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Zulu
O que está prestes a ver nunca poderia acontecer.
Vários renomados cientistas afirmaram este fato,
pois, como rapidamente apontaram,
a Terra é plana.
Plesiosaurus, ou serpentes do mar...
répteis gigantes que viviam nos mares do mundo...
na Era Mesozoica
ou época dos reptéis.
Plesiosaurus como os contemporâneos peixes lagartos do mar...
foram instintos no final da Era Cretácea.
Quando os dinossauros e semelhantes desapareceram.
Foram substituídos pelos primitivos, mas mais inteligentes mamíferos.
Sigam-me, por favor.
OS RINOCERONTES
Desculpa, estou atrasado!
Uma cidade nos Estados Unidos.
Domingo de manhã.
Finalmente conseguiu chegar.
Atrasado como sempre, claro.
Não, eu...
Nosso encontro era às 11:30.
Já é praticamente meio-dia.
Desculpe, John. Ficou esperando muito?
Não. Eu acabei de chegar.
Então não me sinto tão mal.
Nada tem a ver com o fato de eu não gostar de esperar.
Já que sempre se atrasa, eu chego depois de propósito.
Eu espero que esteja ali, quando eu chegar.
Garçom.
Traga um potage saint-germaine...
e enquanto prepara...
traga-me rolinhos frescos.
Não estou atendendo. Ainda.
E quando estará atendendo?
Às 12:00.
Exatamente às 12:00?
Traga a sopa, fervilhando.
E pãezinhos frescos.
Uísque e refrigerante, por favor.
Stanley, está bebendo às...
11:56 e 39 segundos.
Olhe para si mesmo.
O que fez? Ficou sem dormir de novo?
Não, eu corri para chegar aqui a tempo.
Mas está atrasado.
Veja só: bocejando.
Correr não te deixa mais jovem.
Minha cabeça está um pouco inchada.
Você é viciado em álcool.
É verdade, eu tenho uma leve tendência.
É a mesma coisa todo domingo, sem falar nos outros dias da semana.
É menos frequente na semana por causa do trabalho.
Stanley, pare de querer aprovação
de uma mulher que dá laxante para um gato.
E olhe só para você.
Eu sei, pareço de ressaca.
Cadê sua gravata?
Caiu sabão nos meus olhos de manhã.
O que fez? Perdeu ontem à noite numa orgia?
Eu quebrei meu alarme.
Está falando bobagens.
Feche os olhos.
Abra.
Coloque esta.
Obrigado, John.
Tome o pente.
Seu cabelo está uma bagunça.
Nem fez a barba.
Olhe seu estado.
Minha língua está branca.
Está a caminho da cirrose, meu amigo.
Pode ficar com a gravata, eu tenho muitas.
Olha seu ombro.
-O que tem ele? -Se esfregou na parede?
Eu não carrego uma escova, meu bolso ficaria cheio.
Vire-se, vire-se.
Que desgraça.
Estou envergonhado de ser seu amigo.
Obrigado, John.
Você é muito duro comigo, John.
Eu preciso ser.
Eu entendo que é porque somos amigos...
Mas se soubesse como eu estava chateado com meu trabalho...
Oito horas por dia, semana após semana.
Quando chega o sábado...
eu estou exausto de desperdiçar minha vida.
Preciso de alguma coisa...
algum tipo de distração, então eu bebo.
Está sem força de vontade, eu sou pura força de vontade.
E é por isso que te admiro tanto.
Mas nem todo mundo tem tanta força de vontade.
Estou dizendo, não consigo me acostumar.
Eu simplesmente não me acostumo com a vida.
Onde foi sua folia ontem à noite?
Na festa de aniversário do Henry.
Nosso amigo Henry?
Se ele não me chama para o aniversário, que amigo é esse?
Que barulho é esse?
Eu não fui convidado porque
se fosse, teria te ligado e dito que nem morto
eu iria à festa do Henry.
-Que barulho é esse? -Um rinoceronte.
Ei, olha o rinoceronte.
Um rinoceronte!
Um rinoceronte correndo solto pela avenida.
Que coisa!
Mas que coisa!
-O que acha disso? -Foi bem barulhento.
Mas admita, foi extraordinário.
Outro, por favor.
Duplo.
Duplo?
Você não toma jeito!
Inacreditável!
Era um rinoceronte!
Certo, um rinoceronte. Deve estar longe agora.
Não vê que é fantástico?
Um rinoceronte solto na cidade e você nem aí.
É o crime da nossa época e você só sabe dizer...
Cubra a boca quando tossir!
-Alguém devia chamar a polícia. -A polícia?
O prefeito! É para isso que ele serve.
Talvez tenha escapado do zoológico.
Está sonhando.
Ou do circo.
-Que circo? -Sei lá...
Talvez estivesse escondido sob uma pedra.
Quer ser espertinho,
está muito enganado.
Você é um chato, não fala sério.
Está difícil hoje porque...
Não suporto quando tenta me fazer de bobo.
-Eu nunca faria... -Você acabou de fazer.
-Como pode pensar que... -Penso a verdade.
-Eu garanto... -Que queria me fazer de bobo.
Você é tão cabeça dura às vezes.
Está me chamando de teimoso.
-Nunca passou pela minha mente... -É porque não tem uma!
Por isso que quando coisas fantásticas acontecem
você fica complacente.
Finge que não é nada!
Você deixa um rinoceronte correr pela rua...
Numa tarde de domingo.
Quando as crianças estão brincando nas ruas!
Certo, eu concordo. Devia ser proibido.
Mas não há por que brigar por isso.
Mas brigar por causa de um perissodáctilo que passou.
Um quadrúpede estúpido!
É uma...
Perdão, John.
Um brinde a você.
Não beba isso.
