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ESTA HISTÓRIA É INSPIRADA EM FACTOS REAIS.
COMEÇA NO AMANHECER DOS ANOS 80,
DA FORMA MAIS COMUM POSSÍVEL.
Philemon...
Philemon...
Philemon.
O que se passa?
Vamos dar uma olhadela.
Não consigo, doutor.
Está sempre com dores.
Tem de fazer um esforço.
Precisa de sentir que está ali.
Aproxima-o.
UM FILME DE
À ESPERA DA NOITE
DEZASSETE ANOS DEPOIS
Vamos começar pela filosofia.
Como decidimos se algo está certo?
Esta foi uma das questões colocadas aos candidatos no último ano.
Distúrbios nos Campos Elísios em Paris.
Jovens, sobretudo bêbados,
atacaram os clientes de uma conhecida discoteca...
Philemon, emprestas-me o teu walkman?
Mais tarde, Lucie.
Não devíamos ter virado à direita no cruzamento?
Força, campeão. Isso mesmo!
Então, o que achas?
Laurence, estás a dormir?
Sim, é por aí que se vai.
Não fiquemos para trás.
Está a subir. Não queres acelerar?
Além disso, nem sequer estou barbeado. Pareço um trapo.
Estás ótimo.
Se me virem assim...
É fim de semana, George. Ninguém se barbeia ao fim de semana.
Olha, é a ponte!
Há muitas casas.
Sobretudo, há muitas árvores.
Isso é o mais importante.
E os vizinhos?
Não é que tivéssemos muita escolha.
Ainda por cima, sendo um apartamento mobilado.
Neste tipo de lugar,
se fizeres como os outros, estás seguro.
Para norte.
O teu quarto.
A garagem... Que bom.
Sim?
- Martine, boa noite. - Boa noite.
- Sou o Jean-Pierre Foucault. - Boa noite.
Do programa "Quem Quer Ser Milionário?"
Martine, este é um momento excecional com o Frédéric
- que conheces. - Sim.
É demasiado fácil, é a B.
Começa por "au".
- É o A, vê lá. - É "australopithecus", com O.
O que é "australopithecus"?
Porque é que continua?
Devia sair com os seus 2 milhões.
Bem...
Estás a brincar, é uma pechincha.
Não vai recuar perante 4 milhões.
Ao mesmo tempo, não acredito na Martine. Ela está em pânico.
- Sim. - Sim, vai falhar.
Philémon.
Quantos são?
242.
Não, vá lá.
A sério, 12.
O que vamos vestir amanhã?
Não podes aparecer de mãos a abanar.
Não sei.
Ela disse-me: "Não te preocupes, vem como estiveres."
Não te vais arrepender.
12.
De que cor?
Não sei, Lucie. Verde.
Se calhar devia fazer outra mochila para amanhã.
Calma, estás exausta.
"O teu amor é como uma rosa frágil,
cuidado com os espinhos."
O que foi?
Temos de parecer o mais normais possível neste churrasco.
As pessoas têm de achar que somos aborrecidos.
Antes não havia nada aqui. Só floresta até à estrada.
Depois nivelámos tudo e construímos a casa.
Desenhámos o jardim. A piscina, tudo isso.
Já não têm vizinhos à frente.
Não, a minha mulher não queria vista para os vizinhos da frente.
Há sempre algo melhor noutro sítio, mas aqui somos felizes.
É exatamente o que procurávamos.
O equilíbrio certo, gozar a natureza
ficando perto das lojas,
e da rede associativa.
Este lugar é incrível.
E além disso, fomos bem recebidos.
É...
Com prazer.
À vossa!
Então, vieram para cá para...
Procurávamos o equilíbrio.
Estar perto da natureza,
mas também perto das lojas e da rede comunitária.
- E é bom voltar ao trabalho. - Pois.
Além disso, a mudança deve ser muito entusiasmante.
Não vais apanhar escaldão com a roupa vestida.
É preciso bronzear.
O tempo tem andado maluco ultimamente, temos de aproveitar.
Nem sempre temos esta sorte.
O que queres fazer quando fores mais velho?
Medicina.
Isso é ótimo.
É uma profissão segura.
