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Olha esta aqui!

Então homenzinho? Achas-te muito crescido, é?

Ó rapaz, anda cá que tu ainda não estás

a perceber como é que isto funciona!

Venham cá ganhar coragem! Rapaz!

Bebe isso, para acordar o diabo.

Goela a baixo!

Vá toca a beber, então?

Isso...

Vá!

Então? Não gostas do meu vinho?

Então venham cá que eu tenho outra coisa que vocês vão gostar mais.

Emília!

Serve aí uma rodada aqui aos homenzinhos.

Quem é este?

Tu és o Paulo?

Sim.

É o filho do Arlindo dos correios.

Tens sorte. O teu pai é meu amigo, hein...

Vá!

Vai, goela abaixo!

E este?

É do Artur, dos porcos.

Como é que te chamas?

Samuel.

E aqui o caixa de óculos?

O filho do professor...?

Vítor.

E tu, deves ser o filho do Zé Carvalho. O Laureano.

Este deve ser igual ao pai.

Ó Emília, quanto é que o cabrão ficou aqui a dever?

Quanto é que o cabrão ficou aqui a dever?

Deixem lá o rapaz, que ele não tem nada a ver com isso.

Tu és um merdas como o teu pai?

Não.

Então a partir de agora, és só Laureano.

Percebeste?

Só Laureano.

Não tens nome de família. Como é que te chamas?

Só Laureano.

Como?

Só Laureano.

Toca a baixar as calças, toca a andar,

não temos o dia todo!

- Vá! - Baixa as calças.

Baixa as calças.

Baixa as calças. E tu, baixas as calças.

Tudo, que é para a gente ver esses tarolos.

Deve ser do frio.

Vá, voltem a pôr os capuzes!

É que com linguiças desse tamanho, é bom que não vos reconheçam.

O que é que vocês estão aqui a fazer, hein?

Subam lá as calças pá!

Viva!

Era um copo Emília.

Vens bem carregadinho, hein?

Ainda ontem eras tu ali...

...e agora olha para ti, hein?

Olha aí oh!

És um homem feito!

Um homem!

Vá!

Então é assim meus meninos.

Primeiro... queima por fora,

depois... queima por dentro!

Bora! Vamos a elas! Bora!

Vá!

Olha o calor!

Olha o calor!

Venham ao calor!

Chamem-nas!

Oh Amílcar, Amílcar, Amílcar!

Anda cá caralho, olha viste para aí o meu filho, meu?

Vai com calma, Arlindo. Deixa o miúdo.

Está aqui! Então, ouve lá, como é que é?

Já bateste em alguma miúda, ou quê?

Estão todas em casa.

Tapa a cara, rapaz.

Que elas não nos podem ver, senão guardam-nos rancor.

Vamos a elas! Vamos!

Dá-lhe! Dá-lhe! Que é hoje.

Venha lá o calor!

Olha aí essa!

Agarrem-na! Vamos embora rapaz!

Judite, anda cá!

Não a tratem pelo nome.

- Vem sentir o ventinho na pele! - O que é que querem?

A tua rapariga estava na rua. Foi sacudida pelo vento.

Agora tem que sentir o calor,

senão fica com a maldade dentro dela.

Vocês nunca mais crescem.

Vejam lá, não a magoem, hein? É tudo a brincar! A brincar...

Judite!

Porque é que fugiste?

Assustei-me.

Não. Fugiste, porque sabes que tens a maldade dentro de ti.

Quando é que sentiste o vento chegar, hoje ou ontem?

O que é que fizeste quando o vento chegou, hein? Tens feito coisas más?

Não fiz nada.

Alguma coisa tens de ter feito.

Todas as raparigas fazem alguma coisa quando o vento chega.

Especialmente as que fogem.

Tu, dá-lhe.

Ah! Oh mãe!

Tapem-lhe a boca. Segurem-na. Segurem-na.

Aqui na cama. Aí na cama!

Não.

Shhh. Tapa-lhe a boca. Levanta-lhe as saias!

Levanta-lhe as saias! Rápido!

Levanta-lhe as saias!

Shh. Calma, calma.

Vá, dá-lhe!

Dá-lhe!

Não!

- Parou... Parou! - Foda-se. Então meu?

Que merda é esta? Parou!

O que é isto caralho? Então?

- Não... - Acabou...

