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Aqui, está Moraes em criança.
Aqui, o pai e a mãe.
Nesta, temos Ó-Yoné ainda jovem.
Esta é Ko-Haru.
Moraes, quando era oficial da marinha.
Ali, é ele em Macau.
Atchan e os seus dois filhos.
Aqui, é ele em Kobe.
Sua Excelência, o Cônsul Geral.
As pessoas de Tokushima esforçaram-se muito
para recolher tudo isto e construir o Museu de Moraes.
No início,
as pessoas de Tokushima não sabiam quase nada dele.
Era apenas um estrangeiro.
Depois, pouco a pouco, as coisas mudaram.
Os jornais falaram dele.
As pessoas souberam que era português e um grande escritor.
Em suma, que era um homem importante.
Veja ali.
Nesta altura, ele morava nesta casinha,
por isso, ninguém lhe dava importância.
Mas, pouco a pouco,
tomaram consciência do seu valor.
Ali, temos as traseiras da sua casa.
Uma casa de um bairro popular da velha Tokushima.
Este é o hospital Kokawa, onde Ko-Haru morreu.
Esta é uma fotografia antiga.
O hospital ardeu durante a guerra. - Sim, sim, ardeu.
E ali está o Sr Moraes, já velho, assim vestido.
Parece Tolstoi. - Pois parece.
Usa um quimono.
Teria desejado tornar-se japonês?
Tokushima é conhecida pelos seus rios e as suas mulheres.
Em todo o mundo, junto aos rios belos
encontramos mulheres belas.
Em Portugal também?
Partilho a sua opinião.
Temos uma universidade em Coimbra, junto ao rio Mondego,
com as suas histórias de amor.
Quando Moraes estava em Kobe,
a morte levou-lhe Ó-Yoné!
Ele ficou muito traumatizado.
Decidiu deixar o consulado e viver em Tokushima,
para estar perto do túmulo de Ó-Yoné.
Aos olhos dos portugueses,
isso pode parecer estranho.
Mas, no Japão...
Não tinha nada de extraordinário...
Os altos funcionários afastavam-se do mundo.
Na sua obra, "O Bon-Odori em Tokushima"
ele abordou esse tema.
Isso pode parecer algo bizarro...
Os japoneses tinham o costume, quando a pessoa que amavam morria,
amante, marido ou mulher,
de lhes dedicar actos de devoção.
Tanto os homens como as mulheres,
desejavam que a pessoa amada
fosse feliz no outro mundo.
No Japão, é uma tradição muito antiga.
Mas que um português, como Moraes, agisse assim,
isso espantava-nos...
É por isso que um português, como eu,
ao ler "O Bon-Odori em Tokushima"
fica muito impressionado.
É um verdadeiro enigma,
uma atmosfera de outro mundo,
a alma de Ó-Yoné
que se junta ao fluxo das frases de Moraes...
Mas o que eu gostava de saber
era se em Tokushima, nessa época,
de acordo com a tradição,
se celebravam os funerais com danças.
O que me espanta no livro de Moraes
é que ele diz que os espíritos dos mortos
eram recebidos com danças.
Era apenas uma ideia de Moraes?
Que significa tudo isso para as pessoas de Tokushima?
O Sr Moraes ainda era vivo quando eu era criança.
Tanto ele como eu pudemos ver a dança do Bon-Odori.
Foi na mesma época.
Nós, crianças,
quando dançávamos,
não sabíamos que estávamos a glorificar os espíritos dos mortos.
O que queríamos era, uma vez por ano,
esquecer tudo e dançar. Que alegria!
Mas os mais velhos dedicavam essas danças
aos espíritos dos mortos.
No Japão, a dança e a religião estavam muito ligadas.
Antes do budismo, já o xintoísmo celebrava os deuses através da dança.
No Japão existe um mito.
No início do mundo,
a deusa Amaterasu fechou-se numa caverna.
Para fazê-la sair,
a deusa Amano Uzume pôs-se a dançar.
