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"PARIS VIVE À NOITE"
O que acha?
Sabe como vou instrumentar esta parte? Para oboé.
-Para acompanhar seu trompete. -Bem, que tal?
Vai destacar a melodia e dar um belo efeito.
E agora, o que acha?
Está bom, cara.
Só bom?
É melhor que ruim.
Mas acha que não dá para mostrar.
-Não disse isso. -Disse que a melodia estava pesada.
-Também não disse isso. -Eddie, ouvi o que disse.
Que faria para oboé porque a melodia era pesada.
Estamos fazendo isso há muito tempo. Precisamos descansar.
-Se não gosta, por que não diz? -Eu disse que gostava.
-Eu ouvi como disse. -O que quer que eu diga? Que está ótimo?
Está bem, você é Gershwin...
-Ravel e Debussy. -E o que tem de mais?
Você é Ram Bowen, você compõe e eu escuto.
E é o que diz, Ram Bowen. Tudo sozinho. O que mais quer?
E o que é minha opinião, uma decisão judicial?
Não quero um oboé tocando essa melodia. O que acha?
Que está cansado. Ficou acordado a noite toda.
-Não farei a melodia para oboé. -Então faça para tuba.
-Porque é pesada. -Pare, Ram. Preciso dormir.
Abri mão das noites: sem dormir, sem mulher, nada.
E fico aqui, toda manhã, fazendo arranjos para suas músicas.
-O que quer, uma medalha? -Eu devia é desistir. Simplesmente.
-Por que não desiste? -Está bem.
Ram?
-Vai vir para o jantar? -Não sei.
-Comprei frango. -Já disse que não sei.
Quando você se prepara para atacar, é para valer!
Eddie!
Qual é o problema, Ram?
Não sei.
Eu gosto da música. Gosto muito.
Parece bem boa.
Eddie achou que sim, também.
Desculpe.
Deixe para lá.
O que vai fazer, cozinhar o frango?
Bem...
por que não cozinha do outro modo...
para comermos frio depois, com um vinho gelado?
Você devia dormir um pouco.
Durmo mais tarde.
Vai mesmo cozinhar esse frango?
Sim. E demora bastante.
Então, faça depois.
-Tenho outras coisas para fazer. -Faça depois.
-Por quê? -Precisa de motivo?
Você precisa, não eu.
Por que precisa de mim hoje?
Porque se acha maravilhoso...
ou porque acha que não vale nada?
E daí? Importa?
Para mim, importa.
Você consegue o que quer.
Acha que é tudo que quero?
Não, acho que você quer o que quero.
Não tenha tanta certeza.
Não?
BEM-VINDO, WILD MAN MOORE
BEM-VINDO À FRANÇA
NOITE DO JAZZ WILD MAN MOORE
BEM-VINDO, WILD MAN MOORE
Não, não, não, monsieur,
Não leve minha bagagem. Deixe-a aqui.
-Com licença. -Você fala inglês?
-Sim, precisa de ajuda? -Preciso, sim.
Minha amiga procura o carregador que pegou as malas dela e saiu.
Bem, eles fazem isso. Quer mesmo esperá-la aqui?
Sim. Pode explicar a ele que quero...
Mademoiselle vai esperar a amiga, pode deixar as malas.
Até logo.
Obrigada, muito obrigada. Acho que consigo me virar.
Com licença. Passando.
Sua amiga é tão bonita quanto você?
Sim, ela é branca.
Pode ser difícil encontrá-la. Meninas brancas são parecidas.
Connie, Connie. Consegui um táxi. Dê as malas para o rapaz. Rápido.
Por que demorou tanto?
-Obrigada. -A preta?
Isso, por favor.
Ram...
Ram Bowen. Como vai?
-Como vai, Chic? -Está tudo ótimo.
-Bem, Wild Man ainda está ali, não? -Sim, está lá sendo bajulado.
Vou descer e o vejo lá na boate.
Você é Ram Bowen?
