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Zulu
Não!
Aqui teu guia, doutor.
Eu tinha uma filha.
Eu tenho uma filha.
Tem 17 anos.
E ela é uma perdida.
Uma garotinha linda, estudiosa.
Era do meu orgulho e da minha falecida esposa.
De repente, ela começou a frequentar mais companhias.
Quando eu abri os olhos, ela já estava desgraçada.
Os garotos na rua.
Deram uma... uma pedivaiola horrível.
Ela... manchou o nosso nome de vergonha.
Eu... fui obrigado a expulsá -la de casa.
Tudo trancado.
Foi ele de novo.
Temos que chamar a perícia.
Melhor chamar logo, senão a gente não sai daqui hoje.
Foi ele mesmo.
Rádio ligado e tudo.
Vocês estão ouvindo a música?
2408, comando para o local da chamada.
2408, comando para o local da chamada.
Sei lá, os caras da perícia são só matando. Tem fogo aí?
Uma hora esperando, hein?
Porra!
Eles se sentem importantes fazendo os outros se esperar.
Aquele bando de cornos, com suas maletinhas cheias de pincéis reiticos.
Viaturas 2415, 2427 e demais carros próximos ao local.
Mulher morta no terreno baldio na avenida Nossa Senhora do Copacabana.
Sempre assim quando chove.
Os desgraçados começam a se matar mais cedo.
O que houve, hein? Eu não sei, não. Parece que foi o travesti que se jogou.
Meu Deus, peraí. Dá licença, deixa eu passar.
Meu Deus, peraí.
Deixa eu passar. Não, não, não pode, não.
Pode entrar, não.
Deve ter sido a minha amiga. Será que você não entende? Eu moro com ela.
Sinto muito, mas não pode. Não, não, não, não.
É aquela ali.
Bora, deixa ela passar. Pode, não.
O que aconteceu?
Soltou do nono andar.
Está morto. Você morava com ele?
Pinal, você morava com ele ou não?
Qual era o nome dele?
Qual era o nome dele?
Marlene. Não quero saber o nome de guerra.
Romildo.
Qualquer coisa, não sei.
Santos, é. Romildo Santos.
Sabe de alguma coisa que levaria ele a se matar?
Olha aqui, cara. A Marlene morava comigo.
Só que eu trabalho de noite e durmo de dia. E ela trabalhava de dia e dormia de
noite. Ela era minha amiga, mas a gente se via muito pouco.
Ah, tinha um garoto. Parece que ela estava apaixonada por ele e ele deixou
Ela andava muito nervosa, tomando uma bolinha atrás da outra. Você quer dizer
que esse Romildo se matou por causa do garoto?
Como é que eu vou saber? Acho que sim, só pode ter sido isso.
Olha, eu não sei, eu já disse que eu vi ela muito pouco.
Acho que ninguém entendia muito bem a Marlene.
Por que você chama ele de Marlene?
Porque era assim que ela gostava de ser chamada.
Posso ir?
Pode.
Opa, tudo bom?
Eu vi o negócio lá na rua, né?
Esse edifício tá ficando cada vez pior.
Pinta cada brabeira, né?
Quem era bichona, hein, Sandra?
Acho que você não conhecia, não.
Eu sei que a parra não anda leve.
Mataram outro motorista de praça hoje.
Mas agora a gente já tem a façada... Olha só.
Olha só o jeitinho dele, ó.
Careca, óculos, paletó, gravata. Entra no carro muito delicado, não bate a
nem nada. E quando você menos espera...
Ele enfia um canhão na cabeça do motorista e leva toda grana.
Mas se ele tentar comigo, ele vai se dar muito mal.
Porque comigo eu não mando a mano.
Rodo 18 horas sem parar, me matando feito um louco.
Para entregar uma diária e meia, mas o tanque cheio para o dono do carro.
E agora vem um cara de pau puxar uma máquina contra mim? Falé!
Se eu estou bem, eu trato bem.
Conceito educado, certo e tal.
Mas o que tentou engrossar comigo, eu viro bicho. Comigo eu não mando a mano.
Estou certo ou não estou?
Está.
Tá querendo brincar de bandido?
Então é melhor não pegar o taco do mocinho aqui, ó.
Só quero ver se o Pedro aqui vai falar mais alto que o meu.
Parece filho de clavura, hein?
Tudo bem?
Me dá a notícia.
Olha aí, gente boa, não está afim de um negocinho especial?
Depende.
Olha na moita e não marca à toa que é um cara.
Me dá o Voig, por favor.
O que é a grifa?
É a Sandra Galinha. Ela trabalha logo ali no cabará.
Não vai querer levar não, cara?
Não.
Miguel Grosso, até aula.
Não se mexa.
Mandei fechar a matraca, não mandei?
Eu quero o retrato. Onde é que ele tá?
Que retrato? Aquela bicha velha que morava com você, tinha uma foto guardada
eu apareço nela.
Daí eu quero ela de volta.
Pega mal pra mim ser visto com um travesti escroto daqueles.
Filho da puta, não fala assim da Marlene, não.
Ela te amava, sabia disso? Sabia? Ela te amava.
Ele o quê? Amava, amava. Ela se matou por tua causa.
Mentira! Aquela bicha velha me perseguia, me soltava uma grana, mas eu
nojo dele.
