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Acho que podemos come�ar com uma pergunta geral:
- Como funciona a mem�ria? - Claro.
Pode come�ar.
- J� posso come�ar? - Claro.
A mem�ria funciona basicamente para reproduzir,
por assim dizer, mas n�o no sentido de um gravador de v�deo
para relatar a outra pessoa
o que vimos ou ouvimos.
Voc� pode pensar: "Por que n�o � t�o simples
como apertar um pequeno interruptor
e reproduzir uma fita como um videocassete?"
Porque a reprodu��o n�o � muito precisa.
O que realmente fazemos � construir.
Voc� tem algumas pe�as do quebra-cabe�a e as coloca na mesa,
mas h� muitas lacunas.
A mem�ria abomina essas lacunas.
N�o queremos um quebra-cabe�a incompleto.
Ent�o a partir de infer�ncias, de suposi��es
e da incorpora��o de informa��es de outras pessoas,
essas pe�as s�o literalmente criadas e preenchem as lacunas.
Eu sabia que n�o faria um filme sobre todo o caso,
porque era muito grande.
Da pr�xima vez que algu�m lhe perguntar
o que voc� viu ou o que lembra de ter visto,
todas as pe�as estar�o l�.
As que voc� viu e as que voc� criou.
Est�vamos tentando fazer um document�rio sobre confiss�o falsa.
Acho que o pa�s est� aprendendo
que confiss�es n�o s�o o que pens�vamos que fossem
- ou o que quer�amos que fossem. - Certo, sim.
E deveria nos incomodar
que existam pessoas na pris�o...
ADVOGADO DO ROBERT
que est�o l� injustamente.
E voc� � uma delas.
Existem alguns obst�culos, como convencer o espectador
de que as confiss�es s�o falsas, para come�ar.
E ouvir aquela pergunta: "Como uma pessoa confessa um crime que n�o cometeu?"
Por que n�o perguntar � pessoa que confessou?
OS ASSASSINATOS DA LOJA DE IOGURTE
Quando comecei esse caso,
me deparei com cerca de 2 mil pistas diferentes
e precis�vamos investig�-las.
Ent�o em 1999,
come�amos a trabalhar na pista do Maurice Pierce.
Tinha coisas que n�o estavam resolvidas sobre ele
e quando o Maurice foi preso em 1991
no shopping com a arma,
cerca de 10 dias ap�s os assassinatos,
em algum momento da noite,
Hector Polanco levou o Maurice a uma sala para interrog�-lo.
No in�cio da grava��o, foi dito algo como:
"Vamos rever o que conversamos."
N�s conversamos
e voc� j� falou sobre isso uma vez, mas quero que fale de novo.
� muito importante que voc� esteja confort�vel
e, at� agora, tudo o que eu disse para voc�,
n�o foi mentira.
- Certo? - Sim, senhor.
- E ningu�m amea�ou voc�, certo? - N�o, senhor.
Voc� p�de ir ao banheiro,
- tomar refrigerante e tudo mais? - Sim.
Tudo bem.
Vamos come�ar do come�o.
Esse interrogat�rio, que provavelmente come�ou por volta da meia-noite,
continuou at� o pessoal do turno do dia come�ar a chegar.
O John Jones era a principal pessoa designada para o caso.
O Polanco saiu e disse:
"Est� bem, esse � o Maurice.
Ele est� reconhecendo envolvimento no caso da loja de iogurte."
Ent�o o John Jones tomou uma declara��o escrita separada
de Maurice Pierce.
FORREST E EU PEGAMOS ROB E MIKE
FORREST E EU FOMOS AO SHOPPING
Quando estava analisando esse caso,
eu vi a declara��o escrita que o John Jones tomou
e quando eu estava analisando o resto das evid�ncias,
encontrei essa grava��o e ouvi
o que o Maurice Pierce tinha dito
pouco antes do John Jones tomar a declara��o do Maurice
e n�o � a mesma coisa.
Voc� estava dirigindo seu carro.
E o que aconteceu �s 10h30 quando voc� chegou l�?
Eu estava no banco de tr�s.
O Forrest tamb�m estava, nem lembro direito.
E voc� estacionou o carro atr�s, no...
O que tinha atr�s, onde voc� deu r�?
Arbustos, o riacho e v�rias pessoas festejando.
A hist�ria escrita s� envolve o encontro com o Forrest
no estacionamento do shopping Northcross,
mas naquela grava��o a hist�ria envolve
as pessoas do riacho.
Sabe o riacho atr�s daquele pr�dio grande?
- O riacho Shoal? - Sim.
Envolve ele no carro dele com o Forrest
em um complexo de apartamentos
onde, logo abaixo daquele estacionamento,
tem um lugar no riacho
onde as pessoas se re�nem
e as chamamos de pessoas do riacho
porque elas se re�nem no riacho.
Era s� um lugar para fugir de todo mundo e se esconder.
Era um lugar onde beb�amos ilegalmente,
mesmo sendo menores de idade, sem sermos pegos.
Esse era o ponto de encontro e era isso que faz�amos.
Com 15, 16 anos, ou seja l� qual fosse minha idade,
beb�amos demais para a nossa idade,
mas era l� que est�vamos naquela noite.
Acho que estacionamos e o Mike ficou l� atr�s.
Eu, o Forrest e o Rob sa�mos.
Eu sentei no porta-malas do carro.
O Forrest foi at� aqueles caras, falou sobre a arma e come�ou a gir�-la.
Que caras?
Aquele tal Mac. Ou Mace.
- Mac ou Mace? - �.
Voc� disse que estavam girando a arma?
Sim, estavam girando a arma.
E o cara que a estava girando...
- Era o Mace. - Descreva o Mace.
Voc� disse antes que ele parecia um skinhead?
Sim, por causa do cabelo raspado e tal.
Certo. O que mais ele disse a voc�?
Ele s� disse que foi quando atiraram nela. Atiraram na cabe�a dela.
- Quem atirou? - Ele disse que eles atiraram.
Ent�o fale o nome de quem atirou em quem.
Voc� disse "eles".
- O Forrest e o Mace. - O Forrest?
Certo. E depois?
Ele disse que incendiaram os corpos.
O Forrest lhe contou que incendiaram os corpos?
- Sim. - Certo.
Ele n�o comentou nada sobre o que usou para atear o fogo nos corpos?
N�o, senhor. Ele s� disse que gostou de v�-las queimarem.
Que termo ele usou para "queimar"?
Ele usou a palavra "queimar".
Ele disse: "Gostei de ver aquelas garotas queimarem."
O John Jones justificou que n�o considerou o Maurice um suspeito
porque nem mesmo o Hector Polanco conseguiu faz�-lo confessar.
E o Polanco consegue fazer at� pessoas inocentes confessarem.
O Maurice n�o confessa na fita,
mas afirma que o Forrest lhe contou coisas muito espec�ficas
que aconteceram durante a pr�tica do crime.
