All language subtitles for A Dogs Will 2024_track3_[por]

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Original subtitles

♪

♪

- [pássaro gorjeia] - [águia grasne]

[música de mistério] ♪

[música animada] ♪

[mulher ri] Meu Deus.

[vozerio ao fundo]

[Chicó narra] Eu vou contar pra vocês

a espantosa, divertida, trágica, jamais imaginada,

vida, paixão e morte de João Grilo.

Desde a desgraçada aventura que teve ao topar,

para mal de seus pecados, com os cangaceiros desalmados,

seguindo por seu apoteótico julgamento no Céu,

o terrível susto chacoalhante que teve ao se deparar com o Diabo,

as inúmeras artimanhas e tramoias que usou para confundir o demônio,

tudo findando com sua espetacular ressurreição,

por obra e graça de Nossa Senhora,

numa enfiada de acontecimentos que não dão sossego uns aos outros.

[vozerio ao fundo]

[Chicó] Essa história, verdadeiramente verídica,

foi composta em versos metrificados

por Chicó Furiba, este que vos fala.

[porta range]

Foi bem defronte à igreja, a tal da Compadecida,

que um chamado João Grilo, com jeito de suicida,

buliu com os cabras da peste.

[disparo]

Findou perdendo sua vida.

[música de tensão] ♪

[suspira]

[chora] Ai, meu Deus, o pobre do João Grilo vai morrer.

Deixe de latomia, Chicó.

Parece que nunca viu um homem morrer.

Uns 20 anos passaram,

e a marca ainda tá lá.

Reparem a mancha encarnada que está no chão para provar.

Não há sabão nem escova que faça o sangue apagar.

E mal João embarcou, cobriu-se o campo de um véu.

A alma, sendo invisível, chegou às portas do Céu,

vestindo a triste mortalha de quem dá conta de réu.

Cristo foi o juiz.

E o "demo", de promotor, acusa o Grilo,

e já diz: "Sua vida foi um horror!

Aqui no seu julgamento, você vai sair perdedor".

Aí João disse assim: "Lasquei-me já de saída".

E então lhe veio uma ideia, melhor de todas da vida.

- Pediu à Nossa Senhora... - Mãe de Deus de Nazaré!

...chamada a Compadecida.

Vou ver o que eu posso fazer.

João foi um pobre como nós, meu filho.

E teve que suportar as maiores dificuldades

numa terra seca e pobre como a nossa.

E Cristo, não sendo besta, ouviu a mãe foi na hora.

Dê-lhe, meu filho, então, outra oportunidade.

[Chicó] João reviveu, mas sumiu.

Ninguém não diz quando volta, mas volta!

Virgem Maria, valei-me, Nossa Senhora!

[música melancólica] ♪

Meu verso acaba-se agora com rima bem verdadeira.

E sempre que conto ele, vêm dez mil réis pra algibeira.

Hoje, eu estou dando por cinco, talvez não ache quem queira.

[borbulho]

[ruídos metálicos]

- [galinha cacareja] - [fala ininteligível de Chicó]

[funga]

[curto-circuito]

[uivo ao fundo]

[música de mistério] ♪

[galinha cacareja ao fundo]

Ó, ser imaterial,

quem és tu, criatura das profundas?

Viestes por bens ou por males?

És de sangue, carne ou de matéria ectoplasmática?

[João Grilo] Eu sou o que sou.

[Chicó] É João Grilo, é?

[João Grilo] O enviado dos céus e dos infernos

pra carregar as almas pecadoras e os lesos.

Pois tudo isso, e eu te levarei!

Ai, eu paro! Eu largo! Eu mudo!

Nunca mais pecarei, ó, enviado do Senhor!

[João Grilo] Lá é tão frio, Chicó!

[grita] Prometo rezar nove novenas por tua alma.

[João Grilo] Eu prefiro um prato de cuscuz com leite.

Oxente, e alma come comida, é?

[João Grilo] Se eu estivesse morto,

minha barriga não estava roncando desse jeito.

É João Grilo, é?

Você já perguntou isso, Chicó.

Sim, mas eu estava perguntando para um morto,

agora estou perguntando para um vivo.

Sou eu, em carne e osso, e um restinho de cabelo. [ri]

Hum... Você está diferente.

[João Grilo] Estou igual a mim mesmo.

Hum... É igual, mas ao mesmo tempo é diferente.

Você acha que não envelheceu, não, é?

Mas minha cara é de abestado, já estou acostumado.

Ah, dê logo esse abraço, homem.

Pra gente pular logo essa parte e ir logo ao que interessa.

Tá cheirando que só dentro daquela panela.

Só pode ser tu mesmo, João Grilo. Não tem outro, não!

E não sou eu, abestalhado?

Meu amigo João Grilo.

Não teve um dia nessa vida que eu não lembrasse de você.

[João Grilo] Eu também, Chicó.

Todos os dias, eu lembrava de você.

No que alguém contava uma mentira, eu lembrava.

[ri]

Se você soubesse o que tô sentindo aqui dentro agora...

Você, eu não sei,

mas eu tô sentindo um cheirinho de queimado. [ri]

[Chicó] Misericórdia! Esqueci da panela!

[João Grilo] Nem parece que queimou.

Mas não queimou. Foi só o cheiro mesmo.

[João Grilo] Como pode o cheiro de uma coisa queimada

chegar antes da coisa queimar?

- [Chicó] Estava ruim? - Estava bom.

- [Chicó] Então pronto. - O que você andou fazendo?

Ah, fiquei por aqui

espiando a maçaranduba do tempo.

Vamos aventurar comigo, Chicó?

Vou nada. Acho melhor, não.

Já tô sentindo um cheirinho de complicação no ar.

Cheirinho de coisa complicada.

Desse que vem antes que a coisa se complique.

Só pra depois a gente se perguntar:

"Por que não dei ouvidos ao meu nariz?".

As novas presepadas de João Grilo e Chicó. Já pensou?

- Já. - [hesita]

Já pensei e já desisti, que eu sei como é isso.

Vou indo na sua conversa, e quando eu vi, eu já fui.

Pra que servem essas latas?

Essa aqui está com o fumo

para o caso de eu acordar com vontade de fumar.

- E a outra? - Essa outra é vazia

para o caso de eu acordar sem vontade.

[riem]

[música suave] ♪

[canto de galos]

♪ [música suave finaliza]

[porta abre]

[João Grilo] O que mais lhe prende aqui, se dona Rosinha lhe deixou?

Se ela resolve voltar um dia, como ela vai me encontrar?

E você acha que ela pode voltar?

Eu acho. Mas o que eu mais acho mesmo

é que eu nunca vou desistir de esperar.

- [João Grilo] Hum. - [lobo uiva]

Ai, Taperoá parece assombrada.

[Chicó] Faz seis anos que não chove.

A seca anda levando tudo:

planta, serviço, emprego, comida e faz favor.

- Tá ruim desse jeito? - Uhum! Está pior.

Galinha está tão cara, tão cara,

que no caminho que se vai,

ela não bota mais ovo porque não acha pinto pra botar dentro.

Isso enquanto as bichinhas não morrerem de fome.

Pior que morrer de fome é morrer de comida.

Quem morre disso aí?

Aconteceu com Jureminha.

Sua irmã?

Não. Foi uma cabra que eu tive.

[nota de mistério] ♪

[música suave] ♪

[Chicó] Nessa época, a seca também ficou medonha.

E minha cabra ficou bem um mês sem comer nada.

[balido]

- [João Grilo] Um mês sem comer? - [Chicó] Nem beber.

E então eu tive uma ideia alumiada.

Vou fazer essa cabra desaprender a comer de vez.

Toda manhã, eu levava Jureminha para o pasto seco,

e ela passava o dia ali.

Ai, ai. Então por que não deixava ela passar fome em casa mesmo?

E como ela ia aprender a passar fome sem ver que não tinha nada pra comer?

[João Grilo] Fome se vê com a barriga.

Se quiser, conte a história do seu jeito.

Eu, não. A história é sua.

O final é triste.

A cabra morreu de fome?

Não. A bichinha morreu foi de comida.

[Chicó] Um dia, ela encontrou um pasto mais verdinho

que mesa de bilhar.

[balidos]

[cabra mastiga]

[João Grilo] Engordou de novo?

[Chicó] Nada. O íntimo de suas entranhas

recebeu a presença alimentar, passou pelo piloro,

o pulmão se contraiu, e ela esticou, João.

[cabra bale]

[chora]

Pelo menos, morreu alimentada, né?

É aí que você se engana.

O mal de Jureminha, que Deus a tenha, foi ter comido.

Ela perdeu o costume.

Quer dizer, se ela tivesse aguentado mais uns dias,

era capaz de aprender a passar a vida toda sem comer.

- Sim. - E continuava andando, vivendo,

amando, tudo do mesmo jeito.

Sim. Até morrer de outra coisa.

E como sua cabra encontrou um pasto bem verdinho

no meio dessa seca medonha?

Não sei. Só sei que foi assim.

- [nota cômica] - [galinha cacareja]

[ri]

[João Grilo] Hum!

[galinha cacareja]

Com todo o respeito,

tá correndo na cidade que foi o senhor que eu matei.

Se foi, não me avisaram, não.

Este é seu Joaquim,

aquele cangaceiro que atirou em você, lembra?

Não gosto de matar, não.

Mas quem mandou inventar que aquela gaita era milagrosa?

Eu vim saber se era verdade que você tinha revivido.

O senhor está dizendo que sou um mentiroso, é?

Mas é poeta.

Nas suas histórias, a verdade acaba e você continua.

Às vezes, a verdade nem começa.

Mas uma coisa é certa: você tá vivo.

E é menos uma morte em minhas costas.

Louvada seja a minha Nossa Senhora,

que fez do morto, vivo, e de um assassino, inocente!

[João Grilo] Não acredito que acabaram acreditando

na sua mentira.

Aponte uma mentira na minha história. Uma.

Uma, que nunca morri na vida.

Duas, que eu nunca voltei da morte.

[hesita] Quer dizer que você não levou um tiro?

[João Grilo] Levei.

- E não caiu estatelado bem aqui? - [João Grilo] Caí.

- E depois não acordou bonzinho? - [João Grilo] Acordei.

- E isso foi o quê? - Biloura!

O tiro passou de raspão, olhei para o ferimento, desmaiei no susto.

Isso foi milagre, João.

Biloura é diferente.

Biloura, a pessoa desacorda e acorda ligeiro.

Eu sei disso porque vivo assombrado.

Eu sou, com muito orgulho, o maior frouxo

que eu mesmo já conheci, e vivo "abilourando".

Você passou um tempo morto no Céu.

Foi julgado.

Se não fosse por Nossa Senhora...

E por que será que não me lembro de nada disso?

Porque quem volta do Além

se esquece de tudo que viveu lá,

que é pra não sair por aí contando os segredos da eternidade.

Como você sabe disso?

Como você não sabe, João? Todo mundo sabe.

Sabe como, Chicó? Se quem volta não lembra de nada.

E você vai querer que milagre agora tenha explicação, é?

[coral] ♪ Do céu, do céu ♪

♪ Eu não deixarei... ♪

- Hoje é dia de santo? - É por ocasião de sua volta.

E eu lá virei santo agora?

Vieram louvar Nossa Senhora por conta de sua ressurreição.

Mas já que você diz que a história que conto é mentira,

vá lá e conte a verdade para o povo.

♪ Luz Senhora das Candeias ♪

♪ Guardiã dos meus caminhos ♪

♪ Limpa os olhos das areias ♪

♪ Tira a dor de cada espinho ♪

♪ Trança as linhas De um poema ♪

♪ Brilha no seu diadema ♪

♪ Vim rogar ♪

♪ A ti, Rainha ♪

♪ Sou de todos, sim Alívio de quem chora... ♪

- [trovão] - ♪ ...Olha pra mim ♪

♪ Ora por mim, Senhora... ♪

[comemoram]

♪ ...Olha pra mim ♪

♪ Ora por mim, Senhora... ♪

[homem 1] João Grilo, já que tu estivesse no Céu,

me diga onde é que Deus mora.

