All language subtitles for Be.Natural.The.Untold.Story.of.Alice.Guy-Blache.2018.1080p.WEBRip.x264-RARBG

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Original subtitles

�, de facto, uma hist�ria muito antiga.

Que remonta a que ano, concretamente?

A 1896.

Como se passaram as coisas?

- Quer conhecer a hist�ria? - Sim.

Foi o meu destino, por assim dizer.

Sim, Hollywood estava longe de ser o que viria a tornar-se.

Absolutamente.

"Diz ol� ao meu amiguinho."

"J� n�o estamos em Kansas."

"Sinceramente, minha querida, estou-me completamente nas tintas."

"Est� vivo! Est� vivo! Est� vivo!"

"Ainda n�o ouviste nada."

No dia 28 de Dezembro de 1895,

numa sala escura do Grand Caf� em Paris,

os Irm�os Lumi�re fazem a primeira apresenta��o p�blica

da sua nova inven��o, o Cinemat�grafo.

Esta projec��o assinala a estreia hist�rica

do primeiro processo consistente

de projec��o de imagens em movimento.

Nove meses antes, no dia 22 de Mar�o,

na Soci�t� d'Encouragement pour l'Industrie Nationale,

Auguste e Louis Lumi�re haviam mostrado o cinemat�grafo

a um grupo de amigos e colegas numa projec��o privada.

Entre os convidados estavam o engenheiro e inventor L�on Gaumont,

e Alice Guy, a sua secret�ria, que na altura tinha 22 anos.

Pareceu-me extraordin�rio. Senti um verdadeiro espanto.

Foi o nascimento do cinema.

BE NATURAL A HIST�RIA NUNCA CONTADA DE ALICE GUY-BLACH� A PRIMEIRA MULHER REALIZADORA DA HIST�RIA DO CINEMA

Narra��o

�mile e Marie Guy, um casal franc�s que vivia no Chile,

s�o pais de quatro filhos: Louis, Julia, Henriette e Marguerite.

No dia 1 de Julho,

Alice Ida Antoinette Guy nasce

em Saint-Mand�, um sub�rbio de Paris.

O pai regressa de imediato ao Chile para tratar dos neg�cios.

A av� de Alice cuida dela

com amor, aten��o, can��es e hist�rias.

Marie regressa a Fran�a para levar a filha para o Chile.

Em Valpara�so,

�mile gere o seu neg�cio de edi��o e venda de livros.

Marie ajuda �mile e ocupa-se de obras de caridade,

e Alice aprende a ler franc�s

e a falar espanhol.

Aos seis anos,

junta-se �s irm�s num col�gio interno de freiras.

O filho mais velho de �mile e Marie morre de doen�a.

Pouco depois, a fam�lia Guy muda-se para Paris.

As irm�s de Alice saem de casa.

Sucede-se nova trag�dia:

�mile morre, deixando Marie e Alice � sua merc�.

Alice toma conhecimento de que a Comptoir G�n�ral de Photographie

est� � procura de uma secret�ria.

�-lhe concedida uma entrevista com o propriet�rio, o Sr. Richard.

Quando cheguei, disseram-me: "O Sr. Richard n�o est�."

Percebendo a minha decep��o, a pessoa em causa disse-me:

"Contacte o Sr. Gaumont."

Na altura, ele ainda n�o era presidente da firma.

Fui ter com o Sr. Gaumont.

Disse-me, "Tem excelentes recomenda��es, menina,

mas trata-se de um cargo importante. � demasiado jovem."

O que me levou a responder-lhe, "Caro senhor, isso h�-de passar".

"� verdade, h�-de passar".

Alice consegue o emprego

e passa a sustentar-se a si e � m�e.

Richard aconselha Gaumont a comprar a sua firma.

Ele aceita.

Entre os investidores iniciais da Gaumont

encontram-se Joseph Vallot, astr�nomo conceituado,

e Gustave Eiffel, engenheiro de fama internacional.

Na Europa e nos EUA, inventores e fabricantes

competem entre si para resolver

o problema da capta��o e projec��o de imagens em movimento

e a cria��o de um sistema economicamente vi�vel.

L�on Gaumont quase o consegue

com a c�mara de 60 mm de Georges Demen�,

mas os Irm�os Lumi�re vencem a corrida e tornam-se "os pais do cinema".

Inspirada pela projec��o dos Lumi�re,

Alice pensa que � poss�vel fazer melhor do que documentar o dia-a-dia.

Porque n�o utilizar o cinema para contar hist�rias?

Alice Guy escreve, realiza

e produz um dos primeiros filmes de fic��o de sempre.

A Fada Repolho 1899-1900 remake do filme de 1896

Alice � uma das primeiras pessoas

a utilizar v�rias t�cnicas cinematogr�ficas,

incluindo grandes planos, pel�cula pintada � m�o e som s�ncrono.

Guy demite-se da Gaumont para acompanhar o marido nos EUA.

Alice regressa � realiza��o e funda a sua pr�pria firma.

Dirige e coordena todos os assuntos relacionados com a produ��o.

Ap�s uma carreira de duas d�cadas em dois pa�ses,

que abarca os cerca de mil filmes que escreveu, realizou ou produziu,

Alice desaparece do mundo do cinema.

Hollywood era ainda uma cidade onde havia cartazes �s portas com o escrito,

"N�o s�o admitidos c�es ou realizadores".

O meu nome � Pamela Green

e trabalho na ind�stria do entretenimento.

H� tempos, vi um pequeno segmento num programa de televis�o

sobre as pioneiras do cinema.

Uma delas era Alice Guy-Blach�. Fiquei surpreendida.

Por que motivo nunca ouvira falar dela?

Como � que uma figura t�o relevante dos prim�rdios do cinema

n�o � conhecida?

Estava empenhada em fazer alguma coisa em rela��o a isso.

Mas primeiro tinha de obter mais informa��es.

J� ouviu falar de Alice Guy-Blach�?

Sou realizadora,

mas nunca ouvi falar dela.

N�o.

N�o fa�o ideia.

Nunca ouvi falar dela.

Por acaso, j� tinha ouvido falar de Alice Guy-Blach�.

Nunca ouvi falar de Alice.

Nem sequer conhecia o nome dela.

N�o.

Sim, conhecia.

Nunca ouvi falar dela.

Li muitos livros sobre cinema e escrevi v�rios, mas n�o a conhecia.

Ouvi falar dela... N�o, nunca ouvi falar dela.

� inacredit�vel: sou realizadora, tenho uma certa idade, sou mulher,

e nunca ouvi falar dela.

� impressionante n�o conhecermos uma realizadora como ela.

Eu acho que as pessoas pensam que inventaste essa personagem.

N�o...

Nunca, nunca...

Hoje em dia a obra da Alice Guy-Blach� n�o � ensinada nas escolas de cinema

em Fran�a. Mas � francesa.

Est� entre os primeiros realizadores da Hist�ria do cinema.

O n�mero de filmes que realizou

� superior ao de Edison, dos Irm�os Lumi�re, de M�li�s...

Dou aulas na Universidade de Nova Iorque

e os alunos reagem sempre da mesma maneira:

"Porque nunca ouvi falar da Alice Guy-Blach�? � fant�stica."

Qualquer informa��o sobre ela � crucial,

porque a Hist�ria est� a desaparecer t�o depressa...

Foi h� mais de 100 anos.

Pode afirmar-se que a Alice � importante

para a Hist�ria do cinema por todos os motivos �bvios:

cria a sua firma de cinema, realiza, escreve,

� uma produtora extraordin�ria.

Mas n�o s�o esses os melhores motivos.

Alice Guy-Blach� prova at� que ponto andamos enganados:

"As mulheres n�o podiam faz�-lo, as mulheres n�o queriam faz�-lo..."

Ela tem de ser reconhecida

porque foi mantida no esquecimento durante muito tempo.

Porque foi esquecida? Como � que se perdeu na torrente?

H� perguntas em aberto que devem ser investigadas.

Sempre que se encontra um novo documento,

surgem novas informa��es

que podem mudar o curso da investiga��o.

H� descendentes vivos?

O meu nome � Tatiana Page-Relo.

Alice Guy teve dois filhos, Simone e Reginald.

Reginald teve duas filhas, Regine e Adrienne

e Regine Blach�-Bolton � a minha av�.

Alice Guy � portanto minha trisav�.

Sabia que trabalhou na Gaumont. N�o fazia ideia de que vivera nos EUA.

A sua chamada ser� encaminhada para um atendedor de chamadas.

Ol�, esta mensagem � para Bob Channing.

O meu nome � Pamela Green,

estou a fazer um document�rio sobre Alice Guy-Blach�.

� poss�vel que Adrienne Channing, a sua mulher, fosse neta de Alice.

Onde est�o os documentos dela?

Onde est�o os arquivos, os livros, os argumentos dela?

Os documentos de Alice Guy-Blach� estavam em Millrift, na Pensilv�nia,

na posse de Roberta Blach�, nora de Alice Guy-Blach�.

Os documentos estavam em risco, porque a casa tinha muita humidade.

Contactei uma mecenas generosa, que convidou a filha a juntar-se a ela

para angariarem dinheiro que permitisse a sua aquisi��o

para o MoMA Museu de Arte Moderna de Nova Iorque.

Ol�, Pamela, daqui fala Bob Channing do Arizona.

Desculpe, n�o pude atender a sua chamada,

seguia de mota para a escola de f�rias de estudos b�blicos.

O meu primeiro livro chama-se Early American Cinema.

Gra�as a ele, fui contratado pelo American Film Institute

para trabalhar na elabora��o do cat�logo do American Film Institute.

Foi ent�o que tive conhecimento das mulheres realizadoras.

Estava a catalogar as publica��es pioneiras da especialidade

e reparei que havia muitos filmes realizados por mulheres.

Os cr�ticos n�o fazem qualquer refer�ncia ao facto.

Era um dado adquirido.

N�o se considerava relevante. N�o era nada de especial.

Apercebi-me ent�o que existiriam muitas mulheres realizadoras,

e deparei-me evidentemente com a Alice Guy.

No curso do meu trabalho, conheci a Simone, filha de Alice Guy.

Ela dirigira-me uma carta, a mim ou ao American Film Institute,

perguntando pelos filmes da m�e.

Respondi-lhe que sabia que um ou dois filmes

estavam na Library of Congress.

Fiquei curioso e perguntei-lhe se pod�amos encontrar-nos.

Ela vivia numa pequena localidade de Nova J�rsia.

A Simone foi muito generosa. Deu-me v�rias fotografias.

Ofereceu-me tamb�m uma pequena Kinora, fant�stica.

Uma s�rie de fotografias que,

quando s�o colocadas numa m�quina, parecem estar em movimento.

As imagens mostram uma mulher que talvez seja a m�e dela,

n�o sabemos ao certo.

Procurei em todos os meus registos,

em todos os livros da Adrienne, mas n�o encontrei di�rios antigos.

Tudo o que estava ligado � Alice ajudou a compor o puzzle,

esta era a �ltima pe�a.

Mas acredito que h� mais coisas.

Posso n�o as ter, podem n�o ter sido traduzidas e n�o terem vindo para c�.

S� feliz!

Aqui est�, o que resta dos artefactos de fam�lia.

Posso? - Sim, claro.

Creio que � uma medalha da Legi�o de Honra.

N�o sei se � um souvenir ou se tem algum valor.

Era da Alice. Esteja � vontade.

Provavelmente, escreveu muitos dos argumentos � m�o.

Est� completamente gasta.

S�o os �culos da �pera. Os olhos dela tocaram aqui.

Isto � um pr�mio que ela recebeu.

Se n�o fossem pessoas como voc�, ela teria permanecido esquecida.

� a Alice!

Tenho mais umas quatro ou cinco caixas.

N�o cont�m nenhum objecto da Alice.

