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Di
Cavalcanti. Título do filme:
Ninguém assistirá o formidável enterro da tua última quimera.
Somente a ingratidão, aquela pantera, foi a tua companheira inseparável!
"Filmagem causa espanto e irrita filha e amigos."
Jornal do Brasil, quinta-feira 28 do 10 de 76, primeiro caderno, página 15.
"Filmagem causa espanto e irrita filha e amigos." 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10,11,12, corta!
Agora dá um close na cara dele. Barba por fazer, calça de brim
azul-marinho, casaco azul claro... Corta! Vai recomeçar outra vez.
"Filmagem causa espanto e irrita filha e amigos." 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10,11,12, corta!
Agora dá um close na cara dele. Barba por fazer, calça de
brim azul-marinho, casaco azul claro, camisa sport quadriculada, sapatos marrons.
O cineasta Glauber Rocha está parado ao lado do caixão de Di Cavalcanti no velório
do Museu de Arte Moderna. Carioca Di Cavalcanti,
é com a maior emoção que este também carioca
te traz esta saudação. É de todo o coração,
poeta Di Cavalcanti, que este também poetante
te faz esta sagração. amigo Di Cavalcanti,
amigo de muito instante, de muita situação,
dos teus trezes lustros idos, cinco foram bem vividos
na companhia constante deste também teu irmão:
Quantos amigos partiram! Quantos ainda partirão!
Mestre pintor Emiliano Augusto Cavalcantí
De Albuquerque: ou melhor, Di! ...dá distância para filmar dos pés até a cabeça.
"Ninguém viu Glauber entrar para iniciar a filmagem do velório e--"
Um ano sempre segue a outro ano. Mas que tem, se mais humano
fica o homem igual a ti? Viveste, Di cavalcanti,
foste amigo e foste amante, não há outro igual a ti!
Agora dá uma panorâmica geral, enquadra o caixão no centro,
depois começa a filmar da esquerda para a direita, aqui, devagarinho, vamos lá, 1, 2, 3...!
Quando a contagem chegar a 10, mandou parar! Di está morto.
Só terminaria 1 hora e 23 minutos depois junto ao portão do Cemitério São João Baptista.
Quando, por solicitação da filha adotiva do pintor, Elizabeth,
uma amiga da familia pediu a Glauber para parar com esse espetáculo mórbido,
ele explicou:
"Não se preocupe, esta é a minha homenagem a um amigo que morreu.
Estou aqui filmando a minha homenagem ao amigo Di Cavalcanti!
Agora dá licença que eu preciso ir trabalhar!" Junto bebemos champagne,
mezcal, uísque, parati, juntos rimos e choramos,
no México e em Paris. Quantas mulheres amamos,
quantas Marias perdi? A muitas eu disse yes,
a muitas disseste oui. Nos separamos de tantas,
mas nunca nos separamos. Amigo Di Cavalcanti,
a hora é grave, é inconstante.
Tudo aquilo que prezamos, o povo, a arte, a cultura
vem sendo desfigurado pelos homens do passado,
que por terror ao futuro optaram pela tortura.
Poeta Di Cavalcanti, nossas coisas bem-amadas
neste mesmo exato instante estão sendo desfiguradas.
Hay que luchar, Cavalcanti, como queria Neruda!
Por isso, pinta, pintor! Pinta, pinta, pinta, pinta,
Pinta o ódio e pinta o amor, com o sangue da tua tinta,
pinta as mulheres de cor na sua desgraça distinta,
pinta o fruto e pinta a flor, pinta tudo que não minta,
pinta o riso e pinta a dor, pinta sem abstracionismo,
pinta a Vida, pintador, No teu mágico realismo!
Carioca Di Cavalcanti, na rua do Riachuelo
nasceste, a 6 de setembro do ano noventa e sete.
Infante, foste criado no bairro de São Cristóvão
na chácara do avô materno Emiliano Rosa de Senna
(nome de avô de pintor!), orgulhoso proprietário
do antigo morro do Pinto (quem sabe não vem de herança
O teu amor às mulatas?). Logo os bairros se renovam:
Botafogo, Glória (hotel) Copacabana e Catete
(o Catete de onde nunca deverias ter saído,
e ao qual agora voltaste humilde e reconhecido).
Moraste no hotel Central e no hotel de Estrangeiros:
ambos desaparecidos. E onde à tarde, entre os amigos
tomavas, e com que gosto, O melhor uísque do mundo!
Paquetá, um céu profundo que não sabe onde acabar
viu-te muito passear, ó genial vagabundo!
