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O que acha que aconteceu à Amy?
Não sei.
Amy!
Aconteceu algo terrível.
Amy!
Tenho de pensar que alguém a matou.
Talvez tenha sido assassinada, colocada numa mala e retirada do navio.
Acho que saltou ou caiu.
Eu não acredito
que a Amy se suicidou.
Não posso acreditar nisso.
Custa-me dizer-lhe o que acho que aconteceu.
Não o quero dizer em voz alta porque não quero que se concretize.
Como poderia saber se saiu do barco? Não tive nada que ver com isso. Nada!
O que aconteceu exatamente à filha deles é um mistério.
Agentes do FBI embarcaram no navio para o tentar resolver.
Se alguém a tiver, por favor, libertem-na.
Deixem-na algures a meio da noite, vendada.
Não faremos perguntas.
Acho que está viva,
que foi raptada como escrava sexual, mas não sei.
Um cruzeiro de sonho a um paraíso caribenho.
Mistério num cruzeiro, uma passageira desaparecida.
Não sabemos o que correu mal.
Isto é cada vez mais denso.
Há tantas perguntas.
Um acidente terrível ou crime?
Tantas teorias.
Ela virou-se para trás quase a dizer: "Socorro."
E uma delas é a resposta certa.
Se quiser matar uma pessoa, leve-a num cruzeiro.
Nunca será apanhado.
O DESAPARECIMENTO DE AMY BRADLEY
Com que frequência revive a viagem?
Todos os dias.
Não é de vez em quando, não é dia sim, dia não.
MÃE DE AMY
Não é uma vez por mês.
Acordo a pensar nisso.
Deito-me a pensar nisso.
PAI DE AMY
Tudo à minha volta me lembra dela.
Olá, mãe! Olá, Amy!
Boa!
E é uma sensação horrível.
Imagine que vai às compras
e que leva os seus filhos.
As crianças andam a brincar
no meio das roupas.
Olha para cima
e não vê uma das crianças.
É puro pânico.
E essa sensação é algo que não desaparece.
Agora temos 71 e 72 anos.
Eu tinha 45 anos, quando a Amy desapareceu.
CHESTERFIELD, VIRGÍNIA
Foi a 21 de março de 1998.
Eu ia ficar na casa dos Bradley enquanto eles estavam no cruzeiro
para tomar conta dos cães e dos pássaros.
Para tomar conta da casa.
Temos de ir daqui a um minuto.
Ao crescer, eu era o quinto membro dos Bradley.
Estava por lá a toda a hora.
… na tua boca.
Era sempre divertido. A casa deles estava sempre cheia de gargalhadas.
A mãe e o pai disseram que, aos três anos, recebeste a tarefa
de partir a testa em todas as maçanetas.
Adorava estar com a Amy e o Brad. Era divertido. Divertíamo-nos muito.
Eram tão próximos que nos fazia querer que a nossa família fosse assim.
Quando imagino a minha irmã, não a imagino muito diferente
da última vez que a vi.
Ainda vejo a mesma mana de sempre.
No futuro, sê confiante e não aceites conselhos de ninguém.
Estarei sempre lá para ti. Adoro-te, maninho.
Obrigado.
Na verdade, eu namorava com o Brad nessa altura.
Mas éramos todos bons amigos.
Um amor juvenil.
Na altura, o Brad tinha 21 anos, era dois anos mais novo do que a Amy.
A Amy tinha 23 anos, era um ano mais velha do que eu.
Ela tinha acabado de arranjar casa
e um cão novo. Era como uma viagem de família
antes de começar a vida de adulta.
Como estás?
Lembro-me de irmos às compras, de falarmos de fatos de banho
e de fazer a mala para a viagem.
Ela parecia entusiasmada por ir.
Todos pareciam.
Lembro-me deles a sair de casa.
Não percebi que a vida nunca mais seria igual depois disso.
SAN JUAN, PORTO RICO
21 DE MARÇO DE 1998 DIA 1 DO CRUZEIRO
Fui diretor de cruzeiros da Royal durante 20 anos.
E era o diretor no Rhapsody of the Seas.
Olá, sou o Kirk Detweiler, o vosso diretor do cruzeiro…
Credo!
Era um bebé.
Este vídeo era o início do programa Bem-vindos a Bordo.
Quero aproveitar para vos receber a bordo do Rhapsody of the Seas,
um dos maiores e mais belos navios de cruzeiros.