Mostre-nos uma caixa. - � melhor fazer uma reserva.

S�o os negativos da Alice. Ainda bem que procur�mos.

Eu podia dar-lhe estas fotografias, nem sequer terias de devolv�-las.

Ningu�m se interessa. Sinceramente, ningu�m quer saber.

J� havia obras escritas sobre o trabalho dela:

Anthony Slide, o livro de Victor Bachy, de Alison McMahan,

que investigou e identificou os filmes de Alice Guy-Blach� na Europa e nos EUA

Porque n�o � conhecida Alice Guy-Blach�?

N�o havia muitos filmes dispon�veis

que pudessem ser vistos para avaliar a obra.

Era necess�rio ter acesso a mais filmes

e saber quem iria identific�-los nos arquivos.

Como � que esses filmes iam ser restaurados?

Comecei a concentrar-me na conserva��o e preserva��o.

Est� escrito, "Retrato animado filmado por L. e A. Lumi�re".

Querer� dizer "Louis e Auguste Lumi�re"?

Apesar de n�o parecer ela, � a caligrafia dela.

Diz-se que pode n�o ser ela? - Sim.

Quem havia de ser?

Todas as organiza��es oficiais locais me chamam "o tipo das caras".

J� identifiquei mais de dois milh�es de rostos.

Pediu-me que visse um trecho em v�deo, Imagens Kinora, 1895 Filmadas pelos Irm�os Lumi�re

que o comparasse para verificar se se trata da mesma pessoa.

S�o as imagens mais antigas que alguma vez analisei.

Adoptei uma abordagem hol�stica e morfol�gica.

Alice Guy filma uma "fonocena", 1905 Imagens Kinora, 1895 Filmadas pelos Irm�os Lumi�re Consigo reconhecer alguns pormenores do rosto dela.

A p�lpebra superior cobre a p�lpebra,

o que faz com que as p�lpebras pare�am desaparecer.

Quando uma pessoa sorri, as ma��s do rosto destacam-se,

o que permite fazer uma compara��o.

Isto permite-me ver o l�bulo desta orelha

para que possa saber qual � a forma da orelha.

Neste v�deo encontram-se todas as caracter�sticas dela.

A pequena parte inchada debaixo do olho

que se destaca quando esbo�a um grande sorriso.

A maneira como as bochechas ficam muito destacadas,

� uma correspond�ncia exacta.

Na minha opini�o profissional, quem aparece no v�deo � a Alice.

Eu queria muito ser actriz, porque tinha amigos no teatro.

Mas o meu pai dizia-me,

"N�o! Nunca! Actriz? Preferia que morresses".

Sabe como era a burguesia da �poca.

Precisava de ganhar a vida.

Tinha um amigo que era sobrinho da criadora da Catedral de Sacr� Coeur.

Foi o meu primeiro amor.

Mas tinha 75 anos.

Que idade tinha a senhora? - 18 anos.

Teria casado com ele de boa vontade. Adorava-o.

Ele disse � minha m�e,

"O melhor para a Alice seria aprender estenografia.

� uma profiss�o nova. Pode trabalhar como secret�ria numa firma".

Aprendi muito depressa.

Na altura, as mulheres desempenhavam

sobretudo a profiss�o de secret�rias ou esten�grafas.

Trabalhar num escrit�rio era algo de inovador para as mulheres.

Na altura, as bicicletas representaram uma nova liberdade para as mulheres.

Os novos m�dia, como a fotografia e o cinema,

abriram novas possibilidades �s mulheres.

Ser secret�ria era um �ptimo emprego

para as mulheres de classe m�dia superior.

Ela est� a usar um espartilho? - Claro que sim.

As mulheres escalavam as montanhas com espartilho.

Conseguiam decerto realizar filmes com espartilho.

Parece uma pessoa elegante, mas tamb�m inteligente.

Devia contactar Cecile Starr.

Ela organizou um ciclo de filmes de Alice Guy-Blach�

em 1985, no MoMA.

Propus ao MoMA fazer uma retrospectiva.

Ficaram muito interessados.

O apoio deles facilitou a ced�ncia dos filmes pela Library of Congress

e pela Eastman House.

N�o creio que o museu soubesse quem era a Simone Blach�.

Eu telefonei-lhe com a ideia de que teria de empenhar-me ao m�ximo.

Era uma oportunidade �nica para me aproximar de Alice Guy-Blach�.

A Simone tinha um ego muito pouco pronunciado.

Canalizava todos os seus esfor�os na m�e,

que fora uma pessoa extremamente din�mica a vida inteira,

mesmo depois de ter deixado de realizar filmes.

Ela queria que a m�e fosse reconhecida,

a m�e tamb�m gostaria de ter sido reconhecida.

Tive uma aluna chamada Maxine Haleff.

Ela tem documentos dessa �poca que mais ningu�m tem.

Viajou at� Nova J�rsia e entrevistou a filha.

Creio que a Maxine Haleff ainda est� viva

e reside na Costa Oeste, em Santa M�nica.

Alguma vez entrou em contacto com Simone Blach�, a filha de Alice?

Tentei contact�-la. Penso que falei com ela.

� interessante observar que ela foi parar atr�s da c�mara.

Que teve no��o do que era uma c�mara de filmar.

N�o sabia nada de fotografia. Absolutamente nada.

Sabia o que eram as solu��es e as placas, mas...

Desconhecia por completo o manuseamento e tudo isso.

Tive de aprender tudo.

A Gaumont fabrica e vende c�maras de filmar,

dispositivos �pticos e material fotogr�fico,

incluindo a Kinora,

fabricada pelos amigos e colegas Lumi�re.

Alice partilha um escrit�rio com L�on Gaumont

e re�ne-se com cientistas, inventores e empres�rios,

ao mesmo tempo que colabora na venda de equipamento

a fot�grafos profissionais e amadores.

Quando � que o cinema come�a? Quando � experimental?

Os primeiros cineastas s�o os primeiros punks do cinema.

As regras ainda n�o tinham sido definidas,

eles andavam por a� e faziam apenas o que queriam fazer.

J� ansiavam por uma tecnologia que lhes permitisse aceder a locais remotos.

As companhias enviavam operadores pelo mundo inteiro.

A maioria dos filmes eram atrac��es.

S� mais tarde essas atrac��es

come�aram a ser transformadas em hist�rias.

Alice Guy esteve presente desde o in�cio, foi uma revolu��o.

N�o s� em termos tecnol�gicos, mas de entretenimento.

Tudo o que havia de novo debaixo do sol estava em Paris.

A constru��o da Torre Eiffel � um gesto t�cnico,

mas tamb�m cinematogr�fico.

A Hist�ria do cinema dos prim�rdios est� associada a pessoas

que n�o s�o apenas criativas, mas tamb�m pessoas de neg�cios.

Eram uma esp�cie de Steve Jobs da sua �poca.

Ol�, Maxine, fala a Pamela.

J� sei do que se trata. Quando podemos encontrar-nos?

Eu queria saber tudo o que aconteceu naquele per�odo.

Conheceste a Simone Blach�?

Telefonei-lhe e disse-lhe que estava a investigar aquela �poca,

que a m�e dela era uma realizadora muito importante

e que gostaria de entrevist�-la.

Tenho muito material, mas n�o tenho tudo.

A cassete Ampex, que n�o consigo ver,

porque n�o � reproduzida h� muito tempo.

Tens de lev�-la a um laborat�rio.

� boa ideia, n�o �? - Quando pensas faz�-lo?

Ol�. Voc�s transferem cassetes U-Matic?

Podem faz�-lo neste momento?

Esta � antiga. - Como vai transferi-la?

N�o quero faz�-lo. Tenho receio de que a fita se parta.

A Point 360 pode ter algu�m que trabalhe material de arquivo.

S�o cassetes nunca visualizadas, quero transferi-las de imediato.

A imagem n�o devia aparecer no monitor?

N�o est� a rebobinar? - D� sempre erro, lamento.

Voc�s transferem fitas U-Matic?

Que stress. A imagem aparece e depois desaparece.

N�o est� a transferir. � melhor tentar na DC Video.

Estas guias est�o t�o sujas que n�o se movem. At� rangem.

Forno autom�tico.

Vamos p�r a fita no forno.

Vamos deix�-la a cozer, voltamos no s�bado,

desligamos o forno e deixamos a arrefecer.

Na segunda-feira de manh�, vamos coloc�-la nesta m�quina

e digitaliz�-la num Mac.

Por vezes, � necess�rio cozer a cassete duas vezes.

Como � poss�vel ter no��o do cinema se n�o havia cinema?

Demen� chegou � Gaumont e apresentou um aparelho.

Gaumont, um homem da ci�ncia,

reconheceu de imediato a import�ncia da inven��o

e iniciou o seu fabrico.

Fomos a uma sociedade

que se chamava "Sociedade de Incentivo � Ci�ncia".

Encontr�mos os Irm�os Lumi�re que haviam esticado um len�ol

e operavam a manivela de uma pequena m�quina.

Regress�mos entusiasmados com a inven��o,

mas frustrados porque o cinema j� estava em marcha.

Senhoras e senhores, acab�mos de aterrar em Paris.

J� ouviram falar de Alice Guy-Blach�?

� o nome de uma sala de projec��o na escola, mas nunca ouvi falar dela.

Estamos na Soci�t� d'Encouragement pour l'Industrie Nationale.

Venham, vamos ver onde nasceu o cinema.

Quase tudo se mant�m como em 1895.

Arrefecendo

Digitalizando

Ela guardou documentos daquela altura?

Ela ofereceu o seu �lbum de recortes � Cinemateca Francesa, creio.

Quer�amos ver o filme dela. - Sim.

Infelizmente, n�o conseguimos obter um aparelho que o reproduzisse.

Ela come�ou a trabalhar como secret�ria de L�on Gaumont

e eu comecei como secret�ria ou assistente do Roger Corman.

Senti uma afinidade imediata com ela

e sempre quis saber: como � que ela deu aquele salto?

Propus ao Sr. Gaumont realizar algumas cenas cinematogr�ficas.

Ele disse, "� caracter�stico de uma rapariga. Pode tentar.

Mas com uma condi��o: isso n�o pode afectar o correio de que se ocupa".

Havia um terreno, com um pequeno terra�o em asfalto.

T�nhamos um trip�, que servia de de trip� de m�quina fotogr�fica,

que se deslocava em todas as direc��es. Film�vamos � m�o.

Foi ent�o que realizei o meu primeiro filme,

A Fada Repolho, com o meu operador de c�mara.

La f�e aux choux 1899/1900 remake do filme de 1896 A Fada Repolho combina contos de fadas com folclore.

La f�e aux choux 1899/1900 remake do filme de 1896 A Fada encontra beb�s rec�m-nascidos em canteiros de couves.

Na altura, n�o eram propriamente argumentos,

eram pequenas hist�rias que eu inventava.

Ela reuniu alguns amigos. Utilizaram o jardim como cen�rio.

Conheciam um homem que pintava leques lind�ssimos

e perguntaram-lhe se podia pintar umas couves. Eram os adere�os.

Vejam os filmes que estavam a ser feitos:

comboios que chegavam a esta��es, ondas que rebentavam numa praia.

Que t�dio! Eram temas desinteressantes.

O cinema podia ter morrido naquela altura

e ningu�m teria reparado.

L� d�part d'Arlequin et de Pierrete 1900 Eram necess�rias pessoas como Alice Guy

para mostrarem que o cinema era mais do que vistas para arquivo.

A Fada Repolho � um grande sucesso,

o que a leva a voltar a contar a mesma hist�ria em filmes posteriores.

La f�e aux choux Sage-femme de premi�re classe Madame a des envies

Ela deu o salto e percebeu que podia contar todo o tipo de hist�rias.

Gaumont nomeia Alice respons�vel pela produ��o.