Vou ter que pagar mesmo.
Solta, solta!
Solta! Solta!
Meu Deus, é a Daisy.
Toma, finge que é sua bebida.
Estragou minha gravata.
-Sinto muito. -É imperdoável!
Esse é o resultado da sua bebedeira.
Não sabe mais se controlar.
Me dê sua gravata.
Por que a menina te deixa nervoso? Ela parece uma boa companhia.
Olhando para os bolos.
Sinto muito, John.
É culpa da bebida.
Descoordenado.
Está cavando sua própria cova.
Está se destruindo.
Odeio o gosto do álcool, mas se não beber, me sinto horrível.
Tenho medo, bebo para não ter mais medo.
Medo de quê?
Medo de quê?
Não sei, é um tipo de angústia.
Eu me sinto deslocado na vida. Entre as pessoas. Sinto que não é meu lugar.
Indiferente à vida, eu bebo umas doses e isso não me incomoda mais.
John?
Você nem mesmo tem um lenço.
Estou cansado.
Estou cansado há anos.
É exaustivo ter que carregar meu corpo por aí.
Estou ciente do meu corpo o tempo todo.
Como se eu estivesse carregando outra pessoa nas costas.
Eu não consigo me acostumar comigo.
Às vezes nem sei quem sou.
Stanley...
Está sendo fanático.
Olhe para mim.
Acho que peso mais que você.
Ainda assim, me sinto leve.
Leve como uma pluma.
Você é forte.
Sim, sou forte. Por vários motivos.
Sou forte porque tenho força natural.
Também sou forte porque tenho força moral.
Também sou forte...
porque não abuso do álcool.
Não quero te ofender, Stanley.
Como seu amigo, devo dizer...
o que pesa regularmente não é nada mais nem menos
que o álcool.
O que houve?
Tome. Coloque esta.
Outro silogismo.
Todos os gatos morrem, Sócrates está morto.
Logo, Sócrates é um gato.
E tem quatro patas também.
É verdade, porque eu tive um gato chamado Sócrates.
Stanley?
Por que não se senta?
Eu queria ver se ela tinha entrado.
Não quer que ela te veja nessas condições.
O que prova que não é indiferente à vida.
Parece gostar muito dela.
Ela é do trabalho.
Espera que ela se interesse por um alcoólatra?
Acho que ela gosta de outro mesmo.
-Quem? -Norman.
Tem quatro patas.
Ele senta do meu lado no escritório.
-Aí está, viu? -Ele é contador.
-Como temos certeza? -O chefe gosta dele.
E não há futuro para mim, não tenho nenhuma chance.
Então vai desistir?
-Tão fácil assim. -O que posso fazer?
Torne-se um inteligente e brilhante intelectual.
Como eu faço isso?
-Não é fácil. -Não é fácil.
Ao contrário, é muito simples.
Pode ser simples para você, mas não para mim.
-Concentre-se. -Concentre-se.
-Exercite sua mente. -Exercite sua mente.
-Não sei como. -Não sei mesmo.
Precisa ser explicado tudo a você.
Isso é o que deve fazer.
Quando for passar pela porta...
Imite-me.
Coloque o chapéu.
Use uma gravata assim.
Um terno bem ajustado.
Sapatos bem polidos.
Uma bengala.
E mais importante.
Isso.
Acho que há várias soluções.
-Diga-me. -Vou parecer você e depois? Diga.
-Estou ouvindo. -Estou ouvindo.
Você é tímido.
Mas não lhe falta talento.
Que talento?
Coloque-se em cena.
Fique a par dos eventos literários e culturais do dia.
Faça um curso de educação para adultos.
-Como assim? -Visite museus.
Leia os jornais literários,
como o United States News World Reports.
Observador Nacional, Mecânicas Populares.
Em quatro semanas, será um homem culto.
Talvez tenha razão.
Sabe alguma coisa sobre o teatro avant-garde?
Já viu as peças...
de Eugène Ionesco?
Nunca tive tempo. Cursei Educação Física.
Acho que tem razão, preciso fazer algo.
À tarde eu irei ao museu, quer ir comigo?
Eu já fui ao museu hoje.
Quer ir ao teatro à noite?
Espero que mantenha a boa vontade.
Mas à noite encontrarei alguns amigos.
Para beber.
Para beber?
Prometi ir, sempre cumpro minha palavra.
Vai sair para beber?
Beber não é um hábito meu, não igual a você.
Por que não?
Porque não sou alcoólatra.
Mesmo sem patas, um gato caça ratos, é uma característica.
Eu não disse que era.
O que está havendo?
É um rinoceronte!
Está quebrando as vitrines!
Mas que coisa.
Ora, mas que coisa.
Invetaram isso, sensacionalismo.
Carl, você mesmo leu.
Está escrito aqui.
Eles fazem qualquer coisa para vender.
Eu não acredito na imprensa, são todos mentirosos.
"Na 2ª aparição, o paquiderme destruiu uma cabine telefônica,
quebrou a vitrine de um restaurante e matou um gato."
Besteira, só acredito vendo.
Por isso virei contador há 20 anos e gosto disso há 19 anos.
Porque é exato e tenho uma mente metódica.
Eu estava lá, Carl.
E acho que o jornal relatou precisamente.
Também acho, Daisy. Aliás...
O que uma mente metódica tem a ver com isso?
Chama isso de preciso? O que ele quer dizer com "paquiderme"?
O que entende de paquidermes?
E o que me diz de "um gato"?
Todo mundo sabe que é um gato.
Que tipo de gato? Fêmea? Macho? Que raça? Qual cor?
O problema da cor é algo que me incomoda.
Odiei.
O que a cor tem a ver com isso, Carl?
Não pode negar o problema da cor, sr. Nicholson.
