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Original subtitles

BOSTON, MASSACHUSETTS

- Voc� foi vestida assim? - Sim.

S� fazem uns 4 ternos femininos decentes

que n�o lhe deixam parecida com a Hillary Clinton

e j� tenho todos eles, ent�o agora uso vestidos.

Tudo pronto? Celulares no mudo?

Sil�ncio agora.

Ent�o, voc� atropelou John com o seu carro?

N�o joguei o carro contra o John, nem dei marcha a r�.

N�o atropelei o John.

Alguma chance de ter sido um acidente?

N�o h� nenhuma chance de ter sido um acidente.

Nenhuma chance de John ter sido atingido por um ve�culo.

- J� est� cansada disso. - N�o. Eu s�...

- Mas preciso perguntar. - N�o estou cansada.

S� odeio responder porque sinto que estou sendo examinada,

tipo, "ela piscou tr�s vezes ou duas?",

"ela sorriu e olhou para a direita, para baixo, para cima

ou para a esquerda, ou sei l�." Parece t�o falso,

mesmo sendo verdade. Preferia explicar todo o resto,

tipo, n�o bati no John com o meu carro.

N�o consigo fazer soar muito sincero. Odeio dizer isso.

N�o! N�o! Ele est� morto?

Ele est� morto? N�o! N�o!

Karen Read � acusada de atropelar o namorado,

um policial de Boston, com seu carro

e deix�-lo para morrer na neve.

Foi um acidente?

O que eles t�m contra mim? Por que estou algemada agora?

E tudo passou de um acidente horr�vel para homic�dio doloso.

Para os policiais, ele era um deles.

E isso s� piora tudo.

Eu o acertei, eu o acertei.

Os promotores alegaram que ela estava com raiva,

que havia bebido, que o matou

e depois tentou encobrir o que fez.

- Protesto! - Obje��o negada.

Existe todo um outro lado nessa hist�ria.

Karen Read foi incriminada.

Existe corrup��o nessa cidade.

Celulares sendo destru�dos,

liga��es acidentais �s 2h da manh�.

A parte mais chocante � que nenhuma testemunha

realmente viu o que aconteceu.

Sou uma testemunha. E essas pessoas est�o me aterrorizando.

"Ela � uma gata, sem d�vida. Sem 'nudes' at� agora."

"Sem 'nudes' at� agora?"

Est� brincando comigo, cara?

Todos reagiram, pessoas balan�avam a cabe�a.

Todos olham para n�s agora, as pessoas acompanham.

ELA � INOCENTE, LIBERTEM KAREN READ

Em todos os meus anos de advocacia, foi a primeira vez

que fui a uma audi�ncia em que as pessoas torciam pela r�.

Estamos aqui por justi�a para Karen Read.

N�o se trata de justi�a. � um espet�culo.

Um verdadeiro carnaval macabro.

Parece que ela � a r� mais feliz da Am�rica,

cruzando um tapete vermelho at� seu julgamento por homic�dio.

N�o � o julgamento do assassinato de um policial?

A revista Elle quer me entrevistar. Ser� que devo?

Com certeza que sim.

Libertem Karen Read!

Karen Read � o rosto desse caso.

N�s a amamos!

Mas � muito maior que ela.

O chamado sistema de justi�a de Massachusetts

nunca, nunca mais ser� o mesmo depois disso.

MIST�RIO NA NEVE: O CASO KAREN READ

Meu nome � Karen Read, tenho 44 anos.

Nunca fui casada e n�o tenho filhos.

N�o me imagino vivendo essa bobagem

de casinha com uma cerca branca.

Trabalhei numa empresa de servi�os financeiros por d�cadas.

Fui professora na Universidade Bentley.

E agora fui acusada de assassinar um policial de Boston.

Posso pegar pris�o perp�tua por homic�dio doloso simples.

Como a data do julgamento est� se aproximando,

vou me mudar para um hotel em Boston.

� estranho, estou acostumada a trabalhar o dia todo,

a ter uma vida, uma carreira e uma rotina

e, de repente, n�o tenho mais nada

e estou lutando pela minha vida.

Ainda n�o consigo acreditar no que est� acontecendo comigo.

Em nome de Jesus, agrade�o.

- Am�m. - Am�m.

- Am�m. Muito bem, Karen. - Muito bem, Karen!

Passei a maior parte da minha vida em Massachusetts.

Tenho um irm�o mais velho e uma irm� mais nova.

Sou a filha do meio.

Com certeza, a mais extrovertida.

Sempre fui muito reacion�ria e talvez um pouco impulsiva.

Sou reservada, mas sou aberta.

E quando estou com outras pessoas, eu conto tudo.

Certo, pai, n�o fique sentimental.

Bem-vindos ao estilo de vida dos quase ricos e famosos.