[ri] Me diga você onde é que Ele não mora.

[música suave] ♪

[mulher] João Grilo, quantas estrelas tem no céu?

Nove milhões, oitocentos e setenta e três mil.

[mulher] Oxente, como é que tu sabe disso?

- Se duvida, suba lá e vá contar. - [Chicó ri]

[homem 2] Então me diga, João Grilo, qual o segredo da vida?

[hesita]

Não posso contar porque é segredo.

[porta abre]

João!

Tenho muito medo de morrer.

Não se preocupe, porque, estando vivo,

sua morte não existe ainda.

E quando ela vier,

você não está mais vivo pra se preocupar, rapaz. [ri]

[buzina de caminhão]

♪

[vozerio]

- [homem 3] Vai ter água pra todo mundo? - Pra todo mundo? Tem.

[homem 3] Que Deus queira.

Que alvoroço é esse?

É o caminhão de água da prefeitura.

[João Grilo] Água de onde, rapaz?

A prefeitura compra do Coronel Ernani.

E ele vende a água por quanto?

Dá de graça para o povo votar no candidato da situação.

[João Grilo] E quem é o candidato da situação?

[juntos] É o Coronel Ernani.

Ele está trocando água por voto?

É melhor que dar o voto de graça.

[João Grilo] O povo paga imposto à prefeitura,

a prefeitura compra a água do coronel.

Depois distribui a água para o povo dizendo que o coronel que deu?

E o que é pior é que esse poço, que hoje é do coronel,

ele tomou de umas fazendas vizinhas das terras dele.

- Expulsou das terras? - Nem precisou.

O poço era na divisa com a fazenda.

Aí o coronel foi empurrando a cerca na marra

até passar para as terras dele.

Então ainda deve ter água nas terras dessa família.

Tem nada. Eles até arribaram de lá, porque era o único poço que tinha.

Não custa procurar.

Não dá sorte...

Para as bandas das terras do coronel, vou nada.

Já pensou a gente ter um poço só da gente?

Água para o pomar de fruta.

Fruta e água pra fazer suco.

Água pra tomar banho tomando suco de fruta.

Água, Chicó!

[música emotiva] ♪

Eu até iria com você.

O problema é que a fazenda do coronel

é longe que só a gota!

Tá doido, é? São oito léguas!

Assim, a gente só chega amanhã.

[João Grilo] A gente não vai a pé.

Estás pensando em amorcegar?

Estava.

Ainda está aí?

♪ Amigo é coisa pra se guardar... ♪

A gente não tem mais idade pra isso, não.

Fale por você, meu filho.

Eu bebo água da fonte da juventude.

- ♪ ...Dentro do coração... ♪ - Eu sou um broto!

♪ ...Assim falava a canção ♪

♪ Que na América ouvi ♪

♪ Mas quem cantava chorou ♪

♪ Ao ver seu amigo partir ♪

♪ Mas quem ficou ♪

♪ No pensamento voou ♪

♪ Com o seu canto Que o outro lembrou... ♪

[Chicó] Para as bandas das terras do coronel

é bastante diferente de "do lado do poço do coronel".

Não estudou geografia, não, foi?

E eu tenho culpa se a água corre bem aqui

debaixo dos meus pés e bem do lado do poço do coronel?

Ô, homem pra achar que sabe tudo.

Chicó, onde tem um poço é porque sempre tem

um lago subterrâneo por baixo. Não sabia?

- É nada. - Uhum.

[vozerio ao fundo]

- Por que só eu estou cavando? - Alguém tem que começar.

Pois tá na hora de você continuar.

- Eu já descobri onde estava a água. - E cadê?

Você só faz descansar.

[assusta] Minha Nossa Senhora!

É o automóvel do Coronel Ernani.

Tá pra nascer homem mais frouxo que você, Chicó.

Não tem vergonha, não?

Vergonha, eu tenho, mas medo, eu tenho mais.

- Segura as pregas. - Nem sei o que é isso.

Você que é valente que resolva.

- Confie em mim. - Confio nada.

Depois quem fica engraçado na frente do problema sou eu.

[Coronel Ernani pigarreia]

Meus parabéns e boa noite, coronel.

Obrigado.

Só é pena que a noite de vocês tenha começado toda errada.

Melhorou bem muito com sua presença.

Ah, fiquem à vontade aí pra esburacar meu pasto.

Perdão, patrão, é que Chicó estava com muita sede.

Eu achei que tinha água aqui.

Pensei que era pra sepultura de vocês.

Ainda não, coronel, chefe.

[Coronel Ernani] Vocês atrás da água da minha cacimba...

Só se for pra morrer.

Ai, com sua licença, coronel, chefe, patrão, general,

mas a sua cacimba está do outro lado da cerca.

A minha terra só vai até esta cerca.

Mas a minha água continua por debaixo da terra.

E ela vai indo, vai indo, vai indo.

- E vai até onde? - Vai até onde ela acaba.

Essa cerca, eu não vi, coronel.

Não viu porque ela fica debaixo da terra

cercando a minha água.

Mas eu não aconselho o camarada a tentar cavar

pra ver se cavou dentro ou fora, não.

Porque se ele der a sorte de encontrar água,

é sinal de que cavou dentro.

Aí deu azar.

Por sorte, a gente deu o azar

de não encontrar a água do senhor, coronel,

chefe, patrão, general, presidente da República.

Continuem procurando, que vocês vão dar o azar de encontrar.

- Seu Joaquim Brejeiro! - [Joaquim] Sim, senhor!

Dê uma daquelas boas pisas nesses cabras,

que com cem anos ainda vão se lembrar.

Não gosto de dar pisa, não, mas já que tem que dar...

Oxe, mas é o miraculado da Compadecida!

[Coronel Ernani] Eu lá acredito nessas besteiras? Dê a pisa.

Pois devia, coronel.

Você agora quer me dar aula de religião?

Seu Joaquim está falando de política.

Ele pode me estuporar na peia

que meu voto vai continuar sendo sempre do senhor.

Já esse povo ignorante acredita que eu sou abençoado

em Nossa Senhora pra deixar de votar.

[Coronel Ernani] Mas não se fie muito nisso, não.

Nossa Senhora pode mandar muito é lá em cima.

Mas do meu chapéu pra baixo mando eu.

[ignição de carro]

[música suave] ♪

[homem] Oi, João Grilo.

Rico só adula pobre feito eu quando é tempo de eleição. Oi.

E o coronel lá precisa de seu voto, é?

Ah, mas agora que eu fiquei famoso,

ele pode conseguir uma ruma de voto ficando meu amigo.

Eu nunca sabia que já tinha aparelho de rádio

pra vender em Taperoá.

Tem, mas é só na loja de seu Arlindo.

E aqui já tem emissora de rádio?

Tem. É a emissora de seu Arlindo.

- E o que o povo gosta de ouvir? - O único programa que tem.

- Qual é? - É o programa de seu Arlindo.

[riem]

[Arlindo, no rádio] Para você que procura um novo amor

ou quer reencontrar um amor perdido,

estamos dando início a mais um

"De Alguém para um Outro Alguém".

E o primeiro recado de hoje

é de uma certa "Mariposa Apaixonada"

para o seu "Belo Indiferente".

E a música que ela oferece é...

["Maple Leaf Rag" toca] ♪

♪

Onde tu arrumou dinheiro pra comprar um rádio?

Seu Arlindo abriu um crediário.

Tu é besta? Crediário é um jeito do homem ganhar duas vezes:

vende o "birimbelo" e vende os juros.

Eu não comprei juros, eu comprei foi um rádio.

E seu Arlindo fez tudo em suaves prestações mensais.

Os juros vêm nas suaves prestações mensais.

Todo mês um dinheirinho a mais.

No fim das contas, você comprou um rádio, mas pagou foi dois.

Como eu não tive mais dinheiro pra poder pagar a prestação,

foi somente o custo da entrada mesmo.

Eu achei econômico.

Seu Arlindo montou um programa de música

na rádio dele...

[Arlindo, no rádio] Oferecimento, Loja Magazin.

Tão fácil pagar que você compra sem querer.

O povo compra os aparelhos de rádio na loja dele

pra ouvir os programas de música que são dele.

Ó! E ele ainda aproveita pra fazer propaganda da loja dele,

no programa de música dele, que é na rádio dele.

É tudo dele!

Mas da loja só, não.

Ele também faz propaganda dele pra prefeitura.

Ele é candidato a prefeito?

[Arlindo, no rádio] Vou modernizar a educação,

modernizar a saúde e modernizar as modernizações.

Tá aí outro que vai gostar bem muito de ser meu amigo.

[povo] João Grilo! João Grilo! Ele é o Salvador!

[vozerio]

Esse carinho todo de vocês, me dá é sorte.

João Grilo! Figura ilustre!

Há quanto tempo não lhe vejo?

É a primeira vez.

Mas já ouvi muito falar de sua pessoa.

- Tá servido de um café? - [João Grilo murmura]

Tem bolo de quê?

Tem preferência de milho ou de mandioca?

De milho e de mandioca.

[povo] Tchau, João Grilo!

Taperoá precisa de um homem feito o senhor, seu Arlindo.

[Arlindo] Tá só querendo me agradar.

É, também.

Mas o senhor acaba de provar que é muito inteligente

adivinhando que eu só estava falando isso

porque eu estava querendo lhe agradar.

- Tá querendo me agradar novamente? - Está vendo?

Taperoá precisa de um homem inteligente feito o senhor.

Vamos derrotar as forças do atraso.

Agora, cuidado.

Coronel Ernani está comprando muito voto

distribuindo água de graça.

Aqueles "mortafome"

que vão mendigar água numa lata não podem votar.

Noventa por cento são analfabetos e não têm direito a título de eleitor.

Mas o pouquinho de pobre que vota

já é muito mais gente que os ricos junto tudinho.

- E é quem decide eleição. - [Arlindo resmunga]

Hum! O senhor precisa ficar mais conhecido pela massa.

É justamente pra isso

que eu detenho o monopólio da comunicação

e me tornei um apresentador de rádio.

Seu programa é muito bom, mas só para os namorados.

O povo mesmo não está acompanhando.

Não posso me rebaixar a uma retórica demagógica

pra poder agradar ignorante.

Contrate outro apresentador pra se rebaixar pelo senhor.

Quem?

Vamos pensar juntos.

Alguém que fale a fala do povo e que seja muito popular.

- [estática de rádio] - Já foi locutor?

Já fui camelô.

Sabe projetar a voz?

Eu "male male" tenho as primeiras letras do alfabeto, doutor.

Mas você tem Nossa Senhora do seu lado.

Rádio é bom pra variar.

E eu ainda vou cobrar menos que um locutor importado.

["Ave Maria" instrumental toca] ♪

[João Grilo, no rádio] Boa tarde, Taperoá.

Todos os dias, na hora da Ave Maria,

eu vou apresentar esse programa.

Fé em Deus e pé na tábua.

Já que a morte é certa,

tem que acertar na vida também, que é pra dar empate.

Bote fé. Bote fé.

Perder a fé só vai me atrasar ainda mais.

A conta que faço é a seguinte: se eu tiver fé na vida eterna,

mas quando eu morrer não tiver mais vida, eu não perco nada.

Agora, se tiver, ganho o Céu por ter acreditado.

Faça uma fezinha na vida e ganhe sem perder nada.

Eu não quero dar conselho.

Como diz o ditado: "Se conselho fosse bom, era de graça".

E esse nem de graça é, porque seu Arlindo está pagando.

[todos riem]

[Arlindo, no rádio] Bote fé no mais capaz.

Vote no que é mais lindo.

Vote no que faz mais. Bote fé, que é seu Arlindo.

[Coronel Ernani grunhe] Vamos ver se esse João Grilo

é mesmo bom de ressuscitar!

