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Na sua �ltima doen�a,
com a sensa��o de que o seu fim se aproximava rapidamente,
Isabel I viu o anel que usara desde a sua coroa��o
ser-lhe retirado do dedo real.
Foi uma opera��o complicada,
pois a pele havia crescido sobre o ouro,
de qualquer modo, simbolizava supostamente uma forte uni�o.
Esta era, por assim dizer, a sua alian�a de casamento,
colocada quando ela se casou com a Inglaterra, 45 anos antes.
Agora, parecia que os dois iriam ser separados.
� claro que ela devia ser supostamente imortal,
mas o estranho � que, apesar da peruca castanha e extravagante,
da m�scara branca e dos peitos enrugados,
diplomatas estrangeiros que a viram na corte
e que n�o tinham raz�es para serem galantes,
juraram que ainda podiam ver a jovem mulher,
que n�o aparentava ter mais de 20 anos de idade.
N�o � necess�rio olhar com demasiado deslumbramento para a Rainha Virgem.
Isabel I era obviamente feita de carne e sangue.
Era vaidosa, rancorosa, arrogante,
frequentemente injusta
e muitas vezes enlouquecedoramente indecisa.
Mas tamb�m era corajosa, chocantemente inteligente,
atraente e, por vezes, genuinamente s�bia.
Por outras palavras, tinha todas as qualidades necess�rias
para criar o g�nio pol�tico que foi indiscutivelmente.
A poucos metros do t�mulo de Isabel, na abadia de Westminster,
encontra-se o corpo de uma outra mulher,
o de Maria, rainha dos Escoceses,
a mulher que havia assombrado e fascinado Isabel
durante grande parte da sua vida.
N�o era virgem, isso � certo.
Mas tamb�m n�o era pol�tica.
Um completo desastre enquanto governante, h� que dizer,
mas Maria conseguiu fazer algo que iludiu Isabel.
Deu � luz.
Esta � a hist�ria de duas rainhas e, mais importante,
duas mulheres,
uma delas, pol�tica, a outra, m�e.
E � a hist�ria de um nascimento doloroso,
a uni�o da Inglaterra e da Esc�cia,
o nascimento da Gr�-Bretanha.
Tradu��o e legendagem: docsPT
UMA HIST�RIA DA GR�-BRETANHA
O CORPO DA RAINHA
Uma estimada tradi��o diz que quando Isabel ouviu as not�cias
de que se ia tornar rainha, em 17 de Novembro de 1558,
se sentou debaixo de um antigo carvalho.
As suas primeiras palavras foram do Salmo 118,
"A domino factum est mirabile in oculis nostris",
"Esta � a obra do Senhor e � maravilhosa a nossos olhos."
Ela estava certa, era maravilhosa.
De facto, pouco faltou para ser um milagre
ela ter chegado a esse dia com vida.
As pol�ticas da realeza Tudor eram um neg�cio sangrento,
especialmente para as mulheres Tudor.
Afinal de contas, ela tinha apenas 2 anos
quando a sua m�e, Ana Bolena, foi parar ao cadafalso,
o seu pecado, pelo menos na mente de Henrique,
foi o fracasso em produzir um filho.
Tinha sido certamente um corpo possu�do por outros, pelo dem�nio,
um peda�o de carne impura, que tinha de ser cortado fora.
Portanto, Isabel nunca estaria livre de suspeitas.
Dos olhos negros como os da sua m�e, ela via-se a si mesma a ser vigiada.
Inevitavelmente, houve tempos em que baixou a sua guarda.
Ainda mal era uma adolescente quando os problemas apareceram pela primeira vez.
Ela vivia com sua guardi�, Katherine Parr,
vi�va de Henrique VIII, quando o novo marido de Parr,
Tom�s Seymour, come�ou a fazer visitas ao seu quarto de dormir.
Quando Katherine Parr morreu, come�ou a circular um rumor
dizendo que Seymour tencionava casar-se com Isabel.
S� o facto de pensar em tal coisa era trai��o.
Ainda pior, algumas m�s-l�nguas diziam que Isabel estava gr�vida dele.
Foi necess�ria toda a extraordin�ria compostura e autoconfian�a de Isabel
para convencer o lorde protector Somerset de que ela era inocente.
"Meu senhor, circulam rumores no estrangeiro"
"que atentam seriamente contra a minha honra e honestidade e que s�o:"
"que estou na Torre e gr�vida de meu senhor almirante."
"Meu senhor, estas s�o cal�nias vergonhosas."
"Desejo de todo o cora��o, vossa senhoria,"
"que eu possa ir � corte e mostrar-me como estou."
"Sua amiga convicta de meu pequeno poder, Isabel."
Ela tinha, � bom n�o esquecer, apenas 14 anos,
mas j� tinha a fortaleza, a clareza e a coragem.
E ainda bem, pois ela iria precisar dessas qualidades 5 anos mais tarde,
quando encarou a mais traum�tica e perigosa crise de toda a sua vida.
Quando a sua meio-irm� cat�lica, Maria, subiu ao trono,
Isabel viu-se no meio de problemas ainda mais profundos.
De facto, foi parar � Torre
quando uma conspira��o protestante para afastar Maria correu mal.
Isabel conseguiu livrar-se de ser acusada de trai��o,
mas permaneceu sob vigil�ncia apertada.
O perigo s� se transformou em liberta��o 5 anos mais tarde,
quando a rainha Maria morreu sem deixar filhos.
E l� estava ela, Isabel, debaixo do carvalho,
prestes a tornar-se na rainha protestante.
Ela sobrevivera por um triz,
mas saberia perfeitamente
o qu�o dif�cil iria ser o seu reinado.
A sua m�e havia sido morta por ter gerado apenas uma filha e um nado-morto,
e o �tero da sua irm� Maria produzira apenas o tumor que a matou.
Por mais deslumbrante que Isabel parecesse,
por mais esperta que fosse,
ela ter� percebido o qu�o dura seria a estrada
para uma governante do sexo errado.
A Isabel de 25 anos de idade herdou um legado
de altas esperan�as e profundas ansiedades.
As celebra��es da sua coroa��o foram cuidadosamente programadas
para mostrar a jovem rainha como o paradigma da virtude.
