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Original subtitles

Sempre me senti em casa quando no passado.

Porque, o que é o presente senão uma interminável cadeia de memórias?

Algumas delas estão vertidas em pedra.

Somos todos herdeiros dessas memórias,

e cuidamos delas da melhor maneira possível.

Tudo para podermos transpor seus significados para o futuro.

Mas às vezes coisas acontecem

e elas nos são roubadas.

Em Mosul, numa questão de horas,

os membros do ISIS destruíram o trabalho de séculos.

E quando chegaram à cidade de Palmira,

onde a cultura dos Gregos, Romanos, Persas, Árabes e Judeus

se fundiram e diluíram,

temia-se que a mesma coisa acontecesse.

Aqui em Genebra, algumas peças de Palmira foram salvas,

roubadas antes que a violência começasse,

salvas à custa de contrabandistas que tentaram vendê-las.

Como esse busto de um sacerdote.

Seus olhos arregalados, não têm nada de morto,

nos encaram de uma vida em outro lugar.

Estes semblantes adoravelmente esculpidos dos mortos, pilhados de suas tumbas,

terminaram no exílio, mas salvos para a posteridade.

Salvar a arte remanescente em Palmira, porém,

pode ter tido um preço terrível.

Khaled al-Asaad, curador chefe de Palmira,

tinha 81 anos quando o ISIS tomou a cidade.

E quando seus soldados exigiram que ele revelasse

onde os tesouros de Palmira estavam escondidos, ele se recusou.

Eles o decapitaram num teatro Romano,

suspenderam seu corpo mutilado num semáforo,

a cabeça entre seus pés...

com uma placa identificando-o como diretor da idolatria.

Ou digamos, protetor daquilo que precisa ser salvo,

acalentado, anunciado como obra da civilização.

Muitos de nós passam os dias falando sobre arte.

Duvido que a maioria esteja preparada para morrer por isso,

mas para Khaled al-Asaad, as pedras e colunas de Palmira

era mais do que um simples amontoado de antiguidades.

Ele não precisava de um certificado da UNESCO para convencer-se

da importância de Palmira como um lugar único e universal.

Ela existe para os crentes e os infiéis, para o Ocidente e o Oriente,

e de algum modo coube a ele

ser o guardião daquela herança.

Podemos passar muito tempo debatendo o que a civilização é ou não é,

mas quando o seu oposto aparece em toda a sua brutalidade, crueldade,

intolerância e apetite por destruição,

sabemos o que a civilização é.

Sentimos a partir do choque da sua perda iminente

como uma mutilação no corpo de nossa humanidade.

O registro da história humana está repleto de exemplos da fúria por destruição.

Mas também estampado com o instinto oposto:

criar coisas que vão além da busca por sustento ou abrigo,

coisas que nos fazem enxergar o mundo e nosso lugar nele

sob uma luz diferente.

Somos um animal artístico,

e isso foi o que fizemos.

Quando isso começou,

aquele instante de criação,

o amanhecer da criatividade humana?

Onde começou?

Deve ter começado na África

onde os primeiros Homo Sapiens surgiram há 200.000 anos.

Na Costa do Cabo da África do Sul,

arqueólogos encontraram evidências de habitação humana

cerca de 100.000 anos atrás.

Numa destas cavernas, foi isso que descobriram.

77.000 anos de idade,

um pedaço de pedra ocre, um mineral rico em ferro,

marcado com padrões de diamante.

As marcas decorativas mais antigas já encontradas.

O padrão talvez fosse um tipo de linguagem

ou um tipo de marcação numérica,

mas fica difícil imaginá-las como servindo a qualquer necessidade funcional

relacionadas com abrigo ou sustento.

Representam um esquema,

um projeto que proclama o início da cultura.

Passaram-se outros 40.000 anos e no sudeste da Espanha

e numa colina cônica tão estranha que parece ser obra humana,

aquele mineral, aquele ocre, tornou-se pintura.

Nas profundezas da caverna,

marcas rudimentares florescem e se multiplicam, círculos vermelhos.

Sem pincéis, sem apoio para as mãos,

estas pinturas foram feitas oralmente,

cores umedecidas na boca com saliva

e sopradas diretamente sobre a rocha.

E depois, estas,

uma erupção de desenhos agora pintados, não borrifados.

Contornos, esboços, linhas com pontos cadenciados.

Há um significado aqui, mas não sabemos qual é.

Os sinais de uma compulsão biológica por padrões,

é o que nós humanos fazemos,

que queremos fazer,

que não conseguimos parar de fazer.