A minha função? Era o rosto do navio.
Cada cruzeiro era diferente, com um grupo diferente todas as semanas.
Eu tinha um fraquinho pelas velhinhas.
Eu dançava com as velhinhas.
"Meu Deus! Eu tenho uma neta!"
Um passo para a direita, um passo para a esquerda.
Três passos para trás, balança para a frente, balança para trás.
Passo, vira e recomeça.
Era uma vida incrível.
Devo ter 500 melhores amigos com quem trabalhei.
Foram bons tempos.
Este cruzeiro foi em março de 1998, e lembro-me muito bem dele.
Eram sete dias a partir de San Juan.
Passávamos por Aruba, Curaçao, St. Maarten e St. Thomas.
É o maior navio do mundo. É muito grande!
Eu e a minha mulher somos mediadores da Illinois Mutual Insurance Company.
Eles faziam concursos todos os anos.
Naquele ano, fomos recompensados com um cruzeiro.
Estou a entrar no meu quarto.
É muito fixe.
Estávamos entusiasmados com a viagem como casal.
Mas, quando percebemos que nos iam deixar levar
a Amy e o Brad connosco, ficámos radiantes.
O sofá-cama, a porta de correr de vidro.
Claro que deviam preferir ter um quarto só para eles,
com 21 e 23 anos, mas não foi o que aconteceu.
San Juan! O porto de San Juan.
Filmei-te.
Saímos.
A Amy comprou uns postais.
E comprámos uma dúzia de rolos de filme.
A Amy estava a tirar fotos para um concurso de fotografia.
As buzinas tocaram. Estávamos a sair da doca.
Lembro-me de subir ao piso da piscina e de olhar à volta.
Havia uma banda a tocar, uma banda típica com tambores de aço.
O dia seguinte foi passado no mar.
A água era cristalina.
Tal como dizem na televisão.
E no terceiro dia foi a paragem em Aruba.
Lembro-me de alugarmos um veículo e de nos perdermos no deserto.
Assámos ao sol.
Falámos sobre o que íamos fazer no dia seguinte em Curaçao.
Voltámos para o navio.
Vou comprar isto para a Erin.
Este rapaz está muito cansado.
Teve um dia difícil na ilha de Aruba.
Está apagado.
Naquela noite, estávamos a preparar-nos para jantar, e era a noite formal.
O fotógrafo disse que queria tirar uma foto à Amy.
Quando estava a tirar à Amy, disse: "Agora ela e o namorado."
A Amy riu e disse: "Não é o meu namorado, é o meu maninho."
À mesa, o empregado estava visivelmente atento à Amy
e a namoriscar um pouco.
Chegámos a fazer piadas à mesa.
"Se alguém precisar de algo, digam que é para a Amy.
Chega num instante."
Depois de jantar, voltámos para o quarto, tirámos a roupa formal
e fomos para o piso da piscina.
Vamos sair. Vai ser muito divertido!
A festa na piscina começou às dez.
Chamaram-lhe "Dança Sob as Estrelas" ou algo assim.
Parecia que estava lá quase toda a gente.
Houve um concurso de limbo que, de alguma forma, acabei por ganhar.
O vencedor!
Ganhei uma coroa no concurso de limbo
que pus na cabeça da Amy.
O barco tinha saído de Aruba durante a festa na piscina, à 01h00.
Nessa altura, como eu e a Iva estávamos cansados, decidimos parar
e dissemos à Amy e ao Brad que íamos para a cama.
Eu disse: "Adoro-te", e ela respondeu: "Também te adoro, mãe.
Vemo-nos de manhã." Eu concordei e fomos para a cama.
Fomos para a discoteca porque era o único sítio aberto
e não queríamos ir dormir.
Estávamos a beber uns copos, a ouvir música e a divertir-nos.
Divertimo-nos muito juntos.
Quando saí da discoteca,
fiz sinal à Amy, que estava na varanda,
na zona do DJ, que parecia uma mesa redonda
onde quatro, cinco ou seis pessoas estavam sentadas,
e acenámos um ao outro. Eu disse: "Eu fico aqui fora."
Eu saí e fiquei no piso superior durante meia hora ou assim,
depois voltei para o meu quarto, o nosso, o quarto que partilhávamos.
Os meus pais estavam a dormir. Eu fui para a varanda.
E menos de cinco minutos depois, pelo que pareceu, a Amy entrou no quarto.