Por�m, esta charada de piedade,
dificilmente seria suficiente para compensar
o azar de ter outra mulher no trono.
N�o obstante, os c�pticos ter�o ficado tranquilizados
pelo precoce autocontrolo de Isabel, o ar de energia controlada
que irradiava em p�blico desde o come�o.
Poder�amos ser levados a supor que as suas primeiras apari��es no Conselho
ter�o sido um mart�rio, mas o que os conselheiros viram
n�o foi rapariga ing�nua, mas algu�m que parecia cheia,
como se dizia, de autoridade masculina.
Isabel fez todas as coisas que as mulheres na Inglaterra do s�culo XVI,
supostamente n�o deviam fazer,
olhava os homens nos olhos e falava quando bem entendia.
Tinha sido ensinada a agir assim pelo seu tutor, Roger Ascombe.
Ascombe n�o era apenas outro nobre de meia-tigela.
Era orador p�blico na Universidade de Cambridge,
e foi sua a ideia bizarra de ensinar � mi�da adolescente
uma disciplina que a maioria das pessoas pensava ser inadequada para uma mulher:
a arte da ret�rica, a arte de falar em p�blico.
Esta foi a primeira e a mais forte arma pol�tica de Isabel.
Mas Isabel trouxe algo para a gest�o da soberania
que era inteiramente dela, algo, ali�s,
que nenhum dos manuais de conduta principescos ensinava:
a pol�tica tamb�m era um palco.
Os seus pais sabiam disto instintivamente.
Isabel tinha o dom natural de actriz a rodos.
Ela simplesmente adorava ser adorada.
No entanto, adora��o n�o significava o mesmo que lealdade.
Pois para o seu mais importante conselheiro,
o seu pai substituto, William Cecil,
o carisma n�o substitu�a
o que asseguraria realmente o futuro de uma Inglaterra protestante:
um herdeiro.
Cecil sabia perfeitamente que a maioria do pa�s ainda era cat�lica,
activa ou passivamente,
e tamb�m sabia o qu�o pouco seria necess�rio
para os frutos duramente obtidos da Reforma ca�rem por terra.
Como tal, embora a rainha dissesse a toda a gente que o problema era dela,
Cecil tinha de lembr�-la constantemente
que o reino precisava que ela arranjasse um marido.
Mas o seu corpo tamb�m precisava, uma vez que no s�culo XVI
se pensava que uma virgindade prolongada criava uma doen�a potencialmente t�xica,
conhecida como "doen�a verde", a reten��o anormal do esperma feminino.
Assim sendo, copula��o marital
foi o que o m�dico receitou para o bem do reino.
Por�m, o problema, como Cecil estava dolorosamente a par,
era o de que se pressionasse Isabel demais,
ela poderia acabar por escolher o homem que todos assumiam que ela amava.
Esse homem era o rival de Cecil no Conselho, Robert Dudley.
Dudley era tudo o que Cecil n�o era,
vistoso, galante, barulhento e extrovertido,
e, n�o menos importante, incrivelmente bem-apessoado, especialmente a cavalo.
Para uma rainha que gostava de estar rodeada por admiradores
e que era capaz de afastar aqueles que considerava fisicamente desagrad�veis,
isto importava muito.
E compartilhavam um passado,
os mesmos tutores, os mesmos traumas de inf�ncia.
O pai de Dudley tinha sido executado por trai��o,
o que fazia de ambos �rf�os do cadafalso.
Nos anos sombrios do reinado de Maria,
ele vendera terras para ajudar Isabel,
o tipo de gesto que ela nunca esqueceu.
Mas seriam eles um verdadeiro casal?
Teriam eles, como diziam os boatos na Europa e todos os diplomatas,
assim como a maioria dos cineastas sempre presumiu,
sido amantes?
No caminho, estava a esposa de Dudley,
mas ela estava doente h� v�rios anos.
Quando ela morresse, Dudley seria livre,
e dormir com o seu pretendente n�o era incomum na Inglaterra Tudor.
Mas isto teria sido ultrajante para uma rainha que exibira a sua virgindade
na sua coroa��o deixando o seu cabelo solto.
Quando pressionada pelos rumores, Isabel retorquiu despreocupadamente
dizendo que tais coisas eram imposs�veis,
pois estava dia e noite cercada pelas suas damas de companhia.
Com o terr�vel exemplo do destino que a sua pr�pria m�e sofrera,
teria sido tremendamente irreflectido da sua parte dormir com Dudley.
O seu lado pol�tico estava, como sempre, a dominar a amante.
De qualquer forma, aconteceu algo
que danificou terrivelmente o relacionamento entre os dois.
A esposa de Dudley, Amy, foi encontrada no fundo de uma escadaria,
morta, com o pesco�o quebrado.
Um acidente que parecia demasiado conveniente para ser cred�vel.
Esta era, afinal de contas, a idade dourada da fofoca,
e a fofoca n�o acreditava que Amy havia ca�do, mas que fora empurrada.
Isabel exilou imediatamente Dudley at� que ficasse livre de suspeitas.
Oficialmente, ficou,
e apesar de a rainha ter sempre insistido
que Dudley havia sido totalmente inocentado,
isso ainda lan�ava uma sombra sobre o seu relacionamento,
logo quando eles ficaram livres para se casar.
Talvez este fosse um caso de
"Cuidado ao aspirar pelo verdadeiro desejo do seu cora��o,"
"pois pode acabar por consegui-lo".
Durante os anos seguintes, Isabel equilibrou-se agilmente
entre a ternura e a exaspera��o
redigindo documentos para fazer de Dudley um conde,
somente para rasg�-los � frente dele.
E outras vezes, especialmente quando se sentia importunada pelo Conselho,
atormentava-os fingindo que o seu casamento estava para breve.
Tal nunca veio a acontecer.
Em 1563, Isabel parecia ter desistido
da possibilidade de algum dia vir a casar com Robert Dudley,
porque estava preparada para oferec�-lo a outra pessoa,
algu�m cujas esperan�as de casamento fossem de tremenda import�ncia
para o equil�brio de poder na Gr�-Bretanha.
Esse algu�m era Maria Stuart, rainha dos Escoceses.