E por fim, isso.

E num instante milhares de anos se comprimem

e nos vemos cercados por outros humanos.

Suas mãos fazendo o que as mãos fazem,

acenando de muito tempo atrás,

distantes 37.000 anos, na verdade.

Mas essa saudação distante de certa forma nos conecta

com os autores disso porque eles estabeleceram uma presença

de vividez palpável.

Surpreendentemente, estampas de mãos como estas foram encontradas em cavernas

em lugares tão díspares como na Indonésia e Patagônia.

Para onde quer que fôssemos, parece que o impulso de sinalizar uma presença foi conosco.

E, é óbvio, estas mãos estampadas fizeram

o que quase toda arte que se seguiu aspira atingir.

Primeiro, elas desejavam ser vistas por outras pessoas

e desejavam perdurar para além da vida do autor.

Como nas primeiras fotografias,

as imagens aqui são desvanecidas, indistintas,

mas uma coisa incrível está acontecendo:

a consciência de que podemos, ainda que rudemente, retratar.

Em outra caverna mais a oeste nas Astúrias,

há 20 min de caminhada daqui,

existem imagens que são tudo menos grosseiras.

Isso foi uma duplicação do mundo, uma cópia da vida,

e executada com uma precisão surpreendente de técnicas de desenho.

Eles até entendiam de modelagem,

detalhes anatômicos posicionados na rocha irregular da caverna.

E havia muitas cores,

não apenas o humilde vermelho ocre, mas violetas e pretos.

E todas estas técnicas parecem estar presentes desde o início,

milhares de anos atrás.

Quando pensamos na técnica, ficamos admirados

porque decorre sobretudo de um exercício de memória.

Eles precisariam guardar na mente detalhes anatômicos exatos

e depois transpô-los aqui nas paredes da caverna.

E também, enquanto isso era feito,

eles conseguiram preservar milagrosamente a vitalidade desse animal.

É realmente uma das grandes maravilhas

da repentina expansão da mente humana.

Foi no final do século 19

que imagens como estas começaram a ser descobertas.

As primeiras, e por muitos anos as mais famosas,

estavam nas cavernas de Altamira, também no norte da Espanha.

Pinturas extraordinárias de bisões, um bando deles,

dormindo, deitados, de pé.

À medida que o número de cavernas pintadas aumentava,

ficou claro que arte e música vieram ao mundo juntas,

uma vez que instrumentos musicais foram encontrados.

Chifres...

flautas feitas de ossos de abutres,

e, ainda mais surpreendentes, rombos,

um pedaço de madeira atado a um cordão que quando girado sobre a cabeça

produz este estranho som.

Experiências recentes com tais instrumentos sugerem

que a relação entre pintura e música não foi acidental,

que são elementos relacionados em rituais sagrados.

Uso programas para testar a acústica do lugar.

Geramos esta onda senóide de varredura

e usamos isso para capturar a acústica da caverna.

Podemos procurar relações entre som e pintura.

As primeiras pinturas estão nestes cantos

onde só cabe uma pessoa.

As pinturas posteriores estão nos salões maiores,

áreas onde algumas pessoas poderiam se reunir,

onde o som soa mais dramático.

Podemos comparar estes espaços com uma catedral ou um templo.

São lugares para onde as pessoas vinham em momentos sagrados

com todo seu imaginário, rituais e música.

Um lugar subterrâneo,

onde se pode parar o tempo,

onde se pode pausá-lo e ter um momento especial,

ficar fora do tempo, viajar para outro lugar.

A pintura é o som.

A criação do som, a criação da música,

seja o que for que acontecia neste ritual sagrado,

está na pintura.

A pintura é o que restou daquela atividade.

Antropólogos e arqueólogos nos dizem

que quase todas as pinturas da era do gelo

tem algum tipo de função ritual extracorpórea,

e que, portanto, não deveriam ser encaradas como arte.

Embora a religião tenha sido o propósito primário da arte

por milhares de anos.

Na África, os animais que dominam as pinturas rupestres

vêm acompanhados de humanos.

Aparecem estilizados, figuras alongadas.

Às vezes aparecem durante sua transformação em feras.

Homens com cabeça de antílopes,

criaturas que nunca foram vistas na natureza,

mas que aparecem no transe imaginário dos xamãs.

Na África, esses híbridos foram pintados.

Na Europa, onde existem poucos exemplares,

eles são tridimensionais.