Sou a sua apresentadora, a ador�vel e linda Karen Read!

Quando era pequena, ela vivia fazendo pe�as de teatro,

especialmente quando faz�amos churrascos

ou est�vamos na piscina.

Vamos assistir a mam�e, tudo o que ela faz � grandioso.

Ela sempre foi muito divertida.

�, tem uma personalidade incr�vel, de verdade.

Aqui est� minha querida filha.

Eu era reitor de neg�cios na Universidade Bentley.

E fiz isso at� o momento em que esse evento aconteceu.

Sa�de, amor e felicidade para todos aqui.

Meu pai adorava o trabalho dele.

Tem um ditado antigo: "Se voc� ama o que faz,

nunca trabalha um dia na vida." E esse � o meu pai.

Ele vai fazer 76 anos, acabei de completar 44

e preciso dele mais do que nunca.

John morreu h� 2 anos e 2 meses.

N�s namoramos por pouco menos de 2 anos.

A primeira coisa que voc� precisa s�o as bolachas.

Voc� p�e a m�o dentro da caixa e pega as bolachas.

E tamb�m ali dentro, se olhar, tem umas barras de chocolate.

Johnny e eu crescemos na mesma rua.

Nos conhecemos quando t�nhamos 4 anos.

Frequentamos a mesma creche, a mesma escola prim�ria,

o ensino fundamental e m�dio, sempre juntos.

Mantivemos a amizade durante a faculdade

e mesmo quando me mudei pelo pa�s por conta do meu trabalho,

ele sempre me visitava onde quer que eu estivesse.

Conhecia o Johnny h� mais de 40 anos.

Johnny era de uma fam�lia de 5 pessoas. Os pais,

a irm� mais velha, Kristen, e o irm�o mais novo, o Paul.

Quem conhecia Johnny diria a mesma coisa:

que ele era muito generoso, engra�ado.

Tudo o que fizemos a inf�ncia toda foi rir.

Ele era leal. E muito pr�ximo da fam�lia,

extremamente protetor da fam�lia.

Johnny e eu come�amos a namorar quando eu tinha uns 25 anos.

Vivemos um grande amor que evoluiu para uma amizade

que durou muito tempo.

Ele realmente era um cara muito meigo,

confi�vel, amigo,

honesto,

muito leal. Altru�sta.

Conheci Johnny na faculdade. Estudamos juntos na Northeastern.

Ele sempre quis ser policial, estudou justi�a criminal.

O av� dele era policial, nunca houve d�vida na cabe�a dele.

Pelo que ouvi, ele era um �timo policial, sabe?

Este era o n�mero do distintivo do Johnny: 2490.

O av� dele, tamb�m chamado John O'Keefe,

tinha o n�mero 490. Ent�o quando Johnny se tornou policial,

pediu esse n�mero. Mas n�o era mais usado,

ent�o ele acrescentou o "2". E em homenagem ao Johnny,

usamos o n�mero do distintivo dele,

os amigos e a fam�lia dele.

Tentando manter vivo o legado dele.

Nove anos antes da morte do John, sua irm� Kristen,

n�s a cham�vamos de Kristy,

foi diagnosticada com tumor cerebral.

Ela lutou, mas faleceu muito r�pido,

acho que em 5 meses, ela era jovem.

Johnny ficou arrasado, eles eram muito pr�ximos.

E depois o cunhado dele morreu de ataque card�aco.

Quase 2 meses exatos da morte da Kristy,

com um dia de diferen�a. E eles tinham dois filhos.

John ficou numa situa��o muito dif�cil.

A sobrinha e o sobrinho dele tinham acabado de perder os pais.

E ele disse: "Vou ficar com as crian�as.

Acho que minha irm� gostaria, que ficaria orgulhosa de mim.

J� sou muito chegado �s crian�as e quero fazer isso."

Nunca houve d�vida para Johnny.

Nunca foi: "Ser� que devo? Ser� que consigo?"

N�o, ele simplesmente fez.

Ele assumiu o papel de forma natural.

As crian�as precisavam de algu�m e ele estava l�. Sempre esteve.

Ele as amava com todo o cora��o.

Acho que foi isso que guiou todas as decis�es dele.

Acho que, se ele tivesse seus pr�prios filhos,

teria sido um pai incr�vel.

Conheci John em fevereiro de 2004,

por meio de um amigo dele do col�gio.

Namoramos por algumas semanas, mas na primavera daquele ano

fui trabalhar temporariamente na Irlanda.

E por causa disso, n�s paramos de nos ver

e perdemos contato.

Mas no come�o da pandemia, eu estava em casa,

trabalhando remotamente tinha umas duas semanas

e j� n�o aguentava mais. N�o entrava no Facebook h� anos.