Ela supervisiona a produ��o de filmes promocionais do est�dio,

utilizados para vender as c�maras Gaumont.

Havia basicamente duas firmas

que trabalhavam a s�rio na industrializa��o do cinema em Fran�a,

a Path� e a Gaumont.

Aquilo que estava a fazer-se seria t�o original

que as pessoas n�o chegavam a sentir-se chocadas por ela o fazer?

Muitas pessoas acharam que o cinema despertaria um interesse passageiro

e que depois ia desaparecer.

Talvez seja esse o motivo

de Guy ter desempenhado um cargo t�o importante.

N�o era bem uma realizadora americana,

n�o era bem uma realizadora francesa.

E era mulher. Por conseguinte, caiu no esquecimento.

A Hist�ria do Cinema que escrevemos � incompleta

e foi a que utiliz�mos nos �ltimos 50 anos de estudos em cinema.

Estamos agora a aprender mais sobre pessoas como Alice,

e outras sobre as quais nada se escreveu.

Em vez de lhes darmos prioridade,

estamos a restaurar o Metr�polis pela vig�sima vez.

Os arquivistas, conservadores e historiadores est�o a visionar

muito trabalho que foi negligenciado ao longo do tempo.

Agora que os restauros digitais nos d�o essa oportunidade,

podemos observar a sofistica��o desses filmes.

Em especial os filmes de Alice Guy.

Notamos-lhes a magia, o poder emocional.

Apesar de termos restaurado estes filmes,

n�o � poss�vel p�-los, por exemplo, na Netflix e v�-los a todos.

Ver estes filmes � fascinante,

uma pessoa consegue transpor o ecr�

porque, em cada fotograma, est� a ver algo

que est� a acontecer em tempo real.

Estou cheio de vontade de pegar numa c�mara � manivela.

Au bal de Flore 1900 Como realizadora e respons�vel pela produ��o,

La conci�rge 1900 Alice cria o estilo da casa Gaumont.

Chirurgie fin de si�cle 1900 Alice cria o estilo da casa Gaumont.

La conci�rge 1900 Alice cria o estilo da casa Gaumont.

Surprise d'une maison au petit jour 1898 A Gaumont distribui os filmes que produz a n�vel nacional e internacional,

L'utilit� des rayons x 1898 A Gaumont distribui os filmes que produz a n�vel nacional e internacional,

La bonne absinthe 1899 A Gaumont distribui os filmes que produz a n�vel nacional e internacional,

La danse des saisons 1899 a preto-e-branco e em vers�es coloridas.

Danse du papillon 1897 a preto-e-branco e em vers�es coloridas.

L� d�part d'Arlequin et de Pierrete 1900 a preto-e-branco e em vers�es coloridas.

Os filmes do YouTube est�o na primeira inf�ncia,

tal como os primeiros filmes dos Lumi�re ou da Alice.

T�m a mesma sofistica��o em termos de linguagem e realiza��o.

As mudan�as da era digital devem-se em parte a trabalhos de amadores.

Cake-walk 1905 Recuando ao in�cio do s�culo XX, verificamos que a situa��o � id�ntica.

Acrobacias, truques com animais treinados,

viagens pelo mundo, situa��es reais que s�o registadas no momento,

s�o conte�dos b�sicos utilizados

tanto no YouTube como nos prim�rdios do cinema.

Uma das formas de aprendizagem

� a imita��o de m�dia j� existentes.

Olhando para tr�s,

verificamos que foi a �ltima vez que experiment�mos

uma revolu��o semelhante.

Custou-me a acreditar

que aquela ideia j� existia e tinha sido filmada h� tanto tempo.

Le Piano irresistible 1907 N�o � muito diferente do v�deo When Will the Bass Drop?

A m�sica leva as pessoas ao rubro.

� s� uma cena c�mica.

Os primeiros filmes que realiz�mos

tinham de ter sempre uma "punchline", como se dizia.

Ainda � assim. - Exacto, ainda � assim.

Mas, ainda assim, menos.

Pouco a pouco, melhor�mos o que faz�amos.

Na Exposi��o Universal de 1900, as principais atrac��es inclu�am

um passadi�o m�vel e imagens em movimento.

Os filmes da Gaumont foram exibidos na exposi��o

e Alice recebeu o seu primeiro pr�mio como colaboradora.

Nesse mesmo ano, em Bruxelas,

Gaumont faz uma demonstra��o t�cnica do cinemat�grafo.

E apresenta uma selec��o dos filmes de maior sucesso da firma.

A Fada Repolho de Alice � aplaudido.

Os outros realizadores s�o Georges M�li�s,

Ferdinand Zecca, director-geral da Path�,

e Edwin S. Porter, realizador da Edison Company.

Sou fascinado por aquelas c�maras.

Adorava ter mais conhecimentos sobre a tecnologia.

Quando as pessoas criticam os filmes pioneiros, sinto-me desolada.

Se soubessem em que condi��es os faz�amos!

Havia problemas com a c�mara, com a pel�cula, com a revela��o...

N�o havia escolas de cinema.

O que queremos � encontrar a c�mara utilizada pela Alice Guy.

Esta � a Path�.

Tem de olhar atrav�s desse pequeno visor.

� muito pequeno e a imagem aparece ao contr�rio.

Das poucas vezes que consigo filmar em pel�cula

tenho uma sensa��o totalmente diferente, em termos de envolvimento.

O obturador parece estar dessincronizado.

Imagino o que Alice Guy ter� passado

com a primeira gera��o de c�maras de filmar.

Como podemos ver neste museu,

os filmes, e as primeiras tentativas de projectar imagens num ecr�,

surgiram h� centenas de anos.

Henri Langlois foi o fundador da Cin�math�que Fran�aise

e coleccionou todos estes objectos.

Ali estava uma fotografia do tamanho de uma parede,

onde ela aparece a filmar. Essa fotografia desapareceu.

O nome dela surge na parede do edif�cio da Path� e da Gaumont

como a primeira mulher realizadora.

S�o documentos directamente associados � Alice,

nunca os t�nhamos visto.

� a correspond�ncia entre Alice e L�on Gaumont

e Louis, o filho de L�on Gaumont.

Eu conhecia o sistema da Gaumont, o cronofone.

N�o sabia do envolvimento de Alice.

Questions indiscr�tes 1905

Questions indiscr�tes 1905 Em 1902, L�on Gaumont e Georges Laudet

patenteiam a inven��o do cronofone,

um sistema para realizar filmes com som sincronizado.

O processo implica a grava��o pr�via da can��o num disco de cera

a partir do qual � criado um disco fonogr�fico.

Em seguida, o disco � reproduzido para os int�rpretes

e estes fazem playback ou dan�am ao som da m�sica

Polin, l'anatomie du conscrit 1905 enquanto as imagens s�o captadas por uma c�mara de filmar.

Estes filmes chamam-se "phonosc�nes".

O teledisco existe desde os prim�rdios do cinema.

Alice Guy desempenhou sem d�vida um papel importante nesse processo.

Alice Guy e Thomas Edison realizaram filmes sonoros.

Edison come�ou um pouco antes.

Filme sonoro experimental Dickson 1894 A grande diferen�a � que Edison gravava o som em directo no plateau.

Os actores gritavam para as cornetas para que o som fosse captado.

Alice Guy gravava o som previamente.

O primeiro dispositivo sonoro que us�mos no est�dio

era composto por dois aparelhos: o fon�grafo e o cinemat�grafo,

ligados por um dispositivo el�ctrico que garantia o sincronismo.

As imagens dela a realizar filmes s�o espantosas.

� impressionante ver uma mulher ao comando naquela �poca.

N�o se trata apenas de apontar a c�mara.

Era necess�rio ter um argumento, m�sica,

e a sincroniza��o com o cronofone.

Ela dominava todas estas �reas.

A Alice �, de certo modo, uma pioneira do cinema musical.

Alice trabalha com as grandes estrelas da �pera e da dan�a.

S�o criadas outras "phonosc�nes" em Madrid, Granada e Barcelona,

onde Alice e o operador de c�mara Anatole Thiberville

tamb�m filmaram document�rios de lugares c�lebres.

Na altura, uma mulher viajar sozinha em Espanha requeria grande coragem.

Isto dito, ela n�o estava completamente sozinha,

Um operador de c�mara acompanhava-a.

N�o diria que fosse corajosa, mas n�o era medrosa.

O sucesso da Gaumont

permite-lhes aumentar a capacidade de produ��o

e construir um novo est�dio perto do Parque des Buttes-Chaumont.

O est�dio da Gaumont era �nico, o maior a n�vel mundial.

Est� organizado de uma maneira muito sistem�tica.

As filmagens eram feitas no segundo andar.

O al�ap�o, que ficava por baixo,

permitia baixar ou levantar os cen�rios.

Como tal, os cen�rios podiam ser

criados de maneira independente em rela��o ao plateau.

� a vers�o arquitect�nica

da sistematiza��o do of�cio do cinema

que daria origem ao modelo cl�ssico de Hollywood.

Alice produz e realiza o primeiro filme rodado no novo est�dio,

La Esmeralda, baseado em O Corcunda de Notre Dame de Victor Hugo.

Alice adquire argumentos e dirige as reuni�es de produ��o semanais.

Contrata e d� forma��o

a �tienne Arnaud e a Louis Feuillade como argumentistas e realizadores,

e contrata tamb�m o cen�grafo Henri M�nessier.

La crinoline 1906 Alice continua a escrever e a realizar as suas perspectivas

Le fils du garde-chasse 1906 sobre moda, crian�as, paternidade,

La mar�tre 1906 um filme sobre maus tratos de menores,

La hi�rarchie dans l'amour 1906 com�dias de sedu��o

Le fils du garde-chasse 1906 e uma s�rie de filmes com persegui��es.

Une histoire roulante 1906

V�rios destes filmes mostram t�cnicas

La charit� du prestidigitateur 1905 que aprendeu na Gaumont com o seu mentor Fr�d�rique Dillaye.

Ele ensinou-me a filmar personagens mais afastadas ou mais pr�ximas

Descobrimos, por exemplo, como filmar para tr�s.

Une hero�ne de quatre ans 1904 N�o creio que o mais not�vel fosse a sua maneira de dirigir crian�as.

Le fils du garde-chasse 1906 N�o creio que o mais not�vel fosse a sua maneira de dirigir crian�as.

La conci�rge 1900 N�o creio que o mais not�vel fosse a sua maneira de dirigir crian�as.

Creio que o importante foram os pap�is que escreveu para crian�as,

L'enfant de la barricade 1907 porque mais ningu�m o fazia.

Um dos meus preferidos � O Filho do Couteiro.

As armas e as facas...

Senti uma grande tens�o ao ver o filme, tive receio pela crian�a.

Quando o pai morre, � desolador.

Ela consegue contar uma hist�ria destas em 4 ou 5 minutos

e manter-nos em suspense, � incr�vel.

Le frotteur 1900 Foi a primeira grande realizadora de com�dia.

La course � la saucisse 1907 A maioria das suas com�dias t�m um "timing" c�mico perfeito.

Madame a des envies 1906 A Senhora Tem Desejos era muito invulgar,

porque � muito raro ver uma mulher gr�vida num filme.

Ela agarra no peixe de um sem-abrigo e come-o.

Ela rouba o copo de absinto

de uma pessoa que est� numa esplanada, � m�!

Ela era muito divertida

e sabia como filmar de maneira divertida.

O sentido de oportunidade de O Colch�o Epil�ptico

� absolutamente espantoso.

O seu sentido de coreografia, a imobilidade silenciosa do colch�o

e o facto de tornar-se muito m�vel � muito importante.

A pessoa que est� sempre a levantar o colch�o devia receber um �scar.

Nunca vi ningu�m cair tantas vezes.

Trata-se de uma mulher que cresceu num convento.

