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Podia ter sido um grande pugilista, dos melhores da Europa,
talvez at� campe�o dos meios-leves e agora � quase um "punching ball".
Belarmino Fragoso. Nasceu campe�o.
Por isso, por essa gra�a ou maldi��o de nascen�a,
foi a Londres defrontar-se com Vic Andeeti, depois de uma hist�ria suja,
onde o seu nome apareceu sobre a pele do mano mais novo.
Sem treinador, com semanas, meses e anos de fome e mis�ria, j� velho,
Belarmino partiu com o sorriso confiante de sempre.
Fala-me do combate de Londres.
Vinha de It�lia, como te contei, ia buscar o meu irm�o,
o meu irm�o ficou em Espanha, eu vim-me embora.
Entretanto eu estava em Portugal
e recebi a not�cia por telefonia de que tinha combatido em Londres.
Fiquei parvo. Combati em Londres? N�o pode ser, s� se fosse a sonhar.
De maneira que ouvi pela r�dio, fui aos jornais, vi tudo,
e fiz um protesto � ANI a dizer que n�o era eu.
Nunca tinha jogado em Londres nem nunca tinha visto Londres.
Tinha visto Londres no cinema, agora pessoalmente nunca.
E eles disseram "Ah, ent�o vamos modificar".
Mostraram-me uma fotografia e vi que era o meu irm�o, como dizia.
Fui a Londres.
Nesses dias, o Jack Salomon, um dos melhores empres�rios mundiais
contratou-me... telefonou-me.
Fui obrigado a ir a Londres sem um dia de treino.
Porque � que voc� foste massacrado em Londres por Vic Andeeti?
N�o fui massacrado. Foi tudo um engano.
Ele nem sequer me bateu na cara, enfiou-me o polegar dentro da vista
e eu, com aquela afli��o, - foi um soco violento
e n�o h� ningu�m que n�o sinta um soco dentro da vista...
ajoelhei-me, com ideias de o deixar contar at� oito
e quando me levanto aos oito,
o �rbitro d� por terminado o combate, sem mais nem menos.
No ringue do Albert Hall, Belarmino s� durou 2 minutos e 5 segundos
contra um pugilista de plano secund�rio.
� um campe�o desesperado.
O �rbitro contou at� oito e eu, claro,
tinha que me vir embora, comecei a protestar
mas o j�ri come�ou a dizer que n�o, a acenar com as m�os que n�o,
que eu n�o tinha perdido o combate,
que n�o estava no tempo.
E rapidamente... n�o era o Belarmino Fragoso que estava a jogar,
era apenas a necessidade de ganhar 15 contos.
Actualmente, onde vive a sua m�e, com voc�?
N�o, senhor. A minha m�e desde os 17 anos que n�o vive comigo.
Ou seja, desde os 15 anos.
- E quem � que a sustenta? - Os meus irm�os. Ela trabalha.
Tem 68 anos, trabalha porque quer.
Sempre quis dar-Ihe aux�lio, e ela sempre quis trabalhar.
Foi vontade dela, n�o foi que eu a obrigasse nem obrigo.
Quem Ihe d� almo�o e jantar todos os dias sou eu.
Come no restaurante onde eu como, vai l� quase todos os dias.
S� n�o vai se n�o quer.
A minha m�e tem mais quatro filhos sem ser eu
e podem muito bem olhar eles por ela pois t�m melhor vida que eu.
Eu tenho uma vida com dificuldade.
Comecei a jogar box como amador, claro.
Era a vida.
Precisava de ganhar dinheiro, era engraxador,
e depois comecei como amador,
com um amigo meu, tamb�m engraxador.
Fomos um dia para a porta do Sal�o Lisboa, com a alcunha "Piolho",
e fomos por acaso, para arranjar dinheiro para ir ao cinema.
Eu nessa altura n�o tinha dinheiro, e fui arranjar dinheiro para o cinema.
E um dia ele disse que ia treinar boxe e como o meu sonho era o boxe,
via os ringues de boxe nos jornais...
- sempre tive esta queda para o boxe e ideias de jogar...
e pedi-Ihe para ir com ele. Ele disse: "Ent�o vem comigo, vens ver".
Cheguei � sala do Albano Martins, que era o grupo desportivo,
e ele pediu-me para entrar para dentro e eu entrei, claro.
