All language subtitles for Homem com H (2025).por

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Original subtitles

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Eu sou o homem de Neanderthal

Catando caramujo na beira, aramujo

Na beira, aramujo, na beira do rio

Na beira do rio

Eu

Vivo apenas

Com meus próprios meios

Eu

Vivo em penas

Com meus sentimentos

Nasci de um povo

Primitivo

Eu sou o homem de Neanderthal

Chora!

Chora!

Mandei você chorar agora!

- Não vou chorar. - Chora!

- Não vou. - Chora, rapaz! Chora!

Chora!

Chora!

Chora logo, Ney!

Não vai chorar, não?

Não vai chorar, não?

Hein? Você não vai chorar?

Tira essa roupa.

O que é isso, Antônio? Antônio, para! Para com isso!

- Antônio, para! - Pra você aprender a ser homem!

Antônio, para!

É pra deixar seu filho aí!

Pra dentro, vocês! Passa pra dentro!

- O que ele fez, Antônio? - Não interessa!

Os vizinhos estão olhando isso aqui? Hã?

Tomara que um caminhão atropele esse desgraçado.

Como é que é?

Nunca mais diga uma coisa dessas, ouviu?

E, agora, lá vem ela, a nossa Rainha da Mata!

Recebam-na com muitos aplausos.

Elvira Pagã!

Direto do auditório da rádio para a sua casa!

Maravilhosa. Linda!

Linda!

Lá vem ela passando, a rainha da mata

Trazendo a bicharada Pra com ela desfilar

Traz um macaco, um elefante, e um leão

Só a cobra que não pode Desfilar neste cordão

Ai, ai, ai, ai!

Ai, ai, ai, ai!

Lá vem ela passando, a rainha da mata

Trazendo a bicharada Pra com ela desfilar

Traz um macaco, um elefante, e um leão

Só a cobra que não pode Desfilar nesse cordão

Que pouca vergonha é essa?

Hum?

Eu não tô criando filho pra ser artista.

Isso é coisa de puta e viado.

Pedreiro também pode ser viado.

Como é que é?

Fica reto. Que nem homem.

Ombro para trás. Olha para mim.

Filho meu…

jamais vai ser artista.

Você entendeu?

Vai!

Mil e quinhentas vezes até encher a caixa d'água.

Vai!

Isso. Força!

Bom.

Sim, entendo, senhor.

Sim, eu entendo, tenente. Eu entendo.

Mas o senhor há de convir que eu servi esse país numa guerra.

Eu ganhei duas medalhas pela campanha da Itália.

Então, subir de cargo é um benefício que eu tenho direito.

Não, eu entendo, claro. Desculpa.

Eu entendo, senhor.

Sim, tá bom. Eu aguardo.

Obrigado. Até logo.

O que tá fazendo?

- Tá gastando água, fecha a torneira. - Sou eu…

Eu encho a caixa d'água todo dia. Posso gastar quanto eu quiser.

Fecha a torneira, Ney.

Não tá escutando o seu irmão, não, rapaz?

Tá surdo?

O senhor também não pode falar nada, né?

Porque sou eu que trago o balde pra lavar seu pé toda noite.

Mãe! Mãe!

O que é isso?

- Para! Vocês dois, para! - Vai embora da minha casa agora!

Vai.

Eu saio, pai. Eu vou sair daqui com gosto.

Porque eu tenho nojo de olhar pra tua cara.

Para. Antônio.

Ney!

- Ney! - O que aconteceu, Ney?

Ney.

Larga disso, Ney.

Ney, seu pai está falando da boca pra fora.

- Não tá falando da boca pra fora, não. - Larga isso. Larga isso.

- Eu vou embora. - Não.

- Eu vou, mãe. - Não. Você não vai.

Vou, sim.

Eu vou.

E eu não vou só por mim, não.

Eu vou por você também.

Pra ver se você tem paz nessa casa.

Você não tem nem pra onde ir, Ney.

- Eu acho um lugar. - Não vai achar, Ney.

Não vai embora, Ney, por fa… Ney!

Vai, vai, vai. Vê se não volta pra pedir nada.

Não quero filho viado aqui nessa casa.

Eu não sou viado.

Agora, quando eu for, pai…

aí o Brasil inteiro vai saber.

Ney!

Preparar pelotão!

Um, dois, três, quatro, cinco, seis Um, dois, três, quatro

Um, dois, três, quatro Um, dois, três, quatro

- Cinco, seis, sete, oito - Vamos, pelotão!

Vamos lá, força!

Que rabo, filho.

Bora?

Vamos?

Estava tendo algum problema de disciplina…

Mas ele me surpreendeu.

Ele é disciplinado, chega cedo, cumpre com as tarefas.

Em poucas palavras, se eu tivesse cem homens como seu filho,

meu pelotão seria perfeito.

Vim ver o que você estava aprontando.

Agora vou ter que voltar pra Campo Grande

e aguentar sua mãe jogar na minha cara que eu estava errado.

Juro! Não, bati continência pra ele.

E a sobrancelha dele, Cato, tremia.

Igual uma vara verde, assim.

- Tremendo assim. Aham. - Sério?

Aí, você conseguiu derrubar seu pai.

Ué, ninguém mandou ele vir aqui.

Não era o que você queria quando se alistou na Aeronáutica?

Eu queria era sair daquela casa.

Muita briga.

Eu queria provar pra mim que eu consigo sozinho.

E escolheu justo o território dele?

Você provocou, Ney. Você cruzou a linha de combate.

Ué, o que eu ia fazer? Ou eu me alistava,

ou eu, sei lá, eu casava.

Pois é. Podia ter casado.

- Boa viagem, soldado. - Obrigado, senhor.

- Até a próxima. - Até.

Não acredito que você tá indo embora.

Vou aproveitar esse avião da FAB e vou embora pra casa.

E você?

Já sabe pra onde vai?

Não.

Uma coisa que eu sei é que não vou voltar pra casa.

Ué, vem comigo, então.

Vamos pegar esse avião. Vamos junto pro Espírito Santo.

Aí a gente faz o que lá?

Boa sorte.

Tchau.

Tu não te lembras Da casinha pequenina

Onde o nosso amor nasceu

Tu não te lembras da casinha pequenina

Onde o nosso amor nasceu

Ok. Eh…

Agora, só as meninas, por favor.

Contraltos.

Ok?

Tu não te lembras da casinha pequenina

Onde o nosso amor nasceu

Ai

Tu não te lembras da casinha pequenina

Onde o nosso amor nasceu

Tinha um coqueiro do lado…

Desculpe.

Continua.

Um coqueiro do lado

Que, coitado, de saudade

Já morreu

Você tem a voz rara como os castrati.

É, a minha voz é fina.

- Eu sei. - Não.

É mais que isso, rapaz. É…

Sua voz é muito especial.

Como é que você chama?

Ney.

De Souza Pereira.

Mais um que caiu aqui, em Brasília.

- Eu? - É.

E o que você tá achando da capital da esperança?

Vazia.

Por enquanto.

Aqui tem trabalho, isso aqui vai encher de gente.

Seu amigo tem razão.

Tem muito espaço.

Hum.

É de enlouquecer.

Você também é cantor?

- Eu? - Hum.

Não, eu trabalho no hospital.

Ah, a modéstia.

Esse ser aqui tem a voz mais linda do coral.

Eh.

Eu quero mesmo é ser ator.

