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NOVEMBRO DE 1992
-Aquele cara é estranho. -Ele está em todas.
-Achei que vocês fossem amigos. -Ele é tranquilo.
Ele não tem amigos.
Precisam de alguma parada?
Não, obrigada. Já está na mão.
Cheio de polícia, um loucura!
E os traficantes preparando droga nas vans.
Uma vez eu estava nessa festa incrível...
Tudo bem?
Estávamos procurando você.
Vamos?
-Ouve. -O quê?
O silêncio.
Achei que estivesse falando dos passarinhos.
Vou desenhar isso mais tarde.
Finalmente!
Onde você estava?
Eu ia embora, mas não consegui.
Estava passando muito mal.
Achamos que tivesse pego a barca.
Oi.
Você tocou uma coisa legal. O que era?
Era uma coisa alegre, uma melodia suave.
Como um assovio.
Pequenas flautas, pequenos sons.
Ah, sei.
PRIMEIRA PARTE: PARADISE GARAGE
Ele promoveu, em setembro, a "Édition Limité",
uma das melhores raves já organizadas em Paris.
Rádio FG. A rádio tecno, 24 horas por dia.
Informações tecno: 36 68 98 20.
A agenda rave!
-Sabe o que isso quer dizer? -Sim.
Olha o desenho e me diz o que você vê.
-É exagerado... -O que é exagerado?
-Onde você vai? -Mandar uma carta.
...a linha A para Boissy-Saint-Léger...
Viu que a sua amiga Nadia está aí?
Eu vi. Que saco.
Ela não é minha amiga.
-Por isso não fala com Serge? -Nada a ver.
-Tudo bem? -Tudo bem.
-Olá. -Tudo bem?
-Tudo bem? -Tudo, e você?
Quem são?
Thomas e Guy-Man? Fazem música.
Passam a noite fazendo som com umas máquinas bizarras.
Eles têm uma banda, Darlin'.
É uma levada Happy Days em versão techno.
São bem talentosos. O som deles é novo.
-Está gostando? -Muito.
Não achei que íamos ouvir garage numa rave.
-Gostam de garage? -Sim.
Comprem o fanzine.
Tem uma entrevista com Frankie Knuckles.
Do que gostam nessa música?
É raro encontrar fãs de garage em Paris.
Adoramos a mistura de máquinas com voz.
O robótico da música eletrônica com o calor do soul.
-Quente e frio. -É uma boa descrição.
Talvez vocês sejam os DJs do futuro.
Estamos pensando em formar uma dupla.
Vou comprar três. Já saíram quantos números?
Estamos no 5o. Mas fazer isto leva tempo.
Trabalho na rádio FG. Passem lá pra me ver.
Não está com a garota?
Que garota?
Aquela gata de chapéu.
-Quem? -Aquela meio árabe.
Ah, agora lembrei.
Maravilhosa. Pegou o número?
Ficou louco? Você estava com ela.
É mesmo?
Vocês estavam se beijando há 10 minutos.
-Não é verdade. -É sério.
Que merda! Vou atrás dela.
-Me ajuda? -Claro.
Precisamos de um nome pra nossa dupla.
Uma coisa que pegue.
3 ANOS DEPOIS JANEIRO DE 1995
O que vocês acham?
Não acha meio retrô?
Não, está perfeito.
E Cheers é bem legal.
É o novo Kerri Chandler? Disco promocional? Que sorte.
Precisamos comprar mais discos.
Não desenhe nas minhas polaróides. Estragou tudo!
-Estou sublimando. É arte. -Isto não é arte.
-Não precisa chorar. -Olha o que ele fez?
-Que porra! -Sim, que porra!
-E esta tinta não sai! -É um marcador.
-Muito feio! -Muito lindo!
Sabe que polaróides custam caro?
Cyril é como uma criança. Estraga tudo que pega.
-Olá. -Olá.
Posso pedir um favor?
Pode tirar as notas do piano neste trecho?
-Viu o "Le Monde"? -Não, por quê?
Saiu um article sobre o ecstasy.
Estou morrendo de fome.
Recortei pra você.
"Estudos científicos evidenciam uma degeneração das células nervosas
que pode causar doenças degenerativas
ou depressão nos consumidores.
Enquanto alguns sofrerão de insônia,
alguns ficarão seriamente doentes e outros poderão até morrer."
-Você toma isso nas festas? -Não.
Boa parte dos seus neurônios deve ter fritado.
Precisa deixar essa bobagem e se concentrar nos estudos.
Tem aquela ótima professora que adora você.
Ela ficou louca.
-A tese está avançando? -Sim, já comecei a escrever.
Não vai virar um DG, espero.
É DJ, não DG.
É a letra J em inglês.
Abreviatura de "disk jockey".
DG, DJ... Não vejo diferença.
Muitos DJs estão ganhando dinheiro.
-Você é homossexual? -Mamãe, já chega!
Só falta ser gay e pegar AIDS.
Nunca me apresenta suas namoradas.
-Acha que eu apresentaria? -Consegui!
Já é difícil manter um relacionamento.
A gente vem ouvir música, o resto não importa.
Você não entende isso.
Fica presa aos seus preconceitos de merda.
Não sei por que Ilan perde tempo. Você trata o cara mal.
Falou até que odeia quando ele toca em você.
Ele contou isso?
Falei isso durante o sono. Por que ele não cai fora?
E você, por quê? São masoquistas?
E você é um psicopata! Ninguém dorme com você.
Arranje uma namorada, não insulte a dos outros!
Cadê a sua americana? Ela nunca aparece.
Está amarrada ao radiador dele.
Estou apaixonado. Alguém pode roubá-la.
David! Estes são Paul e Stan, os DJs do Cheers.
-David Serrano. -Por que Cheers?
Paul estava viajando de ecstasy. Não tente entender.
Estão criando um selo e queriam uns conselhos.
Com todo prazer.
-Julia, sou eu! Paul! -Meu Deus!