E, como era uma dança muito divertida,
Amaterasu, curiosa, veio espreitar.
É por isso que no Japão
a dança é uma forma de festejar
os deuses e os espíritos.
Esse costume passou do xintoísmo para o budismo.
Com as "Mikos"... - Sim, as dançarinas sagradas.
No teatro "Nô",
o espírito do morto surge em cena
e evoca o passado durante a dança.
Antes do "Nô", havia o ritual "Dengaku".
Dançava-se nos campos para a colheita ser boa.
Vemos assim que, para os japoneses,
dança e religião conjugam-se.
O venerável Ippen pregava o budismo
tocando música e dançando nas ruas.
O povo seguia-o e participava na dança.
Essa dança parece-se muito
com a nossa dança "AWA" dos mortos.
Tocavam pequenos sinos.
Mas o que espanta em Moraes
é que, devido às suas mágoas de amor,
a Ó-Yoné e a Ko-Haru,
ele pôde interiorizar
o sentido profundo dessas tradições.
Ó-Yoné e Ko-Haru morreram muito jovens.
Ko-Haru aos 20 anos.
Elas eram muito mais jovens do que Moraes.
Na língua japonesa, se a pessoa amada
morre primeiro,
usa-se a palavra "mujô" (mutabilidade).
É uma palavra que nos é muito cara a nós, japoneses.
O rio corre sempre no mesmo sentido
e nunca volta a subir.
A água que corre à nossa frente nunca é a mesma.
Essa palavra está gravada no nosso coração.
O Sr Moraes conhecia a antiga literatura japonesa:
cadernos, diários, ensaios,
onde predomina esse tipo de sensibilidade.
Em Portugal, os escritos íntimos
não pertencem a uma grande tradição literária
e é por isso que este livro...
nos parece algo de...
novo,
nunca antes lido,
de um género totalmente novo.
Para mim...
... é uma obra infinitamente preciosa.
Recebo o meu marujo.
Dia de lágrimas!
Primeiro dia em que me vi sozinha no carro com B.
Digo-lhe que me ame sempre.
É gelado! - Gelado?!
Neste quarteirão, muitas casas escaparam aos bombardeamentos.
Mais de 90% de Tokushima ardeu durante a guerra.
Vi fotografias nos jornais.
Incrível! Parecia um deserto.
Eis o que resta da Tokushima de Moraes.
A rua dele era mais estreita. - Sim, um bocado.
Mas as casas eram parecidas com estas.
O primeiro andar era muito acanhado, o tecto era muito baixo.
A loja ficava em baixo e as pessoas viviam em cima.
NESTA CASA
VIVEU
MORAES
RUA MORAES
Em Tokushima há dois tipos de mulheres,
A Ó-Yoné pertence ao primeiro.
Rosto fino, muito bela.
Quanto a Ko-Haru... - Esta é Ó-Yoné!
Sim, Ko-Haru não era tão bela. Tinha uma cara mais redonda.
Chama-se Otafuku em japonês.
Como as mulheres do povo.
Mas, em Tokushima,
as mulheres mais apaixonadas
não eram as mais belas.
O escultor destas máscaras, o famoso Minosuke,
tinha o hábito de dizer que lhes conferia uma expressão serena.
Pois cada mulher
deve reflectir a expressão do seu marido.
Serena? - Serena, doce.
Moraes, quando escreveu "Ó-Yoné e Ko-Haru",
já conhecia todos os mares do mundo
e todo o tipo de mulheres.
Porque razão
as mulheres de Tokushima
o seduziram tanto?
Terá sido apenas o encanto delas?
Pode explicar-me?
Desde há muito tempo
que as pessoas das regiões vizinhas
afirmam que as mulheres de Tokushima possuem um encanto misterioso.
Acho que é por essa razão que as mulheres de Tokushima
têm um sentimento compassivo e doce.
E têm muita paixão. Essas duas...