- [João Grilo] Ih! - [balido]

Estou na dúvida se lhe arranco a língua fora

ou se lhe aperto o pescoço até sua alma sair pelo fiofó!

Seu Arlindo não falou nada de propaganda política.

Só me contratou pra um programa de rádio.

[exaltado] Um programa com o maior cabo eleitoral da cidade!

O maior cabo eleitoral dessa cidade é Nossa Senhora.

Se o senhor me juntar com ela, vai ter os dois maiores.

- [geme de dor] - [Coronel Ernani] Juntar como?

[pensativo]

O que se faz quando se quer homenagear um milagre da Santa?

Uma estátua.

Olha que ideia boa o senhor está dando!

Fazer uma estátua gigante de Nossa Senhora

com a minha figura ajoelhada aos pés dela.

[resmunga] E eu vou acabar indo para o Céu, né, não?

De tanta adulação à Nossa Senhora.

Só falta agora acertar a minha parte.

E você lá sabe fazer estátua?

Eu vou posar de modelo para ela.

Desde quando ficar parado é trabalho?

É de joelho, rapaz. O senhor acha que é fácil?

[Coronel Ernani resmunga]

[porta range e fecha]

[João Grilo] Se prepare

que, daqui a pouco, a gente vai ficar rico!

[debocha] Com seus dois salários?

[João Grilo] Nada.

Se patrão pagasse bem empregado, ele não era rico.

Pense num povo que não vale o que o gato enterra!

Patrão, pior coisa do mundo. Imagine dobrado.

A gente vai ganhar bem muito é com seus versos mesmo.

"A espantosa ressurreição de João Grilo,

por obra e graça de Nossa Senhora."

Vai ficar conhecida no estado todinho

graças a uma estátua gigante da Compadecida

que o coronel vai construir.

Taperoá vai encher de turista.

[música animada] ♪

[vozerio]

♪

[Chicó] Eu vou contar pra vocês

a espantosa, divertida, trágica,

jamais imaginada, vida, paixão e morte de João Grilo.

Desde a desgraçada aventura que teve ao topar,

para mal de seus pecados, com os cangaceiros desalmados,

seguindo por seu apoteótico julgamento no Céu,

o terrível susto chacoalhante

que teve ao se deparar com o Diabo,

as inúmeras artimanhas e tramoias

que usou para confundir o demônio,

tudo findando com sua espetacular ressurreição,

por obra e graça de... Nossa Senhora!

♪ Pra gente se ver... ♪

Numa enfiada de acontecimentos que não dão sossego uns aos outros.

♪ ...Deus que me segure agora Eu vou me apaixonar... ♪

Eu não acredito no que vejo.

Ônibus? Turista? Posto de gasolina?

♪ ...Como quem desconcertado Desaprende a andar... ♪

Cadê a pureza?

O sertão tá se corrompendo.

Quando eu saí daqui era tudo de verdade.

As pessoas vinham nos cavalos.

Era tudo tão primitivo, tão belo. Não acha?

Eu prefiro ônibus porque é bem mais macio.

Não me decepcione.

Não me diga que o senhor não é autêntico.

- O senhor é autêntico? - Autêntico, eu não sou, não.

Eu sou é asmático.

Pela sua resposta, dá pra ver que você é autêntico.

A senhora é da capital?

[suspira] Como você adivinhou?

Oxe. Igual se reconhece passarinho.

- Olha a seriema! - [Clarabela] Onde?

- [Chicó] O canário-real. - [Clarabela surpresa]

[Chicó] Olha o azulão!

- O barbudinho! - [Clarabela] Cadê?

Olha a moça que chegou da capital.

Ai, eu não acredito que você é poeta.

Eu sou uma amante da arte popular.

Eu tenho aqui as minhas raízes.

[homem] Clarabela.

Eu sou a filha do Coronel Ernani.

- [homem] À sua disposição. - Dona Clarabela?

Ah, você lembra de mim?

Lembro demais. A senhora era tão bonita...

Era? [arfa]

Não! Era, porque, na verdade, agora bonita é pouco.

Um prazer.

Quanto custa?

É novidade, é lançamento.

Então, um é dois, três é quatro, três é cinco,

e seis, eu não sei porque nunca vendi tanto.

Vou levar.

[hesita] Uma?

Todas. Não se avexe, não.

Me leve na fazenda.

Agora eu tive certeza que eu vim foi pra ficar.

♪ Esse estado É o melhor estado ♪

♪ De se estar... ♪

[suspira]

♪ ...Quando aquele que se ama... ♪

- [Clarabela grita animada] - [porta de carro bate]

Meu pai, há quanto tempo!

Olha! Quase não lhe reconheci com essa pintura toda na cara.

De longe pra não estragar a "maquilagem".

[Coronel Ernani] Mas olhe pra você.

Tá mais enfeitada do que bicicleta de matuto.

Gostou? É de uma estilista famosa.

Chama-se Chuva no Sertão.

Ah, quem dera.

Ai! Papai, que saudade que eu estava do sertão!

Um calor dos infernos!

[Clarabela] O canto das juritis!

Um fedor de titica de galinha...

[Clarabela] E a vida pura!

A plantação secando...

A vida renovada.

O gado se acabando, menina.

Isso é de lavar a alma!

Se tivesse água.

Meu pai, é como diz o poeta: o sertão tá dentro da gente.

O sertão é o fim do mundo.

Aposto que você não aguenta um mês.

Como o senhor é materialista.

Nem sei como pôde fazer uma filha tão espiritual como eu.

- ♪ Luzes que acendem lá fora... ♪ - [suspira]

♪ ...Pra gente se ver... ♪

[Chicó] Foi tanta estátua,

tanta estátua que dona Clarabela comprou

que eu vou passar mais de meia-hora embrulhando.

Não sei o que você tem pras patroas se agradarem tanto.

É, meu filho. Não tenho tutu, mas tenho minha psicologia.

O homem mais a mulher é uma balança.

É questão de humanidade.

Sei disso porque trafego há muito tempo nessa massa.

Você é pobre, Chicó.

Não devia se meter com filha de gente rica.

[Chicó] Eu tenho três fraquezas nessa minha vida:

preguiça, verso e mulher.

Se lembre do que aconteceu com o pai de dona Rosinha.

Você quase ficou sem uma tira de couro.

Sim, mas no final eu me casei com Rosinha e meu couro ainda está inteirinho.

Por pouco tempo.

Logo, logo, Coronel Ernani lhe esfola

quando descobrir seu enxerimento com a filha dele.

[choraminga]

[música suave] ♪

[galo canta]

Dona Clarabela é cheia dos manejos.

Ela me chamou de autêntico,

rústico, burocrático, aconchegante.

E mais uma ruma de nome difícil.

Ela é toda aparelhada, cheia de vocabulário.

Cada macaco no seu galho.

[Chicó] É nada.

Fui logo dizendo "je t'aime". Ela ficou toda molenguinha.

"Je t'aime"?

Sim. Quer dizer "formosa" em japonês.

É difícil, mas eu aprendi.

Você devia ficar no seu lugar. A pessoa é para o que nasce.

[Chicó] É nada. A pessoa muda até antes de nascer.

Que conversa é essa?

Não estudou biologia, não? Eu falo as coisas e provo.

Não precisa, não.

Você vai dizer que é mentira, mas a história é verídica.

Na barriga da mãe,

todo macho já foi fêmea, e toda fêmea já foi macho.

Como você sabe disso?

Eu me lembro de quando estava lá.

[ri] Na barriga da sua mãe?

Por quê? É proibido?

Não, não. Pode contar.

Antes de nascer, eu era uma menina linda.

[música suave] ♪

[Chicó narra] Acontece que minha mãe já tinha uma ruma de filha!

Tudo menina-moça.

E tinha uma vontade danada de ter um menino.

Quando ela viu que vinha menina,

pense numa mulher brava da bubônica.

Daí ela lembrou do poder da mente.

Eu sei disso porque também sou telepático.

Ela danou-se a pensar em coisa de homem.

Cueca suja, navalha de fazer barba, bafo de pinga,

aroma de cigarro, peito cabeludo.

E, na última hora, eu virei o disco.

[Chicó murmura] Mamãe!

E como sua mãe sabia que você ia nascer menina?

Não sei. Só sei que foi assim.

[gargalha]

[música suave] ♪

A senhora gosta um bocado de boneco de barro, né?

Eu sou uma amante das artes.

Uma colecionadora.

Uma marchand.

Que diabo de piteira comprida molestada!

A fumaça já chega fria na boca, né?

[riem]

Que coisa pura.

Agora já posso morrer e dizer pra todo mundo

que eu já vi uma piteira.

[comovida] É por isso que eu gosto do povo.

O povo é tão primitivo, tão puro, tão naive, tão folk,

tão "encantadoramente" anacrônico.

A senhora deve ser muito inteligente,

porque fala umas palavras tão difíceis

que a gente chega esmorece.

Inteligente é você.

A sua poesia é linda.

- A senhora acha? - Demais.

Pois estou pensando em fazer uma engraçada.

É a história de uma gata que pare um cachorro.

Quando a gata pare, em vez de gato, é cachorro.

Já pensou na raiva do gato?

Que criatividade borbulhante, Chico.

É "Chicó".

Ai, que nome gostosinho.

Venha cá. Venha, Chicó.

Venha que eu quero lhe fazer uma massagem.

Que diabo é isso?

É assim: deite aqui,

- que eu lhe pego por trás. - [voz fina] Por trás...

E vou amolengando, assim, bem devagarzinho,

como quem prepara a massa.

Aí eu agrado, eu esfrego, eu amolego.

Parece que eu tô entendendo.

A senhora não me tente, não.

Se eu quisesse um amorzinho gostoso com você, poderia?

- [geme] - A senhora é branca e lisa

que nem macaxeira.

Ai, então aproveite, Chicó,

que eu quero esgotar a taça do prazer até o fundo.

[vozerio]

Misericórdia.

[música de suspense] ♪

Lascou-se foi tudo.

[Joaquim resmunga]

[Clarabela] Corre, que meu pai lhe mata de pancada.

[Chicó] Se eu não morrer antes dos nervos.

[Clarabela] Entre ali no tacho, homem!

[gagueja] Mamãe!

[Coronel Ernani] Avie, seu Joaquim Brejeiro.

Leve aquele tacho para o Sítio do Tatu.

[Joaquim] Sim, senhor! [grita]

[Coronel Ernani] Oxe, cabra mole.

Levar?

Já não lhe falei que ia vender?

E quanto foi que lhe ofereceram?

Cinco mil.

Eu consegui um comprador melhor.

Quem?

Apareça aí, Chicó.

[Joaquim] Oxe, oxe!

[engatilha arma]

Um feliz boa tarde a todos.

Esse miserável não tem um pau pra dar num gato!

Mas com a chegada dos turistas, a vida dele melhorou bastante.

Quanto você está oferecendo?

[pensativo] Eu estava pensando em...

- Doze contos. - Doze contos?

Engraçado que o senhor anda e conhece todo mundo por aqui

e conseguiu um comprador pior do que o meu.

- Seu Joaquim Brejeiro! - Senhor!

Ajude a levar esse tacho pra esse cabra ir embora

o mais ligeiro daqui.

Espere aí, que eu não vou entregar

a mercadoria imunda desse jeito.

Seu Joaquim Brejeiro!

Senhor!

[Coronel Ernani] Faça o serviço,

mas não tire o olho desses dois.

[Joaquim] Pode deixar, coronel.

Olhe bem direitinho. Tá todo encrostado por dentro.

Ali, olhe, tá bem sujo.

- Aqui? - Aí, isso. Um pouquinho mais pra baixo.

Vá descendo mais um pouquinho, assim.

- [Joaquim] Aqui? - [Clarabela] Aí sim.

Aí sim! Aí!

[arfa] Aí!

Ali, rapaz, preste atenção.

- [Joaquim] Onde? - Naquele cantinho ali.

[ambiência urbana]

Eu vou contar pra vocês

uma história verdadeiramente verídica!