É isso que eu quero.

Você pode atuar e cantar.

Como nas óperas.

Você nunca pensou nisso?

Saudade do Palais Garnier.

Toda semana, uma ópera diferente.

Onde?

O Eugênio acabou de chegar de Paris.

Ele estava morando lá.

É.

Aí, você voltou por quê?

Porque a verdadeira desgraça do homem é não saber amar.

Espera, espera.

Eu nunca fiz isso.

Confia em mim.

Confia.

- Tira. Tira. - Ah.

Ué, por quê?

Tá apertada demais.

Eu sempre usei calça justa.

Você não vai comigo assim.

Tira.

Hum.

Eugênio, é única calça que eu tenho pra ir pra essa festa.

Bota essa minha.

Vai ficar lindo.

Eu não tô com fome.

Você não comeu nada na festa.

Bom, se fosse aquele garçom te oferecendo, você comia.

Eugênio, o rapaz estava trabalhando.

Eu vi.

- Você viu, né? - Uhum.

É, você viu, você vê. Seu problema é esse.

Tudo você imagina.

Isso aqui não tá funcionando mais.

- O que não tá funcionando? - A gente não tá funcionando.

Deixa de ser criança, vai.

Eu não sou criança.

Eu nunca fui, nem quando eu era.

Achei que, quando fosse pra ser com um homem, ia ser diferente.

Que ia ser… bom.

Achei que com você ia ser diferente, mas não, é a mesma coisa.

É posse, ciúme, obsessão, a tua paranoia.

Isso aqui tá um saco.

- Ney. - Isso aqui tá um saco.

Olha pra mim.

- Olha pra mim. - Não!

Quero olhar pra onde eu quiser, Eugênio.

Entendeu? Eu quero vestir a calça que eu quiser.

Quero fazer o que eu quiser.

Tu não te lembras da casinha pequenina

Onde o nosso amor nasceu

Tu não te lembras da casinha pequenina

Onde o nosso amor nasceu

Tinha um coqueiro do lado

Que, coitado, de saudade

Já morreu

Tu não te lembras das juras Oh, perjura

Que fizeste com fervor

Tu não te lembras das juras Oh, perjura

Que fizeste com fervor

Daquele beijo demorado

Prolongado que selou

O nosso amor, aquele beijo

Aquele beijo demorado

Eugênio.

…prolongado que selou…

Quer me matar?

Então mata agora, mata.

Chega.

- Nossa, tá muito chique. - Ai, isso eu pego lá.

Não tem que pagar nada.

Isso aqui não, olha.

Aqui é do ateliê de um amigo meu. Ele…

Ele corta as coisas, e o que sobra, trago pra mim.

- Faz mágica, né? - Eu gostei disso.

- Gostei. Ficou bom, né? - Tá chique, Ney.

Ficou bom?

Agora, a cereja do bolo.

Uh.

Fita cassete, né?

Passei uma semana puxando fita.

Tá com cara de que deu trabalho isso aí.

Olha, linda!

- Deve ser a Bete. - Pode entrar!

Assim.

Sua mãe e eu nos mudamos. Não sei se sabe.

A gente saiu da vila militar.

Ela me falou.

- É. - Quem foi que quis? Foi você?

Fui eu.

Eu pedi pra ir pra reserva.

Sabe, Ney, não tô concordando muito com o que tá acontecendo nesse país.

É. Tá estranho mesmo.

Acho que você fez muito bem.

É.

Eh, a gente fez muito amigo lá, em Ilha Solteira, e eu fiquei pensando.

Eu posso te arrumar um emprego pra te ajudar a sair dessa.

Sair de qual, pai?

Estou trabalhando aqui. Com o meu artesanato.

Entrei no teatro.

Isso dá dinheiro, Ney?

Isso vai garantir sua aposentadoria?

Não vou passar a vida pensando em me aposentar.

Claro que não.

- Tchau. - Tchau, Ney.

- Tchau. A gente se vê no ensaio. - Ficou boa a peruca.

- Maravilhosa. - Beijo, Ney.

Hum.

Olha, leva o cinto.

Você tem quase 30 anos já, meu filho.

Fica pulando daqui pra lá, de lá pra cá.

Sem objetivo na vida.

- E essa gente que frequenta aqui? - Essa gente, não.

São meus amigos. Aqui, tenha respeito, por favor.

Volta pra casa, Ney.

Sua mãe que tá pedindo.

Você não entendeu ainda, né, pai?

Eu escolhi isso aqui.

Eu escolhi.

Eu não tenho dinheiro.

Eu realmente não tenho dinheiro. Não tenho casa própria.

Tenho quase nada.

Mas eu sou feliz assim.

Você quer almoçar?

- Não. - Tem restaurante bom.

- A gente pode comer lá. - Tenho que ir.

Toma.

Pega.

Não quero.

Eu não quero mesmo.

É…

O senhor manda um beijo pra mãe?

- Vai lembrar? - Vou.

Pai?

Vim aqui

Só pra dizer

Ninguém há de me calar

Tenta mais alto. Tenta mais agudo.

Que seja

Tipo assim…

Pra melhorar

Se… se…

Se alguém tem que morrer

É bom assim também.

- É bom assim, né? - Uhum.

Que seja pra melhorar

Agora é lindo.

Tanta vida pra viver

Tanta vida a se acabar

Com tanto pra se fazer

Com tanto pra se salvar

O mundo tem que escutar tua voz.

Luli, já vem você de novo.

Ney, lá vem eu de novo.

Ai, Luli, eu sou ator.

Eu sou ator, não sou cantor.

Ué, mas tudo é teatro.

Não sou eu que estou dizendo, Ney.

Não é pra todo mundo que sai a carta da morte três vezes.

Já falei. Não, não é pra todo mundo.

- Hum. - Hum.

Esse Ney aí que a gente conhece…

esse Ney vai morrer.

Vai nascer um Ney novo.

Vim aqui

Só pra dizer

Ninguém há de me calar

Se alguém

Tem que morrer

Que seja pra melhorar

Tanta vida pra viver

Tanta vida a se acabar

Com tanto pra se fazer

Com tanto pra se salvar

Você que não me entendeu

Não perde

Por esperar

Genial!

A voz que estamos buscando.

- Não é bom demais? Não falei, João? - Bom ouvir isso.

Ele é a pessoa certa.

- Nunca vi um agudo desse. - Deixa ele falar.

Eu falar? Não, eu quero que vocês falem.

Falem um pouco sobre a banda.

Sim, pra já, somos só nós dois. Eu e o Gerson.

E a ideia é musicar poemas de autores já publicados.

Tipo, Manoel Bandeira, Solano Trindade, sabe?

Uma maneira de driblar a censura.

Mas vocês têm alguma coisa? Vocês têm repertório?

- Alguma música pronta? - Claro.

- Sim. - Toca aquela do Vinícius.

Aquela é boa.

Não tá exatamente pronta ainda, mas…

É mais ou menos assim.

Pensem nas crianças

Mudas, telepáticas

Pensem nas meninas, cegas, inexatas

Pensem nas mulheres, rotas, alteradas

Pensem nas feridas como rosas cálidas

Mas, oh, não se esqueçam

Da rosa, da rosa

Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

Estúpida, inválida

Ah, sua mãe!

Pessoalmente, pra você!

Quando eu peguei aquele livro que você deixou lá em casa, eu abri…

- eh, e me deparei com esse poema. - Uhum.