Tinha que ser este, caralho.

Lá para fora, vamos, vá. Bora, bora, bora.

Venham. Rápido.

À volta dele!

Ajoelha-te. De joelhos.

- Vem o vento do deserto... - Vem o vento do deserto...

- Misturar errado e certo... - Misturar o errado e certo...

- Vem o vento, sopra forte... - Vem o vento, sopra forte...

- Não é ele que traz a morte. - Não é ele que traz a morte.

- O amor e desamor... - O amor e desamor...

- Sofrem do mesmo calor. - Sofrem do mesmo calor.

- Cala agora o sofrimento, - Cala agora o sofrimento,

- Deixa só soprar o vento. - Deixa só soprar o vento.

Cheguem-lhe!

Com força!

Já chega! Parem com isso!

Judite saí daí. Saí já daí!

E vocês deixem o pobre rapaz.

Ele não tem nada que se vir misturar com os rapazes da vila.

Ai, não me posso esquecer de ir à junta pagar a água.

Eu vou.

Raio dos cães! Sempre de volta do lixo.

Deixa lá estar os cães.

Bom trabalho.

Até logo.

Laureano!

Já te disse tantas vezes, pá.

Tantas, tantas, tantas...

Não podes trazer os cães para a vila...

Todos os meses me aparece uma queixa a dizer que

mataram uma ovelha ou um borrego...

E gatos. Eles também apanham gatos.

Não pode ser, Laureano. Se não, vamos pô-los a dormir.

Os cães não são meus.

Se não são teus porque é que andam sempre atrás de ti?

Somos amigos.

Arranja-me um cigarro, Paulo, vá lá, arranja-me só um cigarrinho.

Foda-se, Laureano... Porque é que me andas sempre a pedir cigarros?

Já não fumo há três anos e tu todos os dias... Não há paciência!

Arranjas-me lume? Arranja-me lá lume.

Desaparece-me daqui com os cães. Ouviste?

Abre a boca, hm?

Abre a boca.

- O que foi? - Não quero.

Queres... queres, queres. Abre a boca.

Abre a boca. Tu vais gostar. Abre a boca. Abre.

Olha para mim, olha para mim. Abre a boca.

- Eu não te quero magoar... - Para.

Eu não te quero magoar, mas abre a merda da boca.

Abre a boca. Exato.

Pedro...

O que é que queres? Tás a olhar para onde?

Baza! A gente não quer os teus cães aqui, meu.

Foda-se maluco. Baza.

Cheguem-lhe.

Vais ver. Aposto em como não conseguem

acertar no maluco a esta distância.

Chupa cabrão.

Pede agora um cigarrinho!

Toma!

Ó Laureano! Lambes o cu aos teus cães?

Ou são eles que te lambem o cu a ti?

Baza, baza.

Cabrão!

Pá, faço-te preço de amigo e é se queres.

Oh Samuel, o teu puto está com quê? Catorze, quinze anos?

Vai fazer agora dezasseis.

E ele gosta de jogos de computador?

Gosta, gosta. Gosta de tudo.

Gosta de jogos, gosta de miúdas, gosta de motas, vinho.

Só não gosta é de estudar, que era aquilo que lhe fazia bem.

É que eu tenho um sócio que me arranja lá umas consolas em Espanha.

Um negócio que fiz com ele. O teu puto já tem uma?

É das novas?

Pá, eu não percebo nada daquilo,

mas acho que são das últimas que saíram.

Faço-te o desconto, mas é sem fatura, ok?

Claro.

Só me lixas tu. Vai-te lá embora.

- Leva-me aquilo logo à noite, hein? - Está bem.

Salomé? Salomé?

Está tudo bem?

- Sim. - O que é que aconteceu?

Eu bati com a janela sem querer e o vidro partiu-se.

Partiste o vidro?

Salomé, já te disse para não te trancares.

Salomé, abre a porta, por favor.

Salomé?

Como é que partiste o vidro?

Bati com força.

Salomé o que é que se passa? Cortaste-te?

Sim, mas não é nada.

Tens de desinfetar isso.

- Sim. - Lava bem, põe um penso.

Precisas de ajuda?

Não, obrigada.

Logo, sempre vens jantar connosco à festa?

Não.

Então onde é que vais jantar?

Com elas. Vou agora ter à praça.