Johnny era um pai solo e com tudo fechado

por causa da pandemia, pelo que eu entendi,

ele enviou uma mensagem no Facebook

para v�rias ex-namoradas e foi ela quem respondeu.

N�o respondi na hora porque vi uma foto dele

com umas crian�as. E pensei: "Ele se casou e tem filhos."

Mas acabei falando com ele

e soube de toda a hist�ria, de onde as crian�as vieram.

Convivi com John por apenas 2 anos,

mas sabia muito sobre ele.

Ele amava a vida. Tinha coisas que ele gostava de fazer,

coisas que o faziam rir e sorrir, m�sicas que ele curtia

e jogos do Red Sox que ele adorava assistir.

John amava a irm� mais do que qualquer outra pessoa.

E ele amava aquelas crian�as.

Nunca quis ter filhos,

mas eu gostava dos filhos do John.

Antes da morte do Johnny,

todo mundo do c�rculo dele gostava da Karen.

N�o havia ningu�m que achasse que ele n�o deveria namorar com ela.

Pelo que v�amos, parecia um relacionamento feliz.

Mas nunca sabemos o que acontece a portas fechadas.

John, eu te odeio!

Voc� � um maldito pervertido!

BOSTON, MASSACHUSETTS

Por que est� fazendo esse filme?

Essa � a minha forma de depoimento.

Fazer esse filme � o meu testemunho.

Isso aconteceu comigo

e sei o que aconteceu entre John e eu.

Sei o que aconteceu na nossa vida,

no tempo que passamos juntos, antes disso.

Conhe�o os eventos daquela manh�, sei o que eu disse ou n�o disse.

Mas n�o pude falar sobre isso.

� incrivelmente frustrante.

Quero contar o que aconteceu, exatamente como aconteceu.

C�MERA DA VIATURA DA POL�CIA

28 DE JANEIRO DE 2022

John e eu discutimos na manh� do dia 28, uma sexta-feira.

A maioria das nossas brigas era sobre os filhos dele.

Ele achava que eu os mimava demais.

DESCULPE. ISSO � UM PROBLEMA H� 8 ANOS.

TODOS OS AGRADAM E SOU SEMPRE O VIL�O

E achava um golpe baixo da parte dele me criticar por isso.

Isso me irritava.

Eu disse: "Preciso sair daqui um pouco."

Ent�o fui para minha casa em Mansfield.

Eu me acomodei e trabalhei remotamente o dia todo.

Os meteorologistas preveem que Boston enfrentar�

uma das maiores nevascas em um dia j� registradas.

Naquele dia, todo mundo se preparava

para uma grande nevasca.

Mas percebi que n�o queria ficar presa aqui, sozinha na neve.

Preferia estar com John e as crian�as,

fazendo algo divertido.

Sempre nos divert�amos nos finais de semana.

Por volta das 18h, ou eu liguei para o meu pai, ou ele me ligou,

e perguntou: "Como foi seu dia? O que est� fazendo?"

A� eu contei o que aconteceu.

Eu odiava reclamar do John para os meus pais

porque eles gostavam muito dele.

E meu pai, gentilmente, disse:

"Karen, por que n�o fica em casa essa noite? Vai nevar."

Mas eu n�o fiquei.

Pai, se tivesse ouvido voc�, nada disso teria acontecido.

Acho que sa� de Mansfield �s 20h30

e encontrei John em um bar em Canton,

o CF McCarthy's, �s 21h.

20H51, KAREN CHEGA NO C.F. MCCARTHY'S

Depois, fomos ao Waterfall, que fica bem do lado do McCarthy's.

No Waterfall, encontramos Jen e Matt McCabe.

N�s v�amos Jen McCabe o tempo todo.

Ela treinava o time de basquete da sobrinha do John

e a v�amos duas ou tr�s vezes por semana.

E tamb�m estavam l� Brian e Nicole Albert,

e Brian Higgins.

No fim de semana anterior,

encontrei os Alberts pela primeira vez

junto com os McCabes.

Mas estava ficando tarde

e John disse que Jen nos convidou para ir na casa dos Alberts.

Sempre que sa�a com John,

meu objetivo era que ele desestressasse.

Era melhor para todos se ele relaxasse um pouco,

porque ele vivia sob press�o.

Ent�o, pensei: "Claro, vamos." N�o devia demorar muito, certo?

Todos estavam com algum n�vel de embriaguez.

Era o que faz�amos em Canton, todo mundo bebia.

As pessoas saem dos bares em grupos

e dirigem b�badas at� suas casas e ningu�m � parado pela pol�cia.

Ent�o, dirigi enquanto John falou ao celular com a Jen

e me deu o endere�o: Fairview, n�mero 34.

Quando chegamos l�,

n�o parecia que estava acontecendo muita coisa,

n�o parecia convidativo. Estava escuro do lado de fora

e n�o vi nenhum carro conhecido.