Eu não conseguia. Doenças, essas coisas...
- Vou buscar uma bebida. - Sim.
- É carvão? - Sim.
Riesling?
Não, obrigado. Não bebo.
Já não estás numa entrevista de emprego.
De qualquer forma, é bom ter sangue novo.
Não esperávamos encontrar uma enfermeira para as colheitas tão depressa.
E o seu marido?
Costumava doar, mas já não pode
por causa de um problema cardíaco, mas custa-lhe,
porque é uma causa que lhe é muito querida.
Não, estava a referir-me ao trabalho dele.
Desculpe.
Desculpe. É agente de seguros.
Queres um pouco?
Sim, obrigado.
A sério, podes tirar. Há dez vezes mais do que o necessário.
Obrigado.
De onde são, então?
Da Bretanha.
Isto aqui é ótimo.
- Queríamos... - Estar em contacto com a natureza,
perto das lojas e da rede comunitária. Este lugar é uma oportunidade.
A vossa relva é tão verde que nem parece verdadeira.
Foi pintada?
Não.
Não é permitido pisá-la exceto quando há convidados.
Agora que o dizes, é verdade, parece falsa.
Vamos.
Vou apresentar-te a alguns vizinhos. Este bairro é bom.
Estão aqui.
Olá, Charles.
Olá, Philémon.
Isso tem bom aspeto.
- Olá, Clémence. - Obrigada.
Então, o que é que eu vos dizia? O padre tenta controlá-la.
A rapariga vomita de repente uma coisa verde e nojenta.
Fica-lhe na boca. É uma loucura.
Viste?
O quê?
"O Exorcista", um filme de terror muito famoso.
- Sim. - Com a rapariga possuída.
E ela enfia um crucifixo na concha, não é?
És mesmo parvo.
Na Idade Média, acreditava-se que as pessoas estavam possuídas,
mas eram apenas epilépticos.
Era assustador, mas as pessoas não sabiam que era uma doença.
Deve ter sido difícil.
Vamos ter de fugir e esconder-nos.
- Atravessar o mar. - Tens medo?
- Tenho medo por ti. - Olha.
Eles amaram-se,
desde o primeiro até ao último olhar.
Podes jurar-me sobre esta campa...
- ...que me amarás sempre? - Juro.
Esse é o meu cavalo.
Leva-me contigo, José Luis.
- Leva-me contigo. - "Leva-me contigo, José Luis".
Isto é mesmo mau.
Cala-te!
Sabias que o Berthier tem um hipermercado?
- Sim? - Grande responsabilidade.
Isso vem com a casa grande e a barriga grande.
Nem sequer tem barriga grande.
E os jovens com quem falaste?
Sim.
- Pareciam normais. - O que queres dizer com isso?
Não sei.
Fala com convicção quando falas de medicina.
Não conseguimos acreditar.
Teria de conhecer um professor que me desse mesmo vocação.
- Que simpático para a tua mãe. - Não tem a ver com a mãe.
De qualquer forma,
as enfermeiras pareceram bastante simpáticas.
- Nada suspeitas. - Isso é bom.
Sabemos o que aconteceu com a anterior?
- Ela deixou a fasquia alta. - Fazes colheitas todos os dias.
Em casa, sim.
- É o mesmo gesto. - Acho que sim.
Merda!
Estou a ir.
Falaste com eles sobre o protocolo?
Sim.
Está tudo registado no computador, mas isso não muda nada
quanto aos sacos desclassificados.
- Desclassificados? - Sim.
São sacos que ninguém conta.
Depois...
Prefiro os dias em que há gente.
Fogo, não está aqui ninguém!
A Catherine Berthier é quem trata das entrevistas.
- Olá. - Que bom que veio.
Já fazia falta.
Bem...
Tenho de manter a mala por perto.
- Olá e bem-vinda. - Eu levo a sua mala.
- Esta é a receção. - Exato.
A mesa...
Recebo o dador.
Levo a sua ficha de seguimento.
Obrigada.
- Bom dia. - Bom dia.
O mais importante é parecer profissional,
estar calma.
Tomou o pequeno-almoço?
- Sim, claro. - Está bem hidratado.
Sim.