E o Albano Martins olhou-me e disse: "Voc� vem treinar ou jogar"?
E eu disse: "Venho treinar, a minha maior satisfa��o � treinar boxe",
n�o pensando o que era. Cal�ou-me as luvas, deu-me um par de cal��es
e comecei a jogar boxe.
Comecei a jogar com um rapaz chamado "Barra�al" por alcunha.
Com medo de levar porrada, comecei � porrada.
Nisto, o Albano Martins mandou parar o combate
e disse que eu tinha muito jeito.
Ao segundo ou terceiro dia de treino, quis cal�ar luvas.
Claro, os outros tinham mais pr�tica e tiveram que Ihe dar alguns socos
e ele ficou. Outro dia, c� estava �quela hora.
E quando assim acontece, j� se sabe que temos pugilistas.
Eu enchi-me de vaidade, est� claro, e pedi para fazer luvas com um amigo.
Ele deu-me um soco no est�mago e ca� para o ch�o sem dar acordo de mim,
mas depois comecei a pensar que o boxe n�o era para mim,
que tinha medo, porque ele me deu um soco
e est� claro que me fez doer. Comecei a ter medo de boxe.
Mas depois comecei a pensar que a minha vida,
que o boxe e a graxa, era tudo igual
e eu tinha de ganhar dinheiro para comer, porque n�o tinha
e comecei a pensar que tinha uma cabe�a, dois p�s, duas m�os
e comecei a aprender a jogar boxe. Fiz quatro combates como amador,
dois combates por dia.
Mas depois fui para a sala e comecei a pensar:
"Tenho de come�ar a aprender a jogar mais boxe"
e comecei a aprender e no quinto combate
ganhei por KO, comecei com mais boxe e mais boxe,
e ao fim de um ano era campe�o de Portugal.
Que idade tinhas nessa altura?
- Tinha apenas 18 anos. - 18 anos.
Antes de jogares boxe como amador, o que fazias? Eras engraxador?
Era engraxador na Avenida dos Restauradores.
Fugia � pol�cia. Era a minha vida, fugir.
Deixava um sapato meio engraxado, outro por engraxar
e o pol�cia a correr atr�s de mim.
Era da graxa e do boxe que eu vivia.
E o que pensas do Albano?
O Albano... Foi intuito dele sempre ganhar dinheiro,
explorar o m�ximo que podia do corpo humano, que era o meu e dos outros
e fazer o mais que pudesse,
ganhar o m�ximo de dinheiro que pudesse,
porque era a vida dele, era ser, como n�s dizemos, "sacador",
de maneira que dava o meu corpo, combatia, n�o recebia.
Dava-me 20 escudos, outra vez 10 escudos e era assim que eu vivia.
E ia para casa dele, comia, almo�ava e jantava, dormia em casa dele
e ia vender jornais, tinha de me levantar �s 4 da manh�.
Tenho 35 anos como profissional de boxe
e vim para o Grupo Desportivo da Mouraria � percentagem nos combates.
Os amadores aqui n�o ganham nada.
No meu tempo levei muita pancadaria e nunca ganhei 5 r�is como amador.
E como na parte profissional, os "managers" t�m a obriga��o
de arranjar o m�ximo de combates para os pupilos ganharem dinheiro
e o "manager" tamb�m, que n�o anda a trabalhar de gra�a, acho eu.
Sacava-me, porque tinha de sacar, era a vida dele.
Nasceu para ser sacador.
- Quantos anos foi seu "manager"? - Foi quase sempre.
Foi meu "manager" durante tr�s anos, depois fui para o Porto, voltei,
e como n�o tinha dinheiro para comer, voltei a assinar contrato com ele
e ele vendeu-me... - Vender, nunca o vendi.
De maneira que fomos ao Porto
e o Sr. Ernesto Silva, depois de o ver combater,
chegou-se ao p� de mim e disse que queria ser "manager" dele
e se eu o podia ceder. Eu concordei, mas primeiro tinha de falar com ele.
Falei com o Belarmino Fragoso, expliquei-Ihe as condi��es...
O Sr. Ernesto Silva disse que o mandava educar,
porque ele n�o sabia ler nem escrever,
e depois mandava-o ensinar a "chofer",
para ele poder ter a sua vida sem estar fiado no boxe.