-Não quis assustar você. -Quis, sim!
Pensei que fosse o meu marido.
Não viu que eu estava aqui? Não viu a minha bolsa?
Não! Meu Deus...
Tenho pesadelos que ele vai voltar.
-Nunca mais faça isso! -Sou eu.
Ficou nu para mim? Que gracinha!
Acha mesmo?
-É meio estranho. -Não é estranho.
-Li um dos seus contos. -Leu?
Sobre a garota que enrola tudo em plástico.
Gostei muito.
Obrigada. Deve ser a 13a versão.
Cada vez que leio, corto a metade.
Era uma novela, no fim vai ser só um título.
Ouça isto.
Stan e eu queremos fazer uma música com ela.
-Gostou? -Sim.
Ela tem uma voz linda.
É boa pra dançar, mas não sei se ficaria ouvindo em casa.
Eu ficaria. Enfim...
Você prefere ouvir Leonard Cohen até o dia do juízo final.
Ah, não! Meu estudante moderninho...
Vai sentir a minha falta?
-Muito. -Então não vá.
Não posso ser garçonete pra sempre, preciso um trabalho de verdade.
Não precisa. Esqueça NY, ninguém mais mora lá.
Paris é muito mais divertida. É o lugar do momento.
Você vai ser escritora, eu vou ser DJ.
Vamos ser ricos.
Por favor, fique.
Isto precisa acabar um dia.
-"La dolce vita" acabou. -Não diga isso.
Isto é só o começo.
Por favor, fique. Eu amo você.
Merda!
Olá, Cheers!
Eu trouxe as fantasias.
Onde é a festa esta noite?
Na casa dos pais do Thomas.
-Thomas? -Thomas do Daft Punk.
-Do quê? -Você vive na Nova Zelândia?
Só falam deles.
-Os Darlin'. -Ah, sei!
Quentin vive por fora, é o charme dele.
Nunca sabe de nada.
Vão nos mostrar uma música?
Vou fazer uma pausa.
-Trouxe o pó? -Sim.
Vai, passa aí.
Eu faço tudo aqui. Isto não é vida!
Bernardo me disse...
Bernardo é mudo.
"Um bom trabalhador tem boas ferramentas".
Você parece um aspirador!
Boa noite, senhor!
Não podiam esperar?
Obrigado.
Stéphane está incendiando a festa. Coisa de louco.
Talvez assim arranje uma namorada.
Thomas, sua festa vai ficar na história.
Com alguma sorte, em alguns anos vai estar morando em Ibiza.
Chegaram os Mob. Eles organizam a festa Respect.
Não fique de sacanagem ou eles contratam você.
Tudo bem?
E aí, Respect?
Fantasiado de você mesmo?
Achei que fossem se fantasiar de punks.
Fácil demais.
Arnaud, os caras do Cheers.
Olá. São a dupla garage de quem andam falando?
-É um prazer. -O prazer é nosso. Respect!
-Me dá um pouco de champanhe? -Claro.
Você toca garage no Nova?
Acham que eu ia esperar vocês pra tocar house novaiorquina?
Sabiam que Cyril e eu estamos fazendo
uma HQ sobre a história da música eletrônica?
Aliás, podem tocar na próxima festa?
-É claro. -Beleza.
A gente começa com Manchester e New Order
e depois entra com house.
Com licença, acho que ganhei a gata.
Um olhar fatal.
É perigoso porque conheço o namorado dela, mas...
-Até. -Até.
Vou botar pra você.
Está pronto, Guy-Man. Vamos?
-Está legal? -Parece que sim.
Nada mau.
Mas eu preferia quando era mais techno.
Está louca? É genial. É disco moderna.
Viu, eles terminaram a música.
Porra, ficou foda.
Porra...
Paul! Paul!
Roubaram minha bolsa. Posso ir com você?
Está em boa companhia.
-Vai esperar seu namorado? -Não é mais meu namorado.
Desculpa.
Não tenho grana pra morar sozinha. Com os estudos...
-Tem um cigarro? -Não, acabou.
-O que está estudando? -Teologia.
Achei que só futuras freiras estudassem Teologia.
-Talvez eu vire freira. -Tem muito trabalho pela frente.
-Com licença. Tem um cigarro? -Sim.
Obrigada.
Está se convidando pro meu apartamento?
-Me deixaria na rua? -Cosette!
Sinto muito. Não é possível.
Para, eu não quero.
Paul, passei aqui mas você não estava.
Queria dar um beijo.
Vou pegar o avião esta noite.
Não tive coragem de dizer que estava indo embora antes.
Não vou poder estar na primeira festa do Cheers.
Nossa separação me dá medo.
Não quis ficar me demorando.
Os últimos dias foram difíceis pra mim.
Até mais, meu pequeno francês.
Obrigada pelos ótimos momentos.
O que posso dizer?
Não vou esquecer você. Não me esqueça também.
Com amor, Julia
Estou no salão. Chequei o equipamento.
Não é a Sound Factory, mas serve.
Você está vindo ou nos vemos na tipografia? Tchau.
Tudo certo?
Boa noite.
Só vocês três?
JUNHO DE 1997
-Boa noite. -Boa noite.
Thomas e Guy-Man. Estamos na lista.
Não achei. Em que lista estão?
Na lista do Paul.
Não achei, sinto muito.
Boa noite.
-Pode estar como Bangalter. -É o Daft Punk.
-Tudo bem? -Tudo bem.
-Olá, François. -Olá.
Quantos são?
Somos seis...
mais o Daft Punk.
-Podem entrar. -Obrigado.
-Esta é Theodora. -Olá.
-Arnaud. -Arnaud e Lise.
Prazer.
Tudo bem?
Que idade tem a sua gata? Doze?
Tem 17 anos.
Assim é fácil.
Bate na sua cintura.
Ela é DJ e tem talento.
Olá.
Achei que odiasse esses lugares.
Mas sou curiosa.
Legal que sua carreira está dando certo.