Ele disse que deu um tapa em uma garota porque ela estava com um sorriso no rosto.
Ela estava com um sorriso no rosto?
O Maurice n�o disse essas coisas ao John Jones
quando ele tomou a declara��o.
Evidentemente, o John Jones nunca soube da hist�ria
que o Maurice contou ao Hector Polanco.
E o Hector Polanco nunca se preocupou
em ler essa declara��o escrita
e ver que era diferente da hist�ria que ele tinha ouvido.
Sempre que algu�m conta uma hist�ria
e primeiro conta uma vers�o e depois conta outra,
voc� para at� descobrir por que as hist�rias s�o diferentes.
O Hector Polanco, em algum momento,
ficou com uma m� reputa��o.
E n�o tenho certeza se o Jones se importou
com o que o Maurice contou ao Polanco.
Tenho a impress�o de que ele n�o confiava em nada do que o Polanco dizia.
Se eu estivesse investigando,
acho que qualquer um gostaria de saber
se ele havia contado uma vers�o diferente da que havia acabado de contar.
Eles botaram uma escuta no Maurice
e disseram algo como: "Forrest n�o sabia do que estava falando,
n�o tinha ideia do que estava acontecendo."
E tamb�m interrogaram o Robert Springsteen e o Michael Scott...
ROBERT, 17 ANOS MICHAEL, 17 ANOS
porque eles tamb�m estavam no carro.
O Mace apareceu?
N�o.
Est� bem...
Estou confusa com esse tal Mace. Desculpe, s� estou tentando...
Porque quando o Polanco pegou o Maurice com uma arma no shopping,
ficou sozinho com ele por cinco horas e saiu sabendo que o Maurice havia dito
que o Mac Ludin estava envolvido.
A� quando o Jones o interrogou no dia seguinte,
o Mac Ludin n�o estava mais envolvido,
ent�o eu me pergunto quem � esse cara?
Certo.
Voc� est� assumindo algumas coisas.
Mace ou Mac. Eles o chamaram de Mace ou Mac.
Ningu�m o chamou de Mace.
MAC LUDIN PESSOA QUE FREQUENTAVA O RIACHO
O Maurice mencionou voc�, ou algu�m parecido com voc�,
em um interrogat�rio ap�s ele ser preso.
Algu�m chamado Mac, a� ele fala "Mace" e depois diz Mac de novo.
Eu vou colocar para voc� ouvir.
Tem algo a dizer sobre isso?
Como � fazer parte disso 31 anos depois?
Sim, estou tentando pensar
em por que o Maurice mencionou meu nome.
Porque eu duvido
que ele soubesse nossos nomes
naquela �poca.
Obviamente, meu nome era Mac
e esse era o nome pelo qual me chamavam. Eu n�o era chamado de Mace.
N�o sei de onde isso surgiu,
mas �ramos alvos f�ceis.
As pessoas sabiam que nos reun�amos l� e ele n�o sabia meu nome
nem os nomes de outras pessoas de l�,
mas havia um grupo de pessoas e eram elas que...
estou fugindo do assunto.
�.
�.
A hist�ria do Maurice sempre foi
que o Forrest pegou a arma dele
e provavelmente cometeu o crime.
Mas eu achei mais prov�vel que o Maurice fosse o autor dos assassinatos.
Achei isso um pouco suspeito.
T�nhamos essas declara��es divergentes,
a da grava��o que eu j� tinha ouvido
e a que foi escrita em 1991,
e eu queria saber
o que ele alegava ser a verdade
naquele momento.
Ent�o conversei com ele na casa dele.
Essa declara��o escrita foi tomada de voc� � tarde.
Essa grava��o provavelmente foi de quando estavam conversando com voc�
na noite anterior.
O resumo disso � que voc� n�o estava no shopping Northcross,
ficou no shopping Northcross
e o Forrest saiu e voltou mais tarde.
Mas voc� dirigiu seu carro
at� os fundos do centro comercial onde fica a loja de iogurte.
H� uma ponte sobre o riacho.
O Forrest se encontrou com outras pessoas
e depois foi l� e cometeu os assassinatos.
Em outras palavras, � um cen�rio totalmente diferente.
Sim, � totalmente diferente do que diz aqui.
- Isso mesmo. - Certo.
� muito importante descobrirmos que declara��o � verdadeira
ou se nenhuma delas � verdadeira. Qual � a verdade?
Certo, n�o me lembro bem daquela noite.
Era s� mais uma noite para n�s, porque s� est�vamos nos divertindo.
Tudo o que costum�vamos fazer era ir ao shopping,
sair com os amigos, curtir e beber cerveja.
Me preocupa muito
que em algum momento da sua vida
voc� tenha dito algo assim sobre um incidente muito, muito s�rio,
contando detalhes.
As pessoas n�o esquecem esse tipo de coisa.
Voc� vai lembrar para sempre desse tipo de coisa.
Eu n�o lembro de muita coisa.
Isso era algo que eu s� queria esquecer e acho que acabei bloqueando.
Foi isso.
Al�m do Forrest,
ele disse que estava com o Michael Scott e o Robert Springsteen naquela noite.
Acabei entrando em contato com cada um deles por telefone
e perguntei:
"O que voc� fez naquele dia?"
Cada um me contou uma hist�ria,
todas envolvendo as outras tr�s pessoas,
e cada uma tinha vers�es diferentes sobre o que fizeram.
N�o consegui inocent�-los nem aceitar o �libi deles.
Os �libis eram eles pr�prios e as vers�es eram diferentes.
Mas todos mencionaram ter ido a San Antonio
na noite seguinte aos assassinatos.
Estavam todos juntos naquele Pathfinder roubado.
E todos se lembraram
que pararam em algum lugar no caminho e compraram um jornal.
Enquanto dirigiam, algu�m leu o artigo sobre os assassinatos na loja de iogurte.
Adolescentes em um carro roubado, dirigindo para ver uma tal namorada
e parando para comprar o jornal de domingo, para come�ar,
� meio suspeito para mim.
Ent�o come�amos a trabalhar para descobrir tudo o que pud�ssemos
sobre esses caras.
O John Jones os descreveu como caras sem namoradas
que ficavam no shopping Northcross
vendo as garotas, basicamente.
Para come�ar, achei estranho que os quatro tivessem sa�do juntos.
Eles se conheciam, mas n�o pensava que sa�am juntos.
Eu n�o sabia que eram grupo.
Eu nunca tinha feito essa liga��o
at� conhecer o Forrest mais tarde e saber que ele sa�a com o Maurice.
O Forrest era um cara meio quieto.
Ele gostava de trabalhar mexendo em carros.
Ele ajudava no que fosse preciso.
Ele sempre pareceu um cara gentil,
sem nenhuma pretens�o,
s� um cara legal.
Ele era o �nico que tinha um ambiente familiar est�vel,
mas era um seguidor
e a pessoa que ele seguia
era o Maurice.
Ach�vamos que �ramos os garotos mais legais
do bairro.