Ao longo de toda a tortuosa hist�ria do relacionamento entre as duas,
Isabel consumia-se de curiosidade acerca da sua prima, Maria.
Aprisionada num concurso neur�tico de beleza,
interrogando os seus embaixadores como se eles fossem o espelho na parede
que lhe dizia quem era mais alta, bela, inteligente e esperta.
Isabel pode ter vencido em termos de intelig�ncia,
mas pelas poucas imagens que temos dela,
Maria, com o seu rosto em forma de cora��o,
p�lpebras pesadas e pele cremosa,
tinha os predicados para derreter os cora��es de homens crescidos.
No entanto, ela era mais do que uma simples advers�ria.
Para Isabel, Maria, rainha dos Escoceses, era uma amea�a.
A raz�o era �bvia.
Maria era cat�lica
e a Igreja Cat�lica n�o reconhecia o direito de Isabel
de ser rainha de Inglaterra.
Para eles, Isabel era o produto do casamento ilegal de Henrique VIII
com Ana Bolena.
Como tal, aos olhos cat�licos de Maria,
Isabel era simplesmente ileg�tima.
Como poderia Isabel n�o levar isto pessoalmente?
Al�m disso, Maria era n�o s� uma Stuart, mas tamb�m uma Tudor,
atrav�s do seu bisav�, Henrique VII.
E enquanto Isabel permanecesse sem filhos,
Maria seria a pr�xima na linha de sucess�o do trono ingl�s.
Desde o momento em que, com 18 anos, Maria Stuart chegou � Esc�cia
vinda da corte francesa onde havia sido educada,
o relacionamento entre as primas ficou manchado com suspeitas m�tuas.
� primeira oportunidade,
Isabel comportou-se mal, quase irracionalmente,
negando a Maria o salvo-conduto atrav�s de Inglaterra para o seu novo reino
e for�ando-a a navegar ao longo da costa at� � Esc�cia.
Apesar de ser a parte injuriada,
a resposta de Maria j� evidenciava a autopiedade teatral
que deixava Isabel fora de si.
"Confio que os ventos ser�o de tal forma favor�veis,"
"que n�o precisarei de ir at� � costa de Inglaterra."
"E se eu o fizer, Senhor Embaixador,"
"a rainha, sua soberana, ter-me-� em suas m�os"
"para fazer comigo o que bem desejar,"
"e se ela tiver o cora��o t�o duro que anseie pelo meu fim,"
"poder� ent�o fazer o que quiser e sacrificar-me."
Talvez as coisas pudessem ser melhores entre as duas
se Maria aceitasse a escolha de Isabel de um marido protestante para ela,
na forma vencedora de Robert Dudley.
Por�m, havia um pequeno problema com este plano,
Maria n�o tinha inten��o de obedecer a Isabel.
De qualquer forma, todos sabiam que depois da morte da sua esposa,
Robert Dudley era mercadoria estragada.
Lorde Henry Darnley, o playboy da nobreza escocesa,
parecia ser um partido bem melhor.
Bastou um olhar para as belas pernas de Darnley
para levar Maria a desej�-lo.
Ajudou o facto de ele tamb�m ter sangue Tudor a fluir-lhe nas veias.
Infelizmente, o mesmo era verdade para o whisky.
Tarde demais, Maria descobriu que havia casado
com um b�bado pregui�oso e dissoluto,
incapaz de cumprir as tarefas m�nimas exigidas a um co-soberano.
Presa em Holyrood com a tarefa de governar a Esc�cia sem ele,
Maria passou a apoiar-se cada vez mais no seu secret�rio privado,
o italiano cat�lico David Riccio.
Naturalmente, os nobres protestantes da Esc�cia
estavam convencidos de que Maria estava a conspirar
para transformar a Esc�cia novamente num pa�s cat�lico.
Ent�o, o crescente afastamento entre Darnley e a sua esposa
deu aos nobres mais ofendidos pelo acesso de Riccio � rainha,
a oportunidade de que estavam � procura.
Em 1566, um grupo deles abordou Darnley
e prop�s um violento golpe de estado.
Afastar David Riccio, que era amante dela, disseram eles,
e n�o apenas o seu secret�rio.
"Ah", pensou Darnley,
"Isso explica o porqu� de ela ser t�o cabra."
"Vou mostrar-lhe quem � que manda aqui."
No dia 7 de Mar�o, enquanto ela jantava,
Darnley e os seus companheiros conspiradores
entraram de rompante nos aposentos de Maria
arrancaram o aterrorizado Riccio das saias de Maria
e esfaquearam-no at� � morte em frente dela.
Foram descobertos entre 50 e 60 ferimentos no seu corpo
depois de ele ter sido atirado pela escadaria privada abaixo.
A certo altura, os assassinos viraram-se para Maria,
apontando uma pistola contra a sua barriga gr�vida.
E talvez naquele momento,
Maria tenha aprendido a transformar terror em poder,
pois nos meses seguintes,
ela amamentou ao m�ximo o melodrama do �tero amea�ado.
Ao inv�s de ter ficado em cacos, Maria ficou estranhamente calma.
Ela sabia que podia ser forte
pois carregava a sua maior arma dentro do seu �tero.
O que quer que acontecesse ao seu marido in�til, b�bado, homicida e est�pido
ela sabia que iria dar � luz um filho.
M�e e filho iriam sobreviver.
Em 19 de Junho, no castelo de Edimburgo,
Maria deu � luz o rapaz
que viria a tornar-se Jaime VI da Esc�cia.
Ao ouvir as not�cias, Isabel reagiu com l�grimas, dizendo:
"Meu Deus! A rainha dos Escoceses deu � luz um filho saud�vel"
"e eu nada mais sou que inf�rtil."
Por esta altura, Maria estava t�o consumida com desprezo por Darnley
que resolveu livrar-se dele.
� poss�vel que ela quisesse livrar-se dele enquanto marido,
mas havia alguns devotos dela,
em particular o conde de Bothwell,
que aproveitaram os seus suspiros para fazer algo bem mais decisivo.
Bothwell, um dos grandes propriet�rios de terras da Esc�cia,
era rico, prom�scuo e perigoso.