Ent�o ele disse que ficava e fiz o neg�cio com o Sr. Ernesto Silva.
Claro que n�o o vendi, porque eu perdi mais do que ganhei,
das bolsas dele e n�o ganhava 1 conto de reis como o vendi por 1 conto.
Estive dois meses no Porto, fiz cinco combates,
dos quais s� recebi um par de sapatos, j� em segunda m�o,
uma gabardine que custou 900 escudos e mais nada
e deu-me 150 escudos no dia de Natal
para passar o Natal a Lisboa com a fam�lia.
Quanto a isso, n�o posso responder,
porque desde o momento em que o entreguei a um novo "manager",
eu da� desliguei dele.
O que � certo � que foi mesmo pelo Natal,
ele aparece-me em Lisboa, e apesar de ele dizer que o saquei,
foi ele que me procurou de novo para ser "manager" dele.
Olhe uma coisa,
agora que praticamente j� n�o h� pugilismo profissional em Portugal,
o Albano Martins vive de qu�?
Tenho uma venda de jornais na Estef�nia, em que a fam�lia faz.
- Eu arbitro luta livre... - Mas a luta livre � chiqu� e tudo...
Chiqu�... Isso n�o Ihe posso dizer francamente,
porque o senhor n�o vai l� para cima de certeza,
- Eu n�o vou... - e ningu�m para l� quer ir...
- N�o vou, mas � verdade ou mentira? - se l� forem...
� mentira. - N�o � chiqu� a luta livre?
- Ganha o melhor. - Ganha o melhor? Como no boxe?
Como o boxe n�o �, � muito diferente, porque o boxe � levar pancadaria.
- No boxe, tamb�m ganha o melhor. - Sim, mas � diferente da luta livre.
O que � o Belarmino para si? Um amigo, um homem...?
O Belarmino para mim era apenas um "boxeur",
como os outros que vinham aqui ao Grupo Desportivo da Mouraria.
Como � que conheceste e casaste com a sua mulher?
Isso � uma hist�ria muito longa.
Quando fui contratado para o boxe pelo Albano Martins, fui para o Porto,
quando ele me vendeu o contrato, como acabei de explicar,
fui para l� e, passados tr�s meses, encontrei a minha mulher...
- No Porto? - No Porto.
Meti conversa com ela, e claro, comecei a falar com ela,
mas vim logo para Lisboa. Passado meses, tornei a l� ir
e nessa altura resolvi casar-me com ela.
Hoje � minha mulher, m�e de uma filha que eu tenho... � a vida.
- Ela trabalha? - Sim. E � uma boa trabalhadeira.
Lida a casa como deve ser, olha por uma casa,
� uma boa trabalhadeira, e ajuda-me em tudo aquilo que pode.
Ganha pouco, 10, 15 escudos,
mas habituou-se a trabalhar, que foi sempre o que fez.
Qual foi o seu �ltimo combate por licen�a do t�tulo?
Foi o Sotta. Fernando Gon�alves Sotta. Ganhei por KO.
E depois?
Depois n�o fiz mais nenhum combate em Portugal.
- E quanto ganhaste nesse combate? - Seis contos.
- Seis contos h� quantos anos? - H� seis.
Na v�spera de disputar o campeonato dos meios-leves com o Sotta,
foi para o Bairro Alto toda a noite e deitou-se �s quatro da manh�.
Foi � pesagem, que era a pesagem obrigat�ria ao meio-dia
e pesava um quilo e duzentas e tal a mais.
Claro que n�o podia disputar o t�tulo naquele caso,
com um 1 quilo e 200 gramas a mais, fomos para o Parque Mayer,
embrulhei-o em mantas, fi-lo correr, suar...
Enfim! Fez "30 por uma linha" para abater o peso.
Foi � pesagem, combateu e ganhou.
Podia ser grande.
J� v� que ele podia ter sido at� muito grande.
Outras vezes, j� n�o na minha n�o, mas na da Bomboxe,
ele estava no est�gio para l� de Sintra
e a certas horas da noite, saltava da janela
e vinha para Lisboa, para o Bairro Alto, para onde Ihe apetecia.
� mentira. At� porque o quarto da pens�o onde eu estava,
era um quarto que nem janela tinha
e nunca ningu�m me pode apontar isso. Podem dizer a qualquer pessoa,
mas a mim ningu�m me diz,
porque eu fui sempre um "boxeur" no tempo de jogar boxe e era um �dolo
e um homem que jogava com qualquer estrangeiro. Nunca fiz isso.