Ó-Yoné era uma mulher de grande coração
e grande doçura.
A sua sobrinha, Ko-Haru,
era uma mulher atraente, muito exuberante.
Tinha um feitio forte.
Podemos até dizer que lhe faltava algum recato.
Animada? - Sim, animada.
Há mulheres serenas, doces,
com quem os homens sonham.
Mas são mulheres sem paixão, são insípidas,
falta-lhes qualquer coisa.
E há as mulheres indomáveis, o ideal dos homens, não é?
Umas e outras têm os seus atractivos.
É costume em Tokushima
que das regiões vizinhas,
como Kochi, Takamatsu, Kagawa,
as regiões mais próximas da nossa ilha de Shikoku,
os comerciantes enviassem para cá os seus filhos.
Desde que já tenham idade para estudarem.
Durante essas estadias, eles eram atraídos
pelo temperamento das nossas mulheres.
Então, ou eles ficavam amarrados
e ficavam por cá, perdidos,
ou resistiam.
Nesse caso, faziam os seus estudos
e regressavam para casa.
Seria possível?
Sim. Se viessem a Tokushima
e não se deixassem prender pelo encanto das nossas mulheres,
eram verdadeiros homens, o orgulho da sua terra.
O Sr Moraes não conhecia este costume.
Teve de passar pela experiência.
Diga-me, Sr Rocha,
entre a Ó-Yoné e a Ko-Haru, qual escolheria?
A Ko-Haru.
Quem diria?
Talvez porque ninguém possa adivinhar
o que uma Ko-Haru vai fazer.
É sempre uma surpresa.
São mais espontâneas.
Bem ao contrário de mim.
Não gosto de gente parecida comigo.
Prefiro descobrir o desconhecido.
É por isso que no meu filme
"A Ilha dos Amores"
estava o mistério de Ko-Haru.
O que Moraes escreveu sobre ela é comovente.
Ko-Haru é como um dia claro de Outono. Ela apareceu e extinguiu-se.
Como o fogo.
KO-HARU
MORAES
No seu livro "O Bon-Odori em Tokushima",
Moraes fala do elo entre os mortos e os vivos.
Nessa época, o que pensavam disso
as pessoas de Tokushima?
O nosso "Bon-Odori",
na época de finados,
era originalmente consagrado aos espíritos.
Mas, já no início deste século,
não passava de uma simples dança.
A ideia de glorificar os mortos através de danças,
foi-se perdendo, foi-se diluindo.
Contudo,
durante a festa do "Bom", os mortos visitam-nos.
Nós rezamos e despedimo-nos deles.
E ainda assim é.
O bonzo vai às casas das pessoas e reza em frente do altar dos mortos.
Esse costume ainda sobrevive.
Mas em que medida
é que a dança dos mortos e o dia de finados
se fundiram no coração das pessoas,
mantendo viva a tradição?
Isso não sei dizer.
Mas no caso de Moraes,
Ó-Yoné, que ele amara, morreu.
Anos mais tarde, foi a vez de Ko-Haru.
Ele ia vê-las ao cemitério.
Todos os dias.
Todas as semanas, ia ao templo de Jiunan.
E a monja do templo
também ia à casa de Moraes
rezar junto ao altar delas.
Se pensarmos no ambiente em que ele vivia,
entre os mortos,
a celebração dessa festa era muito emocionante.
Assim, o que ele escreveu parece-me natural.
Não fico surpreendido.
Veja aquelas casas.
A minha casa é a segunda depois do cruzamento.
Era o caminho que o Sr Moraes fazia para o cemitério.
No regresso, passava por aqui.
Uma vez, aproximei-me dele.
Chamei-lhe Sr Charles.
E agarrei-lhe o braço. Pela manga.
Ah! Chaplin! - Sim, chamava-lhe "Charles".
Os miúdos tinham-lhe dado esse nome.
Fiquei muito orgulhosa de lhe ter agarrado o braço e dizer:
"Eu e este estrangeiro somos muito amigos!"