Sim, senhora.
Já ouvi seus discos. Você estava no navio?
Não, eu moro em Paris.
Entendo. Minha amiga e eu estávamos no navio, por isso perguntei.
Estamos de férias. Resolvemos vir nesta época porque é mais barato.
Lillian, é melhor irmos para o hotel.
-Certo. -Se quiser me ouvir tocar alguma noite...
peça que o taxista a leve à Caverna da Marie.
Ram!
Ram Bowen!
-Como vai? -Sabia que viria encontrar o Wild Man.
-Como vai você, Wild Man? -Deixe-me vê-lo.
Você está ótimo, bem mesmo.
Mais jovem que eu.
Esta cidade lhe faz bem.
O que é, as garotas ou o vinho?
Ambos, cara.
Soube que você fez o maior sucesso.
Dizem que tenho que tocar bem alto para vencê-lo.
Sim, claro.
As pessoas estão falando de sua música, Ram.
Muito boa mesmo.
Vá lá uma noite dessas e o sopro para fora.
Com certeza!
Tenho um favor para lhe pedir.
O que é isto?
Você compõe?
Não é fácil compor.
Vejamos o que temos aqui.
Não vejo razão para não irmos ouvi-lo. Não temos compromissos.
Viemos conhecer Paris.
Quer começar indo a uma boate como se estivéssemos nos EUA?
Acho que tem razão.
Além disso, Lillian, conheço esses músicos.
Se formos hoje, ele achará que estamos ansiosas.
Pode ser. Quer saber de uma coisa?
-O quê? -Eu estou ansiosa.
-Certo, pessoal. -Como foi com Wild Man?
-Ele entregará para René Bernard. -René Bernard?
Onde está Gypsy?
Onde está ele?
A traficante não quis esperar até amanhã para receber.
-Onde? No beco? -Isso.
Ram.
-Ele usa dois maços, não é? -Quatro.
Quatro?
-Está bem. -Para você é mais caro.
Menos para Gypsy. Amigo.
Você nunca teve amigo.
-Ram! -Agora não.
Eddie, já começou a apresentação?
Não. Fizemos só algumas.
Certo.
Então, duas garotas podem ir a uma boate sozinhas?
Claro, estamos em Paris. Pode-se tudo.
-E quero ver Ram Bowen. -Vieram ao lugar certo.
Faz parte da banda?
Venham, eu as acompanho.
Obrigada.
-Vocês conhecem Ram? -Mais ou menos.
Ele tentou fisgá-la na estação de trem.
Então ela o conhece.
Quero um bom lugar para as moças.
Preciso ir trabalhar.
Vejo vocês daqui a pouco.
Essa moça que tentou fisgar é uma gata, Don Juan.
Tentou? Parece que consegui.
Venha, vamos tocar.
"Mood Indigo".
Até logo.
BOATE
NOITE DO JAZZ WILD MAN MOORE
Vamos.
-Que tal comermos algo? -Podemos ir para o Les Halles?
-Sim. Podemos e iremos! -Vamos andando.
Vocês vão...
-embora sem se despedir? -Nem ouvi você dizer "oi".
Lillian Corning, Ram Bowen.
-Oi. -Como vai? Como se chama, querida?
Pensei que você... Connie Lampson.
Pensou o quê?
-Pensei que a conhecesse. -Não. Pensou em fugir com ela, certo?
Por que não damos o fora daqui?
Por que não vamos tomar um café...
juntos?
Bem, gostaria de tomar café sozinho.
É melhor voltarmos para o hotel, Lillian.
Está brincando? Tiveram esse trabalho todo para acharem o local do show...
e depois ficaram até a hora de fechar.
Espere. Não foi ela, fui eu.
Ela nem queria vir, eu insisti. Agora quer ir embora.
Então, não fale assim com ela.
Por que está desculpando a falta de educação dele?
Ram...
É melhor eu me mandar.
Não, por favor. Venha conosco, sim?
