All language subtitles for Carlos Saura - Elisa Vida Mia

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Original subtitles

ELISA, MINHA VIDA

Fazia anos que n�o via meu pai.

Na verdade, n�o senti muito a sua falta.

Quase nunca escrevia para ele.

Apenas alguns cart�es postais para dizer que estava bem.

E que Antonio e eu mand�vamos um beijo carinhoso.

Me entristecia v�-lo doente...

esfor�ando-se para se recuperar de uma recente cirurgia.

A doen�a de meu pai coincidiu com a crise no meu casamento.

Bem, com uma das crises.

Quando recebi o telegrama de minha irm� Mar�a...

me avisando sobre a doen�a do papai...

e depois o telefonema angustiado da minha fam�lia...

foi que me dei conta da gravidade da situa��o...

e da necessidade da minha presen�a em Madrid.

Olhe o ego�smo humano. Finalmente encontrei...

uma desculpa para ficar fora de casa alguns dias...

e refletir calmamente sobre minha situa��o.

Conforme ia me afastando de Antonio, percebia que n�o podia voltar mais...

para o homem com quem havia passado sete anos de minha vida.

Eu fui embora, e agora sei, para n�o voltar mais.

Um lugar muito aconchegante para viver.

N�o pode imaginar como � no inverno.

Lembra-se do �ltimo Natal, Julian?

- Nunca havia passado tanto frio. - Insuport�vel.

- Mesmo com o aquecedor ligado. - Mam�e, ele n�o est� aqui.

- Como assim? - N�o est�.

Que estranho.

Qualquer dia, vai nos dar um susto de verdade.

Papai?

Pelo menos, n�o est� doente.

- Isabel? - Sim?

Olhe aqui.

Isso estava aqui. 'Volto logo'.

Gra�as a Deus. Estava preocupada.

Ele fica t�o isolado aqui.

Nem sequer tem telefone.

E se ele ficar doente? Sabe o que ele disse?

Melhor morrer s� do que mal acompanhado.

Onde est� o velho?

Devia demonstrar mais respeito, n�o acha?

O 'velho' deixou este bilhete. Fiquei preocupada.

N�o h� com que se preocupar.

- Onde coloco isso? - Na cozinha, onde mais?

Estou cansada.

Coloque na geladeira.

N�o, melhor no congelador.

Sen�o, n�o vai gelar.

Posso ver por que ele nunca tranca a porta.

N�o h� nada para roubar.

Isabel. Voc� nunca relaxa?

Pode ajudar?

Veja se tem mais alguma lou�a suja.

- N�o. - N�o pode deixar suar irm� em paz?

Pare de lavar as coisas, pelo menos uma vez.

N�o custa nada para n�s. E ainda fazemos uma surpresa.

Fa�a o que quiser. Preciso de ar fresco.

- Venha, me ajude. - Jacobo! Arantxa!

- Venha, papai. - Venha brincar.

Minha fadiga � de algu�m...

Minha fadiga � de algu�m que n�o vai a lugar nenhum.

Mas para onde eu estava indo?

Qual era o meu objetivo?

Talvez fosse s� uma ilus�o.

N�o posso dizer que fui enganado...

porque eu mesmo colaborei com esse engano.

Apenas agora me dou conta...

que essa pessoa que havia aprendido muitas coisas...

embora a maioria fosse sem valor...

mas que deram sentido � vida...

chegou a um ponto em que essas coisas...

deixaram de ser �teis.

Agora, esse homem que vejo no espelho...

quer come�ar uma vida diferente...

sem rejeitar o passado.

Esse homem n�o tem nada.

Nem juventude, nem beleza.

Nem sente que encontrou a verdade...

mas simplesmente acredita em outra gratifica��o...

aquela que a vida proporciona.

Esse homem n�o tem nem a seguran�a...

para aproveitar as coisas que dizem que v�m com a idade.

Esse homem, que cambaleia em seu caminho...

tem o objetivo de come�ar uma vida nova.

E o �nico obst�culo em seu caminho...

� o medo dej� ser tarde demais.

- Olhem! - Vov�!

Mas que surpresa! Oi, Arantxita! Jacobo!

- Oi, Luis, como vai? - Oi, pai.

Trouxemos uma surpresa.

- Oi. - Oi.

Lembram a m�sica? Um, dois, tr�s...

Parab�ns para voc�, nesta data querida...

muitas felicidades, muitos anos de vida.

- Como se diz? - Feliz anivers�rio!

- Felicidades. - Minha blusa enganchou.

Pronto.

Muito bem, muito bem.

- Surpreendemos voc�? - Como sempre!

Pode pegar o p�o?

R�pido! R�pido!

Molhou tudo.

- Quanta coisa! - Voc� viu?

Vamos fazer um brinde.

Para Luis e muitos mais anos felizes por vir.

Obrigado.

- Parab�ns! - Obrigado.

- Parab�ns! - Obrigado, Elisa.

H� muitos anos n�o bebia champagne.

- Est� �timo. - Papai, podemos ir?

Podem. Voc� tamb�m, Jacobo.

V� brincar l� fora.

- Posso andar de bicicleta? - Pode.

- Fique no quintal. - Por qu�?

Porque sim.

N�o ria. As crian�as precisam de disciplina.

'Porque sim'. Quando eles crescerem...

N�o, n�o, n�o. N�o vai trabalhar. � seu anivers�rio.

- N�s lavamos. - Sente-se, Julian.

- Mais? - Sim, por favor.

� um dia especial.

Que bela refei��o. Estava muito boa, n�o?

Nada como um belo almo�o improvisado.

- E o foie gras? - Delicioso.

De Strasburg.

� �timo. Mas n�o h� nada como o foie gras fresco em Paris...

- Esse, sim. - P�rigord.

- N�o quer um cigarro, Luis? - N�o, parei de fumar.

- Ainda? - N�o sei por qu�.

Tome.

Ei, quem serve o caf�? Lembra?

- Sim. - Eu sirvo.

Quando �ramos crian�as, brig�vamos para servir o caf�.