Eles aproximaram-se e pegaram-lhe nos braços.
Mas ele nunca se zangava. Ele dava-nos doces.
Doces?
Sim, o Sr Moraes
distribuía-os pelos miúdos na rua.
Todos os miúdos sabiam.
Ele vinha do cemitério, por aqui
e eu, depois das aulas, ficava a brincar.
O Sr Moraes chegava assim...
... com a sua bengala.
Todos diziam que ele metia medo.
Os miúdos tinham medo.
Mas enganavam-se.
Isso é o que pensa hoje... E na altura?
Na altura... Aquele corpo enorme!
Mesmo de trás, tinha uma silhueta muito triste.
O seu rosto não inspirava medo.
Reflectia tristeza, solidão.
Quando me diziam que metia medo,
eu respondia que não, que o rosto dele exprimia tristeza, solidão.
Ele passava por aqui para ir ao cemitério.
Depois de o terem visto a limpar a lápide,
os miúdos disseram-me: "Ele lambeu-a!"
À lápide?
Os miúdos diziam:
"Ele vem lavar a lápide, ele lambe a lápide."
Lambe?
Era o que eles diziam.
Lambe como os gatos. - Lambe...
Como os gatos... - Hoje, percebo que a beijava.
Mas os miúdos diziam: "O estrangeiro lambe a lápide."
E eu pensava: "Lamber? A lápide?!"
Mas hoje percebo que ele a beijava.
Os japoneses não se beijam?
Claro que não.
Há algum tempo, no meu clube de poesia,
foi proposto o tema da solidão.
Pensei logo no Sr Moraes.
Eis o que escrevi.
A Srª Akagawa?
São textos sobre o Sr Moraes.
Dez, todos sobre ele.
O primeiro:
"Hoje compreendo o seu olhar solitário".
Agora, que envelheci,
compreendo a tristeza do seu rosto.
Quando foi proposto o tema da solidão,
pensei logo no Sr Moraes.
Eis os dez textos sobre ele.
"Rindo com olhos cúmplices, as costas curvadas."
Ele caminhava assim. A caminho dos correios.
"Ainda hoje o vejo, sozinho."
"Toc, toc..."
É o barulho que ele fazia
ao caminhar assim, curvado.
Que idade tinha ele na altura?
Deixe-me pensar...
Eu ainda não andava na primária.
Tinha uns 6 ou 7 anos.
Ah, foi antes de andar na escola.
Nessa altura, Moraes ia à loja...
Foi assim.
A casa de Moraes
era ao lado da nossa.
Uma vez por semana,
quando ia ao templo,
ele parava na nossa loja
e comprava yokan e outros doces
para os altares.
Do templo? - Sim, sim, do templo.
Vejamos se ainda me lembro:
ele costumava vir ao anoitecer.
Sabe, era uma loja um bocado...
Enquanto a família jantava,
ficava alguém ao balcão.
Uma vez, era eu, uma criança.
O Sr Moraes entrou e disse:
"Oh, oh, oh..."
Ele tinha uma voz como a sua, Sr Rocha!
Por favor, diga: "Oh, oh, oh..."
Depois ele disse: "Que bom rapaz!"
Então eu fui chamar os meus pais
que estavam a jantar.
Porque eu não sabia cortar yokan.
A minha mãe veio cortá-lo,
embrulhá-lo e entregar-lho.
O Sr Moraes saiu, com a bengala.
Foi pela esquerda,
rumo ao templo. E foi isso.
O Sr Moraes devia ter uns...
... 64 ou 65 anos.
Ainda era bem rijo para a idade.
Usava sempre um chapéu
e um casaco impecável.
No Inverno, usava uma capa.
Era um idoso muito elegante.
Ainda não era o "mendigo ocidental"? - Mendigo? Nem pensar!
Nunca pensei isso!
Com a idade, ele mudou.
Há uma fotografia posterior que pode sugerir isso.
Mas eu nunca o vi assim.