- A vida, paixão e morte de João Grilo. - [João Grilo cantarola]

As inúmeras artimanhas que usou pra confundir o demônio

e sua espetacular ressurreição,

por obra e graça de Nossa Senhora.

Valha-me, Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré.

A vaca mansa dá leite, a brava dá quando quer.

A mansa dá sossegada, a brava levanta o pé.

Valha-me, Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré.

Você fazendo o seu trabalho de João Grilo é uma coisa muito impressionante.

Você me deve ainda uma outra parte pela minha história ter entrado na sua.

Ai, é?

Então tenho que pagar a parte de Nossa Senhora também.

Também não é assim, né, Chicó?

Se fosse, tinha que pagar pra Jesus, para o Diabo

por tudo que eles já fizeram nessa história.

- E não tem, não, João? - [João Grilo] Não, Chicó.

Esses aí só cobram pelos pecados que nós cometemos, graças a Deus.

Amém.

- Nós tudo... - Juntinho.

- Louvado seja! - [Chicó resmunga]

[música romântica] ♪

♪

O liquidificador está em liquidação!

É verdade que esse bicho mói melhor que pilão?

Oxe! Muito melhor.

E pra você, eu faço em 12 prestações.

[hesita] Não, obrigado.

Vai um conjuntinho de panela?

Fogãozinho, geladeira, telefone?

Eu só queria oferecer uma música

no seu programa "De Alguém para um Alguém Outro".

Para quando seria?

[pensativo] Para hoje.

Comprando no dia são dois contos de réis.

Vai comprar pra amanhã, não?

A pessoa destinatária dificilmente escuta na primeira vez, hein?

Quanto mais tocar, mais chance da pessoa amada ouvir.

É a lei da probabilidade.

E amanhã é o mesmo preço de hoje.

E depois de amanhã é o mesmo preço de hoje também.

Dá seis contos de réis. Agora pra você, Chicó,

pagando hoje, pacote de três sai quatro.

- [gaveta fecha] - O pacote com uma dúzia é quanto?

Uma dúzia, não oferecemos.

Mas se você adquirir quatro pacotes de três,

quatro contos cada pacote, dá 16 contos de réis.

Mas só tenho quatro.

Fica de entrada, e você paga os dez que faltam

em 20 parcelas de 500 contos com juros de 3%,

com correção monetária de dois.

Mas é 20, 500, 3 ou 2?

Deixa que calculo aqui, você só faz assinar.

Eu prefiro com o dedo, que a garantia é maior.

Então escreva seu oferecimento,

que depois faço as devidas correções.

Eu prefiro gravar com minha voz. Posso?

Você é um analfabeto?

Não, senhor.

É que meu verbo sai melhor falando do que escrevendo.

[ruído de gravador]

Ofereço esta gravação a um certo alguém

com um nome de certa flor.

Melhor dizendo, florzinha.

E mais não preciso dizer.

Pois quando as ondas da rádio alcançarem vossa escuta,

a senhora saberá

que esta canção é para a senhora

e que sou eu que ofereço.

["Como Vai Você?", de Chico César, toca] ♪

♪ Como vai você? ♪

♪ Eu preciso saber da sua vida ♪

♪ Peço a alguém Pra me contar sobre o seu dia ♪

♪ Anoiteceu e eu preciso só saber ♪

♪ Como vai você? ♪

♪ Que já modificou a minha vida ♪

♪ Razão de minha paz já esquecida ♪

♪ Nem sei se gosto mais De mim ou de você... ♪

Uma semana e nem sinal de dona Rosinha.

Quem sabe ela mora longe

ou não pode vir porque tem um compromisso por lá.

Será que ela está num lugar onde não pega a Rádio Magazin?

É difícil uma pessoa estar ouvindo uma rádio

bem na horinha que vai passar o anúncio.

Se eu tivesse dinheiro, eu botava um anúncio de hora em hora.

Até ela escutar.

[buzina ao fundo]

[no rádio] ♪ ...Razão de minha paz Já esquecida ♪

♪ Nem sei se gosto mais De mim ou de você ♪

♪ Vem ♪

♪ Que a sede de te amar Me faz melhor ♪

♪ Eu quero amanhecer ao seu redor ♪

♪ Preciso tanto me fazer feliz ♪

♪ Vem ♪

♪ Que o tempo pode afastar nós dois ♪

♪ Não deixe tanto a vida pra depois ♪

♪ Eu só preciso saber ♪

♪ Como vai você... ♪

Dona Rosinha.

Oi, Chicó.

A senhora ouviu o meu recado?

Umas dez vezes.

[pensativo] Não arrumou um carrinho menor pra vir, não, foi?

Eu virei caminhoneira.

Gostou?

Com a senhora dentro, qualquer roupa fica bonita.

Como você aguentou ficar tanto tempo sem me ver?

♪ ...Vem ♪

♪ Que o tempo pode afastar nós dois ♪

♪ Não deixe tanto a vida pra depois ♪

♪ Eu só preciso saber ♪

♪ Como vai você... ♪

["Como Vai Você?", de Chico César finaliza]

[galo canta ao fundo]

Quando a senhora foi embora, eu parei de gostar até de mim.

Como vou continuar gostando de um sujeito

que Dona Rosinha deixou de gostar?

[exaltada] Eu deixei?

Você não apareceu porque não quis.

- Apareceu onde? - Você não viu o bilhete que lhe mandei?

Eu vi, mas não li.

Não leu? Por quê?

Porque eu não sei ler.

E você não me contou isso antes por quê?

Eu tenho vergonha de não saber.

Eu vou ler pra você.

Se você tivesse me contado antes, eu não ia ter passado tanto tempo

achando que você que não quis fugir comigo.

Fugir por quê?

[Rosinha] "Chicó..."

Começa com Chicó, seu nome.

Vai ser a primeira coisa que vou lhe ensinar a escrever.

"Chicó,

meu pai disse que se eu não lhe deixar agora mesmo,

ele vai enfiar o seu pescoço pelo espinhaço adentro

e arrancar o seu coração pela boca afora.

Mas, se você quiser, a gente pode viver juntos, longe daqui."

Olha a sua besteira.

E por que não me contou isso direto em vez de escrever?

Pra você ficar mais à vontade pra escolher.

Mas tá! Se eu soubesse disso, eu tinha topado com seu pai!

Você só diz isso porque ele já morreu.

Não, senhora! Eu posso ser analfabeto,

mas frouxo é uma coisa que eu nunca fui.

Eu sou que nem prego cavado em pau-ferro!

Me quebro todo dentro, e não saio... [resmunga]

Oxe!

E você ia ter coragem mesmo?

Coragem, eu não sei, mas eu ia do mesmo jeito.

Porque maior que o meu medo de morrer,

é o medo de perder a senhora.

Chicó, você é o frouxo mais valente que existe.

♪ Vem ♪

♪ Que a sede de te amar Me faz melhor... ♪

Seu Arlindo falou que esse ano ele vai fazer a maior festa da Padroeira

que Taperoá já teve.

Só que vai ter que ser bem na frente da loja dele.

Ah, ele quer ser dono da festa da Padroeira agora, é?

Foi o que falei para ele.

Se for desse modo, o senhor vai ter que fazer uma outra,

só que bem na frente da estátua.

Oxe, na frente da estátua?

Foi o que eu disse a ele.

Se for assim, o senhor vai ter que fazer uma outra festa,

só que em frente à sua loja.

Qual é o orçamento?

Só pra montar o palanque, o marceneiro cobrou dois contos.

Ele que vá para o Diabo, que não pago nem com a molesta!

Hum! Conversa vai, conversa vem,

ele disse que queria viajar.

E precisava comprar um cavalo.

[ri] Só 8.200, só.

Vale o investimento.

Juntando a cela mais os arreios, 8.900.

É salgado, mas vá lá.

Mais um burro para o empregado,

"beabá", baby, noves fora, nada.

Nove mil e quinhentos cruzeiros.

Nove mil e quinhentos tabefes! É o quê?

O senhor quer que o empregado vá a pé?

- Eu quero é que os dois se danem. - [João Grilo ri]

Sua obra tá mais do que superfaturada.

Nem comissão eu vou tirar.

Não vai. Porque, no que depender de mim, nem festa vai ter.

O senhor vai deixar todos os votos para o coronel?

[grunhe] Esses votos estão saindo caros demais.

Mas tem um jeito de o senhor pagar só metade.

Que jeito?

Ah, os senhores botam a festa na frente da igreja

e dividem as despesas. Amém?

[badalar de sinos]

Como não descobri que você não sabia ler?

Você levava a lista de compras e trazia tudo certinho.

Na missa, seguia o livro do ofício palavra por palavra.

Aprendi tudo decorado que nem faço com meus poemas.

[batidas na porta]

[música de mistério] ♪

Eita! Achei que ia derrubar.

A senhora deve ser um certo alguém

com o nome de certa flor.

Dona Rosinha para os íntimos.

Clarabela, muito prazer.

O prazer é todo meu.

Chicó deve ter lhe falado de mim.

Falou, não. Deveria?

- [Chicó] Dona Clora! - Clara.

- Bola! - Bela.

Algum problema?

Não que eu saiba.

E você, Chicó?

Algum problema com a dona "Clorabola"?

Na ocasião em que a gente se conheceu,

ele não disse que era casado.

Ah, é que a gente andava separado.

Ele também não disse.

- Mas a senhora perguntou? - Não.

Então deve ter sido por isso.

Eu fiquei sabendo tudo pela rádio.

Agora a senhora já sabe de tudo.

E a senhora de quase nada.

Eu tenho certeza que o Chicó vai me contar.

Será?

- Dona Clora... - Clara.

- Dona "Clorabola". - Bela.

- Bela. Ela é "falha"... - Filha.

Filha do Coronel Ernani.

E pelo enxerimento da moça e sua falta de jeito,

naquela tal ocasião que ela falou, vocês devem ter tido um caso.

[grita] O quê? Não!

Pode dizer, Chicó.

Foi culpa da massagem!

Ah, teve massagem no meio?

Na verdade, foi no começo.

É um problema que eu tenho

quando uma mulher dá um cheiro em meu cangote...

[pensativo] ...vai me dando, assim, uma fraquejada nas pernas,

que só vai me deitando.

Aí depois também começo a dar um cheiro no cangote dela,

e aí depois disso é uma agonia, é só agonia.

E aí, quando percebo,

já estão bulindo na minha mobília.

É difícil ficar sem namorar.

Eu sei como é.

Não é? É o quê?

Comigo acontece a mesma coisa.

Quando um homem dá um cheiro no meu cangote...

[suspira e geme]

...vai me dando aquela fraqueza nas pernas

que só vai me deitando.

- Aí eu começo a... - [pede silêncio]

Prefiro ficar sem saber os detalhes.

Então por que você não faz massagem no meio

e vê com os próprios olhos o que acontece?

♪ ...Vem ♪

♪ Que o tempo pode afastar nós dois ♪

♪ Não deixe tanto a vida pra depois ♪

♪ Eu só preciso saber ♪

♪ Como vai você? ♪

[Coronel Ernani] Valha-me.

Pra onde vai?

Tenho que voltar pra capital, pra concluir o curso de teatro.

Você troca mais de curso do que macaco de galho.

Eu tenho culpa se recebi o chamado da arte?

A beleza salvará o mundo.

O que vai salvar o mundo é a chuva.

O sertão seco é mais sertão!

O que seria do teatro regionalista sem a seca?

O que sustenta o seu teatro é a nossa lavoura!

Sem a chuva, a nossa lavoura se acaba

e o seu teatro vai junto!

Mas eu não posso ficar aqui eternamente!

Meu pai, eu quero ir-me embora!

Eu preciso rever as minhas amigas do clube!

[suspira]

Você não achava o sertão o melhor lugar do mundo?

[choraminga]

[música suave] ♪

[galo canta ao fundo]

Hum, dona Florzinha!