Que é um poema muito forte, né?

Aí eu pensei que fazia sentido colocar essa melodia

porque tem um contraste aí, né?

Não consegui pensar em adicionar muita coisa

porque eu acho que a beleza está nesse contraste que tu disseste.

Entre a força da poesia

e a simplicidade e a tua voz,

- nesse tonzinho bem simples. - Pode ser bonito.

Pensem nas meninas, cegas, inexatas

Ah, isso é lindo.

Pensem nas mulheres, rotas, alteradas

Isso é bom.

Pensem nas feridas como rosas cálidas

Agora, aqui.

Sem cor, sem perfume

Tem aquele momento do…

- Apolinário. - Gerson.

Meu pai,

poeta e editor de cultura do jornal A Última Hora.

Ele vai nos ajudar com a divulgação.

- Podemos conversar agora? - Claro.

A sós.

Vamos pra lá.

Foi ele que escreveu "Amor" e "Primavera nos Dentes".

Ah.

Dez de dezembro.

Que é isso?

Figurino.

João, barba e boina? Não.

O que que tem?

É um símbolo da resistência.

Não tenho nada contra a Revolução, mas deixa o Che Guevara lá.

Se não tiverem uma ideia melhor, ficamos com as boinas.

Estou a pensar em tirar algumas mesas.

E levar estas coisas lá pra trás. Assim ficamos com mais espaço.

Tá.

Onde é que eu posso ficar?

Aqui, ó. Este metro quadrado é teu.

O que é que achas?

Acho bom.

Agora vou fazer o que eu quiser aqui dentro, tá?

Mas o que você pretende fazer?

Eu não sei, Luli.

Eu só não quero virar um crooner da banda, sabe?

Essa coisa careta.

Careta, Ney?

Não tem como ser careta com aquelas letras.

Ah, mas é que todo mundo já fez…

letras cifradas assim, sabe?

Eu queria fazer outra coisa. Eu queria…

Não sei, sabe? Colocar energia pra…

pra vibrar, pra girar. Colocar o corpo.

Acho que você precisa de um novo nome.

Ah, eu concordo.

Porque Ney Pereira não dá. Ney Pereira é careta.

Qual é seu nome completo, Ney?

Eu vou dizer. Olha.

Meu nome é Ney de Souza Pereira.

E o do seu pai, qual é?

Antônio Matogrosso Pereira.

Eu gosto de "Ney Matogrosso".

O que você acha, Antônio?

Você não tem sapato, não?

É isso que te preocupa?

Está usando droga?

Antônio.

Olha, eu já usei droga sim, pai.

- Se o senhor quer saber. - É contra a lei, sabia, né?

Uhum. Qual lei?

A lei dos militares?

Também gosto de Secos & Molhados.

É um nome diferente.

- Chama atenção. - É.

Eu acho bonito.

Agora, eu vim avisar que é uma banda escandalosa, mãe.

- E é, meu filho? - É.

Escandalosa.

- Vim dizer pra não tomarem susto. - Hum.

Capaz de você se assustar quando me vir na plateia.

Ah, é?

Mas, cuidado, porque posso estar pelado.

É verdade.

Imagine uma cidade inteira encerada com a enceradeira…

Silenciosa, com movimentos leves e afinados.

Vamos, gente.

O gato preto cruzou a estrada

Passou por debaixo da escada

E lá no fundo azul

Na noite da floresta

A lua iluminou

A dança, a roda, a festa Vira, vira, vira

Vira, vira, vira homem, vira, vira

Vira, vira lobisomem, vira, vira, vira

Vira, vira, vira homem, vira, vira

Bailam corujas e pirilampos

Entre os sacis e as fadas

E lá no fundo azul

Na noite da floresta

A lua iluminou

A dança, a roda, a festa Vira, vira, vira

Vira, vira, vira homem, vira, vira

Vira, vira lobisomem, vira, vira, vira

Vira, vira, vira homem, vira, vira

Bicha!

Viado!

Vira, vira homem, sim!

O senhor vai tomar no cu.

Bailam corujas e pirilampos

Entre os sacis e as fadas

E lá no fundo azul

Na noite da floresta

A lua iluminou

A dança, a roda, a festa Vira, vira, vira

Vira, vira, vira homem, vira, vira

Vira, vira lobisomem, vira, vira, vira

Vira, vira, vira homem, vira, vira

Que papinho é esse, Moracy?

A gente acha que o seu comportamento tá se excedendo um pouco, Ney.

Estão dizendo que somos uma banda de homossexuais.

Ué.

- Digam que vocês não são. - Não é tão simples, Ney.

- A gente é um trio. - O problema sou eu, então.

Não é você.

São as suas roupas, a sua maquiagem, os seus trejeitos.

Meus trejeitos.

É, Ney, tudo remete à mulher.

Eu não me sinto uma mulher ali. Me sinto um ser indefinido.

Tô experimentando. Sou um bicho.

Pessoalmente, acho lindo.

Mas talvez um pouco ousado.

Não sei. Tô falando como empresário, tá?

Não tem nada de pessoal.

Também não precisa tirar a maquiagem.

É mais uma questão de suavizar.

Não.

Eu não acho.

Eu acho que tem que pisar mais fundo ainda.

E não sou só eu, não. Nós três.

Não queremos chamar mais a atenção.

Já tivemos duas músicas cortadas pela censura.

Ah é? Você está refém da censura agora, né, João?

Eu não estou de acordo.

Não sei o que o Gerson acha, mas eu…

Jurei mentiras e sigo sozinho

Assumo os pecados

Os ventos do norte não movem moinhos…

Parou, parou, parou a música.

É proibido olhar pra câmera.

Ah, eu tô olhando pra quem tá em casa.

Mas não pode.

Não pode por quê?

Porque na TV é assim.

Vamos mais uma?

Sem olhar, tá bom?

Vai, câmera. Do mesmo ponto, tá? A gente segue daí.

Minha vida, meus mortos Meus caminhos tortos

Meu sangue lati…

…no-o-o-o-o-o

Minha alma cativa

Rompi tratados, traí os ritos

Quebrei a lança, lancei no espaço

Anota aí.

Não pode aparecer desse jeito com rabo de cavalo

e maquiado que nem mulher.

Moracy, me aponta na rua uma mulher com maquiagem igual a minha.

E o que me importa é não estar vencido

Minha vida, meus mortos Meus caminhos tortos

O quadril, esse quadril mexe muito.

É só deixar a câmera na minha cara.

Meu sangue latino

E esse olhar?

Que olhar?

É o único que eu tenho.

Que lindo.

Precisa ficar rebolando de saia?

Isso não é uma saia, Antônio.

É uma calça de odalisca.

Não tá vendo, não?

Você sabe o que é andrógeno?

O dicionário diz "Andrógeno:

Comum ao homem e à mulher."

Afinal, os Secos & Molhados são a explosão de um novo caminho musical

ou de um comportamento?

Pessoal, cinco minutos, hein?

- Cinco minutos. - Cinco minutos.

Tudo lotado, esgotado.

Todas as arquibancadas, cadeiras, poltronas, tudo, tudo.

Quantas pessoas cabem aqui?

São umas 20 mil. Agora dizem que tem fora mais 20 mil.

Ney Matogrosso, o líder do grupo, diz que eles existem atrás das máscaras.

Ah!