Mas tamb�m sabia ser galante,
e na sua afli��o, Maria elegeu-o como protector,
e Bothwell ficou feliz da vida por resolver o "problema Darnley" de Maria.
Na noite de 9 de Mar�o de 1567,
enquanto Maria participava num baile de m�scaras,
Bothwell supervisionou o acendimento de um rastilho
que �s 2 da manh� iria detonar uma imensa quantidade de p�lvora
debaixo da casa onde Darnley se encontrava a dormir.
A casa explodiu pelos ares.
Darnley estava morto, mas n�o fora assassinado de acordo com o plano.
Minutos antes da explos�o, ao ouvir barulhos suspeitos,
desceu pela janela do seu quarto com ajuda de uma cadeira.
Ao correr atrav�s do jardim com as suas roupas de dormir,
Darnley foi direito aos conspiradores,
que prontamente o estrangularam at� � morte.
O assassinato de Darnley foi um ponto de viragem na vida de Maria.
Da� em diante, a morte acompanhou Maria Stuart como uma dama-de-companhia.
Ela j� estava doente, vomitando muco negro.
Precisava de ajuda e o inescrupuloso Bothwell estava preparado para lha dar.
O seu poder sobre Maria tornou-o impiedosamente ousado
e anunciou aos lordes escoceses que para haver um governo apropriado no pa�s
era necess�rio que Maria tivesse um marido.
Muito decentemente, ele ofereceu-se para o "cargo".
A ideia de uma proposta de casamento de Bothwell era sequestrar Maria
e lev�-la para o seu castelo sombrio em Dunbar.
A�, plantou a sua bandeira como futuro rei da Esc�cia
plantando-se a si pr�prio, violentamente, segundo consta,
dentro do corpo dela.
Depois disso, pensou que a traumatizada Maria teria de casar com ele,
e, para horror da maioria do pa�s,
foi justamente isso que Maria fez,
poucas semanas depois, em Holyrood.
Foi neste ponto que Maria perdeu o discernimento,
perdeu o controlo sobre o seu pr�prio corpo,
perdeu a inestim�vel vantagem pol�tica da sua maternidade,
manchada pelo seu relacionamento com Bothwell.
Perdeu a Esc�cia e perdeu tudo o resto.
A verdade � que n�o precisava de ter sido assim.
Se ela tivesse sido metade da pol�tica que Isabel foi,
ter-se-ia distanciado de Bothwell em vez de se casar com ele.
E teria ca�do em cima dos assassinos de Darnley como uma parede de tijolos,
manifestando estar chocada com o crime, verdadeiramente chocada,
e apresentando-se ao povo da Esc�cia
como uma m�e duplamente vitimada.
Ao inv�s, a m�e deixou-se transformar numa prostituta.
Maria passou a enfrentar os ex�rcitos rebeldes
leais ao Darnley assassinado.
Mas � beira da batalha,
Bothwell, desapareceu convenientemente para juntar refor�os,
ou assim disse ele,
deixando Maria para encarar o inimigo sozinha.
Seria a �ltima vez que ela o veria.
Arrastada de volta a Edimburgo,
prisioneira, imunda e desgrenhada,
apareceu a uma janela com o vestido rasgado nos ombros e os seios expostos
enquanto era recebida pela multid�o.
Come�aram a aparecer folhetos mostrando-a como uma sereia,
em que "sereia" era outro nome para prostituta.
E como � �bvio, as sereias n�o podiam sentar-se no trono da Esc�cia,
e Maria foi for�ada a renunciar-lhe em favor do seu filho beb�.
O seu meio-irm�o protestante, o conde de Moray,
encarregou-se do beb� Jaime e fez de si pr�prio regente da Esc�cia.
Maria tinha 25 anos de idade.
A sua hist�ria parecia terminada,
mas � claro que n�o estava.
Ela tinha uma �ltima arma para usar,
o seu ar de beldade tragicamente ferida.
Encarcerada no castelo de Loch Leven,
no meio de um lago frio e profundo,
ela libertou o seu charme sedutor sobre o seu carcereiro,
pertencente ao duro cl� Douglas, que derreteu em adora��o.
Depois de dez meses de pris�o, em Maio de 1568,
Maria fugiu atrav�s do lago.
Mas havia apenas uma maneira de ela conseguir o seu trono de volta:
fazendo um apelo � sua prima Isabel.
Ent�o, a sua pr�xima viagem, atrav�s da fronteira,
teve como objectivo encontrar um ref�gio tempor�rio.
Ela deve ter suposto que a sua estada duraria um m�s, um ano no m�ximo.
Tivesse ela sabido a verdadeira resposta,
19 anos,
teria certamente evitado a passagem atrav�s do Solway Firth.
Mas ali estava ela, uma figura exausta e suja,
com o cabelo cortado para disfarce,
sentada e encolhida num pequeno barco,
os seus olhos fixados no litoral da Esc�cia, que ia desaparecendo.
A apari��o de Maria em solo ingl�s deixou Isabel agitada.
Maria seria sua herdeira ou n�o?
Afinal de contas, Isabel n�o estava a ficar jovem,
35 anos em 1568.
As lavadeiras reais continuavam a enviar a Cecil as evid�ncias mensais
da capacidade da rainha em produzir filhos,
mas ela n�o estava mais pr�xima de se casar.
Iria a rainha fugitiva dos Escoceses ser tratada como a herdeira ao trono
ou, pelo menos, como parceira soberana? Uma convidada?
Bem, n�o exactamente.
O primeiro pedido de Maria a Isabel foi por algumas roupas
que fossem adequadas ao seu estatuto,
ao inv�s dos trapos com os quais ela fugira.
O que ela conseguiu, depois de muita reclama��o,
foi um pacote de linho.
Al�m disso, talvez ela n�o soubesse
que Isabel j� usava as p�rolas favoritas de Maria,
que lhe tinham sido roubadas pelos seus inimigos
e enviadas � rainha inglesa.
De facto, Isabel n�o sabia o que fazer com Maria.
Todos os seus instintos reais ficaram afrontados
pelas humilha��es e indignidades acumuladas pela sua prima real.
Se Maria aceitasse manter as suas m�os longe do trono ingl�s,
Isabel estava tentada em ajud�-la a reconquistar a coroa escocesa.