Ficámos ali os dois a acabar as bebidas e a falar sobre o dia seguinte.
Ela comentou que alguém com quem tinha estado a dançar e a falar,
durante a noite, tentou atirar-se a ela.
Ela disse-me que foi o baixista da banda.
Ela não deu muita importância.
Comentou-o de passagem.
Nessa altura, estávamos os dois tocados.
Não estávamos malucos.
Percebi que estava na hora de ir para a cama.
Na manhã seguinte, íamos acordar cedo,
eu queria tentar dormir umas horas.
Ela disse: "Não me sinto muito bem,
vou ficar aqui a apanhar ar fresco e vento."
Disse-lhe que a adorava, despedi-me e fechei a porta de vidro atrás de mim.
E fui para a cama.
Lembro-me de acordar por volta das 05h30.
O Brad tinha entrado e estava na cama,
mas não vi a Amy.
Fui ver se a Amy estava bem e vi as pernas dela
e os pés, numa cadeira na varanda.
Pensei: "Ela está bem."
Depois, por volta 05h50 ou 06h00,
algo me acordou outra vez.
Não sei o que foi,
mas, quando abri os olhos, olhei outra vez e ela não estava lá.
Reparei que a porta da varanda estava aberta
uns 30 a 35 cm.
Reparei que os cigarros dela não estavam lá fora.
E a blusa que ela tinha naquela noite
estava na cadeira do quarto.
Era um polo amarelo.
A primeira coisa em que pensei foi que mudou de roupa e saiu.
Saiu do quarto, foi buscar um café
e tirar fotografias porque estávamos a chegar a terra.
Foi aí que eu saí do quarto.
Pensei que, ao sair sozinho e deixá-los a dormir,
encontraria a Amy em minutos.
E depois ficaria tudo bem.
Quando não a encontrei,
voltei e disse à Iva: "Não encontro a Amy."
Ele tocou-me no pé e disse:
"Andei à procura da Amy, mas não a encontro."
DESAPARECIDA HÁ 60 MINUTOS
De repente…
… o navio estava prestes a atracar.
Um dos meus funcionários veio ter comigo e disse:
"Brent, tenho uns pais na receção.
Estão preocupados com a filha."
Fui à receção e falei com a família Bradley.
Eles estavam muito preocupados
e um pouco agressivos para saber o que podíamos fazer.
Pediram que o navio emitisse um aviso nas colunas.
Eu expliquei que não o faríamos às sete da manhã.
Para os restantes passageiros, podia ser algo intrusivo.
O que lhes disse foi:
"Parece que já procuraram bem,
mas continuem a procurar e, se não a encontrarem em meia hora,
voltem, eu estarei aqui e levo-os ao gerente da segurança."
O navio tinha dez pisos, e 300 metros de comprimento.
Ela podia estar em qualquer lado.
Duas mil pessoas preparavam-se para desembarcar em Curaçao.
Na altura, como usava um bouffant, devia estar a meter laca no cabelo.
a preparar-me para a prancha de desembarque.
E ouvi um anúncio:
"Amy Bradley, pode entrar em contacto com a receção?"
Víamos as pessoas a juntar as coisas
e dizíamos: "Não podem deixar sair ninguém até a encontrarmos."
O diretor de hotel informou-me:
"Desapareceu uma rapariga."
Mas, na altura, tinha de fazer o anúncio de saída.
Eu estava a implorar:
"Podem retirar o navio da doca? Não baixem as escadas.
Parem tudo."
Bom dia! Bem-vindos a Curaçao,
a saída é feita pelo piso dois, pelas escadas da popa.
Não íamos acabar com o cruzeiro de todos por haver uma rapariga desaparecida.
Era um incidente infeliz para uma família,
mas tínhamos mais 2400 pessoas que pagaram muito.
Por mais frio que pareça, é a realidade.
Nunca tinha sentido nada assim.
As pessoas continuavam felizes.
Estavam de férias, a rir, a falar…
E nós estávamos à procura da minha filha.
Foi… Foi um pesadelo.
Quando a família não a encontrou…
DESAPARECIDA HÁ 3 HORAS
… decidimos fazer uma busca ao navio.
Fizemos o chamado exercício Charlie.
Chamam-lhe Charlie, mas é uma busca de bombas.
Verificamos todas as gavetas, armários, quartos, cantos e recantos.