[Rosinha] Finalmente!

Hum! Vai fazer meu café coado?

Que café, Chicó? Tô apressada pra trabalhar.

E posso lhe esperar para a janta?

Que janta, Chicó?

Eu tô indo buscar uma carga no Maranhão.

[estalo de beijo] Só volto semana que vem.

- [cricrilar de grilo] - [porta abre e fecha]

♪ Um cri-cri de grilo dali ♪

♪ Um cri-cri de lá ♪

♪ Cricrilar de grilo é sinal Que tem grilo a circular ♪

♪ Grilo no forró Presepada no arraiá... ♪

[mulher] Desculpa aí, compadre.

♪ ...O que será que vai ser? ♪

♪ O que será que será? ♪

♪ Será que será dessa vez ♪

♪ Que o grilo vai se ferrar? ♪

♪ Um cri-cri de grilo dali ♪

♪ Um cri-cri de lá ♪

♪ Cricrilar de grilo é sinal Que tem grilo a circular ♪

♪ Grilo no forró É presepada no arraiá... ♪

Minhas senhoras e meus senhores,

essa é a maior festa da Padroeira que Taperoá já teve.

Vamos, então, chamar ao palco nossos patrocinadores?

Como os dois mearam a despesa da festa,

vamos chamar os dois ao mesmo tempo.

Os dois são candidatos a prefeito.

Os dois merecem seu voto.

- [Arlindo] Sai da frente! - Os dois merecem seu aplauso.

[Coronel Ernani] Cheguei.

[ovacionam]

[plateia 1] Coronel! Coronel!

[plateia 2] Arlindo! Arlindo!

Arlindo! Arlindo!

[Coronel Ernani] Essa eleição tá mais difícil de levar

do que carregar água em balaio.

[João Grilo] Assim que é bom de ganhar.

Eu não sabia que o coronel tinha tantos votos.

[João Grilo] É, mas o senhor vai virar.

Bote umas crianças no colo, alise umas cabeças.

[Arlindo] Arrume umas bem limpinhas.

- [Coronel Ernani] Você tem algum plano? - Eu tenho vários.

Com mais um conto de réis, a gente desempata.

Eu pago dois contos a mais

pra você poder seguir o plano que eu lhe disser certinho.

Já estou achando o plano do senhor muito melhor que o meu.

Você vai subir no palanque e declarar que vota em mim.

[tosse] Veja bem, Seu Arlindo,

o meu voto sempre será do senhor, mas o coronel não pode saber.

Chicó me deve pra mais de cem contos de réis no crediário.

Se você não me apoiar, eu boto ele no protesto.

- Ele vai pra cadeia e falece por lá. - [João Grilo arfa]

Nós estamos numa democracia.

Arlindo não pode lhe obrigar.

Já obrigou, coronel.

Você vai declarar bem alto que vota em mim.

Quero ver o que ele vai fazer.

[João Grilo] Ele vai se vingar em Chicó!

[exaltado] E eu vou me vingar em você!

[murmura] E se correr, o bicho pega.

Se ficar, o bicho come. E vice-versa, ao contrário.

Calma, Chicó.

Toda vez que você fala "calma", a gente já tá pra se lascar.

Toda vez a gente quase não se lasca e não fica sempre organizado?

Pois eu estou cansado dessa agonia de ficar organizado e ficar lascado,

ficar organizado e ficar lascado.

Uma hora, a gente vai se lascar, João!

- [homem] João Grilo! - [Chicó] Isso aí não tem jeito.

Diabo de homem que não me ouve!

[vozerio]

Tive uma ideia pra não ter que escolher nenhum dos dois candidatos.

- Pois os dois vão lhe matar. - Não do jeito que a gente vai fazer.

- O jeito que tem é a gente fugir! - E sou homem de fugir?

- Pois é minha especialidade. - Vai ficar e me ajudar.

Como?

Vá para o meio do povo e grite meu nome bem alto

quando eu fizer assim.

[Chicó choraminga]

[ovacionam]

- [plateia 1] Coronel! Coronel! - [plateia 2] Arlindo! Arlindo!

[candidatos riem]

[João Grilo] Povo de Taperoá,

todos esperam que eu declare meu voto.

Mas quem sou eu pra declarar? Eu...

[assoa nariz]

...apenas um pobre sertanejo,

que nem vocês.

Que "male male" aprendeu as primeiras letras do alfabeto

pra poder tirar o título de eleitor.

Por isso, eu peço a Deus que me ajude a escolher.

E como a voz do povo é que é a voz de Deus,

são vocês que vão escolher por mim.

[Coronel Ernani] Hum?

Hum!

Preste atenção, meu povo.

O próximo prefeito tem que ser temente a Deus.

[sussurra] É o João.

Fale mais alto.

[sussurra] João! João Grilo...

- [vozerio] - João de quê?

João Grilo é o homem. É o homem, gente.

É João Grilo!

João Grilo! João Grilo!

[todos] João Grilo! João Grilo!

João Grilo! João Grilo!

[Coronel Ernani] "Vambora"!

[Arlindo] Sai da frente!

Sai daí! Sai!

O povo endoidou!

[exaltado] Você fez tudo de caso pensado.

A estátua pra Santa e o programa de rádio

lhe projetaram na cena política e alavancaram sua candidatura.

Não, senhor.

Desista da candidatura!

Vão nos acusar de tê-lo forçado.

Não precisam desistir de nada, não.

Basta eu ficar em último lugar.

E deixar o topo para os senhores.

Você só esqueceu de combinar isso com o povo!

Agora você ganha até de Jesus Cristo!

Não! O bispo ficou com a gota com essa história de milagre

e está vindo aí pra acabar com essa blasfêmia.

[povo] João Grilo! João Grilo!

João Grilo! João Grilo!

[Chicó] Por obra e graça de Nossa Senhora,

numa enfiada de acontecimentos

que não dão sossego uns aos outros.

[motorista] Ponto final, gente.

Foi bem defronte à igreja...

[Antônio e Chicó] A tal da Compadecida, que um chamado João Grilo...

Com jeito de suicida...

[Antônio] Buliu com os cabras da peste,

findou perdendo sua vida.

Quem é você?

Antônio do Amor,

como eu sou conhecido nas altas rodas da malandragem

do estado da Guanabara e adjacências.

[pensativo] Sim, mas o senhor estava lendo

os versos que eu mesmo escrevi. Pode ir indo.

O quê? Você é Pintassilgo de Sirinhaém?

- De onde? - Aí, pessoal!

É o Pintassilgo de Sirinhaém! Pode pedir autógrafo!

- Olha aqui! - [Chicó] Pintassilgo de onde?

De Sirinhaém! Aqui, ó! Tá na capa!

"A vida, paixão e morte de João Grilo,

seu apoteótico julgamento no Céu e sua espetacular ressurreição

por obra e graça de Nossa Senhora."

Por Pintassilgo de Sirinhaém, que é ele!

[Chicó] Não, não! Eu sou Chicó! Daqui mesmo!

Quem escreveu e viu a espetacular ressurreição,

por obra e graça de Nossa Senhora, no momento original do acontecido, fui eu!

E não esse tal de Pintassilgo!

E cadê a prova impressa, publicada,

exposta e noticiada?

[resmunga] Então, pra desempatar quem é o dono dessa história,

só apelando para o historiado!

João, tem um tabacudo aí, todo saliente, que...

Antônio está aqui?

Você conhece?

- Fui eu que mandei chamar. - Oxe, pra quê?

[homem 1] João Grilo!

[homem 2] Ei, João Grilo!

João Grilo!

- Antônio! - [Antônio ri]

Prazer em lhe rever!

[Antônio grita animado]

Chicó, Antônio...

Do Amor!

Só não sei por que tem amor no meio.

Porque ele é amoroso.

Já foi casado pra mais de dez vezes.

Pois ele vai me fazer passar fome

se vender pela metade do preço uma cópia da Santa,

só que feita lá no Japão,

por uma máquina que nem comer, come.

Hoje é sempre depois de ontem! Não se pode deter o progresso.

E nem a minha falência.

Vendam juntos para quem está indo

e para quem está voltando.

- E o roubo dos meus versos? - Me chamou de ladrão?

Ai, ai. São dois amigos. Não quero briga.

Não quer, mas achou. É ele ou eu.

Ou eu ou ele.

Tanto faz. Só tem vocês dois mesmo em ordem diferente.

Não vou escolher.

Chicó é meu amigo para rir e para chorar.

O melhor que tenho nessa vida.

Antônio do Amor é meu sócio, que é amigo por lei.

Ou apesar da lei!

Mas é sócio do quê? Da onde?

Foi no tempo que andei pela capital federal.

[João Grilo] Olha a toalha de plástico!

Olha a toalha de plástico!

Toalha de plástico!

Na minha mão, o preço faz até vergonha de tão barato que é.

O café bate assim e desce direto!

É mais moderno, melhor e mais barato que a toalha de pano.

Toalha de plástico!

[João Grilo narra] Antônio era meu "tapia",

um parceiro do camelô que serve pra tapear a clientela.

[música de samba suave] ♪

[João Grilo narra] Fazia que nem me conhecia.

Elogiava bem muito a mercadoria

e atraía o povo pra comprar.

[João Grilo] Olha a toalha de plástico!

Toalha de plástico!

Foi o Papa que me mandou vender barato.

O Papa é João 23, mas na minha mão é 19.

E é material de primeira!

É feito do plástico japonês, que é o melhor plástico do mundo.

- É. - E tá uma pechincha!

Eu vou levar logo três pra ir trocando de cor.

[João Grilo narra] Antônio em serviço era mesmo um ator de drama.

Não tinha idade nem procedência.

Eu não marco toca.

[João Grilo narra] Virava paulista, seminarista,

operário, militar reformado, da ativa, atleta,

espanhol, um míope celibatário.

É a primeira vez que vejo camelô virar mercadoria.

Não foi pra vender folheto que lhe chamei aqui, Antônio.

Tenho um trabalho bem melhor para você.

[Antônio] E é pra fazer o quê?

Me ofender bem muito, de tudo que for pior.

Oxe! Isso aí eu faço de graça. Pode começar?

Você não serve, Chicó.

- A ofensa tem que ser de gente séria. - Eu!

- Gente de qualidade. - Sou eu!

- Ofensa de ninguém é nada. - Oxe!

E ofensa dá dinheiro, é?

Se for de um bispo,

quem sabe.

[Arlindo] Trampolineiro!

[Coronel Ernani ri]

Com esse sermão na missa de domingo,

João Grilo tá liquidado, Eminência.

[imita sotaque estrangeiro] Não faço mais que minha obrigação

em preservar o bom nome, o decoro,

a honradez, a retidão, a integridade...

Já falei decoro?

Falou, mas é sempre bom repetir pra poder fixar.

Que nem no rádio, né?

Vai ser bom que só a gota

pra acabar com a fama daquele amarelo.

Por outro lado, a Igreja vai perder

a contribuição desses fiéis

que estão vindo do Brasil inteiro.

Gente que vem de fora não vota pra prefeito.

Ah, mas a Igreja perde renda.

E nós perdemos a eleição para João Grilo.

Vamos oferecer uma indenização.

Mas...

o mais importante que o prejuízo material

é o prejuízo espiritual.

Milhares de pecadores estão chegando em Taperoá

e se convertendo à fé cristã por causa do milagre.

Mas é por isso que o senhor tem que agir rápido.

Senão o João Grilo pode acabar igual a Padre Cícero,

com mais poder que a Igreja.

O senhor seja louvado!

- [Coronel Ernani resmunga] - [Arlindo] Aqui, ó.

O senhor também.

[música de samba suave] ♪

O combinado era metade, metade.

- Um agora é metade de quatro? - Fazer bispo é mais difícil.

Bispo é fácil, é só batina e sandália.

Bispo é risco duplo: é cadeia e Inferno.

É justo.

[badalar de sino]

Na hora do sermão, diga que eu menti, mas não me chame de mentiroso.