Fui sempre um homem que nunca perdeu um combate.
E provas tenho dado! Fui bicampe�o de Portugal
e sempre tive brio e orgulho de ser campe�o de Portugal.
Podia ter sido grande. Mas n�o foi por cabe�a dele.
N�o por culpa dos "managers", porque teve bons.
Mas olhe uma coisa. A culpa � dele ou do facto de ter vivido em Portugal?
Se ele vivesse no estrangeiro, podia ter sido um grande pugilista?
Podia. Mas havia de corresponder
aos treinos que Ihe marcassem e a tudo.
- C� tamb�m podia ter sido. - Mesmo sendo algo indisciplinado.
Exacto.
Podia ter sido um grande pugilista e houve uma �poca em que foi.
- Depois dali... - Agora est� completamente acabado.
Sim e ele que n�o pense que ser� mais algu�m porque n�o �.
A cr�tica nessa altura era boa,
era agrad�vel, porque ningu�m era experiente.
Olhavam para a minha maneira de ser, que era um "boxeur"
e muitas vezes como profissional, da m�o do Albano Martins,
fui para dentro do ringue com uma bola de Berlim e um copo de leite,
n�o tinha dinheiro para comer. e conseguia ganhar os combates.
Sempre fiz na minha vida combates a s�rio.
Fui talvez em Portugal �nico, o "boxeur" mais s�rio que houve.
Obrigado.
Quem eram os grandes "boxeurs" dessa �poca?
O Carlos Rocha, Chico Santos,
Fernando Gon�alves Sotta, Fernando Branco...
Eram bons "boxeurs".
Dizem que voc� entraste num chiqu� com o Chico Santos.
- Nunca. - Nunca?
At� porque n�s nunca poder�amos entrar em chiqu�,
porque n�o nos fal�vamos, nem nos gram�vamos, j� desde o princ�pio.
Porqu�?
� a tradi��o, havia sempre aquela coisa de querermos ganhar os dois
a foi sempre nossa vida, jogar um contra o outro
e sempre houve rivalidade entre n�s. Umas vezes era por minha parte,
outras por parte dele, outras pela parte do "manager",
outras vezes era por bolsas, por eu ganhar mais do que ele ou vice-versa.
Ele n�o consentia que eu ganhasse mais que ele
e eu tamb�m n�o consentia que ele ganhasse mais que eu.
E muitas vezes, tiravam das minhas bolsas para dar a ele.
Uma vez, no �ltimo combate que fiz,
combati com o Chico Santos no Parque Mayer
e ganhei apenas 12 contos e s� fizeram contas comigo de 8.
Deram-Ihe quatro contos a ele sem eu saber.
Eu n�o sabia ler nem escrever,
era analfabeto e fui enganado assim, em quatro contos,
sem saber que era para ele. Se soubesse, juro que n�o o ajudava.
- Voc� que idade tens hoje? - Eu? Tenho 32 anos.
- Continuas analfabeto? - N�o, j� tenho a terceira classe.
Uma bica.
Ouve, achas-te um homem ou um animal?
- Um homem. Um ser humano. - Porqu�?
- Um ser humano! - Ouve l�, dizem-me que voc�, �s vezes,
est�s chon� e pareces mais um animal que um homem. Diz.
Devemos comparar um "boxeur" com um ser humano.
Um "boxeur" � como um homem qualquer,
porque muitas vezes pensam que o "boxeur" mata, esfola,
faz isto e aquilo. N�o! Um "boxeur" � um homem.
E quem pensa o contr�rio est� enganado.
Voc� fora do ringue �s um homem bom ou um homem mau?
N�o sei, s� as outras pessoas o podem dizer.
N�o sei o meu feitio, n�o sei avaliar-me a mim pr�prio.
- A sua mulher gosta de voc�? - Acho que sim, sen�o era um "buraco".
- Dizes que tens duas filhas? - Sim. Tenho uma com onze anos,
que n�o fui eu que a criei, foi a Sr. Agostinho da Silva,
e tenho outra com cinco anos, � formid�vel,
� uma coisa linda, � esperta. Tamb�m esteve muito doente.
Teve a meningite, ficou cega durante sete meses.