Em 1939, os fragmentos deste homem-leão,

esculpido em marfim de mamutes, foram encontrados numa caverna Alemã.

Permaneceram um quebra-cabeças sem solução por 30 anos

até que os arqueólogos perceberem que formavam uma única figura,

criada entre 35.000 e 40.000 anos atrás.

Talvez seja um xamã no meio de sua transformação.

Talvez seja o primeiro dos deuses-animais

ao redor do qual as religiões pagãs construiriam suas mitologias.

Talvez a criação de tais objetos fosse em si mesma um ofício sagrado.

Para ver quanto trabalho foi necessário para criar um homem-leão,

o arqueólogo Wulf Hein tentou criar uma réplica

usando ferramentas e materiais autênticos.

Sem uma presa de mamute,

ele usou uma peça de marfim de elefante legalmente obtida.

Comecei a trabalhar em toda a presa

e depois peguei uma pedra grande e martelei esse pedaço,

e eu suava demais

porque se eu a estragasse seria um desastre.

A parte mais trabalhosa do processo

foi fazer os braços

porque tive que usar uma ferramenta muito pequena

e fazer sulcos como este por baixo, dentro do marfim,

raspar e raspar por vários dias

raspando e raspando.

Tive bolhas nas mãos e todos os dedos doíam.

Foi um trabalho pesado.

Comecei em Abril

e terminei no meio de Julho.

Trabalhava por cerca de quatro, cinco horas por dia.

Já no fim, levei cerca de 400 horas, aí parei de contar.

Acho que foi um verdadeiro artista que fez isso.

Ele era sustentado por sua comunidade para somente produzir arte.

Se você fizer isso o verão inteiro ou o inverno inteiro,

você não pode caçar, pescar, não pode fazer mais nada

porque trabalha o dia inteiro nisso.

Devia ter um enorme significado para as pessoas que o criaram.

E estas deviam estar investidas de significado também.

Pequenas figuras personificando eventos da vida primitiva

como parto e procriação.

Mães-terra grávidas cheias de fertilidade,

enormes seios distendidos e nádegas.

Tão poderosamente elementares que parecem falar diretamente

aos artistas modernos quando as viram pela primeira vez.

O mais moderno deles, Picasso,

disse a um amigo que nenhum escultor conseguiu superar

um entalhador do Paleolítico.

Ele comprou uma cópia dessa, a Vênus de Lespugue,

e a mantinha em seu estúdio.

Ele foi tocado pela espiritualidade arcaica?

Não.

Ele era mundano e secular,

mas sentiu uma grande comunhão com os criadores da arte física.

Existem traços dessa comunhão em várias de suas obras.

Apesar dos rumores, não existe evidência concreta

de que Picasso tenha visitado as pinturas rupestres de Altamira

ou visto pessoalmente as pinturas extraordinárias dos bisões

que aquelas cavernas contém.

Mas ele era obcecado por animais,

um deles em particular,

não o bisão, mas seu primo, o touro,

um animal a quem recorria várias vezes.

Terá sido mera coincidência?

Gostava de chamar a si mesmo de primitivo moderno,

e naquelas imagens, lampejos das imagens nas cavernas,

ele encontrou, cogitava, um manancial

de tudo que era realmente criativo

no instinto artístico.

Assim ele prestou à arte rupestre o elogio supremo

ao fazer coisas muito similares.

Observou o touro

e produziu esta bela imagem de um touro, fogoso, impulsivo,

tão semelhante ao original de Altamira

que poderíamos considerar uma cópia estudada.

Depois ele produziu outras dez cópias,

touros desenhados com seu enorme repertório de estilos,

do naturalismo carnudo,

do clássico Cubismo,

até o ligeiro delinear de um touro que, convenhamos, não passa de um par de chifres

e daquela outra coisa que os touros sempre precisam.

A sequência expressa sua admiração

para a genialidade dos pintores das cavernas,

sua crença de que seja antigo ou moderno,

a mão do pintor, a mão do artista, nunca muda.

E devo dizer que concordo com Picasso.

Podemos andar por salas como esta

que preserva o estilo do século 19 nas exibições dos museus:

abundância.

Conforme vagamos por entre estas mesas,

não só de minúsculas ferramentas talhadas, mas de marfim e ossos,

decoradas com imagens surpreendentes de pássaros e equinos,

não podemos evitar de pensar instintivamente

contra a sabedoria dos eruditos quando afirmam

que nenhuma destas coisas deveriam ser consideradas artísticas.