Pô, mas aí é o mesmo que trocar seis por meia dúzia.

De jeito maneira!

Mentir, todo mundo mente um dia.

- Mentiroso mente sempre. - [resmunga]

[imita sotaque estrangeiro] Queridos irmãos,

vamos ouvir algumas palavras de Bíblia.

"Devolva a Bíblia para a prateleira

depois de ler." [pigarreia]

Vamos refletir sobre essas sábias palavras

da necessidade de recolocarmos as coisas

em seus devidos lugares.

Os pingos nos is!

Os pingos "na" j!

E as cedilhas nos cê-cedilhas!

Hoje, nós vamos repor a verdade.

[grita] E a verdade é que isso aqui é uma mentira!

"A vida, paixão e morte de João Grilo,

seu apoteótico julgamento e sua espetacular ressurreição,

por obra e graça de Nossa Senhora"

é uma ficção fraudulenta!

É um sacrilégio pecaminoso!

Vocês acham que Nossa Senhora ia deixar a Europa

pra fazer milagre em Taperoá?

Isso é fruto do casamento

entre o fanatismo e a ignorância!

[música de suspense] ♪

[vozerio]

Ficou até mais bonito sem minha cara.

[pede silêncio] Vocês ainda não deram o pé da cidade?

A gente vai ficar escondido por aqui mesmo.

Se eles descobrem a lorota, vai ser um sururu dos diabos.

Ninguém vai achar que a gente se escondeu

bem na casa do bispo que sentou o pau na gente.

[Arlindo, no rádio] Ontem o vento da revolta varreu Taperoá.

O povo descobriu que a ressurreição de João Grilo

era uma farsa inventada por ele

para ganhar a eleição de prefeito.

[freada brusca]

[música de tensão] ♪

[batidas na porta]

[Chicó] Ai! Misericórdia!

[Antônio] Cai fora!

[Chicó] Misericórdia! Te acharam, João, se esconde!

- [Antônio] Vai! - [João Grilo] Ai, meu Deus!

[Rosinha muxoxa]

[destranque de porta]

Eminência?

Sou Antônio.

Bispo Antônio.

Antônio, só.

- Do Amor. - Respeite sua batina, homem de Deus!

Do amor divino, minha filha! Do amor divino!

[Chicó] Pois deixe de fuleiragem

com a minha esposa, seu peguento! Oxe!

[Clarabela] Arlindinho?

Eu vim trabalhar de atriz na sua rádio.

E que personagem a senhorita sabe fazer?

A ingênua, a cômica ou a mulher fatal?

Todas.

Eu faço desde a mulher devassa, destruidora de lares,

até a mocinha pobre indefesa, que foi abandonada,

e viu-se obrigada a vender o próprio corpo

para alimentar os seus filhos.

[suspira profundo]

[grita]

- Tá contratada. - Ai! Ótimo!

Então eu vou interpretar um monólogo

com todas essas personagens?

Não precisa.

Eu estava procurando uma atriz para uma novela de rádio.

Mas você precisa saber

se eu atendo todas as suas expectativas.

- Claro que atende. - [Clarabela suspira]

Você é a única atriz que tem em Taperoá.

Hum? [suspira]

[imita sotaque estrangeiro] Não é pecado.

[fala inaudível]

Também não é pecado.

Essa mentira de vocês não vai durar muito tempo.

É só até eu perder a eleição.

[Antônio] É tudo natural.

É da "naturaleza", é tudo natural.

Os candidatos podem até se darem por satisfeitos,

mas o povo vai ficar com raiva de vocês pra sempre.

É mesmo, João. A gente vai passar a vida escondido, é?

Perder a eleição é só a primeira parte do plano.

O povo vai ficar de bem com a gente

quando eu der a segunda volta do parafuso.

Ei, lembra aquela vez que eu me matei

e você quase morre de susto,

mas eu tinha escondido uma bexiga embaixo da camisa?

Eu escondi embaixo da camisa!

Você não vai puxar essa história antiga de novo, né?

Agora a gente vai fazer a mesma coisa, só que na frente de todo mundo.

Veja que cena bonita vai ser!

[vozerio]

[João Grilo narra] Eu chego e começa o rebuliço de gente,

aí você aparece gritando: "João Grilo, cabra safado!"

[Chicó grita] João Grilo, cabra safado! Seja homem!

Já que sua mãe não foi!

Se prepare que eu vou lhe matar de morte bem "matadinha".

E se algum amarelo vier de melodia para o meu lado,

que venha!

[prolongado] E que venha!

Dou-lhe uma lapada no "forogobaite",

que até os netos vão nascer zarolhos!

- Pode atirar! - [disparo]

[grita]

Eu ressuscito na frente de todo mundo.

E todo mundo vai acreditar no milagre de novo.

E eu lá vou usar Nossa Senhora pra enganar o povo!

Mas você não acredita que eu ressuscitei?

Da outra vez, você ressuscitou, João.

Mas o povo parou de acreditar no milagre que você acredita, Chicó!

Vai ser uma mentira a favor da verdade. Demência!

Uma mentira que vai acabar matando vocês.

Tá querendo morrer, é?

E não vai ser dessas mortezinhas bestas "pei-buf", não.

Vai ser bem devagarinho.

Eles vão socar uns pedacinhos de pau na orelha

e vão rodar lá dentro.

Depois, vão enfiar uma faca de aço penetrante

até rasgar o pano do fígado para o sangue inundar as tripas!

E por fim, vão meter seis balas para o infarto do seu miocárdio!

[João Grilo] Deixe estar, meu amigo.

A segunda volta do parafuso no plano, eu dou sozinho.

[música melancólica] ♪

Eu não posso abandonar um amigo em risco de vida.

O que você pode fazer por ele é morrer. Só.

E me deixar viúva.

A senhora sabe o quanto eu lhe amo, dona Rosinha.

Mas a culpa de João Grilo estar nessa enrascada é minha.

Eu que comecei essa história fazendo a fama dele com meus versos.

Chicó...

Não vou ficar aqui pra lhe ver morrer sem poder fazer nada.

[badalar de sino]

[vidro estilhaça]

[Antônio balbucia]

Está na hora de arribar.

Qual é a pressa?

Sua missão acabou.

Estou querendo tirar mais uma casquinha

desse meu personagem. [ri]

É por causa dessas suas casquinhas

que vão acabar descobrindo seu disfarce

e prendendo esse bispo safado.

[grita] Demência!

[soluça]

Ah, meu chamego! Minha dor! Meu feitiço!

Oxente!

O que o senhor quer se enxerindo para o meu lado?

Meu estilo é agarrado.

Meu agarro é no aperto. Meu aperto é apressado.

[suspira] Fale de longe.

Deixe de cochicho no meu pé de ouvido.

Eu não consigo me afastar!

Você tem um visgo danado.

Se meu marido lhe pega aqui,

vai ser um sururu dos 600 diabos!

[Arlindo grita] Eita!

E eu lá tenho medo de corno?

[Clarabela repetidamente] Ai, ai, Virgulino!

Ai, como você é autêntico!

♪ Luzes que acendem lá fora ♪

♪ Pra gente se ver... ♪

Não posso ir embora sem antes vender meus produtos.

Só se tirar os João Grilos dessas estátuas tudinho.

Ninguém mais acredita nesse milagre.

Eu paguei mil cruzeiros! É muito!

Hoje tá valendo um total de zero.

Eu dou cem.

Adeus, Antônio, e boa viagem.

[voz embolada] E por que você quer pagar cem

- por uma coisa que vale nada? - É pra aproveitar as luzinhas.

[ri] Só isso?

Só isso.

O povo usa no Natal.

Bom, sabe, João,

uma coisa que vai ficar pra sempre junto do meu coração?

- Não. O quê? - Meu pulmão!

[riem]

Eu não acredito que você caiu nessa! [ri]

Essa é velha, João!

- É porque eu sou novo! - Ah! [ri]

O senhor vira meu genro e retira sua candidatura pra prefeito.

Eu retiro agora se o senhor me apoiar

na próxima eleição pra prefeito.

Eu lhe apoio na próxima eleição pra prefeito,

me candidato a governador,

e o senhor faz minha propaganda na sua rádio.

[Arlindo] Agora, coronel.

O que eu quero mesmo é ver o senhor cuspindo lá de cima.

Vou mandar asfaltar a estrada de Taperoá até a capital do estado,

só pra chegar com meu carro no palácio sem sujar o pneu.

[riem]

Nossa família vai governar o Brasil, Coronel Ernani.

[gargalham]

[Chicó] Nada paga a fama que me tiraram

de ter verso impresso no papel.

Você contou a história de minha morte.

Agora pode contar a história de minha vida.

[hesita] Mas que graça tem isso?

Isso porque você não sabe tudo que me aconteceu nesse tempo.

Pode começar.

Esta aliança que estou mostrando aos senhores

veio da melhor bijuteria de São Paulo.

Vocês sabiam que São Paulo é uma fonte produtora?

Pode sacudir no chão, que ela bate, tine,

ela volta e não arranha.

[cantarola] É 150, cidadão! É 150!

Ei! Pode se aproximar, senhoras e senhores, venham.

Isso aqui é pra dar de presente de namoro, noivado, casamento.

E caso esteja separado, começa tudo de novo.

Isso que eu faço é uma propaganda honesta.

[Antônio] O senhor fala muito bonito, mas o que eu quero saber

é do certificado de autenticidade desse ouro aí.

Ah, sim, senhor.

Aqui está, autoridade.

[resmunga] Tá tudo em ordem. Tudo certo, minha gente.

Pensei que eram os cabras safados

que andaram por aí enganando o povo.

[homem] Olha lá, major. São aqueles cabras safados

que andaram por aí enganando o povo.

Olha o rapa!

[música de ação] ♪

[homem] Sai, sai!

Abre essa porta! Volte aqui, rapaz!

♪

[música de ação suaviza] ♪

[narrador no filme] A seca agravou esse quadro de precariedade.

O gado emagreceu ou morreu,

atingindo grandes e pequenos proprietários.

[homem 1 no filme] Serviço lá não aparece.

Então a gente procura recurso na cidade

de modo ver se a gente escapa com a família.

Se a gente chega aqui, passa um dia, dois, três esperando,

passando necessidade,

quem tá na cidade atrás de arranjar

e quem tá em casa passa fome, né?

Panela com dois, três dias que não ferve,

sem ter o que comer...

[homem 2 no filme] Quer dizer que o legume,

a pessoa planta o legume, não choveu, ele morre.

É que nem a gente, se não comer, não vive.

Nós estamos aqui comendo esse tanto de feijão,

e nossa família em casa.

Pai de família bem vendia água do pote.

Com oito, com dez, e não tem nem um caroço pra comer.

[homem 3 no filme] Deixei a mulher de resguardo em cima da cama

e meus filhos passando mal.

Tudo com fome.

E eu aqui atrás de um meio de acudir meus filhos

e trabalhar na construção pra "mode"...

pra "mode" dar de comer à minha família, que tá se acabando.

[música melancólica] ♪

[João Grilo] Aí juntei o pouco dinheiro que eu tinha

e comprei uma passagem pra cá.

Oxe. Viesse atrás da seca, foi?

Claro que não, né, Chicó? Vim atrás de saber como tu estava.

[riso leve]

Acho que tem um cisco no meu olho.

No meu também.

♪ [música melancólica finaliza]

De hoje em diante, sou o galo desse terreiro.

Ai, Virgulino, quando você fala assim, me derreto todinha.

Então pode seguir com o forró, que vou balançar o esqueleto

com aquela morena ali na frente do marido dela.

Vocês escutaram mais um capítulo

de "As Desventuras de um Corno Desambicioso".

Uma novela mais autêntica do que munguzá de barraca.

E chegou agorinha mesmo

o resultado final da votação para prefeito.

O Coronel Ernani lambeu os beiços,

raspou o tacho e foi eleito com 100% dos votos válidos! [comemora]

[Clarabela gargalha]

Ninguém votou em mim!