Trapaceira.

Voc�s sempre gostaram de caf�.

Lembro de quando sua m�e costumava colocar um pouquinho no leite de voc�s.

- Quer a��car, papai? - N�o, obrigado.

Adoro caf�.

- Poderia? - Adoro caf�.

- Poderia beber o dia todo. - Quer um pouco?

� por isso que passa as noites agitada.

Ontem, n�o parava de falar.

Ela, al�m de tudo, fala.

� mesmo? O que disse?

N�o sei, mas estava se divertindo.

- Estava rindo. - Gra�as a Deus.

Eu sempre sonho com a mesma coisa.

Com o qu�?

Bem, sonho que estamos em Madrid, na casa da mam�e...

na casa da mam�e e do papai...

e est� tudo como era antes.

Os mesmos quadros nas paredes, a mesma mesa...

o mesmo aparador...

e, em cima dele, a bandeja de prata...

com o jogo de ch�, tamb�m de prata.

Estava sempre l�.

� um dia ensolarado.

E a luz entra pelajanela de uma forma dif�cil de explicar.

� muito, muito forte.

E toda a prata reflete essa luz.

Ent�o, tenho a estranha sensa��o de...

� dif�cil explicar...

de como se todas as coisas tivessem vida pr�pria.

N�o sei. O jogo de ch�, as x�caras...

come�am a vibrar...

a tilintar, mas n�o exatamente... � um...

N�o consigo explicar...

mas estamos todos sentados � mesa.

- Papai, mam�e, eu... - Eu estou?

Voc� tamb�m est�. O papai e a mam�e est�o arrumados.

Papai est� de terno e gravata. E mam�e...

Mam�e est� com um de seus vestidos da Liberty.

E voc�...

N�o consigo lembrar. Acabamos de comer.

De repente, olho para cima e o lustre de cristal...

tamb�m come�a a vibrar e vibrar...

suavemente...

Tudo est� tremendo e tilintando.

Deve ter sido um terremoto. Claro que era terremoto.

Eu tive uma experi�ncia dessas e lembro que os m�veis...

e as lou�as chacoalhavam terrivelmente.

- Os quadros ca�ram das paredes. - N�o era assim.

� dif�cil de explicar.

� como se as coisas palpitassem... N�o sei explicar.

- E o que acontece? - Nada, eu acordo.

O jogo de ch� que ficava no aparador n�o era de prata.

- Como n�o? - N�o.

Era de porcelana branca com umas flores azuis embaixo.

- Lembra, pai? - N�o sei.

Lembro vagamente. N�o era porcelana azul?

- Papai! - Era porcelana branca.

E tinha um espelho em cima do aparador.

- Isso. - E o lustre tinha...

aquelas hastes estranhas, com umas pe�as de cristal.

Como se chamavam?

- Aranhas. - Aranhas.

�, sua m�e insistiu em pendurar aquela coisa, contra minha vontade.

Foi um presente de casamento que sempre odiei.

- Eu gostava. - Isabel, n�o devemos ir t�o tarde.

Bem, quando quiser, podemos ir. Que horas quer ir?

Logo. Em meia hora.

Amanh�, tenho um dia cheio. Um grande caso.

Estou completamente cheio.

Papai, onde est� o �lbum de fotos que te dei?

- No meu escrit�rio. - Posso pegar?

Claro. Est� com minhas pastas, � esquerda.

- Sim. Vem comigo? - Claro.

Sobre o que � esse caso t�o importante?

Uma fortuna em jogo.

Terra desapropriada, sonega��o de impostos.

Vamos fazer um esc�ndalo.

Est� na hora de a lei ser aplicada a todos.

Voc� acredita nessas regras. Eu n�o.

Mas voc� vive fora da realidade.

E a qual realidade voc� se refere? A sua, a de sua mulher ou a minha?

N�o � isso o que quero dizer.

A realidade da sociedade, formada por indiv�duos...

que aceitam as regras para sobreviver.

- E quem decide as regras? - O que importa?

Bom senso, hist�ria, a sociedade.

Desculpa, mas n�o acredito nessas besteiras.

O que estou dizendo � que as regras existem para todos.

Para todos? As regras est�o destruindo o ser humano.

Olhe, eu cheguei � conclus�o de que agora que penso nisso...

eu gostaria de voltar atr�s.

Esquecer tudo o que aprendi. Ler, matem�tica...

at� o alfabeto.

- � isso que pretende vivendo aqui? - N�o sei se � poss�vel...

mas � o que gostaria. Essas leis e regras podem deixar o homem louco.

Voc� n�o leu sobre aquele cara no jornal?

Um louco teve um ataque de loucura dentro de sua pr�pria loucura...

trancou-se em seu quarto, por 6 ou 7 horas...

e a pol�cia o matou a tiros.

Pior ainda, as pessoas queriam que o matassem.

� um sintoma terr�vel, negativo, que prova que apesar...

das leis e regras, a natureza humana � vingativa.

Est� sempre procurando por vingan�a.

Tem algo errado com suas leis e regras.

Um homem louco � baleado como um cachorro...

e seus pr�prios vizinhos pedem sua morte!

Aqui est�.

Olhe, branco com as flores.

- Aqui d� para ver melhor. - � verdade.

A sopeira � que era de prata.

De todas as inven��es, a fotografia � a que mais me d� medo.

- Por qu�? - N�o sei.

Parece um milagre...

ver voc� crian�a, no passado.

Olhe, sou eu.

- Quem � esta? - Uma prima da mam�e.

� verdade.

Esse lugar... Nossa gruta ficava aqui.

- Lembra? - Sim, ali atr�s.

- Ningu�m podia entrar sem a senha. - Qual era?

Toc, toc, toc...

- Pato azul. - Toc, toc, toc, pato azul.

- Como est�o as coisas com Julian? - Bem.

Como todo mundo, eu acho. Dias bons, dias ruins...

Por que est� perguntando isso?

Parecia que algo n�o estava bem entre voc�s.

Por qu�?