Qual é o problema? Alguém se esqueceu do seu aniversário?
O que quer que eu faça?
Está bem, desculpe. Peço desculpas.
Não. Eu sinto...
sinto muito, mesmo.
Está bem?
Está bem?
Por que não vão com seus amigos? Não estou de bom humor hoje.
BOATE
-Boa noite, senhor. -Boa noite.
Só queria dizer que sua música significa muito para mim.
Muito obrigado.
Certamente, sempre ouve isso.
Não, na verdade nunca me canso de ouvir. É melhor ir com seus amigos.
Não posso. Eles já foram.
Menina, não me quer para isso. Nos EUA, quando não tem nada para fazer.
Mas em Paris seria um desperdício.
Eu... há empresas que cuidam de turistas. Não sou uma delas.
Não busco ajuda, então, não se preocupe.
Vou lhe dizer a verdade. Preocupo-me comigo, não você.
Não está em perigo comigo.
Vindo de uma mulher, essa expressão não existe.
Sobretudo em 15 dias de férias. É como um emprego que tive.
As mulheres apareciam como tubarões.
Com licença, desculpe.
Espere um pouco.
Está cansada?
-Mas não precisa dormir? -Não, eu gosto de andar.
E gosto de como você caminha.
Paris é uma cidade para se andar.
-É linda! -Precisa de mais tempo para conhecê-la.
Não pode dar uma esticada?
-Não, preciso voltar à escola. -Você estuda?
Começo a lecionar no próximo trimestre.
O que está lá?
Notre Dame.
Você nem olhou.
Bem, acho que não mudaram de lugar.
Já deve ter mostrado a muitas garotas.
Uma ou duas.
Talvez três.
-Bem, é linda. -E você também.
E eu nunca disse isso a nenhuma delas.
Bem, não a mais que uma.
Não a mais que uma nesta ponte...
Sabe, se tivesse uma professora como você...
nossa, eu teria aprendido alguma coisa.
Acho que aprendeu o bastante.
Não na escola.
Você disse algo sobre pagar uma sopa de cebola.
Não vai fugir.
Não, mas eu, talvez.
Talvez? Fugiria daqui, o jardim do mundo ocidental? Fugiria?
Olhe para isso.
Olhe.
E não só para o que vê, mas como o lugar a faz se sentir.
Nunca me esquecerei do primeiro dia que andei na Champs-Élysées.
Assim, do nada, eu sabia que tinha vindo para ficar.
-Há quanto tempo está longe de casa? -Cinco anos.
-Nunca quis voltar? -Não.
Se ficar um pouco em Paris, quer mais.
Almoça num lugar sem ser maltratado e um dia ao acordar...
olha do outro lado do oceano e diz: "Quem precisa daquilo?"
"Quem precisa daquilo?"
Bem, não precisamos sentar e sermos maltratados.
Amém.
Mas precisamos das nossas raízes.
E onde estão elas? Em casa. Não acha?
Acho que é uma dessas moças com consciência social. Não é?
Para mim, minha casa é minha casa.
Minha família é minha família.
E os problemas deles são meus também.
De todas as garotas bonitas que vêm a Paris todo ano...
fui conhecer logo uma ativista política.
Bem, não discuto de barriga vazia.
Além disso, acabamos de nos conhecer. Então, é bom levá-la...
-e lhe pagar a sopa de cebola. -É bom mesmo.
Esse.
Senhor!
Não, não, não. É o outro.
Mas o que adianta eu mandar o menino ir comprar o queijo?
É realmente como os quadros de Paris que vi.
É lindo.
Você faz isto o tempo todo?
Como assim?
Não sei. No meu jogo, o cara é que faz o lançamento.
Você não só lança, mas pega o bastão e acerta.
Age assim com todos os rapazes?
Não, só com os especiais.
Quantos desses conheceu?
Um.
Ontem.
Você estava bem pronta para ele.
Quinze dias solta em Paris.