Para mim, a última palavra neste debate

pertence a uma minúscula peça em particular:

La Dame de Brassempouy.

A dama de Brassempouy,

encontrada numa caverna no sul da França em 1892.

Ela tem entre 22.000 e 25.000 anos de idade.

Nesta cabeça feminina exaustivamente talhada,

temos, pela primeira vez,

uma coisa imensamente importante.

Temos a revelação da face humana.

Ela é diminuta, cabe na palma da mão.

É primorosa.

Existem cortes verticais e laterais,

talhos e cinzeladas, polimento e debastagem.

Todo tipo de habilidade foi utilizada

para dar a ela o que chamamos de personalidade.

Por exemplo, uma depressão é feita abaixo da testa

para sugerir a presença de olhos.

Aqueles olhos assombrosamente vívidos.

Transformam-se em olhos apenas quando incide uma sombra

sobre aquela região.

Ela seria manipulada sob a luz

quando então uma sombra incidiria

sugerindo os olhos, aquele belo nariz

e esse cabelo extraordinário da nuca ao pescoço.

Bom, não deveríamos dizer isso, nós, amadores neste campo,

não deveríamos falar que é arte,

não deveríamos falar em coisas como

o nascimento de uma sensibilidade refinada.

Mas vou falar assim mesmo.

Não me importa o quão anacrônico possa parecer.

Nesta minúscula peça de Brassempouy

parece que temos, bem na nossa frente,

o despontar da ideia de beleza.

Mas beleza não põe a mesa.

O lento crescimento das civilizações dependia, a princípio,

de aspectos práticos:

a domesticação de animais e colheita de grãos.

O mais antigo cultivo de trigo teve lugar

às margens do Rio Jordão há cerca de 10.000 anos.

As civilizações começam pequenas,

dependem da invenção de coisas indispensáveis:

vasos de cerâmica para cocção, consumo e armazenamento.

Escavações no Iraque nos anos 1920 e 1930

revelaram como a irrigação intensiva das planícies

entre os rios Tigre e Eufrates permitiram

o surgimento das primeiras cidades do mundo.

Há cerca de 5.000 anos,

cidades com milhares de habitantes, como UR e URUK,

estavam produzindo arte que refletia a autoimagem dos poderosos.

Neste painel de UR

incrustado em betume

mostra as cenas que mais importam.

Marcha de soldados,

gôndolas de guerra,

e no verso, convivas da corte

com o rei retratado maior do que seus sacerdotes e cortesãos,

ranqueando abaixo as classes serviçais, trabalhadores e joalheiros.

É um mundo social completo,

e surgiu com a escrita.

Estas escrituras geralmente registravam assuntos administrativos,

mas às vezes contam histórias de heróis e deidades.

Os animais continuam a fornecer modelos para deuses e monstros.

Esta cabra deslumbrante, também de UR, reúne materiais de lugares distantes.

Conchas brancas do Mar Vermelho,

lápis lazuli do Afeganistão,

e a laminação do ouro foi obra dos ourives locais.

Cerca de 4.500 anos atrás,

nas ilhas a leste do Mediterrâneo,

migrantes da Ásia ocidental semearam as primeiras civilizações Europeias,

a cultura dos Minoanos.

Suas ruínas estão por toda a Creta e nas ilhas do Mar Egeu.

Isso deve ter sido uma vila de pescadores.

Quase podemos ouvir o burburinho.

Protegida pelo mar nos dois lados, mas intimamente apinhada.

Até mesmo aqui as pessoas precisavam dominar as habilidades

que qualquer assentamento fixo requer:

como ser sociável.

Mas civilização requer mais do que manter os vizinhos felizes.

Na própria Creta, encontramos ruínas de grandes cidades

onde as ruas ainda marcam seus caminhos,

abrindo-se para grandes praças,

espaços de cerimônia e pompa,

para rituais e política.

O estilo da cultura Minoana espalhou-se pelo Mar Egeu

até ilhas como a Santorini.

Uma erupção vulcânica destruiu a cidade portuária de Akrotiri

perto de 1627 a.c.,

mas as cinzas preservaram os murais encontrados aqui

em todo o seu vívido realismo.

Evocam os fantasmas de uma civilização marítima

com seus clamores e glamoures, seu pulso comercial.

Estes passageiros não estão indo para a vida após a morte,

fazem travessias e excursões festivas.

E na terra que deixam para trás temos ruas

com casas assobradadas,

e nas mais ricas, pinturas decorativas

do tipo que os consumidores vão desejar para sempre.