Quando ele disse que voc� falava enquanto dormia...

voc� pareceu preocupada.

Como se voc� estivesse escondendo alguma coisa.

Bem, estou escondendo uma coisa.

� mesmo?

Est� feliz?

Estou.

Voc� o ama?

Muito.

Bem, sua vez agora.

O que est� acontecendo?

N�o sei o que acontece comigo.

N�o fa�o id�ia.

Tenho que tomar uma decis�o e n�o consigo.

N�o sei.

As crian�as est�o aqui fora.

- Jacobo, Arantxa! - O qu�?

Peguem suas coisas, vamos embora.

- Tome. - Obrigado.

- Tchau. Me d� um beijo. - Tchau, papai.

- Quer dizer, vov�. - Tchau.

- Tchau. Cuide-se. - Obrigada, foi um �timo dia.

Estava pensando, por que n�o fica uns dias comigo, Elisa?

Vamos embora?

- O qu�? - Por que n�o fica...

uns dias comigo, se n�o tiver outros planos.

Na verdade, tinha combinado com Isabel que ia passar uns dias com ela.

Por mim, n�o tem problema. Pode ficar.

- � mesmo? - A mala est� no carro.

- Vamos. - Julian, pegue a mala de Elisa.

- Ela vai ficar uns dias com o papai. - Pode deixar.

- Papai, n�o vou incomodar? - N�o, filha. Claro que n�o.

- Vai ficar? - Sim.

Que maravilha!

Vamos, n�o quero pegar congestionamento. Tchau, Luis.

Tchau.

- Tchau. - At� mais.

Tchau, Julian. Obrigada.

- Tchau. - Tchau.

Quer conhecer as redondezas?

- N�o est� cansada? - N�o.

Bom, n�o h� muita coisa para ver, mas eu gosto.

Eu caminho essa hora.

- � alguma coisa religiosa? - N�o.

- O que �? - � uma longa hist�ria.

Eu vou e volto, quase todos os dias, por esse caminho.

Bem, um dia, encontrei um corpo de uma mulher nesse lugar.

No come�o, pensei que havia desmaiado ou estava doente.

Cheguei perto para ajud�-la, mas estava morta.

Eu a virei e ela tinha um ferimento no peito.

Seu vestido estava cheio de sangue.

Eu chamei a pol�cia.

E eles me encheram de perguntas.

Depois vieram os rep�rteres, perguntando sobre o 'crime da vi�va'...

Foi como a chamaram.

Na verdade, pensavam que eu era o assassino.

E as flores? S�o de algum parente?

N�o. E esse � meu segredo.

Vou dividi-lo com voc�.

No ano seguinte, algu�m colocou ali...

aquela pedra branca e o vaso com flores artificiais.

Eu tinha quase esquecido...

mas depois percebi que podia ter algo a ver...

com a mulher assassinada. Quem colocaria as flores l�?

Pensei a mesma coisa que voc�. Um parente, um amigo...

- um amante... - Sim.

Todos os anos, nesta mesma data...

algu�m substitu�a as flores e limpava a pedra.

Um ano, me deu curiosidade e resolvi descobrir quem era...

que se interessava tanto pela falecida.

Esperei horas no lugar.

E, ao amanhecer, apareceu um homem em uma bicicleta...

com um chap�u que tapava todo o rosto.

Trocou as flores e o vaso.

- Voc� o conhecia? - Sim. Eu o reconheci.

Depois disso, decidi descobrir por que, todos os anos...

nesse mesmo dia, de bicicleta, cumpre seu ritual religiosamente.

Eu li tudo o que foi escrito sobre o crime...

perguntei sobre esse homem na vila...

- e cheguei � conclus�o... - De que era o assassino?

Sim. Por mais absurdo que pare�a...

percebi que ele podia ser o assassino.

- E por que n�o foi � pol�cia? - Bem, tamb�m poderia estar errado.

Prefiro n�o me meter. N�o devo julgar ningu�m.

- Vamos para casa, est� ficando frio. - N�o estou com frio.

Ainda temos que arrumar seu quarto.

Tem alguma toalha a�?

Elisa.

N�o.

N�o temos comodidade aqui.

Eu costumava ter uma faxineira...

mas ela se intrometia muito na minha vida.

N�o gosto de ter estranhos na casa.

- Prefiro ter bagun�a. - Sim.

N�o sou muito habilidoso.

Acho que tenho uma cortina para colocar aqui.

N�o gosto de cortinas, mas vou pegar para voc�.

N�o, tudo bem. Deixe para amanh�.

Estou muito feliz que vai passar uns dias comigo.

Eu tamb�m.

A figura do meu pai se engrandece com o tempo.

Agora entendo que a imagem que tinha dele...

era atrav�s da parcialidade de minha m�e.

No momento em que percebeu que ele n�o voltaria mais para casa...

sutilmente, mas com a insist�ncia de quem conhece a verdade...

e quer convencer os outros...

dedicou-se a demonstrar, para si mesma e para n�s...

que meu pai era um homem doente e ego�sta.

Sem d�vida, minha m�e era a personalidade forte da fam�lia.

Era voluntariosa e decidida, ainda que, �s vezes, sofresse de depress�o.

Dizia que estava mal e que queria morrer...

e ficava alguns dias na cama sem querer saber de nada.

Acontecia algo estranho a ela, sem explica��o concreta.

Sentia-se vazia, in�til, insatisfeita.

E a vida de todos os dias lhe parecia insuport�vel.

N�o tenho certeza, mas acho que tentou suic�dio alguma vez...

sem muita convic��o.

O espantoso em minha m�e era que, depois de dois dias de crise...

ela levantava da cama como se nada tivesse acontecido...

e era novamente a mulher forte, voluntariosa...

e bem-humorada de sempre.

O espantoso em minha m�e era que, depois de dois dias de crise...

ELA LEVANTAVA DA CAMA COMO SE...

NADA TIVESSE ACONTECIDO...

e era novamente a mulher forte, voluntariosa...

e bem-humorada de sempre.

N�o posso fazer barulho.

N�o posso fazer barulho.