É um problema vital da nossa época.
Sabemos, mas não tem nada a ver com o assunto atual.
Norman, não se pode ignorar isso facilmente.
A história mostra que o preconceito racial...
Preconceito racial não tem nada a ver com isso.
Eu não tenho certeza.
Esse não é o problema.
Talvez, mas o preconceito não deve deixar de ser denunciado.
Carl, sei que ninguém aqui tem preconceito.
Mas está desviando do assunto.
É o caso de um gato atropelado por um paquiderme.
E eu vi acontecer.
Você viu mesmo um rinoceronte galopando pela cidade?
Galopando não, correndo.
Correndo pela avenida.
-Eu não vi, mas um amigo meu... -Acreditem em mim!
A imprensa inventou isso. Fazem isso só para vender.
Estou surpreso com você, Norman. Um contador certificado.
Acreditando em besteiras.
Eu vi, eu juro que vi.
Ora, Daisy, sempre achei que fosse sensata.
Sou sensata e enxergo muito bem.
E outras pessoas viram também.
Um bando de bocós desocupados.
-Ontem era domingo. -Também trabalho aos domingos.
Não vou escutar padres tentarem me impedir de ganhar meu salário.
Isso me ofendeu, é um insulto a religião.
Não entenda mal, sr. Nicholson.
Só porque desprezo a religião, não quer dizer que não estimo.
Sabe como um rinoceronte é?
Claro, é um bicho grande e feio.
-Acontece que... -Certo, hora de trabalhar.
Azar dos atrasados.
-Bom dia, Daisy. -Bom dia, Stanley.
Sr. Nicholson sabe que me atrasei?
Acho que sim.
Mas que droga.
Então chegou.
Até num escritório de contabilidade.
A ignorância está até mesmo entre os contadores.
Pare com isso, Carl!
Por causa das universidades.
Não há mais raciocínio lógico nas universidades.
Já chega, Carl.
Stanley, você por acaso viu o rinoceronte?
Você acha nas universidades um monte de intelectuais sem noção de mundo.
Sim, para falar a verdade, vi.
Ridículo.
Está vendo, Carl?
Não sou louca, afinal.
Stanley está sendo um cavalheiro.
O que há de cavalheirismo em ver um rinoceronte?
É compreensível, todos são cavalheiros com a Daisy.
É compreensível.
Está distorcendo os fatos.
Stanley não ouviu nossa conversa. Ele acabou de chegar.
Atrasado.
Nós dois vimos.
É possível que ele tenha imaginado?
Afinal, com ele tudo é possível.
Eu não estava só, Carl. Era um restaurante cheio de gente.
Eu deveria dizer que nós os vimos.
Agora nem sabe quantos viu.
Era um rinoceronte.
Com um chifre.
Para mim basta, Daisy.
Discos voadores, é o que me parece.
OVNIs!
Eu acredito em OVNIs.
Chega, não são pagos para discutir sobre rinocerontes e OVNIs.
Eu insisto que trabalhem e em silêncio.
Vou ficar de porta aberta para ouvir.
Obrigado por me apoiar, Stanley.
O prazer foi meu, Daisy.
Sabe de uma coisa, isso é propaganda.
-Que propaganda? -Não importa. Você entendeu.
Essas organizações não me pagam.
Bigham não veio?
Ele ligou avisando?
Não que eu saiba, sr. Nicholson.
Se não aparecer, vou ter que demiti-lo
Registros técnicos trancados em sua mesa.
Alguém tem a chave da mesa?
Está bem, sra. Bigham?
-Bom dia, sr. Nicholson. -Bom dia.
O que houve, sra. Bigham?
-Perdoem-me... eu... -Sente-se...
Para o meu escritório.
Não sufoquem a mulher. Deem espaço.
O que houve, onde está o sr. Bigham?
Me desculpem...
Ele foi visitar a família no fim de semana,
e parecia estar com febre.
Poderia ter ligado.
Ele disse que precisavam dessa chave.
Ele ligou avisando.
Muito bem pensado.
Posso beber um pouco de água?
-Água! -Um copo d'água!
Obrigada, muito obrigada.
-O que foi? -Está histérica por causa da febre.
Não! Fui perseguida por um rinoceronte!
Sra. Bigham...
quantos chifres ele tinha?
Ele continua lá, espreitando. E parece que quer subir.
Besteira!
Ele fica correndo em círculos. Acho que está machucado.
Ele parece estar procurando algo!
Carl, está vendo agora?
Sim, estou vendo!
É esse o rinoceronte que viu ontem?
Definitivamente.
Vejam como está a escadaria.
Está bem debaixo de nós.
Certo, Daisy.
-Segure firme. -Não olhe para baixo.
Foi muito heróico, Stanley.
Eu sei.
Qualquer um faria o mesmo.
Ele destruiu nossa escada.
Como vamos sair daqui?
Eu a pegarei nos braços, pularei a janela...
e flutuaremos até o chão.
Viu como se comporta a classe dominante sob estresse?
Eu só estava brincando.
O que está acontecendo lá embaixo?
Não pode ser verdade!
É meu marido!
Coitado. O que aconteceu com você?
Tem certeza que é ele?
Sim. São os óculos dele.
E os olhos dele.
-Não o reconhece? -Sim e não.
Mas eu sim. Eu reconheço você, meu amor!
É o fim da picada. Ele está demitido.
Bigham, está demitido!
-Sra. Bigham. -O quê?
-Ele tem seguro? -Agora eu entendo.
Pensando bem, quem teria seguro para isso?
Meu Deus!
Segura ela, Stanley!
Não fique chateada, sra. Bigham.
Sra. Bigham, talvez tudo seja esclarecido.