Ent�o eu disse: "John, pode ir ver se somos esperados aqui?"

Ele disse: "Vou l� ver."

Quando John saiu do carro, na casa do Brian Albert,

levou meu copo de vodca com soda que estava dentro do carro.

Ele caminhou em dire��o � casa daquele jeito dele,

meio saltando, sempre apressado.

A� eu o vi chegar na porta lateral,

a segunda porta na frente da casa.

Ele a abriu e entrou.

Da�, esperei, acho que 1 minuto, e ele n�o saiu da casa.

Depois de uns 2 ou 3 minutos,

fiquei irritada, ent�o peguei o celular e liguei para ele.

N�o queria esperar ele responder uma mensagem,

mas ele n�o atendeu. E pensei: "Est� de brincadeira!

O que voc� est� fazendo? Voc� acabou de entrar

e estou aqui esperando." Ou somos bem-vindos ou n�o,

mas n�o deveria levar 5 minutos para descobrir.

Ent�o 10 minutos se passaram e eu fui embora.

E n�o estava nada feliz.

John, voc� est� me usando agora.

Voc� � um maldito de um fracassado. V� se ferrar!

Mal sabia eu que John n�o estava recebendo as minhas liga��es.

E foi isso. A �ltima vez que falei com ele

foi quando saiu do meu carro na casa de Brian Albert.

O policial de Boston, John O'Keefe,

veterano do departamento,

foi encontrado ca�do de costas na neve

no s�bado de manh�, durante uma nevasca,

na Rua Fairview, em Canton,

por volta das 6h. Ele faleceu mais tarde.

O que aconteceu foi que saiu no notici�rio da TV

na manh� do dia 29 de janeiro de 2022.

Recebi uma liga��o de um amigo meu

dizendo que Johnny tinha morrido.

O Johnny? Como assim? N�o o John, como assim?

Tipo, ele era...

Fiquei em estado de choque. Arrasado.

N�o conseguia acreditar.

Eu disse: "Por favor, Deus,

n�o o John O'Keefe. N�o o John."

S� conseguia pensar nas crian�as, no Paul, na Peg, no Papa.

Ainda hoje, quase n�o acredito.

N�o existem mais pessoas como ele, sabe?

Desculpe, n�o consigo.

A minha filha era uma das afilhadas do Johnny,

minha filha mais velha, e tive que contar para ela.

Foi dif�cil.

N�o t�nhamos nenhum detalhe �quela altura.

Ent�o liguei para o irm�o do Johnny, o Paul,

e ele come�ou a esclarecer algumas coisas.

Acho que a primeira explica��o que me deram

foi que Karen tinha atropelado John com o carro.

Quando Brendan me ligou, n�s dissemos: "Espere! O qu�?

Ela fez isso?"

E ele disse: "Ainda n�o sei, mas parece que sim."

Todos gostavam da Karen.

Mas tudo mudou na manh� de 29 de janeiro.

Karen Read deixou o tribunal ap�s pagar fian�a,

acusada de atropelar o namorado,

o policial de Boston John O'Keefe,

com seu carro na madrugada de s�bado.

De repente, a morte do John

estava no notici�rio local noturno.

Mostraram algu�m dizendo que Karen Read

tinha atropelado John O'Keefe com o seu carro.

Os ferimentos que ele sofreu

eram compat�veis com o que os param�dicos disseram:

que ele tinha sido atingido por um objeto contundente, o ve�culo.

Tudo o que se via ali

se encaixava com um acidente de tr�nsito,

que ela o atropelou

e o deixou para morrer na neve.

Tr�s dias ap�s a morte do John, a pol�cia me prendeu aqui,

literalmente onde estou sentada agora, na minha sala de jantar.

Eles j� haviam apreendido meu carro e meu celular,

ent�o eu sabia que era uma suspeita.

E como n�o tinha ouvido nada sobre outro suspeito,

sabia que iam atr�s de mim.

Era por volta de 19h45, eu estava ao telefone

e ouvi v�rias portas de carros fechando ao mesmo tempo.

Olhei para fora e havia uma d�zia de policiais.

Parecia um esquadr�o da SWAT. Fui acusada de homic�dio culposo.

Minha esposa recebe notifica��es sobre tudo no celular.

E eu a ouvi prendendo a respira��o.

Perguntei: "O que foi?" E ela disse: "Sua irm� foi presa."

Parecia surreal ver minha irm�

ser conduzida na frente das c�meras, algemada

e retratada como a pior pessoa do mundo.

Lembro de tudo perfeitamente. Lembro de estar na pris�o,

lembro da audi�ncia, das c�meras, dos meus pais

e lembro da apresenta��o do caso.

Eu estava desesperada para saber: o que eles t�m contra mim?

Por que estou algemada?