Uma colheita é fácil de fazer,
mas às vezes o sangue não corre
ou o fluxo é demasiado lento,
ou há um erro na manipulação.
Nesse caso, não se pode guardar o saco,
é desclassificado.
Acontece todos os dias.
É só evitar abusos.
Esses sacos defeituosos vão todos para a mesma caixa:
a caixa X.
É como um caixote do lixo.
O quê?
Mesmo com sangue lá dentro, deitam-nos fora?
Sim, são inutilizáveis.
Ninguém conta os sacos que lá vão parar.
E normalmente, a rastreabilidade termina ali.
Se tudo correr bem, depois de terminares,
declaras que a colheita falhou e fazes desaparecer o saco?
Sim. E é tudo.
Pois, exatamente.
Ótimo.
Ótimo.
Está calor aqui dentro. Está abafado, não achas?
Acho que está bem.
Há algum problema?
É a veia. Vamos ter de parar.
A sério? É estranho.
Nunca me tinha acontecido.
Em dez anos de serviço.
Eu... Peço desculpa...
- Bebeu o suficiente esta manhã? - Sim.
Precisa de alguma coisa?
Não sei o que se passa.
Está a demorar demais. No início estava a correr bem, mas agora não sai nada.
É estranho, porque o Antoine normalmente tem bom fluxo.
Aqui. Consegues apertar a bola?
E mexe também os pés, isso ajuda o retorno venoso.
Assim mesmo! Já está.
- Pergunta-nos se tiveres dúvidas. - Sim, obrigada.
Os filmes para crianças estão ali. Vai ver.
Não gosto de filmes para crianças.
Sim? Desde quando?
Desde a semana passada.
Semana passada?
E agora vês o quê?
Filmes com carros espetaculares e rapazes giros.
"O Exorcista" não é a melhor escolha.
Principalmente se já o viste.
Foi por acaso que o encontrei.
Fez-me pensar em... ti.
Espero que não te tenham assustado.
Não.
Parecem um bocado tolos, mas não são maus rapazes.
Parece que se conhecem há muito tempo.
Desde o início dos tempos, sim.
E tu? Não tens saudades da tua terra?
Sim, claro que é um pouco estranho.
Os amigos,
as férias.
O som das ondas,
o nascer do sol sobre o oceano.
- Viviam junto ao mar? - Sim.
Sim, ele era um deus do surf.
Tal como ele.
Vai ser difícil surfar aqui, só há um rio.
Vamos na quinta-feira com os outros.
- Sim. - Se quiseres.
Está bem, mas temos de ajudar os nossos pais em casa.
Claro.
Se mudares de ideias,
é o caminho junto à entrada da floresta.
Está bem. Sim.
- Adeus. - Adeus.
E bom surf.
- Obrigada. - Sim.
Bom surf?
Bom surf...
Tu consegues...
Tu consegues, tu consegues. Laurence!
Vamos!
Podemos deixá-la ir agora.
Mas não faz mal, acontece.
Lembra-te de beber muita água e manter-te bem hidratada.
Obrigada. Adeus.
Mas que raio é isto?
Senhor, podemos ajudá-lo?
Posso comer qualquer coisa?
Desculpe, esta mesa é só para dadores de sangue.
- Mas podemos oferecer-lhe água. - Não, água não.
- Ou sumo de fruta. - Não, sumo também não.
É uma pena.
Há tantos.
Veja, todas estas pessoas estão a doar sangue.
Isso enfraquece-os.
Por isso, se faltar comida, é um problema.
Eu posso doar sangue.
É simpático da sua parte, mas temos tudo o que precisamos.
- Por favor. - Senhor, não é possível.
Já lhe expliquei porquê e o senhor não compreende.
É só um pedaço de pão.
Não podemos, não temos comida suficiente!
Não entende?
É para os dadores. Compreende?
Eu dou o meu sangue!
Muito gentil, mas temos o que precisamos.
Há muita gente à espera.
E agora está a incomodar as pessoas que doam sangue.
Portanto, sugiro que se retire.
Eu quero comer.
Senhor, não é possível!
Como é que lhe hei de explicar?
Vou acompanhá-lo até à saída.
- Por favor. - Não é possível!