O Maurice e os caras dele achavam que eles eram os mais legais.
E, sim, n�o gost�vamos uns dos outros.
O Maurice Pierce sempre foi considerado o l�der.
Ele sempre tinha acesso a um carro.
Ele tinha um carro da pol�cia antigo com uma luz.
�, eu achava muito legal.
Ele era um trambiqueiro.
Ele era algu�m que roubaria o cachorro de uma pessoa,
esperaria um pouco e depois o devolveria em troca de uma recompensa.
N�o tinha moralidade nenhuma.
Eu tinha medo dele.
- Ele era assustador. - Agora n�o tenho medo,
mas tinha um pouco de medo.
Tamb�m tinha o Michael Scott e o Rob Springsteen.
Eles tinham vidas familiares destru�das.
Eram jovens que queriam ser especiais de alguma forma
e a �nica maneira de conseguir isso era sendo maus.
Conheci o Michael Scott no meu 1� ano do ensino m�dio.
Ele usava camiseta, cal�a jeans
e tinha cabelo comprido como um maconheiro.
A m�e dele n�o morava muito longe
e trabalhava durante o dia.
Eu matava aula para fumar droga na casa da m�e dele.
E tinha o Robert.
O Robert era assustador.
- Assustador para caramba. - Para caramba.
O esquisit�o dos esquisit�es.
Eu vendia cogumelos a ele.
- Vendia? - Sim.
Ele parecia aquelas pessoas
que tentam te mostrar o pinto no estacionamento.
Sim.
- Desculpe. Mas ele parecia. - Parecia.
� dif�cil imaginar que eles tenham feito algo assim.
Mas tem uma quest�o
sobre o tipo...
de apar�ncia que as pessoas passam e quem "poderia"
ter cometido os assassinatos.
� bem perigoso entrar no m�rito
sobre quem poderia cometer um crime,
qualquer tipo de crime, mas em especial um assassinato.
Nosso plano era conversar com as pessoas que estavam no riacho naquela noite
para ver se elas confirmavam ter visto o Maurice l� em cima,
ter visto o carro dele e ele fazendo algo que ele havia dito
ao Hector Polanco que tinha feito.
Ent�o chamamos um de cada vez.
- Voc� conhecia o Maurice? - Conhecia.
De onde?
De vista.
N�o gost�vamos um do outro.
Recebi um telefonema perguntando: "Ei, voc� pode nos ajudar com isso?
Sabemos que voc� estava por perto.
Talvez tenha visto algo."
E eu disse:
"Claro, farei o que puder para ajudar. Vou at� a�."
Meu primeiro pensamento foi: "Por que demoraram tanto?
Por que n�o nos interrogaram?"
�ramos jovens punks daquela regi�o.
Nos reun�amos naquele local o tempo todo.
Voc� se lembra do Rob descendo at� l�?
Eu nem sei quem � esse cara.
Lembra do Michael Scott?
N�o.
Voc� n�o tem certeza se algu�m desceu l�?
N�o tenho certeza.
Eu saberia se o Maurice tivesse ido l�, porque ele � muito falador.
Voc� viu o Forrest Welborn l�?
Eu n�o me lembro.
- � poss�vel que o tenha visto? - � poss�vel.
Enquanto voc� estava no riacho,
o Maurice chegou, estacionou l� em cima
e o Forrest...
Saiu do carro e desceu l�.
E o que o Maurice fez?
Ele foi embora.
Ent�o ele s� largou o Forrest.
S� o largou e foi embora.
- E foi embora. - Sim.
Como conseguimos meio que confirmar
a hist�ria que o Maurice contou ao Polanco,
seguimos em frente para o Forrest Welborn.
Eu volto aqui daqui a uns 15 minutos.
Era 6 de dezembro, uma sexta-feira.
Voc� se lembra?
N�o, senhor.
Me diga o que voc� lembra.
A primeira vez que ouvi falar dos assassinatos na loja de iogurte
foi quando est�vamos em um Nissan Pathfinder roubado
indo para San Antonio.
Um cara tinha um jornal. Foi a primeira vez que ouvi falar disso.
Certo.
Ele sabia sobre os assassinatos no caminho para San Antonio, n�o sabia?
- N�o sei se sabia. - Por que ele compraria o jornal?
Eu n�o pensei em nada disso.
N�o tenho nada a ver com essas quatro garotas.
Sabe?
- J� sei que o Maurice disse que fui eu. - Voc� n�o quer nos ajudar?
J� ouvi isso muitas vezes. Odeio-o profundamente pelo que ele disse.
Pergunta simples:
Voc� n�o vai me dizer, correto?
N�o sei o que dizer a voc�s.
Eu contei tudo o que sei.
Eu n�o matei as quatro garotas.
Eu n�o sei quem as matou
e gostaria de saber para poder contar,
de verdade.
- Tchau. - Tchau.
Sempre esperei que esse caso fosse resolvido
e �s vezes voc� nunca sabe se ele ser� resolvido
at� que voc� o resolva.
Nunca tive a sensa��o de que est�vamos no caminho certo
at� ap�s o primeiro dia de interrogat�rio do Michael Scott.
Bom, o que vamos falar hoje vai te levar de volta
a 1991.
Vou ser sincero com voc�s,
tenho uma p�ssima mem�ria.
Um dos motivos de estarmos aqui � para lhe ajudar a lembrar.
O que foi fazer em San Antonio?
Fui para Helotes, Texas, para ver minha namorada na �poca.
Onde voc� a conheceu?
Eu estava num acampamento de m�sica.
Eu tocava em orquestra
e ela tamb�m.
Ent�o n�o entrou na loja de iogurte naquela noite de 6 de dezembro?
N�o entrei nem estive perto desse pr�dio naquela noite.
S� estive no shopping.
O que voc� est� fazendo consigo mesmo � se colocar numa situa��o dif�cil,
cavando um buraco cada vez mais fundo.
Estou quebrando a cabe�a tentando lembrar...
N�o est�, Mike. Voc� n�o est� fazendo nada disso.
- N�o d� para tr�s, tem algo a nos contar. - N�o estou dando para tr�s.
Voc�s fizeram muitas lembran�as virem � tona.
N�o me lembro de ter ouvido um estrondo alto.
Eu lembraria disso.
O que voc� lembra?
Lembro deles entrando, ficando pouco tempo e saindo.
Olhei em volta para garantir que n�o havia ningu�m por perto.
De quem foi a ideia?
O qu�?
Quem decidiu fechar a loja de iogurte?
De quem foi a ideia?
Ideia?
Isso outra vez.
Entrou nesse seu modo indiferente.
Quanto tempo voc� acha que vai aguentar?
Voc� precisa de um tempo para pensar bem.
Porque essa pr�xima fase vai chegar muito r�pido.
De quem foi a ideia?
- Do Maurice. - Certo.
O que ele disse?
Lembro que o Maurice disse algo sobre precisar de dinheiro.
- Lembra de ter visto a loja de iogurte? - Lembro.