O povo n�o sabe ver isso. Tenho uma filha que ficou cega 7 meses,
teve meningite, fez opera��o � apendicite com tr�s anos,
esteve cega durante... Coisas da vida.
O m�dico, como era novo, disse que a minha filha n�o vivia.
E hoje, gra�as a Deus, ela vive.
Como sustentas a fam�lia, se n�o trabalhas?
Fa�o de colorista de fotografias. E fa�o os meus biscatezitos. Conforme.
- E pedes dinheiro emprestado? - Algumas vezes.
- Muitas vezes? - Muitas, mas torno a pagar.
- A quem? - Rapazes amigos que conhe�o.
Se precisar de cinco coroas, pe�o, se precisar de cinco paus, pe�o.
Conforme a minha "precis�o".
Mas ouve, cinco mil r�is n�o te chega para sustentar a fam�lia.
N�o, �s vezes como vou jantar a um restaurante, faz-me falta cinco coroas
para encomendar uma econ�mica para a mi�da, outra para a mulher
e para pagar uma carca�a.
E para dar uma gorjeta ao criado para n�o passar por parvo.
Ent�o passas fome muitas vezes, n�o �?
Fome, n�o � fome de tr�s dias.
Muitas vezes quero jantar, almo�ar, n�o tenho.
Mas n�o significa que seja fome. � um estado de fraqueza razo�vel.
A sua outra filha?
Nunca a criei. Deixei-a, tinha apenas um ano, nem tanto.
Deixaste-a porqu�?
Porque n�o tinha meios para a sustentar.
Eu queria seguir o boxe como segui e j� tinha amor � arte
e foi por isso que me pediram se deixava cri�-la
e eu deixei, para n�o estragar a felicidade dela,
porque sabia que a vida dela na m�o daquelas senhoras que estava bem
e na minha m�o n�o podia ir mais avante.
Boa tarde.
Amore mio.
Est� boazinha?
Gostas da sua mulher ou est�s arrependido de ter casado?
Se n�o gostasse dela, n�o casava com ela.
Gosto dela, sou casado, � o meu g�nero de rapariga.
� muito boa rapariga.
Tem tudo o que se pode dizer de uma mulher.
Mas ouve l� uma coisa, voc� �s vezes andas atr�s das raparigas
e tens tido a sua aventura. Como � isso?
Todos os homens fazem isso.
Desde que um tipo tenha sorte, est� claro, n�o sou camelo.
� do baril.
Posso l� ir a casa hoje falar consigo?
Olha l�, voc� acho que uma vez foste contratado
para ser guarda-costas de um capitalista, n�o foi?
Sim, mas ele come�ou-se a meter, deixei-o levar porrada.
- Fui o primeiro a pirar-me. - Mas porqu�? Conta l� essa hist�ria.
Isso � que era bom. Olha-me ele... Isso era do baril.
- Conta l�. - N�o pode ser.
- Porqu�? - Tenho o corpo no seguro, ou qu�?
Mas voc� podes contar a hist�ria, ou n�o quer?
Isso � uma hist�ria muito longa, � um filme de 47 partes, homem!
- Ele chegou a dar a voc� dinheiro? - N�o havia de dar?
Isto � pago a presta��es? � logo a guita.
Mas ouve l�, ele pagou-te e deixaste-o levar tareia? Como � isso?
� claro, come�ou a armar-se em parvo. A fiar-se nas minhas costas.
Isto � do baril, n�o �?
Olha l� uma coisa.
O Albano Martins disse-nos que tinha sido o �nico pugilista portugu�s
que tinha lutado com a presen�a do Presidente da Rep�blica.
E disse-nos tamb�m que foi um grande pugilista. O que � que pensas?
Podia ser um grande pugilista, mas tamb�m foi um rico saco.
SESS�ES PERMANENTES
- O seu nome completo? - Belarmino Fragoso Teixeira.
- E a data de nascimento? - 30... de julho de 1941.
- Tem quantos anos? - 31.
- Estudou at� que idade? - N�o, 32.
- E a sua profiss�o, por favor? - Pugilista.
- E a morada? - Rua Barros Queir�s, 31, 2�dto.
- Voc� � casado ou solteiro? - Casado.
- Voc� queixa-se de alguma coisa? - Gra�as a Deus, nunca.