Gostava de ficar cantando no meu ouvido, imitando a Vanusa.
Morria de nojo!
Ei,
você sabe que eu te conheço de algum lugar?
Já sei.
Você é dançarina, cantora daquela boate, o Cabará, não é? É.
Eu sabia que eu te conhecia de algum lugar.
Você parece uma artista.
Tua cara...
Teu corpo. Agora vai embora.
Corta essa, ô Sandra Galinha. O teu negócio é tirar retrato de sacanagem com
velho careca usando meia. Vende em todas as bancas. Sandra Galinha.
Não fala assim de mim.
Fala logo. Onde é que aquele viado deixou meu retrato? Fala se não apanha.
Dentro da revista, na mesinha.
Pega.
Pega!
Você é fraca, igualzinho aquele viado. E sabe o que eu faço com gente fraca?
Eu como e jogo fora, no lixo.
Qual é teu preço?
Fala! Qual é teu preço?
Pra você eu não dou por dinheiro nenhum. Vai dar pra mim, galinha. Vai ser de
graça.
Está esperando o cliente? E se tiver?
Problema seu, não sai da linha que você se dá mal.
Pode entrar.
Para fazer o quê?
Falar com você.
Pensei que a gente já tinha falado tudo.
Por favor.
Pode falar.
Eu já estou de saída mesmo.
Tchau, amor.
A gente se vê de noite na boate, tá?
Tá.
Agora fala.
Vi seu nome numa ocorrência lá na delegacia.
Soube que o cara que morava aqui com você se suicidou.
Fiquei preocupado.
Também fiquei. Ela dividiu o aluguel comigo e agora eu vou ter que pagar tudo
sozinha. Precisa de ajuda?
Não, eu tenho quem me proteja.
Esse menino que saiu daqui?
Ele mesmo.
Você está na minha casa. Eu pago isso aqui com o meu dinheiro.
Se você quiser sentar, tem que pedir licença antes.
Mas esse sujeito é só um garoto.
Vai ver que nem trabalhar, trabalha. E daí eu trabalho.
Meu dinheiro dá pra sustentar nós dois.
Eu conheço seu trabalho.
Eu estive lá.
Assisti tudo.
Teve um momento em que eu preferi estar morto para não ter que ver aquilo.
Nunca pensei que você pudesse descer tão baixo.
A minha própria filha. Você me disse que não tinha mais filha. Eu também não
tenho pai, detetive Galvão.
Agora, se foi isso que você veio fazer aqui, pode ir saindo.
Eu só vim aqui porque foi o último pedido da sua mãe. Antes de morrer, ela
que a gente voltasse a morar juntos.
Era o desejo dela. Foi por isso que eu vim. Como você é escroto. Você não
respeita nem os mortos.
Covarde. Vá embora daqui. Vá embora.
Eu vou.
Mas antes, pense bem.
Esta é a última vez que eu te procuro.
Eu vim aqui para oferecer a mão.
Disposto a esquecer, perdoar tudo.
Aproveita agora porque esta é a tua última chance. Você sabe o que você pode
fazer com a tua caridade e com o teu perdão. Voa!
O
que
vai ser?
Uma caipirinha e a moça que está dançando ali sozinha.
Certo. Ela gosta de uísque. Posso trazer logo uma garrafa? Pode trazer.
O que você quer?
Você marcou comigo?
Não me lembro de nada dito. Se manda e não me procura mais.
Você disse que seu preço era quinhentos. Eu pago. Para você é mil.
Certo. Mil.
Adiantado.
Onde é que você arranja esse dinheiro todo? Tem outro viado te sustentando
agora? Tá querendo saber se eu vivo do mesmo jeito que você, é?
Eu só saio com homem.
Nunca transou uma menininha?
Nunca.
Me disseram que você fazia um show com uma.
É só um show.
Você nunca sentiu nada?
Uma vez.
Se você quer saber, eu não transo mais boneca.
Larguei isso.
Agora eu tenho um trabalho.
Bebe todas as noites?
Isso aqui não é uísque, não. É chá.
Vamos dançar?
Eu não sei dançar isso.
Eu mando trocar. Eu vou botar minha mão.
Vem cá.
Esse amor de mais antigo, o amor de mais amigo,
e de tanto amor viveu, que
manteve acesa a chama da verdade de quem ama,
antes e depois do amor.
E você, amada,
Faz da vida um instante ser demais para nós dois.
Esse amor sem preconceito, sem saber o que é direito,
faz as suas próprias bênçãos.
Sabe de uma coisa maluca?
Quando eu vi teu rosto na fotografia, eu queria morrer de ódio.
Queria desejar tua morte, mas eu não senti nada disso.
Senti um pouco de medo.
Vontade de te conhecer.
Desejo mesmo.
Às vezes eu acho que isso me é maluco.
Às vezes eu também acho isso.
A Marlene era minha amiga.
Não gostei do que você disse.
Ele pulou sozinho.
Foi ele que quis enfiar as ursas no cimento.
Pulou sozinho.
Eu não empurrei.
Você não se importa nem um pouco com o que aconteceu, não?
Não. A coisa é essa mesmo.
Para que eu viva bem, alguém tem que se dar mal.
É de São Paulo?
Era.
Agora sou daqui.