Voltemos ao nosso mochi.
É uma pastelaria antiga.
O Sr Moraes veio certamente cá
comer mochi.
É a primeira vez que como mochi num local assim.
Gosta?
São deliciosos.
Encontrei o Sr Moraes uma vez.
Ainda era pequena, tinha sete anos
e já andava na escola.
Foi ao anoitecer.
Foi por aqui. Eu ia para lá e o Sr Moraes vinha dali.
Usava tamancos e tinha os cabelos desgrenhados.
Era realmente o "mendigo ocidental"!
Tive medo.
Mas como também era muito curiosa,
segui-o até à rua dele e foi aí!
Ele virou-se, como se me fosse falar.
Nessa altura, tive medo, pois ele era um estranho, e fugi.
Quando cheguei a casa,
contei à minha mãe que tinha visto o "mendigo ocidental".
Ela disse que ele não era um mendigo, não mendigava,
e que era um homem muito sábio chamado Moraes.
Deste modo, uma parte das pessoas dava-lhe o justo valor.
Ele era muito grande,
tinha um passo pouco seguro.
Foi nesse ano que morreu.
Ele usava quimono? - Sim, usava quimono.
E dava doces às crianças? - Sim, é o que se dizia.
Talvez tenha sido para me oferecer algo
que ele se virou.
Mas como eu estava a segui-lo,
no momento em que ele se virou, tive medo e fugi.
Talvez por isso, mais tarde,
tenha querido estudar melhor esse homem.
Sim, eu conheci-o.
Mais tarde, já escritora,
soube melhor quem ele era
e quis escrever sobre Moraes.
Qual é a recordação mais antiga que tem de Moraes?
Que idade tinha?
Devia ter...
... uns 13 anos.
Foi lá em baixo, na entrada do templo de Kompira.
O que tem uma escadaria de pedra? - Sim.
Na base dessa escadaria,
havia um artesão que reparava cachimbos.
Na sua carroça tinha um forno
que usava para aquecer os braseiros.
Só me lembro disso.
- Foi aí que viu Moraes? - Sim.
Em frente à carroça,
havia uns pequenos bancos
com quatro pés,
para as pessoas se sentarem.
Dois ou três bancos.
Num deles, estava sentado um estrangeiro.
Mais tarde soube que era o Sr Moraes.
Tinha consigo
uma longa bengala de carvalho.
São recordações antigas...
Ele estava sentado, o banco era baixo,
mas ele era muito grande.
Ele ficava assim, com a bengala.
E ficava a olhar para o artesão.
Uma vez, levei ao artesão
5 ou 6 cachimbos para limpar.
Eu era um miúdo. Ele não me conhecia.
Observava tudo com atenção.
Eu cheguei lá
e entreguei os cachimbos ao artesão.
Ele conhecia-me.
Ele pegou neles sem me dizer nada.
Nessa altura,
quando os entreguei ao artesão,
ele notou a minha presença.
Olhou-me fixamente
e perguntou de quem eram os cachimbos.
Eu não fazia ideia de quem era o Sr Moraes.
Ele fez-me uma festa na cabeça com ternura.
Tive medo e afastei-me.
O velho artesão chamou-me
e disse-me para não ter medo, pois o estrangeiro ia lá muitas vezes.
Foi a explicação dele.
O estrangeiro ia lá muitas vezes. - E não devia ter medo.
Foi por gostar de mim
que ele me acariciou na cabeça?
Nessa altura, compreendi.
O Sr Moraes sorriu para mim.
Aproximei-me dele e ele perguntou-me:
"De onde és?"
Eu respondi: "Vim de mais atrás, de Hokke".
Quando ele ouviu isso, mudou de expressão.
Sabe porquê? - Porquê?
Era o templo da monja.
Era o mesmo local.
Então ele disse: "Vieste de longe!" Soube então de onde eu vinha.
Depois voltei para casa.