-O que pode ser feito legalmente? -Ela deve ver um advogado.
Isso é loucura! Que sociedade!
Pode ter certeza, o meu sindicato saberá disso.
Não vou ficar quieto vendo um colega ser prejudicado.
-Cale-se. -Não me diga para calar.
Meu querido, não posso abandoná-lo assim.
Meu queridinho.
Ele está me chamando!
É o pior momento para perdê-lo. É época de imposto.
Quem se importa com isso agora?
A questão é: como sairemos daqui?
Vamos ter que sair pela janela.
-É alto demais. -Podemos chamar os bombeiros.
Daisy, chame os bombeiros.
Use meu escritório, é mais silencioso.
Eu não posso abandoná-lo.
Se quiser o divórcio, será justificado.
Você é a prejudicada.
Não numa hora como essa, coitado.
Não posso deixá-lo!
Segura ela!
Pare, sra. Bigham!
-O que está fazendo? -Chamem um pastor!
Stanley, alcance a janela!
Não faça nada precipitado, sra. Bigham.
Estou indo! Nunca vou te abandonar!
Nunca!
Ela caiu montada nele!
Cavalgue!
Ela cavalga muito bem.
O que faz aí fora com uma bolsa?
A sra. Bigham caiu nas costas do marido e foi-se embora.
Que romântico. É raro achar um casamento assim hoje em dia.
Cadê os bombeiros que pedi?
Tive problemas para chamá-los.
Estão ocupados com outros rinocerontes.
Tem mais?
Apareceram de manhã.
Mas já confirmaram pelo menos uns 30...
Sempre exageram!
Vão vir assim que possível.
Muito bem, voltem ao trabalho.
Mãos vazias, oficina do diabo.
Ainda nega que Daisy estava certa e o jornal estava certo?
Eu nunca neguei.
Eu só queria saber no que daria.
Eu nunca neguei.
Eu entendo tudo agora.
Por que não explica para nós, Carl?
Sim, explique.
Eu queria uma explicação.
Eu vou explicar.
Estamos esperando a explicação.
Eu sei muito bem os porquês de tudo isso.
Sei das pessoas envolvidas e o propósito dessa maracutaia.
Não sou o único que entende.
Até os homens nas ruas sabem.
Só um hipócrita diria que não entende.
Graças aos céus!
E digo mais...
Isso não vai ficar assim.
Essas coisas são investigadas!
Aqui, bombeiros!
Lembrem-se de voltarem à tarde.
Mandarei consertarem as escadas.
Primeiro você, Daisy.
Vamos, moça.
Certo, estou indo o mais rápido que posso.
Vocês podem descer sozinhos.
Até mais tarde, Daisy.
Tchau, Norman.
Obrigada por me salvar, Stanley.
Foi um prazer, Daisy.
Foi.
Preciso estudar isso por motivos salariais.
Eu também preciso estudar.
Achei que soubesse de tudo, Carl.
Não se preocupe, logo saberei.
E espalharei ao mundo as provas verídicas da traição de vocês.
-Tem medo de altura? -Não.
-Quer ajuda? -Não me toque.
Stanley, estou na escada?
Se preocupa demais.
Não me deixe fazer isso sozinho.
-Desculpe. -Desculpe, eu adorei.
-Stanley? -Sim?
O que quer fazer semana que vem?
Terminar isso? Quer ir ao motel?
Norman, não acha meio assustador?
Essa coisa de rinocerontes.
Deve haver uma explicação.
Eu sei, mas não estamos sendo negligentes?
As pessoas estão se transformando em rinocerontes.
Pessoas não.
Só vimos um.
Apenas um.
Não pode generalizar. E dizer que são pessoas.
Mais tarde no mesmo dia.
Sim.
-Quem é? -Alô, John.
Sou eu, Stanley.
Claro. Onde está?
Aqui no meu apartamento.
Preciso falar com você. Posso subir aí?
Que horas são?
Deve ter passado das duas.
Por que não está no trabalho?
Eu explico quando chegar aí.
Quero me desculpar com você.
Claro.
Me dê cinco minutos.
Certo. Sabe, John...
há coisas acontecendo...
eu não sei explicar, mas você pode me ajudar.
John?
-Olá, John. -Como vai, Stanley?
Desculpe se te acordei.
Engraçado, não reconheci sua voz.
Nem eu.
Digo, sua voz.
Não se sente bem?
Sim, estou bem.
Eu queria me desculpar.
Foi burrice minha ficar irritado por uma coisa dessas.
Que coisa?
De ontem.
Ontem quando?
Ontem onde?
Ontem o quê?
Não lembra, o maldito rinoceronte?
Que rinoceronte?
O infeliz rinoceronte que vimos.
Os dois infelizes rinocerontes.
Como sabe que eram infelizes?
-É modo de dizer. -Não vamos falar disso.
-Muito legal da sua parte. -E pronto.
Só quero dizer que lamento por agir como um idiota.
Não era tão surpreendente, era?
Enfim, desculpe.
Eu... não... me sinto bem.
Por isso estava na cama.
Sabe, John, no final, estávamos ambos certos.
Sobre o quê?
Sobre os rinocerontes aparecendo com um ou dois chifres.
Feche a porta!
Vou ficar resfriado!
Eu não me sinto bem.
-Qual é o problema? -Eu não sei.
Alguma coisa em algum lugar.
Sente-se fraco, tonto?
Pelo contrário! Eu me sinto...
Cheio... de... energia!
Isso vai e vem?
-Acontece comigo, às vezes. -Nunca comigo.
Então é saudável demais.
Muita energia é tão ruim quanto pouca, pode ser seu sistema nervoso.
Meu sistema nervoso está em ordem, estou são de corpo e alma.
Venho de uma longa linhagem de...