Quem mais estava no carro?
Eu,
o Robert,
o Maurice
e o Forrest?
Quem entrou?
Acho que o Maurice.
Vamos, Mike, seja claro. Voc� est� quase l�.
- Agora entendo o que aconteceu comigo. - Pode falar.
Nossa.
- O que eu fiz? Bloqueei isso na mente? - Talvez.
- Vamos ajudar voc� a desbloquear. - Assim espero.
Assim que conseguimos que o detetive come�asse a redigir a confiss�o dele,
enviamos alguns detetives para Virg�nia Ocidental
para tentar falar com o Robert Springsteen.
Ele tinha voltado para Virg�nia Ocidental
duas ou tr�s semanas ap�s os assassinatos para morar com a m�e.
Ent�o fomos falar com ele na delegacia local.
Foi em 6 de dezembro.
Voc� se lembra?
Acabamos indo ver The Rocky Horror Picture Show naquela noite.
Certo.
Era algo que eu fazia quase duas vezes por semana, todas as semanas,
quando estava l� nas sextas e s�bados � noite.
Era o meu entretenimento.
Voc� ficaria surpreso se eu dissesse que o The Rocky Horror Show
nem sequer foi exibido naquela noite,
na sexta-feira, 6 de dezembro de 1991?
- Sim, eu ficaria. - S�rio?
Voc� acharia estranho,
Sr. Springsteen, que houvesse muitas inconsist�ncias
no que voc� disse ao detetive?
Possivelmente.
N�o me lembro de alguma vez ter pisado a menos de 90 metros da loja de iogurte.
E essa � a pura verdade.
- N�o � a pura verdade. - Ent�o me ponha num detector de mentiras.
N�o quero fazer isso.
Mas voc�s est�o dizendo que n�o acreditam em mim.
Mas sabemos que esteve na loja de iogurte.
- Provem. - Tudo bem.
- Eu odeio dizer isso, mas... - Dizemos isso porque j� provamos.
- Por isso estamos aqui. - Como?
Por testemunhas oculares.
Estou muito confuso com tudo porque acho que a minha vers�o
do que aconteceu e a vers�o de todos os outros
s�o coisas totalmente diferentes.
Eu n�o entendo isso.
Achei que t�nhamos ido ver The Rocky Horror Picture Show,
mas eu...
descobri que n�o estava sendo exibido naquela noite,
ent�o � tecnicamente improv�vel que tenhamos ido ver
o The Rocky Horror Picture Show.
Voc� est� tentando achar um jeito de sair dessa.
- E n�o h� nenhuma sa�da. - Bom, ent�o...
O problema � que voc�...
Quais s�o as nossas op��es?
- Nossas op��es... - N�o posso dar mais verdades que j� dei.
- O que vai ser agora? - Por que n�o pode?
Porque voc� vai acabar se envolvendo nisso?
Voc� j� est� envolvido. Voc� j� cavou o buraco.
O buraco est� l�.
Bem, ent�o estou envolvido. Eu n�o sei.
� o que eu estou dizendo a voc�s. Meu Deus, isso foi h� sete anos.
Mas essa � uma das coisas mais significativas
- que j� aconteceram na sua vida. - � o que estou explicando.
Se eu estivesse l� e tivesse participado disso,
lembraria dessas coisas.
E voc� n�o lembra dessas coisas?
N�o, n�o lembro.
Voc� � o cara mais frio com quem j� conversei na vida.
- Voc� � um assassino de sangue frio? - N�o, senhor, n�o sou.
Eu acho que voc� �.
Talvez o Maurice precisasse de dinheiro
e quisesse fazer algo.
E de repente talvez tenha ficado louco
e feito tudo o que ele fez.
E isso chocou muito voc�.
N�o posso dizer que isso � verdade, porque n�o tenho certeza...
- Voc� sabe. - Se � verdade. N�o, eu n�o sei.
Sabe, sim,
porque voc� estava l�.
Voc� assistiu.
Oi, meu bem.
N�o sei por quanto tempo mais vou ficar aqui.
Parece que eu tenho mais informa��es sobre isso do que pensava.
Eu te amo.
Nos falamos daqui a pouco. Tchau.
N�o vou mais dizer que n�o, porque voc�s t�m uma hip�tese convincente
e estou come�ando a lembrar de algumas coisas.
Eu s� queria ter...
Voc� s� precisa derrubar essa parede,
abrir a porta, sair e dizer: "Eu vi o Maurice fazer algo."
Mas voc� precisa ser bem expl�cito.
Todos os interrogat�rios com Michael Scott e o interrogat�rio com Robert Springsteen
foram volunt�rios.
Estavam livres para sair quando quisessem.
N�o acredito que tenha entrado por aquela porta
esperando qualquer coisa do que aconteceu.
N�o me entenda mal. N�o acredito nisso.
Acho que quando come�ou a sair do controle
voc� ficou muito assustado
e apavorado.
Na verdade, acho que dei o fora de l�.
Para dizer a verdade sobre o que houve, pensando bem...
Fale sobre isso.
Lembro de uma garota gritando, apavorada.
Certo.
N�o sei se isso � real ou n�o, ou se �...
Michael, � real.
O Maurice l� parado com uma arma na m�o.
O que ele disse?
Ele disse: "Me d� a porra do dinheiro
ou eu mato todas voc�s."
Alguma merda desse tipo.
Eu n�o lembro exatamente o que foi dito.
- N�o me fizeram atirar nelas, fizeram? - Fizeram?
Fale, quero ouvir. Eles fizeram?
Eu acho que sim.
- Voc� acha que sim? - Eu acho que sim.
O que voc� fez?
Eu a matei.
O que ela estava fazendo quando voc� atirou nela?
Rastejando.
Acho que eu matei algu�m.
Tamb�m acho que matou.
Tem o direito de ficar em sil�ncio e n�o dar nenhuma declara��o.
Tudo o que disser poder� ser usado contra voc� no seu julgamento.
- Voc� entendeu? - Sim.
O Departamento de Pol�cia de Austin e a promotoria do Condado de Travis
dizem que a investiga��o deles terminou com sucesso.
Depois de quase oito anos, a pol�cia prendeu quatro suspeitos.
Isso � o que milhares de pessoas em Austin esperaram quase oito anos para ouvir.
Em 6 de dezembro de 1991,
n�s, como cidade, perdemos a inoc�ncia.
Hoje, como comunidade,
esperamos poder enfim iniciar o processo de cura.
Devo dizer que estou extremamente orgulhoso
dos membros desse departamento de pol�cia.
Essas pris�es foram resultado de quase oito anos de trabalho �rduo,
mas � um esfor�o que n�o terminar�
at� que o j�ri apresente um veredicto de culpado.
Esse n�o � o fim do que temos tentado fazer, � s� o come�o.
Tamb�m � importante
que essas quatro pessoas
possam ter
um julgamento justo e bom.
Todos n�s j� falamos sobre isso.