Cinco ou seis dias após esse encontro,
a monja veio ver-nos
e contou-nos das casas onde ia rezar.
Disse ao meu pai que costumava ir rezar à casa do estrangeiro.
"Amanhã..."
"... é o aniversário da morte de Ko-Haru e irei a casa dele rezar."
Foi o que ouvi eles a falar.
Foi assim que soube quem era o Sr Moraes.
Quando foi pela primeira vez a casa dele?
Tinha treze anos.
Era Inverno, em Novembro.
Por volta do dia 20 de Novembro.
No Inverno, lá para 20 de Novembro.
Nesse dia, a monja perguntou-me se não queria
ir com ela a casa do estrangeiro.
Eu disse que sim.
Mas não fiquei muito contente, pois ainda era uma criança.
Teve medo?
Sabe, ele era enorme.
Não me lembro de muito mais.
Mas o seu rosto sempre sorridente agradava-me.
Foi essa a primeira visita.
Na segunda vez...
... que fui a casa dele,
o Sr Moraes ficou feliz
por me ver a rezar com a monja.
Disse-me com entusiasmo:
"És gentil".
Foi a sua maneira de me agradecer:
"És gentil".
"És mesmo gentil", foram as suas palavras.
Foi a sua maneira de me agradecer.
Foi por isso que ele pôs yokan
da "Casa do Sol Nascente"...
neste prato...
Está a ver...?
Este pratinho.
Ele deu-me esse pratinho para agradecer a nossa visita.
É uma recordação preciosa do Sr Moraes
que guardo religiosamente.
No seu testamento, Moraes deixou 500 yens à monja.
E o seu altar doméstico?
O local era tranquilo e ele quis que levássemos o altar
para o templo da monja.
Ouvi-o dizer isso.
Mas ele nunca falava de dinheiro.
Por isso, deixou-lhe em testamento 500 yens.
Nessa altura, 500 yens era muito dinheiro?
Sim.
Quando eu ia à festa dos mortos,
só levava 5 cêntimos. Tinha 13 ou 14 anos e...
Quanto é que um operário especializado ganhava por dia?
Um yen.
Um yen... Um bom carpinteiro, por exemplo.
Com 500 yens, podiam-se comprar duas casas.
Era bastante dinheiro.
Por causa disso, eu acompanhei-a à polícia,
para protegê-la.
Assim...
fomos buscar o dinheiro.
A monja olhava com espanto para aquele dinheiro.
Pense nisso!
Quinhentos yens!
Eu nunca pegara em 1 ou 10 yens,
e pegava agora em 500 yens!
Puseram-nos o dinheiro nas mãos...
Sabe como é a cintura de um quimono?
A cintura?
Antigamente,
usava-se guardar dinheiro, aqui, sobre a barriga.
Enrolava-se o dinheiro, abria-se o quimono na cintura,
e punha-se o dinheiro lá dentro.
Foi na cintura da monja que o colocámos, bem apertado.
Depois, acompanhei-a ao banco.
Que acontecimento! Era mesmo muito dinheiro!
Dizia-se que o Sr Moraes, depois de ter escrito "Ó-Yoné e Ko-Haru",
colocou o livro na gaveta do seu altar doméstico,
como oferenda às duas falecidas.
Anos mais tarde, descobrimo-lo.
Foi quando decidimos que o altar
seria mudado do templo da monja para este,
que ela me disse que havia um livro na gaveta.
"Isso mostra bem a profundidade dos seus sentimentos."
"Se isso lhe der gosto, tome conta do altar."
A inquietude de Moraes face ao altar de Ó-Yoné e de Ko-Haru
era importante.
Mas era a sua ligação sentimental a Ó-Yoné.
Depois, quando Ko-Haru morreu,
a monja tinha ido a casa dele rezar para a Ó-Yoné.
Ele disse-lhe: "Ko-Haru morreu."
E ela teve tanta pena dele! Durante meio dia não teve coragem de abandoná-lo.
O Sr Moraes gostava muito de flores.