O povo não quer lhe ver nem pintado.

Por enquanto. Quando a gente der a segunda volta

do parafuso no plano, isso vai virar!

Virar contra a minha pessoa.

O povo tá com a gota é com você.

Mas quando você ressuscitar, eles vão ficar

com a moléstia do cachorro comigo que atirei em você.

Ninguém vai lhe reconhecer.

Porque você vai botar esse chapelão

e fazer suas "mungangas" de valente. [ri]

[vozerio]

[música suave] ♪

[Joaquim] João Grilo, cabra safado!

Não gosto de matar, não. Mas se prepare que eu vou.

[gagueja] Ave Maria!

Reza, não!

Quero que você morra antes que se arrependa dos seus pecados,

que é pra ir direto ao Inferno.

E se você pedir pra Nossa Senhora,

é capaz de ela perdoar as mentiras que você disse em nome dela!

[grita] João Grilo, cabra safado!

Seja homem!

Já que sua mãe não foi.

Se prepare que eu vou lhe matar de morte bem matada!

E se algum amarelo xeleléu vier de melodia pra meu lado,

que venha!

E que venha!

Dou-lhe uma lapada no "forogobaite"

que até os netos vão nascer zarolhos!

Eu cheguei primeiro.

Ah, o que é isso? Pode ir na frente, fique à vontade.

Com licença, seu Joaquim,

mas é que eu já tinha combinado de ser morto

por esse outro valente aqui.

[sussurra] A bexiga, a bexiga.

Pois vai ter que me matar na frente.

Não tem pressa, não, moço.

Se tiver coragem, pode atirar pelas costas.

Eu tenho um recadinho de Nossa Senhora,

a Compadecida, para o senhor. O senhor me paga desse modo?

- Tá mentindo de novo. - [disparo]

[gritaria]

[música melancólica] ♪

[respiração dificultosa]

João!

Pobre João Grilo.

Meu amigo João.

Não chore por mim, não, Chicó.

- Morrer só é ruim pra quem fica. - [Chicó chora]

Não! Meu Deus!

Como vivo em um mundo sem você?

Um dia, você também vai ver.

[Chicó] Meu amigo.

Morrer é bom. Eu tenho experiência.

♪

É, sim, João.

É, sim.

As pedras no Paraíso...

são de queijo e rapadura.

As cacimbas são café,

chá coado e com quentura.

E tudo assim por diante

é de grande fartura.

É, sim.

É desse jeitinho mesmo.

[Chicó] Oxente! Como você sabe disso?

Se quem vai lá não sabe de nada quando volta.

Não sei.

[suspira]

Só sei que foi assim.

♪

[grita] João!

[chora]

O meu amigo.

O meu amigo.

♪ [música melancólica finaliza]

[ventania]

[grita] Meu Deus! João Grilo morreu!

João Grilo morreu!

Minha Nossa Senhora!

O amarelo mais inteligente desse mundo!

Cumpriu sua sentença.

Encontrou-se com o único mal irremediável!

Aquilo que é marca de nosso estranho destino sobre a Terra!

Aquele fato sem explicação

que iguala tudo que é vivo num só rebanho de condenados!

Porque tudo que é vivo...

morre.

[música melancólica] ♪

♪ [música melancólica finaliza]

[música de tensão] ♪

[ruídos sombrios ao fundo]

Hum?

♪

[Diabo] Chegou a hora das trevas!

Chegou a hora do sangue!

É a hora do morcego, do sapo, do bode preto!

Chegou a hora da porca que amamenta seus morcegos

com leite da sapa podre!

[resmunga]

[João Grilo] Hã?

♪

Que lugar danado é esse?

[Diabo] É engraçado como vocês, às vezes,

utilizam a palavra exata sem terem consciência disso.

Isso aqui é justamente um lugar danado,

porque é o lugar da danação.

Danou-se foi tudo!

[Diabo] Exatamente.

O senhor deve ser quem eu estou pensando.

[Diabo] Devo ser, porque você já começou a tremer de medo.

[voz tremula] Eita, que eu tô lascado.

Mas nada é tão ruim que não possa piorar!

[ronco]

Eita! Eu achei que era o Diabo, mas era eu mesmo.

Cada um tem um diabo dentro de si.

E eu sou o Diabo que mora dentro de você.

Por isso que dizem que o Diabo não é tão feio quanto parece.

Você quer coisa mais feia do que ser torturado

por você mesmo por toda a eternidade?

Espera ainda, você não pode me condenar direto assim, não.

Quem disse?

Quem decide se vou para o Céu ou para o Inferno

é alguém muito maior do que você.

[voz trêmula] Besteira!

Valei-me, Nosso Senhor Jesus Cristo!

[música melancólica] ♪

[Diabo resmunga]

[badalar de sino]

[vassoura varre ao fundo]

♪ [música melancólica finaliza]

Ué, cadê Jesus?

Sou eu.

Ah! Valha-me Deus.

- Sou eu também. - E o Senhor também sou eu?

Só durante seu julgamento.

Ah, e é o Senhor que varre o chão do Céu, é?

- E você pode ajudar. - [resmunga]

Ainda bem que o senhor veio com a minha cara.

Já estava ficando complexado me vendo na cara daquele demônio.

[Jesus] O bem também está dentro de você.

O Diabo sabia que eu vinha desse jeito.

E veio na frente pra inverter os sinais.

Aquele sujeito só quer ser Deus.

[Jesus] Você também não vá pensando que é ele.

Quem dera.

Se eu fosse o Senhor, ia ser sempre inocente.

[grita] Mas não é.

E vamos começar logo o danado desse julgamento.

Danado, nada, que tu ainda não ganhaste essa peleja, cão.

[batidas ao fundo]

[rangidos]

[música melancólica] ♪

O julgamento vai começar.

João Grilo.

De seu nome de batismo,

João Tinóque Serra Negra Júnior.

Filho de João Tinóque Serra Negra

e Maria da Paz Tinóque...

[coral] ♪ Hosana te darei ♪

♪ No céu... ♪

Ainda bem que você não fez o que pedi e ficou perto do seu amigo até o fim.

Se eu pudesse, eu sofria no seu lugar.

Não quero a senhora tendo o maior sofrimento do mundo.

[coral] ♪ ...No céu ♪

♪ No céu com... ♪

Com a palavra, a acusação.

[murmura] Idolatria! [ri]

Promoveu o culto à sua própria pessoa,

fazendo os outros acreditarem na sua ressurreição.

E não ressuscitei mesmo?

Você fala isso agora que está aqui,

mas quando estava lá embaixo, não falava.

Eu não lembrava de nada, porque quem volta do Além...

[Diabo] Se esquece de tudo que viveu aqui.

Desculpa de amarelo é comer barro. [grunhe]

Se aproveitou da boa-fé do povo de Taperoá

pra ganhar dinheiro!

Quem começou com isso foi Chicó!

Você não tem vergonha de botar a culpa no seu melhor amigo?

Você não tem vergonha?

Os turistas gostavam de ouvir as histórias de Chicó.

E se eles tinham dinheiro,

o que custava dar um pouco em pagamento?

Chicó é um artista, Senhor.

A mentira dele se chama "poesia".

[Jesus] E a sua se chama?

[voz trêmula] Safadeza!

Chicó tinha fé de verdade.

O povo de Taperoá acreditou na sua ressurreição sem ver.

"Felizes os que não precisam ver pra crer."

Foi o que eu disse a São Tomé no Evangelho de João,

capítulo 20, versículos 24 a 29.

O Senhor é protestante?

Eu sou cristão.

[João Grilo] Pois lá na minha terra, quando a gente vê uma pessoa boa

e que entende da Bíblia, vai ver...

é protestante.

[Diabo] São Tomé

não acreditava na sua ressurreição.

Mas não mentiu dizendo que acreditava.

Eu não disse para o povo que tinha ressuscitado.

[grita] Mas deixou pensar que tinha.

Pecou por omissão, que é uma mentira silenciosa.

Espera ainda! Eu vou apelar!

- Pra quem? - Pra Misericórdia!

Não adianta!

Não pode haver contradição

entre a justiça d'Ele e a Misericórdia.

É verdade, João.

Quando julgo, a Misericórdia tem que ir atrás.

Pois é, aí que tá o segredo. [grita]

O senhor ainda não julgou!

[grita]

[trovões]

Eu vou apelar

para aquela que pode mais para amolecer a justiça,

que nem uma mãe faz pelos seus filhos.

[Diabo] Não vai fazer como da última vez!

[João Grilo] Apelar pra ela foi a melhor ideia que eu tive

depois de uma vida todinha cheia de boa ideia.

Ela vai terminar esculhambando esse julgamento.

Todo acusado tem direito a um advogado de defesa.

Valha-me Nossa Senhora,

Mãe de Deus de Nazaré!

A vaca mansa dá leite, a "braba" dá quando quer.

A mansa dá sossegada, a "braba" levanta o pé.

Já fui barco, fui navio, agora sou escaler.

Já fui menino, fui homem, só me falta ser mulher!

Valha-me, Nossa Senhora,

Mãe de Deus de Nazaré!

♪ Mãe das cores da manhã ♪

♪ Benedita, mãe das rosas ♪

♪ Fiadeira tecelã ♪

♪ Flor das frutas mais gostosas ♪

♪ Benzedeira agita o véu ♪

♪ Toda vez que eu olhar ♪

♪ Pro céu... ♪

Lá vem a Compadecida!

Mulher em tudo se mete!

Ah, mas olha aí a falta de respeito.

Guarde seus preconceitos com as mulheres para você.

Me diga se isso pode, ainda mais sendo sua mãe.

Toda mulher merece respeito, João.

[João Grilo] O filho de chocadeira nem mãe teve

pra aprender a respeitar.

O problema dele é que morre de medo de mim.

[grunhe]

Avalie se a Senhora tivesse vindo com a minha cara também.

Você, João.

O que aconteceu dessa vez?

Morri de novo.

Sim, eu estou vendo.

- Mas, filho, por que você me chamou? - [João Grilo hesita]

[gagueja] É que ele está querendo me levar pro Inferno.

Ele sempre quer.

As acusações são graves.

Eu ouvi as acusações.

E então?

Então que Maria vai me defender.

Eu vou ver o que eu posso fazer.

[João Grilo] Tá vendo?

Isso aí que é gente, e gente boa.

Não é filha de chocadeira, não. Nossa Senhora é gente como eu.

É pobre, é filha de Joaquim, é filha de Ana,

e casada com carpinteiro.

Tudo gente boa.

[Jesus] E eu, João, não estou esquecido nesse meio aí?

É o que eu digo, Senhor.

A distância entre nós e o Senhor é muito grande.

Olhe, não me leve a mal, não.

Sua mãe é gente como eu, só que gente muito boa.

Enquanto que eu...

Eu não valho nada.

[Jesus] Cada pessoa vale muito.

É por isso que todas elas, uma a uma,

terminam sendo julgadas num tribunal tão importante.

Acuso o João Grilo de...

omissão!

Eu protesto!

Não foi para obter vantagens

que João Grilo deixou o povo acreditar na sua ressurreição.

João Grilo

não quis decepcionar o povo, que tem fé.

Sem fé, as pessoas sentem medo, incertezas,

ficam imobilizadas, porque a fé traz esperança,

alegria, vontade de seguir,

motivação pra pelejar por uma vida melhor.

E com uma vida melhor, com mais alegria,

a gente fica mais disposto a ajudar o outro

a melhorar de vida.

A fé

nos consola de ter nascido pra morrer.

Faz a gente sonhar que é imortal

e que um dia a gente vai reencontrar

todas as pessoas amadas que já se foram.

[música suave] ♪

Como as pessoas poderiam ter fé

na ressurreição de João Grilo

se achassem que ele não acreditava?

É, João Grilo não disse

que acreditava no milagre da ressurreição.

Mas acreditou na fé que as pessoas tinham.

♪ [música suave finaliza]

Objeção.