Eu me sentia envergonhada pela posi��o em que me encontrava,

queria voltar para casa

e entender o que estava acontecendo.

Quando ouvi pela primeira vez uma explica��o

sobre como Johnny morreu, foi que Karen Read

estava dirigindo embriagada,

que o tinha atropelado

e tinha sido presa.

E pensei: "Bem, � um caso simples e direto."

Imaginei que ela estava arrependida,

que devia estar arrasada pelo que fez,

tipo, que ela assumiria a culpa e que n�o era muito complicado.

Eu n�o fazia ideia de como tudo estava prestes a sair do controle

e ainda n�o tinha no��o do tamanho que tudo aquilo ia tomar.

Quando John morreu,

David Yannetti foi a primeira e a �nica pessoa

para quem eu liguei em busca de advogado.

E ele est� comigo desde o come�o. E ele falou na TV.

Este � um caso defens�vel. Digo a voc�s que a minha cliente

n�o teve inten��o criminosa, ela amava esse homem.

Tenho meu pr�prio escrit�rio desde 1999.

Antes disso, fui Promotor Assistente do Distrito

e passei a maior parte do tempo

investigando e processando homic�dios.

Quando ouvi que um policial foi morto,

sabia que esse tipo de caso

sempre recebe uma aten��o especial.

Ent�o mesmo que os promotores achassem

que tinham um caso dif�cil de provar, n�o iam pegar leve.

Ficou claro que o caso exigiria muito trabalho.

Ent�o eu precisava de algu�m para me ajudar.

Liguei para o Instituto de Justi�a Criminal de Harvard.

Um professor atendeu e disse: "Voc� precisa se informar

sobre o caso do Kevin Spacey. Fale com os advogados dele,

talvez consiga ajuda com eles." E, resumindo a hist�ria,

foi assim que encontrei Alan Jackson e Liza Little.

Boa tarde, passageiros. Se chegou no voo 288 de L.A.,

sua bagagem est� sendo descarregada na esteira 7.

Bem-vindos a Boston!

Tudo bem? Certo, vamos.

Meu nome � Alan Jackson, sou advogado em Los Angeles.

Recebi um e-mail. E o assunto do e-mail

era algo como "Assassinato de policial de Boston".

Olhei s� uma das fotos da aut�psia de John O'Keefe,

vi o bra�o dele e disse: "Est� brincando comigo?

Ele foi atropelado por um carro?"

Lembro do Alan me chamando at� o escrit�rio dele

e dizendo: "Liza, tem que ler isso, vai gostar desse caso."

Vamos ligar para Karen.

As mo��es nas quais realmente precisamos nos concentrar

ainda n�o foram feitas. Sabe, m� conduta policial e...

Alan e eu trabalhamos juntos h� quase 9 anos j�.

Trabalhamos no caso do Kevin Spacey.

E tamb�m em v�rios grandes casos de homic�dio em Los Angeles.

Quero ver o local em que vamos trabalhar. Pode nos encontrar l�?

Certo.

CENTRO DE OPERA��ES

Legal! � perfeito.

- E as nossas caixas? - Ali naquele canto.

Meu Deus! Karen, me faz um favor?

- N�o. - Tire tudo dessas caixas...

Sabia que ia dizer isso.

Por isso eu disse "n�o".

Estamos muito perto do julgamento.

Vai come�ar em poucas semanas.

A maioria dessas coisas � s� para o tribunal, certo?

- H� 3 conjuntos de testemunhas... - N�o, n�o.

Estou lutando pela minha vida agora,

mas n�o tenho medo dos desafios emocionais ou mentais

que sei que vou enfrentar nos pr�ximos 2 meses.

Eu sei que sou inocente.

Eu gostei. Bem-vinda � sua casa.

Nesse caso, todo mundo tem uma opini�o e � "sim ou n�o".

Ou voc� acha que ela fez aquilo,

deu r� em cima do namorado e ele ficou l� ca�do

e tragicamente morreu.

Ou voc� pensa: "Espere a�.

Algo n�o est� certo aqui. Nenhuma das provas bate.

Provas foram perdidas, de forma bizarra,

e depois encontradas."

Existem duas teorias conflitantes e opostas

e o p�blico ainda n�o tem uma resposta,

ent�o � um verdadeiro mist�rio.

Precisamos analisar mais a fundo o que realmente aconteceu

com John O'Keefe.

No dia seguinte ao que aconteceu, no dia seguinte � morte do John,

eu estava confusa e perplexa.

N�o me lembrava de nada diferente ter acontecido,

mas eu tinha bebido, j� era tarde

e n�o ouvi mais nada dele, obviamente.

Ent�o, pensei: "Ser� que eu o atropelei?

Ele tentou me alcan�ar enquanto eu sa�a e n�o percebi?"