La femme collante 1906 E faz estes filmes profundamente lascivos.

Les R�sultats du f�minisme 1906 E faz estes filmes profundamente lascivos.

La crinoline 1906 E faz estes filmes profundamente lascivos.

La femme collante 1906

Em A Mulher Pegajosa, a criada lambe selos.

Fica com a boca muito pegajosa.

O homem que est� a assistir vai ficando cada vez mais excitado.

Excitado porque a mulher est� a lamber coisas.

Com base nos filmes que vi de Alice Guy,

ela tinha um sentido de humor fabuloso.

Os Resultados do Feminismo tamb�m tem muita gra�a.

� um coment�rio sat�rico

ao receio do feminismo pelos homens.

Les R�sultats du f�minisme 1906 At� hoje nunca vi nada assim.

As mulheres aparecem com roupa de mulher,

os homens com roupa de homem.

Os homens agem como mulheres e as mulheres como homens,

� revolucion�rio.

� como se ela dissesse, "Imaginem o que � estar na nossa situa��o".

Mas o filme tamb�m demonstra a consci�ncia do rid�culo.

� intemporal, � uma excelente ideia e ela foi a primeira a faz�-lo.

Ela deve ter exercido uma enorme influ�ncia.

Sergei Eisenstein � um dos pioneiros do cinema.

O Coura�ado Potemkine tornou-o mundialmente famoso.

Bronenosets Potemkim / O Coura�ado Potemkine, 1925 O Coura�ado Potemkine tornou-o mundialmente famoso.

No filme que me enviou

reconheci uma descri��o das mem�rias de Eisenstein:

"As mulheres revoltam-se, come�am a frequentar caf�s,

discutem pol�tica, fumam charutos,

enquanto os maridos ficam em casa a lavar a roupa."

Eisenstein tinha oito anos.

Na altura, as crian�as n�o podiam assistir a esse tipo de filmes.

Este momento foi importante para ele. Este � o filme que ele refere.

Oktiabr / Outubro 1928 Parece-me que, no seu filme Outubro,

Oktiabr / Outubro 1928 Eisenstein sinaliza a influ�ncia de Alice Guy.

O modo como ela constr�i a ironia da imagem macho/f�mea...

Agrade�o-lhe que nos tenha indicado a realizadora e o t�tulo deste filme,

bem como a import�ncia deste filme na vida e na educa��o de Eisenstein,

na sua forma��o como realizador.

Hoje vamos ver alguns dos locais onde foram realizados filmes

de Alice Guy nas instala��es dos est�dios onde trabalhou.

E pelo Parque des Buttes-Chaumont.

Os meus colegas s�o descendentes. Um � descendente de L�on Gaumont,

outro � descendente de Alice Guy

e o terceiro �... um transeunte.

Vamos visitar os locais na Rua Compans

onde foi filmado Le Lit � roulettes de Alice Guy, A Cama Rolante.

A cama vai a rolar por esta colina abaixo

e no plano seguinte vemos a cama mais acima, tamb�m a rolar colina abaixo.

Estamos no s�tio onde foi filmado

O Colch�o Epil�ptico, Le Matelas �pileptique.

Estamos na ponte da Rua du Crim�e. � utilizada num gag,

em que o colch�o cai da ponte para a rua.

Neste local foram rodados dois filmes da Alice Guy,

O Colch�o Epil�ptico e A Cama Rolante.

Uma das entradas para o Parque des Buttes-Chaumont

� utilizada como cen�rio do filme Uma Hero�na de Quatro Anos.

A hero�na sobe as escadas e apanha dois ladr�es a roubar um homem.

Une H�ro�ne de Quatre Ans 1907 Consegue despist�-los e � recompensada pela pol�cia.

Realizei La Passion, o meu mais ambicioso filme em Fran�a.

Alice utiliza a B�blia de Tissot como refer�ncia

para a sua maior produ��o at� essa altura, "A Paix�o".

Contrata o assistente de realiza��o Victorin Jasset

e cria 25 epis�dios, com cerca de 300 figurantes.

Tissot desenhou uma s�rie

de 350 aguarelas que representam a vida de Cristo.

Foram publicadas como A B�blia de Tissot.

Era muit�ssimo popular.

Alice Guy-Blach� ter� sido uma das primeiras pessoas

a utilizar estas ilustra��es como refer�ncia.

La vie du Christ 1906 O resultado � fascinante, cont�m efeitos especiais pioneiros.

N�s fizemos um efeito especial em Super-Homem: O Regresso

que me fez lembrar a cena com Jesus.

Descemos a c�mara, a acompanhar a personagem.

Esse movimento de c�mara ainda hoje se faz.

A �nica diferen�a � que utilizamos ferramentas

que fazem com que a mudan�a pare�a n�o ter costuras.

Durante a produ��o,

parte dos cen�rios s�o destru�dos por um dos membros da equipa dela.

A reconstru��o dos cen�rios

fez com que o filme ultrapassasse muito o or�amento,

pondo em causa a posi��o de Alice.

Gustave Eiffel, membro do conselho, defende-a.

L�on Gaumont exibe La vie du Christ na Soci�t� de Photographie

e apresenta Alice como realizadora.

O p�blico reage a cada cena com aplausos e entusiasmo.

Os filmes dela continuam a ter sucesso e ela continua a ser reconhecida.

Alice contrata o director art�stico Ben Carr�, colega de M�nessier.

Gostava que muitos cineastas conhecessem a sua obra

e falassem sobre ela.

No Google Books apareceu uma cita��o de Hitchcock

a elogiar os filmes de Alice Guy-Blach�.

Dizia: "Entusiasmava-me com os filmes de Georges M�li�s,

rejubilava com os filmes de D.W. Griffith

e da realizadora pioneira francesa Alice Guy."

N�o me surpreende que um realizador,

Une hero�ne de quatre ans 1904 ao assistir aos filmes da Alice Guy pela primeira vez, pensasse:

"Como posso roubar esta cena?"

V�rias firmas adaptam

o mesmo material de refer�ncia para os seus filmes.

Para a identifica��o de propriedade, colocam o respectivo log�tipo

nos locais de filmagem.

O log�tipo da Gaumont inclui uma flor e a palavra "Elg�",

as iniciais de L�on Gaumont.

Segundo o produtor art�stico Ben Carr�,

o roubo de argumentos era comum.

Um dia, Alice chamou um realizador ao seu escrit�rio

Le p�gre de Paris 190 e deu-lhe um argumento para ler.

O realizador disse � Menina Alice,

Le frotteur 1900 "O argumento � id�ntico ao filme que vi ontem � noite".

Toda a gente rouba a toda a gente.

Uma pessoa conhece algu�m, aparentemente por acaso,

que trabalha na Gaumont.

La bonne absinthe 1899 Leva-a a um bar, f�-la beber uns copos e pergunta-lhe:

"Gostavas de receber um dinheirinho extra?"

Une course d'obstacle 1906 Al�m disso, os actores iam ter com uma firma da concorr�ncia

La course � la saucisse 1907 Al�m disso, os actores iam ter com uma firma da concorr�ncia

Une course d'obstacle 1906 Al�m disso, os actores iam ter com uma firma da concorr�ncia

L'�ne recalcitrant 1906 Al�m disso, os actores iam ter com uma firma da concorr�ncia

Une course d'obstacle 1906 dizendo, "Acabaram de fazer um filme sobre tal assunto e eu entro".

Alice deita p� nos argumentos para detectar impress�es digitais

e come�a a guard�-los � chave na gaveta da secret�ria.

Le bonnet � poil 1907 Os argumentos come�am a desaparecer.

Le bonnet � poil 1907 Atrav�s do seu trabalho de detective, descobre o culpado,

Le glu 1906 Atrav�s do seu trabalho de detective, descobre o culpado,

Le glu 1906 um rapazito que trabalha como guarda-nocturno no est�dio da Gaumont.

La course � la saucisse Gaumont, 1907 Era sempre, Gaumont original, Path�, imita��o.

Fiquei surpreendida quando percebi que o argumento

Les R�sultats du f�minisme 1906 tinha uma estrutura semelhante ao de um filme moderno.

Foi uma �ptima surpresa.

� bom conseguir filmar.

N�o sei qual vai ser o resultado, a Alice tamb�m n�o sabia.

Em 1906, Guy conhece o ingl�s Herbert Blach�-Bolton.

Ele acabara de chegar da filial da Gaumont em Londres

para estudar a tecnologia das c�maras.

Thiberville, o operador de c�mara de Alice, adoece.

Gaumont envia Herbert ao Sul de Fran�a para filmar Mireille,

escrito por Louis Feuillade e realizado por Alice Guy.

Durante a filmagem, apaixonam-se.

Quando o filme fica pronto, Alice regressa a Paris

e Herbert segue para a filial da Gaumont em Berlim como gestor.

Verifica-se que o material de Mireille

filmado por Herbert, o operador de c�mara, n�o pode ser utilizado.

L�on Gaumont envia Alice a Berlim para apresentar o sistema cronofone.

Por vezes, os nossos clientes tinham dificuldades.

Gaumont estava irritado porque n�o podia ir.

Pediu-me que fosse.

Disse-lhe que n�o falava alem�o, nunca tinha estado na Alemanha.

Herbert ajuda-a como int�rprete na viagem pela Alemanha,

em que ela mostra aos clientes alem�es da Gaumont

como resolver os problemas.

N�o nos cas�mos nessa altura, mas ele pediu-me em casamento.

Eu disse-lhe que tinha de pensar no assunto.

N�o me apetecia muito sair de Fran�a.

Na verdade, n�o me apetecia muito casar com um ingl�s.

N�o s�o muito simp�ticos.

No Natal, estavam noivos.

Gaumont fica surpreendido com o noivado,

uma vez que j� tencionava enviar Herbert para Cleveland, no Ohio,

para colaborar na promo��o do cronofone.

Antes de partir, Gaumont disse-me, "Vai abandonar-me assim?

Coloca-me numa situa��o complicada.

Acho que vou procurar algu�m na Path�".

Eu perguntei-lhe, "Porque vai � Path�?

Tem o Feuillade, � um excelente realizador".

Segundo o director art�stico Ben Carr�,

um realizador po�tico escreveu uma carta de despedida � Menina Alice:

"A Alice fez florescer a margarida Elg�."

A Alice fez florescer a Gaumont.

Os Blach�-Bolton chegam a Nova Iorque.

Herbert � registado com a idade de 28 anos, Alice, 30.

De facto, ela tem 33 anos e ele tem 24.

Herbert, que representa a patente do cronofone,

trabalha com empres�rios americanos durante 9 meses em Cleveland, no Ohio,

mas o neg�cio n�o � bem-sucedido.

O Gaumont veio.

Comprou um pequeno est�dio em Flushing, Long Island.

Ele queria realizar filmes falados, cantados, etc.

Nomeou o meu marido.

Os Blach� vivem em Flushing, onde nasce Simone.

A Gaumont sincronizava filmes sonoros,

com can��es populares americanas e n�meros de vaudeville.

Herbert contrata Lois Weber, conhecido como "Mrs Smalley",

para representar nos filmes cantados e falados da Gaumont.

Apesar de a Sra. Blach� j� n�o ser funcion�ria da Gaumont,

realiza alguns dos filmes Gaumont.

Mais tarde, sob supervis�o da Sra. Blach�,

a Sra. Smalley tem autoriza��o para escrever e realizar.

Lois Weber torna-se a primeira realizadora americana.

M�nessier, o anterior director art�stico de Alice, vai visit�-la a casa.

Alice confidencia que aconselhara Gaumont a imitar a Path�

e a fazer "filmes americanos". Mas ele n�o estava interessado.

"Sou uma mulher muito activa.

Quero continuar a trabalhar e penso que consigo ganhar dinheiro.