Demora 45 minutos a uma hora. Temos 800 a 900 pessoas a fazê-lo.
Todos os tripulantes têm de verificar o seu quarto, cada centímetro do navio.
Durante a busca,
o segurança disse-nos para esperar no quarto.
Não vimos ninguém a revistar o navio.
Mas foi aí que o capitão entrou.
Ele disse: "Procurámos, mas a vossa filha não está no navio."
Não encontraram nada.
Ela desapareceu.
Todos, pelo menos os funcionários,
achavam que ela tinha saltado ou caído borda fora.
Pensávamos que podia ter caído borda fora.
Não é tão comum como as pessoas pensam, mas é possível.
Quando não a encontrámos no navio,
ligaram às autoridades locais de Curaçao.
Eu era o chefe da Polícia. Quando algo assim acontece,
vem diretamente para mim.
Pensavam que tinha caído borda fora.
Como as nossas águas têm uma corrente muito forte, algo devia aparecer na praia.
Lembro-me da busca.
Vi os barcos e os helicópteros à procura.
Foi a maior busca que tivemos.
O nosso raio de busca era entre Curaçao e Aruba.
Os Marines, a Guarda Costeira venezuelana, a Marinha, todos andavam à procura ali.
Pela posição do navio, força do vento, corrente do mar e altura das ondas,
o corpo teria dado à costa, mas ela não aparecia em lado nenhum.
Nem uma peça de roupa, nada.
Era muito estranho, mesmo muito estranho.
Eu nasci aqui.
Eu conheço a água.
Nós procurámos. Se ela tivesse saltado ou caído do navio…
… teríamos o corpo.
Ela teria dado à costa.
As nossas águas têm tubarões, mas um tubarão não a come por completo.
Algo, talvez uma perna ou um braço,
algo teria dado à costa.
E kos ta straño. Significa "isto é estranho".
Ligaram-me a 24 de março de 1998.
O telefone tocou, eu atendi
e foi horrível.
Eram três pessoas a chorar descontroladamente.
Uma dor que nunca ouvi antes.
Eu estava sozinha e fiquei ali a pensar:
"Meu Deus, e agora?
O que vai acontecer?"
Saímos às cinco ou seis horas.
Ainda tínhamos milhares de pessoas para entreter e alimentar.
Continuavam de férias. Por isso, voltámos
ao procedimento operacional normal.
A vida continua.
Os cruzeiros continuam.
Foi quando a notícia chegou à América.
Esta noite, começamos com um mistério em alto-mar.
Era notícia de última hora.
Esta foto de Amy Lynn Bradley, com 23 anos, foi tirada
horas antes de desaparecer misteriosamente num cruzeiro, na manhã de terça-feira.
Não é da nossa Amy que estão a falar.
A Stephanie ligou-me
e ficámos todos: "Meu Deus!"
Eu sou uma eterna otimista.
"Vai ficar tudo bem. Eles vão encontrá-la. Está tudo bem.
Foi um erro.
Ela embebedou-se e está perdida algures ou assim."
Eu fiquei completamente dormente.
Na faculdade, tínhamos vivido todas no mesmo dormitório.
Nós conhecemo-nos por causa da Amy.
Eu estava numa viagem de trabalho.
Não havia muitos pormenores.
Só me lembro de não me aguentar em pé.
"Temos de a encontrar imediatamente."
25 DE MARÇO DE 1998 DESAPARECIDA HÁ 1 DIA
A maioria das pessoas não faz ideia,
quando embarca num cruzeiro, dos perigos inerentes.
Mas as coisas que me aconteceram,
as coisas que aconteceram à Amy Bradley e à família dela,
podem acontecer a qualquer um, e estão sempre a acontecer.
A minha filha morreu num cruzeiro de três dias de Long Beach para o México.
Depois disso, comecei a trabalhar
para melhorar a segurança nos cruzeiros.
O navio é como uma pequena cidade.
Não podemos baixar a guarda.
Temos de estar sempre atentos.
A 20 km da costa, estamos em águas internacionais,
a zona com menos leis que existe.
O mais parecido com a Polícia é a equipa de segurança.
Bem, isso é um conflito de interesses, são contratados pela empresa de cruzeiros.
Se houver um desaparecimento,
estamos a centenas de quilómetros
antes de as autoridades americanas poderem entrar naquele navio.
GABINETE LOCAL DO FBI
Em 1998, tinha acabado de sair da faculdade.