- E a tua mãe, sabe? - Até logo!

Salomé!

Salomé! Avisaste a tua mãe?

Salomé...

Vítor...

Queres alguma coisa?

Não, obrigada.

Estás tão crescida.

- A escola está a correr bem? - Sim.

E lá em casa?

Está tudo bem.

Salomé, eu sei que temos falado pouco...

Não faz mal.

A Carolina, lembras-te? Eu falei-te dela.

Hm hm...

Nós vamos ter um filho.

Parabéns.

Obrigado.

Já escolheram o nome?

Ainda não.

Porque é que tu queres ter outro filho?

A Carolina quer muito ser mãe. Pode ser bom para nós.

E para ti, vais ter um irmão.

Meio-irmão.

Sim.

Salomé,

eu vou trabalhar para fora.

Sabes onde é o Dubai?

Quanto tempo é que vais?

Um ano, um ano e meio... talvez mais.

E a tua mulher vai contigo?

Não. O trabalho dela é cá.

Não ia funcionar.

Ela e o bebé é que vão lá nas férias.

- Mas eu... - Ok.

- Salomé? - Eu tenho que ir.

Já?

Estou atrasada.

Ok.

Vais logo à festa?

Acho que sim. Tchau.

O que é que estás a fazer... assim no escuro?

O que é que te aconteceu?

Estavam a acertar nos cães.

Os cães? Foram os cães? Foste mordido?

Foi uma pedra. Mandaram pedras.

Como é que tu podes ficar aqui a sangrar e não fazer nada?

Estava a respirar.

Quem é que estava a mandar pedras?

Uns rapazes.

Quais rapazes?

Uns rapazitos.

Mas tu fizeste alguma coisa aos miúdos?

A que propósito é que eles estavam a mandar pedras?

Era para acertarem nos cães?

Não sei.

Não sabes? Não sabes o quê?

Não sei se era aos cães.

Onde é que é a ferida?

Aqui.

- Estou-te a magoar? - Não.

- Ai, agora sim. - Desculpa.

Vais ter de tirar a camisa.

Está frio.

Pois está.

Desculpa.

Levanta aqui um bocadinho.

Vais à festa?

Hmm?

Vais à festa?

Sim, vou.

Hoje há foguetes.

Pois há.

Mas eu acho que tu devias ficar aqui a descansar.

Quero ir à festa. Eu vou à festa.

Hoje as raparigas vão ser sacudidas pelo vento.

Não, isso era antigamente.

É o calor.

- Não, isso já não se faz. - Hoje sim.

- Não faz. - Faz.

Deixa só limpar aqui melhor.

Ah trouxe-te pão, iogurtes, fruta...

Iogurtes? Que sabor?

Fica descansado que não trouxe de morango.

- Eu não gosto de morango. - Eu sei.

Trouxe de banana e coco.

Banana e coco, gosto.

E cigarros? Trouxeste cigarrinhos?

Não, não trouxe. Eu não sou tua criada. Percebes?

Ai, ai, ai, ai, ai, Judite, Judite.

Ai, ai, ai, ai... Laureano, Laureano.

Olha,

tu não podes continuar a viver assim...

Percebes o que é que eu te estou a dizer?

Eu não vou para o lar. O lar é para velhinhos.

Não. Não, não é, nem sempre...

e tu precisas de quem tome conta de ti.

Eu nasci aqui.

Sou daqui.

Bem, eu vou levar isto, está bem?

Está bem.

Precisas de alguma coisa?

Não.

- Até logo. - Até logo.

Traz-me uma travessa, quando vieres para baixo.

Samuel, temos de falar.

Temos de falar e temos de fazer contas.

Disseste-me que em três meses

triplicava o meu investimento e até agora nada.

É por isso que eu quero falar contigo.

Então diz lá.

Eu vou preso, fui enganado.

Aqui está ela, a consola! O teu miúdo anda aonde?

Anda aí atrás de algum rabo de saias.

A mesa é ali, é a segunda.

Senta-te lá que o frango está quase.

Tchau.

Vais preso?

Três anos.

Os quarenta mil que tu me deste, aquilo estava tudo a correr bem.

O negócio, tinha um sócio, aquilo... as vendas..., as casas...

Tudo incrível. Mas fui enganado, era um esquema.

Quando me dei conta já era tarde... Mas eu juro, eu vou pagar tudo.