Já vai!

Sr. Ney?

É da Secos & Molhados Produções. Pediram pra voltar com a sua assinatura.

- Você aguarda um minuto, por favor? - Claro.

João Apolinário Teixeira e João Ricardo. Sócios.

Hum.

Prestação de serviço. Funcionário.

Faz um favor pra mim.

Você volta lá, entrega pra eles

e diz que eu mandei limpar o cu com esse papel.

- É só rebolar. - Só rebolar?

É.

- Ah, João, tá bom, então. - Não tô dizendo que a gente só faz isso.

- Pra você, parece que é. - Pode continuar me elogiando.

Acho que não consegues entender

- que temos tarefas diferentes. - Você quer separar a gente.

Você quer separar. Você quer separar e você vai conseguir.

Você vai conseguir, João.

- É isso. Você conseguiu. - Sou eu que estou a separar, não é, Ney?

João, você sabe o que seu pai tá fazendo, né?

Você viu o contrato, você leu.

Mas alguém precisa pôr ordem nas coisas.

Ordem? Ai.

Teu pai tirou o Moracy e entrou no lugar dele.

Não é assim.

O Moracy não prestava contas direito.

- Ele estava a desviar dinheiro. - Não. Não.

Não. O Moracy pode ser desorganizado, mas ele não é desonesto.

Não é.

- O meu pai só nos está a tentar proteger. - Proteger quem? A você?

A ele mesmo?

Eu não sei como é que você consegue ser conivente com isso.

Isso tá errado, João.

Esse negócio não tá certo, não.

É muita pressão.

A gente ficou muito grande, muito rápido, cara, é muito assustador.

É assustador mesmo, João.

Assustador.

A gente perdeu o foco.

Deixou de fazer música.

Virou… Virou o quê? Uma máquina de fazer dinheiro

com todo mundo querendo tirar um pedaço da gente?

Que merda!

Eu não quero isso pra mim.

Eu não preciso disso.

Não.

Nunca precisei.

Não, Ney, espera!

Vamos pensar juntos.

Vamos viajar, só nós dois.

O que é isso, João?

O que é que tu quer? Uma lua de mel tardia? Hã?

Eu tô fora.

- Boa noite. Boa noite a todos. - Boa noite.

Muito obrigado pela presença de cada um de vocês.

As balas do teu 38 são como

Açúcar candy

No meu sangue

As tuas balas circulam velozes

Na minha veia

No meu sangue

As tuas balas…

Percebi que você voltou mais radical neste seu primeiro trabalho solo.

Você acha, Fátima?

Você não acha?

…maio

As balas do teu 38 são como

O jornal Última Hora diz que você tem atitudes nojentas no palco.

E que você mancha a classe artística que tanto lutou pra ser aceita

- pelas famílias brasileiras. - Eu não tenho muito o que comentar.

Eu não leio esse jornal.

As tuas balas me matam de prazer

As tuas balas têm mel…

Silêncio, por favor. Pode continuar, Fátima.

Mas, Ney, por que você acha que as pessoas te agridem tanto?

Porque elas se identificam.

Eu acho que elas veem coisas que existem nelas,

mas elas não sabem lidar.

- Por isso me agridem. - Ney, aqui!

Ney, por favor.

No meu dorso

Ai, precipício

Não acha que é você que voltou agressivo?

Parece um bicho nocivo.

Gostei.

…ma-a-a-a-aio

Você cantaria os sucessos dos Secos & Molhados nesse seu show?

Gente, é outra fase.

Agora quero falar sobre o começo de outra coisa.

Posso cantar o que eu quero, do jeito que eu quero,

sem interferência de nada.

Mas o que a gente viu no palco hoje é a negação do Ney dos Secos & Molhados.

Parece que não é você.

Acha isso chocante pro teu público?

Eu espero que o meu público consiga ver diferente de você.

Eu vou retirar.

Chega. Eu vou dizer uma última coisa.

O meu trabalho não se restringe aos Secos & Molhados, tá?

Tanto que já falei, gente. É isso que dá trazer qualquer um pra cá.

Onde já se viu?

Dormir com um cigarro aceso no colchão de água?

Não sei do que tá falando, Luisinho. Cheguei sozinha ontem.

Deve ser coisa da Sandra isso.

Nossa!

Da onde veio isso? Nunca ouvi.

Sandra, o nome disso é campainha.

Já acordou estressado hoje. Tá assim.

Você.

Ney. É o canalha da cobrança.

Ah.

Canalha.

Entra.

Pode sentar.

Senta.

Você pode escolher.

Pode levar o que quiser, porque meu dinheiro acabou.

Vou pegar um café.

- Quanto falta para quitar a dívida? - Eu não sei. Eu não sei.

Eu só sei que o dinheiro que eu tenho

tá servindo pra cobrir o prejuízo do show.

Eu sabia que ia dar merda com aquele empresário.

E deu certo com algum?

Você tá sempre rompendo com alguém.

Sabe o que eu acho?

Hum.

Acho que você tá muito tenso desde que saiu do Secos & Molhados.

Parece que você tá querendo provar que é capaz de…

fazer tudo, de existir sozinho.

Mas aí você tá dizendo isso por quê?

- Acha que não sou capaz? - Claro que você é capaz.

Não é isso.

É que você tá tão preocupado com a crítica

que você esqueceu do público.

As pessoas te querem no palco.

Te querem vivo.

Quente.

Hum.

Eu também quero isso.

Então deixa de ser bicho.

Vira gente.

Bandido

Bandido corazón

No deja de te amar

Bandido, bandido corazón

No puedo controlar

Quero te pedir minhas desculpas

Isso sempre acontece

Tenho um coração que é desvairado

E nunca me obedece

Eu já sou um cara meio estranho

Alguém me disse isso uma vez

Meu coração é de…

Deu certo. Já deu.

Mas o que salva É a minha insensatez

Bandido, bandido corazón

No deja de te amar

Bandido, bandido corazón

No puedo controlar

Eu que sempre fui chegado

Ao romance e aventura

Eu talvez seja condenado

A viver perto da loucura

Por isso quero te pedir Minhas desculpas

- Gostoso! - Eu canto mais uma vez

Meu coração é desvairado, eu sei

Mas o que estraga é a sua timidez

Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai

Ai, ai, ai, ai, ai

Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai

Gostoso! Eu te amo!

Gostoso!

Que delícia!

Gostoso!

Tira!

Ney, eu te amo!

Ui!

Delícia!

Tira minha roupa, Ney!

Bandido, bandido

Bandido, bandido

Ai, ai, ai, ai, ai

Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai

Bandido, bandido

Bandido, bandido

Bandido

Bandido

Uau. Foi bom o show?

- Foi maravilhoso. - Eu adorei.

Tem um pessoal querendo falar com você.

Quem?

São censores.

Boa noite, com licença.

A gente veio aqui fazer algumas observações sobre o show.

Pois não.

É que tem alguns gestos seus que são um tanto quanto libidinosos, né?

É, eu sei, mas é de propósito.

Isso aqui é um show de teatro de revista.

É.

Mas, no sul, é uma coisa, aqui pra cima, não fica bem.

O público do nordeste não tá preparado.

Principalmente pro momento em que você…

- Quando você faz aquele… - Balança a pélvis.

Isso, isso.

Balança a pélvis.

Engraçado que eu acabei de voltar de Teresina.