Sentimos que nossas vidas estavam s� come�ando a voltar a um estado
relativamente normal, n�o como foi por tantos anos.
Mas agora vai come�ar tudo de novo.
Vamos come�ar o 6 de dezembro de 1991 de novo.
Se voc� pudesse parar o tempo e voltar ao b�sico,
logo depois que aquelas garotas foram mortas...
MIKE HUCKABAY DETETIVE DE HOMIC�DIOS
n�s identificamos os suspeitos.
Os quatro caras.
Eu volto no tempo.
Aqueles caras que pegamos.
Eles fizeram aquilo.
Parecia algo bom. Eu peguei a camisa.
INVESTIGADOR PRINCIPAL
Beleza.
Huck e eu est�vamos conversando.
Ele disse: "S� tenho a confiss�o." E eu respondi:
"S� isso?"
"Sim, s� de dois deles."
� uma confiss�o.
� como um banquinho de duas pernas. N�o vai ficar em p�.
Precisa da terceira perna.
Qual � a terceira perna?
A prova.
Depois de oito anos e sem nenhuma evid�ncia f�sica
que ligasse qualquer um dos quatro homens aos assassinatos,
por que a pol�cia de Austin se concentrou neles?
Como adultos, os quatro levavam vidas tranquilas,
com empregos e fam�lias.
A irm� de Maurice Pierce.
� dif�cil falar sobre isso, n�o �?
Por qu�? Me conte.
RENEE REYNA IRM� DO MAURICE PIERCE
Porque tiraram a vida dele.
�s vezes penso na pena de morte e n�o consigo acreditar...
n�o me permito acreditar que ele possa ser condenado.
H� quanto tempo voc� est� aqui?
Dois meses.
Alguma vez pensou que estaria aqui?
N�o.
A �nica coisa que t�nhamos contra o Forrest
era que ele foi c�mplice de um roubo qualificado.
N�o t�nhamos nenhuma hip�tese nem para suspeitar
que ele tivesse a inten��o de ser c�mplice de um assassinato.
Acho que o Forrest n�o fez nada. Acho que ele era s� o vigia e fugiu.
Em um ato surpreendente...
Algum coment�rio, Forrest?
O juiz liberou Forrest sob fian�a.
Tudo bem.
Estou tentando n�o ficar...
muito animado com a ideia de n�o ser indiciado,
porque n�o sei o que acontecer� no futuro.
O Forrest Welborn recebeu uma oferta de acordo.
Eles o teriam deixado em paz se ele testemunhasse
contra os outros tr�s caras e ele disse: "N�o, n�o farei isso. N�o vou mentir."
Foi o que ele disse. "N�o vou mentir sobre algo assim."
Um grande j�ri indiciou Robert Springsteen,
Michael Scott e Maurice Pierce.
Os tr�s ser�o julgados por homic�dio de primeiro grau.
Se condenados, Springsteen e Scott enfrentar�o a pena de morte.
Todos voc�s entraram em contato com seus pr�prios advogados, correto?
- Sim, correto. - Est� bem.
Em um caso de pena de morte,
h� sempre um fardo enorme,
porque muito depende...
ADVOGADO DO ROBERT
da sua representa��o.
Ele viver�? Ele morrer�? Voc� far� o trabalho corretamente?
Voc� cometer� um erro?
E com o Robert,
devido � natureza da confiss�o dele e �s declara��es que ele fez,
eu tinha d�vidas reais
se conseguir�amos lutar
por um veredicto de inoc�ncia.
Ela falou com voc�?
Sim ou n�o?
Se voc� considerar que gritar � falar, acho que sim.
As palavras do pr�prio acusado foram:
"Eu fiz isso."
E ele falou para uma c�mera de v�deo.
Mas quero que voc�, por um momento,
imagine o estresse que ele estava sentindo ao fazer essa declara��o.
O medo, a incerteza, a subitaneidade,
tudo contribuiu para a declara��o do Springsteen.
Porra, voc� sabe como a estuprou, fale!
Enfiei meu p�nis na vagina dela e a estuprei.
Sempre tentei ser muito imparcial
para que, quando um caso me fosse apresentado,
eu tentasse me livrar de qualquer emo��o e coisas do tipo.
Nosso trabalho � s� descobrir quais s�o os fatos.
No caso do Michael, comecei com a confiss�o escrita dele.
Comecei a ler
e lembro de ter chegado
talvez � p�gina tr�s ou quatro
e j� foi demais para mim.
Foi avassalador ler aqueles detalhes horr�veis do estupro
das garotas e das mortes delas.
N�o consegui fazer uma leitura objetiva.
Meu ponto de vista tendencioso na �poca
era que as pessoas n�o confessam algo que n�o fizeram.
Tive que deixar aquilo de lado para analisar objetivamente o caso.
Ent�o guardei-o por cerca de um m�s.
Busquei saber de tudo sobre as cenas do crime.
E voltei para a confiss�o.
Quando comecei a ler, pensei: "Espere um minuto.
Isso n�o aconteceu, isso tamb�m n�o e isso � totalmente impreciso.
Por que ele contou tanta coisa errada?"
Essa confiss�o claramente n�o condiz
com a cena do crime.
H� um livro sobre pr�tica de interrogat�rio.
Eu tenho todos eles.
Esse livro se chama Criminal Interrogation and Confessions, 4� edi��o.
Ele � considerado a B�blia da pr�tica de interrogat�rio nos Estados Unidos.
O M�TODO REID
Por meio de extensa pesquisa e anos de experi�ncia,
John Reed and Associates desenvolveu um processo de interrogat�rio
de nove etapas.
AS NOVE ETAPAS DO INTERROGAT�RIO DE REID
Esses caras s�o criticados por psic�logos sociais
porque dizem:
"O m�todo que eles est�o ensinando aqui pode levar a confiss�es falsas."
Os passos n�mero dois e n�mero sete
s�o os mais essenciais do processo de interrogat�rio.
"D� ao suspeito uma justificativa psicol�gica
para cometer o crime.
Sugira ao suspeito um motivo bom e um motivo ruim
para que possamos facilitar para ele a primeira admiss�o de culpa."
O maior problema do Michael era que ele confiava na pol�cia.
Ambas.
Ou estou mentindo
ou n�o me lembro.
Essas s�o as duas �nicas op��es que tenho.
Posso excluir a "n�o me lembro".
N�o estou tentando mentir para voc�s.
Ele diz: "Pessoal, ou n�o me lembro ou ent�o estou mentindo."
Tinha uma terceira op��o.
Qual � a terceira op��o?
- Eles est�o mentindo. - Isso.
Mas ele n�o considerou isso porque n�o acreditava que eles mentiam.
At� o Springsteen disse:
"Eu poderia jurar que fui ver The Rocky Horror Picture Show."
Achei que t�nhamos ido ver The Rocky Horror Picture Show,
mas eu...
descobri que n�o estava sendo exibido naquela noite.
"Acho que eu estava errado."