Onde é que você mora?
Por aí.
Cheio de mistério.
É aqui que você traz seus clientes?
É, quando eles não têm outro lugar para me levar.
Aquele coroa que apareceu na sua casa, cliente também?
É.
Ele tem idade para ser teu pai.
A maioria deles tem.
Eu não tenho pai.
Me olhou de um jeito...
Você
ouviu o galo cantando?
Como é que eles conseguem criar um galo em Copacabana?
Criam no morro. É de lá que vem o canto. Tem certeza?
Tem. Eu adoro o canto do galo.
Será que o senhor não poderia dirigir um pouco mais devagar?
Fica tranquilo, o cara está comigo, está com Deus.
O senhor acaba de avançar um sinal.
Acabou a sua carreira, trancado.
Você pensou o quê?
Que eu ia levar minha grana?
Que eu ia me deixar aqui dentro, apagadão, ouvindo rádio?
Senhor, o que é isso? Isso aqui é um .38.
E esse canhão vai explodir na tua cara. É só você mexer um dedinho.
Vai procurar sua turma.
Os delegados pensam que são homens.
Cuidado, coroa.
Você é subalterno. Trate -se com mais respeito dos superiores.
Babaca frouxo.
Tenho 64 anos e quero você num minuto.
Bobagem, vovô.
Polícia não é força, polícia é jeito.
Um pouco de cuca e um anelzinho vermelho.
Você é um babaca mesmo.
E fica sabendo que o único delegado que eu respeito é o mestre Sala da
Mangueira. Vovó, vovó, está se aposentando. Até o último ano na
Meto -lhe uma advertência, hein? Eu sujo sua ficha.
Você está mentindo para mim. É verdade, senhor.
Eu juro por tudo que é mais sagrado que é verdade.
Eu não sou um ladrão, eu sou um veterinário.
É veterinário?
E onde é que você estava nos dias 15 e 16 de madrugada?
Em casa, dormindo. Eu durmo sempre às 10 da noite.
Sua mulher é testemunha? Eu não sou casado.
É viúvo?
Solteiro.
Solteiro dessa idade?
Você é...
É da coluna do meio, é?
Coluna do meio?
Gosta de um garoto, né?
Não. Galvão!
Pega o endereço dele e libera.
Liberar? Esse cara não mata nem mosca. É veterinário mesmo.
Foi alucinação do chofer.
Olha aí.
Se apagou de vez.
Devia estar dirigindo há mais de 12 horas sem parar.
Começou a ver fantasma.
Depois a menina saiu comigo.
Aí ele me disse que trabalhava na TV Itaculumi.
Eu saquei logo, né? Qual é a tua cara? Me achando com cara de otária, que vou
acreditar numa história dessa?
Te convidou pra fazer um teste.
Acertou. Mas aí ele me disse que se eu não quisesse acreditar, que eu não
acreditasse. Ele tava pouco se lixando.
Aí, sabe, Sandra, eu fiquei pensando, pô, o cara pagou legal, não chiou nem
nada, sabe? Me deu um cartão com o nome dele e tudo.
Qual a vantagem que ele tem nisso?
Pagou tudinho?
Tudinho, 500 pratas.
Aí eu pensei, pô, domingo depois do show, pude ir direto pra rodoviária,
comprava uma passagem pra Belo Horizonte, ia lá, procurava o cara na
teste, tava de volta aqui pra terça -feira fazer o show.
Tem um troço aqui dentro, me diziam que esse cara é quente.
Sabe que eu não sou de entrar em fria, né? Não tem nada de inocente.
Ele gostou de mim, sabe? Meu corpo, sei lá.
Ele é desses caras assim de ficar contando muito farol, não.
Ele me contou mil histórias da TV.
Eu tive que arrancar tudinho dele.
E depois, que vontade que ele tinha de mentir, me deu um cartão com o nome dele
e tudo, sabe? Quer ver?
Poxa, o Solange tá torcendo pra dar certo. Aqui, ó.
Deixa eu ver.
Você disse que ele te pagou 500, não é?
Foi. Mas se ele te contou mil histórias de televisão, ele passou a noite toda
com você.
E... E 500 não é o preço só por uma hora, não?
Não, mas não foram também tantas histórias assim, não.
Agora você já sabe qual é a vantagem que ele teve.
Pagou o preço de uma hora e trepou a noite todinha.
Não, não é nada disso, não. Ele me deu o cartão com o nome dele, aí, você não
viu? O nome dele está escrito na máquina.
Até eu posso pegar um cartão desses e escrever meu nome. E daí?
Você sabe que você é muito burra?
Você é tão burra que o teu cérebro é do tamanho do teu peitinho.
Ô Sandra, eu vou -me embora.
Espera aí, sua mãe. Não vai não.
Toninho, fala com ela.
Pede desculpa.
Tudo bem, Sandra. Tudo bem.
Não precisava ter feito isso.
Eu estou falando com você.
Precisava? Não fiz pelo bem dela.
Ia pegar um ônibus pra Belo Horizonte e se fuder.
É uma mão agradecida, é isso que ela é. Você podia ter falado de outro jeito.
Tá me enchendo o saco. Foi você quem convidou.
Você sabe o que ela fez quando resolveu vir com a gente?
Dispensou um cliente.