Preciso voltar pra lá.
Me dá uma carona?
Você não perde tempo.
O pé de porco é pra quem?
Alguém pediu mesmo um pé de porco?
Que nojo!
O restaurante se chama "Pied de Cochon"!
E pensar que tem lógica nisso.
Medite sobre o seu pé de porco.
-Alguém quer? -Não, obrigado!
Vamos falar dos sucessos da noite.
Eu começo. Melhores músicas?
"To Be In Love", primeiro lugar!
-Não! -Por favor.
É incontestável.
Em segundo, "Desolate Ground", dos Basement Boys.
O pior dançarino da noite?
O quê? Não entendi.
Fala sério.
Ele tem uma forma própria de ver a dança.
-Seu próprio senso de ritmo. -Num universo paralelo.
Acha que sua camisa tem senso de ritmo?
É curioso mesmo. Você dança no contratempo.
Você ouve outra música.
O pior azarador da noite?
Disparado, é o Nico.
-Quentin está dormindo. -Coitadinho.
Então por que veio?
Ele está exausto. Passou empilhando caixas na Fnac.
Espera! Deixa umas ostras para os outros! Merda!
-São pequenas! -Devolve!
São ostras-bebê, da Somália!
Vou reclamar na cozinha!
O Cheers vai pagar hoje.
Vai sonhando, mano.
-Pagam o café e olhe lá. -Um café a cada dois.
-Me empresta uma camiseta? -Pode pegar.
Como pode fumar baseado dia inteiro?
Pode ser esta?
Não, pega outra. É a única que me cai bem.
Não tem água quente e compra camiseta Paul Smith?
Questão de prioridade.
A grana está curta, só compro o essencial.
E a sua tese?
Falta pouco. 20 páginas e a conclusão.
Posso?
Claro.
Vou tocar no Happy Days. Passa lá.
Talvez.
Estão ouvindo a Rádio FG, a rádio dos DJs, 98.2.
Hoje estamos recebendo a dupla de garage Cheers.
Stan De Man e Paul Vallée vão mixar garage e house
entre as 18:00 e as 19:00.
Eles estão aqui todo domingo
entre 18:00 e 20:00 com seu próprio programa.
Além disso, são uns gatos.
O que acha deles, Hervé?
Eles têm só 20 anos, são muito talentosos
e fazem um garage novaiorquino com um toque parisiense.
Um caldeirão musical, em suma.
Pra quem acha que garage é música pra salão de chá,
eles trazem um som enérgico que enche as pistas e faz viajar.
Eles vão se apresentar.
Acho que prepararam uma coisa bem legal pra começar.
-Paul? Stan? -Olá, aqui é Paul.
Esta é uma faixa bem Cheers, gostamos muito dela.
Não é recente, mas é clássica.
Ela nos levou ao house e ao garage.
É delicada mas envolvente, bem hipnótica.
É o tipo de música que gostamos, entre a euforia e a melancolia.
Se chama MKapella.
É o lado B de Burning, do MK.
Você já ouviu MK aqui com seu remix de Nightcrawlers.
Estão na Rádio FG ouvindo MKapella.
Até que não desenho mal.
Viu? Não preciso de você.
Já que escrevo também os textos.
Acha que não posso escrever isso?
Tudo bem?
Isto não é um desenho.
Explica pra ele?
Ele acha que desenha como eu.
Olha só que belo crânio.
Sim, um crânio maravilhoso.
É a capa? Ficou ótima! É Larry Levan?
Sim, mas não acertei as proporções.
Achei que ficou bom.
Pode me emprestar 2.000 francos? Estou no vermelho.
2.000?
Mesmo com as festas todas?
-Não fico fazendo contas. -Pois devia.
Me passa essa pistola.
Obrigado.
Porra, 37.2? Estava 39. Dá pra confiar nisto?
Ele acha que tem um tumor no cérebro.
Não tem graça.
Também temos dívidas, sabe?
As festas Respect fazem sucesso.
São gratuitas, não dão lucro.
Vai muito menor de idade que não pode consumir álcool.
-Não é fácil. -Confirmo isso.
Veja que há dez anos ele usa a mesma camiseta.
Posso emprestar 1.000, mas quero de volta.
Obrigado mesmo.
Entro com mais 1.000 pra sua coca.
Me salvaram a vida.
Devolvo em dez dias, tá?
E não uso tanta droga assim. Só nas festas.
E não fumo baseado como vocês, adolescentes retardados.
Tem razão, coca é mais saudável.
É mesmo.
Devia fazer um comercial de TV: Salvemos os Franceses com Cocaína.
Bem, vou nessa. Vou encontrar uma garota.
-Quem é? -Vocês não conhecem.
Que escroto...
Vem. Vão começar as ondas.
Olá. Número 1 da Jacques Coeur, na Bastilha.
DOIS ANOS DEPOIS JANEIRO 1999
-Olá. -Olá.
Ótimo.
Obrigado.
Preciso da sua assinatura.
-Obrigado. -Obrigado. Tchau.
Pode checar o som na pista?
Pode aumentar os médios?
Não precisa mais vermelho?
Vermelho? Sem problema.
Precisamos mais hélio, acabou.
Porque ficam bancando as crianças.
Nos chamou de crianças?
-Me deixa fazer... -Não briguem!
Os balões são dela!
Você não estava aqui! Nunca está!
Os balões são dela, o gás é meu!
-Arnold chegou. Pode ir recebê-lo? -Estou indo.
Isso, vá recebê-lo.
Bom ver você, Paul.
Faz tanto tempo.
-Como foi o voo? -Horrível, cara.
-Teve muita turbulência. -É mesmo?
-Mas está em boa forma? -Estou em ótima forma.
-Estamos esperando muita gente. -Que bom!
Quer me pagar? Boa ideia.
-Tudo bem? -Está quente.
Arnaud!
Aquelas garotas ali.
Olá.
Cyril entrou numa briga. Um cara está sangrando.