Mas Isabel tamb�m podia ver a sabedoria da vis�o oposta,
que era uma insensatez recolocar uma rainha cat�lica no trono da Esc�cia,
criando uma porta dos fundos para os Franceses e Espanh�is.
Existia um regime protestante seguro na Esc�cia,
governado pelos inimigos de Maria.
Porqu� fazer abanar o barco?
Ent�o, se Maria imaginava que podia confiar na irmandade das rainhas,
estava iludida.
A primeira coisa que Isabel fez foi instaurar um inqu�rito
ao assassinato do marido de Maria, o lorde Darnley,
que se tornou num julgamento em tudo, excepto no nome.
Maria j� n�o alimentava ilus�es de ser outra coisa que n�o uma prisioneira.
Foi transferida de casa em casa
sob o olhar vigilante do conde de Shrewsbury,
que ficou com o indesej�vel trabalho de ser o carcereiro dela.
Algumas dessas casas n�o eram muito mais que uma ru�na h�mida,
outras, como esta em Wingfield, eram bastante mais toler�veis.
Wingfield fica em Derbishire,
e isso diz-nos algo sobre o nervosismo dos seus captores.
Maria Stuart tinha de ficar bem longe de qualquer possibilidade de resgate,
bem longe da Esc�cia,
bem longe de Londres e bem longe da costa.
De facto, nas Midlands.
Mas onde quer que estivesse,
Maria Stuart tornava-se no problema de seguran�a m�xima n�mero um,
n�o apenas uma dor de cabe�a, mas um �man para a conspira��o.
Havia muitos pesos-pesados pol�ticos
para os quais Maria era a alternativa leg�tima e atractiva a Isabel.
E n�o eram apenas um bando de cat�licos sonhadores e irrealistas,
mas homens pr�ximos do cora��o do governo de Isabel.
O seu plano mais ambicioso era o de anular o casamento com Bothwell
e casar a rainha dos Escoceses com o principal duque do reino,
Thomas Howard, duque de Norfolk.
Apesar de Norfolk poder ter sido um cat�lico convicto,
era, como tantos na sua �poca, pelo menos exteriormente,
um protestante conformado.
Como tal, era perfeitamente razo�vel ver o golpe do casamento
como uma forma de ligar as feridas n�o curadas da Reforma,
mas a rainha n�o se deixou enganar.
Quando o golpe foi exposto, ela enviou Norfolk directamente para a Torre.
O plano desintegrou-se.
No entanto, havia um tipo diferente de f�ria � espreita,
uma f�ria que ardia como uma chama cat�lica.
Aqui no Norte, o catolicismo n�o s� n�o foi erradicado,
como se alimentava do ressentimento ardente e feroz independ�ncia
das grandes fam�lias aristocr�ticas que dirigiam as coisas aqui.
Estavam aqui h� s�culos e n�o estavam dispostas a ser pressionadas
por um bando de burocratas Tudor.
N�o se dispunham a aceitar que lhes impusessem um governo e uma religi�o.
Como tal, para elas, Maria Stuart n�o era apenas uma sucessora,
era uma substituta,
uma substituta imediata.
E assim, o Norte cat�lico lutou contra o Sul protestante.
Por algum tempo, at� parecia que o Norte podia vencer.
Quando os rebeldes invadiram Lancashire, Yorkshire e Northumberland,
deve ter parecido que a Gr�-Bretanha cat�lica havia renascido.
Foi ent�o que o governo de Isabel soube realmente o que estava em jogo,
o �ltimo acto na infind�vel guerra religiosa
que come�ara quando Henrique VIII fez de si chefe supremo da Igreja.
Mas conseguiu reunir 12 mil soldados
e esmagar brutalmente a rebeli�o.
Talvez a brutalidade tenha funcionado,
pois a revolta do Norte foi a �ltima grande rebeli�o
a perturbar a Inglaterra Tudor.
E � tentador sentir o pa�s a acalmar finalmente
durante este �ureo per�odo Isabelino,
sentindo-se gordo, seguro e confort�vel,
mas era, como sempre, um tipo de grandeza nervosa.
Isabel j� reinava h� 20 anos
e os pretendentes haviam chegado e partido.
Havia sempre algum problema com eles,
demasiado desprez�veis,
demasiado cat�licos, demasiado est�pidos.
E al�m disso, os seus pretendentes passaram a ter rivais,
milh�es de s�bditos de Isabel que se tinham tornado invejosamente possessivos
e pensavam que a rainha era apenas deles.
Na d�cada de 1570, conquistaram-na.
O culto, a religi�o de Isabel,
foi espectacularmente criado.
O dia da sua ascens�o ao trono
tornou-se o maior dos feriados nacionais,
mais sagrado que todos os eventos pag�os do calend�rio papista.
A sua imagem come�ou a aparecer em todo o lado atrav�s de imagens aleg�ricas,
Isabel como o Sol que dava ao arco-�ris os seus tons radiantes.
E mesmo aqueles que a partir de dentro podiam ver claramente
a arma��o elaborada a partir da qual esta imagem era projectada,
que sabiam que o p�lido brilho lunar do rosto da rainha
era apenas casca de ovo em p�, b�rax, al�men e �gua de moinho,
at� esses que sabiam de tudo isso, estavam totalmente ref�ns do culto.
Ela tinha este efeito sobre todo o tipo de pessoas, em especial os homens,
mesmo quando j� eram velhos e deviam saber melhor destas coisas.
Constru�ram enormes e prodigiosas casas em honra dela.
Era, � sua maneira, uma necessidade desesperada de impressionar,
um sinal da crua imaturidade cultural,
a sua fome de sumptuosidade deslumbrante.
O exibicionismo Isabelino, de meias altas apertadas,
bibliotecas com pain�is de carvalho com centos de cl�ssicos n�o lidos,
sal�es de baile grandes como campos de jogos.
Podemos supor que os devotos fizessem fila
para obterem um vislumbre da madona nacional,
mas muitos sabiam que a organiza��o do espect�culo tinha um pre�o pesado.
Se voc� fosse um burgu�s da cidade de Warwick,
seria dif�cil saber qual o grupo que o deixaria mais nervoso.