Perdeu o dinheiro só pelo prazer de estar com a gente.
Por que você convidou?
Hein, por quê?
Porque na hora eu quis.
Depois eu não quis mais.
Eu tô pagando, não tô?
Por que que eu preciso ficar aturando aquela imbecil?
Toma aí o dinheiro que você me deu.
Eu não queria mesmo, seu puto!
Eu não queria esse dinheiro do seu cafetão de travesti.
Não aceito dinheiro que você rouba de viado! Você pega cada notinha dessa aqui
enfia no teu rabo, tá?
Não vá embora.
Por quê?
Porque eu não quero.
Você não sabe pedir, não.
Não, eu não sei.
Desculpa o atraso, Luís, mas eu estou em cima da hora.
É Itamar, o seu nome, né?
Isso mesmo.
Pode entrar.
Casa bonita a sua.
É.
Apartamento moderno, para os agricultores, não acha?
É, muito.
Atente, por favor.
Obrigada.
O Luís me disse que o senhor era uma pessoa muito especial.
O que você tem de tão especial, Itamar?
Não, não é exagero dele.
Sabe, eu sou seu fã.
Meu fã?
É.
Assisti seu show no boate, gostei muito.
Deve ter gostado mesmo.
Seu nome é Solange, não é?
Pois é, Solange, acho que você foi um dado, sabe?
Você tem veia artística, uma encenação e você faz parecer tudo tão real.
Bondade sua, Benzinho.
Você deve ter ido assistir num dia que nós estávamos assim, muito empolgadas.
Sabe como é que é, né?
Gostei muito.
Vocês são formidáveis.
Você e aquela sua amiguinha... Qual é o nome dela?
Sandra.
Ah, Sandra.
Ela é tua amiga?
Você gosta dela?
É boazinha, sim.
Nós nos damos bem.
Também a gente já se roda há tanto tempo, né?
E ela fala da vida dela pra você?
Só de vez em quando.
Ela tem um garoto agora.
Uma coisinha ruim, não presta mesmo.
E o que é que ele faz?
Sei lá.
Acho que ele transava com um bicho, descolava uma nota por aí.
Vai ver, até ainda transa.
E ela não fala de mais ninguém?
Assim, um parente, sei lá?
Parente?
Não sei, não me lembro, não.
Escuta aqui.
Você tem certeza que era eu que você queria?
Se você pediu errado, pra mim tudo bem. Eu posso chamar a Sandra e ir embora.
Não. Não é isso que eu quero.
Ah, é as duas, é isso?
Não precisa ficar com vergonha, não. Isso é normal.
Olha, nós duas já fizemos um programa juntos com o mesmo cara várias vezes.
Juntos? Sai um pouquinho nesse cara.
Mas cada um sabe o que gosta, né?
Sabe de uma coisa?
Eu acho que eu sou uma das poucas pessoas do mundo que adoram segunda
manhã.
Dia da minha folga.
Você olha um ponto de ônibus e as pessoas estão todas irritadas na
mim é o dia mais bonito da semana.
Vamos comprar tangerina?
Me dá uma dúvida de tangerina.
Tangerina? São as últimas.
Quanto é?
O que estão levando o garoto?
Vivete, Otávio.
Tão bonito, né?
É. Daqui é muito bonito.
Gostou da tangerina?
Hum, boa mesmo.
Toda segunda de manhã eu gosto de vir aqui.
Às vezes eu tô morrendo de sono, mas eu venho.
É como se eu tivesse acabado de acordar.
Aí eu vou, pego uma tangerina na geladeira e venho pra janela.
Entendeu?
A gente acabou de acordar e tá comendo tangerina na janela.
Legal.
Não, a gente não tá na janela.
Isso aqui é um navio e a gente tá viajando pra... Pra onde você quer ir?
Pro Japão. Me amarra no Japão. Ah, Havaí é melhor.
Quando a gente descer do navio, vai ter aquele bando de mulher de coxa de fora
pra botar colar na gente.
É, o Havaí é legal.
A gente salta e vai pra aqueles hotéis enormes.
Aquele do Havaí 50.
Daí eu compro uma camisa cheia de flor vermelha, deito embaixo de uma palmeira
fico sem fazer nada.
Ei, você pode até comprar uma prancha de surf.
Tá de porre?
Eu não sei nem nadar.
Espera aí, ninguém pode ver a gente.
É bom poder ficar em casa, na cama, sem ter que trabalhar de noite.
Sim, mas eu preciso ir trabalhar.
Agora? É.
Ô,
Toninho, são duas horas da manhã.
Pra mim tá bom.
A grana acabou e eu não posso escolher a hora.
É nessa hora que elas estão na rua, né?
Elas quem?
As bonecas.
Eu já disse que eu não transo mais essa.
Agora eu tenho um trabalho.
Fica comigo hoje. Vai, deixa isso pra amanhã.
Não dá. A grana acabou.
Onde é que é esse teu trabalho, hein? Fica longe?
Mais ou menos.
Então onde é que você vai arrumar uma condição uma hora dessas?
Eu pego um táxi.
Vou puxar o Roque no banco aqui de trás.
Quando suas eminências chegarem com os pincéis, você me avisa.
Já comeu com chapinha?
Mas onde ele está?