Se fizer barulho, perco.

� isso.

Isso.

� POSS�VEL QUE, APESAR DAS INVEN��ES E DO PROGRESSO...

APESAR DA CULTURA, DA RELIGl�O E DO CONHECIMENTO DO UNIVERSO...

O HOMEM PERMANE�A NA SUPERF�CIE DA VIDA?

- Oi, papai. - Elisa.

- Por que est� acordada? - Estou sem sono.

Aonde voc� vai?

Vou fazer uma viagem muito longa. Me d� um beijo de despedida?

- Quando voc� volta? - N�o sei.

V� dormir.

Cuide da sua m�e.

Quando eu tinha 9 anos, meu pai saiu de casa para sempre.

N�o falou nada a ningu�m. Quer dizer, falou.

Veio ao nosso quarto e nos deu um beijo.

Mar�a estava dormindo, mas eu estava acordada.

Perguntei aonde ia. Ele respondeu que ia dar um passeio.

Parecia feliz.

N�o levou nada consigo, n�o deixou nenhum bilhete...

nenhuma pista de onde podia estar.

Simplesmente sumiu de nossas vidas, silenciosamente.

Quando vi as fotos de papai rasgadas, no lixo...

entendi que, de alguma forma, meu pai havia morrido.

Fiquei triste, mas n�o muito.

Mar�a chorou, inconsol�vel.

Separa��o, div�rcio. Ouv�amos palavras assim na escola...

mas n�o eram coisas que aconteciam conosco...

nem mesmo com nossas amigas.

Minha m�e estava calma, apesar da palidez, e sem energia.

Come�ou a trabalhar e chegava tarde em casa.

Uma vez, a ouvi chorar. Pobre mam�e.

No fundo, mesmo que n�o admitisse, ela preferia t�-lo encontrado morto...

para sentir-se livre. Para fazer o que tinha vontade.

Para come�ar uma vida nova, que desejava e n�o conseguia...

enquanto ele estava vivo.

Linha 9242, cabine 4.

Antonio?

Estou bem.

� s�rio, estou bem. E voc�?

N�o, bem...

Olhe, liguei para dizer que vou ficar aqui por uns dias.

Vou ficar na casa do meu pai.

Sim, mas mudei de id�ia.

Agora estou com meu pai.

N�o, n�o preciso de nada.

S� preciso de um pouco de calma.

Preciso descansar um pouco...

s� isso.

N�o, n�o estou com nenhum problema, com certeza.

N�o sei.

N�o, quero ficar sozinha.

Volto em uma semana ou dez dias, mais ou menos.

Antonio, n�o.

Obrigada, mas prefiro ficar sozinha.

N�o est� entendendo?

Bem, Antonio, tchau.

- Ainda est� traduzindo? - Sim, claro. N�o posso parar.

Paga pouco, mas d� para me sustentar.

Tamb�m tenho minhas aulas na escola.

Mas faz alguma outra coisa?

N�o sei.

Penso, respiro, caminho...

Vivo. N�o � pouco.

Mas n�o tenho previd�ncia, nem seguro sa�de...

nem a��es, nem nada disso.

Nem essa casa � minha. � alugada.

Voc� � um desastre!

Talvez, talvez.

Nunca poderia fazer o que voc� fez...

deixar tudo para tr�s.

Onde est� o vinho?

Em cima da geladeira.

Espere, espere.

- Delicioso. - N�o �?

- Vou pegar o queijo. - Est� bem.

Voc� devia estar de saco cheio...

para fazer o que fez.

Eu era bem mais velho do que voc� � agora.

N�o muito.

- Parece bom. - Vamos ver.

'AI dente.'

- Molho? - Um pouco.

- Espero que esteja bom. - Obrigado.

- Pai? - O qu�?

Sobre o que voc� escreve?

- Est� mesmo interessada? - Sim.

Nada de mais.

Vou acumulando o material devagar...

escrevo um pouco todo dia.

Mas sem ordem.

Quando estou com vontade.

�s vezes, percebo que nada do que escrevi faz sentido...

e queimo tudo.

Queima?

Sim, e come�o de novo.

Dizem que todos os que escrevem querem ser lidos.

� verdade.

Mas o mais importante � sentir necessidade de fazer alguma coisa.

�s vezes, sinto essa necessidade.

� uma necessidade urgente de fazer alguma coisa.

E escrevo.

Mas...

sem nenhuma pretens�o.

Escrevo porque me diverte. S� isso.

N�o ag�ento quem fica falando de arte e essas coisas.

Todos esses pretensiosos que acham que est�o fazendo algo importante.

Para mim, escrever n�o � melhor do que varrer uma rua...

ou colocar tijolos.

- Eu me lembro das suas cartas. - � mesmo?

Na verdade, eu as guardava.

Principalmente uma. Sobre a morte da vov�.

Como se essa morte n�o fosse tr�gica.

Voc� dizia que algu�m a havia maquiado e colocado uma peruca...

para que ficasse mais apresent�vel.

E que toda a fam�lia tinha discutido pela divis�o das coisas dela.

Os quadros, os m�veis, as j�ias...

e que voc� teve um ataque de riso.

Voc� dizia que parecia muito mais l�gico que...

na morte sumisse tudo...

o que lhe havia acompanhado em vida.

As pessoas, os entes queridos, a fam�lia.

As coisas tamb�m, os m�veis. Voc� falava de uma poltrona...

onde fazia a sesta.

�lbuns de fotos, livros...

at� as suas paisagens preferidas.

Eu disse esses absurdos?

N�o. J� bebi bastante.

Sim, sim. Conclus�o...

nunca escreva cartas.

N�o, n�o.

Quando eu erajovem e tinha pretens�es liter�rias...

fazia sempre rascunhos para as cartas.

�s vezes, passava o dia inteiro para escrever uma p�gina.

Tinha certeza de que, um dia, algu�m publicaria minhas cartas.

Agora, gosto das cartas espont�neas...

com erros de ortografia...

As mal-escritas, mas que dizem algo.