- Tem sido sempre saud�vel? - Sempre, gra�as a Deus.
Mesmo em crian�a, n�o se lembra de ter tido nada?
- Sarampo. - S�?
- S� me lembro... - G�nglios?..
- Nunca tive nada disso. - Nada de especial?
- E da parte da sua fam�lia? - Que eu saiba n�o,
s� a minha filha � que teve a meningite,
mas isso n�o quer dizer que seja de fam�lia.
- Sofreu de alguma doen�a pulmonar? - Nunca.
- Nem coisas de sangue? - Nunca.
Agarre nesse tubo que a� est�.
Assopre a� por um bocadinho.
Vai tomar ar fundo, encher o peito o mais que puder,
e sopra com toda a for�a at� n�o ter mais ar no peito, se faz favor.
Est� bem, pode tirar.
- J� fez outro tipo de desporto... - N�o, senhor.
- S� pugilismo? - S�.
- E h� quanto tempo pratica? - H� dezasseis anos.
Lembra-se de ter sofrido les�es de combate?
Sim, lembro-me,
mas n�o foi nada de golpes nem de viol�ncia,
foi simplesmente golpagem ou n�o podia, porque estava mal parado.
Vai respirar fundo com a boca aberta, se faz favor.
Deitar fora...
Outra vez.
Tudo fora.
Fundo.
Deitar fora.
Portanto no chamado Knock-Out
voc� nunca teve de ser submetido a tratamento m�dico?
Nunca.
Simplesmente umas arcadas abertas e nada mais.
- Ent�o nunca esteve inconsciente... - N�o, senhor.
nem teve um traumatismo craniano. - Nunca.
Tossir um bocadinho.
Outra vez.
Agora vai-se virar para mim, se faz favor.
Achas que eras capaz de lutar com um homem do seu peso?
Aten��o.
Oitavo e pen�ltimo combate.
Chegou o momento do combate internacional.
Tony Alonso de Espanha...
contra Belarmino Fragoso, portugu�s.
O combate tem oito assaltos de dois minutos,
dirigidos pelo �rbitro Sr. Joaquim Teixeira.
Voc� tens medo cada vez que entras no ringue?
Eu n�o. Tenho medo simplesmente como homem
e tenho medo de fazer m� figura, como qualquer pessoa tem,
o Carlos Ramos, um bom fadista, a Am�lia Rodrigues, uma boa artista.
N�o h� ningu�m que n�o tenha medo. Todos n�s temos medo.
Mas por exemplo, quer dizer... Tens � medo de perder.
N�o, n�o...
Tenho medo de fazer m� figura. Perder ou ganhar � a vida de um desportista.
- Ah, �? Achas que sim? - Acho.
Achas que o boxe � um desporto?
Para mim � uma modalidade que � desporto, � a nobre arte,
est� considerada no mundo inteiro a nobre arte porque de facto o �.
Mas o boxe � muito ingrato.
N�o o boxe, as pessoas que o rodeiam.
Tanto faz, em Portugal como em qualquer parte do mundo.
Em Portugal t�m acontecido... Coisas da vida...
Em Portugal h� diversas pessoas s�rias muito honestas,
que nunca se meteram em neg�cios.
E �s vezes metem-se no neg�cio do boxe porque s�o amigos do boxe,
porque s�o amigos de outros "boxeurs" e metem-se,
e h� outros indiv�duos por fora que querem ganhar � conta do boxe.
O antigo pugilista...
Portanto, quem ganha no boxe n�o s�o os pugilistas.
- N�o. - Quem � que ganha?
S�o os que rodeiam, propriamente os empres�rios.
S�o aqueles que o rodeiam, como muitos que est�o sentados no caf�
a falar de boxe, e aparece um homem s�rio a falar de boxe com eles,
e eles emprestam-Ihe dinheiro, e mais e mais dinheiro,
e por fim, depois de emprestar tanto dinheiro,
ele n�o ganha nem perde dinheiro,
porque os outros que falam de boxe com ele come�am a fumar charuto.
Olha, mas est�s a dizer isso porque normalmente dizem
que voc� �s muito indisciplinado e dizes muito mal de toda a gente
e que perdes noites e que bebes muito...
- �s indisciplinado? - N�o. Sou apenas... A pura verdade.
Eu n�o posso ser enganado nem posso ver enganar.