- O show foi ótimo. Foi bom, né, Luís? - Uhum.

Eu pensei que o Recife fosse um pouco mais avançado.

Quantas vezes o senhor faz esse vai e vem?

Como é?

Esse requebrado aí, quantas vezes?

- Quantas vezes? - Hum.

- Luís, acho que umas… - Umas seis?

Eu acho que é isso, umas seis vezes, mais ou menos.

Pois faça metade, então.

Três vezes tá bom, pronto.

Tá certo, tá bom.

Recado dado.

Tenha uma boa noite, viu?

Parabéns pelo show.

Ah.

O que…

- Por que tu falou seis vezes? - Eu ia falar o quê?

Sei lá, 20! Falava 20.

- Hoje. Hoje. - Hoje?

Deu mais de mil pessoas, fácil.

Tem um monte aqui no hall.

Olá gente, tudo bem? Calma.

Vamos só organizar uma fila aqui bem direitinho

que ele vai atender todas vocês, tá bom?

- Olha! - Tudo bem?

Um pouquinho mais pra trás. Ele vai atender todo mundo.

Opa. Pode tirar foto, sim.

E aí, como é que você está?

Gostou do show?

- Gostei. - Maravilhoso.

- O Cabo Dias, lembra? - Eu lembro.

Nossa.

Imagina o Cabo Dias assistindo ao seu show hoje.

Ia bagunçar a cabecinha dele.

Bagunçou a tua?

Ô…

Hum.

Você é corajoso, Ney.

Por que você tá dizendo isso?

Eu…

Eu casei, tive filho.

Cumpri o protocolo todo.

Você tá feliz, Cato?

Eu amo meus filhos.

- Bom. Que bom. - É.

Pra mim, você continua o mesmo, Cato.

- Ah, é? - É. O mesmo Cato.

Vivo.

Alegre, bonito.

Eu preciso ir embora.

Já amanheceu.

É isso.

A gente aqui de novo, Cato.

Se despedindo.

Foi bom te ver.

Foi bom que você me viu.

Manda um beijo nos seus filhos.

Tá?

Meu amor

Sem cor, velho postal, amor banal

Sem nenhum

Sem nenhum valor

Nessa noite

Meu pobre amor de papel

Esqueça a cor

Do anúncio lá do céu

Na arcada principal

Secreto mal

Numa noite de néon

De papel crepom

Na arcada principal

Secreto mal

Numa noite de néon

De papel crepom

O mar

Vai e volta

Com o gosto

Do licor que ficou

Da tua boca

Do suor que ficou

Na minha boca

Vai deixando Minha parda voz

Parda voz, parda voz, parda voz

Parda voz de louca

Louca, louca, louca, louca, louca Muito louca

Muito louca

Louca, louca, louca, louca, louca Louca, louca, muito louca

Muito louca

Louca, louca, louca, louca Louca, louca, louca, muito louca

Muito louca

Louca, louca, louca, louca, louca Louca, louca, muito louca

Tão blue, tão bom

Com licença.

Bom dia, Ney.

Ei, vamos acordar?

Vai passar o dia inteiro nessa cama?

Olha. Aqui.

- Que isso? - Não quer?

Tem quatro copos ali.

Ué, nunca sei quantas pessoas vou encontrar aqui, Ney.

Que horas são?

É quase meio-dia.

Ah, tá cedo.

Pelo amor de Deus, cedo, Ney? Cedo, sério?

Tu não faz ideia da quantidade de coisa que já aconteceu aqui nessa casa.

Logo de manhãzinha, o presidente do Flamengo te ligou.

Tá convidando você pra assistir a um jogo de futebol lá no Maracanã.

Teve também uma moça, que não quis se identificar.

Mas ela ligou a respeito de um tal de licor de morango

que vocês combinaram de tomar, Ney.

Bom, e não foi só o telefone.

Tem algumas pessoas que vieram bater aqui,

- na porta de sua casa. - Não. Luís!

Teve uma fã doida.

Ela disse que queria te entregar, adivinha?

Uma mobilete, Ney.

Ela chegou na mesma hora que eu estava enxotando um barbudo fedendo a álcool,

gritando teu nome, dizendo que queria falar contigo urgente,

só depois a Lidoca veio me falar que se tratava do Raul.

Seixas.

Raul Seixas, Ney. Eu botei ele pra correr.

Depois dá uma ligada pra ele. Inventa alguma desculpa.

- Luisinho, deixa eu descansar. - Calma.

Mas eu nem te contei a melhor notícia do dia.

Olha pra cá.

Olha pra cá, Ney. Saiu.

Olha. Peguei hoje cedo, lá na Mesbla.

Estava embalado naquele plástico da vergonha.

Hum.

Essa censura é um absurdo, né? Uma foto tão linda dessa.

Esse plástico serve pra divulgar ainda mais o trabalho.

Sim, vai ser sucesso, eu tô sentindo.

- Vender todas as cópias. - Tomara.

- Uhum. - Sabe por quê?

Porque vou pegar esse dinheiro

e procurar um lugar que eu tenha um pouco mais de privacidade.

- Sabe como é. - Vou junto com você?

Ai de você se não me levar.

Não existe pecado Do lado de baixo do Equador

Vamos fazer um pecado

Rasgado, suado, a todo vapor

Me deixa ser teu escracho

Capacho, teu cacho, um riacho de amor

Quando é lição de esculacho Olha aí, sai de baixo

Eu sou professor

Deixa a tristeza pra lá Vem comer, me jantar

Sarapatel, caruru, tucupi, tacacá

Vê se me esgota, me bota na mesa

Que a tua holandesa…

- Oi. - Ai. Caramba.

- O que você viu ontem? - Não posso revelar.

- Que misteriosa. - Mas eu tô presa nessa noite.

- Sei. - Vou te contar.

Ih.

O que foi?

Olha, tu não brinca não, hein?

O cara é herdeiro da Som Livre, filho do todo-poderoso.

Aquele bebezinho….

Ah, bebezinho, amor. Vai nessa.

Como é o nome dele?

Cazuza.

Cazuza. E se tu falar três vezes, ele aparece.

- Ah é? Cazuza, Cazuza, Cazuza. - Cazuza. Cazuza.

Ih.

- Acabou por aqui. Vambora. - Ih, acabou pra gente. Aham.

Sai.

Fica assim.

Hum.

Eu fico imaginando o tanto de coisa que você pega aí nessa maquininha.

Eu gosto de fotografar.

Quando eu tiro foto,

eu enquadro mistério

e engulo tudo.

- Eu sou faminto. - Uhum.

Cazuza, olha o que vai fazer com essas fotos.

Não precisa ficar grilado.

Isso aqui é tudo pra mim.

Adorei a casa nova, Ney.

Olha. Adorei, adorei, adorei, adorei.

Você curtiu?

Mas não quero mais ouvir falar de coisas velhas, tá?

- Chega de velhos. - Chega de velhos.

Ih, troca comigo.

Troco, ó.

Assim, vocês dois.

Hum.

Com drogas ou sem drogas?

Com drogas. Fica.

- Posso te dar um beijo? - Por que não?

Era um rapaz

Estranho e encantador

Vambora. Ai, Cazuza, vamos.

- Vamos. - Vambora.

Ouvi que andara…

- Tchau. - Tchau.

Viajar

Viajar

Toda a terra e o mar

- Acabou, tchau. - Hum, tá.