A Carolina vai ajudar-me.

Não posso é pagar tudo de uma vez, que há mais gente envolvida.

Dentro de um ano, um ano e meio, se calhar saio por bom comportamento.

Foda-se, Vítor.

Samuel...

Samuel...

Quando é que começa?

Para a semana tenho de me apresentar na prisão, em Lisboa.

Não disse nada à minha mãe, nem à Salomé.

Não disse nada a ninguém.

Vou dizer às pessoas todas que vou trabalhar para o estrangeiro.

Quis falar contigo antes de me ir embora, Samuel.

Vais hoje?

Primeiro queima por fora...

... depois queima por dentro.

Oh rapariga é preciso ir fazer contigo a vindima antes de me trazeres o vinho?

Cuidado está quente!

O Paulo?

Não sei, deve estar a caminho. Pensei que já cá estava.

E a Salomé?

Janta com as amigas. Não estiveste com ela hoje? Ela não te disse?

Se calhar esqueceu-se.

Está tão crescida ela.

Pois está. Se a visses mais vezes já não sentias tanta diferença.

Manda um beijinho meu à Salomé.

Boa noite.

Boa noite.

Senta aí.

Eh Laureano, são os cães que te lambem o cu a ti?

Ou tu que lambes o cu a eles?

Deixa-o estar, se faz favor. Ele não faz mal a ninguém.

Aquele cabrão, Samuel? Aquele cabrão assusta as pessoas.

A nós pode não assustar, mas ele mete medo aos miúdos e às mulheres.

- É ou não é? - Então não, é?

Vá lá, vá lá... deixem-se disso, tenham calma.

O cliente para o qual ligou

tem neste momento o telefone desligado, por favor...

Vai dizer aí ao Tó para baixar a musica tá bem?

Aconteceu alguma coisa?

Onde é que está o Samuel?

Tá ali. Mas o que é que se passa?

Padre...

O que é que se passa?

Samuel...

O que é que foi, foda-se?

Não é o meu Pedro, pois não?

É o meu Pedro? Responde-me, caralho.

Não, não, não, Não, não, não.

O meu Pedro estava aqui ainda agora.

Pedro! O meu Pedro estava aqui ainda agora!

Pedro!

Pedro!

Pedro!

Filho?

'Tou Pires? É o Sendim. Nós já estamos a caminho.

Arranja-me alguém que abra aquilo.

Epá tem mesmo de ser.

Ok.

Então?

Já não devem tardar.

Samuel... Tens de te preparar.

Só quero vê-lo.

Claro...

Eu só estou a dizer que... Ele... ele não está normal.

Mas é ele, ou seja, percebe-se que é ele?

Paulo, tens a certeza de que é o meu filho que está ali dentro?

Tenho.

Cães? Não consigo perceber como é que é possível...

Cães?

Samuel... tens que ter calma.

Eu sempre lhe disse: "tu não fujas de nada, tu..."

Ele fugiu, não fugiu?

Ou achas que ele se pôs a dar luta aos cães?

Não sei.

Achas que foi isso que aconteceu?

Que ele só fez o que eu lhe disse que ele...

Que ele se pôs a dar luta e os cães viraram-se a ele?

Samuel...

Achas que foi isso que aconteceu?

Eu não sei, não sei.

Pires, obrigado.

- Tem a chave? - Sim, tenho aqui.

Desculpem lá esta confusão,

mas é que ainda nem sequer tomei café.

Ontem já deixámos aí o corpo depois das duas.

Entretanto o Pires veio me bater à porta, agora de manhã,

e nem café tomei. Viemos diretos.

Não tomaste café, cabrão? Não tomaste café, caralho?

Samuel, tem calma pá, o homem não tem culpa.

Vá, anda lá, homem.

Vamos?

Samuel, tens de respirar fundo antes de entrares.

Samuel?

Posso?

Estes cães são teus?

Olá Vitor. Lembras-te de mim?

Claro que me lembro.

Porque é que não dizes o meu nome?

Laureano.

Só Laureano.

Lembras-te?

À tarde já podes usar o teu quarto outra vez.

OK.

Dormiste bem?

Hmm hmm...

Não te deitaste muito tarde?

Salomé,

viste ou ouviste alguma coisa fora do normal?

Não.

Então?

Não viste o Pedro ontem à noite?