Nem posso ser aquilo que eles pensam.
Porque eu cheguei muitas vezes perante o ringue como h� pouco disse
com a barriga vazia e nenhum desses que fala mal de mim
me deu um tost�o para uma sopa.
Olha l�. Compraste alguma vez algum cr�tico ou o seu "manager"?
Eu nunca. At� me d� vontade de rir cada vez que perguntam.
Os cr�ticos a mim s� me d�o valor quando t�m que dar.
Como tenho um jornalista, o senhor... - nem me lembro do nome dele...
que escreve para a "Bola" e � muito engra�ado,
numa entrevista que deu comigo...
Nem deu comigo, falou da minha vida
e que eu havia de deixar o boxe, porque j� estava chonado,
porque j� tinha perdido muitos combates por KO.
Este homem diz que percebe muito de boxe, mas para mim n�o percebe.
Eu dentro do boxe, sou um t�cnico de boxe,
sou a categoria m�xima do boxe nacional,
percebo mais que qualquer um dentro do boxe.
Olha uma coisa, diziam que quando te batiam na arcada supraciliar,
eras um homem particularmente violento e atacavas muito.
Diz l� se isso � verdade ou � mentira.
Eu apenas tentava defender-me.
Porque a arcada � o s�tio mais sens�vel que n�s temos.
N�s com uma cabe�ada ou com um pequeno golpe com a m�o aberta,
podemos abrir uma arcada e eu,
- costuma se dizer dentro do boxe - a melhor defesa � o ataque...
e eu atacava para que ele n�o me atacasse a arcada.
Eu sabia que atacando-o, ele n�o me batia na arcada.
E sabia que estando parado, com um pequeno golpe, perdia a arcada.
Mas isso s�o coincid�ncias do boxe,
que muitas, muitas vezes levo socos de boxe...
levo cada soco, mas nunca sinto
e �s vezes levo uma pequena estalada e sinto.
� conforme a ocasi�o, os s�tios...
� conforme as ocasi�es e os dias que n�s temos.
H� tardes para um artista, para um bom desportista.
H� dias, noites, tardes... Tudo isto � a base do desporto.
O desporto � muito ingrato e � muito bom.
Quando falo em desporto, me d� vontade de rir.
- Porqu�? - Porqu�?
A vida � como o desporto, � bela. N�s � que damos cabo dela.
- � fant�stico. - Olha uma coisa, Belarmino.
Voc� tinhas um golpe que era considerado
um golpe sensacional que era a utiliza��o do "um dois"...
- N�o. - metias a esquerda e a direita,
mas aten��o, diziam que quando metias a esquerda
e depois a direita no "um dois",
arrastavas o bra�o, sobretudo o bra�o direito,
e quase que batias com o cotovelo nos queixos do advers�rio.
Depende do boxe... N�o, nunca fiz isso.
Mas dentro do boxe, h� duas modalidades.
H� o atacante e o da defensiva.
O homem que defende,
tem que ser um homem que s� trabalha com a esquerda
e tem de fugir de um homem que seja atacador,
ou um batalhador...
Sou um "boxeur" que ataco, sou um batalhador,
por isso n�o posso fazer golpes desses,
porque na minha categoria, como leve, apanho sempre com homens mais altos
e se bater com a m�o de baixo para cima, s�o golpes irregulares.
- Isso nunca fiz na minha vida. - Nunca fizeste?
- Nunca. - Mas a cr�tica dizia que sim.
Muitos cr�ticos escrevem e n�o sabem nada de boxe. Escrevem por escrever.
N�o prende!
Segundo assalto.
Achas que eras capaz de lutar com um homem do seu peso?
- Sim... - Quantos golpes aguentarias?
Conforme o meu treino, e a prepara��o e alimenta��o que tivesse,
porque tenho uma mulher e uma filha para alimentar e tenho que ganhar.
Um homem que fa�a uma prepara��o para 10 rounds, 3 ou 4, ou o que for,
tem que se levantar �s seis e meia da manh�
e fazer quatro quil�metros m�nimo,
quatro quil�metros de "footing", tem que ir para uma sala,
depois do "footing", vai para casa, descansa, levanta-se ao meio-dia,
sem uma obriga��o sequer,
tem de almo�ar um bom bife, tudo o que seja verduras,
bifes em sangue e n�o ter a obriga��o de ganhar para comer.