Menino só

E tímido

Mas sábio

Demais

Vem, Cazuza.

Vem, Cazuza. Vem.

Eis que uma vez

Num dia mágico

O encontrei

E ao conversarmos

Lhe falei

Sobre os reis

Sobre as leis

E a dor

E ele ensinou

Nada é melhor

Que dar amor

E receber

De volta amor

Nossa.

Que foi?

Senti uma coisa…

que fazia tempo que eu não sentia.

De ficar só com uma pessoa e me sentir bem.

Acho que alguém tá apaixonado.

Eu tenho certeza.

Hum.

- Vai? - Não.

- Eu vou. - Hum.

Eu não tenho vocação.

- Hã? - Pra sofrer por amor.

Não tenho.

- Você tem? - Claro que sofre, cara.

- Quando você se apaixona, sofre. - Claro que não.

E sofre pra caralho.

Você fica refém da pessoa e bate na merda, vai até o fim.

- Sofre. - Sofre.

Sofre, mas tem que sentir prazer sofrendo.

- Ah! - Que história é essa?

Acham que viro refém de alguém sofrendo por amor?

Eu não viro refém de ninguém, não.

Hum.

Pra mim, o amor é uma prisão que escolho pra inventar minha própria liberdade.

É muito mais simples. O amor é uma utopia.

Uma utopia que nasce do corpo.

É físico, palpável.

- Cazuza, palpável? - Acho que o amor tá no cheiro, sabia?

No cheiro do corpo do outro. O pé no fim do dia.

A boca, assim, de manhã cedo.

A gente é bicho, a gente é bicho. A gente tem que farejar pra sentir.

É isso!

Quem quer farejar que nem bicho?

- Onde tu vai, Cazuza? - Quem aqui?

- Quem quer farejar que nem bicho? - Eu, amor!

- Yara. - Hum?

Hum?

Viu o Cazuza?

Todo mundo perguntando se eu tô bem.

Não pareço estar bem? Hã?

- Não fode, porra. - Ei.

- Vem cá. - Pra onde?

- Ali. - Pra onde?

- Vamos juntos. - Não vou pra casa, Ney.

- Vem comigo. Vem. - Sai, Ney!

Pegajoso.

Shh.

- Paizinho! - Ou, ou. Ei!

- Que isso? - Quê? Sou um fantasma?

Não, não, não. Não, Cazuza.

Vem.

Não. Quem é você?

- Não! - Psiu, psiu.

Só uma última, vai.

Que cara é essa?

Tem três dias que você sumiu.

E tu aparece assim, com traficante a tiracolo.

Traficante, não.

Cheirando pó na minha mesa.

Ele é meu amigo.

Tá. Então vou pedir pra você e seu amigo se retirarem de casa, por favor.

- Não tá feliz em me ver? - Quero que saia, Cazuza.

- Não preciso sair. - Quero que saia.

- A gente acabou de chegar. - E quero que saia agora.

Ficar a noite.

- Você tá careta. - Não.

- Tá careta. - Você tá fedendo.

E você tá careta.

- Cheio de moralismo. - Sou o quê?

- Moralismozinho. - Não sabe nada de mim, garoto.

- Não sabe nada de mim. - Sei tudo de você.

- Não sabe nada de mim! - Tu é bicho ou não?

Hein?

Tu é bicho?

Sai.

Só um beijinho.

- Vem, paizinho. - Sai, Cazuza. Sai!

- Sai, garoto. Leva ele. - Deixa ele aí.

- Fica aí. - Chega, chega.

Papo. Isso é papo.

Não!

Porra, Ney!

- Caralho! Meu pó! - Leva!

- Meu pó! - Leva.

- Leva! Cazuza! - Tira a mão dele! Tira a mão!

Porra!

Sai, sai daqui. Cazuza, para.

- Tira a mão de mim. - Para. Para.

Bate no outro, porra.

- Vem. Dá outro. - Você quer?

Dá outro aqui, olha.

Sai!

- Seu bosta. - Sai.

Você não tá bem, cara. Não tá bem.

Merda.

Deixa preparado tudo aí pra gravar.

Mazzola.

Tô com a impressão de que não…

Eu não sei, cara, não tô me sentindo muito confortável…

Ney, Ney.

- Essa música… - Não te ouço.

Eu não te ouço, Ney.

Vai lá no microfone. No microfone.

Olha só, a música é ótima, a música é ótima.

Ela vai ser o hit do disco. Tô te falando isso.

É, mas sendo hit ou não, entendeu? Não tô preocupado com isso.

Vamos fazer o seguinte.

Vamos colocar sua voz na base, e a gente vê como fica.

Ai, você me conhece, quando não gosto, eu não funciono.

Não, não bateu em mim, sabe?

Eu sei, meu amor. Mas é que nem sempre bate de primeira.

Dá uma chance pra música.

Você… Vamos fazer assim, olha.

Grava,

ouve,

pensa.

Mostra pra alguém, o que você quiser.

Hum.

Se não gostar, depois a gente conversa.

Tá, se…

se eu não gostar, não entra no disco.

Tá?

Tá bom.

Beleza, vamos gravar. Vai, vamos gravar.

…de lo…

Tá muito massa, Ney. Bota no disco.

Gonzaguinha, eu não sou do nordeste.

É um forró, eu nunca cantei forró.

Entendeu? Eu fico me sentindo, sei lá, um intruso.

Não precisa se preocupar com isso.

Quem tá falando isso é o filho do rei do baião.

Rapaz, sabe o que é?

É que eu fico pensando que se você não gravar essa música,

quem é que vai gravar?

Porque presta atenção na letra.

Quando você interpreta, ela ganha um outro contexto.

Perfeito.

Porque aí debocha, provoca, torce o significado.

É muito bom.

Ney,

imagina isso no palco.

Nunca vi rastro de cobra Nem couro de lobisomem

Se correr o bicho pega Se ficar o bicho come

Porque eu sou é homem Porque eu sou é homem

Menino, eu sou é homem Menino, eu sou é homem

E como sou

Nunca vi rastro de cobra Nem couro de lobisomem

Se correr o bicho pega Se ficar o bicho come

Porque eu sou é homem Porque eu sou é homem

Menino, eu sou é homem Menino, eu sou é homem

Quando eu estava pra nascer

De vez em quando eu ouvia

Eu ouvia a mãe dizer

Ai, meu Deus, como eu queria

Que esse cabra fosse homem

Cabra macho pra danar

Ah! Mamãe, aqui estou eu

Mamãe, aqui estou eu, sou homem com H

E como sou

A água mineral!

O pessoal tá migrando pra uma festa.

- Ah, é? - Tá a fim?

Aquelas pernas ali vão?

Cobra

Homem

Pega

Come, porque eu sou é homem

Porque eu sou é homem

Menino, eu sou é homem Menino, eu sou é homem

Eu sou homem com H

E com H sou muito homem

Se você quer duvidar

Olhe bem pelo meu nome

Já tô quase namorando

Namorando pra casar

Ah, Maria diz que eu sou Maria diz que eu sou

Sou homem com H, e como sou

Nunca vi rastro de cobra Nem couro de lobisomem

Se correr o bicho pega Se ficar o bicho come

Porque eu sou é homem Porque eu sou é homem

Menino, eu sou é homem Menino, eu sou é homem

E como sou

Cobra

Homem

Pega

Come

Gostoso.