Talvez seja gripe, é comum ultimamente.
Sim, talvez.
Minha cabeça dói.
Se sentiria melhor se eu o deixasse só?
Não está me incomodando.
-Sua voz está rouca, John. -Rouca?
Um pouco.
Não estou rouco.
Minha voz não mudou.
-A sua voz que mudou. -A minha?
Por que não?
Talvez, é possível. Não percebi.
Na verdade...
Minha testa dói.
Devo ter...
Devo ter batido em algum lugar.
-Talvez tenha sonhado. -Eu nunca sonho.
Todos sonhamos. Sua mente subconsciente...
Minha mente não divaga! Eu penso direito!
Eu sempre penso direito!
Não queria te irritar, eu me expressei mal.
Expresse-se melhor e não me incomode com...
observações desagradáveis.
Só disse que se tivesse batido a cabeça, teria um galo.
Você tem mesmo um galo.
Um galo? Mesmo?
Pequeno.
Onde?
Aí, acima do seu nariz.
Não há galo.
Não há galos na família.
Veja você mesmo.
Tem uma coisa.
É melhor eu olhar direito.
Estou com um galo!
Viu só?
Eu bati minha cabeça.
Desculpe dizer isso...
Você está meio cinza.
Você tirou o dia para me incomodar.
Já se viu no espelho hoje?
Eu não quis te magoar.
É difícil de acreditar.
Sua garganta dói?
Por quê?
Se sua garganta dói...
Pode ser suas amígdalas.
Nunca tive nada com minhas amígdalas!
Não precisa ter vergonha.
Deixe-me ver seu pulso.
Sente-se.
Qual é o problema? Não dói nada.
John, sente ali, não seja um bebezão.
Pare de brincar.
Deixe-me sentir seu pulso. Não vai doer.
Vamos, seu bobo.
Vem no sofá logo.
-Não vai doer? -Não.
Vai passar.
Seu pulso está normal, não se preocupe.
-Preocupar por quê? -Descanse e ficará bem.
Estou com fome! Fome!
Fome? Ótimo.
É um bom sinal.
Mas devia descansar.
Ligou para o médico?
Para que um médico?
Deixe-me chamar um para você.
Não quero que chame um médico. Eu não quero um médico.
Você precisa de um diagnóstico.
Médicos inventam doenças!
Mas com boas intenções.
Eles inventam doenças! Eles inventam!
Eu vou comprar comida.
Enfim...
Os únicos médicos que confio...
são os veterinários.
Suas veias estão saltando.
É sinal de virilidade.
Mesmo assim.
O que está fazendo? Analisando-me como se fosse um bicho estranho.
O que tem minha pele?
Não fale da minha pele!
Eu falo da sua? Falo?
É que está mudando de cor. Está ficando cinza.
E áspera também.
Pare de me amolar!
Pare de me atormentar.
Qual o seu problema? Está me enlouquecendo.
John, eu vou chamar um médico.
Não, não, não...
-Tente agora. -É para o seu bem.
Eu sei melhor do que você o que é melhor para mim.
Sua respiração está pesada.
É como eu respiro. O melhor que posso.
Não gosta da minha respiração?
Não gosta da sua!
Respira como se fosse morrer a qualquer momento.
John, não fique com raiva. Só estou sendo seu amigo.
Não quero sua amizade.
Não acredito em amizade. Não quero.
Que bobagem. Você está muito misantrópico hoje.
Sim, estou misantrópico.
Muito misantrópico mesmo.
E eu gosto de ser misantrópico.
Se é por causa de ontem, eu admito, foi uma briga boba.
A que briga boba se refere?
Sobre o rinoceronte.
Não é que eu odeie as pessoas...
Eu apenas sou indiferente a elas.
Digamos que... me enojam!
É bom ficarem longe de mim!
Ou eu passo por cima!
Eu tenho um objetivo em vida.
Eu vou direto a ele.
Talvez seja crise de identidade.
Minhas roupas.
Minhas roupas são desconfortáveis.
Meu pijama coça. Coça!
Não entendo sua pele.
Minha pele de novo.
Está cada vez mais cinza.
Está com a mania das cores!
-Andou bebendo de novo? -Não, nem um pouco.
Deve ser efeito das suas folias passadas.
Eu prometi não beber nada e cumpri, apesar de tudo que vi.
Quem se importa com o que você vê? Quem?
-O que disse? -Eu disse:
John, soube o que houve com Bigham?
-Quem? -Bigham do escritório.
O que houve com ele?
Ele virou um rinoceronte.
Pare de zombar, John.
Posso zombar se quiser.
Este é meu apartamento.
-Eu não disse que não podia. -É bom mesmo.
Eu... sinto... sinto calor!
Calor!
Calor! Calor!
Preciso me refrescar!
Talvez tenha febre.
Que tal assim...
eu vou buscar um médico.
Então Bigham virou um rinoceronte, é?
Ele estava pregando uma peça em você.
Disfarçando-se.
E você caiu.
Parecia sério para mim.
É coisa dele.
Não acho que foi de propósito.
Não acho que ele queria mudar.
E se foi de propósito?
É hilário, não?
Não devia falar tanto, parece te incomodar.
Ao contrário, isso me relaxa.
Não quer que eu chame o médico?
Eu absolutamente proíbo.
Eu odeio gente obstinada.
Ele obviamente gostou de virar rinoceronte.
Por que ele resistiria?
Não é normal um ser humano virar um animal irracional.
Não é tão ruim.
Afinal, rinocerontes são seres vivos também.
E não há por que chamá-los de... irracionais!
Não acha que há uma diferença de mentalidade?
Você supõe que uma vida é superior a outra?
Não, mas temos padrões morais que são diferentes dos padrões deles.