"N�o, na verdade n�o estava.
Voc� estava certo.
Eles mentiram para voc�."
Esse cara diz que n�o tem problema mentir.
Esse � o problema desse m�todo.
A pol�cia usa t�cnicas que n�o tem ideia de como s�o poderosas.
Porque se voc� tem um suspeito
que acredita em voc� e voc� mente para ele...
"Voc� � a figura de autoridade.
Acredito em voc�. Por que voc� mentiria para mim?"
Foi o que houve com o Michael Scott, mas n�o � s� isso.
Reed diria: "Eles usaram algumas t�ticas nossas,
mas fizeram tudo o que dissemos para n�o fazerem."
Foi essa arma que voc� usou para atirar?
Foi com essa a arma que voc� chegou atr�s de algu�m e atirou na cabe�a?
Al�m dos nove passos,
tem algumas coisas que diz aqui:
"N�o fa�a essas coisas, porque se voc� fizer,
isso pode levar a uma confiss�o falsa.
N�o pode amea�ar as pessoas.
N�o prometa nada �s pessoas.
N�o alimente falsas teorias sobre a mem�ria."
Primeiro voc� precisa entender como funciona a mem�ria.
A mem�ria abomina lacunas.
N�o queremos um quebra-cabe�a incompleto.
Ent�o a partir de infer�ncias, de suposi��es
e da incorpora��o de informa��es de outras pessoas
que voc� passou a acreditar serem sensatas,
essas pe�as s�o literalmente criadas e preenchem as lacunas.
Ent�o, por exemplo, eles perguntam:
"H� algo na sua mente, Michael?
Isso se chama revivifica��o."
Revivifica��o significa que voc� construiu um videocassete na sua cabe�a
e tudo o que voc� faz no seu subconsciente � gravado.
"Voc� pode reproduzir de novo se quiser.
Podemos extrair isso da sua mente."
Ent�o quero que voc� diga: "Foi isso que o Maurice falou."
Ele acreditou nisso,
ent�o se tornou um exerc�cio de tentar extrair mem�rias que ele acreditava ter.
"Michael, voc� me disse que achava que as garotas estavam amarradas."
"Voc� pensou". A palavra-chave � "pensou".
Para pular de: "Voc� acha que elas estavam amarradas?" Para...
Com o que elas estavam amarradas?
� uma sugest�o muito sutil,
mas est� l�.
E o Mike come�ou a dizer:
"Acho que talvez com um cadar�o."
"Qual �, Mike? Voc� sabe que n�o era com um cadar�o. Era com o qu�?"
Eu quero responder: "Com extens�es,
com a camiseta e com fios el�tricos."
- Guardanapos? - N�o, guardanapos n�o.
- N�o d� para amarrar com guardanapo. - Por favor.
Quando ele enfim acerta a resposta, falam: "Isso, Mike, � isso a�."
Usei as roupas delas para amarr�-las.
Voc� e o Rob usaram as pr�prias roupas delas.
E quando terminaram, o que elas estavam vestindo?
Diga.
- Nada. - Nada!
E o que aconteceu?
Ele come�ou a misturar essas lembran�as.
A mente j� n�o sabia mais o que era falso e o que n�o era.
E esse � o problema.
� assim que voc� cria lembran�as falsas
que podem levar a uma confiss�o falsa.
Boa noite, obrigada pela audi�ncia.
O julgamento de Robert Springsteen por homic�dio qualificado est� ocorrendo.
As provas foram apresentadas hoje.
Tinha um anel que uma das garotas usava, bem como uma fivela de cinto.
A coisa mais dif�cil de ver foi uma foto da cena do crime de Amy Ayers
que a mostrava deitada de bru�os dentro da loja de iogurte.
Os familiares desviaram o olhar.
A promotoria nos avisou que em determinados dias
eles mostrariam fotos da cena do crime
e n�s dissemos que estar�amos l�.
Normalmente, o protocolo � que os pais n�o estejam l�.
Eu disse: "N�s estaremos."
Havia 14 pessoas no j�ri.
BOB AYERS PAI DA AMY
Se eles conseguiriam aguentar, pensei que n�s tamb�m conseguir�amos.
Eles n�o s� a estrangularam...
PAM AYERS M�E DA AMY
como tamb�m deram coronhadas
e atiraram duas vezes.
Foi uma pessoa muito fria.
Fizeram isso com uma crian�a.
E eles acham que parte disso foi porque Amy estava tentando fugir.
Ent�o a quest�o �: "Ela foi a primeira? Ou a �ltima?"
Tudo isso passa pela cabe�a.
E eu sei que coisas piores acontecem com as pessoas,
mas elas n�o s�o nada minhas.
Eu fui aos julgamentos.
Foi uma experi�ncia muito estranha,
porque lembro de olhar e pensar: "Parece uma pessoa comum."
Voc� tem a imagem de que algu�m com chifres vai entrar
e, em vez disso, entra uma pessoa de apar�ncia simples.
ROBERT SPRINGSTEEN R�U
Olhei para ele e ele olhou para mim.
N�o havia nada l�. Era gelo.
Era claro.
Estou te dizendo, os olhos dele eram como gelo.
E eu tive calafrios.
Foi a primeira vez que eu vi o mal.
Vou ler um trecho de um di�rio que mantive
durante esse julgamento por homic�dio qualificado.
Acho que o guardei porque meio que queria...
MIKE LYNCH JUIZ DO TEXAS
algum tipo de registro.
Mas, mais do que isso, foi meio terap�utico.
JUIZ MIKE LYNCH
"O caso da loja de iogurte criou um n�vel
de tens�o e escrut�nio
extremo at� mesmo para um caso de pena de morte."
Ser�o evid�ncias gr�ficas,
coisas que voc�s n�o v�o querer ouvir nem ver.
N�o h� nenhuma evid�ncia f�sica
que ligue o Sr. Springsteen a esse crime.
A �nica evid�ncia
que chegou perto de indicar que talvez o Michael tinha feito algo
foi uma testemunha que chegou dizendo:
"Ele falou algo como: 'Eu fiz isso.'"
Num dos dias em que fui ao tribunal,
havia uma jovem.
Ela tinha uma tatuagem enorme de ombro a ombro
e usava um top tomara que caia.
Eu pensei: "Quem � essa garota?"
A amiga do Mike Scott
era uma garota punk rock de 13 anos
em 1991 e ela foi testemunha.
AMANDA STATHAM TESTEMUNHA DE ACUSA��O
Lembro que o Michael estava andando de um lado para o outro na nossa sala de estar
e eu disse: "Cara, pode falar comigo. Sou sua amiga."
N�s dois est�vamos olhando para o quintal.
Ele disse: "Eu fiz isso."
Me diga o melhor que puder lembrar
como ele lhe disse isso.
Ele disse: "Eu matei aquelas garotas." Ou...
Estou tentando lembrar a semana toda.
N�o consigo lembrar as palavras exatas.
Lembro que ele disse: "Eu fiz isso."