Um dia...
a caminho do templo budista de Otani,
ele viu pegadas no chão
e marcas de rodas.
Entre as marcas das rodas
cresciam ervas.
Nesse sítio estavam 5 ou 6 dentes-de-leão.
As pessoas que passaram tinham-nos pisado.
O Sr Moraes, a monja e eu, estávamos nesse caminho.
Parámos
em frente das flores pisadas.
Sem saber o que fazer,
ele curvou-se sobre elas, olhando-as fixamente.
Pôs-lhes a mão e lentamente, levantou-as, assim.
Ele viu que 4 ou 5 flores se aguentavam.
Depois tentou levantar a última.
Mas ela partiu-se.
Com um ar pesaroso, ele apanhou-a.
E continuou o seu caminho, acariciando-a com a mão.
Guardou-a assim durante cerca de 1,5 km,
depois pediu à monja um copo de água
e colocou a flor no copo.
Depois, levou para casa
o dente-de-leão pisado.
Isto mostra até que ponto o Sr Moraes
tinha carinho pelas flores.
Estamos no sopé do monte Bizan,
de que Moraes tanto gostava.
É aqui que se encontram os túmulos de Moraes, de Ó-Yoné
e de Ko-Haru.
Ainda lá estão.
Mas naquela época, a família de Ó-Yoné ainda se opunha
a que ficassem todos no mesmo local.
Se se opuseram à presença de Moraes? Sim.
Ele pedira para repousar no mesmo sítio que Ó-Yoné,
mas a família dela não o consentiu.
Era um pedido inteiramente inaceitável.
Nessa época, a mentalidade das pessoas de Tokushima
era muito provinciana.
Eles pensavam que colocar no mesmo sítio
as cinzas de Ó-Yoné e de um estrangeiro iria trazer má sorte.
A ideia causava-lhes medo, repugnava-lhes.
Mas, para Moraes,
para quem o amor por Ó-Yoné e pela sua sobrinha era tão grande,
isso era uma necessidade absoluta.
Esse pedido foi um apelo desesperado.
Foi a razão
pela qual Moraes não regressou
à sua pátria.
Acha mesmo isso?
Quando eu penso na solidão do Sr Moraes
após a morte das duas mulheres
- ele envelhecia e estava cada vez mais inválido -
pergunto-me porque ficou em Tokushima
até à sua morte.
Ainda hoje não percebo bem porquê.
O que acha, Sr Rocha?
Ele quis permanecer fiel à memória delas.
Essa é uma das razões.
Para Moraes, o monte Bizan, as lápides, os templos,
tudo isto aqui...
... tornara-se o centro do mundo.
Era um altar,
o centro do universo.
Estou a compreender.
Esta escadaria é o que resta do templo do deus Hachiman.
Este templo fica no fim do bairro Iga, onde o Sr Moraes vivia.
Todos os dias ele passava por aqui,
para ir até junto das lápides lá ao longe.
Depois, voltava por aqui e regressava lentamente a casa.
Por vezes, deve ter-se sentado aqui,
onde nos encontramos.
Nestas pedras aquecidas pelo calor do sol.
Talvez ele se sentasse aqui sozinho,
e se sentisse só.
E, aos olhos das pessoas normais,
pareceria destroçado pelas saudades da sua terra natal.
Pelo menos é o que imaginamos.
Para ele, este outro mundo onde estavam Ó-Yoné e Ko-Haru
devia ser muito mais importante.
O seu coração já tinha partido para lá.
Certo... como dizê-lo... Para Moraes,
o que interessava era aprofundar isso:
como viver e morrer.
Entre a morte de Ó-Yoné e a de Ko-Haru,
uns 3 ou 4 anos,
ele teve uma espécie de revelação.
Por isso pressentia
que não podia deixar este lugar.
Aqui, surgiu-lhe a face despojada da vida.
A sua obra "O Bon-Odori em Tokushima"
fala disso, não é?