Se trabalhar em algum projecto,

estaria interessado em trabalhar comigo?".

Aluguei uma parte do est�dio em Flushing e comecei a realizar filmes.

Alice funda e � presidente da Solax.

Realiza v�rias com�dias, entre as quais Mixed Pets, Cupid and the Comet

e When Marian was Little.

Alice era uma mulher perspicaz de neg�cios e uma artista perspicaz.

Tinham a oportunidade de fazer uma pequena fortuna.

Eu tinha um assistente, um antigo oficial,

que tinha um vasto conhecimento do ex�rcito.

Come��mos por fazer muitos filmes de cowboys.

Eram muito populares na altura.

Quando a Solax come�ou a ter muito sucesso,

tinham passado de uma para tr�s produ��es por semana,

Alice teve de contratar assistentes de realiza��o.

Um deles era Melville,

que tinha experi�ncia como militar e acesso a navios, armas e cavalaria.

M�nessier lembrava,

"Primeiro, Alice filmava uma cena com Melville.

Era h�bil, mas n�o t�o r�pido como ela. Ela fazia os melhores filmes".

Tenho curiosidade em saber como seria na altura ser m�e e trabalhar.

A minha m�e estava sempre ausente.

Eu e o meu irm�o fic�vamos muitas vezes em casa com governantas.

Eu n�o sabia que havia outras experi�ncias,

que as m�es podiam estar com os filhos a tempo inteiro.

Os filmes da Solax s�o um sucesso.

Para atender � crescente procura, ela contrata v�rios realizadores

e cria uma trupe de actores, conhecida como os "Solax Players".

A Gaumont distribui os filmes da Solax fora dos EUA.

Ol�, ligou para a casa dos Seymour. Deixe uma mensagem depois do sinal.

Ol�, n�o tinha a certeza de estar a telefonar para as pessoas certas.

Estou � procura de Michelle Seymour. - Daqui fala a Michelle.

Chama-se Michelle Seymour, � da fam�lia dos Pins?

Sim. - � um telefonema esquisito.

N�o h� problema, j� tive conversas mais esquisitas.

Estamos a fazer um document�rio sobre a primeira mulher realizadora.

Chama-se Alice Guy-Blach�.

Estive a ver o livro de endere�os dela e encontrei um Charles Pin...

Pin. - Sim, e um Robert...

Ivy. - Ivy Pin.

S�o os meus pai e av�.

O meu av� era operador de c�mara. - A s�rio?

Devem ter-se conhecido por essa raz�o.

Voc�s guardaram documentos?

O meu av� era franc�s. - Posso procurar no site ancestry.com.

Talvez a minha prima Cathy saiba, ela conhece tudo.

Pod�amos fazer uma videochamada com ela.

Ela vive no Missouri.

Cathy, daqui fala Michelle Seymour.

A Pamela, que est� aqui connosco,

est� a fazer um document�rio sobre Alice Guy-Blach�.

Pelos vistos, a Alice conhecia o nosso av�,

espero que possas ajud�-la.

Ent�o, h� mais algum primo que possamos contactar?

A irm� dela, mas ela sabe mais do assunto.

Vamos l� falar com ela. - � a Jackie.

Ol�, Jack, estou a fazer uma videochamada com a Pamela,

que est� a fazer um document�rio

sobre uma senhora que ter� trabalhado com o nosso av�.

Est� � procura de informa��es.

A Jackie e a Cathy s�o um pouco mais velhas do que eu.

A minha prima, a irm� delas e eu fomos criadas como irm�s.

Meu Deus, voc�s est�o a multiplicar-se!

Quando se telefona a uma, telefona-se a todas!

Ele pode ter sido operador de c�mara de Alice, n�o temos a certeza absoluta,

mas vamos verificar.

Encontr�mos um cartaz de um dos filmes e o nome do vosso av� aparece.

Meu Deus!

Est� tudo desfocado.

Teste de c�mara Falha Acho que dev�amos p�r esta c�mara de lado e arranjar outra.

H� duas manivelas para a cabe�a do trip�,

uma manivela para a c�mara, duas objectivas para a c�mara

e umas magazines. Ele vai precisar disto tudo.

Agora que temos a c�mara, estamos confiantes que vamos conseguir recriar

Teste de c�mara 2 Sucesso um dos filmes de um plano da Alice.

Fort Lee fica perto da cidade de Nova Iorque.

Situa-se no cimo de um grande promont�rio, The Palisades.

- Havia imensas granjas e descampados. - Havia imensas granjas e descampados.

� anunciado que as instala��es da Solax v�o passar para esta nova propriedade.

Demos in�cio � constru��o, que demorou bastante tempo.

Quando o est�dio estava a ser constru�do,

gr�vida do segundo filho,

Alice continua a realizar filmes em Flushing sobre temas pol�micos.

A Man's A Man, The Making of an American Citizen

e The Strike abordam o anti-semitismo, a imigra��o e conflitos laborais.

Viu-a realizar algum filme? - Sim.

Como se comportava? - Era um pouco autorit�ria.

Era-o na vida quotidiana,

portanto � normal que tamb�m o fosse como realizadora.

N�o falava bem ingl�s, o que lhe dificultava o trabalho.

Ela tentava compreender as pessoas com quem trabalhava

para obter melhores resultados.

Disse que ela tinha dificuldade em falar ingl�s,

ela tentava explicar-lhes ou mostrar-lhes o que queria fazer?

Sim, sem d�vida.

Eles gozavam com ela, mas ela n�o ligava.

Aos 38 anos, Alice d� � luz Reginald.

Todos estes est�dios de Hollywood

tiveram as suas ra�zes em Fort Lee, Nova J�rsia.

Era a vers�o 1.0 de Hollywood.

Havia os est�dios �clair, World, Fox.

Este era o est�dio da Universal.

Aqui fica o est�dio da Solax, da Alice Guy.

Temos o est�dio da Paramount

porque a Arcraft foi criada aqui por Adolph Zukor.

Alice est� l� desde o princ�pio com todos estes grandes est�dios.

No in�cio do s�culo XX, Fort Lee deve ter sido uma cidade fant�stica.

Havia um grande fluxo de realizadores europeus.

� uma ind�stria em mudan�a r�pida.

As casas funer�rias eram ocupadas no fim do dia,

colocavam-se cadeiras e montavam-se telas.

Come�am a construir-se cada vez mais salas de cinema.

Torna-se um grande neg�cio.

Estes t�m o s�mbolo da Solax.

H� uma mulher, uma enfermeira e o meu av�.

� a Alice, n�o �? N�o tenho a certeza. Sim, � ela!

� o vosso av�? Agora j� sabemos quem ele �!

� a m�e da Alice.

S�o as crian�as. H� muitas, em v�rias idades.

Meu Deus. Porque teria ele tantas fotografias?

Devem ter sido pr�ximos. Qual � a rela��o entre eles?

Esta �, sem d�vida, da fam�lia da Alice.

H� a Julia, a Henriette e a Marguerite.

Creio que o nome da m�e do meu av� era Margaret ou Marguerite.

Marguerite! � isso! �s da fam�lia da Alice!

Pertences � fam�lia da primeira mulher realizadora.

Que loucura. Quando � que nos encontramos?

O New York Dramatic Mirror noticia,

"Ela � a figura dominante de uma f�brica e est�dio de cinema

que organizou e construiu.

Obt�m receitas que variam entre os 50 e os 60 mil d�lares anuais.

'Sempre considerei o desperd�cio uma palavra horr�vel. E um dos piores crimes.

Tinha experi�ncia no mundo do cinema. Conhecia-o muito bem.

Parecia-me vergonhoso n�o aplicar os meus conhecimentos,

uma vez que havia tanto para explorar."'

O artigo termina assim,

"Um dia, escrever-se-� uma biografia da Sra. Blach�

para que todos possam ler em pormenor a sua vida simples e afortunada".

� medida que a sua capacidade de escrita de argumentos evolui,

o mesmo se verifica com as suas t�cnicas e efeitos de filmagem,

incluindo exposi��o dupla, ecr� dividido e efeitos especiais.

As hist�rias dela tamb�m incluem animais ex�ticos e ratazanas.

Adoro o material que me mostrou da Alice.

Mostra a sua rebeldia e criatividade.

� necess�rio aprender muito para chegar ao n�vel dela,

a maneira como utiliza o espa�o e o movimento.

Quando vejo estes filmes, penso, "Tenho de usar isto!"

Resistem � passagem do tempo.

M�nessier, o antigo director art�stico de Alice,

evocou a qualidade da montagem de Alice.

No final do dia, quando todos sa�am,

ela montava os filmes e fazia os intert�tulos sozinha.

Matrimony's Speed Limit � um excelente exemplo de montagem.

A tia da personagem morre e deixa-lhe imenso dinheiro

se ele se casar no dia 18 ao meio-dia.

Ele est� a pensar na mulher que ama

e depois o plano corta para uma fotografia dela.

Ele percebe que est� a ficar sem tempo.

Aqui, num plano geral,

Alice corta para um plano da personagem junto ao rel�gio.

Visualmente ela est� a dizer, "Reparem, isto � importante".

� medida que o seu cinema e o of�cio mudam,

a c�mara come�a a mover-se mais, ela faz mais cortes,

utiliza uma s�rie de �ngulos diferentes. J� n�o s�o hist�rias de dois minutos

narradas num determinado local ou cena.

Chamavam-lhe sempre "Tante Alice" (Tia Alice).

Eu pensava que o nome dela era "Tante Alice",

n�o sabia que era a Tia Alice.

O meu av� perdeu a m�e. Foi enviado para um col�gio interno.

O pai dele chegou no Natal cheio de prendas

e ter� ficado, no m�ximo, uma hora.

O meu av� ficou desolado. S� queria ser amado.

Creio que � por isso que era t�o pr�ximo da Alice,

que ela era t�o importante para ele.

O av� guardava tudo.

Estamos a humanizar esta mulher.

Eu gostava que o est�dio dela fosse visitado como deve ser.

O New York Dramatic Mirror noticia,

"No r�s-do-ch�o fica o escrit�rio da presidente Blach�,

o departamento de vendas e publicidade, cen�rios e expedi��o,

bem como a sala de projec��o e os laborat�rios.

Metade do segundo andar � o est�dio

e a outra metade inclui as salas de imagem, cen�rios e adere�os.

Tem espa�o para cinco cen�rios normais ou tr�s em profundidade

e tamb�m uma plataforma de c�mara para truques.

Os camarins ficam no terceiro andar,

assim como os escrit�rios dos realizadores, guarda-roupa

e departamentos art�sticos.

No est�dio por cima do palco encontra-se o letreiro

de Alice Blach� para os seus actores,

em que se l�, 'Interpretem com naturalidade"'.

Enchi o meu est�dio de notas,

"Interpretem com naturalidade".

S� lhes pedia isso.

Diria que � tudo para um actor, interpretar com naturalidade.

� uma das caracter�sticas mais evidentes da obra dela.

Entramos na casa destas pessoas, afei�oamo-nos de imediato �s pessoas.

Ela adora as pessoas, o mundo em que vive.

Ela n�o queria que fosse artificial, queria que parecesse real.

Portanto, h� um elemento de verdade, e depois acrescenta-se a fic��o.

� mais naturalista e, para mim, mais dif�cil de alcan�ar.

Muitos dos westerns e filmes de guerra de Alice na Solax

t�m mulheres em pap�is principais e poderosos.

A interpreta��o e o alcance do que ela est� a filmar

s�o muito semelhantes � maneira como estamos habituados a ver cinema.

Eram planos lindos e art�sticos e as artistas eram incr�veis.

Toda aquela ac��o f�sica...

Confian�a total.

Ela tem no��o da desigualdade sexual e utiliza-a nos seus filmes.

E tenta jogar com a percep��o da natureza da diferen�a entre os sexos.