Estou farto de ti e teus padrões morais!
-Os substituiria pelo quê? -Natureza!
As leis da natureza!
As leis da natureza levam às leis da selva.
Por mim tudo bem. Muito bem.
Fala isso, mas no fundo não é verdade.
Precisamos construir novos fundamentos!
Devemos voltar para a integridade primitiva!
Não concordo com você.
O que foi?
Não consigo respirar.
Abra a janela.
Não consigo respirar.
John, escute. Precisa admitir...
que nós temos valores...
e filosofias que levaram anos de civilização para serem criadas.
Devemos destruir tudo isso,
assim ficaremos melhor.
Está brincando, né?
Sei que não é verdade.
Para a humanidade sobreviver, precisamos lutar.
Não me fale sobre a humanidade.
Eu me refiro a...
aos indivíduos humanos.
A individualidade já era.
Você é um sentimentalista ridículo.
Mas a mente, John...
A mente humana.
Clichês! Está falando de clichês!
Lixo! Lixo!
Lixo!
Hora de mudar!
Não entendo. Sempre foi tão conservador.
Não te reconheço mais.
Quente!
-O que está fazendo? -Preciso ir para o rio!
John, escute. Pare e olhe para mim. Está ouvindo?
Eu ouço perfeitamente!
Eu posso te ver...
O que está fazendo? Quase me derrubou.
Sinto muito.
Desculpe.
John, não posso te deixar assim.
É meu amigo, sei como se sente. Mas precisa de um médico.
É uma necessidade.
Não deve chamar o médico!
Eu tenho que chamar.
Eu te esmago! Eu te esmago!
Gosta de encarar?
Rinoceronte!
Alguns dias depois.
-Quem é? -Stanley?
-É você, John? -Sou eu, Norman.
Só um minuto, Norman.
Que está fazendo?
Explico já.
Mas antes, Norman...
Minha voz mudou?
Não, por quê?
Não parece rouca?
Faz de novo.
Está agindo feito bobo.
Entre!
-Vê um galo na minha cabeça? -Não.
Não consigo superar.
Qual o problema com você?
Eu não quero mudar, Norman.
Você quer mudar?
-Ah, isso. -É, isso.
Meu amigo John, você o conheceu lá em cima.
Ele se transformou diante dos meus olhos.
Não consigo superar isso.
Espera!
Acho que se foi.
Não ouço nada há 24 horas.
Deve ter se juntado à horda.
Devia ter visto.
Ficou selvagem e furioso.
Sei que está deprimido, mas não pense nisso.
Como não pensar?
Ele era mais do que um vizinho.
Foi meu amigo há anos. Um coração tão nobre.
Se tivesse visto o rosto dele.
Pena que teve de ver isso.
Ele era tão duro comigo.
Porque se importava tanto comigo.
Ele queria que eu me elevasse a certos padrões.
Certos padrões humanos.
Ele era o único que achei que não mudaria.
Eu confiava nele mais do que em mim mesmo.
Stanley, está levando muito a serio.
Quanto ao John, acho ele muito antiquado.
Ele era muito selvagem e louco, é só um caso isolado.
Acha mesmo?
E o Bigham e os outros?
E o Bigham?
Há hordas correndo por aí.
Hordas! Sabia?
Me ajuda com isso.
Começando a observar todas as nuances.
É uma epidemia curável.
Vamos pegar em breve.
Não tenho certeza. Acha que devemos combater?
John, falou sobre isso.
Ele disse que eu era complacente.
Ele tinha razão.
Da faculdade até o início.
Eu ajudei ele a descobrir.
Temos que nos fortalecer, Norman!
Temos que nos fortalecer e lutar contra isso!
-Quer uma dose? -Não.
Você vai se matar de beber.
Estou fazendo de propósito!
Mas você falou em se fortalecer.
Não sou um alcoólatra, Norman!
Olha, sente-se.
Stanley, por que não sai?
Trancado aqui com as janelas e cortinas fechadas.
Por que não sai e toma um ar?
Não quero ter que vê-los.
Não quero ter que vê-los.
Só de ver...
Algo me acontece.
Eu sei. Eu sei.
Mas não vão te atacar.
Se ignorá-los,
não irão te incomodar.
Eu andei pela rua com um sorriso no rosto.
Mas só de olhar...
me dá um aperto...
no meu coração.
É porque não tem senso de humor.
-Acha mesmo? -Precisa aprender a...
se desapegar e ver o lado bom.
Talvez tenha razão.
Não me sentia tão envolvido.
Eu só...
Não posso mais garantir minha humanidade.
É porque acha que tudo gira ao seu redor.
Acha que tudo acontece por sua causa.
Sabe, Stanley.
Você não é o centro do universo.
Se tivesse acontecido em outro lugar.
Do outro lado do oceano, tipo...
a fome na Índia.
Ou uma guerra na Ásia.
Poderíamos ver na tevê e ficar tristes.
E haveria reportagens e coberturas, sabe.
Painéis de discussão e nós assistiríamos.
Seria muito interessante.
Não foi assim.
Eu sei.
Eu sei.
A praga está aqui.
Eu não consigo superar isso!
Eu também não, no começo.
Lá estão de novo.
Eu não aceito isso!
Não consigo dormir sem ter pesadelos!
Não posso ficar acordado sem beber.
Eu não consigo aceitar!
Você tem que aceitar.
Não quero aceitar! Quero atacar!
Quero agir!
Temos que agir! Não podemos ser complacentes, Norman!
A praga está aqui!
A praga!
Por que estou gritando, Norman?
Foi muita gentileza visitar.
Aliás, Nicholson recebeu meu pedido de licença? O correio está uma zona.
Não se preocupe, o escritório não abriu.
Não ajeitaram as escadas?