Isso não quer dizer que tenha esquecido Portugal.
Até à sua morte, todos os dias,
ele escrevia
e recebia cartas.
Mas, no fundo,
era aqui que tudo lhe surgia claramente.
Talvez ache isto estranho,
mas creio que o "destino" dele estava aqui.
Acho curioso que diga isso,
porque nós, budistas, podemos estar ou não ligados pelo destino.
No caso do Sr Moraes,
essas ligações existiam entre ele e as mulheres daqui,
entre ele e Tokushima.
Por isso, dizer que ele rejeitou o seu país
não faz sentido.
A verdadeira pátria de Moraes era o seu pensamento.
Este, apesar de ele ter aprendido isso
à custa de esforços e experiências muito duras,
tornara-se o seu reino.
As pessoas normais, mais sentimentais,
dirão: "coitadinho",
"mal de amor".
"Na sua juventude, era doido por mulheres".
Nada disso é falso,
mas é muito superficial.
Moraes era muito forte.
Tinha uma vontade de ferro,
quando tomava uma decisão, avançava sem fraquejar.
Não foi uma marioneta do destino.
Traçou o seu destino e foi-lhe fiel.
Por mais duro que fosse o caminho, ele não fugiu.
Quando chegam a uma encruzilhada, os artistas, geralmente,
devem escolher entre dois caminhos, um amedrontado, outro difícil.
Se escolher um caminho seguro, será uma pessoa normal.
Moraes foi um oficial de marinha exemplar,
um alto funcionário,
mas, sobretudo, foi um grande homem das artes.
Tinha a alma dos grandes artistas.
Tentava escrever com rigor
e encontrar o que liga os rostos,
os corações e a natureza.
O que eu acho mais doloroso,
na velhice de Moraes em Tokushima,
é que depois das duas mulheres estarem mortas...
Na verdade, Ko-Haru enganou-o,
teve um filho de outro homem...
A história dele aqui, no Japão,
lembra a do nosso grande clássico: "O Romance de Genji".
A mulher do príncipe Genji
teve um filho de Kashiwagi
e Genji acolheu a criança nos seus braços e ficou triste.
O Sr Moraes também sentiu isso.
Nessa época ele leu Makurano Soushi (O Livro de Travesseiro)
e Tsurezuregusa (Ensaios em Ociosidade).
Também deve ter lido "O Romance de Genji", não acha?
Não sei.
Às vezes, pergunto-me se essa leitura não o teria consolado
durante os últimos anos da sua vida.
A sua dor diluiu-se com o tempo.
E, mesmo traído por uma mulher deste país,
não lhe guardou nenhum rancor.
Até ao fim da vida dela manteve-se do seu lado,
fiel à memória de Ko-Haru.
Era um homem de grande coração.
É o que eu acho.
Não era um fraco...
Fraco? Não, era muito forte. Reconhecia os seus erros.
Não era um catavento.
Há pessoas
que se tornam escritores
porque não são capazes de fazer mais nada.
Moraes era diferente.
Tinha talento para tudo.
Mas escolheu a literatura
e abandonou tudo o resto.
Era um homem determinado.
No Japão, na Idade Média, temos exemplos célebres
de pessoas que, para se tornarem monges, se afastaram do mundo.
Mas, hoje em dia, ninguém tem essa coragem.
Eu, por exemplo. Bem tentei, mas não consegui.
Apareço aqui no seu filme como uma pessoa normal.
Por isso, acho que ele tinha uma grande força de vontade para o ter conseguido.
Como o invejo.
Diga-me, o Sr Rocha...
que está aqui no Japão...
... há 7 ou 8 anos, a seguir o rasto de Moraes,
e que poderá ficar aqui muitos anos mais,
nunca encontrou uma Ko-Haru?
Ainda não sei. - Ainda não sabe?
Tradução (do francês) Gonçalo de Sousa
Revisão do japonês Sayo Masumoto Monteiro
Legendagem Sara David Lopes
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