-Por isso pensou que ele era especial. -Não sei.
Observei todas as pessoas ontem enquanto ele tocava.
Elas também acharam que ele era bem especial.
-Ele toca trompete bem. -Ele toca trompete bem.
Mas é mais que isso.
É como ele se sente quando está tocando.
E como ele me faz sentir.
É por isso que posso estar pronta, mas não para qualquer um.
Entende alguma coisa de música?
Tenho um amigo que diz saber tudo sobre música, menos do que gosta.
Sou o oposto.
O que é "Paris, Blues"?
É melhor se vestir.
Você compõe também?
Querida, vivo música de manhã, à tarde, a noite toda.
O resto é o resto. Entende?
Entendo.
E eu... não tenho tempo de verdade para mais nada. Você vai rir...
-Não tem que me explicar nada. -Não, é para seu bem.
Ou melhor, não quero que aposte num cara que não...
Quer saber de uma coisa?
Todos estão esperando outro em quem apostar...
pois têm muito medo.
Tenho mais medo de não apostar do que apostar e perder.
Você pode perder um dente assim.
Meu irmão é dentista.
O que fará...
quando voltar para casa?
Cidade pequena, trabalho medíocre, vida pacata,
-O que faz, coleciona bonecas? -Não. Isso é para as crianças.
Minhas crianças. Tenho dois filhos.
-É a foto deles? -Sim.
Que loucura.
O maior parece com você.
Obrigada.
Não quer saber se sou ou não casada?
Não é da minha conta.
Bem, não sou.
Isto é, eu era, mas não sou mais.
Então, você não é.
Não fique tão desapontado.
Como era o seu marido?
Era um cara legal. Muito meigo e gentil.
O que aconteceu?
O que sempre acontece?
Eu e meus filhos nos damos bem.
Moramos numa velha casa bem espaçosa.
As crianças têm amigos e eu também.
Namorados?
Todo tipo de amigo.
E você entende, não?
Quero dizer, jazz de cidadezinha?
Sim.
Aqui está sua foto.
É.
Eu conheço casas assim.
-Sabe por que é silenciosa? -Por quê?
Porque está tudo morto lá dentro dessas casas.
É o silêncio do túmulo.
Quando está silencioso em casa, é que as crianças estão dormindo.
Se gosta dessa vida, viva.
Você ainda não se vestiu.
Acho que Eddie ainda está fora com sua amiga.
Acho que eles se gostaram.
Precisamos trabalhar à tarde. É melhor voltar a seu hotel.
Está bem.
E se sua amiga não estiver quando voltar?
-Darei uma volta. -Sozinha? Vai se perder.
Tenho um mapa.
Espere aí. Por que não fica ao menos até eu falar com Eddie?
Você faz tudo que falo, não é?
Bem, quero ficar.
Você é uma maluca.
Não quero me envolver com uma maluca.
Não veio almoçar.
Fiz o frango do jeito que gosta.
Não deu, eu fiquei enrolado.
-Podemos comer hoje, frio. -Outra noite.
-Vai ficar enrolado de novo hoje? -Talvez.
-Entendo. -Entende o quê?
Você almoçar e jantar com a mesma mulher...
é uma raridade.
Quanto tempo ela vai ficar?
Não sei. Alguns dias.
Não estou entendendo. O que quer, me prender?
Estou tentando mantê-lo solto.
Sei do que preciso.
Você precisa do trabalho, Ram. Só isso.
E eu ou alguém como eu.
Nada mais funciona para pessoas como nós.
Temos companhia. Está lembrado?
Certo.
São só alguns dias. Dê uma chance. Vamos.
Não importa o quanto esfrie, tem sempre alguém pescando.
E pegam alguma coisa?
Sim, sapato velho, latas, talvez uma gripe.
É tudo tão...
não sei.
Pitoresco?
-Encantador, colorido? -Isso mesmo.
-Espero poder comer no barco. -Você acabou de tomar café.