Merda!
-Onde ele está? -Lá em cima.
Boa noite a todos! Vocês estão bem?
Esta noite temos o prazer de receber um convidado excepcional.
Ele veio de Nova York.
Vamos fazer barulho para Arnold Jarvis!
Paris!
Paris está presente!
Nossa! Olha só pra isso!
O cara ficou me encarando.
Não sabe se controlar?
Meteu a porrada. Respeito.
Odeio filhos da puta assim.
Onde você vai?
Filho da puta!
Escroto! Eu te mato!
Para!
Calma!
Cristophe! Eu cuido disso.
Me expulsa como um cão?
Logo eu!
Me expulsa como um cão e o filho da puta fica?
Gostou disso?
Chama um táxi, por favor.
-Está contente? -Vamos embora.
E esse bando de escrotos vai entrar?
Eles, tudo bem?
Me larga!
Tira a mão, porra!
A festa se chama Respect.
Até parece.
Vai pra cama dormir.
-Você me dá nojo. -Você também.
Está louca? Assim fico com tesão.
Tudo bem?
Sim, tudo bem.
Estava mesmo precisando dar um tempo das festas.
A noite me deprime.
Seu estilo mudou.
Mais desleixado, é isso?
Não é isso.
Está mais solto, livre.
Menos realista.
Mais emocional. Gosto disso.
Não tenho paciência.
Nunca está satisfeito.
E a Sonia?
Acabou.
-Como assim, acabou? -Acabou, não deu certo.
Você tem sorte com Louise.
Caro Paul Vallée,
Há dois anos eu disse que você tinha talento como escritor.
Entusiasmada, aceitei orientar a sua tese,
apesar da minha agenda lotada.
Seus questionamentos me pareciam legítimos.
Porém, depois de numerosos esforços
para ajudá-lo a superar suas inibições,
e depois da sua pouca assiduidade, com dois meses de silêncio,
percebo que a literatura não tem lugar na sua vida.
Não escondo minha decepção,
equivalente à expectativa que eu tinha...
Acha que é a solução? É a herança do seu pai.
É por pouco tempo. Logo vai entrar dinheiro.
Então deixe uns francos na poupança, assim ela fica aberta.
Se não se importa, prefiro fechar a conta.
Posso reabrir quando as coisas melhorarem.
Você que sabe.
-Como estão as festas na King? -Ótimas.
-Talvez eu vá uma noite. -Boto você na lista.
Por que não?
"Showgirls". Uma obra-prima.
-Ruim demais! -Uma merda!
Melhor que "O Massacre da Serra Elétrica".
Ela pode concorrer a Pior Atriz do Mundo.
-Ela ganhou um Razzie. -O que é isso?
Um Oscar negativo.
-Acharam um pouco exagerada? -Um pouquinho, sim.
É de propósito.
Verhoeven dirigiu assim pra enfatizar a visão dela.
-Ele queria uma coisa grotesca. -Deu certo.
A vulgaridade americana era o alvo.
É a terceira vez e vocês ainda não entendem!
Hora de mudar, né?
Se aproveita de nós pra mostrar merda.
Não é merda, é uma obra-prima.
É um clássico dos anos 90.
Eu tenho uma opinião intermediária.
Os críticos erraram.
É um Verhoeven. Mas não é o melhor.
É uma merda! Estão loucos.
Fico perdendo tempo com essa porra, Arnaud.
Cyril, ninguém forçou você.
Ele precisa de uma namorada.
Ele rejeita todas as garotas.
É um misógino de primeira.
É um viado, pronto.
É aqui mesmo, senhor.
Obrigado.
-Acabei de entrevistar Nile Rodgers. -Que legal.
Sabe o que ele disse?
Que foi a melhor entrevista da vida dele.
-Mesmo? -Se dá conta?
Nile Rodgers? Ele é Deus!
Cyril não veio?
Não está atendendo o telefone.
Que saco.
Tudo bem?
-Tudo bem? -Sim.
E você?
Esqueceu que vamos pegar um avião?
Podem ir, eu não vou.
Isso é um absurdo.
Eu ajudo você a fazer a mala.
-O que foi? -Ele não quer ir.
Sério? Por quê?
Sei lá.
Merda.
O que foi?
-O que deu em você? -Nada.
Quero terminar minha história.
-O táxi está lá fora. -E daí?
Vamos pra Nova York.
Vai. Precisa de mim?
O que está fazendo?
Estou carente de amor.
-Um pouquinho de ombro. -Vá em frente.
Não é um estupro.
Nada mau.
Tem lugar de sobra.
Menor que o meu, mas...
Nossa, que banheiro!
Que bizarro, dois vasos!
Esse quarto aí é meu!
-Olá. -Como vai, cara?
Sou Paul.
Vim ver Terry Hunter. Sou um DJ de Paris.
-Só um segundo. -Obrigado.
Paul, como vai?
É um prazer.
-Esta é Louise. -Como vai?
-E o voo? -Foi bom.
Este é Paul, de Paris. Ele manda muito bem.
Muito prazer.
Você parece tão jovem.
Sempre me dizem isso.
Tenho muita coisa boa pra mostrar.
Soube que você tem o novo Masters at Work.
É, está demais.
Mas ainda não está pronto.
Sentem.
Primeiro quero mostrar uma música nova, "You Love".
Acho que vai gostar.
Venho trabalhando nela faz tempo.
Achei!
Vem pegar!
Tudo bem?
Pena, não viu Krivit.
Como foi?
Só tocou clássicos disco, mas mandou muito bem.
As pessoas conhecem de cor e ficam cantando junto.
Quem é esse cara?
-É o seu Deus. -Humphries?
-Há quanto tempo ele começou? -Uns dez minutos.
Tocou duas músicas. Só deep até agora.
Olá, Tony. Sou Paul.
-Como vai, Paul? -Bem, e você?
Queria agradecer pelas ótimas músicas que tocou.
-Especialmente a última. -De nada.