Não.

O Samuel está a dormir no quarto da Salomé.

- Tinhas de o trazer para cá? - Oh Judite.

Ele não podia ir para casa dele?

Ele não tem mais ninguém. O que é que eu podia fazer?

E já avisaram a Ana?

Não sei.

Pois, mas têm de lhe dizer.

Uma mãe tem direito a saber.

Quando ele acordar, eu vou perguntar se ele tem o contacto dela.

Ele vai cá ficar muito tempo?

Vai ficar só um bocado, para dormir.

Que camisa é essa?

É do Laureano.

Do Laureano?

Também lhe lavas a roupa? Do Laureano?

Não, a camisa estava muito suja, eu trouxe para...

Judite não devias continuar a ir a casa dele. Aqueles cães...

- Eu estou a falar a sério. - Eu sei.

Salomé! Rápido!

Vai buscar o caderno. Temos que ir para o ensaio.

Mas o senhor Samuel está lá a dormir.

Tentas não fazer muito barulho. Vai.

Ela já sabe?

Claro que sim. Quem é que ainda não sabe?

Olha tu também devias ir descansar.

Já vou.

Bom dia.

Pensei que estava a dormir. Desculpe.

Desculpa eu, estar aqui no teu quarto. Desculpa a maçada.

Eu disse ao teu pai que não era preciso.

Não faz mal.

Eras amiga dele, não eras?

Vocês andavam juntos na escola. Tu eras amiga do Pedro.

O Pedro era bom rapaz, sabes?

Tu e os amigos do Pedro têm de dizer isso a toda a gente.

É importante que as pessoas se recordem dele assim. Entendes?

Espera.

Viste-o ontem?

Vi.

Viste?

Ele pareceu-te feliz?

Salomé, tu achas que eu tenho o dia todo?

Vamos embora.

O casaco.

E estes cães, o que é fazemos destes malditos cães?

Malditos cães! Malditos!

Tenham calma.

Senhor padre temos de fazer alguma coisa.

Tenham calma.

- Os nossos filhos não estão seguros. - Assim não pode ficar.

Tenham calma, por amor de deus, tenham calma.

A câmara municipal já foi avisada e já está a tratar do assunto!

Eu próprio já falei com o presidente e ele garantiu-me...

Ó senhor padre, desculpe, mas assim não vamos lá, com avisos.

Eu estou farto de avisar.

Quando me mataram o borrego, eu disse:

"à próxima vez vai ser uma criança!"

Mas tenham calma! Calma!

Eu disse-lhes! A culpa é deles, e eles não fizeram nada!

E agora estamos aqui de braços cruzados?

Vamos lá ver. Eu compreendo o vosso sofrimento.

Eu partilho a vossa dor. Sabeis isso muito bem, não é?

Mas escutai-me, a ira não é boa conselheira.

Nunca foi.

A nossa dor é profunda, mas não tenteis fugir dela usando a violência.

Façamos o nosso luto.

Choremos o Pedro, e encontremos consolo sabendo

que Deus o chamou para o seu lado.

Bom, mas temos de cantar a missa.

Vamos ao nosso ensaio. Vamos lá.

Oh morte Sempre vencedora

Onde está agora

A tua vitória

Ressuscitou

Ressuscitou

Ressuscitou

Aleluia

Aleluia

Aleluia

Dá cá isso!

Dá cá isso, Laureano!

Segura aqui.

Samuel, se precisares de alguma coisa...

Olha para mim. Seja o que for.

Obrigado.

O que é que te passou pela cabeça? Samuel!

Eu sei que tu estás perdido.

Eu não faço uma ideia que seja aquilo que te está a acontecer,

mas tu não podes portar-te desta maneira,

não podes andar aí no meio da rua, aos tiros.

Olha o estado em que estás.

E se tivesses magoado mais alguém além de ti?

Não pode ser, Samuel.

Eu não posso permitir uma coisa dessas.

É impossível.

Então o que é que é possível, Paulo?

O quê?

O que é que é possível? O meu filho foi morto por cães.

O que é que eu faço? O que é que tu fazes?

O que é que é possível?

Podem sair, por favor?

O médico legista já telefonou. Ainda vamos receber o relatório mas...

Mas o quê?

A autópsia revelou que a causa da morta foi uma hemorragia interna

provocada por duas perfurações na zona do abdómen.