� a mesma coisa com fotografia.

Detesto fotografias com pretens�es art�sticas.

Detesto.

Mas, quanto � carta, n�o sei.

N�o escreveria isto agora.

Quando algu�m morre, � isso. Para que levar os outros junto?

� bobagem.

Sobre o que escreve, pai?

Escrevo sobre mim...

Bem, n�o exatamente.

Algum dia eu te mostro.

� uma esp�cie de terapia ocupacional.

� uma esp�cie de autobiografia?

Sim, de alguma forma.

Ent�o, voc� escreve sobre mam�e, Isabel e eu?

Sim, acho que sim.

Mas minha inten��o n�o � fazer uma obra confessional, eu garanto.

Pelo contr�rio, odiaria cair nesta armadilha.

Ainda assim, � inevit�vel. Escrevemos sobre o que conhecemos.

S�o as experi�ncias pessoais...

por mais imagina��o que tenha.

E eu n�o tenho muita imagina��o.

Sempre nos sentimos mais seguros contando o que j� conhecemos.

Sim. Est� vendo?

Est� vendo o que conseguiu?

Estamos falando como dois pedantes.

- Eu te contagiei. - � verdade.

Pai.

O qu�?

Por que n�o me mostra algo que est� escrevendo?

Voc� se interessa mesmo?

Vai.

Pai!

N�o. N�o, Elisa.

Outro dia.

Preciso revisar.

Pai.

Outro dia.

Aqui.

Por que voc� me colocou em uma escola de freiras?

Foi id�ia da sua m�e.

Sim, claro.

- Voc� vai adorar as meninas. - Sim.

No come�o, era dif�cil, mas agora gosto de dar aula.

Gosto muito.

As formalidades nunca mudam.

- Como vai, irm�? - Muito bem.

N�o � uma das minhas amantes, irm�.

� minha filha, Elisa. Veio passar uns dias comigo.

Muito bem.

Na minha �poca, t�nhamos que andar em fila.

- E ai de quem sa�sse. - Os tempos mudaram.

� noite, t�nhamos que dormir com os bra�os cruzados, assim.

Para evitar tenta��es.

Irm�, se n�o se importar...

Meninas, sil�ncio!

J� vou.

- Se precisar de algo, j� sabe. - Obrigado.

Muito bem, sentem.

Primeiro, as apresenta��es.

Esta � minha filha, Elisa. Ela vai me ajudar.

- Bom dia. - Bom dia.

Sente aqui, ao meu lado.

Vamos ver...

Imagino que estudaram o que vimos.

- Sim. - T�m certeza?

Sim.

Hoje, quem come�a � a Mar�a, acho. Mar�a, venha aqui.

- Estudou sua parte? - Sim.

'Quem me chama? Quem grita por mim? '

'Vinde, Mundo. O Criador te chama.'

'O que queres? O que ordenas? ' Espere um pouco, Mar�a.

Aqui diz que o Criador se levanta de seu assento...

ele est� sentado em uma bela poltrona, e come�a a passear.

Vamos come�ar daqui.

A introdu��o.

Meu personagem diz: 'Dou um banquete...

pela representa��o bem aplaudida, que me alegra e me diverte...

e � a representa��o da vida humana.

Quero que representem uma com�dia. Tu ser�s o Criador Soberano.

E tu ser�s o Mundo.' 'E tu ser�s o Mundo.'

- Pai, pare. - N�o tenha vergonha.

Sempre foi boa atriz.

- Voc� e suas brincadeiras. - N�o.

- Veja, este � seu personagem. - O Mundo.

- 'Oh, Criador Soberano... ' - N�o, n�o, n�o.

V� para o lado do Criador Soberano. Ele est� passeando.

Entre no personagem. Vai se sair bem.

'Oh, Criador Soberano. Gen... '

'Oh, Criador Soberano. Generoso, a cujo poder...

a cuja voz todos obedecem. Eu, o Grande Teatro do Mundo...

executarei vossas ordens...

para que os homens representem em mim.'

'Vinde, vinde... '

'Vinde, vinde.'

Quem s�o?

- Chame-os. - Mar�a Jes�s...

Paquita, Conchi...

Mar�a Antonia, Angeles...

Sof�a, Rosa Mary...

e Mar�a Jes�s Valcels.

- Lindo. - 'Eu o destru�.

Ele era am�vel demais, gentil demais para sobreviver � minha rejei��o...

e me abandonar impunemente. Um homem mais cruel...

haveria me odiado mais e sofrido menos. Forcei-o a ser cruel... '

- Essa parte � dif�cil. - N�o, olhe, papai.

'Um homem mais cruel haveria me odiado mais e sofrido menos.

Forcei-o a ser cruel, e isto n�o era natural para ele.'

- 'E n�o iria... ' - 'E ele n�o me perdoaria por isso.'

� lindo.

- E por que riscou aqui? - N�o gostei disso.

� dessa parte que eu gosto. � como se falasse de mim.

Conforme ia me afastando de Antonio...

percebia que n�o podia voltar mais...

para o homem com quem havia passado sete anos de minha vida.

Eu fui embora...

e agora sei, para n�o voltar mais.

Elisa.

- Pai. Ol�. - Ol�.

Suas revistas.

- Obrigada. - E uma carta.

O que est� fazendo?

Este.

Este n�o.

Quem te ensinou a fazer isso?

Um amigo, fot�grafo.

Esta � linda.

Quer um caf�? Vou fazer um pouco.

- Eu fa�o. - Nada disso.

- Nosso trato. Nada de mimar. - Desculpe.

Esta � a minha preferida.

- Quer ou n�o quer caf�? - N�o, pai. N�o me sinto bem.

- Fa�o um ch� mais tarde. - Est� bem.

Vou esquentar a �gua.

- E o trato? - Bem...

Ah, pai.

Tudo bem, eu fa�o o sacrif�cio.

Obrigada.

ELISA: ESTOU PREOCUPADO. VOC� PARECE DISTANTE.

O QUE EST� ACONTECENDO? POR QUE N�O ME CONTA?