- Peço-lhe. - Como posso...
Vá lá, saia, por favor. Não vamos armar confusão.
Está a incomodar as pessoas! Toda a gente está a olhar.
Estamos a ir embora.
Está bem.
Leve uma chouquette. É tudo o que posso fazer!
Tu normalmente não gostas de cerveja.
Não é para mim.
Então é para quem?
Onde vais?
Deixa de fazer perguntas, Lucie.
Não me vais deixar sozinha?
Vou.
Não te preocupes, tens o teu guarda-costas.
Vou contar aos pais.
Por que é que lhes vais contar?
A menos que me emprestes o Walkman.
Está bem.
Com auscultadores.
Combinado. Toca a fechar.
Volto antes de eles chegarem.
Toma.
Cuida dele, sim? Se eu cair, vais comigo, ouviste?
Combinado.
Como estou?
Razoável.
- Até já. - Adeus.
Olá.
Olá, sou o Philémon...
Trouxe umas cervejas para...
Isto é ridículo.
Olá, vi-vos e...
Estás a ver?
Olá.
Não. Estava à procura de vocês para agradecer à Camilla.
Pelo outro dia.
Então trouxe umas cervejas.
És muito simpático.
Anda, por aqui.
- O Philémon trouxe umas cervejas. - Que querido.
Ótimo!
Olha, tens cervejas?
- Sim. - Posso beber uma?
Claro, ótimo.
Posso tirar uma?
Estão quentes.
Vamos pô-las na água.
- Importas-te? - Não.
Trouxeste-me uma?
Onde está a câmara?
- Sim! - Hoje sou eu o fotógrafo.
Que pena!
Ainda bem.
Então?
Anda lá, mostra-nos.
Se me cortar, a culpa é tua.
Força.
Não!
Estava a tentar parecer querido.
Tens de dar uma cambalhota aqui.
Podes segurar isto para mim, por favor?
Obrigada.
Para a frente, para trás. E ao mesmo tempo.
Sim...
Mas era isso!
Quando caíste, era isso mesmo!
Conheces o Vince Taylor?
O cantor.
Não.
Era um roqueiro amaldiçoado.
O tipo ficou sempre nas sombras.
As editoras deixaram de o querer, porque...
as pessoas faziam confusão nos seus concertos.
Como se a música dele deixasse as pessoas malucas.
Acabou num hospital psiquiátrico, com eletrochoques.
Aquilo destruiu-o.
No fim, até as dentaduras colava com pastilha elástica.
A música era boa?
Sim. Quando sabes a história, ouves de outra forma.
Tu és um bocado estranho.
Sou?
Desculpa.
Quero dizer, o tipo estava tão perto de conseguir.
Como se o destino dele fosse nunca ser compreendido.
Quer dizer, ele era mesmo rock'n'roll.
Só que o mundo não o acompanhou.
Também não é surpresa.
Desde quando é que o mundo é justo?
A sério...
Quando vês a guerra no Iraque,
o Kosovo, a SIDA,
a bomba nuclear, os nazis...
Nada disto faz sentido.
E eu a pensar que era pessimista.
Nem fazes ideia.
Mas há outras coisas, não há?
Coisas bonitas.
Espero que sim.
Merda!
- Porra! - Que seca.
Podes segurar isto?
A sério... Isto é um desastre.
Cala-te.
- Não digas "cala-te", ele vai largar. - Cala-te.
Meu Deus!
Pronto, chegámos.
Achas que é igual ao da mãe?
O meu braço não vai notar a diferença.
Queres fazer o teste e dizer-me?
Não!
- O fumo incomoda-te? - Não, não te preocupes. Força.
- Queres um? - Não, não fumo.
Porque é que se mudaram, afinal?
Por causa do trabalho do meu pai.
E pelas montanhas também.
Não percebo.
Foi por causa do trabalho do teu pai ou pelo ar puro?
Primeiro, por causa do trabalho do meu pai.
Queria uma mudança.
Matámos dois coelhos com uma cajadada.
Ele demitiu-se.
E depois procurámos um sítio onde se vivesse bem.
As pessoas aqui são simpáticas, por isso...
Pareço-te simpático?
Pareces, sim.