Eu estava com a m�sica alta, estava nevando,

os limpadores ligados, o aquecedor ligado.

"Ser� que ele chegou e bateu na traseira do meu carro,

eu o acertei no joelho, e ele estava b�bado e desmaiou

e sufocou ou algo assim?"

E quando contratei David Yannetti,

fiz essas perguntas para ele sobre a noite de 29 de janeiro:

"David, e se, sei l�, e se eu passei sobre o p� dele?

E se eu o acertei no joelho e ele desmaiou

ou foi ver onde eu o machuquei e vomitou e desmaiou?"

David disse: "Sim, a� voc� teria um grau de culpa no caso."

Ent�o, foi s� nisso que pensei por uns 3 dias.

Li o relat�rio policial que dizia que ela tinha acidentalmente

atropelado o namorado com o carro.

E com base no que ela disse, o meu racioc�nio foi

que era caso de homic�dio culposo no tr�nsito

para um tribunal distrital, com menos puni��es.

Mas claro que o caso se tornou muito maior que isso.

Centenas de pessoas prestaram homenagem

ao policial de Boston John O'Keefe.

O vel�rio foi realizado no domingo

na Igreja de S�o Francisco de Assis, em Braintree.

Eu me lembro que foi um dia dif�cil,

estava muito frio. A imprensa estava por toda parte.

E centenas de pessoas esperavam na fila pacientemente.

VEL�RIO ESTA NOITE DO POLICIAL JOHN O'KEEFE

N�s que carregar�amos o caix�o

ficamos na parte interna da entrada

da Igreja de S�o Francisco.

E dava para ouvir a gaita de fole.

A�, fomos informados de que o carro funer�rio havia chegado.

E quando abrimos as enormes portas da igreja,

vimos que n�o era uma gaita de fole,

eram 50 gaitas de fole

e centenas de policiais em forma��o.

E havia v�rios meios de comunica��o locais de Boston

cobrindo o memorial. O apoio foi avassalador.

Foi surreal carregar o caix�o dele.

S� de pensar que anos antes ele foi meu padrinho de casamento,

e ali estava o meu amigo de 40 anos,

que sempre esteve presente, ele estava sempre l�.

Ele fazia parte da minha vida.

Eu s� tentava entender como tudo aquilo...

havia mudado.

VEL�RIO DE POLICIAL DE BOSTON ENCONTRADO MORTO EM CANTON

Parte da rodovia foi fechada, a cidade parou

para o funeral de John O'Keefe.

Foi uma honra, sabe? Lembro de ter ficado emocionada.

De estar na rodovia e ver que ela foi fechada para ele.

E ent�o, as pessoas se alinharam com a m�o no peito,

usando fitas azuis.

Foi lindo, como se o legado dele

j� tivesse se espalhado para todo lado,

mesmo antes de tudo virar um espet�culo.

Acho que ele teria ficado muito orgulhoso

de receber esse tipo de despedida.

Assim que fui formalmente acusada em 2 de fevereiro,

disseram que havia uma ordem de restri��o,

para eu ficar longe de qualquer membro da fam�lia dele.

Por isso, n�o fui ao funeral do John

nem a nenhum memorial para ele. Nunca fui ao t�mulo dele.

Eu s� queria deixar tudo aquilo para tr�s.

Essa noite, novidades no caso de Karen Read.

A mulher de Massachusetts acusada pela morte

do policial de Boston John O'Keefe.

Eu n�o achava que seria presa novamente pela morte do John.

Mas estava errada.

C�MERA CORPORAL DA POL�CIA

O pesadelo estava s� come�ando.

Ap�s Karen Read ser acusada de homic�dio culposo,

a promotoria levou o caso a um grande j�ri estadual

com a acusa��o de homic�dio doloso,

o que resultou em uma den�ncia.

O j�ri concordou que havia provas suficientes

para o caso ir a julgamento.

Homic�dio culposo � uma morte n�o intencional,

que ocorre como resultado de uma a��o imprudente,

causando a morte de outra pessoa.

Karen � acusada de homic�dio doloso,

que � essencialmente homic�dio com inten��o de matar.

Fiquei pasmo. Meu primeiro pensamento foi: "O que eles t�m?"

Ele era um policial de Boston, quer dizer, isso j� diz tudo.

A muralha do uniforme azul foi erguida

e Karen Read est� do lado de fora dela.

Ela � a forasteira, � o bode expiat�rio.

C�MERA CORPORAL DA POL�CIA

Ouvi novamente as portas dos carros e l� estavam eles de novo.

N�o foi t�o teatral

quanto da primeira vez em que fui presa,

mas vi os dois investigadores principais,

o Patrulheiro Proctor e o Sargento Bukhenik.

No come�o, pensei que foram me fazer perguntas ou algo assim.

Ela est� l� atr�s.

- L� fora? - �.