Esta é a primeira arte social que o mundo já viu.

Aqui temos belos jovens boxeando.

Aqui colhedores de açafrão.

Andorinhas.

Uma eterna primavera trazida para a sala de estar.

Um esporte dominava a cultura Minoana: salto ao touro.

Rapazes, talvez garotas também, saltando sobre um touro em plena carga.

Argumenta-se que isso era perigoso demais

para ser verdade,

que a arte captura um mito, uma fantasia.

Porém, no Museu Britânico,

temos esta pequena escultura de bronze

que pulsa com tanta energia natural que parece verdadeira.

O que me leva a considerá-la como fisicamente real

é o fato da peça não ser estilizada de modo algum.

Ela tem uma urgência física.

Embora o saltador tenha perdido suas pernas,

suas costas estão contorcidas, sua cabeça arremessada para trás.

E o touro, certamente é um touro em plena carga,

pernas dianteiras e traseiras tensionadas.

Os olhos, podemos ver os olhos, ardentes,

o focinho bufando e espumando perigosamente.

Por volta do século 15 a.c.,

a cultura Minoana produzia várias obras-primas pequenas.

Selos de pedra pressionados em cera derretida

ou usados como bijuteria.

Anéis de ouro, às vezes decorados com deusas ou suas sacerdotisas,

peitos nus, cinturas delgadas com saias vistosas.

A cultura Minoana era uma atração irresistível para um poder ascendente

no continente grego.

Aqui estava uma cultura que desejava cobrir sua beligerância

numa sofisticação que teria um papel vital na história Europeia:

os Messênios.

Em 2015, arqueólogos americanos estavam escavando na Grécia,

e aqui, longe de Creta, fizeram a descoberta mais importante

de artefatos Minoanos há muitos anos.

Encontraram o túmulo de um guerreiro enterrado perto do ano 1450 a.c.

Estamos na sepultura para ver os restos.

Era o corpo de um Messênico.

Impressionante.

Mas quase todos os objetos encontrados com o corpo eram Minoanos.

Este é o terceiro anel de ouro.

Quatro anéis de ouro foram encontrados no túmulo.

São requintados.

A perícia técnica em todos eles é impressionante.

E todos eles têm sua própria história para contar.

São como uma iconografia

que encontramos na Creta Minoana.

Acho que é uma lição importante para aprender

como as civilizações evoluem.

As civilizações estão constantemente emprestando e recebendo inspiração

dos seus predecessores

e daqueles que o cercam à medida que evoluem.

No total, o sepulcro continha mais de 1.500 objetos.

Havia um espelho de bronze corroído e um pente de marfim.

A vaidade fazia parte do trabalho do guerreiro.

O cabelo era ritualmente arranjado antes da batalha.

E, é claro, havia espadas.

O túmulo do Guerreiro Griffin tinha todos os artefatos

que seria de se esperar acumulados durante a vida do guerreiro.

E pela primeira vez pudemos conhecer

como um se parecia o kit completo de um guerreiro.

Um dos objetos encontrados na sepultura,

minúsculo, pouco mais de 3 cm,

estava incrustado com limo e minerais.

Depois de limpo, nos força a repensar tudo

o que sabíamos desse momento da história.

Imagens de alta resolução mostram uma realização extraordinária.

Vemos cabelos longos voando ao vento

que teriam sido penteados antes da batalha.

Espadas largadas no chão

exatamente como as espadas descobertas no local.

Mas isso é só o começo.

Esta é a primeira cena de combate de toda a arte Europeia,

e pelo que sei, em todo o mundo da arte.

Claro, há momentos de combate e batalhas em outras culturas,

mas são bidimensionais, muito estilizadas,

não transmitem o esmagar de ossos pelo bronze,

o metal, o jorro de sangue, essa faz isso.

É um filme de ação direto de 1450 a.c.

Vejam os bíceps retesados.

Os músculos.

Os corpos tensos.

O atracamento cruzado dos lutadores.

A lança que tenta empalar o corpo do inimigo

antes que seja tarde.

A espada prestes a golpear.

É 3D, pessoal. Chega até você.

E, é claro, há um corpo já morto,

perfeitamente modelado, um braço arqueado.

Homero nos fala de tais corpos

com uma mão ou o rosto contorcendo-se na poeira.

Mas Homero veio 700 anos depois.

700 anos depois. O mesmo período que nos separa da Idade Média.

Alguém com olhos de falcão já desenhava

um corpo da literatura de combate

que só apareceria nas belas invenções de Homero.