- Antonio quer que voc� volte? - Mais ou menos.

A cada dia, percebo o quanto ele se afastou da minha vida.

� estranho, voc� vive tantos anos com uma pessoa...

e, no final, percebe que n�o a conhece.

N�o conhe�o Antonio.

Mas n�o quero te entediar com meus problemas.

De forma alguma...

fico feliz que me conte. E o que voc� vai fazer?

N�o sei.

N�o sei.

N�o tenho coragem de me separar dele.

Essas situa��es sempre nos destroem.

Vistas de fora, as coisas n�o s�o assim t�o dram�ticas.

S� posso pedir para pensar duas vezes.

Um conselho de pai.

�s vezes, o passado � mais forte do que pensamos.

Por mais que tentemos destru�-lo...

Falo por experi�ncia pr�pria.

Mas sou s� um velho.

Voc� n�o � um velho, pai.

Mas falta pouco.

Dizem que um dos primeiros sintomas da velhice � a perda de mem�ria imediata.

Voc� esquece de coisas que fez h� dois dias.

N�o sei por que, mas vamos recuperando a mem�ria passada.

� o que est� acontecendo comigo.

Quanto ao Antonio, eu me enganei.

Percebi logo, n�o � algo que esteja descobrindo agora.

Nunca nos entendemos muito bem.

N�o suportava aquela necessidade idiota de impor sua vontade...

como se precisasse se afirmar o tempo todo.

Sempre soube que n�o ficar�amos juntos...

mas mentia para mim mesma.

Sempre tive medo de enfrentar algumas coisas.

A culpa n�o � inteiramente dele. Antonio tem boas qualidades.

Mas acabou. Acabou. Est� na hora de come�ar de novo.

N�o sabia que a situa��o estava t�o ruim.

Bem, est�.

E ele n�o era fiel.

- Isso � o que mais te machuca. - N�o...

N�o � isso. No come�o, machucava, claro.

Mas o que doeu mais foi n�o ter cumprido o pacto que fizemos.

Se n�o �ramos honestos, para que ficarmos juntos?

Sabe com quem me tra�a?

Com Sof�a. Bem, voc� n�o conhece a Sof�a.

Sof�a era minha melhor amiga.

Uma amiga da vida inteira. � uma hist�ria bem vulgar, claro.

Sabe como descobri?

Um dia, uma mulher me ligou.

Tinha uma voz desagrad�vel.

Ela disse: 'Elisa Santamar�a? ' 'Sim.'

Ela disse: 'Seu marido se chama Antonio? '

'Sim.'

Ela disse: 'Antonio est� te traindo com uma tal de Sof�a.'

Eu disse: 'O qu�? '

Ela repetiu.

Eu disse: 'Quem � voc�? '

- Ela desligou. - E o que voc� fez?

Nada. N�o acreditei.

N�o acreditei...

Ela era minha melhor amiga. Amiga de uma vida inteira.

Eu entendia por que Antonio estava atra�do por Sof�a.

Ela era muito bonita. Muito bonita.

Levou um tempo para eu reagir.

Mejoguei na cama e fiquei l�...

em sil�ncio.

Meu mundo caiu.

Em um instante, entendi o fracasso...

de uma rela��o que nunca havia dado certo.

N�o sabia o que fazer.

Sof�a, minha amiga.

Comecei a pensar que era brincadeira, ou mentira.

Sa� de casa e andei pela rua, em choque.

N�o sabia o que fazer. Acho que nessas horas...

ficamos mais conscientes de nosso desespero.

Fui a uma loja...

e comprei uma bobagem, uma coisa in�til que...

Iogo joguei no lixo.

S� sabia que n�o podia voltar para casa sem saber o que faria.

E se fosse mentira?

H� pessoas capazes de fazer essas coisas.

Me sentia sozinha. Muito sozinha.

Tinha trinta anos e n�o sabia fazer nada.

Tenho um diploma, mas s� serve para me gabar.

Falo v�rias l�nguas, poderia achar um emprego.

Mas, antes de tudo, teria que encarar a verdade.

Tomei coragem e fui para a casa de Sof�a...

para falar com ela.

Quando cheguei l�, o porteiro me disse que ela n�o estava.

Que h� dois meses n�o aparecia. Devia estar fora do pa�s.

Tinha v�rias cartas na caixa de correio.

Que hist�ria estranha.

Ent�o, voc� nunca descobriu se eles te tra�am.

N�o, depois descobri que era verdade.

E ela n�o estava fora do pa�s?

Nunca soube.

Tamb�m n�o sei quem me ligou.

Nunca mais se encontrou com Sof�a?

Nunca.

Que estranho.

Eu a odeio.

Plantam batatas e muitos girass�is.

Mas este ver�o foi muito seco.

- Perderam tudo. - Eu vi quando entrei.

- Uma pena. - �.

- Antonio. - Elisa.

- Oi. - Como voc� est�?

- Oi, pai. - Oi.

O que est� fazendo aqui?

Sabia que estava aqui, queria conversar com voc�.

- Vou deix�-los sozinhos. - N�o, fique, papai.

Sim, claro. Vamos dar uma volta.

Est� bem.

- At� mais. - Tchau.

Tchau, pai.

Voc� vive muitos anos com uma pessoa...

e, no final, percebe que n�o a conhece.

A vida nos desgasta.

Nos desgasta...

e nos envelhece.

Sua carta me machucou muito.

Tudo bem, pe�o desculpa.

Por favor, me perdoe.

A culpa � minha.

Mas n�o vamos prolongar esta situa��o.

Elisa, vim pedir para voltar.

Para qu�?

Em poucos dias, ser� a mesma coisa.

- N�o, Antonio, n�o d�. - Vamos tentar.

Pela �ltima vez.

Eu te amo, Elisa.

Eu te amo.

N�o consigo viver sem voc�.

Elisa, meu amor.

Antonio, me deixe em paz. Me deixe em paz.

N�o quero mais morar com voc�. N�o quero voltar com voc�.