É uma das melhores que já ouvi.
-Obrigado. -Obrigado a você.
Estou menstruada.
Botou um absorvente? Pode manchar o lençol.
Não vamos fazer amor?
Pode sujar tudo de sangue.
Não faz amor comigo porque estou menstruada?
Não é legal sujar tudo de sangue.
Está louca? Onde vai?
Vou dormir com Nico.
Pode deixar, vou botar um absorvente.
Esta manhã acordei com dor de ouvido.
Uma coisa infernal.
Pode ser um câncer.
Ouviu uns ruídos estranhos de noite?
Para! Tenho medo de noite, não vou conseguir dormir.
-Pior que a hipocondria do Arnaud. -Verdade.
-O que tem a ver? -Só conversa boba.
-Você viu a Louise? -Foi dar uma volta, acho.
Julia, é você?
É o Paul.
Paul. O nome não diz nada?
Estou em Nova York.
Olá.
Você deve ser o Paul.
-Sou Larry, namorado da Julia. -Muito prazer.
Muito prazer. Ela já volta. Pode entrar.
Desculpa, estou suado. Estava indo tomar um banho.
Posso voltar mais tarde.
Não se preocupe. Ela foi ao porão lavar roupa.
Não vai demorar.
Senta aí. Quer um café?
-Tem água? -Água! Claro que tenho.
-Está quente, né? -É.
Julia me disse que você é DJ.
Sim, estou em NY a trabalho. Estou tocando no PS1.
-Vocês deviam ir. -Sim. Claro.
-Obrigado. -Aí está.
Parece legal.
-O que você faz? -Porra! Só um segundo.
ALMAS PERDIDAS JULIA WISE
Um conto da Julia! Lembro quando ela estava escrevendo.
Sim, é ótimo. Foi finalmente publicado.
-Vai sair outro logo. -Incrível.
Oi, Paul.
Oi, Larry.
Não vejo você há tanto tempo.
Julia, eu devia ter lavado a roupa. Não devia estar fazendo isso.
Desde que ficou grávida, ela não para quieta.
Tive um probleminha na lavanderia.
Sinto muito.
Devia ter algo errado com a máquina.
Posso ver?
É um blusão da Prada, só isso.
Tudo bem, não se preocupe. Vamos dar pro bebê.
Vamos dar pro bebê! Viu como ele é paciente?
Vou tomar meu banho. Vocês ficam conversando.
-Oi, Paul. -Oi, Julia.
Saiu um conto seu na Atlantic Monthly. Incrível!
Se lembra dele? Escrevi a primeira versão em Paris.
A propósito, tenho umas cartas pra você.
Escrevi assim que voltei de Paris.
Não sei por que nunca mandei.
Talvez por vergonha. Achei que você me odiasse.
Legal. Nunca é tarde demais.
Me fala da sua vida, me conta tudo.
Ainda estou trabalhando como DJ. Ando viajando muito.
Estou namorando também.
Vocês vêm esta noite ao PS1?
Sim, claro!
É legal, um ótimo lugar.
Ouvimos falar das festas, mas... Não temos saído muito.
É tão bom ver você.
Incrível como você não mudou.
Traz de volta tantas lembranças...
Isso me deixa triste.
Não vamos falar disso.
Estes são Julia e Larry.
Você viu Louise?
Julia está aqui. Quero apresentar pra você.
Louise, o que está fazendo?
-Reencontrou seu grande amor? -É você que eu amo.
E quando não estou perto?
Como pode ter ciúmes depois de tanto tempo?
Disse que era a mulher da sua vida.
-Mas é passado. -Não pra mim!
Ela está grávida, vai se casar.
-Nunca mais vamos nos ver. -Vou acabar chorando.
-Não banca a escrota! -Me deixa em paz!
O que está fazendo?
Vai, cai fora.
Para! Para!
Me larga!
O que você tem?
Eu não queria vir.
Desde o início, sabia que era burrice.
Não tenho nada a fazer aqui.
Não pode dizer isso.
Queria que viesse porque preciso de você.
Se você não está, fico triste.
Nunca amei ninguém como amo você.
Por que não me diz isso?
Porque isso nunca me deu sorte.
Desculpa, tenho que ir tocar.
-Tudo bem? -Tenho uma má notícia.
-O que foi? -Entra.
Escuta...
Cyril se matou ontem. Se jogou no metrô.
O quê?
Arnaud tentou ligar mas não encontrou você.
São 18:05 na Rádio FG. Você está ouvindo Cheers.
Duas horas de garage e disco.
Começamos com uma exclusividade, um novo mix do Paul,
uma parceria com Catalan FC e a cantora mais sexy do mundo...
O que vão querer?
-Uma cerveja. -Um descafeinado.
Não falem ao mesmo tempo ou vai ser impossível.
Quantas cervejas?
Uma pra mim também.
Quantos cafés?
Quatro.
Um suco de maçã, por favor.
Vejam só isto.
É Larry Levan.
Posso ver?
Obrigada.
"O Canto da Máquina".
Não acredito que ele terminou isso e se matou.
Talvez era isso que o mantinha vivo.
Viram o que está passando na NRJ?
Daft Punk.
Estão por toda parte.
-Onde você estava? -No carro.
Tem um vale pra bebida?
-Não vamos embora? -Não, agora quero ficar.
O que você tem?
Fico pensando no Cyril.
Ele nunca pensava em você.
É mesmo? Precisava dizer isso?
-É assim tão mau? -Desculpa.
Só estou dizendo que deve pensar em você.
Não se deixe afundar.
Não se enxerga?
-Procura um trabalho. -Vai à merda.
Vou embora! Vou deixar você!
Esta noite vai rolar "Scarface" ao vivo.
Porra, não pode fazer isso aqui.
-Vem. Tá limpo. -Vou ficar vigiando.
Está abusando. De verdade.
No escritório do dono?
-Então não cheire. -Não falei isso.
Afinal, já está aqui...
Me dá um pouco.