Onde? Ele já matou quatro motoristas e pelo andar da carruagem vai dar cabo de
outros tantos.
E o que a polícia fez até agora?
Nada! Eu não admiro que o senhor fale desse modo.
Estamos nos matando na rua, virando noite e dia para resolver tudo isso.
Todo mundo está com o sono atrasado. Faz três dias que o investigador Itamar não
vê a família dele. Vamos acabar com essa lenga -lenga.
A diretoria do sindicato não é muro de lamentação.
Ninguém está interessado em saber quantas horas você dormiu. Nem quantos
Itamar não vê a família dele.
Tudo o que vocês apresentam é um retraso falado.
Mas baseado em quê?
Todos os motoristas estão recusando passageiros velhos e de óculos.
Este retrato só pode ter sido inventado. Isso não está direito, Ramiro.
Quem nos deu essa descrição foi um passageiro que esteve no táxi do
motorista assassinado, 15 minutos antes da morte dele.
Quando ele saltou, esse homem entrou no táxi.
Tudo indica que seja ele. Eu tenho certeza absoluta disso.
Você não tem certeza de nada, Galvão.
Não é hora para se ter certeza.
Não posso mais ficar, não.
Pensando bem.
Não vale a pena.
Ficar tentando em vão.
O nosso amor não tem mais condição. Não, não, não, não, não, não,
não. Por isso resolvi agora lhe deixar fora do coração.
Com você não dá mais certo e ficar sozinho é minha solução, é solução sim.
Preciso acreditar que gosto de alguém e essa
tristeza vai
ter que acabar e custe o que custar.
Às vezes sinto até vontade de chorar.
Eu quero ter alguém que possa compreender minha
desilusão.
Até pensar que nunca mais vou ter alguém pra mim. Eu já
pensei assim, até sofri demais.
Será meu Deus, enfim, que eu não tenho paz.
Não sei te explicar o que o Roberto me faz. Eu me sinto viva, como se eu
nascido de novo.
E quando ele canta Amada Amante, então, a nossa música... Eu não sei, eu não sei
o que eu sinto. Um negócio aqui dentro me diz que ele está cantando para mim,
para mim.
Que ele está pertinho de mim, cantando no meu ouvido.
Esse amor sem preconceito, sem saber o que é direito, faz as suas próprias
leis. Que flutua no meu leito e explode no meu peito. Para de cantar essa merda
dessa música.
Eu, hein? O que houve?
Você não sabe cantar assim, você não sabe por que que tenta.
É melhor você chamar a troca.
Sabe, você parece um cavalo, você vê lá como você fala comigo. Eu falo como eu
quiser. Nesse mundo diz amante, só você é amada, amante. Faz o mundo de nós
dois. Pode cantar como quiser.
Eu não tenho saco pra ficar aguentando uma idiota como você.
Filho da puta, grosso!
Cavalo!
Fica comigo, Sandra.
Eu não quero. Depois eu tenho show daqui a 20 minutos.
Deixa o show pra lá. Eles botam alguém no seu lugar.
Eu não ganho a vida fazendo show.
Eu te dou o dinheiro. Não é isso que você quer? Tá aqui.
Mil cruzeiros paga a noite toda?
Não, não paga não. Eu gosto do que eu faço. Eu sinto prazer.
Gosto mesmo.
Cada dia um cliente diferente.
Fazem cada coisa boa que uma criança como você nem imagina. Cala a boca!
Quem é você aí, seu puto?
Onde é que você arranja esse teu dinheiro nojento? O que é tomar lenda
Fala, fala, porque eu não te aguento mais.
Eu não te aguento mais.
Fica comigo, Sandra.
Fica comigo.
Eu não posso te ver com homem nenhum.
Eu sinto ciúme até do Roberto Carlos, de todo mundo. Eu também, eu também.
Você não precisa ter.
Eu não tenho ninguém.
Vem.
Vem comigo.
Eu vou te mostrar o meu trabalho.
Jura? Você tem medo?
Não. Você vai comigo até o fim?
Até o fim.
Então vamos.
Obrigado por assistir.
Pode parar ali à esquerda, chefe.
Come que tá bom.
Agora você já sabe como é que a grana entra.
Acredita agora que eu larguei as bonecas?
Olha, escuta.
Eu tive dois amigos lá em São Paulo, o Tobias e o Enfezado, que dançaram
roubando bolsa de mulher na rua.
E não é aquele garoto da feira.
Mas eu não fui otário que nem eles.
Eu tinha uma coisa que eles não tinham.
Eu era bonito.
As pessoas vinham dizendo isso pra mim.
Daí eu vim pro Rio.
Me falaram que a praia tava cheia de turistas coroas, que eu ia me dar bem.
Daí as turistas não pintaram.
Eu acabei comprando a barra das bonecas.
Rangava só uma vez por dia.
Mas pelo menos consegui juntar uma grana pra comprar essa máquina, comprar uma
roupa direita.
Um lugar para dormir.
É o que eu te disse, que embobei a sobra.
Não tem cadeira para dormir.
Usando tarjos de luto e tocando alto suas buzinas, mais de 500 táxis ocuparam
hoje a pista do aterro no sentido centro Botafogo, numa inusitada declaração de
greve. A greve foi convocada pelo Sindicato de Motoristas Profissionais
primeiras horas de hoje, após ter sido divulgada a notícia do assassinato do
motorista Felício de Brito.