Antonio, n�o somos duas crian�as que brigam...

e depois fazem pazes como se nada tivesse acontecido.

Somos adultos.

Chegamos a uma situa��o em que a �nica solu��o � o div�rcio.

Pelo menos assim podemos manter algumas lembran�as boas...

de nossa vida em comum.

Voc� ama outro homem?

Voc� sabe muito bem que n�o � isso.

N�o amo voc�.

N�o mais.

Desculpe. Gostaria de te amar como antes.

A culpa � minha.

N�o importa agora de quem � a culpa.

Elisa, estou implorando, volte comigo.

Quero viver tranq�ila.

N�o � verdade.

Voc� s� quer ser o centro das aten��es.

N�o consegue entender que os outros tamb�m precisam de carinho, de amor.

Amor, carinho.

E o que voc� me d�? Nada.

Nossa vida sexual e afetiva est� morta.

- Acha mesmo? - Por favor, Antonio.

Voc� sabe que sim.

Acho que podemos recome�ar.

Se n�s dois nos esfor�armos.

Seria a mesma coisa.

Nem podemos dizer...

'Vamos morar juntos e cada um faz o que quiser.'

J� tentamos isso e falhamos. Lembra?

Eu ainda te amava naquela �poca.

Achei que podia dar certo.

Mas, conforme o tempo passava...

comecei a ter outra imagem de voc�.

Comecei a te ver de outro jeito. Como era de verdade.

Como te vejo agora.

E como voc� me v�, agora? Se me permite a pergunta.

Prefiro n�o dizer.

Diga.

N�o vai ficar pior do que j� est�.

Voc� que sabe.

Voc� � uma pessoa incapaz de se dar...

incapaz de amar algu�m.

Sempre guarda alguma coisa para si.

�s vezes, eu percebo como voc� � calculista...

como escolhe quem lhe conv�m.

� incapaz de ver que eu sou uma pessoa sens�vel...

sou insegura e preciso de algu�m para me apoiar.

O que voc� sabe da minha solid�o? Nada.

Das minhas ang�stias? Nada.

Voc� n�o sabe nada a meu respeito.

Vivemos nove anos juntos e voc� n�o sabe nada de mim.

- E voc�? - O qu�?

Quem voc� acha que �?

Ego�sta, possessiva, destrutiva...

Quando voc� me estimulou a fazer o que eu queria?

Voc� transformou meus amigos em inimigos.

Bons amigos.

Voc� fez meus amigos me abandonarem.

Eu era alegre e cheio de vida...

Voc� me transformou em uma pessoa triste e atormentada.

Fiz isso?

Sim.

Muito obrigada.

� uma pena que tenha vindo. N�o voltarei com voc�.

Nunca.

Mesmo assim, ainda acho que podemos recome�ar.

N�o, n�o e n�o.

Est� bem.

N�o precisa me acompanhar.

� poss�vel viver muitos anos com uma pessoa...

e, um dia, perceber que n�o a conhece.

A vida nos desgasta. Nos desgasta e nos envelhece.

Tentamos salvar do naufr�gio aquilo que n�o � poss�vel salvar...

nossa ilus�es, os sentimentos quej� tivemos...

e que eram tudo em nossa vida.

� dif�cil aceitar que n�o s� o que nos rodeia se deteriora...

mas n�s mesmos tamb�m nos deterioramos.

�s vezes, mais r�pido do que nossas piores previs�es.

Agora percebi que passei a vida tentando prolongar...

os momentos de felicidade a que todos os seres t�m direito.

Procurando umajustificativa para as regras que preciso cumprir...

e que para mim n�o s�o mais do que a sela e os arreios...

que se colocam em um cavalo.

No dia em que percebi que Antonio era um estranho...

meu mundo caiu. Tudo o que ele fazia me irritava.

O jeito como comia, como sentava...

como escovava os dentes. O cheiro dele me irritava.

O sorriso. Chegou a um ponto...

em que nem discut�amos. Hav�amos chegado � conclus�o...

de que nem isso nos animava.

Vamos, Elisa. N�o chore.

Est� bem, est� tudo bem.

Voc� vai ver, vai ficar tudo bem.

N�o vou mais voltar.

Tudo bem, fique aqui comigo.

N�o quero voltar para ele. N�o quero v�-lo nunca mais!

Pode ficar comigo quanto tempo quiser.

Acalme-se.

N�o vou voltar nunca mais.

- Claro que n�o. - N�o quero voltar.

Claro que n�o, n�o vai mais v�-lo.

- � f�cil dizer... - Bem...

- Voc� tamb�m me acha uma boba. - N�o, filha...

- Acha que sou hist�rica! - N�o, n�o � verdade.

Voc� s� precisa ficar calma, Elisa. Fique calma!

- Estou calma. - N�o est�.

Estou calma! Estou calma.

Elisa, venha c�.

Venha aqui, seja racional. Voc� precisa ter bom-senso.

- Eu tenho bom-senso. - N�o tem...

N�o precisa ficar assim. N�o vale a pena. Venha.

Voc� n�o tem o direito de dizer isso.

Est� bem, n�o tenho direito, acalme-se.

- Me solte. - Acalme-se.

- Estou calma! - N�o est�.

Pare de chorar. Vamos.

- Voc� � um idiota. - N�o sou idiota.

- Idiota! - Pare com isso.

- Idiota! - Est� bem.

- Est� bem. - Idiota.

- Pare, Elisa! - N�o bata em mim!

N�o bata em mim! Por favor.

N�o bata em mim.

Papai.

N�o bata em mim.

Papai.

Quem me diria, Elisa, minha vida...

neste vale, sob uma brisa leve...

enquanto colh�amos flores.

Quem me diria...

que viria o dia triste e muito solit�rio...

e colocaria um amargo fim ao nosso amor.

Durma.

Voc� � muito boa, filha.

- Quer que eu fique um pouco aqui? - Sim.

Elisa...

V� dormir.

Est� bem.

Mesmo assim, com uma perseveran�a surpreendente...

ele continuava lutando para respirar, ignorando a presen�a de sua filha...

preocupado apenas em sobreviver.