Estão consertando, mas é difícil achar operários.
Mas é a estrutura,
a estrutura do escritório,
está um bagaço. Sem o Bigham...
e a demissão do Nicholson...
Nicholson se demitiu?
Impossível, há 20 anos ele adia a aposentadoria.
Ele não se demitiu de verdade.
Ele mudou.
Nicholson virou um rinoceronte?
O que está acontecendo está além do nosso escopo.
Acho que não temos nem maturidade para lidar com isso.
Mas conheço alguém que tem.
O que é aquilo?
Não sei.
Talvez seja o John.
Um rinoceronte não bate tão leve.
Como sabe?
Oi, tem alguém em casa?
Daisy!
Por que entrou por aí?
Já viu as escadas?
Não dá nem para entrar no saguão.
Estão no saguão.
Andando pelo saguão.
Ouvi que estava mal, Stanley.
É uma boa amiga, Daisy.
Sou mesmo, uma boa amiga.
Que gentileza aparecer.
Tem um grande coração.
Boa amiga, só isso.
Tenho notícias.
Carl é um rinoceronte.
Carl?
Carl era contra isso.
Você ouviu, Norman, ele disse que era traição.
Ele disse:
"Temos que mudar com o tempo."
Suas últimas palavras.
"Mudar com o tempo."
Devia saber que estaria aqui.
Se queria me ver, Norman.
Só precisava ligar.
Sabe o que me irrita no Carl?
Depois de anos...
ouvindo-o reclamar sobre o mal da gestão
e logo depois segue o exemplo do chefe.
Sabe meu amigo John, Daisy?
Também virou um rinoceronte.
-É triste. -Eu sei.
Um primo meu em Nova Jersey é um rinoceronte.
Lamento.
E ouvi que o âncora do jornal virou no meio da previsão do tempo.
Ainda não dominaram tudo.
Está se espalhando.
Sei que logo se espalhará do México ao Canadá.
Ainda somos a maioria.
Temos que lutar.
Temos que lutar contra a complacência.
Enquanto houve um rinoceronte na avenida...
a cidade toda está perdida.
Temos que combater a complacência.
Não acha?
Sim.
Mas vamos comer algo antes.
Quer lanchar com a gente, Norman?
Não. Três é demais.
Isso é um clichê.
Vamos, Norman.
Não seja um bobo.
Tome.
Bem, Daisy...
sabe como são as coisas aqui.
Tive problemas para achar comida.
Muito lugares foram demolidos.
Tinha até um lugar com o cartaz: "Fechado para a transformação."
Mas precisa ser combatida.
Fácil falar, difícil é fazer.
Aliás, o que faria?
Primeiro os cercaríamos.
Depois colocá-los em um recinto.
Teriamos problemas com a sociedade protetora dos animais.
Sem falar nos direitos humanos.
Não estou falando disso.
É horrível.
Aliás,
todo mundo agora tem um parente que virou.
Será mais difícil do que acha.
Mas é preciso combater.
É preciso.
Depois, você se acostuma.
Daisy, não me fale sobre se acostumar.
Vamos comer.
Algo errado com a comida?
Não sinto fome.
Não pode beber de barriga vazia.
Eu sei.
Tem razão. Preciso descansar.
Vou deitar um pouco.
Não levantem. Fiquem. Os dois.
Divirtam-se. Só vou cochilar.
Admito. Eu bebi um pouco demais.
Deixe-me cobri-lo.
Queria ter alguém para fazer o mesmo por mim.
Obrigado, Daisy.
Fiquem, por favor. Vou ficar bem.
O que está fazendo? Tem um galo na minha cabeça?
Não, seu bobo.
É só parte do acolhimento.
Norman, vamos comer. E se vierem...
iremos ignorá-los.
Certo, Daisy.
O quê? O que disse?
Eu disse "certo, Daisy."
Coma. Coma o que quiser.
Não gosto muito de carne.
Prefiro comer ao ar livre.
Na grama.
Não vá lá fora, Norman.
Não deixe ele sair, Daisy.
Não pode obrigar as pessoas, Stanley.
As pessoas fazem o que quiserem.
Norman...
O homem é superior ao rinoceronte.
SER HUMANO
Daisy...
O quê?
Desculpe, mas tive que te acordar.
Ainda é humana?
Claro que sou.
Mas tem que parar de beber.
Sim.
Tenho que parar de ter pesadelos.
Cadê o Norman?
Ele se foi.
Não quis ir com ele?
Se eu quisesse, não estaria aqui.
Acha que pode ser feliz comigo?
Por que não?
Querida Daisy.
Nunca achei que poderia sentir isso.
Do jeito que as coisas estão.
Não havia sentido nas brigas do Norman e do Carl.
Vamos esquecê-los.
Estou aqui contigo.
Não temos direito de interferir na vida alheia.
Você está interferindo na minha.
É diferente. Eu não amava Norman.
Eu compreendo.
Sempre achei que Norman fosse um obstáculo para nós.
A felicidade é tão egoística.
Temos que lutar pela felicidade.
-Não acha? -Sim.
Eu adoro você, Daisy.
Adoro-te.
E te admiro também.
Talvez não diga isso se me conhecer melhor.
Quanto mais conheço, melhor me parece.
Você é tão linda, Daisy.
Tão linda.
Especialmente em comparação a eles.
Pode não parecer um elogio.
Mas me fazem ver que é mais bela.
Espero que pare de beber.
Eu vou.
Certo, então. Pode tomar um golinho.
Cadê a garrafa?
Tirei do caminho da dedicação.
Está progredindo!
E vou mais, agora que está aqui.
E aqui está sua recompensa.
Obrigado.
-O que eu faria sem você? -Não precisa fazer nada sem mim.