Encontrado morto na madrugada de ontem, numa pequena ruela escondida de
Copacabana, o motorista Felício deixa a mulher e três filhos.
Ele é o quinto motorista morto em circunstâncias idênticas, vítima de um
assassino impiedoso que a crônica policial já apelidou de trancado.
O que você teria a dizer em nome da classe?
Eu, em nome da classe, queria implorar a segurança pública para que se define
logo nesse cara que está matando mil pessoas, deixando mil famílias sem
sustento, sem o que viver.
Inclusive, não é qualquer passageiro que a gente pode pegar na rua, não troca.
Assaltante na rua. O cara se bebe em fila e assalta a gente no meio da rua.
dizer, polícia não tem.
Promotores e juízes privam os direitos do povo.
Ele não suporta isso.
O povo não está seguro e não vai suportar isso também. Mas enquanto
aguardando o Pedro Rubalaçar para lá e para cá, para lá e para cá, temos que
continuar levando tudo em frente, certo?
Temos de fazer pé firme em coisas como juramentos de oficiais e integridade
pessoal. E fazer vistas grossas a certas artimanhas impráticas.
Temos de ser os protetores do povo homem.
E pra mim isso significa fazer tudo.
Fazer tudo.
Tudo possível para manter cidadãos assassinos como os louros fora das ruas.
Excesso de casos, de detalhes, bolas pra isso.
Falou e disse bem.
Bem feito pra você. Quem mandou não aprender grego na faculdade?
Bem,
o que é que nós temos? Uma velha senhora que se lembra de um belo gesto do
passado.
É, porque foi um belo gesto.
Uma mulher que trabalhava no driver fez comida grega para ela. E quem era essa
mulher? Que lindo.
Todo mundo curtindo um gojá.
Bom.
Acho bom.
Liga essa porra aí. Só que lá em Nova York, na delegacia do Gojac, eles acabam
sempre resolvendo tudo que é caso.
Mas nessa merda aqui, os bandidos estão ganhando a gente esgoleada.
Bandido não vê Gojac, não.
Bandido trabalha a noite inteira.
Não enche o saco, para. Cala essa boca, velho.
Sabe o que vocês conseguiram?
Uma greve.
Conseguiram deflagrar uma greve.
Negócio que não se via nesse país há mais dez anos.
Dois mil taxas fazendo um esporro terrível no aterro e vocês curtindo o
sã contra o Kojak.
Mas vocês estão de parabéns.
Conseguiram uma greve.
Merecia uma passagem grátis para Moscou.
Sabem de onde é que eu estou chegando agora?
Do gabinete do secretário de segurança.
Adivinhe por que ele me chamou.
Para me passar uma esculhambação.
Me chamou de Beócio Capadócio. Ele é um poeta amador. Quando esculhamba,
esculhamba rimando.
Beócio Capadócio. Paranho, vamos conversar. Você está muito nervoso. Está
vamos conversar.
Se esse cara pagar mais um motorista, um só que seja, vai dançar muita gente.
Eu sou um deles.
Mas vou levar muito nego comigo.
Certo, cojaquinho?
O que é que você pensa que vai?
Vou entrar.
Engano seu, não vai não.
E por que não? Porque eu não quero.
Qual é a tua, hein?
Tive ordem pra te barrar.
Ordem? De quem?
Da Sandra. Agora você recebe ordem de mulher, é, rapaz?
Depende. Dessa eu recebo. Não quero encrenca, não.
Encrenca? Que encrenca?
Mas dela é tira, rapaz. Tira?
Você tá maluco? Ela não tem pai. Pode acreditar que tem. É o detetive Galvão.
Hoje eles estão brigados.
Amanhã fazem aspas.
Quem entra pelo cano sou eu. Mas dela já morreu. Então eu sou maluco e vivo
vendo miragem. Ele falou outro dia mesmo comigo aqui na porta.
Ele não só está vivo, como é muito vivo também.
Abre o olho, garotão. Ele anda te campanando.
Esse Galvão tem mais de 60 anos, a cabeça toda branca. É isso aí mesmo.
Apareceu por aí?
Apareceu, mas fica tranquila que eu já me levei dele.
O porteiro não te deu o recado? Mandei você ir embora.
E desde quando você manda alguma coisa?
Se você não entendeu meu recado, eu vou te dar de novo. Some da minha vida.
Talvez eu suma.
Mas antes a gente tem umas contas pra acertar. Eu não te devo nada. Some,
desaparece, dá o fora que eu não gosto das coisas que você faz.
Por que você não me contou que é filha de um cana?
Isso já acabou, ele não é mais meu pai. Ah, o cacete que não é.
Filha de um cana sujo.
Tá pensando em me entregar se deu mal, hein? Eu não vou te entregar, eu só
que você desapareça. Tá pensando que eu sou otário, é?
Já estou vendo tua cabecinha burra funcionando.
Disse que não tinha medo, que ia comigo até o fim.
Você é fraca. Você é um lixo, Sandra Galinha.
Por que você fala assim?
Eu não vou te entregar, eu não sou mais filha dele.
Vai sim.
Vai começar a pensar.
E vai descobrir que você me ajudou a matar aquele cara.