Sempre tem espaço. Ninguém diz, mas eu como igual a um elefante.
Eu diria.
-Dá para perceber? -Não em público.
-Nem só entre nós. -Também, gosto de garotas meio...
Meio o quê?
Nunca vi tantos...
Estão em toda parte.
É a cidade do amor. Mas não do amor fraternal.
E se beijam em público também.
Os franceses são muito práticos. Tomam ar fresco ao mesmo tempo.
Achava que ele estaria exausto depois de trabalhar a noite toda.
Não ele.
Já o vi fazer isso uma semana inteira. Dez dias agitando. E depois...
Vem alguém, o pega e o despeja na casa dele.
-É uma vida tão louca. -É porque você é diurna.
Somos notívagos. É um mundo totalmente diferente.
Acha que não se misturam?
Tudo bem eles irem a lugares públicos juntos...
mas não quero ver um se casando com a minha irmã.
Bem, vejamos. Connie é diurna.
Não me diga.
E eu sou diurna.
O quer saber? Acho que você também é.
-Não. -Você não é como ele.
Eu sou mais alto do que ele.
Você é mais firme.
Não deixe que ele a engane.
Ele é firme como uma rocha com coisas importantes para ele.
-Como a música? -Como a música.
Isso mesmo.
Claro, Eddie podia arrumar trabalho em qualquer banda que quiser.
-Wild Man Moore lhe pagaria uma fortuna. -Mas ele fica com você.
Ele gosta de Paris.
Ele gosta de você também.
Eu gosto dele.
-Mas isso não o surpreende. -Não.
Mas me surpreende.
Nunca pensei que ia gostar de alguém como Eddie.
O jeito que ele vive e o modo que sou.
-É o jeito dele. -Eu sei.
Mas para mim é dar as costas a quem você é de verdade.
Eu não conseguiria viver assim.
Você gosta dele, vá com calma. Vocês se entendem, deixe acontecer.
Ram, você faz parecer que é algum jogo.
Mas e se não for?
Não pergunte para mim. Eu só jogo.
Vamos andando.
-Para casa? -Isso, para casa.
Querem ficar a sós. Vamos.
Obrigado, Sr. Negro. Obrigado, Sra. Negra.
Com licença.
Não se importa de ser chamado Sr. Negro.
Claro que não. É o que sou.
Não se importa porque é uma criança francesa. Se fosse americana...
Você quer se divertir ou discutir a questão racial?
Não posso separá-los. Não com você. Isso é muito importante para mim.
"Isso".
Você.
Ouça.
Aqui ninguém diz "o músico negro Eddie Cook".
Dizem "o músico Eddie Cook" e acabou. É só o que quero.
-É o que você é aqui. -É o que sou aqui.
Músico e pronto. E não tenho que provar mais nada.
-Como o quê? -Como...
porque sou negro sou diferente.
Porque sou negro não sou diferente. Sou diferente, não sou diferente. E daí?
Não tenho que provar em situação nenhuma. Entende isso?
Não existe lugar na face da Terra que não seja ruim para alguém...
alguma raça, alguma cor, algum sexo.
Para mim, Paris é perfeita.
Eddie, você está enganado. Está enganado!
Não nego o que você sente, pois não estaria aí se não fosse por um motivo.
Mas as coisas estão bem melhor que há cinco anos...
e estarão ainda melhor no ano que vem.
Não porque negros vêm a Paris.
Mas porque os negros ficam em casa...
e com milhões de brancos...
lutam para melhorar as coisas para todos nos EUA!
Vamos ficar parados aqui o dia todo discutindo isto?
É melhor eu ir fazer umas compras.
Fumando, bebendo
Jamais pensando no amanhã
lndiferente
Dançando, ceando
O diamante brilhando
Com um homem Num restaurante
Há muito tempo
E quando ninguém está lá
Você chora
Precisa de outra vida, outra coisa, Gypsy.