Foi um acidente ou não? Ah?

Eles sabem ou não sabem o que se passou com o meu Pedro?

O Pedro foi esfaqueado.

Pode ser um homicídio, ainda não sabemos.

Vamos ter de chamar a Polícia Judiciária, abrir uma investigação.

Lamento Samuel, nem sei o que te diga.

O funeral é depois de amanhã.

E a que horas?

Às onze.

Eu também tenho de ir?

Claro que tens de ir. Estás parva?

Então não eras amiga dele? Não o conhecias?

- Conhecia. - Então?

Não vais comer?

Não me apetece.

- Vou sair. - E vais onde?

Vou à praça, ter com elas.

Não, não. Tu não vais a lado nenhum.

- Ficas em casa. - Porquê?

Por causa dos cães. É perigoso.

Pelo menos durante uns dias, não quero que andes para aí sozinha na rua.

Percebeste?

Mãe... Eu já tinha combinado com elas.

Não estás a ouvir?

Porque é que estás assim?

Assim como?

Assim. Parece que queres bater em alguém.

O que é que se passa?

O miúdo do Samuel já foi autopsiado.

Não foram os cães que o mataram.

Deram-lhe duas facadas.

Duas... O quê!?

Enquanto não sabermos quem foi ou o que é que se passou,

não podemos deixá-la andar por aí sozinha na rua.

Tu não podes falar disto a ninguém.

Percebeste? A ninguém.

Nas festas há sempre gente de fora,

mas sabemos lá se não foi alguém daqui.

Só me faltava mais esta merda...

ter que andar a fazer visitas guiadas aos parvalhões da Judiciária.

Quando encontraste o meu filho, ele já estava morto?

Sim.

Tens a certeza?

Tenho.

Não estava ninguém com ele?

- Não. - Não me venhas com merdas,

- não me mintas. - Eu não estou a mentir.

Não viste nenhum carro, não viste nada?

Não vi. Eu saí do carro assustado,

olhei de um lado para o outro, estava escuro, aproximei-me...

Só vi os cães.

Trouxe-te a camisa, já está lavada.

Laureano...

Tu costumas pensar no que te aconteceu?

O quê?

Quando éramos miúdos. Quando te bateram.

Não te lembras?

Lembro.

E costumas pensar nisso?

Tu alguma vez perdoaste?

O Samuel e os outros.

Alguma vez os perdoaste?

Porquê?

Nunca disseste quem eram nem o que te tinham feito.

Eram rapazitos. É a vida.

E nunca pensaste vingar-te?

Era normal, quereres vingar-te.

Podias... ter tido uma vida normal.

Eu não digo isto para te magoar mas a verdade é que tu não...

tu não tiveste...

tu... não tens... uma vida normal.

Eu gosto assim.

E não gostavas de ter casado?

Não gostavas de ter casado? De ter filhos?

Laureano, foi o filho do Samuel que mandou

pedras aos teus cães?

Foi ele que te acertou? Responde-me.

Tu fizeste alguma coisa ao miúdo?

Este sangue, era só teu?

Laureano...

se tu tivesses feito alguma coisa....

Tu sabes que me podes contar, não sabes?

Eu não faço mal.

Tá bem? Percebido?

Pronto, os vossos colegas estão aí. Podem ir embora.

E nós, vamos?

Vá andor.

Sentem-se.

Então?

Nós não fizemos nada.

O que é que achas que a Judiciária lhes faz?

Está-se mesmo a ver, meu sargento.

Se perceberem que eles estão a mentir,

levam-nos para a prisão em Lisboa.

Tu achas que eles estão a mentir?

Acho.

Não estamos nada a mentir!

Eu sei que vocês andavam sempre com o Pedro.

Nós não fizemos nada.

Isto vai ser assim.

Ou vocês me contam de livre vontade o que é que aconteceu ontem à noite,

ou vou eu ter de vos interrogar.

Ora, para vos interrogar, eu preciso da presença dos vossos pais,

porque vocês são menores.

E eu conheço os vossos pais.

Não sei se me estão a perceber?

Então é para ir buscar os pais deles, não é?

Não.

- Se calhar é melhor. - Nós atirámos pedras.

Mas foi à tarde.

- Atiraram pedras? - Sim.

- A quê? - Aos cães.

- Aos cães? - Sim, aos cães.