Passei a noite escrevendo. Agora, me sinto livre.

Gostaria de prolongar estes momentos de plenitude...

em que me sinto vivo... Vivo!

Ela passou a noite acordada, sem conseguir dormir.

Mas ela n�o se importa de n�o dormir.

Na verdade

gosta de ficar acordada na escurid�o.

Ficar acordada e deixar sua imagina��o voar...

esperando que as lembran�as apare�am.

As lembran�as.

Que lembran�as?

Esta dor...

fazia tempo que eu n�o sentia.

Que enj�o.

N�o consigo me lembrar de nada.

Elas deslizam entre meus dedos.

Tantas coisas foram esquecidas.

A �nica forma de saber a gravidade da doen�a � levando-o a um hospital...

para fazer alguns exames.

Ser� dif�cil convenc�-lo a ir. Vou tentar.

- Quanto antes, melhor. - � grave?

Talvez.

- Quanto antes melhor. - Sim.

Obrigada, doutor.

- Tchau. - At� logo.

O que ele disse?

Estou mal, n�o �?

- Voc� precisa se cuidar. - Claro, voc� tamb�m.

N�o, prefiro a luz.

Tudo bem.

- O que mais esse charlat�o disse? - V� para o lado.

Disse que voc� precisa ir ao hospital, fazer alguns exames.

E, at� ver os resultados, n�o pode dizer nada.

E que precisa ficar deitado.

Tenho aula hoje, n�o posso faltar.

Nunca faltei, n�o vai ser agora.

- Hoje, voc� vai ficar na cama. - Vai me impedir de levantar?

Sim.

Papai.

Papai. Papai.

N�o quero te impedir de nada.

Se voc� quer continuar bem, � melhor ficar aqui, descansando.

- Eu vou dar a aula. - Voc�? Como?

Por que n�o?

Sim. Por que n�o?

Amanh�, vamos ao hospital.

N�o se preocupe. Agora, v�.

As meninas est�o esperando.

Voc� vai ficar quieto?

- Sim. - Na cama?

- Promete? - Prometo.

Voc� � a �nica que me entende.

Porque te amo.

Esta dor n�o � nada.

J� tive outras vezes. Voc� vai ver.

Tchau, papai.

- Tchau. - E fique quieto, sim?

N�o saia da�.

Quietas! Sil�ncio!

'Vinde, mortais, vinde.'

Preparem-se para a apresenta��o do Teatro do Mundo.

'Fale, Criador Soberano.'

'Sei que se o homem pudesse escolher, ningu�m escolheria sentir esta dor.

Todos escolheriam um papel de poder, de mandar.

Sem perceber que � s� um papel, mesmo que achem que � viver.

Mas eu, o Criador Soberano, sei em qual papel cada um fica melhor.

Paquita, tu ser�s o Rei. O mundo dos atributos.'

'Eu, o Rei, irei governar o pa�s e ter honrarias.

D�em-me o seu ouro.'

- 'Por que ouro? ' - 'Porque este � o meu papel.'

'Tu ser�s a Dama da Beleza, Conchi.'

'Oh, que maravilha. Sou a beleza humana.

D�em-me jasmim, alm�scar e rosas.

S�o minhas as estrelas do c�u e as flores da primavera...

para que o sol morra de inveja.'

'Mar�a Antonia, tu ser�s o Rico e Poderoso.'

'S�o minhas as riquezas e o prazer.'

'Angeles, tu ser�s o Trabalhador.'

'Eu, o Trabalhador? N�o quero.'

Tu ser�s o Trabalhador! Trabalhar� de sol a sol...

para ganhar seu p�o. Estou ordenando.'

- 'N�o quero.' - 'Estou ordenando.'

- 'N�o quero.' - 'Pegue teu arado.

'Sof�a, tu ser�s a Discri��o.

Rosa Mar�a, tu ser�s o Pobre e Miser�vel.

Mar�a Jes�s, tu ser�s o Menino que h� de nascer.'

- 'Que papel f�cil.' - 'V� para o seu lugar.'

'Por que tenho que ser o Pobre nesta com�dia?

Por que dar a trag�dia s� para mim?

Por que n�o posso ser o Rei, ou o Rico?

Por acaso eles s�o melhores que eu, para receber pap�is melhores? '

'Tu ser�s o Pobre. N�o lhe darei nada.

Sendo Pobre, n�o ganha nada do mundo.

Tire esta roupa, andar�s despida.

Nesta representa��o, cada um tem que fazer seu papel.

Para mim, o melhor � aquele que interprete seu papel...

seja o de Pobre ou de Rico.

Ambos receber�o sua recompensa se a merecerem.

Neste Grande Teatro do Mundo, toda a vida � representa��o.'

'Neste Grande Teatro do Mundo, toda a vida � representa��o.'

Bem...

Papai?

Papai?

Ah, n�o.

Papai?

Papai?

Papai.

Fazia anos que n�o via meu pai.

Na verdade, n�o senti muito a sua falta.

Quase nunca escrevia para ele.

Apenas alguns cart�es postais para dizer que estava bem.

E que Antonio e eu mand�vamos um beijo carinhoso.

Me entristecia v�-lo doente...

esfor�ando-se para se recuperar de uma recente cirurgia.

A doen�a de meu pai coincidiu com a crise no meu casamento.

Bem, com uma das crises.

Quando recebi o telegrama de minha irm� Isabel...

me avisando sobre a doen�a do papai...

e depois o telefonema angustiado da minha fam�lia...

foi que me dei conta da gravidade da situa��o...

e da necessidade da minha presen�a em Madrid.

Olhe o ego�smo humano. Finalmente encontrei...

uma desculpa para ficar fora de casa alguns dias...

e refletir calmamente sobre minha situa��o.

Conforme ia me afastando de Antonio...

percebia que n�o podia voltar mais...

para o homem com quem havia passado sete anos de minha vida.

Eu fui embora, e agora sei, para n�o voltar mais.

legenda ripada por ddonato Movimento Cinema Livre

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