Little Trixie ouve dizer que a irm� morrer� antes de a �ltima folha cair

e faz os poss�veis para prolongar a vida da irm�,

atando folhas ca�das numa �rvore.

Vemos uma menina de relance, por que motivo nos emocionamos com ela?

Porque � puro, � organizado, n�o � filtrado.

Alice � uma aut�ntica contadora de hist�rias.

S�o filmes sobre fragmentos da vida

e ao vermos filmes dela percebemos que pouco mudou.

Pediram-me para trabalhar num grupo que estava a publicitar o primeiro filme

com um elenco exclusivamente composto por afro-americanos.

Penso que � um filme caracter�stico da sua �poca.

N�o diria que � totalmente progressista,

mas na altura pode ter sido visto de maneira diferente.

Fosse qual fosse a inten��o, era, apesar de tudo,

hist�rico e importante porque tinha a imagem cinematogr�fica negra,

uma imagem que nunca fora apresentada dessa maneira.

The Fool and His Money � um filme muito interessante.

Os amigos e conhecidos consideram-no meramente tolo.

Um dia, ele encontra uma carteira cheia de dinheiro.

Compra um autom�vel caro.

Passa e volta a passar de autom�vel em frente � casa.

Toda a gente est� interessada nele porque ele � rico,

e, como � �bvio, ele perde o dinheiro e j� ningu�m quer saber dele.

Creio que era uma hist�ria que lhe interessava,

pouco sabemos do que est� por tr�s.

O jornal franc�s Cin�-Journal noticia,

"A Fool and His Money da Sra. Blach� conta com James Russel,

o rei do "cakewalk" (um tipo de dan�a) e com a sua trupe.

Quando a Sra. Blach� informou as suas vedetas brancas

que cada uma delas contracenaria com um actor negro, recusaram,

considerando que contracenarem

com "pessoas de cor" seria uma desonra irrevers�vel.

O artigo conclui,

"Assim v�o as coisas quanto ao preconceito racial na... Am�rica livre!..."

O elenco de A Fool and His Money � agora exclusivamente negro.

� impressionante que algu�m consiga realizar filmes naquela �poca.

Mas faz�-lo contra todas as adversidades,

estar t�o � frente do seu tempo como ela � espantoso.

O contrato de Herbert na Gaumont termina

e Alice nomeia-o presidente da Solax

para tratar das quest�es financeiras e dos contratos.

Meses mais tarde, Herbert funda a Blach� Features.

Os Blach� realizam e produzem com os recursos da Solax.

O Herbert � uma figura interessante.

Por que motivo decidiu, de repente, o seguinte:

"Vou ser respons�vel pela produ��o dos meus filmes,

- tamb�m quero ser realizador." - tamb�m quero ser realizador."

duas firmas de produ��o diferentes. Agora ele � realizador.

O filme de que mais gosto � A House Divided.

"Preciso de um chap�u novo" "Continua a precisar" Neste filme, marido e mulher, separados, vivem na mesma casa

- Todas estas mulheres s�o pretensiosas. - Todas estas mulheres s�o pretensiosas.

A dactil�grafa, que � muito insolente, e a cozinheira, elas � que mandam.

Penso que isto � Alice Guy-Blach�.

Ela tinha de escrever e realizar este filme.

A Sra. Blach� escreve para a revista The Moving Picture World

sobre o papel das mulheres na produ��o cinematogr�fica:

"N�o h� nada na organiza��o de um filme

que uma mulher n�o possa fazer t�o bem como um homem

e n�o h� nenhum motivo pelo qual a mulher n�o consiga dominar totalmente

todas as quest�es t�cnicas da arte."

Uma depress�o econ�mica nos EUA e o in�cio da Primeira Guerra Mundial

s�o respons�veis pelas dificuldades financeiras dos Blach�

e eles come�am a trabalhar para outras firmas.

A velha maneira de fazer filmes deixou de funcionar.

A divis�o do trabalho � muito maior,

� necess�rio ter mais filmes em produ��o em simult�neo,

tudo se torna muito mais centrado no neg�cio

e a ideia de ser artista e artes�o deixa de ser poss�vel.

A isso acresce o n�vel do cons�rcio.

Thomas Edison junta a Eastman Kodak e oito firmas de produ��o.

A exig�ncia � que ningu�m pode comprar c�maras ou pel�culas da Edison

sem fazer parte do cons�rcio.

Alice e a Solax pertencem � Universal e � Fox

e quem quisesse realizar um filme tinha de aderir

ou pagar direitos de explora��o a este cons�rcio.

Basicamente, tinham de pagar uma taxa de licenciamento muito elevada

ou serem independentes,

o que em qualquer dos casos dificultava muito a sobreviv�ncia.

Edison afecta de tal modo a ind�stria

que obriga as pessoas a irem da Costa Leste para a Costa Oeste,

porque n�o conseguem fazer neg�cios com ele legalmente.

T�m de faz�-lo o mais longe poss�vel e da maneira mais econ�mica e rent�vel,

� por isso que a Calif�rnia � uma boa solu��o.

The Ocean Waif, uma produ��o de William Randolph Hearst,

com Doris Kenyon e Carlyle Blackwell, � realizado por Alice Blach�.

Impressionou-me a modernidade. O filme tem imenso movimento.

As rela��es s�o violentas. � muito inteligente.

As express�es s�o muito subtis, n�o h� exageros de interpreta��o.

� uma hist�ria sofisticada.

A Sra. Blach� e a activista social Rose Pastor Stokes

escrevem Shall the Parents Decide,

um argumento sobre planeamento familiar.

A estreia do filme ia coincidir com a inaugura��o da cl�nica

de Margaret Sanger, defensora do controlo de natalidade

mas n�o se concretizou.

Teria sido fant�stico se tivesse estreado na cl�nica de Margaret.

Como � �bvio, Margaret foi presa assim que a cl�nica abriu.

Ainda hoje lutamos pelo planeamento familiar.

The Empress � muito conseguido. A composi��o � fabulosa.

Ela � uma realizadora fant�stica

Sabe tudo. Sabe de adere�os, direc��o art�stica, guarda-roupa,

interpreta��o, ilumina��o e controla tudo.

A Sra. Alice Blach� faz palestras sobre realiza��o e escrita de argumentos

e mostra alguns dos seus filmes na Universidade de Columbia.

Quando deu esta palestra,

disse que n�o percebia por que motivo as mulheres n�o podiam realizar.

H� uma esp�cie de fraternidade entre os homens.

H� alguns avan�os, mas nada de substancial.

Nunca teve problemas nos EUA?

Os �nicos problemas que tive nos EUA foram com firmas francesas.

O facto de ser mulher, a primeira mulher cineasta,

levantou-lhe alguma dificuldade?

Na altura, era invulgar haver uma mulher num of�cio de homem.

N�o, pelo contr�rio, havia pessoas que me davam fundos para...

E em Fran�a? - Em Fran�a, nada disso.

Os Blach� come�am a alugar os est�dios da Solax a outras firmas.

O casamento dos meus pais estava numa fase muito dif�cil.

Herbert deixa a fam�lia e vai para Hollywood.

Vai viver com Catherine Calvert, que trabalhara com ele e a mulher,

e ela torna-se amante de Herbert.

Alice muda-se com os filhos para a cidade de Nova Iorque.

Alice escreve a Herbert:

"Obrigada pela tua carta. Terminei as filmagens do meu filme

e vou iniciar a montagem. As crian�as est�o bem.

Cumprimentos, Alice Blach�."

Acrescenta: "Tive conhecimento que, ap�s a tua partida,

vives com a Sra. Smalley, a tua amante.

Informo-te que vou intentar uma ac��o judicial contra essa mulher

porque pretendo que o meu nome e o dos meus filmes seja respeitado

Ela achou piada perguntar-me: '� a Sra. Blach�?'

Vai ficar a saber que sou, de facto, a Sra. Blach�."

Herbert Blach� � um mulherengo inveterado.

A maioria das mulheres pensaria, 'Que se lixe o Herbert'.

Mas ela precisava dele a seu lado,

embora ele n�o lhe oferecesse nenhum contributo criativo.

O meu pai jogava na Bolsa. Tinha ac��es em companhias a�reas.

Quando a Guerra acabou, as ac��es n�o tinham valor nenhum.

Perdeu 40 mil d�lares na altura.

Foi um rude golpe.

N�o tinham condi��es para continuar.

A Solax j� tinha d�vidas.

Al�m disso, um dos edif�cios � destru�do num inc�ndio.

A colunista Louella Parsons anuncia que a Sra. Blach� fora contratada

para realizar v�rios filmes, entre os quais Tarnished Reputations.

Durante as filmagens, a Sra. Blach� apanha gripe espanhola.

Herbert assiste � deteriora��o da sa�de da mulher.

E pede a Alice e �s crian�as para irem para Los Angeles.

Vivem separados.

Herbert contrata Alice como assistente de realiza��o

em dois filmes seus, cuja protagonista � Alla Nazimova.

Tarnished Reputations, o �ltimo filme de Alice nos EUA,

estreia na Broadway.

Herbert come�a a trabalhar para a Universal como realizador e produtor.

Adoraria saber mais sobre a vida pessoal dela,

tenho a certeza que n�o foi f�cil.

A minha m�e era tipicamente francesa.

Muito ao estilo do s�culo XIX.

N�o quero falar disto, � horr�vel.

N�o temos de falar. Vou desligar a c�mara.

� indiferen�a do meu pai

acresce o facto de s� ter interesse por uma s�rie de mulheres na altura.

Eles j� n�o trabalhavam em harmonia e o trabalho deles exigia harmonia.

A firma faliu.

O que restava das instala��es e recheio da Solax vai a leil�o.

Agora divorciada, Alice regressa a Fran�a com os filhos.

Ol�, Pamela, queremos mostrar-te uma coisinha.

Tens as m�os e a manicura perfeita para o fazeres.

Sabes que sou uma rapariga de J�rsia. As nossas m�os t�m de estar assim.

S�o cartas da Alice.

Meu Deus!

Ela assinou "Tante Alice".

Normalmente � "M. Guy". - � a m�e da Alice.

� de 1924 e � escrita pela Marie.

Ela era muito pr�xima do teu av�. - A Alice estava ocupada.

A partir de 1922 n�o temos qualquer informa��o.

S�o documentos muito importantes.

Quando vive em Nice, candidata-se a lugares de realizadora e executiva,

mas n�o consegue ser contratada.

Alice escreve ao seu advogado a pedir que leve Herbert a tribunal,

a menos que ele pague a pens�o de alimentos em atraso.

"Ele tem d�vidas, eu tamb�m.

As pessoas n�o querem contratar mulheres grisalhas.

Quando sa� dos EUA, fui esquecida."

Marie escreveu ao neto, Charles Pin.

"Pobre Alice.

De vez em quando, algu�m lhe d� uns d�lares,

como se d� um osso a um c�o.

N�o encontra absolutamente nada na ind�stria do cinema,

apesar de estar sempre � procura."

Empresas de investimento de grande dimens�o.

Querem investir no neg�cio

porque percebem que � poss�vel obterem lucros muito elevados.

Alice n�o tinha qualquer hip�tese.

O dinheiro de Wall Street entra pela porta da frente,

as mulheres s�o obrigadas a sair pela porta dos fundos.

Estas mulheres que estavam envolvidas na produ��o, s�o postas na rua.

S�o lan�ados cinco filmes realizados por Herbert Blach�.

Marie conta a Charles, "Simone est� � procura de emprego

porque tem conhecimentos de estenografia".

"Reggie pensa que � dif�cil aprender franc�s

e n�o tem a intelig�ncia das irm�s.

Vivem do dinheiro da venda das j�ias, seguir-se-� a mob�lia."

Louella Parsons escreve acerca da necessidade de mais realizadoras.