Deve ser um nascer do sol lindo na Bretanha, não é?
O que foi?
Disseste à Camila que adoravas ver o sol nascer na praia.
Sim.
Fazia isso de manhã, antes de ir para as aulas.
Sim, as cores e a luz do oceano.
Um pouco como aqui, com a montanha, é...
irresistível.
Não?
Sim.
É engraçado, porque...
eu pensava que o sol nunca nascia sobre o oceano na Bretanha.
É só o pôr do sol, não é?
Não é o que pensas.
Do quê, da Bretanha?
Sim, da Bretanha.
Sempre viveste aqui, não foi?
Sempre, sim.
Esta é a minha casa.
O que se passa?
Estás bem?
- O que foi? - Alguém tem um lenço?
Usa saliva para travar o sangue.
Ninguém quer ouvir-me.
Merda... Segura isto!
Segura isto!
Cédric, tens um lenço?
Não o deixes fazer isso! Cam, sai daí!
Diz-me que tens os cigarros.
- O quê? - Tens cigarros?
Estou farto da quota deles para pessoas com deficiência.
Gostava de ajudar,
mas não posso sobrecarregar as minhas caixas, só porque um tipo...
Mas não, as pessoas querem rapidez.
Não têm tempo.
O que estás aqui a fazer?
Vai para casa!
Para casa!
Queria ver como estavas.
A tua mão.
Sim, não é nada.
Só vou esperar um pouco antes de voltar a nadar.
Está bem.
Desculpa.
Não devias estar sempre a pedir desculpa.
Se não, as pessoas pensam que tens culpa.
O teu Charles perdeu massa muscular.
Cuidado com os refrigerantes, ainda ficas como o teu vizinho.
Não lhe ligues. Acha-se engraçado.
- Vamos embora? - Sim.
Não temos as mesmas garagens.
Pois. É só para mostrar.
Primeiro tu.
- Aí dentro? - Sim.
Ótimo.
Para onde fugimos?
Não sei.
Para qualquer lado.
Foste embora depressa ontem.
Sim, não me estava a sentir muito bem.
Não foi isso. Foi... estranho, percebes?
Percebo perfeitamente.
O que sentiste quando lambeste a minha mão?
O quê?
Quero apenas saber.
Como foi?
Então?
Foi intenso.
Foi bom?
Foi bom.
Foi mesmo bom.
O que te deu vontade de o fazer?
Não sei, foi mais forte do que eu.
Já tinhas feito isso antes?
Não.
Não assim.
E tu?
Como te sentiste?
Doeu?
Não.
Não, acho que não.
Toquei-te!
Disseste 5!
- Anda lá, mexe-te, seu preguiçoso. - Lucie!
Mais baixo.
Está tudo bem, é ele.
Não está lá ninguém, de qualquer forma.
- Leva o cão. - O meu fogo não está bom?
Está péssimo. Ele acha que ainda está nos escuteiros.
É uma bela fogueira, meu amor.
Está muito agradável aqui.
Sim, este rio é bonito.
Bem, não me importava de ter uma piscinazinha.
Mas com isto ao lado, é prático.
Ficamos então?
Vamos ver.
O hábito leva a fazer disparates.
Gostavas de ficar?
Gosto daqui.
Pensava que era o medo que fazia fazer disparates.
O hábito também.
E o que temos?
- Aqui, na conserveira. - Espera, aqui.
Então, espera...
Vamos lá.
Um brinde.
- A que brindamos? - À nossa nova vida
e à mulher mais corajosa do mundo.
Obrigada.
Estava a pensar, as pessoas de quem tu...
Quer dizer, aquelas de quem trataste, estavam bem?
Sim.
Não notaram nada.
Voltei a dizer-lhes para beberem muita água ao saírem.
É o mesmo para eles.
Bom.
- Então, brindamos? - Sim.
Sim.
Onde está o meu kit?
Merda...
- Não faz mal, posso esperar. - Não, não.
Ninguém fica no banco.
Além disso, trouxe-te um vinho de desportista espetacular.
Mãe, és horrível.
Ou então, posso só...
Nunca mais faças isso.
Pareces um animal.
Olha.
O que se passa?
É a Hélène. Desmaiou.