Senhoras e senhores, o Ritz Club
vai apresentar a segunda parte do programa de variedades.
Mulheres, vamos falar de mulheres.
As mulheres tiveram uma influ�ncia decisiva na sua vida ou n�o?
N�o. Apenas falava com elas como falo com todos os meus amigos,
aqueles que me deem conversa, que me deem uma boa maneira de ser,
que eu repare que � boa pessoa. Mesmo que fale com as m�s pessoas,
aqueles que v�o dizer mal de mim, com esses � que tinha de falar.
Agora mulheres...
S� tenho a minha mulher, e vivi com ela.
E antes de casar e viver com a minha mulher,
nunca fui a um cabar�.
Nunca frequentei esses bares.
Vinho, n�o gosto. Cerveja, n�o bebia.
At� porque a cerveja n�o faz mal a um "boxeur".
A cerveja dilata e n�o engorda.
H� muita gente que diz que a cerveja faz mal, mas n�o.
Apenas bebia cerveja como bebo outra bebida qualquer.
Bebo mais leite e bolas de Berlim, era a �nica coisa que comia,
porque fui habituado a comer isso
quando n�o jogava boxe e andava aflito.
Muitas vezes queria dinheiro para uma bola e um copo de leite e n�o tinha.
As mulheres n�o t�m nada a ver. O povo fala sempre do que n�o deve.
Mas ouve uma coisa, h� pessoas que te veem com prostitutas.
Podem ver. � natural. Tamb�m me podem ver com ladr�es,
com homens suspeitos e n�o sou suspeito por causa disso.
N�o me apegam nada. Sou apenas um homem, um desportista,
um simples popular. Falo com todos, com ricos, pobres, ladr�es,
com prostitutas, com toda a gente.
Mas voc� disseste que n�o ias a cabar�s e h� quem te veja nos cabar�s.
Agora. Desde que acabou a Bomboxe.
- Sim? - Sim. Porqu�?
A minha vida mudou, transformou-se. Come�aram a fazer combates...
Antes havia boxe de dois em dois meses
agora de ano a ano � que h� um combate de boxe.
H� seis anos que n�o h� boxe em Portugal.
Senhoras e senhores, Ana Maria em "strip-tease".
Eu sei que quer ir trabalhar para o estrangeiro.
Mas voc� �s um homem de Lisboa. N�o vais sentir saudades da cidade?
Sim, muitas. N�o s� Lisboa,
tamb�m sinto saudades das pessoas amigas, de quem anda comigo,
saudade da minha filha, da minha mulher, da minha casa
e at� saudades do ringue portugu�s, porque me aplaudem.
Ent�o porque vais trabalhar para o estrangeiro apesar disso tudo?
Porque a minha vida permite assim. Porque n�o h� boxe em Portugal
e vou para o estrangeiro apenas para ser treinador ou jogar.
S� para levar porrada e dar, n�o posso.
J� n�o tenho idade, j� tenho 32 anos.
Senhoras e senhores, segue-se a dan�a.
Voc� achas que o p�blico, ao ver este filme,
n�o h�-de ficar com uma sensa��o de piedade por voc�?
N�o. N�o sei.
Conforme o p�blico imaginar a ideia do Sr. Albano Martins
e conhec�-lo e conhecer a minha vida, em que fui um simples engraxador.
Est� claro, n�o era engenheiro, fui para o boxe.
Se fosse engenheiro, m�dico, ou arquitecto, n�o ia para o boxe.
Fui por necessidade. Porque dentro do boxe,
ou qualquer desporto n�o h� engenheiros nem arquitectos
que v�o para o desporto e que levam porrada na cabe�a por gosto.
S�o homens como eu, vadios.
Quanto tempo pensas que vais durar como "boxeur"?
- At� aos 33, 34. - Ent�o s� tens um ano de vida
para jogares como "boxeur". - Sim.
- E depois? - Vou para treinador.
Tenho categoria suficiente para isso,
mais que os treinadores que vejo em Portugal.
- E n�o tens pena? - Tenho muita pena...
Foi a profiss�o que agarrei at� o dia da morte.
Portanto � um campe�o que vai sair campe�o, n�o �?
� verdade.
Eu vou fazer campe�es, se tiver vida e sa�de.
Assim a minha vida mo permita.
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