"A Paramount orgulha-se da sua �nica realizadora, Dorothy Arzner,

que, ao lado de Lois Weber,

� a �nica mulher a ter fama como realizadora.

Como � �bvio, havia a Sra. Blach�, mas n�o sabemos nada dela h� anos."

Na d�cada de 1920, a palavra-chave nos EUA era "prosperidade".

Neste in�cio da d�cada de 1930, a palavra � outra: "depress�o".

Alice escreve:

"M�nessier disse-me que pretende fazer filmes sonoros no seu est�dio em Nice.

Por favor, Sr. Gaumont,

tenho cada vez mais dificuldades, preciso de trabalho."

A hist�ria da Gaumont � publicada indicando 1906 como o ano inicial

da produ��o de filmes da companhia. Alice n�o � referida.

Alice e Simone mudam-se para Paris.

Simone trabalha na United Artists e na Fox como secret�ria

e come�a a ajudar a m�e.

O jornal Le Temps publica as correc��es de Alice

a um artigo em que Germaine Dulac e Dorothy Arzner

s�o referidas como as primeiras mulheres realizadoras.

� ela a primeira mulher realizadora

e, tanto quanto sabe, a Sra. Smalley � a primeira realizadora americana.

Seria muito interessante observar

como � que a Hist�ria do cinema tem sido escrita

e como se relacionou com essas pessoas.

Victor Bachy foi historiador de cinema em Bruxelas,

na d�cada de 1960, que por acaso era vizinho de Alice Guy.

Ele reconhece que se trata de uma p�gina da Hist�ria importante

e que tinha de ser acrescentada aos registos hist�ricos.

Victor Bachy � meu av�.

Ele tem um gravador debaixo da mesa. V�s?

Sim. - Est� a grav�-la.

Onde est�? - O gravador?

N�o me interessa o gravador, o importante s�o as cassetes.

O document�rio do historiador Theodore Huff

mostra o que sobrou dos est�dios de cinema de Fort Lee,

creditando apenas o nome de Herbert Blach� no caso da Solax.

Alice trabalha na Soci�t� parisienne d'�dition,

escrevendo hist�rias, adaptando romances ao cinema

e fazendo tradu��es para as publica��es peri�dicas da editora.

Cerca de trinta dos seus artigos s�o publicados.

"Cara Senhora,

Gostaria de pedir-lhe um artigo sobre o nosso in�cio na ind�stria do cinema.

� a pessoa mais qualificada."

Alice re�ne-se com Gaumont.

Mais tarde, Gaumont envia a Alice as suas anota��es

e uma lista dos filmes da Gaumont.

"Fiquei surpreendida quando vi que realizei tantos filmes!

Por�m, na lista que me enviou,

h� v�rios filmes que realizei e surgem creditados a Feuillade.

Ainda n�o comecei a parte t�cnica do artigo,

mas estou quase a terminar a parte aned�tica.

Espero que goste."

Gaumont agradece-lhe o trabalho.

"Sugiro que estas notas sejam

utilizadas na segunda edi��o da Hist�ria da Gaumont."

A amea�a nazi � cada vez maior.

As crian�as s�o evacuadas por causa do medo da guerra.

Eu disse-te! - Tens raz�o. Queres ouvir?

Cheguei a Paris totalmente arruinada. Tinha perdido o meu marido.

Como � �bvio, tinha de criar os meus filhos.

Simone trabalha em Paris na Embaixada dos EUA

e mais tarde � transferida com mais pessoal para Vichy.

� um dia negro para a Fran�a,

os nazis entram na cidade vencida e silenciosa de Paris.

L�on Gaumont escreve:

"Recebi a visita de um jornalista e de um fot�grafo. Partilhei as suas notas.

Posso dar a sua morada no caso de quererem reunir-se consigo?

O artigo vai ser publicado na Revue 7 Jours.

Com os melhores cumprimentos para si e para a sua encantadora filha.

E, acima de tudo, o seu antigo patr�o deseja-lhe sa�de."

Alice escreve, "Os seus jornalistas podem encontrar-se comigo.

Contudo, os meus documentos est�o guardados em Paris.

Quando falo sobre a minha carreira em Fran�a, olham-me de maneira suspeita.

Apreciarei ver o meu nome referido pela primeira vez

como uma das pioneiras da Gaumont."

O artigo da Revue 7 Jours � publicado,

sem qualquer refer�ncia a Alice.

O trabalho de Simone leva-a para Berna, na Su��a. Alice vai com a filha.

Fal�mos sobre si na aula de ontem.

S� espero que n�o me tenham atribu�do

um filme, que me causa arrepios: Les m�faits d'une t�te de veau.

Mas � Georges Sadoul, o historiador de cinema,

quem afirma que este filme foi realizado por si.

Georges Sadoul era a grande figura do cinema em Fran�a.

Era jornalista e cr�tico de cinema franc�s.

Escreveu a primeira obra a s�rio sobre a Hist�ria do cinema.

Pode criticar-se Sadoul por n�o ter entrevistado Alice,

mas os historiadores n�o t�m interesse em entrevistas.

S� querem documenta��o escrita.

Ela foi ignorada pelos historiadores oficiais.

Ningu�m tinha acesso � informa��o de que agora dispomos.

Uma multid�o festeja o fim da guerra na Europa.

L�on Gaumont escreve a Alice:

"Tive um final de vida feliz. Agrade�o a todos os meus colaboradores.

A Alice � uma das mais importantes, tenho por si a maior estima."

L�on Gaumont falece.

O novo cap�tulo da Hist�ria da Gaumont

escrito por Alice Guy-Blach� e L�on Gaumont n�o � publicado.

Alice faz palestras sobre a sua experi�ncia no cinema

em escolas secund�rias e clubes de mulheres.

A obra "Os Pioneiros do Cinema" de Georges Sadoul � publicada,

creditando Alice como respons�vel pelas produ��es da Gaumont,

realiza��o de filmes de fic��o, aquisi��o de gui�es

e realizadora do filme Les m�faits d'une t�te de veau.

Credita Jasset, o antigo assistente de realiza��o de Alice,

pelos filmes A Paix�o e Esmeralda,

e o actor Henri Gallet pelo filme A Fada Repolho.

Reginald, que reside nos EUA, casa com Roberta Meyers.

Alice escreve:

"Querida Roberta,

Tens muitas ilus�es a meu humilde respeito.

Realizei muitos filmes,

provavelmente muito poucas obras-primas,

numa carreira de quase 20 anos.

Reuni hist�rias engra�adas e recorda��es

que talvez interessem �s pessoas e as divirtam.

Poderia at�, se para tal tivesse paci�ncia, escrever a minha biografia.

Mas para qu�? Agora sou uma velha fil�sofa.

No tempo em que dirigia a Gaumont, creio que fui respons�vel

por grande parte do �xito do departamento de cinema.

Mas em Fran�a, em especial naquela �poca

e especialmente para as mulheres,

tive de lutar muito para manter a posi��o que ocupava."

Ainda tem os filmes que realizou?

Infelizmente, ningu�m consegue encontr�-los.

Como � que algu�m perde os pr�prios filmes?

A Alice Guy realizou imensos filmes.

Uma vez que tudo se passou antes da Primeira Guerra Mundial,

houve muito material que foi destru�do e que se decomp�s.

H� uma pequena comunidade de coleccionadores

que guarda o segredo do cinema mudo.

Em Los Angeles, Charlie Tarbox vendeu filmes,

entre os quais filmes de Alice Guy-Blach�.

Comprei o filme Officer Henderson em 1964.

Paguei 13 d�lares e 25 c�ntimos pela c�pia.

Comecei a coleccionar filmes dela: His Double,

A House Divided,

Burstop Holmes' Murder Case,

Matrimony's Speed Limit

e The Girl in the Arm Chair.

N�o sabia que a Alice andava � procura dos filmes dela?

N�o.

A maioria do material que adquiriu pertencia a Charlie Tarbox.

Sim.

Houve algum filme que Charlie n�o tenha vendido?

Tenho a impress�o de que nunca ouviu falar de Charlie Tarbox.

N�o.

Aconselho-a a pesquisar quem �.

A Embaixada dos EUA transfere Simone para Washington DC.

Alice vai com a filha.

Louis, filho de L�on Gaumont, escreve a Alice

dizendo que vai escrever um livro sobre o pai.

Envia-lhe documentos da Gaumont, bem como algumas perguntas.

"Caro Louis,

o seu pai encontrou sempre solu��es para problemas dif�ceis.

Era uma pessoa organizada. Eu tamb�m sou, gra�as a ele.

Ele permitiu que eu me concentrasse exclusivamente na realiza��o,

� medida que o neg�cio se expandia.

Os documentos que lhe forne�o

talvez sejam importantes apenas para n�s,

mas pe�o-lhe encarecidamente que os devolva. Alice Guy-Blach�."

A obra History of Cinema

dos historiadores Ren� Jean e Charles Ford � publicada.

Alice � creditada pela realiza��o de A Fada Repolho, A Paix�o

e As Desventuras de Uma Cabe�a de Bezerro.

Afirmam que realizei este �ltimo filme, mas n�o � verdade.

Jean Mitry acaba de lan�ar uma nova cronologia hist�rica.

N�o conhe�o.

Refere-a pela primeira vez em 1899.

Oh, n�o.

Escreve o seguinte,

"Henrie Gallet torna-se realizador. Primeiro filme: La f�e aux choux."

� impressionante.

Tem imensos erros, � incr�vel.

� verdade. � falso!

"Caro Louis, Antes do est�dio ser constru�do,

todos os filmes feitos no terra�o foram realizados por mim.

A fotografia de A Fada Repolho

foi tirada ap�s as filmagens.

Eu vesti a roupa de camponesa por brincadeira.

Estas s�o as minhas amigas, Germaine e Yvonne Serand.

S� pe�o que aceitem que fui a primeira mulher realizadora,

a �nica durante 17 anos."

Alice escreve:

"N�o percebo por que indicam que A Fada Repolho foi realizado em 1902

e por que faltam alguns dos meus filmes no cat�logo.

A Fada Repolho, provavelmente filmado em 60 mm,

foi a primeira cena rodada naquele terra�o em 1896."

O filme j� n�o est� dispon�vel?

Creio que n�o.

Seria fant�stico se tivesse sobrevivido ap�s tantos anos.

N�o � por ser o primeiro que tem m�rito.

Ainda assim.

Posso afirmar a honestidade de tudo o que referi.

N�o tentei reclamar louros pelo trabalho de outras pessoas.

Dou-lhe a minha palavra de honra.

Louis explica a Alice

a raz�o de alguns dos filmes dela n�o constarem do cat�logo.

"Cara Sra.,

Em primeiro lugar, o formato dos seus primeiros filmes

deixara de ser comercialmente utiliz�vel.

Al�m disso, � prov�vel que os primeiros negativos f�lmicos

tenham sido destru�dos por pessoal inexperiente."

Ela n�o recebeu direitos de autor pelos filmes que realizou,

apenas um sal�rio.

O nome dela n�o foi creditado no filme.

Muito menos direitos de autor.

O facto de ter come�ado em 1896 ou em 1902 n�o quer dizer muita coisa.

Alice Guy teve um papel fundamental no in�cio do cinema.

O mais importante � ver os filmes dela.

Mas n�o � f�cil ter acesso a eles.

� necess�rio pesquisar em arquivos a n�vel mundial.

Aqui est�: The High Cost of Living de Alice Guy-Blach�.

Esta c�pia cheira muito bem.

� de nitrato.

A pel�cula de nitrato foi utilizada durante muito tempo

porque a prata presente no nitrato dava � pel�cula uma luminosidade

que era apreciada pelos realizadores.

O nitrato � t�o inflam�vel que, quando queima,

at� arde debaixo de �gua. E os vapores s�o t�xicos.