E é isso que tens para me dizer?

É tudo? Não fizeram mais nada?

Sim, foi só isso. Nós atirámos pedras.

Não é nada de mais.

Também acertámos no maluco.

No Laureano?

Sim, ele estava lá no meio dos cães.

E a que propósito é que andaram a atirar pedras ao Laureano?

Sei lá! Porque ele é maluco.

Ele estava sempre a olhar para nós!

A olhar para quê?

Sei lá.

- E o Pedro estava convosco? - Ya.

E essa foi a última vez que viram o Pedro?

Quando é que foi a última vez que viram o Pedro?

À noite.

Na festa?

Não, no monte...

No monte?

Estivemos a correr atrás das raparigas.

A correr atrás das raparigas? Mas qual é a novidade nisso?

Estivemos a correr atrás das raparigas com os coisos... os capuzes...

E as vergastas.

- Com os capuzes? - Era uma festa, que havia.

Eu sei qual é a festa. Não sabia que ainda se fazia.

Não foi nada de especial. Foi só isso.

E depois?

Nós viemos embora, e o Pedro ficou lá.

E ficou lá sozinho?

Ficou lá alguém, lá com ele?

Ele tinha que fazer uma coisa e disse que ia ter connosco à festa.

Foi aí a última vez que o vi.

E tu?

Também não o vi mais.

E não viram mais ninguém ali por perto?

O Laureano? Os cães?

Não.

- O que é que estás a fazer? - Merda...

Andaste a mexer nas minhas coisas?

Estás a falar de quê?

Estou a perguntar-te, mexeste nas minhas coisas?

Se abriste alguma caixa? Tiraste alguma coisa?

Não, eu não. Mas desapareceu alguma coisa?

E o Laureano? Veio cá a casa?

Veio cá a casa como?

A camisa, a camisa do Laureano que tu lavaste cá em casa.

- Ele veio cá a casa? - Não.

Judite, não me mintas. É importante.

Eu não estou a mentir. Eu já te disse que não.

Eu é que vou sempre a casa dele.

Ele não podia ter vindo cá a casa?

- Desculpa? - Não podia ter acontecido?

Desculpa, mas o que é que se está aqui a passar?

O Pedro tinha o capuz do Samuel.

Quando foi encontrado morto, tinha o capuz na cabeça.

Mas, qual capuz?

O capuz da festa dos rapazes.

E eu encontrei o meu capuz perto do local onde o corpo foi encontrado.

Como é que ele foi lá parar?

Mas como é que tu sabes que esse é o teu capuz?

Judite, é o meu capuz, eu tenho a certeza.

Pensa bem.

Judite, tens a certeza que o Laureano não pode ter vindo cá a casa,

sem dares conta?

Tu achas que foi o Laureano que matou o miúdo?

Sei lá! Foi o Pedro que lhe andou a atirar pedras.

Quem é que sobra para acusar?

Esconde isso.

Senão ainda somos arrastados para esta merda!

Que porra! Eu já venho.

Salomé?

Salomé, podes chegar aqui?

Sim.

Tu mexeste nisto?

Fui eu.

Foste tu? Foste tu o quê?

O que é que aconteceu, Salomé?

Desculpa, mãe. Eu não queria.

- Não querias o quê? - Desculpa.

O que é que aconteceu Salomé?

Eu disse para ele parar, mas ele não parou!

Ele quem?

Eu não o queria matar, foi sem querer.

Eu não percebi.

Ele disse... eu disse que eu não queria mas ele continuou...

E estava-me a doer! Eu não sabia!

Calma... Calma...

Calma, Calma, Calma.

Calma, filha.

Eu gostava dele!

Pronto...

O que é que me vai acontecer?

Não vai acontecer nada. Calma.

Vai ficar tudo bem...

Vai ficar tudo bem...

Laureano?

Laureano?

É o Paulo. Temos de falar.

Estás bonito.

Só te chamei porque não queria que as pessoas

dissessem que não te deixei vir ao funeral.

Obrigada.

Por mim, não vinhas.

É o meu filho...

É? Só se for agora, que está morto.

Enquanto foi vivo, só teve um pai.

Achei que não vinhas hoje.

- Trouxeste cigarrinhos? - Não.

Eu preciso da tua ajuda.

Eles já acham que foste tu. Se calhar vais preso, na mesma.

