mas s� quando ele queria

e apenas sobre mat�rias que ele achava conveniente serem discutidas.

Mas a C�mara dos Comuns estava cheia de historiadores e advogados,

e para eles, o Parlamento n�o era apenas uma mat�ria de conveni�ncia real.

J� ouviu falar da Magna Carta?

Para estes homens, a hist�ria parlamentar,

a hist�ria que eles liam e escreviam,

era um �pico de liberdade cont�nuo

e eles eram os guardi�es da chama.

Foi nessa altura que come�ou a contagem decrescente para as guerras civis,

apesar de ningu�m a ter ouvido.

Foi uma contagem que podia ter sido parada em v�rias oportunidades,

mas o tiquetaque foi-se ouvindo cada vez mais alto,

at� que em 1642 se tornou ensurdecedor.

E o que accionou essa contagem? Dinheiro.

Uma das primeiras coisas que este jovem rei fez, foi declarar guerra � Espanha,

e nada era mais ruinosamente caro do que uma guerra no estrangeiro.

Havia ainda a complica��o adicional de que em Inglaterra,

mesmo os pequenos deuses na Terra

tinham de ir pedir ao Parlamento o dinheiro para lutar.

Para Carlos, o assunto era pessoal.

As guerras religiosas estavam a rasgar a Europa a meio.

Protestantes e cat�licos matavam-se uns aos outros da Su�cia � Hungria

com uma crueldade inacredit�vel.

E obrigaram a sua irm�, a rainha da Bo�mia, ao ex�lio.

E na sua maneira discreta,

Carlos ansiava ardentemente ser um guerreiro crist�o.

Havia tamb�m o caso do seu irm�o mais velho, Henrique.

Campe�o das justas

e celebrado pelos poetas como um her�i protestante,

Henrique devia ter sido rei,

mas morreu quando Carlos era um rapaz novo,

e a sua armadura passou para ele.

Era grande demais.

Toda a sua vida, Carlos tentou us�-la � sua medida,

tentando tornar-se no Carlos Magno vestido a preceito

debaixo do carvalho brit�nico.

E esta guerra contra a Espanha seria a sua grande oportunidade.

Certamente que o Parlamento n�o lhe iria recusar o dinheiro

para a grande cruzada protestante.

"Oh sim", foi a resposta, "mas...", e este era um grande "mas",

"com todo o devido respeito,"

"n�o nos apraz a sua escolha para comandante, o duque de Buckingham."

"Por isso, enquanto estivermos a desembolsar subs�dios,"

"achamos que devemos assinar um contrato de curta dura��o,"

"renov�vel, sem d�vida, mas s� se as coisas correrem bem."

Mas o Parlamento sabia perfeitamente bem que n�o iam.

Desde o come�o que o Parlamento tinha Buckingham debaixo de olho.

Para eles, ele era um ningu�m "novo-rico",

um pav�o com um rosto bonito

que havia sido promovido escandalosamente

acima dos grandes condes do pa�s.

Era o favorito de Jaime,

bem, na verdade, era mais do que um favorito,

a acreditar no esc�ndalo que corria na corte,

e agora colocava-se em posi��o de obter tamb�m os favores de Carlos.

Os dois viajaram juntos inc�gnitos para Espanha

com o objectivo de conquistar a Infanta espanhola para Carlos.

Regressaram da sua aventura de m�os vazias.

Mas para o jovem e inseguro Carlos,

o fascinante e cosmopolita Buckingham tinha-se tornado o seu �dolo.

Todavia, para o resto da corte,

Buckingham era um parasita, uma peste, uma v�bora.

Por que diabo � que ele lhe haveria de passar um cheque em branco?

Era �bvio o que aconteceria ao dinheiro, e aconteceu mesmo.

Buckingham estourou umas impressionantes 240 mil libras

num ataque � Fran�a que correu de tal forma mal

que mais parecia o acto de um sabotador e n�o de um mestre.

Ent�o, se Carlos queria um centavo a mais que fosse,

o seu amiguinho tinha de sair de cena.

Ousara aconselhar o rei sobre a escolha de generais e ministros de confian�a?

Ousara dizer ao rei? Ousara estabelecer a lei?

Ora, isto por si s� era um sinal de aspira��o � realeza.

Ent�o, em 1626,

Carlos fez o que ele achava que reis dignos desse nome

tinham o direito de fazer.

Dissolveria o Parlamento e recolheria ele mesmo o dinheiro

atrav�s de um empr�stimo compuls�rio.

Era a forma de intimida��o mais educada.

Charles era sempre educado.

Os dados estavam lan�ados.

Quem se recusasse a emprestar dinheiro era amea�ado, processado.

Dois deles, Sir Francis Barrington e Sir Edmund Hampden, morreram,

na pris�o ou pouco tempo depois.

Muitos pagaram, mas a sua submiss�o falava mais de medo do que de lealdade.

Sempre houve resmung�es profissionais quando se tratava de impostos,

mas estes aristocratas rurais falavam uma linguagem nova e perigosa.

"Nenhum imposto poder� ser legal sem o consentimento do Parlamento",

diziam eles.

O dinheiro acabou novamente em 1628

e Carlos viu-se obrigado a convocar outro parlamento.

Orador atr�s orador subiram � tribuna em defesa das liberdades da Inglaterra.

Elaboraram uma lista formal das suas reclama��es

numa Peti��o de Direitos,

� qual Carlos cedeu graciosamente

como o pre�o a pagar pela salva��o do seu amado Buckingham.

A pequena possibilidade que havia de Carlos honr�-la,

e pode dizer-se que era realmente pequena,

caiu por terra, quando mais tarde, em 1628,

Buckingham foi assassinado para g�udio nacional.