Quantas e tantas vezes foste à Europa, dize-me, grão-vagabundo? Vagabundo!
No ano de trinta e oito, em Paris te descobri.
Rimos e bebemos muito, Nos bares de por ali.
Lembras-te, Di? Consuelo de Saint-Exupéry
saía sempre conosco, e mais o sargento Thyrso,
que uma noite lá, por pouco não sai no braço comigo.
Como foste meu irmão! Como eu fiquei teu amigo!
E no México, te lembras? Com Neruda e com Siqueiros,
e a linda Maria Asúnsolo, que tenía blanco el pelo!
Bebemos tanta tequilla que até dava gosto ver-nos
a comer com gulodice um prato de tacos pleno, comiendo!
Mais de setecentas luas ungiram tua cabeça,
que hoje é branca como a Lua, mas continua travessa...
Que bom existas, pintor enamorado das ruas,
que bom vivas, que bom sejas, que bom lutes e construas:
Poeta o mais carioca, pintor o mais brasileiro,
entidade a mais dileta do meu Rio de Janeiro!
--Perdão, meu poeta, perdão: Nosso Rio de Janeiro!
O Di Cavalcanti, eu conheci ele na Bahia em 1958. O Di Cavalcanti apareceu lá
com Roberto Rossellini, cineasta italiano muito famoso
na época, não porque
tinha filmado Roma, cidade aberta ou Paisà, ou outros grandes filmes do neorrealismo italiano,
mas porque tinha sido casado com Ingrid Bergman, e o seu divórcio com a mulher e a fofoca
gerou uma opinião do Papa. O Alberto Cavalcanti, não,
digo, o Roberto Rossellini ficou famosíssimo,
inclusive aqui no terceiro mundo, e convidado por Assis Chateaubriand,
que era um dos caciques das artes brasileiras do Museu de Arte de São Paulo,
da TV Tupi, "rede associada para o Brasil," convidou o Roberto Rosselilini para vir ao Brasil.
Di Cavalcanti, como Jorge Amado, Oscar Niemeyer, Villa-Lobos,
faz parte deste olimpiado modernista que ficou internacionalmente famoso,
com amizades em várias partes do mundo. Daí que, sendo repórter
do Diário de Notícias na Bahia, fui destacado para entrevistar Roberto Rossellini,
e lá conheci o Di Cavalcanti, que me apresentou o próprio Roberto,
com a câmera de 16mm saindo pelas ruas da Bahia e filmando rapidamente lá uns
sarcófagos e outros batuques das ruínas portuguesas barrocas da Bahia,
com uma rapidez impressionante. Nunca vi ninguém filmar tão rápido,
aliás, ali eu saquei o que é que era realmente ali o negócio de ideia na cabeça e câmera na mão.
Quer dizer, o Rossellini realmente fazia com a câmera de 16
o que o Di Cavalcanti faria com um pincel. Filmando um cristo morto
lá sepultado numa laje marmórea dentro do Santo Antônio, Convento do Carmo,
ali não sei direito aonde, pela Bahia, zona norte, ali, zona cristão,
o que se passa é que o chofeur deixou o carro aberto,
mão da embreagem mal-feita, escorregão, e o carro desce de costas pela ladeira.
Lembra-me agora um filme, um plano que não está no filme,
do Di Cavalcanti, barriga grande, perna aberta, dando uma risada meia desesperada,
o carro estava descendo, no que eu freei rapidamente.
Isto é verdade, nos conhecemos assim, e depois
eu fui encontrar o Di Cavalcanti em 1964... 1964, em Paris.
Eu encontrei lá o poeta Vinícius de Moraes, que era embaixador da UNESCO ou coisa que o valha,
se o embaixador do... E estava o Di Cavalcanti,
que tinha sido nomeado adido cultural do Brasil, muito interessado em fazer contactos
com Jean-Paul Sartre, aliás, que era
amigo dele, como todos os surrealistas franceses, aquela turma do Breton, do Cocteau,
porque o Di transou em todas, e apesar de uma parte da crítica brasileira
ter negado os seus grandes, as suas grandes qualidades,
o Di Cavalcanti na verdade foi um pintor internacional, assim,
tão importante pro Brasil quanto Picasso para a Espanha.
Depois eu vi pouco, poucas vezes o Di Cavalcanti. Uma vez ele me telefonou
do Rio pedindo o seguinte: "Quero que você venha aqui me filmar."
Eu não fui porque não tinha tempo, tava viajando, em suma, não deu pé.