Afinal de contas, os transportadores reais
traziam 200 carro�as com a bagagem da rainha,
cada uma puxada por uma equipa de seis cavalos.
Eram precisos muitos est�bulos e quantidades enormes de palha.
Ent�o, uma semana antes do grande evento,
os homens do gabinete de fornecedores chegavam � cidade
e compravam tudo o que estivesse dispon�vel para a visita,
a pre�os que eles decidissem serem justos.
A seguir, viriam os lordes e as damas, t�o notoriamente dif�ceis de contentar.
Julgava que eles iriam olhar o entretenimento com enfado
e torcer o nariz � feira?
E por �ltimo, havia a pr�pria rainha Bess, (alcunha inglesa)
uma apari��o enfeitada de j�ias com um rosto branco como giz,
como uma deusa na Terra.
Mas tal como os imortais,
ela era evidentemente t�o assustadora quanto majestosa.
Voc� poderia deleitar-se com o espect�culo de glamour Isabelino
desde que n�o pensasse muito sobre o que estava a acontecer
al�m da ilha da realeza.
Pois l� fora, na Europa,
uma guerra total entre poderes cat�licos e protestantes
estava prestes a estourar.
A rivalidade entre Maria, rainha dos Escoceses, e Isabel,
j� n�o era uma novela de adolescentes,
estava no centro dessa contenda global.
Em Roma, o papa declarara Isabel uma herege.
"Quem a tirar deste mundo," decretou o papa,
"n�o s� n�o estar� a pecar como ganhar� m�rito aos olhos de Deus."
Em resposta, a Inglaterra tornou-se um estado de seguran�a nacional.
Agentes duplos e infiltrados foram recrutados pelo Governo.
Cavalheiros vigilantes juraram matar, antecipadamente,
qualquer pessoa suspeita de conspirar contra a rainha.
No cora��o da opera��o estava o chefe de espionagem de Isabel,
Francis Walsingham.
"A intelig�ncia nunca � demais" era o mote de Walsingham.
Toda a sua carreira foi uma demonstra��o pr�tica
de que conhecimento � poder.
Mas se Walsingham era feroz, n�o era paran�ico.
Havia conspira��es subversivas, organizadas em Fran�a, Roma e Espanha,
e todas trabalhavam para um s� fim:
o assassinato de Isabel
e o entronamento de Maria Stuart.
Isabel pode ter-se sentido incomodada por ter de matar Maria,
mas Walsingham, n�o.
O seu trabalho era sujar as m�os pela Inglaterra,
� isso que os mestres de espionagem fazem.
Mas ele sabia muito bem que n�o podia simplesmente mat�-la.
Isabel teria de ficar livre de qualquer suspeita de cumplicidade no assassinato.
Por outro lado, o "problema Maria" n�o podia arrastar-se por mais 15 anos.
Walsingham concluiu que teria de for�ar uma solu��o.
Ent�o, engendrou uma armadilha...
um plano digno de mestre.
Maria podia estar sob pris�o domicili�ria,
mas, ainda assim, tinha permiss�o para levar a vida de uma dama rural.
Ent�o, em Dezembro de 1585,
Walsingham fez uma mudan�a.
Maria e a sua fam�lia tiveram subitamente de fazer as malas
e foram fechados sob supervis�o na mans�o Chartley, em Staffordshire,
onde ela ficou � guarda do puritano carrancudo, Amyas Paulet.
Como Walsingham tencionara, Maria ficou furiosa,
desesperada por encontrar uma fuga da sua pris�o.
E como � �bvio, ficou entusiasmada quando descobriu um meio engenhoso
de contrabandear cartas codificadas para os seus partid�rios.
As cartas eram secretamente colocadas num pacote imperme�vel
e inseridas no orif�cio de barris de cerveja,
enviados de e para Chartley.
O que Maria n�o sabia era que isto era uma armadilha.
Walsingham havia preparado a coisa toda.
As cartas foram interceptadas.
Quando o �ltimo paladino de Maria,
o rico mercador Anthony Babington,
forneceu a Maria detalhes de uma conspira��o para assassinar Isabel
e colocar Maria no trono ingl�s,
Maria escreveu de volta com encorajamento.
A armadilha resultara.
Em Chartley, Maria sentiu os c�us a clarearem.
Depois de quase 20 anos de pris�o injusta,
ela podia sentir a liberdade ao alcance,
t�o pr�xima que quase lhe sentia o gosto.
Certa manh�, excepcionalmente,
Paulet permitiu que ela sa�sse a cavalo para passar o dia numa ca�ada.
� dist�ncia, ela viu um grupo de cavaleiros a aproximar-se.
Maria deve ter imaginado:
"Chegou o momento, not�cias de Babington."
"Liberdade, finalmente."
Mas, na verdade, era o mandado para a sua pris�o.
Babington e os seus colegas conspiradores
haviam sido torturados e j� tinham confessado.
Maria foi levada dali enquanto os seus aposentos em Chartley foram revistados,
tendo sido descobertos centenas de documentos incriminadores.
Em Londres, Isabel escreveu uma carta empolgada a Amyas Paulet.
"Amyas, meu mais fiel e cuidadoso servidor,"
"Deus te recompense triplamente pelos mais problem�ticos casos"
"t�o bem resolvidos".
Havia apenas mais uma paragem, mais um castelo
na carreira da rainha itinerante:
Fotheringhay, em Northamptonshire.
Hoje � apenas uma colina relvada, e � melhor que assim seja,
j� que nenhuma ru�na ou edif�cio,
poderia suportar o peso do drama que se seguiu.
Quem estava � espera que Maria Stuart desabasse numa confiss�o chorosa,
tinha-se enganado seriamente.
Perante a sua situa��o,
ela foi buscar algo � sua longa e desastrosa carreira
que a tornou resoluta e inquietantemente superior,
como se, subitamente, passasse a estar acima desta charada esqu�lida.
Do momento da sua pris�o at� ao momento da sua execu��o,
ela deu tudo o que tinha.
"Como pecadora,"
"estou realmente consciente de ter ofendido frequentemente o meu criador."
"Imploro-Lhe que me perdoe."