Quando percebeu a fé das pessoas naquela procissão

é que o Grilo teve a ideia de tirar vantagem do milagre.

Ele vê sempre pelo lado pior das coisas.

E ela só vê o lado bom.

Tudo depende das verdadeiras intenções de João Grilo.

João, nessa história toda, você acha que agiu

em benefício próprio ou pelo bem comum?

Pra falar a verdade, Senhor, eu mesmo não sei.

Pode ter sido pelas duas coisas.

Bravo!

Se o próprio João Grilo não sabe suas verdadeiras intenções,

- para o Céu é que não pode ir! - [grita]

Para o Inferno também não!

João sabe que não sabe, meu filho!

Isso já é um começo!

O Diabo acha que foi por mal, Nossa Senhora acha que foi por bem.

Como é que eu posso ser condenado se deu empate?

Deixe-o ao menos ir para o Purgatório!

"Purgatório"?

Não faça isso assim, não.

A Senhora não é "painho", não.

Mas esse Diabo é um sujeito muito negociante.

Com esse tipo de gente, a gente pede logo bem muito,

que é pra impressionar.

Peça logo o Céu, que é pra chegar

numa coisa mais fácil com relação ao Purgatório.

Isso dá certo lá no sertão.

Não confia mais na sua advogada?

[João Grilo] Confiar, eu confio.

Mas esse camarada termina enrolando nós dois.

[Diabo resmunga]

O julgamento de alguém serve de exemplo para todos.

Principalmente pra quem está sendo julgado.

De que adianta dar um veredito baseado nas intenções de João Grilo,

se ele mesmo não sabe quais foram elas?

Nem nunca vai entender, por que foi absolvido ou condenado.

Agora é tarde pra saber.

É a lei do livre-arbítrio, minha mãe.

Eu não posso interferir.

Ele deveria saber suas verdadeiras intenções.

Ele não sabe,

mas você pode ajudá-lo a descobrir.

De que jeito, minha mãe?

Deixe João Grilo voltar pra vida dele.

Já vi esse filme.

Dessa vez, será por uma razão diferente.

Vai ser um teste.

Faça-o se deparar novamente com a fé do povo,

no milagre da ressurreição.

Dê outra chance dele escolher o que fazer.

Mande João Grilo de volta.

Ah, faça-me o favor.

Nem você ressuscitou duas vezes.

Tem sempre uma primeira vez pra segunda.

[ecoado] Xiu!

Você, João.

Você quer viver de novo?

Então, olhe, Senhor...

Esse mundo pode ser meio ruim,

meio doido, mas parece tanto com a gente.

E eu já estou tão acostumado com ele.

Vou deixar que você volte, porque minha mãe pediu.

♪ Vi rogar ♪

♪ A ti, Rainha ♪

♪ Sou de todos, sim Alívio de quem chora ♪

♪ Olha pra mim ♪

♪ Ora por mim... ♪

Muito obrigado, grande advogada.

Até a próxima, João.

A Senhora não me leve a mal, mas eu espero que demore bem muito.

Mas antes...

♪ ...Senhora... ♪

Você irá se esquecer

de tudo de divino e diabólico que viveu aqui.

[Chicó chora]

Valha-me, minha Nossa Senhora.

Tenha pena. Tenha pena de João Grilo.

Se a Senhora fizer ele ressuscitar de novo, prometo...

- [grita] Não prometa! - [Chicó] Misericórdia!

Ainda bem que eu acordei

antes de você fazer uma dessas promessas pra Santa,

que a gente leva dez anos pra poder pagar.

João, pelo amor de Deus,

lembre que fui seu amigo.

Tenha vergonha, Chicó.

Um homem desse tamanho com medo de alma?

Isto é que é um milagre pra vir ligeiro!

[João Grilo] Lá vem você com essas suas histórias.

[Chicó] Mas nem ressuscitando duas vezes acredita, homem?

Por que será que não lembro de nada?

Isso é porque quem volta do Além...

Esquece de tudo que viu lá.

Você já disse isso umas mil vezes.

[Chicó] Você não lembra, mas eu lembro.

Acontece que você é sem confiança.

Eu sem confiança? Dessa vez, o povo todo viu você morrer.

Ótimo! Assim ninguém vai saber que sumi no mundo.

[Chicó] E como explico que o morto sumiu?

Bote um peso no caixão e pregue a tampa.

[coral] ♪ Por minha Mãe... ♪

[Chicó] O povo está vindo rezar pela sua ressurreição.

[João Grilo] Mas não estava todo mundo contra mim?

Mas quando lhe mataram, você virou herói.

Herói? De quê?

O povo acha que sua morte foi encomendada

pra não ter perigo de você virar candidato de novo.

Quem sabe estou vivo porque rezaram por mim.

Eles têm que saber que eu não estou morto.

Vá-se embora, João, senão o povo vai lhe matar de novo.

[coral] ♪ No céu, no céu... ♪

♪ Vim rogar ♪

♪ A ti, Rainha ♪

♪ Sou de todos, sim Alívio de quem chora ♪

♪ Olha pra mim ♪

♪ Ora por mim ♪

♪ Senhora... ♪

Lá no Céu é bom demais.

Chicó sabe um verso contando como é que é.

Maniva, lá não se planta, nasce.

E em vez de mandioca,

bota cachos de biju e palmas de tapioca.

Milho, a espiga é pamonha

e o "pendão" é pipoca.

Aquilo ali é tão bom que eu quero é voltar.

E dessa vez vou pedir à Nossa Senhora

pra ficar por lá mesmo.

Ê! [grunhe]

- [assustam] - [som com a boca]

- [resmunga] - João?

[geme de dor]

- [Chicó] João! - [vozerio]

[Chicó] João! João!

[sussurra] A bexiga! A bexiga!

[repetidamente] Ai, ai! Tragédia!

[repetidamente] Ai, ai!

João Grilo não se omitiu.

Reconheceu que ressuscitou.

Mas terminou mentindo, dizendo que morreu.

Pra se defender.

Não pretende tirar proveito disso.

Espere e verá que ele aparece aqui

dizendo que ressuscitou pela terceira vez.

Você vê tudo pelo lado torto.

E você tudo pelo direito.

Eu estou com uma ideia de fazer um folheto

sobre a segunda morte de João Grilo.

Seu segundo julgamento no Céu.

E sua segunda ressurreição por obra e graça de Nossa Senhora.

Sempre há de ter gente que vai achar a primeira história melhor.

Há também de ter gente que vai querer conhecer melhor a segunda.

Pelo menos, o crediário, a gente vai poder pagar.

Se descobrem essa história da bexiga, é capaz de lhe matarem de novo.

Ninguém me pega. Pra Taperoá, eu só volto pra ser enterrado.

Primeiro, vou cuidar de tirar você daqui vivo.

Com duas ressurreições, a cidade vai encher bem muito de turista.

Povo já botou até sua estátua de volta aos pés da Santa.

O bom é que as minhas imagens passam a vida ajoelhadas

rezando pra Nossa Senhora sem eu ter que me cansar.

Eu tenho tanta fé em Nossa Senhora

que até um papagaio que eu tive ficou devoto.

Esse papagaio era o tal que sabia a Bíblia Sagrada de cor, não é?

Só a Bíblia, não. O Código Civil também.

Tirava até preso da cadeia usando os poréns da lei.

Sem diploma de advogado? Como é isso?

Eu gostaria que você não fizesse mais muitas perguntas.

[ri] O que foi feito dele?

Soltei.

[nota cômica] ♪

[papagaio parla]

[Chicó narra] Era um bicho inteligente demais pra ficar preso.

[papagaio] Nossa Senhora lhe pague, Chicó.

[estalo de beijo]

[parla]

[Chicó narra] Um ano depois, eu estava voltando de uma caçada

e escutei uma latomia.

Julguei que fossem almas penadas.

A covardia tomou conta do meu ser,

porque em volta não tinha casa nem estrada.

[papagaio parla ao fundo]

[Chicó narra] Foi aí que eu vi.

[papagaios cantam] ♪ No céu... ♪

[Chicó narra] Era o meu papagaio tal "qualmente" um maestro,

ensinando um hino para os parentes.

E pagando pra Nossa Senhora

a promessa que tinha feito de ter sido solto.

[papagaio parla] A Nossa Senhora...

[Chicó narra] Bichinho instruído, coisa mais linda.

[João Grilo] Como você sabe que o papagaio era o mesmo?

[Chicó] É porque o meu tinha as penas vermelhas.

[João Grilo] Você não tinha contado isso, não.

[Chicó] Pois não tô contando agora, homem?

Uma história de amor muito linda.

Cruzamento de um papagaio com uma arara.

Papagaio e arara não cruzam. Como é que foi isso, Chicó?

Não sei. Só sei que foi assim.

- [ri] - [buzina de caminhão]

Um dia, eu volto.

Isso aqui não tem mais futuro pra você, João.

Eu não tenho nada a perder, Chicó.

Não tenho casa, não tenho muda de roupa limpa,

não tenho família... Nem cachorro eu tenho.

[riso leve]

[João Grilo] Mas eu tenho o que é mais importante.

Tudo que se precisa pra passar um tempo bom aqui na Terra.

O perdão da Compadecida e um amigo.

♪ O que importa é ouvir ♪

♪ A voz que vem do coração... ♪

- Caiu um cisco no meu olho. - [resmunga] No meu também.

O cisco agora foi para o outro olho, ó.

O meu também.

É choro.

[gagueja] Eu também.

♪ ...Pois seja o que vier ♪

♪ Venha o que vier ♪

♪ Qualquer dia Amigo, eu volto ♪

♪ A te encontrar ♪

♪ Qualquer dia Amigo, a gente ♪

♪ Vai se encontrar... ♪

[ignição de caminhão]

♪ ...Pois seja o que vier ♪

♪ Venha o que vier ♪

♪ Qualquer dia Amigo, eu volto ♪

♪ A te encontrar ♪

♪ Qualquer dia Amigo, a gente ♪

♪ Vai se encontrar... ♪

[papagaios parlam]

♪

[Chicó] "Eu vi mentira da boa. Eu vi mentira danada.

Eu vi mentira de asa. Eu vi mentira com rabo.

Eu vi mentir quem é Deus.

Eu vi mentir o Diabo.

O João mentiu para o bem. Quem disse? Nossa Senhora.

A fé que o povo tem nela, João não quis jogar fora.

Que a fé sustenta a alma, dá força e até revigora.

Quem quiser comprar meus versos,

- a história é bem verdadeira." - [homem] Mas tá...

"E sempre que vendo um, vem dez mil réis pra algibeira.

Hoje eu estou dando por cinco.

Talvez não ache quem queira."

["Presepada no Forró" toca] ♪

♪ Quem quer comprar? ♪

♪ Quem quer comprar Esse baião? ♪

♪ Quem quer comprar Esse baião? ♪

♪ Quem quer comprar? ♪

♪ Prosódia poética Ficção histórica ♪

♪ Farsa eclesiástica Caso de política ♪

♪ Tragédia paródica Condução elítica ♪

♪ A preço de ocasião ♪

♪ Quem quer comprar Esse baião? ♪

♪

♪ Baião de dois De dez, de dez milhões ♪

♪ A preço de baião de um ♪

♪ Quem quer comprar Esse baião? ♪

♪ Baião de dois De dez, de dez milhões ♪

♪ A preço de baião de um ♪

♪

♪ Quem quer comprar? ♪

♪ Quem quer comprar Esse baião? ♪

♪ Quem quer comprar Esse baião? ♪

♪ Quem quer comprar? ♪

♪ Baião de dois De dez, de dez milhões ♪

♪ A preço de baião de um ♪

♪ Quem quer comprar Esse baião? ♪

♪

♪ ["Presepada no Forró" finaliza]

[música MPB suave] ♪

♪

♪

♪

♪

♪

♪

♪

♪

♪ [música MPB suave finaliza]

[música de forró] ♪

♪

♪

♪ [música de forró finaliza]

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