Vai chorar e sentir medo.
Daí você procura o papaizinho e faz as pazes com ele.
Você é fraca e não vai aguentar. Vai pedir arrego.
Daí aquele cano escroto me queima, livra a cara da filhinha e todo mundo vive
feliz pra sempre.
Por que você fala assim?
Certa mesmo que eu vou te entregar?
Essas coisas a gente não pode achar. Tem que ter a certeza.
Por que você não atira? Por que você não acaba logo com isso?
Quanto foi que você pagou?
800. 800 só pelo quarto?
Isso não é um quarto.
Gastar esse dinheiro todo assim, pra quê?
Amanhã você vai ficar sem um cistão, vai ter que fazer tudo de novo.
Pra que gastar tanto numa porcaria dessas?
Pensei que você ia gostar.
Pensou errado.
Esquece quanto custou.
Esquece o que eu vou ter que fazer amanhã.
A gente mora aqui.
Esse é o nosso quarto de dormir.
Quanto tempo você acha que isso vai durar? Talvez você consiga matar mais um
dois, depois acaba.
Não fala assim que dá azar. Eles não sabem de nada e nem vão saber.
Falou?
Por favor, um Guaraná e dois uísques.
Obrigado.
Você não leu o jornal? Ele tinha mulher e três filhos.
Ainda estava acabando de pagar o carro.
E eu podia adivinhar?
O que é que você quer que eu faça? Que eu pergunte antes se é casado, se tem
filhos, se serviu ao exército.
A obrigação dele era de ler o jornal e destacar que o mar não está para peixe e
não dirigir de noite.
Por que é que não ficou em casa com o filhinho, com a mulherzinha?
Preferiu dar curiar de madrugada.
Ele estava querendo, é isso mesmo.
Estão procurando um homem careca.
Como é que você sabe?
Pelo Darcy, é um motorista que mora lá no meu andar.
Ele me mostrou um desses retratos que fazem na polícia.
Todos os motoristas têm um retrato desses.
Um homem careca.
Por que você só falou agora?
Por que não veio antes?
Eu vim, doutor. Eu vim.
Eu sou um homem pobre.
Tô desempregado. Não tenho carteira de trabalho nem nada.
Eu cheguei aqui na porta, tava vendo televisão, eu fiquei com medo.
Repeta essa história.
Foi como eu disse. Eu tava dormindo, encostado no muro.
Bem no escuro.
Daí eu ouvi o estrondo.
Até pensei que fosse o cano de descarga.
Daí a cabeça do chofer caiu pra fora, como que ia cuspir.
E aí saiu um cara e uma menina.
Ela encostou no posto, começou a vomitar.
O garotão ficou fechando as portas.
Depois ele puxou ela e os dois desceram pelas escadas.
Tá na cara, tinha que ser um garoto.
Deixava a impressão digital dele em tudo que é canto, claro. Não tem ficha, não
tem carteira de identidade.
A digital dele não existe.
Mas a história dessa menina tá muito estranha.
Você viu ela? Não, não deu, doutor.
Ela ficou na porta mais escura.
O garotão meteu a cara na luz.
Foi aí que eu vi.
Tamara, pega uma viatura e leve ele até o local.
Faz ele mostrar tudo.
Aproveita uma paquerada no poste. Deve ter resto de vômito lá. Agora?
Agora!
Legal, chapinha, legal.
Pô, procurar vômito? Olha o respeito, crioulo.
Olha o respeito.
Um garoto.
Como é que a gente não pensou nisso antes?
E o mundo não pode derrubar essa fantasia.
Pegue uma corrida no céu, em um piso e um lado, todos os seus
sonhos vão vir a verdade, e nós vamos
viver juntos até o dia 12.
Salve, salve. Como é que é, Darcy? Nós somos vivinhos que nunca se encontram,
né? Conhece o Toninho?
Opa. Oi.
Como é que vai com a vida de motorista?
Não sei como você tem coragem com essas coisas todas acontecendo.
Mas por falar em assalto, você se lembra daquele retrato falado que eu te
mostrei? De sujeito careca.
Estava furado. Descobriram que é um garoto.
Aquele assalto no laguinho de Copacabana teve uma testemunha. Hoje mesmo eles
vão distribuir o novo retrato falado.
Sabe que há mais de 10 dias que nenhum careca consegue pegar táxi nessa cidade,
né? É loucura brava.
Mas eu peguei um, senhora. Peguei um careca, não te contei não?
Enfiei o canhão na cara dele assim, o coroa quase que teve um ataque do
Sabe de quem ele era?
Veterinário, olha só.
Veterinário.
Loucura brava mesmo.
Enquanto isso, o garotão estava lá no bem bom, né? Só enfiando azeitona na
cabeça dos motoristas. Mas agora ele vai dançar, hein? Você pode escrever o que
eu estou dizendo. Ele vai dançar.
Estão armando um cerco para ele. Vão colocar na rua 50 táxis dirigidos por
armadas até os dentes.
E sabe quem assalta com a namorada? Nem o assalto com a namorada, sabia?
Agora vai ser assim. Os carecas todos andando de táxi. E os casais de
todos andando até.
Se vocês querem ir ao cinema hoje à noite, vocês escolhem um cineminha perto
aqui, porque táxi nenhum vai parar para vocês não, viu?