Vai, eu vigio agora.
Agora vou pegar sua gripe.
Vai querer também?
Merda! Maxime está vindo!
Brincadeira! É o Paul!
Porra, eu sofro do coração.
Que humor bizarro.
Podem ficar à vontade.
Tem uma linha pra mim?
Fininha, não um trilho de trem.
Vá com moderação, aspirador humano.
Tá, já chega.
Não sou assim.
-O que está fazendo? -Arrumando.
Isto aqui é uma zona.
Viram esses Post-Its?
Pra que tudo isso, porra?
Vou pegar uma folha e colar todos os Post-Its aqui.
O que houve com sua mandíbula?
Para com isso!
Se não segura a onda, não use drogas.
Nossa música!
Stan está tocando nossa música.
Lembrou que é DJ?
Não podia esperar?
Estou esperando há uma hora.
Posso fazer uma pausa?
-Vai, eu tomo conta. -Valeu.
SEGUNDA PARTE: LOST IN MUSIC
Nossa! Está lotado!
-Você veio? -Estou impressionada.
Espero que fique esta noite.
Depende. Tem vales pra bebida?
Estou sonhando. Me belisca, estou sonhando.
Toma.
Que cara é essa? Parece que viu o diabo.
Pior. Margot.
-Tudo bem? -Sim.
-Foi tudo bem? -Parece que sim.
-Tirando aquela briga. -Estava lotado.
-Já tem os números? -Ainda não, mas calculo 350.
350 não está mal.
Na semana passada foi melhor,
mas eram 12 anos de Cheers mais Kerri Chandler.
-Quantos convidados? -Uns 120.
-Uns 200. -200?
-Não eram 200. -Pelo menos 150.
São fãs desde o começo. Não podíamos cobrar.
Mas 60% de graça não é possível.
Incluindo os dançarinos.
Aliás, vamos falar deles.
São tão importantes quanto a música.
É ótimo que venham, mas não todo dançarino de Paris.
Além disso, se espalham demais.
Eles são discretos. Não incomodam ninguém.
Não estou querendo barrar, mas isso pode ficar problemático.
E podíamos melhorar algumas coisas, incluindo a música.
O que quer dizer?
Esta noite estava legal, cheio de gente.
Mas eu saio, ouço coisas, constato.
Constato que os pagantes estão diminuindo.
Desde o começo vocês fazem garage.
São fiéis, isso é bom, é honrado.
Mas talvez devam fazer uma coisa mais moderna.
Vocês não mudam mas as pessoas mudam.
Não estou sugerindo David Gueta.
Sabem o clube de lésbicas, o Pulp?
Tocam electro. Sempre lota.
Não gostam de electro?
Vou voltar a pé.
Até a sua casa? Nesse frio?
Com esse casaco?
Não é hora de pegar gripe.
-Estou sem cash. -Eu tenho. Entra.
Sabe o que tenho na conta? Nada.
Desculpa, estou duro.
E se eu não puder dar um cheque, vai morar na rua?
Temos muitas despesas.
Cantores, equipamento, estúdio...
Sem falar no selo. Mas é um investimento.
Estou começando a duvidar.
Queria que você encontrasse uma boa garota.
E não vai ser nas boates.
Geraldine vai defender sua tese.
Podia vir e conhecer as amigas dela.
São diferentes das suas.
-Até parece. -E por que não?
Não vou assistir a tese de Geraldine.
Não entendo esse preconceito contra os intelectuais.
Imbecil.
Pelo menos não se droga.
Parece a invasão da Polônia.
Já ouvimos 250. Escolhe uma.
É uma decisão a dois, sabe?
Vamos ouvir algumas de novo: 23, 62...
-Não, pesada demais. -Pesada?
62.
Um peido de coelho.
Põe a 29. Acho que gostei.
Não, muito feminina.
Feminina? Eu gosto.
Sei o que você quer dizer.
Muito leve, superficial.
Mesquinha, né?
Põe a 13. Acho que era boa.
Oi, Paulzinho! Vamos sair hoje? Estamos quentes como uma brasa.
-Olá. -Tudo bem?
-Tudo bem? -Olá.
Perdeu Adrien Brody e Kate Moss. Já foram embora.
Vamos nessa!
-Margot! -Estou brincando!
Você é tão sensível.
-Foram embora faz tempo? -Sei lá.
Contei que passei uma noite com DiCaprio?
Contou.
Não estávamos sozinhos, claro. Foi num coquetel.
Pede uma garrafa, querido?
-Champanhe? -Champanhe!
-Que champanhe você tem? -Moët, Krug e Piper.
Piper. Uma garrafa.
-Estou exausta. -Trabalhou na exposição?
Sim, era o último dia.
-Por isso não atendeu? -Não recebi nada.
Virei especialista em assuntos funerários.
Era uma exposição de produtos funerários.
Paraíso dos coveiros, sabe?
Enterros, cremações, lápides de mármore...
Era super interessante.
Mas hoje fiquei acabada. Dormi mal toda a semana.
-De quem é a culpa? -Pois é.
Tinha um stand com caixões abertos.
Alguns era um luxo só!
Interior de seda, estofados...
Decidi deitar num deles e dormir.
Que maluca.
-Minhas colegas disseram isso. -E não acreditou?
Venham dançar, intelectuais!
Não, obrigado.
Que saco!
Desculpa!
Sinto muito. Tchau.
A burguesinha está bem solta.
-Mais do que na Cheers. -Na Cheers ela se acaba.
E ela não é burguesa.
Só na aparência.
Sua alma é proletária.
E eu como legumes.
E malho na academia.
Desculpem, preciso cobrar.
Sua idiotice me dá tosse.
Porra, ela pediu mais.
Duas garrafas não bastaram.
Me deixa ver.
Ela acha que você é Puff Daddy.
Como vai pagar?
Boa noite.
Prometeu que não ia fazer nada.
Não resisto.
Paul!
Tudo bem.