Mostra que alguma coisa acontecia na cultura Europeia.

Os Messênios idolatravam a coragem e a glória

e eles próprios, junto com os Minoanos,

passaram para a história.

Mas isso não é história,

é poesia.

Entram para o mundo eternamente.

Às vezes fazemos descobertas que transformam radicalmente

o saber existente.

Mas então outras descobertas

revelam uma cultura tão longe do curso da história

que talvez nunca a entenderemos.

Enquanto os Messênios apareciam há 3.000 anos,

uma cultura extraordinária apareceu na China central:

Sanxingdui.

Suas ruínas foram desenterradas em 1986.

As escavações revelaram centenas de presas de elefante,

os restos de animais sacrificados,

uma vasta e surpreendente abundância de máscaras.

Uma multidão de máscaras.

Máscaras gigantes

provavelmente estocadas num tipo de templo.

Máscaras minúsculas,

de fácil manuseio

que provavelmente poderiam ser usadas como decoração.

Todas elas tem olhos enormes.

Nesta, podemos ver alguns traços de tinta preta.

Eram pintadas de preto.

Sobrancelhas ressaltadas.

Olhos em forma de diamante.

Nada mais entre as descobertas da antiga China

sequer se parecem com estes rostos, estas cabeças.

O bronze é o mesmo, as figuras e rostos não são.

Nada que pudesse nos dizer algo sobre o povo

que criou estes objetos sobreviveu.

Não há escrituras, nenhuma história que nos diga quem foram eles.

Sugeriu-se que algumas dessas máscaras

talvez fossem usadas em rituais para imitar os mortos,

estes olhos enormes que enxergam além do mundo,

as orelhas que talvez ouçam o que dizem os que partiram.

Mas isso é pura especulação.

A civilização de Sanxingdui surgiu, floresceu

e depois desapareceu da face da Terra.

Civilização é sempre uma questão de equilíbrio.

Talvez hajam inimigos no portão,

talvez hajam inimigos dentro dos muros,

e às vezes o próprio lugar e o clima

nos quais a cultura se desenvolve precisam ser conquistados.

Talvez seja muito árido, haja montanhas demais,

mas aqui os cânions e ravinas tornaram-se as ruas e vias

para uma das civilizações mais espetaculares

em toda história humana.

Esta é Petra, onde a própria localização improvável

também foi o segredo do seu florescimento espetacular.

O motivo desses monumentos sobreviverem aos exércitos e terremotos

é que os Nabateus ao construí-los

cortaram a superfície de arenito das montanhas

ao invés de construir monumentos de mármore isolados.

As montanhas sacudiram com os terremotos,

mas os prédios permaneceram intactos.

Os Nabateus tinham o que se pode chamar

de instinto para ecologia cultural.

Eles trabalharam com as rochas do seu deserto doméstico.

As colunas são graciosas.

Os capitéis são fortemente decorados.

Tudo parte de um estilo Helenístico internacional,

e, mesmo assim, me parece que este lugar é bem nativo,

intransferível.

Esta é a singular Petra,

parecem dizer estes grandes prédios palacianos.

Mais impressionante ainda, este lugar foi construído por pessoas nômades

quando chegaram aqui no século 4 a.c.

Os Nabateus eram pastores de cabra, montavam camelos, moravam em tendas.

Mas pastorear e rebanhos não iriam produzir isso.

Petra foi construída com o comércio de incenso.

2.000 anos atrás,

incensos aromáticos e mirra eram essenciais

para as cerimônias e rituais que pontuavam a vida diária.

Os indescritíveis nacos e grânulos de resina seca das árvores (Líbano)

produziam essas nuvens de fumaça perfumada,

e tornaram-se um rico comércio entre a África e a Pérsia.

E aí está, as árvores que produziam a resina

só crescem numa região particular da Arábia,

e quem conhecia o deserto metro a metro,

oásis por oásis, melhor que os Nabateus?

Ninguém.

Assim os Nabateus começaram como navegantes e pilotos, se preferir,

dessa carga preciosa,

passando a fornecedores integrais,

e então pensaram, "Bom, por que não comerciamos diretamente?"

Logo monopolizaram o comércio de incenso,

os imperadores aromáticos.

Mas uma civilização aqui seria inconcebível

sem uma coisa mais preciosa do que incenso:

água.

Os Nabateus construíram sistemas para armazenar as chuvas de inverno

e sua hidráulica transformou esse lugar avermelhado

em verde vivo.

Uma cidade jardim com fontes, piscinas,

bosques e pomares.