Estarrecido de tristeza e endurecido pela raiva,

Carlos fechou o Parlamento.

Quando as portas estavam a ser fechadas,

um dos membros do Parlamento, Sir John Eliot,

levantou-se e gritou dizendo que todo aquele que impusesse um imposto

sem o consentimento do Parlamento,

seria um inimigo capital para o reino e para o povo.

Carlos discordava, Eliot era o traidor,

e como tal, foi parar � Torre de Londres,

onde morreu em 1632.

Mas felizmente para Carlos, a guerra de palavras j� tinha parado.

No lugar delas, irradiava a luz solar vinda dos c�us.

De forma igualmente feliz, a guerra com a Espanha chegara ao fim.

Acabara-se os pedidos de dinheiro e as contrariedades.

Ent�o, em 1630, segundo o ponto de vista de Carlos,

a paz tinha-se instalado na Gr�-Bretanha.

O seu pai, Jaime, sempre tinha pregado a paz

e Jaime estava bem presente na mente de Carlos.

Carlos decidiu que a mem�ria do seu pai merecia algo de especial,

e com a cortesia do pintor cat�lico flamengo, Peter Paul Rubens,

viria a obt�-lo.

N�o uma, mas tr�s enormes pinturas em sua honra.

Um manifesto do tudo ou nada para a dinastia Stuart.

Seriam colocadas no alto do tecto do edif�cio que ele havia herdado de Jaime,

a obra-prima de Inigo Jones,

o Pal�cio dos Banquetes em Whitehall.

Em 1636,

foram triunfalmente colocados no tecto para toda a gente ver.

Existem aqui tr�s vis�es aqui da governa��o benevolente de Jaime.

Num painel, Jaime � apresentado como o portador da paz e da prosperidade.

No painel central,

Rubens d�-nos Jaime a ser levado para o C�u como um deus.

No terceiro, ele � Salom�o, a receber de oferta as duas coroas

da Inglaterra e da Esc�cia.

O Pal�cio dos Banquetes em Whitehall deixa-nos simplesmente sem f�lego

pelo total descaramento com que ignora o Canal da Mancha.

� um peda�o de It�lia transplantado para a Gr�-Bretanha.

Colunas cl�ssicas, janelas altas,

a mais moderna caixa de luz arquitect�nica,

projectada para inundar a monarquia Stuart com brilhantismo.

Intencionava tamb�m cravar quaisquer infi�is ao ch�o

atrav�s do peso enorme das suas alegorias musculadas,

cantando as virtudes do rei divino.

Por isso, quando entramos aqui e nos recordamos

que os Stuarts descreviam os reis como "pequenos deuses na Terra",

chegamos � conclus�o que eles n�o estavam a brincar.

O Pal�cio dos Banquetes era a terra dos sonhos absolutista de Carlos.

Foi aqui que Carlos p�de colocar em cena a maior das suas fantasias,

com os seus tr�s reinos, Inglaterra, Esc�cia e Irlanda,

finalmente unidos em harmonia

sob um governante que era firme, mas justo.

Que melhor meio de dar a esta nova corte brit�nica

uma maquilhagem europeia,

do que torn�-la num exemplo de sumptuosidade barroca?

Haveria uma nova e impressionante colec��o de arte real

vinda de toda a Europa,

com uma qualidade de deixar papas e imperadores a gemer de inveja,

Mantegnas, Tizianos, Rembrandts.

A pouco impressionante rainha francesa de Carlos, Henriqueta Maria,

com a sua pele p�lida e dentes manchados,

foi lan�ada para o estrelato pelo retratista mais brilhante de todos:

Anthony van Dyck.

E al�m do pal�cio,

o rei estava satisfeito em ver a sua vontade a ser cumprida

e pessoas que ele desaprovava a serem for�adas a desistir.

"Eu n�o gosto disto."

Nos condados, os seus impostos estavam a ser colectados,

a sua justi�a estava a ser executada

e os c�us n�o haviam desabado.

Quem sentia falta dos faladores do Parlamento?

Certamente ningu�m.

Mais cedo ou mais tarde, Carlos teria de voltar a descer � Terra,

e quando o fez, notou que o seu reino terrestre

era governado n�o por imagens, mas por palavras.

E ao contr�rio do convidativo reino suave de fantasia de Rubens,

as palavras eram coisas tang�veis, coisas claras.

E nas m�os de poetas, advogados, padres, tip�grafos,

elas tinham uma l�mina afiada

que iria cortar atrav�s de toda esta pieguice Stuart sobre a uni�o brit�nica

e deitar por terra o recreio dos deuses.

Os opositores n�o se tinham ido embora,

nem t�o pouco se tinham calado.

Os homens que declararam que os impostos sem o consentimento do Parlamento

eram ilegais em 1625,

ainda pensava o mesmo em 1635.

Sim, tinham-se dividido relutantemente,

mas isso n�o os impediu de manterem a sua raiva em lume brando.

T�pico era o caso de um propriet�rio de terras de Buckinghamshire

chamado John Hampden.

John Hampden n�o era um cabe�a-quente abrasivo e abnegado qualquer.

Era um membro muito respeitado e importante na comunidade do condado.

Hampden tinha ficado profundamente comovido

pelo tormento de Sir John Eliot na pris�o.

Visitava-o e tomava conta dos seus filhos adolescentes.

Iria herdar o manto de um rebelde contra os impostos,

desta vez contra o dinheiro dos navios,

o imposto pago para sustentar a Marinha.

Porque deveriam condados sem linha costeira pagar isto?

Era injusto.

Podiam ser apenas uns poucos xelins

e no final, Hampden perdeu o caso,

mas venceu o debate.