Felizmente o filho dela estava lá.
Foi ele quem chamou os bombeiros.
- Está bem? - Não sabemos.
Talvez,
sem ele, ninguém teria reparado.
Estaria morta quando lá chegassem agora.
A sério?
Vamos cruzar os dedos para uma recuperação rápida.
Temos de levar as compras...
Basta um pequeno incidente e aparece o bairro todo.
Não sei se é voyeurismo ou solidariedade.
Que foi?
Então, o que aconteceu?
O que estavas lá a fazer?
Não, estava no jardim, a ler.
E de repente senti algo.
Como se o meu instinto me dissesse para ir.
Bati à porta e entrei.
E entraste dessa forma?
Não, não foi assim. Ela não respondia.
Quando a vi, pensei que estava morta.
Liguei para os bombeiros.
Pensaste que ela estava morta?
Estava estendida no chão.
Estava a respirar, mas...
Os bombeiros chegaram logo?
Não imediatamente. Demoraram...
...uns dez minutos.
Foi relativamente rápido.
E tu, nesse tempo?
Disseram-me que a salvei.
E que ela teve sorte de eu ter chegado a tempo.
Se disseram isso, então está bem.
Sim.
Cuida bem da tua irmã.
Sim.
- Não te preocupes. - Sim, "não te preocupes".
Lembras-te de uma vez, quando éramos pequenos,
em que estávamos aqui?
Foi ali.
Saltei sobre ti por trás da árvore
e o avô ficou furioso e levantou o punho para mim,
e disse-me: "Rapaz, vais ser condenado ao inferno."
Lembras-te? Foi mesmo ali.
Bem, costumavas ter muito medo.
Depois de ti.
Johnny.
Um momento.
Eles vêm por ti, Barbara.
Para com isso. És ignorante.
Eles vêm por ti, Barbara.
Para. Estás a comportar-te como uma criança.
Eles vêm por ti.
Olha! Vem aí um deles.
Ele vai ouvir-te.
Vamos mudar de sítio. Isto está uma seca aqui.
- Pensava que era aborrecido. - Daqui é menos.
Mentira. É ainda mais chato daqui.
Johnny! Ajuda-me!
Está bem, desculpa.
Olha, ali está o Philémon.
Charles!
Desculpa.
Não podem ir para outro sítio?
Muito obrigado. Obrigado.
Está tudo bem.
Camila.
- Anda lá, volta. - Ainda há pipocas, anda.
Cala-te.
Cala-te!
Pat!
Pat!
Pat!
Deve ter seguido outro cão, já volta.
Tenho de ir. Vamos perguntar aos vizinhos, pôr cartazes.
Não te preocupes, vamos encontrá-lo.
Pat!
Pat!
Para que é que gritas assim?
É o Pat, está perdido!
- O Philémon ainda não acordou? - Não sei!
Pat!
Pat!
Pat!
Pat!
Pat!
Pat!
Pat!
Pat!
Pat?
Porque é que te coças?
Já não aguento mais!
Não aguento mais.
O que é que se passa contigo?
Vai-te embora, Lucy!
Sai!
Vai embora!
Por favor, sai.
Sai!
- Vamos embora! - Mamã!
Porque é que se coça?
Não sei o que me aconteceu.
Estava com sede.
Estava com tanta sede que não conseguia pensar.
Tenho medo.
Não sei o que se passa comigo.
Para de te coçar, vai ser pior depois.
Coitadinha.
Talvez devesse voltar para casa e deixar de ir lá.
Não. Voltar ao que era antes?
Não, Laurence. Não.
Ele sabe o que fez. Foi um acidente.
Fizemos bem em vir para aqui.
Estamos de acordo?
Sim, mas...
É mais difícil do que eu pensava.
E o vizinho?
Qual vizinho?
Bem, o vizinho...
Não.
Achas mesmo que foi ele que...?
Não, não.
Não...
Nem me passou pela cabeça.
Não, mas...
Um biscoito, Nicole?
Obrigada, Christine.
Laurence, tiveste algum problema com o equipamento?
Sim.
O sistema fechado avariou, não sei o que se passou.
Sim, isso acontece.
Pede ajuda se precisares, é para isso que cá estamos.