E a água que tornou isso possível

também era fornecida para os 30.000 habitantes da cidade,

muitos dos quais eram imigrantes de todas as regiões.

Egípcios, Sírios, Judeus, Gregos e Romanos,

todos vieram para Petra

aproveitar o que os persas chamavam de pairi daiza,

um refúgio de prazer, um pouco do céu na Terra.

E todos trouxeram seus próprios estilos culturais consigo.

Muito da arte descoberta aqui foi levada para museus,

mas o que sobreviveu conta a história de parque de recreio cosmopolita.

Existem representações abstratas curiosas

de uma deusa Nabateia...

cabeças esculpidas de um culto Helenístico de Dionísio.

Escavações recentes revelaram vilas requintadas

entalhadas na rocha.

Dentro delas, murais retratando a felicidade

do mesmo culto de Dionísio,

querubins, videiras

e os inevitáveis cachos de uva.

E dos últimos anos de Petra, mosaicos bizantinos

encontrados debaixo da areia e destroços de uma igreja arruinada.

Petra teve seus dias, ou melhor, seus séculos, e se foi.

Não devido à conquistas,

mas porque novas rotas de comércio simplesmente a tornaram irrelevante.

E sem o fluxo comercial

não havia mais razão para lutar contra o deserto.

As pessoas se foram,

os sistemas hidráulicos ficaram arruinados,

e o deserto retomou a cidade.

Do outro lado do mundo, na América Central,

outra cultura lidava com um conjunto de condições ecológicas

que parecia mais hospitaleira.

Os Maias viviam na floresta tropical.

Ela parece absurdamente fértil.

E estas grandes ruínas são prova de que quando um balanço delicado

entre um próspero ambiente e a ambição comedida se mantém,

as civilizações podem criar laços entre governantes e governados,

e a cultura pode irromper numa exuberante floração.

Se retirarmos toda essa vegetação magnífica

que cresceu naturalmente neste espaço,

percebemos que isto é uma praça extraordinária,

é o centro duma cidade.

Para onde quer que se olhe, vemos estas enormes escadas de pedra,

algumas são templos, outras são tumbas,

ainda mais se pensarmos que não haviam animais de carga,

nem rodas,

então o esforço humano é o único responsável por estas grandes coisas.

Este lugar é espetacular.

O tipo de lugar que se esperaria encontrar em Roma ou na Grécia,

estas grandes pirâmides com plataformas para performances

porque isso, assim como em qualquer lugar no mundo ocidental da antiguidade,

é essencialmente um teatro urbano.

É um teatro para os poderes políticos e religiosos.

Uma estrutura como esta olha para os cidadãos abaixo

e os força a olharem para cima.

E o que viam geralmente era uma violência pavorosa,

o sacrifício em massa de prisioneiros.

E um deus em particular tinha uma sede especial...

o deus da chuva, Chaac.

O poder dos reis Maias residia na promessa

de que todo ano eles convenceriam Chaac a trazer as chuvas

das quais toda a vida depende.

A arte e arquitetura Maias eram uma prece

e uma súplica para o clima:

"Deixe-nos viver, faça com que os anos sejam frutíferos."

Apenas as partes artísticas mais danificadas

que adornavam Calakmul permaneceram aqui.

No museu de antropologia do México,

podemos ver essa arte e como a sociedade Maia funcionava.

Haviam reis feitos de carne e osso

e reis feitos de pedra,

ambos deveriam ser obedecidos.

Mas nem toda a arte Maia era gigantesca ou formal, longe disso.

Era muito variada.

Um dos florescimentos de criatividade mais espetaculares

na história humana.

Cada tipo humano tinha o seu ou a sua estatueta,

como personagens de ação e heróis de quadrinhos ou jogo.

Haviam vasos cerâmicos e murais também.

E do prazer Maia em criar imagens

surgiu uma escrita emplumada.

Escrita feita de glifos ou palavras-imagem.

Eram escritas em papel feito de casca de figueiras selvagens,

pintadas em belas peças de cerâmica ou,

como esta, esculpidas em pedra calcária.

Estavam por todo lugar nas cidades estado Maias.

Os Maias eram os mais prolixos de todas as culturas antigas.

Tanto é assim que isso,

que parece uma coisa puramente decorativa, ornamental,

um bestiário com todos esses animais,

tem um macaco,

tem um magnífico sapo complacente,

ali no meio tem um coelho assassino muito assustador,

na verdade, tudo isso são palavras que constroem um texto.