As brasas estavam novamente quentes.

E juntamente com os advogados no Parlamento,

Carlos enfrentava agora outro grupo de cr�ticos intransigentes

que tinham algo ainda mais incontest�vel do que a Magna Carta,

as Escrituras Sagradas,

e eles, � claro, eram os puritanos.

Para o mais ardente tipo de protestantes, os puritanos,

a obsess�o Stuart com a harmonia e a unidade

era, na melhor das hip�teses, uma palermice sem sentido,

e na pior, um golpe para iludir os ing�nuos

a ajoelharem-se novamente perante Roma.

Para eles, a realidade era o conflito,

a irreconcili�vel divis�o entre os salvos e os condenados.

Havia uma batalha intermin�vel entre os santos e as legi�es do Dem�nio.

As fogueiras j� tinham sido acesas na Europa,

pois a Reforma era uma guerra

e essa guerra ainda n�o havia sido vencida.

Os puritanos olhavam em seu redor,

mas tudo o que conseguiam ver deste rei

era uma trai��o da divina Reforma.

Paz com a Espanha cat�lica no estrangeiro,

e em casa, era ainda pior,

uma Igreja governada por bispos que eram pouco melhores que os papistas,

bispos que repreendiam os puritanos por terem levado a Reforma longe demais.

Em face desta batalha c�smica,

permanecer im�vel, manter-se em sil�ncio,

era um pecado e um crime.

Para os puritanos, Carlos I devia ter sido um rei � medida,

austero, decoroso e casto.

Mas o facto � que a sua religi�o parecia ainda precisar dos rituais protestantes,

com todos os seus s�mbolos e mist�rios.

Mas at� isto teria sido aceit�vel

se ele n�o quisesse impingi-lo a toda a gente,

for�ando todos a ajoelharem-se no seu santu�rio.

Os puritanos declararam guerra a todos os sinais de romanismo na Igreja,

pinturas e est�tuas, crucifixos e balaustradas de altar.

Mas apesar disto, ningu�m se apercebeu que Carlos era casado com uma cat�lica.

Estes homens eram uma minoria.

Mas claro que sendo os eleitos, esperavam estar numa minoria:

o partido da reden��o.

De facto, eles glorificavam o n�mero reduzido dos seus membros,

o grupo auto-purificante do ex�rcito de Gede�o.

Homens como o torneador de madeira londrino, Nehemiah Wallington,

estariam na linha da frente desta batalha,

um soldado de assalto da Reforma,

pronto para lutar a qualquer hora do dia.

"Podeis ver agora como o Anticristo conspira contra a pobre Igreja de Deus."

"Mas enquanto depositarmos a nossa confian�a no Senhor,"

"permiti-nos uma vez mais referir"

"a protec��o que ele d� �queles papistas demon�acos e sugadores de sangue."

� claro que Carlos n�o iria perder o sono

por causa dos Nehemiah Wallingtons deste mundo.

Mas o puritanismo n�o era apenas a f� de mercadores e artes�es.

Havia muitos entre os gentis, mas tamb�m entre a nobreza,

que acreditavam de forma igualmente apaixonada na palavra das Escrituras,

e para todos eles, era um artigo de f� que ningu�m,

nem papa nem rei,

tinha permiss�o de desprezar a palavra de Deus.

E Charles jamais teria a permiss�o de esquecer isso.

Sim, finalmente, eles eram uma minoria.

Mas foi um dos erros mais caros de Carlos

ter deixado que tantos no centro protestante do pa�s

o considerassem como um perigo maior � sua Igreja

do que os militantes puritanos.

E por este erro fatal,

Carlos tinha um homem a quem agradecer, William Laud,

que ele nomeara arcebispo da Cantu�ria, em 1633.

Pobre Laud.

Haver� algo de bom a dizer sobre Laud e os princ�pios que defendia?

Ficou conhecido como um dos homens mais arrogantes

e destrutivos da nossa hist�ria.

Mas coloque-se no lugar dele e ver� que as coisas parecer�o um pouco diferentes.

Longe de ser um elitista,

Laud pensava que os puritanos � que eram os autorit�rios.

Devereis castig�-los e destru�-los completamente.

N�o devereis fazer pactos nem demonstrar nenhuma piedade por eles.

Eram os puritanos, com a sua obsess�o pela leitura e prega��o,

o seu fatalismo sombrio, os seus infind�veis gritos de batalha,

que privavam as pessoas comuns daquilo que precisavam da Igreja:

cor, espect�culo,

a vis�o do seu salvador na forma da sua cruz sobre o altar,

os confortos dos rituais, sacramentos e cerim�nias,

uma cerca para proteger a bandeja da comunh�o contra os c�es

e, acima de tudo,

a possibilidade consoladora de que as almas pecadoras

pudessem, no final, ser recebidas por Cristo.

O que � que havia de t�o errado com isso?

Bem, o que estava errado era que Laud

n�o apresentava o seu programa como uma op��o,

apresentava-o como uma ordem.

"Acredita nisto, adora desta maneira, reza assim ou sofre as consequ�ncias."

Quem o desafiasse seria levado perante o seu tribunal especial.

Dissidentes como Prynne, Burton e Bastwick

tornaram-se nas v�timas mais importantes de Laud.

Viram as suas orelhas serem-lhes cortadas.

O punho de ferro de Laud permaneceu sem oposi��o, mas n�o por muito tempo.

Em meados da d�cada de 1630,

Carlos n�o via obst�culos

em consumar o grande plano Stuart

o de harmonia nos tr�s reinos,

quer eles quisessem ou n�o.

A Inglaterra estava sob controlo,

e gra�as �s t�cticas brutais do seu lorde tenente na Irlanda,

o outro bra�o-direito forte de Carlos, Thomas Wentworth,

tamb�m o estava a Irlanda.