Nunca vi rastro de cobra Nem couro de lobisomem

Se correr o bicho pega Se ficar o bicho come

Porque eu sou é homem Porque eu sou é homem

Menino, eu sou é homem Menino, eu sou é homem

Nunca vi rastro de cobra Nem couro de lobisomem

Se correr o bicho pega Se ficar o bicho come

Porque eu sou é homem Porque eu sou é homem

Menino, eu sou é homem Menino, eu sou é homem

Nunca vi rastro de…

- Acho que vou nessa. - Não.

Fica.

Fica.

Dr. Marco de Maria.

- Era nisso que estava pensando? - Eu estava.

Que foi? Não combina?

Não, eu acho que tem muito "mar" no teu nome.

- Nunca tinha reparado nisso. - Tem "mar" demais até.

Vamos dar um mergulho?

- Vamos, é seu médico que tá mandando. - Não confio.

- Ah, não confia em mim? - Não confia no mar, Marco.

Você é uma pessoa completamente diferente de quem você é no palco, sabia?

O que você pensou que ia achar?

Não sei, eu pensei que você fosse mais…

impulsivo.

Não sei se essa é a palavra. Explosivo talvez.

Ah…

O palco é a minha fantasia.

É…

não sei, minha válvula de escape.

É o lugar onde eu ponho uma máscara pra conseguir extravasar.

- Sabe? - Uhum.

É o lugar onde você libera os seus demônios?

Libero. Libero todos eles.

E, ali, eu tento "desreprimir" as pessoas e a mim, também.

E o Ney da vida?

O Ney da vida? O Ney da vida sou eu.

Eu sei, né?

Mas o que ele quer?

Não quero muita coisa, não.

Eu quero um pedaço de terra, água,

bicho, mato.

Eu topo, sabia?

- Ah, é? Você topa? - Aham.

Agora, vamos dar um mergulho.

- Vem. - Não.

Um mergulhinho, um mergulho cura tudo.

- Eu prometo, cura tudo. - Ô. Será que eu vou?

- Ah. Não sei. - Então vai ficar olhando.

Vai lá, Dr. Marco.

Essas pernas, hein, paizinho?

Hum?

Não acredito.

Eu quero.

Olha o cheirinho dele, olha.

Ah.

- Vai lá, pode se servir. - Hum.

- Não vai ficar com ciúmes? - Eu, com ciúmes, Cazuza?

Nem de mim, nem de mim? Hum?

Você é a cruz que eu carrego nas costas.

Então me carrega.

- Chama ele. - Marco!

Marco!

Será que ele me viu?

Ah, viu.

Olha, eu fiz o que deu com o que tinha, tá?

Que era nada.

Ney, tô falando sério. Você tem que comer melhor.

Não pode ficar o dia inteiro na praia só com uma gema de ovo na barriga.

Por falar em praia…

o Cazuza vai te procurar, tá?

Quem?

Cazuza.

Eu vi você olhando pra ele.

- Prazer. Marco. - Cazuza.

Ah, seu ex?

- Não é meu ex. - Ah, não?

- Não. - É o quê?

Não é meu, não é seu. Ninguém é propriedade de ninguém.

Hum.

O que ele quer comigo?

- Quer transar. - Oi?

Oi, Marco.

E ele pede permissão pra você pra transar comigo.

Ele não pediu permissão, ele veio me avisar.

É diferente.

Por mim, não tem problema.

Vai lá.

Encontra o rapaz.

Entendeu?

Mas a gente precisa ficar falando sobre isso?

A gente pode não falar também, é mais gostoso fazer escondido.

- Não é isso que tô falando. - Não é o que prefere?

É pra eu ficar te contando os detalhes também?

Conta aquilo que você quiser contar.

- Tudo, que você vai querer ouvir. - Não quero ouvir tudo.

De jeito nenhum.

- Quero ouvir só o que for bom. - Talvez eu conte.

- Talvez eu não conte. - Hum.

Acorda, Cruz!

- Qual é, Ney? - Acorda pra ganhar dinheiro!

Qual é?

Acorda pro dia nascer feliz. Eu vou gravar essa música, Cazuza.

- Não vai. - Eu vou.

- Não vai. - Eu vou.

- Não vai. - Eu vou sim, Caju.

- Não vai. - Não quer tocar na rádio?

- É música de trabalho da banda, Ney. - Ah.

- Não vai. - Pois vai ser a minha, também.

Gostoso!

Todo dia a insônia Me convence que o céu

Faz tudo ficar infinito

E que a solidão É pretensão de quem fica

Escondido, fazendo fita

Todo dia tem a hora da Sessão Coruja

Só entende quem namora

Agora, vambora

Estamos, meu bem, por um triz

Pro dia nascer feliz

É, pro dia nascer feliz

Pro mundo inteiro acordar

Pra gente dormir

Dormir

Pro dia nascer feliz

Ah, não.

Essa é a vida que eu quis

O mundo inteiro acordar

E a gente dormir

Todo dia é dia E tudo em nome do amor

Ah, essa é a vida que eu quis

Procurando vaga Uma hora aqui, a outra ali

No vai-e-vem dos seus quadris

Gostoso!

Nadando contra a corrente

Só pra exercitar

Todo o músculo que sente

Me dê de presente o seu bis

Fodia pra ser feliz

Fodia pra ser feliz

Pro mundo inteiro acordar

E a gente dormir, dormir

Pro dia nascer feliz

Pro dia nascer feliz

O mundo inteiro acordar

E a gente dormir

- Oi, minha mãe. - Meu filho.

Minha mãe.

Hum.

Como é que ele tá?

Ele tá dormindo.

Não vou acordar, não.

Se deixar, ele dorme o tempo todo.

O remédio é forte.

Mãe, deixa eu te ajudar.

- Não, já tô acostumada. - Não, vou ajudar.

Pega outra… outra tábua.

E ele, mãe? Tá dando muito trabalho?

Você conhece seu pai.

Só faz o que ele quer.

Aliás, vocês dois.

- Tudo farinha do mesmo saco. - É?

A gente é parecido, é, mãe?

É.

Rígidos,

cabreiros,

difíceis de dobrar.

Só eu sei.

Sargento Matogrosso.

Hum.

Mãe, às vezes, eu acho que…

a maior autoridade que eu já enfrentei foi o meu pai.

Parece que tudo que eu fiz, minhas escolhas todas…

parece que foi só pra contrariar a vontade dele.

E você contrariou bastante, sim.

Mas ele aprendeu com você também, meu filho.

A senhora acha?

Eu lembro a primeira vez que a gente te viu no palco.

Quando a gente chegou em casa, ele foi procurar teu disco.

Ficou ouvindo lá na sala, bem alto.

Eu perguntei se ele tinha gostado do teu show.

Aí ele chegou e disse…

- Ney é um grande artista. - "Ney é um grande artista".

Hum.

Ele disse, é?

Ainda é cedo, amor

Mal começaste

A conhecer a vida

Já anuncias

A hora de partida

Sem saber mesmo o rumo

Que irás tomar

Preste atenção, querida

Embora eu saiba que estás decidida

Em cada esquina Cai um pouco a tua vida

Em pouco tempo Não serás mais quem tu és

Ouça-me bem, amor

Preste atenção

O mundo é um moinho

Vai triturar Teus sonhos tão mesquinhos

Vai reduzir as ilusões a pó

Presta atenção, querida

De cada amor

Tu herdarás só o cinismo

Quando notares

Estás à beira do abismo

Abismo

Que cavaste

Com teus pés

Ai…

- Eu fui muito duro com você, Ney. - Hum.