Preciso de alguém que me dê segurança.
Você não me dá segurança.
Já chega, Margot.
Você desiste fácil.
Isso já dura meses.
Não vai dar em nada.
-O que está fazendo? -Vou dar uma volta.
Às cinco da manhã?
Sim, vou dar uma volta às cinco da manhã.
SETEMBRO DE 2008
Sente falta de Paris?
Nunca fui muito parisiense.
Teve sorte de achar seu equilíbrio deixando o passado pra trás.
Também penso sobre isso.
Não quer mais ser DJ?
Não quero fazer isso a vida toda.
E a garota que deixa você louco?
-Margot? -Acabou?
Passei três anos tentando dormir com ela e não rolou.
Agora ela está com David Castor, DJ do Vip Room em St-Tropez.
Ela me deixou louco. Eu podia ter matado.
E eu, podia ter me matado?
Você bem que mereceu.
Mas quando vi o que você fabricou, teria sido uma pena.
Em 15 anos, Charlotte vai ter 19.
Ao invés da mãe, posso me casar com a filha.
Ache outra linha de trabalho.
Ela não vai querer um DJ ultrapassado.
Ultrapassado? Não foi legal.
Mas talvez tenha razão.
Essa concha está viva?
Está viva?
Vamos ver um escrivão e assinar os papéis de venda.
Você dá 10%.
Fazemos uma cláusula relativa à aprovação do empréstimo, etc.
Como já expliquei. Fique na linha...
Só um segundo. Até mais, querida.
Tchau, meu bebê.
Amo vocês. Até mais.
Papai!
Tchau, papai.
Olá, como você vai?
-Que bom ver você. -Você também.
-Minha sobrinha, Tiara. -Como foi o voo?
India tomou um comprimido e dormiu.
Mas entrou em pânico no embarque. Quase ficou em Chicago!
E pensar que em três dias vou voltar para aquele avião.
Quer ficar em Paris?
Sabe o que ela está ouvindo?
Beyoncé! O que acham disso?
Acha um estrado!
Com o peso dela, uma caixa não aguenta!
Claro, cobre com alguma coisa.
Uma toalha de mesa, sei lá.
Me avisa. Tchau.
Merda! Já vamos.
-O que foi? -Problema com os quartos.
Ela não quer a suíte Junior.
Quer uma Junior Executiva e uma Junior pra sobrinha.
-Explicou que não temos grana? -O tempo todo.
Se não rolar, ela disse que India não vai cantar.
Desculpem o mal-entendido.
Ela não gosta de viajar e insiste no seu conforto.
Ela podia considerar que não somos Bill Gates.
Ela já fez sacrifícios.
Baixou seu preço, viajou na classe executiva..
-Onde elas estão? -Ali.
A suíte Junior Executiva não se comunica com a Junior.
Mas a suíte Junior se comunica com a Suíte Parisiense.
E essa Parisiense é mais cara?
É maior. A Executiva custa 1.500.
A Parisiense custa 3.500.
Azar. Ela volta pra Chicago sem cantar.
Querem ver a suíte?
Sim.
Ela vai ter que cantar muito.
É isso aí.
Não, ainda não.
Não faço ideia.
Sem problema.
-Não pode entrar hoje. -Por quê?
-Não insista. -Não gostou da minha cara?
-Sinto muito. -Mas não é justo.
Senhorita.
Por que ela e não eu? Você entende isso?
Por que esse jogo duro?
Deixei entrar duas vezes e ela causou problemas.
Está me confundindo com outra.
Ela é Jekyll e Hyde.
Deixa a pobrezinha entrar.
Obrigada pelo que fez.
Sabia que você era o DJ.
Dr. Jekyll e Mr. Hyde?
Qual é o seu lado Hyde?
Você vai ver.
Primeira coisa de manhã?
Viu só?
Achei esta camiseta no seu armário. Posso usar?
Claro.
A minha está fedendo a cigarro.
Obrigado.
Obrigado.
Quando vai tentar um auxílio-desemprego?
Logo.
Alguma festa em vista?
-Na noite de Ano Novo. -E quando é?
Mamãe... na noite de Ano Novo.
Ah, na noite de Ano Novo.
-Está bem longe. -Estou contando com ela.
Eu também.
Feliz Ano Novo!
Está bem frio.
Por isso as pessoas ficaram em casa.
Salsa de merda!
O bebê está cansado. Me dá a chave?
Toma.
-Estão indo? -Sim.
Boa noite. Até mais.
Obrigado.
Quentin!
Paul está bêbado, fazendo merda.
-Onde ele está? -Não sei.
Paul!
Para!
Desce daí!
Me larga! O barco é meu!
-Desce daí. -Para.
O barco é meu! Me larga!
Filhos da puta!
-Boa noite. -Bom dia.
-Que linda a juventude! -Tenho 34 anos!
Feliz Ano Novo! Estou morando com as meninas na minha mãe.
Nos vemos logo? Louise
Tudo bem?
-Lavo os cabelos dela? -Sim.
O Gigante de Zeralda.
Não?
Cadê o Meu Sapato?
Cadê o Meu Sapato? Tem certeza?
Vamos lá.
Estão dormindo.
Quase.
Minha mãe pode nos ver.
Bem...
-Olá, Sr. Vallée. -Olá.
-Entre. -Obrigado.
Deve estar a par da situação. Não preciso explicar.
Não precisa.
-Francamente, chegou a um impasse. -Eu sei.
Meu colega, o Sr. Lamberti,
foi muito condescendente e só piorou tudo.
Estou a par disso.
Com as novas regras, isso não pode continuar.
Primeiro precisamos estancar a hemorragia.
Depois vamos reestruturar a sua dívida.
Depois vamos reduzir seus saques ao mínimo.
E vamos cancelar seu cartão de crédito.
Quando tudo se estabilizar, vamos falar de reembolso.
Eu queria dois, por favor.
Posso pagar metade em euros e metade em dirham?
Sem problema.