Restava apenas a Esc�cia,

em particular, a sua obstinada e teimosa Igreja Presbiterana.

Tinha um irritante e, para Carlos,

completamente inaceit�vel desprezo pela autoridade dos bispos.

Charles estava determinado a p�r cobro a isto.

Ent�o, todo o reino poderia rezar e adorar como um s�.

Mas a obsess�o com a uni�o que tanto consumia Jaime como Carlos,

iria acabar por garantir nada mais do que �dio e divis�o.

Carlos, nascido em Dunfermline, era um escoc�s.

Ent�o, certamente que n�o podia haver problemas com isto.

Bem, sim, podia.

Carlos levara oito anos

para sequer se dar ao trabalho de viajar para Edimburgo

para a sua coroa��o escocesa.

Tornara-se no primeiro rei escoc�s ausente

e haveria um pre�o a pagar.

Carlos era completamente incapaz de apreciar

o apelo do calvinismo para uma grande purifica��o moral.

No que lhe dizia respeito, a Esc�cia e a Inglaterra n�o eram assim t�o distintas.

Se um reino se tinha dobrado � sua vontade real

perante uma demonstra��o de firmeza bem-intencionada,

ent�o o outro tamb�m o faria.

Mas � claro que a Reforma Escocesa n�o tinha nada que ver com a da Inglaterra.

A sul da fronteira,

aconteceram mudan�as na Igreja a um passo vagaroso e intermitente.

Na Esc�cia, o calvinismo efectuara grandes ac��es de convers�o carism�tica,

apoiado por padres, professores e ministros,

e apenas for�ado a um recuo relutante e peri�dico exigido por Jaime I,

que, ao contr�rio do seu filho, soubera quando parar.

Ent�o, quando Carlos anunciou a introdu��o na Esc�cia

do novo livro de ora��es,

iria descobrir o qu�o pouco sabia acerca do reino em que nascera.

O Conselho Real havia muito gentilmente anunciado

que o livro de ora��es tinha de ser introduzido,

o mais tardar, na P�scoa de 1637.

Ent�o, houve um atraso na impress�o.

Isto deu tempo de sobra para que os padres e lordes calvinistas

organizassem exactamente o que iam fazer.

O arcebispo Laud, o rei, o Conselho, os bispos,

todos ca�ram na armadilha.

Quem imaginaria que uma pequena coisa como esta

pudesse iniciar uma revolu��o?

As guerras brit�nicas come�aram aqui,

na catedral de Santo Eg�dio, em Edimburgo,

na manh� de 23 de Julho de 1637,

e os primeiros m�sseis que foram lan�ados n�o eram balas de canh�o,

eram genuflex�rios.

Foram lan�ados directamente na nave,

e os seus alvos eram o de�o e o bispo da catedral.

Os bispos tinham come�ado a ler do novo livro de ora��es autorizado pelo rei,

e foi esta tentativa de leitura da liturgia

que despertou um surto ensurdecedor de gritos e lamentos,

especialmente das muitas mulheres que estavam reunidas na igreja.

No entanto, os tumultos do livro de ora��es, foram apenas o rastilho.

O que aqueles que o acenderam queriam era fazer explodir os bispos

e toda a estrutura real da Igreja na Esc�cia.

A 28 de Fevereiro de 1638,

foi assinado um pacto nacional numa cerim�nia de quatro horas

juntamente com serm�es e salmos

exortando os devotos a serem o novo Israel.

No dia seguinte, o pacto foi trazido para aqui,

o p�tio aberto da igreja em Greyfriars,

onde hordas de escoceses comuns adicionaram a sua assinatura.

Foram feitas c�pias e distribu�das por toda a Esc�cia.

Para incont�veis milhares de escoceses, a assinatura do pacto

era apenas uma extens�o dos votos que haviam feito em Kirk

ligando-os a Deus.

Mas muito rapidamente, o documento assumiu o estatuto

de uma esp�cie de escritura patri�tica,

determinando quem era e quem n�o era um verdadeiro crist�o,

e quem era e quem n�o era um verdadeiro escoc�s.

Para Carlos, n�o havia lugar a negocia��es.

Eles eram todos rebeldes e tinham de ser todos punidos.

Havia apenas um problema:

n�o era Carlos quem tinha um ex�rcito formid�vel, mas os Escoceses,

veteranos das guerras religiosas na Europa.

Encarando o seu primeiro teste realmente crucial,

Carlos, o Carlos Magno brit�nico,

descobriu que n�o podia angariar dinheiro nem recrutar homens.

Foi necess�ria uma escaramu�a violenta

para Carlos ver a insensatez de mais combates.

Uma tr�gua foi rapidamente assinada.

Mas ele n�o recuaria.

Ent�o, Carlos estava suficientemente desesperado por homens e dinheiro

para fazer o que ele esperava nunca ter de fazer novamente:

convocar um parlamento.

Depois de 11 anos a acumular p�,

a Casa dos Comuns ia novamente encher-se de argumentos apaixonados e f�ria legal.

Se Carlos pensava que 11 anos

significava que as velhas contendas tinham sido esquecidas,

estava a ignorar uma for�a nova para a pol�tica brit�nica:

o jornalismo.

Os grandes dramas pol�ticos dos 20 anos anteriores,

haviam sido avidamente consumidos por um p�blico leitor viciado em jornais,

panfletos, xilogravuras,

e as ent�o chamadas "pe�as de 6 pence",

que registavam todos os debates e controv�rsias

e eram enviados para todos os condados.

O Parlamento de 1640

retomou o assunto exactamente onde o havia deixado em 1629,

quando Carlos o fechou.