"Mas enquanto rainha e soberana,"
"n�o tenho conhecimento de falta ou ofensa pela qual deva prestar contas"
"a qualquer um que esteja abaixo de mim."
A sua segunda t�ctica foi mentir at� n�o poder mais,
negando qualquer conhecimento da conspira��o de Babington,
embora estivesse em posi��o mais privilegiada quando acusou Walsingham
de ter preparado o esquema todo para se ver livre dela.
Como � �bvio, Isabel n�o via o problema exactamente desta maneira.
Ela escreveu a Maria como se a rainha dos Escoceses
se tivesse comportado como um h�spede ingrato que fugira com as toalhas.
"V�s planeastes tomar a minha vida e arruinar o meu reino"
"atrav�s do derramamento de sangue."
"Nunca procedi t�o impulsivamente contra v�s."
"Pelo contr�rio, sustentei-vos e preservei a vossa vida"
"com o mesmo cuidado que tenho comigo mesma."
No dia 15 de Outubro de 1586,
come�ou o julgamento formal.
Num gesto t�pico, meio apelo, meio amea�a,
Maria preveniu os seus acusadores para olharem para as suas consci�ncias.
"Lembrem-se," disse ela, "o teatro do mundo"
"� bem maior que o reino da Inglaterra".
E foi para essa audi�ncia,
espalhada por todo o mundo e atrav�s das eras,
que ela trouxe para o palco central.
Maria entrou na sala a mancar, ent�o dolorosamente enferma,
vestida da cabe�a aos p�s como uma madre superiora encantadora,
embrulhada com veludo preto e uma touca branca.
Desprovida de qualquer advogado,
voltou-se para os ju�zes do Conselho Real que a encaravam.
"N�o h� nenhum, penso eu, entre voc�s,"
"que mesmo sendo o homem mais inteligente do mundo,"
"seria capaz de resistir ou de se defender"
"se estivesse no meu lugar."
� claro que n�o importava aquilo que ela dissesse.
O julgamento continuou em Londres sem a sua presen�a
e avan�ou rapidamente para a sua condena��o.
Durante toda a sua vida adulta, Isabel tinha vivido assombrada
pela sua prima fascinante e enfurecedora,
que aparentava personificar todos os clich�s sobre as mulheres
que a pr�pria Isabel havia rejeitado.
Tinha, ent�o, a preciosa oportunidade de se livrar da "madre Maria".
O Parlamento estava impaciente por se ver livre dela
e o povo clamava pelo sangue de Maria.
No entanto, Isabel n�o teve coragem de cumprir esta miss�o.
N�o � que fosse sentimental em rela��o a Maria,
mas porque tinha medo,
medo de ser vista pelo mundo como tendo as suas impress�es digitais no machado.
Era isto que roubava o sono de Isabel,
a quest�o atormentadora sobre se ao matar Maria
estaria a livrar-se de ou a criar novos problemas.
A 1 de Fevereiro de 1587,
Isabel colocou finalmente a sua assinatura
na senten�a de morte de Maria.
Todo o caos, mis�ria, aventuras imprudentes,
conspira��es irreflectidas,
ilus�es pat�ticas, ataques teatrais de autopiedade,
todas as fugas e resgates,
levaram-na at� este momento supremo.
Viria a ser uma m�rtir cat�lica.
Quando Maria foi informada de que seria executada na manh� seguinte,
por um cortes�o escoc�s lavado em l�grimas,
ela disse-lhe para se alegrar,
"Pois o fim dos problemas de Maria Stuart", disse ela,
"chegou finalmente".
"Levai esta minha mensagem"
"e diga a meus amigos que morri como uma mulher fiel � minha religi�o"
"e como uma verdadeira mulher escocesa"
"e uma verdadeira mulher francesa."
Quando ela se despiu para o executor,
o discreto h�bito negro caiu revelando uma an�gua escarlate,
da cor vermelho-sangue dos m�rtires.
Os olhos de Maria foram vendados com um len�o de seda branca,
bordado a ouro,
e colocou-se com tal tranquilidade no cepo
que at� enervou o executor.
O seu primeiro golpe cortou fundo na parte de tr�s da cabe�a dela
e o segundo separou-a do corpo � excep��o de um pequeno fio de carne.
Mesmo na morte, Maria conseguiu permanecer no palco principal.
Durante 15 minutos depois do �ltimo golpe do machado,
os l�bios da sua cabe�a cortada, assim as testemunhas reportaram,
continuaram a mover-se como numa prece silenciosa.
E quando o executor,
que nesse momento provavelmente s� queria era morrer tamb�m,
segurou na cabe�a para os espectadores,
cometeu o erro de segur�-la pela massa de carac�is ruivos...
mas que era uma peruca.
Para horror geral, o cr�nio de Maria,
com o cabelo cortado em pequenos tufos cinzentos,
caiu das suas m�os e rolou pelo ch�o.
Naquele momento, veio um terr�vel uivo
da an�gua vermelha empapada de sangue.
O c�o de companhia de Maria teve de ser afastado dos restos da sua dona.
Tentaram e tentaram limp�-lo do sangue coagulado.
E conseguiram, mas o c�o n�o voltou a comer, definhou e morreu.
Foi apenas outro m�rtir na vida pat�tica e tr�gica de Maria.
Talvez aquele pequeno c�o tenha sido o primeiro enlutado,
mas n�o iria ser certamente o �ltimo.
Entre os enlutados,
surpreendentemente, estava a rainha Isabel,
em profunda nega��o do que havia feito.
"Quando ela ouviu a not�cia, o seu semblante mudou,"
"as suas palavras vacilaram,"
"e com uma tristeza excessiva ficou, de certa maneira, surpreendida,"
"de tal forma que se entregou ao sofrimento,"
"vestindo-se de luto e vertendo l�grimas em abund�ncia."
Parte da ang�stia de Isabel poder� ter sido remorso genu�no,
mas parte provinha de um medo evidente
e tinha raz�es para estar preocupada.
Mesmo antes da execu��o de Maria,
o rei Filipe de Espanha acelerara os seus planos
para o "empreendimento" da Inglaterra,
e com a morte de Maria n�o havia como par�-lo.
Subitamente, a Inglaterra Isabelina parecia muito pequena, muito vulner�vel.