Depois vi o Di Cavalcanti uma vez em Paris, não me lembro bem, aí por 70 ou 71,
em um jantar, uma churrascaria, não, em Paris não tem...
Uma peixaria, uma coisa assim que o valha, estava a Regina Rosemburgo, estavam outros amigos,
e depois não vi mais o Di. Não vi mais o Di, e aquele dia então, acordando de manhã, recebo o
impacto da noticia que o Di morreu e resolvi fazer um filme como uma saudação, para as pessoas que
nem conheceram o Di Cavalcanti, que ficaram... Em suma, a balada de Di Cavalcanti, "A balada
de Di Cavacanti"! Vinícius de Moraes escreveu
este poema inédito, em São Paulo-- Havia um certo respeito
no velório do Heitor. Todo mundo concordava
que, apesar de catimbeiro, era bom trabalhador.
Houve choro e ladainha na sala e no corredor
e, por ser considerado, seu desaparecimento
muita tristeza causou. Di por Di, as vozes do túmulo!
"Sou um gênio, um velho, uma glória nacional, não enche o meu saco!"
Um grande sofrimento durante muito tempo
roubou a minha paz. O carnaval que ela fez acabou...
"Di Cavalcanti, lírico, romântico, sensual, carioca principalmente."
Frederico de Moraes, "O Globo", quarta-feira.. Di nunca foi um realista
Emiliano Di Cavalcanti, que faleceu ontem aos 79 anos depois de longa enfermidade
A talvez Braque
Não bastasse ter sido segundo seu próprio dep-- recentemente aliás, se disse um realis--
A talvez Picasso, a talvez Delac-- Di não se deixou--
A arte braso-lusi... A talvez Gauguin...
Por exemplo, também não é... --realizadores da Semana de Arte
Moderna no Theatro Municipal em São Paulo,
o que desarrumou definitivamente o edifício da arte acadêmica no Brasil.
Sua própria pintura,
sobretudo aquela realizada até o final da década de 40,
pode ser considerada uma das contribuições mais importantes do Brasil
à cultura visual de nosso século, especialmente no âmbito
do continente latino-americano. Se, a partir da criação
da Bienal de São Paulo em 1951, sua arte começa a declinar,
em termos simetricamente opostos a Volpi,
cujo prestígio é ascendente desde o momento em que dividiu ex-aecquo---
"Grandes indagações metafísicas!" ...o maior prêmio da Bienal em 1953,
30 anos de pintura, e da melhor pintura, são mais que suficientes para
definir o peso de sua con-- "A talvez Diego de Rivera...!"
--tribuição à arte brasileira e continental. Influências:
Com referência a tudo o que foi escrito sobre a pintura de Di,
teremos, no capítulo das influências recebidas, uma árvore genealógica de raízes
profundas e distantes, e bastante intrincada nos
seus galhos e ramificações. "Alma brasileira...!"
Existenciais, o que fez espíritos com as próprias---
As mais distantes remontam à Renascença. O próprio artista confessava seu entusiasmo
pelo sensual Tiziano e por Michelangelo, cuja obra conheceu quando viajou à Itália.
Ou mesmo um pouco antes, com Giotto e Cimabue. Do barroco falou-se de muitos autores.
Lourival Gomes Machado diz que a pintura de Di Cavalcanti
é uma expressão que apanhou em sua tessitura vital
a realidade brasileira, e com tal identidade de essência,
que faz lembrar milagrosa correspondência entre o barroco seco de Minas Gerais
e a feição dessa província misteriosa. Talvez se pudesse ir mais longe:
Há algo de semelhante entre a mulatização de Nossa Senhora,
nos céus da Capela Franciscana de Ouro Preto, levada a cabo por Ataíde,
e a madonização da mulata na pintura de Di Cavalcanti.
Um Brasil lusitano, africano, indígena, moçarábico!
Essa é a história de Umbabarauma, um ponta-de-lança africano.
Um ponta-de-lança decidido! Umbabarauma!
Só Deus sabe o dia de minha morte e se vou entrar um dia para a Academia
Brasileira de Letras. Nunca pensei que ser candidato à ABL me trouxesse tanta angústia.
A mulata! Sempre tive pelas mulatas imensa paixão.
Outra vez! A mulata, modernismo, 1922, Di Cavalcanti, a montagem
nuclear, a quantidade está na qualidade! Sempre tive pelas mulatas imensa paixão.
A plasticidade da mulata, mais a sensualidade inerente à raça negra, e aquele olhar triste,
me encantam. Seu país!
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