Cada glifo não é uma palavra isolada, mas na verdade uma sílaba,

e juntas compõem uma sentença, um parágrafo.

Mas neste caso, é uma data.

Sabemos exatamente que data é.

Isto é 11 de fevereiro de 526.

Em 526, a civilização Maia estava no seu auge.

Sua arte e cultura floresciam

a muitos acreditam que a mais refinada das artes Maias são encontradas

na cidade de Copan.

A cidade era o lar de uma dinastia

que durou do século 5 até o século 9,

16 reis sucessivos governaram aqui.

Uma equipe arqueológica, liderada por Bill e Barbara Fash,

vem estudando Copan por mais de 30 anos.

E eles têm encontrado isso por boa parte de suas vidas,

uma arte elegante, refinada e impressionante.

Estelas esculpidas individualmente anunciam a ascensão de novos reis.

É a obra de uma sociedade onde o equilíbrio entre ambiente

e ambição ainda estava em boa ordem.

É difícil imaginar uma realização mais vívida

do deus chuva Chaac do que esta.

Ainda intacta com os arroios de água borbulhantes que suas bênçãos trouxeram.

No século 7, o 12º governante de Copan

encomendou uma nova grande estrutura.

Esta é a escada hieroglífica de Copan.

Foi construída, originalmente, para honrar o 12º governante

retratado aqui,

e depois foi terminada pelo 15º governante

que foi acrescentado na seção mais acima.

Tem 64 degraus no total

e conta a história da dinastia

e a sucessão de diferentes governantes.

A escadaria em si é um declaração monumental.

Certamente o 15º governante tentava impressionar a população

ao cimentar em pedra

o que era a história de Copan e sua dinastia,

além de garantir que permanecesse ali para sempre.

A escadaria hieroglífica buscava impressionar as pessoas

e persuadir os deuses a continuar fornecendo chuva.

Mas ao escavar embaixo, os arqueólogos descobriram

que esta grande estrutura foi, na verdade, mal construída.

Podemos ver que estas falhas de preenchimento

indicam que é tudo pedregulho frouxo.

É um péssimo jeito de construir uma pirâmide.

O que isso nos diz é que, nesse ponto da história,

as pessoas não estavam mais entusiasmadas

em apoiar os governantes.

Embora uma escadaria deslumbrante e explícita tenha sido construída,

foi levantada em alvenaria pobre,

um castelo sobre areia,

e com o tempo iria se deteriorar

e a escadaria desabaria amontoada aos pés da pirâmide.

A escadaria que vemos hoje foi reconstruída,

mas ao seu redor podemos ver o caos do desabamento.

A escadaria foi construída quando os Maias estavam enfrentando uma seca

que duraria décadas,

e a promessa de chuva tinha sido a plataforma central da autoridade real.

Em pouco tempo, o próprio reino de Copan desabaria completamente.

Por todo o território Maia,

arte e autoridade perderam a sincronia com a realidade.

Não existe grandeza ou imponência na fome.

As pessoas viram que sua civilização

tornara-se uma armadilha mortal e fugiram,

deixando reis, cidades e arte para trás.

Voltaram à vida simples na floresta.

E seus descendentes ainda estão vivos.

Os Maias e sua linguagem perseveraram

mas bem distantes dos monumentos de pedra de seus ancestrais.

Tudo o que resta dizer é que abaixo da copa das árvores

havia uma civilização,

haviam cúpulas nas pirâmides,

mas apenas os pássaros livres

e os macacos bugios subindo no topo das árvores

poderiam ver isso.

Todas as civilizações querem o que não podem ter:

a conquista do tempo.

Constroem mais alto e maior para fugir da mortalidade.

Nunca funcionou.

Sempre há um fim.

Cidades com seus mercados, templos, palácios e tumbas

são simplesmente abandonados

e aquela grande niveladora, a mãe natureza, toma conta,

sufocando o lugar com vegetação,

cobrindo com areia do deserto.

Pode parecer então que foi tudo por nada,

mas isso está errado.

Todas estas ruínas, todos estes escombros são monumentos

à criatividade humana,

ambições humanas,

esperanças humanas.

Monumentos às mãos de modelagem e mentes de modelagem.

Monumentos à humanidade.

A Universidade Aberta produziu um cartaz grátis

que explora a história de diferentes civilizações

através de artefatos.

Para encomendar sua cópia grátis, ligue para...

ou vá para o endereço em tela

e siga os endereços para a Universidade Aberta.

Tradução xara

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