Este sempre fora o pior pesadelo de Isabel,
uma invas�o cat�lica em larga escala,
precisamente aquilo que Filipe estava a fazer.
Por�m, os almirantes espanh�is,
estavam profundamente pessimistas em rela��o �s possibilidades de sucesso.
Sabiam que os navios ingleses tinham uma grande vantagem
em termos de velocidade e manobrabilidade.
O milagre n�o foi o facto de a Inglaterra se ter salvado,
mas de a Espanha ter estado t�o perto do sucesso.
Apenas alguns quil�metros do Canal
e um vento pouco prestativo, fizeram a diferen�a.
O tempo, como de costume, esteve do lado de Inglaterra.
Mas foi por muito pouco.
Os Ingleses tinham motivos para estar amedrontados no Ver�o e Outono de 1588.
O que � que fazemos quando estamos chorosos e aterrorizados?
Chamamos pela mam�.
E, com ajuda de Robert Dudley, ent�o a morrer de cancro,
mas ainda o grande promotor dos espect�culos de Isabel,
foi assim que ela apareceu �s tropas no campo militar de Tilbury,
a m�e, finalmente, a m�e virgem da Inglaterra,
e o tipo de m�e que voc� iria querer do seu lado,
uma m�e vestida com um armadura de a�o para o peito.
Tudo o que Isabel havia aprendido foi posto em pr�tica em Tilbury.
Carisma trajado, eloqu�ncia c�ustica,
e, talvez o mais importante,
aquilo que todas as m�es sabem instintivamente:
que ningu�m pode substituir a sua presen�a.
E entre 8 e 9 de Agosto, fez-se presente no local,
chegando num coche dourado escoltado por 2 mil soldados extasiados.
E o que ela produziu para a multid�o expectante, foi puro ouro,
o primeiro grande discurso feito por uma rainha registado na Hist�ria.
Foi aqui que aconteceu o verdadeiro evento de 1588,
n�o em alto-mar,
mas no palco improvisado em Tilbury.
"Meu amado povo,"
"venho at� v�s, n�o por recreio e desporto,"
"mas de forma resoluta em pleno calor da batalha,"
"para viver e morrer entre todos v�s,"
"para morrer por Deus e pelo meu reino,"
"pelo meu povo, pela minha honra e sangue"
"mesmo que sejamos vencidos."
"Sei que tenho o corpo de uma mulher fraca e d�bil,"
"mas tenho o cora��o e est�mago de um rei,
"e um rei da Inglaterra tamb�m,"
"e se a Espanha ou qualquer pr�ncipe da Europa"
"ousarem invadir as fronteiras do meu reino,"
"enfrentarei tal desonra e eu mesma tomarei armas nas m�os."
Quanto a mim tudo n�o passou de teatro e propaganda,
mas foi pela Inglaterra e fez a diferen�a,
tal como a ret�rica de Churchill fez a diferen�a em 1940.
Quase instintivamente,
a rainha parecia saber o que o seu povo precisava de ouvir.
"Escutem," disse ela,
"posso ser uma deusa, mas tamb�m sou de carne e sangue,"
"a vossa carne e sangue."
"Aquilo que tiverem de enfrentar, enfrent�-lo-ei com voc�s."
E isso fez a diferen�a entre o terror e a determina��o,
� para isso que servem as rainhas.
Voc� n�o conseguiria fazer melhor e nem mesmo a pr�pria Isabel.
A euforia de 1588 durou pouco tempo.
Nos anos finais do s�culo Tudor,
a fome que varreu o pa�s despertou revoltas por comida.
Cortadores-de-gargantas e pedintes vagueavam pelas estradas.
Os Irlandeses, que eram chamados de selvagens,
foram empurrados para uma guerra de nove anos.
E para a rainha,
a dist�ncia entre a mitologia do seu corpo eterno
e a realidade enrugada, tornou-se mais evidente.
Inevitavelmente, os pensamentos come�aram a virar-se para o seu sucessor.
E todos sabiam quem deveria ser,
Jaime, filho de Maria, rainha dos Escoceses.
No final, ser� que foi Maria, rainha dos Escoceses, a m�e,
que triunfou do t�mulo sobre a sua rival, Isabel?
No entanto, Isabel tinha um conforto:
Jaime havia sido criado como um protestante,
for�ado a renegar a sua pr�pria m�e depois da sua desgra�a.
Mas, mesmo assim, ele era filho de Maria,
fruto do �tero dela e n�o do de Isabel.
Isabel morreu em 1603,
quase meio s�culo depois daquele dia debaixo do carvalho,
t�o suavemente como uma ma�� que cai de uma �rvore, algu�m disse,
e quando as suas roupas interiores foram retiradas do seu corpo,
viu-se que ainda combinavam com os contornos de uma virgem,
cintura fina, ancas pouco largas, membros longos.
Era um corpo que, de acordo com alguns,
n�o preenchera o prop�sito para o qual Deus o moldara.
Devia ter-se juntado a um marido,
para fazer germinar a sua semente
e dar posteridade a ele e ao pa�s.
Ela n�o fez nada disto.
Mas ningu�m no seu perfeito ju�zo achava que ela tinha falhado com o seu povo.
Tinha sido apenas diferente.
Quando o anel que unira Isabel ao seu pa�s
foi finalmente removido do seu dedo,
foi levado 650 km para norte,
para a Esc�cia.
Passava assim a simbolizar um novo casamento,
desta vez entre duas na��es.
Isabel e Maria Stuart nunca se conheceram.
Foi s� com Jaime I que as duas mulheres foram finalmente reunidas,
mais pr�ximas na morte do que alguma vez foram em vida.
Houve uma velha e curiosa brincadeira que circulou na d�cada de 1560,
que dizia que todos os problemas delas teriam sido resolvidos
se Maria e Isabel se tivessem casado uma com a outra.
E de certa forma, foi isso que fizeram.
Pois pelo menos, depois de um pre�o terr�vel e de tanta dor,
tiveram juntas um beb�.
Era uma coisinha pequenina com um grande nome:
Magna Britannia,
Gr�-Bretanha.
Tradu��o e legendagem: lemirone e FragaCampos @ docsPT
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