Essa é a melhor parte, não tiro da cabeça.
-Podemos ler juntos... -Caminhar...
Ouvir música e tudo.
Vou ficar forte.
Vou ficar forte e te proteger.
Não preciso ser protegida.
Quem será?
Não atenda.
Por que não?
Minha intuição diz que não devia.
Talvez seja John, talvez tenha mudado de ideia.
Duvido.
Pode ser a polícia. E se a polícia ligar dizendo que acabou a crise?
Eu duvido muito, Stanley.
Eu preciso descobrir.
Preciso.
Alô.
John, é você?
Se não vai falar comigo, não falo com você.
Pode me deixar em paz?
Me deixe em paz!
Tire o fio do telefone.
Acho que a companhia telefônica não permite.
Tem medo da companhia telefônica?
Como espera me proteger?
Podemos saber o que está havendo pela televisão.
Dominaram as emissoras.
Está ficando sério.
Você não os entende, entende?
Ainda não, mas...
temos que tentar.
Temos que tentar entender a língua deles.
Que língua?
Acha que isso é uma língua?
Você diz que não é?
Você não é um linguista.
Não vai deixar isso te abalar, né?
É por causa da sua coragem que te admiro.
Você disse isso antes.
Daisy, eu te amo.
Eu te amo tanto.
Você fica repetindo a mesma coisa.
De novo e de novo.
Escute. Eu tenho uma ideia.
Escute.
Sabe o que podemos fazer?
Eu digo o quê. Podemos ter filhos.
E nossos filhos teriam filhos.
E depois de um tempo...
podemos regenerar a raça humana.
Regenerar a raça humana?
Por que não?
É facil.
É quase automático com tempo e paciência.
Eu não quero ter filhos, Stanley.
É uma chatice.
-Daisy, que coisa horrível de dizer. -Afinal...
talvez somos nós que devíamos ser salvos.
Talvez nós que sejamos anormais.
Não fale assim, Daisy.
Eles parecem tão felizes, não parecem loucos.
Parecem normais.
Estão fazendo o certo.
Daisy, escute-me.
Pense no nosso amor.
Nosso amor, Daisy.
Sinto vergonha do que chama de amor.
Esse sentimento mórbido, essa fraqueza masculina.
E feminina também.
Nem se compara a energia dessas criaturas ao nosso redor!
Quer energia? Eu te dou energia.
Eu nunca acreditaria.
Daisy, me perdoe.
Por favor, eu não sei o que deu em mim.
Aparentemente...
acabaram-se seus argumentos.
Em 20 minutos vivemos 20 anos de casados.
Sinto pena de você.
E eu entendo você.
Muito bem.
Talvez tenha razão.
Acabaram meus argumentos.
Mas acha mesmo que são mais fortes do que eu?
Eles são.
Eles são, Stanley.
Talvez.
Mas eu nunca vou desistir, Daisy.
Nunca.
Escute.
Estão cantando!
Eles estão gritando.
Não, estão cantando.
Estou dizendo, são gritos.
Está louco.
Estão cantando.
Você tem um ouvido musical.
São lindos!
São nojentos, Daisy.
Olhe bem.
Não fique com ciúmes, querido.
Ele não é tão bom agora.
Não acho o homem tão feio.
Garanto que não.
Pessoalmente eu não sou tão bonito.
Mas comparado a eles...
Daisy?
Por favor! Não me deixe só!
Estou só agora.
Pobre Daisy.
O que será dela?
As coisas mais óbvias não funcionam.
Este lar foi quebrado.
Mas ir sem dizer adeus.
Ou me deixar um bilhete.
Estão no corredor!
Preciso convencê-los...
Preciso convencê-los!
Convencê-los do quê?
Como posso mudá-los se nem sei sua língua?
Que língua eu falo?
Eu falo inglês.
Estou falando inglês?
Deve ser.
Eu posso chamar se quiser, quem vai dizer que não se sou o único que fala?
O que está dizendo?
Você entende o que está falando?
Que coisa mais esquisita.
O que é isso?
O quê?
Você não é bonito.
Não sou bonito.
Eles são bonitos, eu estava errado.
Eu não tenho chifres.
Testa lisa é tão feio.
Uns chifres...
Uns chifres vão embelezar minha cara.
Talvez cresça um.
Aí não terei vergonha.
Vou poder me juntar a eles.
Quem estou enganando?
Nunca vão crescer.
Minha pele é muito macia.
Por que não tenho uma pele dura de cor cinza?
Que encantador.
Que canção encantadora.
É meio rouca, mas...
tem muito charme.
Será que posso fazer isso?
É muito fraco.
É preciso colocar força.
Não estou barrindo, só berrando.
Por que não fui com ela quando pude?
Agora é tarde.
Agora sou um monstro.
Apenas um monstro.
Estou tão envergonhado que nem posso me ver.
Quero mudar, mas não consigo!
Entendem? Eu quero mudar, mas não consigo!
Não consigo!
Que pena.
É isso, uma pena.
Nunca vou me juntar a eles.
Não os compreendo.
Vou continuar sendo quem sou.
Sou um ser humano.
Apenas um ser humano.
Só isso.
Não há nada de errado nisso.
Pessoas que se apegam a individualidade
sempre terminam mal.
Que pena.
Uma pena.
Só preciso lutar contra todos.
Enfrentar toda a horda.
Nunca achei que enfrentaria todo mundo.
Derrotar todos.
Lutar contra todos.
Nunca lutei antes.
Sou o único que sobrou.
Esse é o fim.
E assim serei.
Até o fim.
Nunca vou competir, atraso.
Está ouvindo?
Está ouvindo?!
Eu nunca vou desistir!
Eu nunca vou desistir!
Nunca vou desistir!
Desistir, desistir...
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