Quando eles foram para os fundos, pensei que fossem me machucar

porque ouvi dizerem: "Vamos fazer isso nos fundos."

E comecei a tremer.

Eu abri a porta e disse: "O que est� acontecendo?"

Eles disseram: "Voc� est� presa." Eu disse: "Por qu�?"

E eles: "Voc� foi denunciada por homic�dio doloso e est� presa."

E leram os meus direitos de novo.

Eu recuei

e o Patrulheiro Proctor me agarrou e tentou me virar

e pegar o meu bra�o. Continuei tentando me esquivar dele

porque n�o entendia por que estava sendo presa.

Por favor, s� o deixe algem�-la.

Agora fui acusada de homic�dio doloso?

- Exatamente. - Homic�dio doloso veicular

e fuga do local do crime causando morte e-ou les�o corporal.

Por isso, foi emitido um mandado de pris�o contra voc�.

Fui acusada de mais crimes.

As acusa��es foram elevadas de homic�dio culposo

para homic�dio doloso, o que significa um grau de inten��o,

que sabia o que estava fazendo, que n�o foi acidente.

Homic�dio doloso pode levar � senten�a de pris�o perp�tua.

Voc� pode ser eleg�vel para liberdade condicional.

Mas n�o h� garantia de que v� conseguir.

� pris�o perp�tua.

Dez anos ou pris�o perp�tua a esta altura

me parecem a mesma coisa. Passei duas noites,

dois dias na pris�o, e pareceu uma eternidade.

Ent�o, podem me trancar por 6 meses,

que para mim, pareceria uma vida inteira.

Quer dizer, tenho 44 anos, ent�o 20, 30, 40,

� o resto da minha vida produtiva.

� um mandado de pris�o contra voc�.

Fui algemada pelo Proctor.

Estava s� de shorts, sem calcinha,

com uma camiseta. E coloquei um casaquinho

quando os ouvi l� fora. E estava de pantufa.

Vamos cuidar disso.

Que medica��o voc� usa, de que precisaria agora?

Preciso dos meus rem�dios e de alguns itens de higiene pessoal.

Certo. Que tipo de rem�dio e onde est�? N�s pegamos para voc�.

Posso colocar um cal�ado normal para n�o aparecer na TV assim?

- Sim. - Isso aqui...

Nem estou usando roupa �ntima. Posso vestir uma cal�a?

De novo. Os seus pais podem vir aqui e pegar o que precisar.

Mas n�o quero aparecer no Canal 4 de pijama!

N�o me preocuparia com o notici�rio agora.

- Quer falar comigo agora? - N�o!

Viu como ela � maluca? Est� vendo as c�meras aqui?

Est� mais preocupada com a apar�ncia dela na TV.

Sente-se aqui, por favor.

Fui levada na viatura policial para a delegacia de novo.

E fui fichada de novo.

Pronta? 1, 2, 3.

Eu sabia que iam me exibir de novo.

Era assustador. Eu estava numa posi��o completamente vulner�vel

e minha mente estava a mil.

Eles iam me trancar e achavam que eu era uma assassina.

Foi a� que percebi que era para valer.

Eles queriam que eu pagasse.

- Por aqui. - Certo.

Vire na primeira � direita.

E a primeira � esquerda.

Tenho que revist�-la, certo?

Isso, puxe os bolsos para fora, assim n�o vou precisar...

Nada nos bolsos? Nada na cintura, certo?

A segunda noite foi muito, muito pior na pris�o

do que a primeira porque comecei a pensar

- que n�o voltaria mais para casa. - Alguma coisa atr�s?

Aquela noite foi uma das piores da minha vida.

Certo. Tem bolsos na camisa?

N�o.

Certo, senhora, fique com isto.

Na primeira vez que Karen foi presa,

lembro de voltar para o meu escrit�rio em casa naquela tarde

e meu assistente me dizer

que um cara chamado Mike tinha ligado para o escrit�rio,

com informa��es importantes para mim.

Liguei para ele. Lembro de estar sentado na minha mesa em casa,

no meu escrit�rio. Ele tinha uma voz rouca

e, sabe, foi um momento marcante

porque ele disse

que talvez outra pessoa

tivesse causado a morte de John O'Keefe.

Logo no in�cio do caso, era tudo nebuloso.

David n�o sabia com o que lidava. Entrou no caso

sem nunca ter visto a Karen.

Ela era acusada de atropelar um policial, com o carro,

ele acabou morrendo e David l�, perdido:

"Mas o que aconteceu? Preciso de provas e n�o tenho nada."

Mas ent�o ele recebeu uma liga��o no escrit�rio

de algu�m que disse,

quase que sussurrando:

"Precisa investigar quem mora no n�mero 34 da Fairview.

Precisa investigar bem os propriet�rios.