O gabinete em St. Thomas era pequeno, com vários agentes.
Soube do caso e juntei-me para ajudar.
A informação inicial recebida era muito escassa.
Uma cidadã americana tinha desaparecido.
Tinha 23 anos e estava de férias com a família.
26 DE MARÇO DE 1998 DESAPARECIDA HÁ 2 DIAS
Voámos de St. Thomas para St. Maarten.
Em St. Maarten, os cruzeiros não atracam no porto,
ficam no mar
e depois usam pequenos barcos até à costa.
Então, entrámos num desses barcos que ia voltar para o navio.
O navio era enorme.
Era como parar ao lado do Empire State Building.
Era uma coisa gigante.
Sabíamos que a Guarda Costeira
e a Polícia local de Curaçao não tinham encontrado um corpo.
Aconteceu algo nefasto e criminoso?
Neste caso, podia ter acontecido qualquer coisa.
Entrámos no navio ao fim da tarde.
O capitão informou-nos do que sabia.
O último sítio onde foi vista foi a varanda do quarto.
Assim, a primeira coisa que quisemos fazer foi ver o quarto.
O quarto estava bem organizado
e era muito pequeno.
Só havia espaço para as duas camas
e para passar entre elas até à varanda e sair.
No quarto, não havia sinais de luta,
mas não tínhamos a certeza se o navio tinha isolado o quarto
como possível cena de crime.
O quarto dos Bradley tinha sido limpo antes de o FBI ter subido a bordo.
O que foi lamentável, pois, se houvesse provas,
não tinham sido preservadas.
Tentámos recolher impressões digitais e fibras dos lençóis,
mas já tinha sido tudo limpo.
E vimos a varanda.
Segundo o que o capitão nos disse,
o último lugar onde ela foi vista foi ali.
O parapeito da varanda era
relativamente alto.
Eu tenho mais de 1,80 m.
E o parapeito era relativamente alto para mim.
E era uma queda abrupta para a água.
A varanda foi organizada para caberem duas cadeiras e uma mesinha.
A mesa estava junto ao vidro da varanda.
Os sapatos da Amy foram encontrados na varanda,
arrumados ao lado da mesinha.
Eram umas sandálias Birkenstock.
Podíamos especular: "Terá saltado?"
Mas não havia provas concretas disso.
Não creio que uma mesa desviada seja uma prova sólida,
pois as coisas tinham sido movidas pela equipa de limpeza. Era muito difícil.
Nessa altura, tínhamos de falar com a família
porque foram os últimos a vê-la.
Fomos levados para um quarto
com dois agentes do FBI.
No fundo, foi uma entrevista.
Falámos com a família. Primeiro, com os três juntos.
Depois, foram divididos,
e falámos com cada membro em separado.
Estávamos sensíveis com a situação deles,
mas tínhamos de começar a fazer perguntas
porque tínhamos de determinar o que sabiam.
Estávamos a entrar à vez para falar com o FBI.
Ele garantiu-nos: "Não vamos deixar nada por investigar."
Perguntaram-me coisas simples, como:
"O que aconteceu durante a noite em questão?" e coisas assim.
Não procurávamos apenas provas do que possivelmente aconteceu,
também queríamos eliminar potenciais alternativas.
Eu disse:
"Não percebo porque estão a perder tanto tempo connosco."
Quando saí,
disse à Iva: "Sabes porque estão a falar connosco em separado?
Porque somos suspeitos.
Um de nós pode ter tido algo que ver com isto."
Tínhamos de investigar a família Bradley.
O último sítio onde a Amy foi vista foi no quarto deles, a meio da noite.
Mas não encontrámos provas que nos levassem a considerar
um familiar como possível culpado.
No início, queremos perceber a linha temporal
para começar a desbravar as camadas do que pode ter acontecido.
Temos um facto concreto.
Temos confirmação de quando a família voltou a entrar no quarto,
quando o Bradley entrou e a Amy, por causa do cartões.
Na altura, os camarotes tinham cartões de acesso
que, quando usados, criavam
um registo eletrónico de entrada no quarto.
Portanto, sabemos a que horas a Amy voltou para o quarto.
Ela esteve no quarto por volta das 03h40.
Esteve na varanda com o irmão,
a conversar e a fumar um cigarro.
AMY ENTRA NO QUARTO
E esse é o único facto real que temos.
A partir daí, fica um pouco turvo.