Deve ter sido uma surpresa desagrad�vel

quando este novo parlamento,

ao inv�s de deixar de lado as m�goas passadas,

ressuscitou-as imediatamente.

Este parlamento durou apenas tr�s curtas semanas

antes de Carlos o suspender novamente.

Mas a sua lista de op��es estava a ficar mais curta a cada dia,

op��es essas que eram todas ruins.

Ele n�o ia dobrar-se aos Escoceses e n�o ia reabrir o Parlamento.

Mas havia uma terceira op��o,

cortesia do seu lorde representante na Irlanda, Thomas Wentworth.

Porque n�o utilizar um ex�rcito irland�s cat�lico

para esmagar os escoceses presbiteranos?

Agradecido pelo seu conselho,

Carlos nomeou Wentworth conde de Strafford, mas hesitou.

Carlos sabia que a Inglaterra protestante dificilmente aprovaria

um ex�rcito cat�lico a atacar os seus irm�os escoceses.

O que se seguiu, em 1640,

foi uma perda de respeito de uma magnitude assustadora.

Oficiais eram atacados pelos seus pr�prios homens.

Os �ltimos combates com os Escoceses foram um desastre.

Newcastle, com o seu inestim�vel carv�o, foi capturada.

Para retom�-la e expulsar os Escoceses da Inglaterra,

Carlos precisava de dinheiro rapidamente.

N�o teve outra escolha sen�o reabrir o Parlamento.

N�o voltaria a haver uma melhor oportunidade

para John Pym e os seus companheiros e l�deres parlamentares

para controlar o rei.

Pym tinha descoberto, entendendo ou n�o a palavra,

o elixir da revolu��o.

O verdade de ontem, a obedi�ncia o rei,

� a piada de mau gosto de amanh�.

O impens�vel de ontem, a aboli��o de todos os bispos,

parece ser a necessidade de amanh�.

Por toda a cidade de Londres, havia enormes multid�es em alvoro�o,

praticamente sitiando Westminster.

As exig�ncias de John Pym eram simples, mas contundentes:

cobran�a de impostos apenas com o consentimento do Parlamento;

elei��o de parlamentares a cada tr�s anos,

e a mais decisiva de todas,

encarando directamente os olhos de Carlos,

nenhum parlamento, especialmente este,

podia ser dissolvido sem o seu pr�prio consentimento.

Quando Carlos com dentes cerrados, cedeu,

foi a destrui��o da monarquia absoluta.

Ou ser� que n�o?

O rei ainda tinha uma carta que podia jogar,

aquele ex�rcito cat�lico que Wentworth, o conde de Strafford,

tinha reunido na Irlanda.

Pym sabia que precisava de aniquilar Strafford

se pretendia defender o Parlamento desta amea�a.

Ent�o, na Primavera de 1641,

Strafford foi deposto,

doente e de cabelos grisalhos,

provou ser frustrantemente imposs�vel ser condenado por trai��o,

por isso, Pym recorreu a um decreto de suspens�o de direitos civis.

Isto exigia apenas uma sombra de suspeita.

"Quando Strafford falou de um ex�rcito irland�s empenhado em reduzir o reino,"

"n�o se referiu a Inglaterra?", argumentou Pym.

Mas havia um problema:

o decreto necessitava da assinatura do rei.

Pobre Carlos.

As mem�rias de Buckingham devem ter inundado a sua mente.

Para um rei obcecado por lealdade,

como poderia ele abandonar Strafford, o seu mais fiel aliado?

Foi o pr�prio Strafford que poupou Carlos � agonia da indecis�o.

Ele sabia que s� a sua morte poderia salvar o rei e o pa�s

de mais revoltas.

Numa carta final escrita a Carlos,

Strafford implorou ao rei para fazer o que tinha que ser feito.

"Possa isto agradar a sua sagrada majestade,"

"eu entendo que as mentes dos homens est�o cada vez mais acesas contra mim,"

"e para deixar a consci�ncia de Vossa Majestade em liberdade,"

"preciso de suplicar muito humildemente a Vossa Majestade,"

"para prevenir os males que podem vir a acontecer"

"caso se recuse a assinar o decreto."

Chorando, Carlos assinou o mandado.

Strafford foi levado para a Torre Verde rodeado por uma multid�o zombeteira

e decapitado.

Carlos nunca se perdoou por este acto de trai��o.

Mas nunca ocorrera a Strafford que a sua morte

poderia tornar as coisas piores para Carlos, em vez de as melhorar.

E o que aconteceu a seguir foi o pior que poderia acontecer:

a Irlanda revoltou-se.

Com Strafford executado,

os cat�licos irlandeses sentiram-se desprotegidos

contra repres�lias protestantes.

Num ataque preventivo, atacaram primeiro.

Mais tarde, em 1641,

as not�cias das matan�as dos Irlandeses come�aram a circular pela Inglaterra,

graficamente ilustradas por uma campanha de desenhos das atrocidades.

Aconteceram coisas m�s,

mas as imagens fantasiosas do costume com beb�s empalados

activaram a paran�ia anglo-protestante.

Ainda pior, corriam rumores que os rebeldes cat�licos

afirmavam estar a agir em nome do rei.

A imprensa puritana saiu �s ruas gritando: "Os pr�ximos seremos n�s".

Carlos estava dolorosamente ciente do qu�o custoso

se tornara o seu sonho de uma Gr�-Bretanha unida.

Primeiro, os escoceses presbiteranos derrubaram o seu governo sem parlamento,

e o p�nico em massa despertado pelos irlandeses cat�licos

amea�ava acabar com todo o seu poder.

Com os acontecimentos a ficarem fora de controlo,

Pym viu isto como a oportunidade de despojar o rei

de praticamente toda a sua autoridade.