E...
s�.
� tudo t�o vago.
Foi h� oito anos e eu n�o tinha come�ado a conectar as coisas
at� quarta-feira de manh�,
quando recebi o papel e pensei: "Puta merda."
Lembro que ele me contou coisas bem detalhadas,
mas n�o lembro exatamente o que
e nem como acho que sei dessas coisas.
� tudo t�o vago.
Ela falou que o Mike disse a ela:
"N�s as estupramos e as matamos. Bl�, bl�, bl�.
Foi uma loucura. Bl�, bl�, bl�."
Ela parecia algu�m da periferia,
mas quando falou no tribunal, ela se expressou bem.
Ele confessou a ela.
Isso � forte.
Era uma garota falando aquilo
oito anos ap�s o fato
e eles n�o tinham nada para comparar.
Quais s�o os detalhes?
Ele... como assim?
"Ele disse que fez isso." N�o � grande coisa.
Se olhar as provas contra aqueles homens,
a acusa��o n�o tinha nada.
"A defesa tentou apresentar o depoimento de um especialista em mem�ria
sobre como a mem�ria funciona e como a persuas�o e a insinua��o,
sob certas circunst�ncias, podem fazer as pessoas se lembrarem
de coisas que n�o vivenciaram.
A defesa queria que o j�ri ouvisse como uma pessoa razoavelmente normal
p�de ser convencida, por um interrogat�rio policial comum,
de que havia cometido um ato horr�vel,
apesar de ser absolutamente inocente."
Mas o especialista em mem�ria queria testemunhar
mais coisas que eu achava que a lei permitia.
Ent�o tentei encontrar
um ponto em que ele pudesse ser �til sem ultrapassar os limites.
Acho que talvez eu sentisse que queria lev�-lo mais em conta,
mas, por lei, n�o deveria,
ent�o acho que isso me incomodou.
Como saber se uma confiss�o � verdadeira ou falsa?
N�o d� para saber, por isso temos j�ris.
E os j�ris precisam fazer esse julgamento, mas eles devem saber
como essas coisas funcionam.
Eles devem saber que existem certas t�cnicas,
certos procedimentos que a pol�cia usa,
que aumentam a probabilidade de confiss�es falsas.
Eles devem saber disso.
MICHAEL SCOTT R�U
Por um tempo, pensei que tivesse algo a ver com esse crime.
� estranho, porque, mesmo agora,
ainda me questiono e penso: "Ser� que eu tenho algo a ver com isso?"
Eles realmente ferraram comigo.
A abordagem que eu estava adotando
desde o in�cio com essa ideia de confiss�o falsa
era que o Mike era algu�m que se convenceu
de que tinha assassinado aquelas garotas.
Conversamos com um especialista que disse:
"Esse caso do Michael Scott � um daqueles casos
que v�o te tirar o sono,
porque n�o � assim que essas t�cnicas de interrogat�rio deveriam funcionar,
mas elas s�o poderosas
e produzem resultados como esse.
Elas tamb�m produzem resultados menos interessantes,
resultados psicologicamente menos interessantes,
ou seja, voc� tamb�m ter� outro tipo de confiss�o falsa,
que � aquela confiss�o s� para dar o fora da sala."
ROBERT SPRINGSTEEN R�U
Nem preciso dizer que eu nunca mais faria isso.
Foi uma coisa absolutamente est�pida de se fazer,
mas foi a �nica coisa que me ocorreu fazer naquele momento.
O que n�o parava de passar pela minha cabe�a era:
"Esses caras entenderam algo totalmente errado em algum momento.
Preciso sair dessa sala. Preciso procurar um advogado.
Preciso falar com um advogado
e resolver tudo isso."
Diziam que eu podia sair, mas estavam sentados em frente � porta.
Acho que quando come�ou a sair do controle
voc� ficou muito assustado
e apavorado.
Na verdade, acho que dei o fora de l�.
Para dizer a verdade sobre o que houve, pensando bem...
Foi mencionado
que as confiss�es foram feitas sob coa��o,
ent�o n�o eram verdadeiras.
N�o � assim que eu autentico uma confiss�o.
O que determina se a confiss�o � verdadeira
� se ela revela alguma informa��o
que n�o se saberia de outra forma
e que n�o haveria outra forma de descobrirem essa informa��o.
Ela estava de cabe�a para baixo? Ela estava de p�?
- O que ela estava fazendo? - Acho que ela meio que de bru�os.
Meio que de bru�os,
foi isso que voc� disse?
Tipo, �, tipo...
Ele indicou a posi��o do corpo da Amy.
A posi��o do corpo nunca havia sido revelada a ningu�m, em lugar nenhum,
e ningu�m saberia disso, a menos que estivesse estado l�.
N�o podia nem descrever a posi��o para outra pessoa representar.
Al�m disso,
cada confiss�o confirma coisas das outras confiss�es.
Ele estava fazendo algo com ela, estava estuprando ela por tr�s.
E voc� estava tentando ficar duro para fazer sexo com a garota.
Sim, mas n�o consegui.
N�o conseguiu. Voc� chegou a praticar o ato?
Voc� tentou estupr�-la, mas n�o praticou o ato?
- N�o pratiquei o ato. - Certo, muito bem.
O Maurice fez sexo com uma delas?
Sim, fez.
E o Mike?
Acho que ele tentou, mas n�o conseguiu.
- Ele n�o conseguiu ficar duro? - N�o.
N�o � mais como naquela �poca.
Essa � a �rea logo atr�s da porta dos fundos,
onde havia prateleiras
e os corpos estavam bem ao lado das prateleiras.
N�o havia essa parede aqui. Tudo isso est� totalmente diferente.
Coloquei uma em cima da outra.
E joguei tudo em cima delas.
E depois o que aconteceu?
Eu ateei fogo.
Mas n�o foi assim que o fogo come�ou.
CARLOS GARCIA ADVOGADO DO MICHAEL SCOTT
O fogo n�o come�ou nos corpos.
Isso teria sido praticamente imposs�vel.
O que a pol�cia sabia em 1991
era que o fogo havia come�ado nas prateleiras.
O fogo cria padr�es quando queima.
H� algo chamado padr�o V,
que � parecido com isso.
O fogo queima aqui,
mas se estiver pr�ximo a uma parede, voc� ver� um grande V.
E esse padr�o V est� na parede do freezer
e na parede lateral.
O investigador de inc�ndios tinha dito a eles em 1991
que o fogo come�ou nas prateleiras.
Voc� se certificou de colocar bastante fluido para isqueiro em todas as garotas?
Depois de todo aquele interrogat�rio,
o Michael Scott diz que o fogo come�ou nas garotas,
o que n�o se encaixa.
O Paul Johnson sabe disso.
Ent�o eles chamaram um especialista em inc�ndios da ATF
para ir dizer ao j�ri
que o fogo come�ou nas garotas.
Toda vez que voc� recebe algo, uma confiss�o,
que n�o � bem como voc� imaginava,
voc� volta e pensa:
"Ser� que � verdade?"