300 euros e 3.000 dirham.
-Espere. A chave do quarto. -Obrigado.
Você sabe onde é.
-Boa noite. -Até logo.
Vamos embora segunda-feira.
É mesmo? Por quê?
Consegui um emprego.
Em Hossegor?
Sim. Numa agência imobiliária.
Meio expediente. Na agência de um amigo. É legal.
Achei que fosse voltar pra Paris.
Eu queria, mas é muito caro.
E a ideia de morar com minha mãe...
Provisoriamente.
Mas para as meninas é melhor morar lá.
E para nós?
Emma!
Charlotte!
Fiquei grávida e fiz um aborto.
De quem? De mim?
Sim, de quem mais?
E não me perguntou nada?
Era impossível, Paul. Imagina o inferno?
E o Paul?
Teve que ir embora.
Deixou um beijo.
-Ele viu quando pegamos os anéis? -Sim.
Deu os parabéns.
Paul?
O que foi? O que foi?
O que foi?
O que foi?
Pede pra baixar a música.
Que música?
Não estou ouvindo nada.
O que você tomou?
Onde estamos?
Na minha casa.
Yasmin está aqui?
Não, foi limpar a sua casa.
Você vomitou por toda parte.
Ela é ótima, essa garota.
Não aguento mais. Estou no limite.
Estou endividado.
Quanto?
Não sei, não faço contas.
Devo dinheiro a todo mundo.
Não tenho mais cartão.
Mais alguma coisa?
Tenho problema com drogas.
Drogas? Que droga?
Cocaína.
Há quanto tempo?
Há alguns anos.
Por que não me contou?
Não pude.
Tem dois aspiradores, é isso?
Um com rodinhas e outro manual?
Quanto pagou pelo manual?
DEZEMBRO DE 2013
Qual é a marca?
Dyson? Esse é mais caro.
Fique na linha, eu já volto.
Olá.
Tudo bem?
Encontrou sua marca de desodorante?
ALEPH WORKSHOP LITERÁRIO
Paz na terra ao homens de boa vontade, dizem.
Para nós, era uma guerra.
Uma constante troca de insultos entre nossos pais,
sem trégua sequer no Natal.
Naquele ano, meu irmão Mederic, que estava com três anos,
tinha feito suas necessidades em cima do edredon.
Eu, silenciosa como sempre,
muda e orgulhosa, fiquei olhando em aprovação.
Obrigada.
Vamos comentar depois de todas as leituras.
Paul?
Desculpa, não consigo.
-Na próxima vez, prometo. -Não é justo.
Certo. Vamos em frente.
-Tchau. -Tchau.
-Gostei quando falou de Bolaño. -Mesmo?
Adoro esse escritor. Li quase tudo dele.
Eu também, menos os contos.
Devia, são maravilhosos.
O que você faz?
Várias coisas.
Tipo o quê?
No momento, faço bicos. Pra pagar o aluguel.
Eu costumava trabalhar com música.
-Era músico? -Não, DJ.
-É mesmo? -É.
-Que tipo de música? -Garage.
É uma mistura de house com disco.
-Sabe o que é house? -Vagamente.
A única música eletrônica que ouço é o Daft Punk.
Mas gosto de rock. Sobretudo rock antigo.
Não consigo me atualizar com as novas bandas.
O que é exatamente a garage? Nunca ouvi falar.
Bem, garage...
O nome vem de um clube dos anos 80 chamado Paradise Garage.
O dono era Larry Levan.
-Ouviu falar dele? -Não.
Só um minuto.
Estamos na lista.
-Qual? -Na lista do Romain.
Tem certeza?
-Nomes? -Thomas e Guy-Man.
Não achei. Não vão poder entrar.
Falamos com Romain há uma hora.
Sinto muito. Além disso, não estão vestidos pra ocasião.
As garotas se produzem e vocês chegam assim?
Caprichem da próxima vez.
Obrigado. Boa noite.
-Thomas, tudo bem? -Olá.
Bem, e você?
-Deixa os dois entrarem. -Boa noite.
Pode acompanhá-los? É o Daft Punk.
Desculpem, eu não sabia.
-Sinto muito. -Não tem problema.
-Me desculpem. Boa noite. -Obrigado.
Thomas!
Tudo bem?
Como vai?
Minha primeira vez aqui e encontro vocês.
Vocês vão bem?
Um pouco de jet lag. Chegamos de LA.
Não dá medo estar quatro andares abaixo da rua?
Quatro? Só contei três.
Paul!
-Tudo bem? -Tudo. E você?
-Boa noite. -Boa noite.
Até mais.
Conheço mas não lembro?
Não é sua ex? Uma delas?
Sim, mas não lembro se dormi com ela.
Bravo!
Agora que larguei os baseados, estou sempre doente.
Eu larguei o pó.
E o álcool. É Perrier com limão.
Que bizarro...
-Eles ainda estão aqui? -Já foram.
David, me empresta a borracha?
Obrigada.
Paul!
Encontrei este livro na casa dos meus pais.
Você gosta de poesia americana. Talvez se interesse.
Robert Creeley.
Conheço e gosto muito.
Um poema aí me lembrou você.
Botei um X perto do título.
Estão me esperando. Tchau.
Tudo é um ritmo,
da porta que fecha à janela que se abre,
as estações, a luz do sol,
a lua, os oceanos, o crescimento das coisas,
a mente individual das pessoas,
recorrente em todas elas,
pensar que o fim não é o fim,
o tempo que volta,
elas mesmas mortas mas outro alguém vindo.
Se na morte estou morto,
na vida também vou morrendo, morrendo...
E as mulheres choram e morrem.
As crianças só crescem para se tornar velhas.
A grama seca, a força se vai.
Mas vem outra, voltando,
oh, não a minha, não a minha,
e por sua vez morre.
O ritmo que projeta continuidade,
dobrando tudo à sua força,
da janela à porta,
do teto ao chão,
iluminado no início,
sombrio no final.
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