Após entrevistar os Bradley,
sabemos que por volta das 05h30 da manhã ela estava na varanda.
E às 06h00 ou pouco depois não estava na varanda.
O navio tinha câmaras em alguns sítios, sobretudo nas áreas comuns.
Mas não eram muitas.
Vimos as imagens e não encontrámos nada.
Para obter uma linha temporal completa,
esperávamos que alguém avançasse e dissesse
que tinha ouvido ou visto algo.
PASSAGEIRO
Eu estava no quarto ao lado da Iva e do Ron Bradley.
Lembro-me de o FBI andar à procura de pistas e…
Como tinham a porta do quarto aberta, dava para ver lá para dentro.
Tinham fita amarela nas coisas.
Saí do quarto
e tive um pressentimento, algo estranho se passava.
As pessoas comentavam umas com as outras.
Quando ouvi a notícia, parece que alguém tinha caído borda fora.
Pensei: "Que horror!" "Sim, andam à procura dela."
Mais tarde, no dia seguinte, ouvi que se tinha suicidado.
"O quê?"
Pelo que ouvi dizer,
ela gabou-se de ser boa nadadora
e que, quando visse as luzes de Curaçau,
ia saltar para a água e tentar chegar a terra antes do navio.
Lembro-me de ouvir alguém a dizer que a podiam ter drogado
e raptado.
E aí ouvi: "Se calhar, não saltou."
"O quê?"
Ele disse: "Sim, acham que houve algum crime."
Havia muitos rumores.
Todos falavam disso. "Não, eu vi-a aqui, eu vi-a ali."
O FBI quis falar comigo.
A primeira coisa que me saiu da boca foi: "Eu vi-a ontem à noite."
E disse-lhes que tinha visto a Amy Bradley na discoteca naquela noite
por volta das 02h00.
Eu fui à discoteca só para ver o que se passava.
Fiquei ali sentado a observar, a olhar para as raparigas.
Eu disse ao FBI que o Wayne Breitag
ia para a varanda dele ao nosso lado.
Tinha uma divisória,
mas ele inclinava-se para falar com a Amy.
Ele era estranho.
Era um indivíduo estranho.
Durante o cruzeiro, ia ao casino,
depois voltava para o quarto e ia para a varanda até às 03h00 ou 04h00.
No início do cruzeiro, eu e a Amy falámos.
A varanda deles… As varandas naqueles navios,
embora a divisória esteja ali, podemos subir,
inclinar-nos e olhar diretamente para a outra varanda.
Foi aí que falámos sobre ela ser boa atleta, ter acabado a faculdade
e ir para um emprego novo ou assim.
Entrevistámos o Sr. Breitag.
Ele falou sobretudo das suas interações ou conversas com a Amy,
como ela era agradável e esse tipo de coisas.
Mas ele estava lá sozinho.
Acho que não tinha esposa, amigos ou colegas com ele.
Em todos os cruzeiros, fui sempre sozinho, nunca levei ninguém.
Por isso, eu… O meu quiroprático diz sempre:
"O seu filtro já só tem este tamanho." Portanto, o meu filtro é…
Eu gosto da solidão. Gosto de estar sozinho e…
Naquela noite, eu devo ter voltado ao quarto às 02h30,
mas não me lembro de ouvir nada daquele quarto.
Foi por isso que me surpreendeu que isto tenha acontecido.
Os passageiros no quarto ao lado dele
disseram que, após a Amy desaparecer, a televisão ou o rádio dele
estava num volume que só pensavam: "Deve estar a gozar!"
E depois ouviam-no a falar dentro do quarto,
mesmo por cima do som barulhento da televisão ou do rádio,
e pensaram: "Com quem está a falar?"
Revistámos o quarto dele e não encontrámos provas da presença dela.
Há uma versão que nos contaram
que ela tentou trepar e caiu…
É possível que o tenham dito.
Sim, podiam dizer isso.
Mas eu nunca tive nada que ver com a Amy Bradley.
Nada. Ela era só a vizinha do quarto ao lado.
A dada altura na quinta-feira,
alguém pôs um panfleto na minha porta.
Dizia: "Amy Bradley, desaparecida.
Por favor, contacte-nos."
Quando vi a cara dela, pensei: "Eu conheço-a!"
Lembro-me de a ver no navio e de ser muito animada.
A Amy tinha uma bolha mágica e magnética à volta dela.
Quando entrava numa sala, todos reparavam nela.