A resposta de Carlos foi tentar prend�-lo.

Mas Pym e quatro outros l�deres parlamentares

tinham sido avisados de que o rei estava a marchar sobre o Parlamento

com uma guarda armada.

Esperaram at� ao �ltimo momento e escaparam pela porta dos fundos.

Carlos ficou de m�os vazias.

Foi um fiasco absoluto.

A jogada s� teria valido a pena

se Carlos estivesse certo de que teria sucesso total.

Agora exposto, tal como Pym queria,

estava um fracasso nu e abjecto.

Carlos mostrou ser algo pior do que um d�spota:

um d�spota imprudente.

Ambos os lados afastavam-se rapidamente

de qualquer possibilidade de reconcilia��o.

Pym deixou claro que o Parlamento precisava de se proteger a si pr�prio,

e � Inglaterra, contra o rei.

Ent�o, come�ou a juntar um ex�rcito.

Em Julho de 1642,

Bulstrode Whitelocke pensou em voz alta

sobre o abismo com que o pa�s se deparava.

"� estranho notar o qu�o insensivelmente desliz�mos"

"para este in�cio de guerra civil"

"atrav�s de um acidente inesperado ap�s o outro,"

"como se ondas do mar nos tivessem trazido at� aqui sem sabermos bem como."

"Que consequ�ncias daqui advir�o nenhum homem vivo pode dizer."

"Provavelmente poucos de n�s viver�o para ver o fim da contenda."

O que � realmente espantoso e comovente sobre a Primavera e Ver�o de 1642,

� a abund�ncia de evid�ncias que temos sobre as agonias da lealdade,

a verdadeira busca pela alma pela qual as pessoas passaram

enquanto reflectiam sobre a mais dif�cil e dolorosa decis�o das suas vidas:

que partido tomar e o qu�o s�ria e honestamente

tentaram justificar essa decis�o �s suas fam�lias,

aos seus amigos e, n�o menos importante, a si pr�prias.

Mas mais cruel que tudo isso

foi o facto de ter cortado rela��es entre pais e filhos.

A triste hist�ria de uma fam�lia de Buckinghamshire, diz tudo.

Os Verneys tinham sido o modelo de uma fam�lia am�vel e soci�vel da nobreza,

mas foram duramente afectados por esta crise.

Ralph sentara-se junto a seu pai durante os grandes parlamentos de 1640,

mas agora, n�o s� expressava o seu apoio pela causa parlamentar

como fez o juramento exigido a todos os membros

ap�s a aprova��o da lei "Militia Ordinance".

Os juramentos eram coisas muito s�rias no s�culo XVII,

e este separou Ralph n�o s� do seu pai,

mas tamb�m do seu irm�o mais novo e mon�rquico impetuoso, Edmund,

que n�o conseguiu perceber o porqu� de Ralph

ter optado por honrar o pai em vez do rei.

No entanto, os Verneys continuaram a ser uma fam�lia.

Ralph fez o seu juramento ao Parlamento,

mas o seu pai n�o se sentia na obriga��o de obedecer a Carlos.

Foi um la�o de lealdade pessoal que se manteve,

apesar de Edmund mostrar pouco entusiasmo pelo que o rei havia feito.

"N�o gosto desta disputa"

"e desejo de todo o cora��o que o rei recue e ceda aos desejos deles,"

"para que a minha consci�ncia esteja somente preocupada

"em honrar e mostrar gratid�o por servir o meu senhor."

"Tenho comido do seu p�o e sirvo-o h� quase 30 anos"

"e n�o farei uma coisa t�o vil quanto desert�-lo."

Na terceira semana de Agosto de 1642,

Carlos levantou o seu estandarte.

J� n�o era poss�vel voltar atr�s.

A honra de segurar o estandarte pessoal de Carlos em batalha

coube a Sir Edmund Verney,

que jurou que s� a morte o tiraria das suas m�os.

Na altura em que o ex�rcito real chegou a Edgehill,

as suas esperan�as haviam sido transformadas.

Tinha ent�o aproximadamente 20 mil homens,

14 mil dos quais tomaram posi��es nas colinas

ao in�cio da tarde de 22 de Outubro.

No topo da colina estavam o rei e os seus dois filhos,

Carlos, o pr�ncipe de Gales, e Jaime, de 9 anos, duque de York,

juntamente com o pr�ncipe Rupert e o seu poodle, Boy.

Foi aqui que Carlos I fincou a sua bandeira.

A meio da tarde,

o comandante do ex�rcito parlamentar, o conde de Essex,

come�ou a bombardear a infantaria real.

As balas de canh�o estouravam e assobiavam na relva,

tirando uma vida aqui, um membro ali.

Ent�o, o pr�ncipe Rupert avan�ou com a sua cavalaria colina abaixo.

Para os homens nas linhas parlamentares,

ver um trotar distante a tornar-se em meio-galope e a seguir numa carga,

e ao ver que os seus pr�prios mosquetes n�o faziam efeito

nos subitamente aterrorizantes cavaleiros em grande cavalgada,

o momento da verdade havia chegado.

A guerra abateu-se sobre eles.

Grandes cavalos negros, a�o brilhante e mortal.

Entraram em p�nico e quebraram fileiras,

e os cavaleiros de Rupert perseguiram os soldados em fuga

at� � caravana de abastecimento.

Rupert ter� pensado que isto ia ser f�cil.

Mas ent�o, a infantaria parlamentar come�ou a avan�ar lentamente,

duas grandes falanges de lanceiros

que se empurravam e acotovelavam uns aos outros

entre tiros de mosquetes at� ca�rem de exaust�o.