Mas esse cara vai dançar. Não precisa ficar triste não, porque esse cara vai
dançar. Quem está organizando tudo é o detetive Galvão, da 13ª.
Esse tentativo é gente fina, hein? Bom, eu vou meter uma cama que o esqueleto
está pedindo.
Tchau. Tchau.
Pode, Toninho, pode. Eu conheço meu pai.
Ele vai acabar com você do mesmo jeito que acabou comigo.
Ele é um demônio.
Enxerga através das pessoas.
Calma. Foz, vá embora enquanto você pode.
Depois a cidade vai ficar fechada pra você.
Não tenta de novo. Se você tentar, ele te pega.
Ele vai te matar se você não pode com ele.
De onde foi que você tirou essa ideia?
Até agora ele não conseguiu nada comigo.
Escuta, Toninho. Pelo amor de Deus, escuta.
Deixa eu te contar quem é ele.
Eu ainda não tinha feito 14 anos.
Quando ele descobriu tudo, me levou lá pra delegacia e me trancou numa cela
imunda. Me deixou lá sozinha, uma semana.
Disse que ali é que era lugar de mulher da lama.
Toninho, ele me botou pra fora de casa, eu tinha só 13 anos.
Você tem que sair daqui da minha casa, sumir de Copacabana, do Rio.
Pega um ônibus, volta pra São Paulo, mas desaparece logo.
São Paulo, é isso.
Fica calma. Não chora.
Eu vou te mostrar que eu posso com ele.
Só mais um serviço. Não faz isso não, Toninho. Não faz.
Só mais um.
Eu levanto uma grana e a gente viaja. Só mim no mundo. Não, Toninho. Eu não
quero.
Fica tranquila. Só mais uma vez.
Toninho, não faz isso. Ele é um demônio.
Ele vai descobrir tudo.
Galvão, vem na minha casa imediatamente. Eu já sei quem é.
Um pouco mais de cabelo.
Maris mais fino.
É ele.
É ele. Eu aposto nos meus 25 anos de presa como ele.
Você sabe que naquela noite eu fui falar com a minha filha da boate. Você sabe
que a minha filha trabalha na boate.
E os dois saíram juntos lá para as três da manhã. Pegaram um táxi. O táxi era
branco, não era?
Amarelo claro. Mas é isso, amarelo claro. Havia pouca luz, não dava para
enxergar direito. Escuta aqui, Galvão.
Copacabana está cheia de casais de namorados.
E todos eles andam de táxi. É ele. Eu sei que é ele, Itamar.
Você me forçou a isso.
Você poderia ter falado lá mesmo no apartamento, mas me obrigou a fazer
Eu estou te pedindo, minha filha, fale comigo.
Aqueles homens lá são gente dura, capazes de fazer qualquer um cantar.
Eles vão machucar você, minha querida. Eles vão te quebrar, minha bonequinha.
O que eles podem fazer comigo que você já não tenha feito?
Filha, ouve o teu pai.
Eu sei que você entrou naquele táxi sem saber.
Nada vai te acontecer.
Ninguém vai saber que era você que estava lá.
Ele não vai ter tempo para falar.
Tudo vai acabar bem. Eu vou tomar conta de você.
Eu só quero que você confirme isso e me diga onde a gente pode encontrar esse
monstro. Eu não sei de nada, detetive Galvão.
O que é que você quer?
Chame a joelha?
Te implore?
Será que eu não falei bem claro?
Não percebe o que tem a perder?
Tudo que eu tinha para perder, eu já perdi.
Você se encarregou disso.
Te digo uma coisa, é que você perdeu sozinha.
A tua honra.
Eu já suportei demais.
Você dançando naquele lugar imundo. As pessoas rindo de mim e meus colegas
fazendo comentários pelas minhas costas.
Eu aguentei tudo calado. Mas nunca pensei que você pudesse chegar a isso.
Amante de um assassino monstruoso que tirou a vida de vários pais de família.
Homens que trabalhavam duro para sustentar os seus condesseis.
O que é que você pretende fazer comigo?
Não acha que já me humilhou bastante?
Minha filha, me ajude.
Pelo amor de Deus. Eu não vou te ajudar, detetive Galvão. Eu não sei de nada.
Você está aí com medo, né? Mas eu não vou te ajudar. Agora você leva isso até
fim.
Filha, só uma palavra.
Por favor, me ajude.
Faça isso por mim.
Pela sua mãe.
Não.
Muito bem.
O que eu podia fazer, já fiz.
Você escolheu a sua própria sorte.
Já entregou certo. Eles vão se encontrar às quatro da manhã na boate. Vamos
embora, porra!
Obrigado, meu filho.
Por onde é, companheiro?
Lagoa.
Tá chegando de onde, hein? São Paulo.
Como é que tá aquela terra?
Mesmo que sempre.
Muita chuva, muito japonês.
O que você quer? O rádio chamou. Ele fechou mais um na lagoa.
Merda.
Minha vida está chegando ao fim.
Mas eu prometo.
Antes de ir, eu o levo.
Que explode no meu peito E supera o que já tem
Nesse mundo desamante Só
você amada amante Faz o mundo de nós dois
Que horas são?
Três e meia.
Ainda falta meia hora.
. . . .
Tchau.
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