Ouvi falar na rapariga desaparecida,
mas só quando vi o panfleto na minha porta
é que pensei: "É esta?
É ela? Interessante."
A minha mente começou a acelerar.
"Estivemos na discoteca a fotografar na noite em que ela desapareceu."
Eu trabalhava numa empresa informática de São Francisco.
Tinham oferecido uma viagem naquele navio aos melhores vendedores.
O meu trabalho era editar alguns vídeos dos melhores momentos.
Como trabalho, pensei: "Que bom! Vou estar num navio!"
Não, estive num camarote o tempo quase todo.
Quando vi a foto da Amy, sentei-me, peguei na minha caixa de cassetes
e comecei a vê-las.
Metia uma, avançava, via e procurava.
Não. Seguinte.
Avançava e procurava.
Não. Próxima.
Pimba!
Ali estava a Amy, nítida como água.
E estava a dançar com o Yellow.
O Yellow era um baixista que tocava no piso da piscina.
E havia uma segunda imagem de ela a dançar com o Yellow.
Ele chamava-se Alister, Yellow era a alcunha.
Não sei se era louro na altura,
mas pintava o cabelo de amarelo. Foi assim que ganhou a alcunha.
Nessa tarde,
estava no camarote quando me ligaram.
Do outro lado, disseram:
"Olá, sou o chefe de segurança do navio.
Preciso das suas cassetes originais."
Eles sabiam que o meu operador de câmara tinha andado a filmar na discoteca.
Respondi: "A sério?
Isso não vai acontecer.
Não dou as minhas cassetes a ninguém.
Não, vão-se lixar."
Peguei na cassete
fiz uma cópia digital da original,
meti-a numa caixa,
etiquetei-a com o meu nome e o meu número do quarto e dei-a ao FBI.
As imagens eram importantes pois ajudavam
a encontrar qualquer pessoa com quem ela tinha estado
antes de desaparecer.
Vemos a Amy e o Alister Douglas juntos durante a noite.
Aí, começámos a definir essa linha temporal,
a desbravar o que podia ter acontecido,
quem a viu, onde estava,
o que se passou na altura.
Quando vi o panfleto com a foto da Amy, pensei:
"Meu Deus! Eu vi-a."
Eu e a minha amiga tínhamos ido à discoteca naquela noite e vimos a Amy.
Ela chamou-me a atenção
porque não havia muitos jovens no navio.
Sim, lembro-me de falar com eles.
A Amy tinha acabado a faculdade
e comprado casa.
Tinha muita coisa positiva a acontecer.
Na altura, eu tinha 18 anos e ainda estava a tentar perceber a vida.
Eu e a minha amiga voltámos para o quarto quando a discoteca fechou.
Depois, como não tínhamos sono,
decidimos ir para o convés superior.
LORI E AMIGA
Estivemos ali algum tempo. Não estávamos prontas para ir dormir.
Era de madrugada.
Entre as 05h00 e as 06h00.
LORI VÊ AMY E YELLOW
Vi a Amy e um tipo que trabalhava no navio
num elevador de vidro que eu conseguia ver à minha direita.
O elevador de vidro subiu para a discoteca apesar de estar fechada.
Era um elevador muito bem iluminado. Eu conseguia…
Percebi logo quem era. Era o baixista e a Amy.
A Amy parecia estar a olhar para algo.
Observei-os até subirem completamente e saírem do elevador.
Dez ou 15 minutos após os ver,
ele surgiu na parte da frente do navio,
à minha esquerda,
Ele atravessou o convés.
Não disse nada, limitou-se a passar por nós, sozinho.
Achei muito estranho porque, na discoteca,
ele tinha tentado que falássemos com ele.
Estávamos ali sozinhas no convés,
e ele limitou-se a passar por nós.
Nem olhou para nós.
Tive um mau pressentimento.
Pensei imediatamente: "Onde está a Amy?"
Se as duas jovens viram a Amy e o Alister Douglas juntos
depois das 05h30, pode mudar as coisas.
Saberíamos e teríamos confirmação de que ela teria saído do quarto.
Mas, infelizmente, não podemos confirmar a hora,
pois a fechadura registava a entrada dos passageiros…
… mas não, claro, a saída do quarto.
Para nós, parecia ser o principal suspeito.
Como eram águas internacionais, não podíamos deter ninguém.
Podíamos fazer perguntas, mas mais nada.