Sim, desculpa.
Vou fazer uma pausa.
- Sim. - Até já.
Não é a primeira vez que ela erra.
Vejo-a a fazer, tem a mão, mas...
Não sei...
O que é isso? Faz uma barulheira.
Um Tagomachi.
O pai deu-mo.
Ele, pelo menos, não morre.
Bem...
Espero que não esteja demasiado passado.
Que se passa?
Já não queres comer?
Sou vegetariana.
Porque é que estamos aqui?
Porque é mais acolhedor.
Temos de deixá-los ver que vivemos nesta sala.
Vamos, vamos!
Aí está.
Os vizinhos vão gostar.
Vamos lá.
Bom apetite.
Não sei porque estamos a comer juntos, é absurdo.
Porque somos uma família. Uma família come junta.
Bom dia, senhora.
Está cá o Philémon?
Não quero incomodá-los.
Nada disso.
Philémon?
É para ti.
- Olá. - Olá.
Está um dia bonito lá fora e os outros foram-se embora.
Então, pensei...
Que estava na altura de me chamar?
Não pensei que estivesses na cidade naquela noite.
Fiquei surpreendida.
- A minha reação foi... - Ficaste envergonhada.
Também não facilitaste nada para mim.
Porque é que estás aqui?
Isto é um jogo para ti?
Achaste que os tipos estranhos davam boas histórias?
Não.
Não contei a ninguém.
Sim.
Percebo.
Vou-me embora.
Não consigo parar de pensar em ti.
Anda, come um bocadinho.
Os vegetarianos precisam de proteína. Comer bem faz bem à saúde.
Chega de frases feitas sobre seguros.
Já que ninguém quer comer o que cozinhei, pumba!
Para a comida do cão. Mas espera, o cão está morto.
- George... - Merda!
- Calma. - O quê? Andamos nisto há 17 anos.
17 anos da tua mãe a reclamar,
do meu trabalho idiota, da tua irmã...
Merda!
Mas porquê ela?
Porquê aquela miúda?
O que pensaste?
“Olha, que gira. As nossas mães vão dar sangue juntas.
“Vai dar sabor às nossas vidas de merda!”
- O que te passou pela cabeça? - Não aconteceu nada!
Eu não fiz nada!
Não fizeste nada?
Como com o vizinho...
- O vizinho? - Sim.
Liguei para os bombeiros, não lhe fiz nada.
- Acreditam... - Confiamos em ti.
Dizes que não, nós acreditamos.
Está bem.
- Onde vais? - Apanhar ar.
Não! Não saias, por favor!
Camila?
Estás a apanhar sol?
Não.
Menti.
Antes de vir para aqui, não era tão bom como disse.
Nunca vivi perto do mar.
Mas sonhava ser esse rapaz.
O que vem de longe.
Atirar-me ao sol.
Bem, só uma vez.
Eu sei.
Nadas como um cachorro.
Já te tinhas afogado há muito no oceano.
Talvez.
Então de onde vens?
De um sítio isolado no campo.
A 100 quilómetros daqui.
Porque vieram para aqui?
Para ficar mais perto das pessoas.
Há coisas que temos de mudar.
E depois, a minha família, estou a arruinar-lhes a vida.
Todos temos coisas que gostaríamos de mudar.
É?
E o que gostarias de mudar?
Tu és perfeita.
A tua família.
A tua casa.
Os teus amigos, o Charles.
Tudo em ti parece tão natural.
Natural?
Sim.
É tudo falso.
Parece que tenho uma família Ikea.
Enquanto tu és...
Não sei.
Nota-se que se amam muito.
O que tens?
Não é nada.
Desculpa.
O que estás a fazer?
O que estás a fazer?
Porque fizeste isso?
Porque fizeste isso?
Do que estás a falar?
Do que estou a falar?
Philémon, fala comigo. Philémon, fala comigo!
Philémon...
Não!
Pai, para!
Fui eu, Philémon.
Desculpa.
Porque é que me deixaram viver isto?
Porquê?
Não lhes contei, aos meus vizinhos...
O que é que eles fizeram desta vez?
Pelos vistos a altura do meu muro não cumpre os regulamentos.