A maioria das pel�culas de nitrato estava sujeita a um grande esfor�o.

Eram c�pias de projec��o exibidas muitas vezes

ou n�o eram armazenadas correctamente

e os fotogramas decompunham-se, o que implicava cort�-los.

Est�o sujeitas a regulamentos de inc�ndio.

Este material s� pode ser armazenado em grandes arquivos.

Alice regressa aos EUA com o intuito de procurar os seus filmes

e vive com Reginald, Roberta e a jovem Adrienne, filha do casal.

"Ontem foi um dia entusiasmante.

A Roberta foi comigo ao MoMA.

Fui recebida pelo director do Arquivo F�lmico.

O bibliotec�rio chefe mostrou-me uma s�rie de publica��es.

Por fim, encontrei alguns filmes no cat�logo de direitos.

Aconselharam-me a ir � Library of Congress."

"Cheguei � Library of Congress. Um velho escriv�o traz-me, por fim,

os mesmos cat�logos que eu j� encontrara em Nova Iorque."

"Ontem, trabalhei nas minhas mem�rias. Ser� tudo em v�o?"

E La Passion, foi realizado por si? - Sim.

Creio que h� um erro na Hist�ria do cinema.

Sim, dizem que foi realizado por Jasset

Jasset era o seu assistente.

Sendo uma das poucas sobreviventes do cinema pioneiro,

Alice � contactada por jornalistas e historiadores de cinema.

Continua a fazer correc��es aos seus rascunhos,

a artigos publicados

e a livros a seu respeito e sobre a Hist�ria do cinema,

incluindo um artigo de Ren� Jeanne.

"Li o seu artigo sobre mim e outras realizadoras.

N�o sabia que havia tantas.

Isso n�o impediu que o Sr. Daniel Blum

afirmasse que Lois Weber foi a primeira produtora importante.

Perguntou-me se conhecia as estrelas. Conheci-as todas.

Douglas Fairbanks...

Perguntaram-me se queria que Mary Pickford

trabalhasse comigo como actriz.

Estive no est�dio de Chaplin durante as filmagens de O Garoto de Charlot.

A FIAF convida Alice para a sua 12.� Confer�ncia.

Bem-vindos ao escrit�rio da FIAF.

Esta � a prova fotogr�fica da presen�a de Alice Guy

na cerim�nia inaugural desse congresso.

"A confer�ncia foi interessante.

O Senhor Lamprecht, representante do arquivo de cinema alem�o,

� um coleccionador extraordin�rio que encontrou um fragmento

do meu filme A Paix�o.

Ele pensa que talvez tenha outros filmes meus.

Tive o prazer de conhecer o Sr. Sadoul,

que creditou os meus filmes a outros realizadores.

Admitiu ter recebido essas informa��es sem confirmar,

prometeu-me que corrigiria esses erros

e tirou notas enquanto eu falava.

O Sr. Langlois disse,

'Gostaria de agradecer � Sra. Alice Guy-Blach�

que nos honrou com a sua presen�a."'

Encorajada pela descoberta de Lamprecht do seu filme A Paix�o,

Alice contacta todos os congressistas da FIAF

e pede-lhes para pesquisarem filmes dela nos respectivos arquivos.

Lamprecht surpreende-a com a descoberta dos filmes A Madrasta

e A Crian�a da Barricada.

Alice pede autoriza��o para exibi-los numa palestra e ficar com eles.

Lamprecht aceita emprest�-los, mas recusa dar-lhe os filmes.

� doloroso criar uma obra t�o vasta e ficar com t�o pouco.

As pessoas s� pensam no legado da sua obra

quando atingem uma certa idade.

A� questionam-se, "Porque n�o fiquei com uma c�pia daquele filme?"

H� tanto material por a�. Vamos continuar a descobrir filmes.

Mas eu vou encontr�-los, tenho a certeza.

Simone � transferida para Bruxelas, Alice acompanha-a.

Infelizmente, ningu�m quer publicar as minhas mem�rias.

Ningu�m se interessa por elas.

N�o me parece. Creio que vai ser poss�vel.

H� provavelmente alguma retic�ncia por parte de alguns editores franceses,

porque h� determinadas pessoas que podem ser afectadas.

� poss�vel.

Pode haver alguns factos que incomodem o "status quo",

mas a verdade tem de ser dita.

O argumentista Frank Leon Smith responde a um artigo sobre Alice:

"Quando eu trabalhava no est�dio Path�-Astra em Nova J�rsia,

o nome de Alice era muitas vezes referido pelos meus patr�es franceses.

Eles respeitavam-na, mas sentiam-se incomodados

porque era uma argumentista,

realizadora e produtora de cinema bem-sucedida.

Pediram-me para ir ao est�dio da Solax da Sra. Blach�.

O lema de Alice estava afixado numa parede com letras de 1 metro:

'Interpretem com naturalidade'.

O cartaz dela era impressionante numa �poca

em que a express�o comum para os actores era:

'Posar para a c�mara de filmar'.

O cartaz dela fez com que percebesse

que os filmes n�o tinham de ser imposturas e eu tamb�m n�o.

Ainda hoje agrade�o ao cartaz da Sra. Blach�."

� lan�ado o document�rio Before Hollywood There was Fort Lee.

O est�dio da Solax foi constru�do por Herbert Blach�,

perto do acesso � Ponte George Washington em 1913.

Alguma vez pensou escrever as suas mem�rias?

J� as escrevi. Tenho de encontrar um editor.

Sinceramente, penso que vai encontr�-lo facilmente.

Acha que sim?

Alice contacta editores,

mas nenhum aceita publicar as suas mem�rias.

Alice regressa aos EUA com o intuito de procurar os seus filmes

e viver com a filha em Nova J�rsia.

At� ao momento encontrou dois filmes e um fragmento de um terceiro.

Alice morre em Nova J�rsia em 1968.

As suas mem�rias s�o publicadas em Fran�a, oito anos ap�s a sua morte.

Autobiografia de uma Pioneira do Cinema

Vivi com ela durante sessenta anos, por isso conheci-a bem.

Pediram-me para escrever um pequeno texto

sobre o que a minha m�e significava para mim.

"A minha m�e era generosa e tinha muita energia e jovialidade.

Era muito curiosa em rela��o a todas as descobertas cient�ficas e liter�rias.

Tinha um entusiasmo contagiante pela vida.

Para mim, era mais do que uma m�e, era uma amiga

e devo-lhe os momentos mais felizes da minha vida."

Apesar das correc��es escritas de Alice Guy-Blach�

e da publica��o das suas mem�rias,

continua a haver d�vidas sobre os seus contributos para o cinema pioneiro.

Quem � Alice Guy?

Um programa de Nicole Lise Bernheim e Claire Clouzot

Sr. Toscan du Plantier, � director da Gaumont.

Quem � Alice Guy?

� o nome de um filme? � algu�m que trabalhava aqui, n�o �?

Penso que n�o a conhe�o.

Na funda��o da Gaumont, ela realizou todos os filmes.

Quando se consulta as grandes obras da Hist�ria do cinema,

o nome de Alice Guy � referido.

Era uma mulher muito bonita e uma mulher de neg�cios.

Permaneceu na sombra

porque a obra dela n�o era sensacional.

Era uma obra honesta, honrada, simp�tica. Mas n�o era brilhante.

Considero-a uma mulher comum. N�o era uma vedeta.

Ser� que estava no plateau a realizar? Al�m de ser directora de produ��o?

N�o sei dizer-lhe.

� uma mulher que compreendeu muito bem, desde o in�cio,

o que era o of�cio de cineasta,

o argumento, a realiza��o,

a direc��o de actores...

Feuillade confirmou ter sido contratado por ela,

ter sido ela quem o incentivou a passar � realiza��o.

Ouvi coisas muito contradit�rias,

penso que o problema se reduz ao facto de Alice Guy ser mulher.

N�o havia conspira��o por ser mulher.

H� cerca de 200 t�tulos dos filmes de Alice Guy nos arquivos.

O que est� a pensar fazer em rela��o a esse material?

� muito complexo.

A pel�cula � inflam�vel e, como tal, tem de ser copiada,

o que custa milhares de milh�es de francos antigos. N�o d� lucro.

Trata-se de uma mulher que ajudou a inventar o cinema

e h� uma aura de sil�ncio � volta dela.

� intoler�vel e mesmo est�pido que n�o possamos ver estes filmes.

� sobre isso que temos de falar.

Em 1975, por altura desta entrevista,

os filmes de Alice n�o eram facilmente acess�veis, se � que o eram.

Os cr�ticos e historiadores de cinema basearam as suas opini�es

em documentos, entrevistas e rumores.

A Hist�ria � assim, depende de quem a conta.

Normalmente, � definida pelas vozes dominantes.

Quem � mais importante, quem � menos importante?

Quem desempenhou um papel na Hist�ria do Cinema?

Ela desempenhou um papel muito importante.

Vamos mostrar como os filmes da Alice Guy eram maravilhosos.

Ao faz�-lo, vamos reavivar a mem�ria de Alice Guy.

S�o essencialmente filmes em 16 mm. Corredores e corredores de filmes.

Encontraste alguma coisa?

J� ningu�m a conhece e tu est�s a traz�-la de volta.

Parece ser um filme da Solax.

A obra dela foi enclausurada.

� necess�rio ir aos arquivos, procurar caixa a caixa,

abri-las e ver o que est� l� dentro.

H� aqui tanta coisa.

Estamos a entrar num cofre para procurar os filmes da Alice.

Este filme preenche uma lacuna enorme na Hist�ria do cinema mundial.

O que vai ser encontrado est� para l� da nossa imagina��o.

Como � que me encontrou?

Ela era mais do que uma mulher de neg�cios talentosa.

Era uma realizadora de sensibilidade rara

com uma perspectiva po�tica not�vel.

�s uma detective.

O seu nome � Christopher?

Estamos a fazer Hist�ria.

Est�s numa investiga��o � procura da Alice.

Porque sei que h� mais coisas.

Os est�dios da Solax eram aqui.

Ela foi, de certo modo, esquecida pela ind�stria que ajudou a criar.

N�o queremos que haja mais uma gera��o

que n�o compreenda o seu contributo

nesta arte, nesta tecnologia, nesta ind�stria.

A minha filha disse-me,

"Esquece tudo isso, p�e tudo isso de lado, queima tudo isso."

Pe�o-lhe, n�o deite nada fora, seria um crime.

Concordo. N�o por mim, mas...

Pela Hist�ria. - Pela Hist�ria.

Realiza��o e Produ��o

Argumento

A partir da investiga��o de

Parecia que est�vamos a fazer algo em directo.

Se tir�ssemos fotografias durante um espect�culo,

seria semelhante.

Baseado no livro de Alison McMahan Alice Guy-Blach�, Lost Visionary of the Cinema

Temos muita energia.

T�nhamos de libert�-la algures e este foi o local perfeito.

Produtora executiva

Produtora executiva

Chez le photographe 1900 � uma recria��o muito fiel.

Chez le photographe 1900 O facto de termos conseguido filmar a mesma cena

� uma experi�ncia pessoal fant�stica.

Produtor executivo

Produtor executivo

Produtora executiva

Produtores executivos

Produtor executivo

Co-produtores executivos

Co-produtor executivo

Co-produtoras

Produtores associados

Produtores associados

Produtores associados

Consultor de produ��o

Consultora de produ��o

Consultor de produ��o

M�sica original

Montagem

Viva a Senhora Alice Guy-Blach�.

E � assim.

BE NATURAL A HIST�RIA NUNCA CONTADA DE ALICE GUY-BLACH� A PRIMEIRA MULHER REALIZADORA DA HIST�RIA DO CINEMA

Boa noite

Tradu��o Alexandre Batista Revis�o Maria Jo�o Madeira

Ripadas por: guardiao

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