Algures entre o fumo, o fogo e o a�o,

estava Sir Edmund Verney.

O estandarte real firme nas sua m�o tornou-o um alvo �bvio.

Nem sequer chegaram a encontrar o seu corpo.

# Ali jaz um cavaleiro morto debaixo do seu escudo...

Nos meses seguintes,

a guerra dividiu-se em conflitos locais amargos e demolidores.

O Parlamento manteve-se em Londres,

o rei tentou obter apoios no Norte e Sudoeste.

A campanha no Sudoeste foi especialmente violenta.

Cidades como Exeter e Tauton mudaram de m�os.

Fam�lias locais ficaram divididas entre irm�os e primos.

Antigos amigos tornaram-se novos inimigos.

Dois destes oponentes,

homens que em quaisquer outros aspectos eram praticamente indistintos,

eram William Waller, um general parlamentar,

e Ralph Hopton, um mon�rquico.

Numa pausa nos combates,

Hopton escreveu a Waller solicitando um encontro.

Waller sentiu que tinha de recusar,

mas escreveu de volta expressando a profunda tristeza

que sentia por causa da amizade rompida deles.

� o lamento cl�ssico desta terr�vel guerra civil.

"Para o meu nobre amigo, Sir Ralph."

"Senhor, o meu afecto por v�s � t�o imut�vel"

"que a pr�pria hostilidade n�o pode violar a minha amizade por vossa pessoa."

"Mas devo ser verdadeiro � causa que sirvo."

"O grande Deus que conhece o meu cora��o"

"sabe o qu�o tristemente eu cumpro este servi�o,"

"e como detesto com grande �dio esta guerra sem inimigo."

"Mas considero isto uma obra de Deus,"

"que � suficiente para silenciar toda a paix�o em mim."

"Estamos ambos no palco e devemos representar as partes"

"que nos s�o designadas nesta trag�dia."

"Deixai-nos faz�-lo de maneira honrosa"

"e sem animosidades pessoais, qualquer quer seja o assunto."

"Jamais abrirei m�o do t�tulo precioso que ostento"

"de seu mais querido amigo e fiel servidor, William Waller."

A gadanha da mortalidade, sempre ocupada, nunca exigente,

colhia todos os tipos e condi��es de homens:

oficiais e soldados rasos,

mosqueteiros e cavaleiros,

prostitutas e trabalhadores de campo,

jovens aprendizes que usavam um capacete pela primeira vez,

e mercen�rios velhos e experientes

que se tornaram enferrujados juntamente com as suas coura�as,

soldados que n�o tinham ideia de onde conseguir um par de botas

ou qualquer coisa para encher as suas barrigas,

e camponeses que n�o tinham absolutamente nada mais para lhes dar,

garotos dos tambores e trombeteiros,

capit�es e cozinheiros.

Por volta do Outono de 1643,

o Parlamento estava absolutamente desmoralizado.

Bristol ca�ra nas m�os dos monarcas,

o rei havia estabelecido uma corte e um governo militar em Oxford.

Muitos parlamentares, cansados da pobreza e matan�a,

come�aram a falar sobre a paz.

Bulstrode Whitelocke escreveu:

"As mulheres est�o fartas de perder os seus filhos,"

"a sua castidade e os seus pais."

"J� n�o ser� tempo de estarmos fartos destas disc�rdias"

"e utilizar todos os nossos esfor�os para lhes colocar um fim?"

Isto n�o era o que John Pym queria ouvir.

Mesmo enquanto definhava, torturado por um cancro nos intestinos,

para esmagar um movimento de paz,

ele conseguiu dar um �ltimo golpe que iria transformar a guerra.

A 25 de Setembro de 1643,

foi forjada uma alian�a entre o Parlamento e os Escoceses:

a Alian�a e Liga Solene.

Em 1637, a Esc�cia iniciara a resist�ncia contra Carlos I.

Sete anos mais tarde,

a Alian�a quase acabou com ele.

Em Marston Moor, nos arredores de York,

numa tarde chuvosa de Julho de 1644,

a for�a inteira da alian�a anglo-escocesa

atacou o ex�rcito mon�rquico.

Foi a batalha mais sangrenta da guerra,

onde a nata do ex�rcito de Carlos foi aniquilada.

Entre os vitoriosos, estava o representante de Cambridge no Parlamento,

um oficial da cavalaria com alma de ferro.

O seu nome era Oliver Cromwell,

e estava, assim pensava, a fazer o trabalho do Senhor.

Cromwell era um cavalheiro da �nglia Oriental,

mas sabia que as gentilezas n�o tinham uso nesta guerra,

apenas guerreiros competentes.

Depois da batalha de Edgehill, disse a John Hampden:

"Prefiro ter um capit�o com simples cota de malha"

"que sabe porque luta e ama o que sabe,"

"do que aquilo a que chama de cavalheiro mas que n�o passa disso."

No Inverno de 1644-45,

Cromwell e um general de Yorkshire, Sir Thomas Fairfax,

decidiram criar um novo tipo de ex�rcito,

preparado para aceitar disciplina

em troca de suprimentos decentes de comida, botas e abrigo.

E seria um ex�rcito que sabia porque estava a lutar.

"Eu luto pela preserva��o do nosso Parlamento,"

"que tem por miss�o, com a gra�a de Deus,"

"preservar a gl�ria e bem-estar deste reino."

Em Naseby, em Junho de 1645,

as duas asas do novo modelo de ex�rcito

cercaram uma for�a mon�rquica com metade do seu tamanho.

No final do combate, nada sobrou do ex�rcito real

excepto os mortos deixados espalhados pelos campos.

As �ltimas fortalezas mon�rquicas foram tomadas uma a uma:

Bristol, Carlisle.