Estás a invadir o espaço deles. Como resultado,
tenho de o refazer,
Estamos sempre com problemas nas obras.
Noites sem dormir.
Portanto, bebe bem, acima de tudo. É importante hidratar.
Hélène?
O que fazes aqui?
Não te vi entrar.
Voltei ontem à noite.
O meu acidente fez-me pensar.
Quando se tem sorte como eu,
temos de partilhá-la com os outros.
E qual foi esse acidente?
Uma coisa parva, na verdade...
O telefone tocou. Tentei evitar o meu gato e pum,
caí ao chão.
- Então estavas sozinha? - Sim.
- Bem. - Sim.
Não é um pouco cedo para doar?
Não. Estou 100% recuperada.
O couro cabeludo sangra muito.
Mas desta vez, nada.
Nada?
Nada?
- Nem sangue? - Nem uma gota.
É de loucos...
Os bombeiros não acreditavam.
Tive muita sorte.
Caramba!
O teu robe!
Laurence...
Estás a roubar sangue?
Querida, leva duas mudas de roupa.
O resto compramos lá.
Diz ao teu irmão para te ajudar com a mala.
Anda, despacha-te!
Não te esqueces de nada?
Acho que não.
Sim, olha.
Anda.
Já está.
Não o queres?
Agora não.
Assim sei onde está.
Philémon?
Não te aproximes.
- O que tens? - Não te aproximes, por favor.
Está muita gente em minha casa.
Falam do que aconteceu na recolha de sangue, de ti.
- Para. - Tens de falar com eles.
Vou magoar-te se te aproximares.
Morde-me.
Devagar.
O que se passa?
Pois...
Não pode ser...
Calma, vocês os dois.
Em duas semanas, ela já se esqueceu.
- Com aquele lunático... - Charles!
Charles!
Charles, acalma-te.
- Deixa-a ir. - Charles?
Deixa-a ir, estou a dizer!
- Mas espera... - Foda-se!
- Está a mordê-la no pescoço? - O que fizeste?
- Vou dizer aos outros. - O que fizeste?
- Para, Charles! - Agarrem-no!
- Parem com isso! - Saiam daqui!
Agarrem-no!
Saiam!
Agarrem-lhe o braço. Vamos!
Mamã?
- Vai chamar o teu pai. - Para com isso!
Charles, para!
Vai lá. Vais ver.
Charles!
- Quero que todos vejam. - Para!
Manda-o para o chão.
Manda-o para o chão.
Estão a magoá-lo!
Parem!
Aguenta-o.
Fica quieto!
Para! Charles!
Ouve-me! Para!
- Agarrem-no. - Charles!
Camila!
Ajudem-nos!
Vá lá, façam alguma coisa!
- Parem! - Não!
Larguem o meu filho!
Larguem-no!
Não. Como é que deixaram aquele doente aproximar-se da minha filha?
- Vamos chamar a polícia! - Não!
Se vão culpar alguém, culpem-me a mim!
Não a ele, por favor!
Vamos embora.
Nunca mais ouvirão falar de nós.
Laurence?
O que se passa?
- Não, Laurence... - O que se passa?
- Georges! - Não!
Larga-me!
Larga-me!
Vai, vai, vai!
Larguem-no! Larguem-no!
Larguem-no!
Laurence!
Deixem-no ir!
Não, deixem-me em paz!
Larguem-me!
Não, não...
Não te mexas! Não te mexas!
Precisamos de uma ambulância!
Chamem uma ambulância, rápido!
Não te mexas, não te mexas!
Temos de ir. Vamos!
Philémon, vamos!
Marc!
Rápido, rápido!
Vamos embora!
- Philémon! - Ela está a fugir!
- Volta! - Não o deixem ir!
Abram a porta!
Agarrem-no!
Para onde foi esse cabrão?
- Ali. - Por ali!
- Foi noutra direção! - Confia em mim, caramba!
Desculpa.
Desculpa.
Como é que o vamos encontrar?
Garanto-te que vamos...
Prometo que o vamos encontrar.
Abranda. Abranda.
Porra...
Espera...
Olha.
Ali está!
PARA TI VINCENT
Legendas: Nisbgui
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