Entrevistámo-lo e fizemos-lhe o teste do polígrafo.
Admitiu saber quem era a Amy. Admitiu ter namoriscado com ela.
Disse: "Eu fiz isso, é o que eu faço."
Disse que namoriscava e que o fazia com muitas das passageiras.
Porém, algo relacionado com o desaparecimento dela,
ele negou veementemente.
A parte infeliz é a linha temporal.
Nas declarações das duas jovens que viram a Amy e o Alister Douglas juntos,
não sabemos.
As horas estão certas?
Por fim, os resultados do polígrafo não foram conclusivos.
Se tivéssemos provas concretas,
se estivéssemos a trabalhar com a Polícia local,
o Alister Douglas teria sido preso,
mas não tínhamos isso.
Mas ele ficou incomodado com o que se estava a passar,
por alguma razão.
Ou por ter algo que ver com isso
ou por não ter nada que ver com isso, mas ficou.
O cruzeiro estava a chegar ao fim.
Nessa altura, estávamos a perder o acesso a tudo no barco,
a testemunhas, a suspeitos e à potencial cena do crime.
Se não havia corpo, não podíamos determinar o que aconteceu.
Ainda havia vários cenários. Muita coisa podia ter acontecido.
Terá caído inadvertidamente?
Não se sentia bem, ficou enjoada,
por acaso estava na varanda e caiu à água?
Suicidou-se?
A mobília foi movida? Subiu para algo e saltou borda fora?
A porta da varanda estava entreaberta.
Voltou a entrar?
Foi ao convés ver o nascer do sol?
Foi fumar?
Aconteceu algo no convés?
Encontrou alguém?
Naquela noite ou na noite anterior.
Saiu do navio e não voltou?
Aconteceu algo nefasto e foi contrabandeada para fora do navio?
O puzzle é extremamente difícil de montar.
27 DE MARÇO DE 1998 DESAPARECIDA HÁ 4 DIAS
Temos um amigo muito próximo
que nos disse:
"Não quero que saiam do navio em Porto Rico
porque acho que vai ser muito duro verem as notícias.
Preferem voltar para casa agora e estar com a família?"
Então, voámos de St. Thomas no dia 27.
Não me lembro de muito do voo de regresso a casa,
só que íamos deixá-la.
Ela devia estar connosco.
Se ela andava por aí perdida, retida contra a vontade
ou numa situação má, seja o que for,
voar para casa foi como desistir.
Ao chegarmos ao aeroporto de Chesterfield,
o vento soprava loucamente.
O avião abanou por todo o lado para aterrar.
Nunca tinha andado de avião com tanta turbulência
nem com tanto vento na aterragem.
As asas balouçavam para os lados.
O engraçado é que o meu coração…
Eu não estava com medo. O meu coração não estava acelerado.
Só pensava:
"Se isto se despenhar na pista, acaba tudo."
CHESTERFIELD, VIRGÍNIA
Foram buscar-nos ao aeroporto
e levaram-nos para casa.
Estavam lá os meus irmãos todos.
A minha mãe estava lá.
A Iva desmaiou nos braços da mãe quando entrou.
Ver a Iva no conforto dos braços dela
foi como ver uma criança nos braços da mãe.
Ninguém sabia o que dizer, o que fazer.
Fizemos uma vigília de oração,
pedimos a Deus para proteger a Amy e para a trazer para casa.
Lembro-me de cair de joelhos,
e a Iva Bradley aproximou-se e levantou-me.
A filha dela estava desaparecida, e a Iva levantou-me.
Demorei uns dias até conseguir
comer novamente e formar uma frase.
Mas, daí em diante,
nunca mais pensámos em render-nos.
Criámos um centro de comando para contactar
todas as autoridades que pudéssemos,
as embaixadas de vários países.
Tínhamos linhas telefónicas, contactámos os média.
Uma jovem a viajar com os pais desaparece do navio em mar aberto.
Amy Bradley desapareceu quando o navio ia atracar.
Nunca mais foi vista.
Tentámos ter fé e esperança.
Eu sabia que alguém sabia algo.
Se tiver informações sobre o paradeiro de Amy Bradley,
ligue para o número no ecrã.
Assim que vi a foto, pensei:
"Estão a gozar?"
Isto não está certo.
Eu estive lá quatro meses depois. E eu vi-a.
Eu sei onde ela está.
A Amy está viva.
Legendas: Liliana Murilhas
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