Em Basing, Hampshire, um dos mais cru�is cercos numa guerra cheia deles,

chegou a uma conclus�o sangrenta e aparentemente intermin�vel.

A guerra havia acabado e o Parlamento sa�ra vencedor.

Deus tinha falado finalmente.

Certamente que at� mesmo Carlos via isso.

Certamente que isto seria o fim do derramamento de sangue

e que o pa�s poderia retornar � razoabilidade.

E havia muitos no Parlamento que sofriam justamente por isto:

um acordo que iria permitir a Carlos manter o seu trono,

um tipo de regresso ao que estivera sobre a mesa em 1642.

Seria de esperar que depois de todos os erros e derramamentos de sangue,

dos golpes falhados e dos massacres f�teis,

ele faria o mais correcto e repartiria o poder.

Mas Carlos era constitucionalmente incapaz de ser um rei constitucional.

Ele n�o engolia a ideia de ser reduzido a um monarca subalterno,

recebendo ordens em vez de as dar.

A guerra podia ter acabado, por enquanto,

mas para Carlos, a conspira��o n�o.

Nos dois anos seguintes, numa tentativa de reverter a sua derrota,

Carlos tentou voltar o Parlamento contra o Ex�rcito,

o Ex�rcito contra o Parlamento,

e os Escoceses contra ambos.

Oliver Cromwell entendeu finalmente que enquanto Carlos estivesse por perto,

seria sempre um ponto de refer�ncia para os descontentes,

e havia certamente muitos deles.

Mas Cromwell estava tamb�m furioso com a presun��o de Carlos

em desafiar o veredicto de Deus,

t�o claramente revelado nas batalhas de Marston Moor e Naseby.

Era evidente que o rei Carlos tinha de se afastar.

Se tinha ou n�o de morrer, j� era outro assunto.

Rebentou ent�o uma segunda guerra civil,

exigindo uma vez mais de Cromwell toda a sua brutalidade militar.

Com a aniquila��o do ex�rcito mon�rquico escoc�s em 1648, em Preston,

a �ltima esperan�a de Carlos tinha terminado.

Qualquer pensamento de concilia��o com o rei

passava a ser pura loucura.

Os membros do Parlamento que persistiam com a ideia

de que se podia dialogar com Carlos

tinham um ex�rcito furioso e vingativo a quem deviam prestar contas.

Quando o coronel Thomas Pride usou as suas tropas para eliminar

qualquer parlamentar suspeito de simpatizar com Carlos,

o pa�s concluiu que havia um novo poder no reino.

Este era o espect�culo dos soldados.

A Gr�-Bretanha pertencia a eles e eles pertenciam a Deus.

N�o tinham qualquer desejo de regressar a um pa�s

de pr�ncipes, lordes e cavalheiros.

Queriam Jerusal�m de imediato.

E queriam que o maior pecador de todos eles,

o homem de sangue, Carlos Stuart,

sentisse o fogo da f�ria de Deus.

A quest�o final podia ser feita:

o que fazer com Carlos?

Cromwell agonizou, rezou e chorou,

suplicou ao Senhor dos Ex�rcitos para lhe dar uma resposta.

No final, foi a pol�tica, e n�o a ora��o, que decidiu.

O rei tinha de morrer se o pa�s quisesse recuperar.

Mas n�o seria feito nalgum recanto sombrio.

N�o, Carlos seria julgado � vista de todos

e depois decapitado em p�blico.

"Cortem a sua cabe�a com a coroa nela."

Este seria o maior ponto de viragem da hist�ria brit�nica.

O julgamento iria matar um tipo de Gr�-Bretanha e dar � luz outro,

uma rep�blica, um estado de Deus sem rei.

Ent�o, quer para Carlos, quer para Oliver Cromwell,

o acto final iria tornar-se num teatro,

numa sala de aula, numa c�mara de debates.

Carlos iria interpretar a cl�ssica parte Stuart,

a de um m�rtir sagrado,

como a sua av�, Maria, rainha dos Escoceses, havia interpretado.

Majestoso, digno, tr�gico.

Mas ele sabia t�o bem quanto Oliver Cromwell

que o desfecho nunca estaria em d�vida.

O rei iria morrer.

A �nica quest�o era: de que forma?

Como m�rtir ou traidor? Que aprendera ele?

No final, a resposta foi... nada.

A 30 de Janeiro de 1649,

ele foi levado atrav�s do Pal�cio dos Banquetes

para o cadafalso erguido no exterior, em Whitehall.

As janelas foram todas tapadas com t�buas,

para que o grande hino de Rubens � omnipot�ncia divina dos reis

ficasse invis�vel na escurid�o,

roubando-lhe a sua luz.

Mas Carlos n�o precisava das figuras,

ele sabia o gui�o de cor.

"Um s�bdito e um soberano s�o coisas claramente diferentes."

Ent�o, as �ltimas palavras a sa�rem da boca de Carlos I foram a verdade.

Com nada mais a perder para si e tudo a ganhar para o seu filho,

ele n�o estava a tentar confundir ningu�m

sobre a natureza do reino que Deus havia ordenado.

Era o mesmo reino que Rubens tinha pintado naquele tecto,

a soberania ungida que respondia apenas ao Todo-poderoso,

estabelecendo leis para benef�cio dos seus s�bditos.

Ele oferecia justi�a e esperava obedi�ncia.

Era somente isto. Era pegar ou largar.

Na verdade, as coisas sempre se reduziram a isto,

e todas as esperan�as irrealistas de converter Carlos num monarca parlamentar

n�o passavam de castelos no ar.

Tradu��o e legendagem: lemirone e FragaCampos @ docsPT

www.docsPT.com

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