Eu me arrependo.

Não precisa, pai.

Não vamos ficar remoendo coisa.

Isso é passado.

Né?

A gente tá aqui agora.

Você tá aqui.

Ney Matogrosso…

meu filho.

Presta atenção, querida

De cada amor

Tu herdarás só o cinismo

Quando notares

Estás à beira do abismo

Abismo

Que cavaste

Com teus pés

Aproveite, é só nesta quinta, sexta e sábado.

Começa agora o Jornal da Tarde.

Uma doença misteriosa,

totalmente desconhecida há cinco anos,

transformou-se na epidemia mais violenta do século.

A síndrome é fatal.

Até agora, não há cura.

O vírus da AIDS não está no ar, nem no meio da rua,

mas já tomou conta da vida da população das grandes cidades.

De três a dez milhões de pessoas no mundo inteiro

estão contaminadas pelo vírus,

segundo a Organização Mundial de Saúde.

O Brasil já registrou 2.775 casos até agora.

O Ministério da Saúde informa ainda

que o Brasil tem no mínimo

trinta e quatro novos casos de AIDS.

Hum.

Shh.

Alô.

É ele.

Quando foi isso?

Quem foi dessa vez?

PARA NEY MATOGROSSO

Ney?

"O nosso amor a gente inventa."

Uhum.

"Todo amor

que houver nessa vida."

"Vida louca."

"Vida fácil."

"Eu preciso dizer que te amo."

- Diga. - Te amo.

É… "Exagerado".

"Faz parte do meu show."

Eu gosto desse repertório.

Eu gosto mesmo.

Eu acho que essas músicas, elas dizem o que você pensa do mundo,

da vida.

Tô feliz que você topou dirigir esse show.

Pode ser que seja o último.

Não precisa disso, né?

Eu tô fraco, Ney.

É, mas tuas ideias estão fortes.

Tem uma música nova que eu fiz.

Mas não sei se vai caber nesse show.

Canta pra mim.

Disparo contra o sol

Sou forte, sou por acaso

Minha metralhadora cheia de mágoas

Eu sou um cara

Cansado de correr na direção contrária

Sem pódio de chegada Ou beijo de namorada

Eu sou mais um cara

Dias sim, dias não

Eu vou sobrevivendo sem um arranhão

Da caridade

De quem me detesta

Essa música tem que encerrar o show.

Te chamam de ladrão De bicha, maconheiro

Transformam um país inteiro Num puteiro

Pois assim

Se ganha mais dinheiro

A tua piscina tá cheia de ratos

Tuas ideias não correspondem aos fatos

O tempo não para

Eu vejo o futuro repetir o passado

Eu vejo um museu de grandes novidades

O tempo não para

Não para, não, não para

Eu não consigo entender.

Não fiz nada diferente de ninguém.

Não importa, Ney.

Você tá livre.

- Isso é um alívio. - Alívio pra quem?

Que alívio, Marco?

Alívio pra mim, Ney.

Sabe muito bem que eu podia ter te…

Ai…

Às vezes, eu sinto que o meu corpo é uma arma.

Está vendo?

Não.

Isso é o que querem que a gente sinta, Marco.

É o jeito que querem que a gente pense. Não é.

Não tem culpa. Ninguém tem culpa de nada.

Você ainda vai querer ficar comigo?

Que pergunta é essa?

Pode ser que você não aguente, Ney.

Vou ficar puro osso.

Um monte de mancha na pele.

Ferida.

Meu cabelo vai cair.

Tem gente que desmaia de tanto vomitar.

Tem cefaleia crônica, tosse com sangue.

- Parou, né? Tá bom. - Diarreia fora de controle.

Chega.

Mas é, Ney.

É o que vai acontecer.

É o que acontece. Não tem médico que salve, sabe?

- Esse vírus veio pra matar a gente. - Não.

Não. Não!

Se ele veio, é pra mostrar que a gente existe!

Que a gente é humano.

Viu? E que a gente ama!

- Eu te amo, Marco. - Eu, também.

Te amo.

Eu tô aqui.

Eu tô aqui. Viu?

- Não, não, não, não. - Eu sou assim.

- Eu sou assim. - Uhum.

A gente vai passar por isso junto.

- Não vou aguentar se você ficar assim. - Não, eu vou ficar bem.

Te amo.

Pode por aqui, por favor.

Sequei

O meu pranto enxuguei

Nesse sol

E nele um rio virei

Pedra de rio

Pedra de cais

Pedra de casa e de pó

Pedra de muro e de mó

Pedra rolada de rio

Beijo a testa

Afago a morte encurvada

Cansada de tanto

Tempo viver

E no meu rio

Rio de pedra navego

Meu barco voa sem vela

Rio e navego

Sozinho

Perdido rio

De você

Ah, meu rio

Você é meu rio

E eu

Pedra de rio

Perdido rio

Ah, meu rio

Uh, uh, uh, uh, uh, uh

Uh, uh, uh, uh

Uh, uh

Eu passo nessa estrada sempre, sabe?

Sempre quis conhecer esse terreno.

- Isso aqui faz tempo que tá à venda? - Não muito.

O antigo dono tentou fazer uma estrada aqui.

Mas a primeira chuva que deu, caiu pedra, tronco de árvore.

Ah, é?

Aí a mata tomou conta de novo.

É.

A natureza fala.

Esse rio aí vai até lá embaixo.

Ele cruza toda a propriedade.

Como é que é o nome do rio?

É o Rio Mato Grosso.

Há quem diga

Que eu dormi de touca

Que eu perdi a boca Que eu fugi da briga

Que eu caí do galho e que não vi saída

Que eu morri de medo Quando o pau quebrou

Há quem diga

Que eu não sei de nada

Que eu não sou de nada E não peço desculpas

Que eu não tenho culpa Mas eu dei bobeira

E que Durango Kid quase me pegou

Eu quero é botar

Meu bloco na rua

Brincar

Botar pra gemer

Eu quero é botar

Meu bloco na rua

Gingar

Pra dar e vender

Eu, por mim, queria isso e aquilo

Um quilo mais daquilo

Um grilo menos disso

É disso que eu preciso Ou não é nada disso

Eu quero é todo mundo nesse Carnaval

Eu quero é botar

Meu bloco na rua

Brincar

Botar pra gemer

Eu quero é botar

Meu bloco na rua

Gingar

Pra dar e vender

Dizem que sou louco

Por pensar assim

Se eu sou muito louco

Por eu ser feliz

Mais louco é quem me diz

E não é feliz

Não é feliz

Se eles são bonitos

Sou Alain Delon

Se eles são famosos

Sou Napoleão

Mais louco é quem me diz

E não é feliz

Não é feliz

Eu juro que é melhor

Não ser o normal

Se eu posso pensar que Deus sou eu

Se eles têm três carros

Eu posso voar

Se eles rezam muito

Eu já estou no ar

Mais louco é quem me diz

E não é feliz

Não é feliz

Eu juro que é melhor

Não ser o normal

Se eu posso pensar que Deus sou eu

Sim, sou muito louco

Não vou me curar

Já não sou o único

Que encontrou a paz

Mais louco é quem me diz

E não é feliz

Eu sou feliz

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