Precisa investigar os ocupantes daquela casa."

Tinha mais coisa ali do que parecia.

N�o faz�amos ideia de que poderia haver

outro suspeito do crime.

E tudo mudou naquele momento.

Eu o chamei ao meu escrit�rio,

ele foi e se sentou com o meu investigador e comigo.

E, sabe, nossa conversa com ele n�o passou desse ponto.

N�o era como se ele fosse uma testemunha

ou que pud�ssemos us�-lo.

Mas aquela pista foi valiosa

porque nos mandou numa dire��o diferente bem cedo

na investiga��o.

Se aquele informante n�o tivesse dado a informa��o,

n�o sei se estar�amos aqui agora.

Porque no in�cio, David dizia algo como:

"Foi um acidente e ela n�o � criminalmente respons�vel."

Mas depois daquela pista,

come�amos a enxergar uma nova defesa:

que era uma arma��o contra Karen Read.

A defesa diz que Read n�o atropelou O'Keefe,

mas que, na verdade, ele foi espancado dentro da resid�ncia

e seu corpo foi depois jogado na rua.

Parece que somos os �nicos lutando pela verdade

sobre o que aconteceu com John O'Keefe.

Karen, s� para esclarecer, voc� n�o o matou?

N�s sabemos quem foi, Steve, n�s sabemos.

E sabemos quem liderou essa encena��o. Todos voc�s sabem.

- N�s sabemos. - E n�o, n�o foi ela.

N�o foi ela. Esta mulher � inocente.

A defesa tem uma hist�ria diferente para o que aconteceu.

H� uma suposta conspira��o policial aqui.

John O'Keefe entrou naquela casa.

E a alega��o � que algo aconteceu l� dentro.

- Quem acha que �? - Com certeza

a Pol�cia Estadual de Massachusetts est� envolvida.

Havia pessoas naquela casa que est�o envolvidas.

Brian Albert est� envolvido. Jennifer McCabe est� envolvida.

As outras pessoas que estavam naquela casa,

cada uma delas tem algum n�vel de envolvimento no caso.

Entre as pessoas na casa naquela noite estavam Brian Albert,

propriet�rio da casa, e Brian Higgins.

Brian Albert � policial em Boston.

� o chefe de uma unidade de fugitivos.

Brian Higgins � agente federal da ATF

e amigo do chefe de pol�cia do Condado de Canton.

Tudo aconteceu na frente da casa de um policial de Boston.

E nos primeiros 2 anos do caso,

sab�amos que algo estava errado e lut�vamos com unhas e dentes

para ter acesso aos dados dos celulares, informa��es eletr�nicas

que sab�amos que eram a chave do caso.

N�o se pode provar conspira��o s� fazendo perguntas dif�ceis,

� preciso dados para apoiar a alega��o.

Uma das coisas que tentamos fazer com muito esfor�o

foi acessar todas as comunica��es eletr�nicas.

Como se prova uma conspira��o?

� preciso ver os celulares das pessoas. Vivemos no s�culo 21,

� assim que conspira��es s�o conduzidas.

E esse foi um dos aspectos em que Alan e eu

tivemos sucesso no caso Spacey.

A acusa��o obteve os dados do celular da Jen McCabe,

uma das mulheres que estava na casa naquela noite.

Foi uma das pessoas que sugeriram que John

fosse at� a casa naquela noite.

Ent�o, contratamos um perito forense

para analisar esses dados.

E, para nossa surpresa,

nunca vou esquecer, estava neste escrit�rio

quando recebi uma liga��o. E nosso perito forense

n�o sabia muito sobre o caso.

Ele n�o sabia a sequ�ncia de eventos,

n�o sabia qual era o impacto de certas datas e hor�rios,

nada disso. E ele disse: "S� queria avis�-lo

que n�o sei se isso significa algo para voc�,

mas no celular de Jennifer McCabe,

h� uma busca no Google

por: 'quanto tempo leva para se morrer no frio'."

Ela escreveu errado a palavra "quanto", escreveu com "d".

E eu disse: "O qu�?

Voc� tem certeza? Porque isso n�o estava no relat�rio deles."

Ele disse: "Tenho certeza."

E ele disse: "Foi �s 2h27 e 40 segundos."

"Certo. Qual data?"

E ele disse: "29 de janeiro."

29/01/2022, 2H27MIN40S

Eu pensei: "N�o pode ser.

N�o pode ser." Jennifer McCabe,

de acordo com os ind�cios que t�nhamos do celular dela,

pesquisou no Google: "Quanto tempo se leva

para morrer no frio?" �s 2h27min40s da madrugada,

tr�s horas e meia antes do corpo do John ser encontrado.

NINGU�M AL�M DE KAREN READ

FOI ACUSADO EM CONEX�O COM A MORTE DE JOHN O'KEEFE

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