Portanto, a única maneira de me salvares...

de salvares a minha filha, é dizeres que foste tu.

Que fui eu? Que fui eu que fiz o quê?

A minha filha matou o Pedro para se salvar.

Ouve,

se tu disseres que foste tu...

A minha filha é uma criança.

Tem a vida toda pela frente...

Se tu fores preso vais...

vais ficar melhor, vais ter quem tome conta de ti.

E eu vou estar lá, sempre, sempre, sempre, sempre.

Eu nunca te vou deixar, prometo.

Ajuda-me. Por favor, ajuda-me.

Eu preciso de ti. Ajuda-me.

Fazes isto por mim?

Fazes isto por mim, por favor?

Eu preciso de ti.

Então? Disseram-me que te vieste entregar...

Fui eu.

Foste tu o quê?

O rapaz. O rapazito.

Estás a dizer que te vieste entregar e

confessar o homicídio do filho do Samuel?

Quando eu cheguei foi logo isso que eu... disse.

Porque é que o mataste?

Vingança.

- Vingança? - Sim, vingança.

Qual vingança?

Contra o Samuel, por ele me ter batido.

O Samuel bateu-te?

E tu também.

Estás a falar daquele dia? Quando éramos miúdos?

Como é que o mataste?

Com uma navalha.

Uma navalha?

Sim.

E onde é que está a navalha?

Não sei.

Não sabes?

Não. Deitei-a fora.

E quantas vezes é que o espetaste com a navalha?

Três.

Três?

Ou duas. Três? Não sei.

- Não sei. - Não sabes?

Não me lembro. Estava zangado. Estava...

E o capuz?

De onde é que veio o capuz?

Não me lembro...

Tu usaste um capuz?

Não. Eu usei uma navalha.

Mas estava um capuz, quando o Pedro foi encontrado.

Não sabes nada sobre isso?

Sim...

Laureano! Foste tu que o roubaste?

Era o Pedro que o tinha com ele?

Não, não...

Como é que era o capuz?

Paulo...

O quê?

Tens um cigarrinho?

Tu vais ficar bem, Samuel.

Samuel, tu és forte.

Tu vais ficar bem.

Nunca te vais esquecer.

Vais-te lembrar do nosso Pedro todos os dias, para o resto da tua vida.

Mas vais ficar bem. Vais sobreviver.

Mas e eu? Eu não sou forte como tu.

Eu não aguento, Samuel. Eu vou fazer uma asneira.

Deixa-me ficar aqui.

Eu preciso que tu cuides de mim.

Se não eu morro.

Se não tomares conta de mim, eu morro aí numa valeta qualquer.

Amanhã de manhã, quando eu acordar, não estás cá.

Não te quero voltar a ver.

O Laureano entregou-se.

- Entregou-se? - Sim.

Confessou.

Disse que foi ele que matou o Pedro.

E disse porquê?

Disse.

Mas ele está a mentir. Acho que não foi ele.

Não? Então porque é que havia de confessar?

Não faças perguntas.

Tem de ser o Laureano.

Foda-se, Paulo.

Assim que os gajos da Judiciária apertarem com ele

vão perceber logo que tá a mentir.

Se a coisa for bem feita, nunca se vai perceber o que é que aconteceu.

Paulo, daqui a três dias eu vou ter que ir...

Não sejas um merdas.

Estes anos todos, eu criei a tua filha como se fosse minha.

O amor que eu lhe tenho é o que um pai tem a uma filha.

Faz alguma coisa por ela, agora.

Sabes o que é que vai acontecer, não sabes?

Sei.

Tens aí a chave.

Como é que te chamas?

Rúben.

Vá, vai beber. Anda.

- Como é que te chamas? - Miguel.

Bebe.

- Como é que te chamas? - Dinis.

Vá bebe.

Vá rápido. Bora.

Vai, vai, vai. Bora, bora, bora!

Vem o vento do deserto...

Misturar o errado e o certo...

Vem o vento, vem o vento...

Sopra forte...

Não é ele que traz a morte.

O amor e o desamor...

Sofrem do mesmo calor.

Cala agora o sofrimento,

Deixa só soprar o vento.

Vem o vento do deserto...

Misturar o errado e o certo...

Vem o vento, sopra forte...

Não é ele que traz a morte.

Ponham-no de pé.

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