Anda estava vendo duas deitadas e uma deitada assim.
Ele me disse para empilh�-las e queim�-las.
Quem te disse isso?
Quem foi esse filho da puta que te disse isso?
O Maurice.
Fomos consultamos nosso especialista e ele declarou num relat�rio
que o fogo n�o s� poderia,
como definitivamente come�ou nos corpos.
Ent�o conforme o fogo aumentava onde os corpos estavam,
incendiou as coisas nas prateleiras.
Est� dizendo que mudar�amos isso para corresponder �s confiss�es?
N�o.
Est�vamos s� verificando se aquilo poderia ser verdade.
"Al�m das quest�es factuais para o j�ri,
havia v�rias quest�es jur�dicas significativas para o tribunal.
Primeiramente,
a admissibilidade da declara��o do pr�prio r�u.
A quest�o mais dif�cil envolvia a admissibilidade
das declara��es do co-r�u."
Nesse caso, o Springsteen estava sendo julgado
e o Scott havia invocado a Quinta Emenda.
Ele ainda n�o tinha sido julgado e n�o estava disposto
a depor no caso do Springsteen
e responder a quaisquer perguntas.
A defesa diria:
"N�o posso interrogar Scott sobre essa declara��o,
ent�o ela n�o deve ser apresentada."
N�o podem usar essas confiss�es um contra o outro
porque voc�s t�m o direito da Quinta Emenda
de n�o se incriminar e n�o testemunhar.
Voc�s t�m o direito ao confronto, da Sexta Emenda.
Ent�o se voc� me acusa de um crime,
ent�o tem que comparecer ao tribunal, sob juramento,
me olhar na cara
e testemunhar sobre por que voc� acha que eu fiz isso.
O Robert tinha o direito de n�o testemunhar
e n�o pod�amos chamar o Scott para depor
porque ele tinha o direito da Quinta Emenda de ficar calado.
Ent�o isso � um erro constitucional gritante.
O que eu fiz foi eliminar tudo que se referia a qualquer outra pessoa,
menos o que o Scott estava admitindo ter feito.
Na declara��o que permiti, n�o havia absolutamente nenhuma refer�ncia
a qualquer outro indiv�duo envolvido nesse crime.
Era s� o Scott dizendo: "Eu fiz isso, eu fiz isso e fiz aquilo."
"Ap�s estudar a lei, acho que tomei a decis�o mais sensata poss�vel.
Se for considerado errado por um tribunal superior,
que assim seja."
N�o escondi nada
ao dizer ao juiz que achava que o julgamento havia sido injusto
em praticamente todos os aspectos.
Quando a confiss�o escrita do Mike Scott chegou numa tarde de sexta-feira,
o Robert se inclinou na minha dire��o
e sussurrou: "Sou um homem morto."
E eu disse: "Sim, Robert, voc� �."
O r�u, por favor, levante-se.
N�s, o j�ri, consideramos o r�u, Robert Springsteen IV,
culpado do crime de homic�dio qualificado,
assinado pelo presidente do j�ri.
E nesse momento, Sr. Springsteen,
o tribunal o sentencia � morte.
Foi um dos piores dias da minha vida como advogado.
Foi horr�vel.
Voc� pensava que seria �timo,
mas foi horr�vel.
Eu estava no tribunal.
Eu e minha m�e est�vamos tremendo
e chorando,
n�o porque eu gostasse dessa gente, eu n�o gosto,
mas ele ia morrer.
Aquele homem ia morrer
e tamb�m ter�amos sangue nas nossas m�os.
O errado?
N�o, agora n�o.
N�o, sinto muito.
- Acabou. - Era isso que voc� queria, Barbara?
Bem, queremos algum tipo de final.
- Como se sente? - Parece um passo na dire��o certa
para levar esses homens � justi�a.
Hoje j�ri do Condado de Travis levou menos de tr�s horas
para condenar Michael Scott � pris�o perp�tua.
Pedimos ao j�ri que considerasse a pena de morte.
Eles ouviram as evid�ncias e decidiram
que a pris�o perp�tua era apropriada.
Quando os veredictos sa�ram, fiquei muito feliz.
Claro que os veredictos num caso criminal precisam ser un�nimes,
ent�o n�o tinha ningu�m entre os 24 jurados
que tivesse qualquer d�vida
de que aqueles eram os suspeitos certos.
O Maurice era o terceiro,
ent�o ir�amos julg�-lo em seguida,
mas isso nunca aconteceu.
O promotor do Condado de Travis anunciou que n�o buscar�
um julgamento por homic�dio na investiga��o de Maurice Pierce.
O que levou o promotor Ronnie Earle a desistir
antes mesmo do julgamento come�ar?
As evid�ncias mostram
que Maurice Pierce � culpado.
S� n�o temos provas suficientes para provar a culpa dele.
Achei que n�o t�nhamos provas suficientes para garantir uma condena��o
porque o Maurice nunca confessou.
Cercado pela esposa e pela filha de 10 anos,
Maurice Pierce est� livre e n�o precisa mais esperar seu dia no tribunal.
Quando fui detido e preso,
declarei que era inocente
de todas as acusa��es feitas contra mim
e estou aqui hoje declarando a mesma coisa.
Maurice Pierce, voc� � um homem livre.
- Como se sente estando livre agora? - Feliz.
A pol�cia de Austin divulgou um comunicado
enfatizando que Pierce n�o foi absolvido
e que a investiga��o continua.
N�o esque�a,
a investiga��o inicial deles se concentrou no Maurice Pierce.
Eles acreditavam que ele era o l�der, o c�rebro por tr�s de tudo aquilo.
A �nica raz�o pela qual o Michael e o Robert entraram em cena
foi por causa do Maurice Pierce.
Ele � o foco central de tudo isso.
Quando ele foi solto,
sempre foi com a inten��o
de continuarmos atr�s dele.
N�o temos provas para conden�-lo agora...
PROMOTOR CONDADO DE TRAVIS
mas a vida � longa.
Acho que h� mais evid�ncias por a�.
Acredito que h� outras pessoas
que sabem coisas muito espec�ficas
sobre o que aconteceu dentro e ao redor da loja de iogurte naquela noite
que ainda n�o descobrimos.
PRIS�O DO CONDADO DE TRAVIS
Em mar�o de 2008, recebemos uma liga��o do gabinete do juiz dizendo:
"Voc� pode vir nos encontrar agora?"
Quando chegamos l�, os promotores disseram:
"Estamos fazendo mais testes de DNA e encontramos um perfil completo."
Nossas evid�ncias incluem o DNA de um homem
cuja identidade ainda n�o conhecemos.
Perguntas.
O DNA n�o pertence ao Michael.
E nem ao Robert Springsteen.
N�o � de nenhum desses quatro homens.
Ent�o voc� tem que explicar de onde isso veio.
Bem, veio do assassino.
Legendas: Winicius Sturm
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