Falarei quando estiver sóbrio. É bom ir a um médico.
Gypsy...
desta vez, falo sério.
A quem quer enganar?
-O médico vai me entregar. -Isso não o matará como isto.
Por que se importa tanto?
Por que se importa se vivo ou morro?
Porque sim.
Você precisa do meu violão.
-Para tocar sua música. -Talvez.
-Nunca ouviu um violão como o meu. -Você foi o melhor, Michel.
-Eu sou o melhor. -Não, foi o melhor!
Quando o ouvi tocar da primeira vez, era especial. Agora só se destrói.
-Então, aproveitarei no cemitério. -Agora, se continuar desse jeito...
É meu jeito.
Tenho sorte. Se morrer, serei enterrado pelos amigos.
Estou me despedindo desde que cheguei.
É um pássaro que quer que eu conheça?
Não achei que gostasse de pássaros.
Muitos não gostam deles.
Acham que são cobras voadoras.
Mas eu...
sempre gostei deles.
De seu canto, do vôo.
Quando criança, tinha certeza que podia voar.
Sabe que muitas crianças acham isso?
Como uma lembrança do vôo?
Muitas morrem tentando voar.
Sabia disso? Eu tentei uma vez.
De uma montanha bem alta.
Doeu muito.
Não tento mais voar...
exceto na música.
Pássaros são as únicas coisas livres...
e nós os prendemos em gaiolas.
Eles ficam tão tristes, famintos.
As pessoas são como os pássaros.
Nicole é um uirapuru.
Marie é um estorninho grande, corajoso. E eu...
sou um cuco.
No Café...
Cité Bel Abbas...
no bairro árabe.
Um novo carregamento.
Diga meu nome. Fausto.
Ram, você...
eu o conhecia.
Fausto, o Mouro.
O maior violonista flamenco.
Ele tocava como...
como a própria noite...
em Granada.
-O que é agora, traficante? -Sim. Ele consegue o que quer.
-É um ano mais velho que eu. -Olhe para ele.
-Não consigo. -Vamos, olhe para ele.
É você daqui a um ano, Gypsy...
-Ram. -Um ano.
-Ram! -Venha.
Vai a um médico, ouviu?
Conheço um que ficará calado. Mas você tem que ir hoje.
Certo, vou tentar.
O que disser, eu farei.
Pode tocar.
Toque, você está querendo.
Ré natural, querida.
Acha a melodia pesada?
Deixe para lá.
Que horas são, aliás?
Umas onze e quinze.
O quê, da manhã?
Espere. Vamos, vamos.
Moça, este romance não tem futuro.
-Por quê? -Você acorda cedo demais.
É tarde para mim. Em geral, estou em pé com as crianças.
O que é isso? Café?
Isso.
Croissants?
Sim.
-Não basta acordar, você ainda sai. -E trouxe o jornal. Tome.
Há outros acordados também?
Uma cidade inteira.
Quem diria, não?
Ram?
Pode tocar a música inteira algum dia?
Claro. Eu já disse, assim que terminar.
Vai terminar até sexta?
Devemos gravar um disco.
Assim que apresentarmos, envio um para você.
Vai apresentar aqui, em Paris?
Acho que sim.
-Depois vai para os EUA? -Talvez.
Estou impressionada.
Vou tocar um pouco para você.
Não está orquestrada ainda, é só...
Eddie, eu e alguns caras.
É linda.
Mesmo se não tivesse me contado, saberia que você a compôs...
só de ouvi-lo tocar e pelo...
Pelo quê?
Pelo modo que me trata.
-Ram... -Vamos. Vá devagar.
-Não posso, não há tempo. -Há tempo suficiente.
Sexta-feira está aí.
Temos tempo para um café?
Toda manhã eu vejo você dormindo e...
limpo o apartamento, faço café...
e não faço isso para um homem há muito tempo.
O que quer fazer, me embrulhar e levar para casa?
Como vai declarar na alfândega? Lembrança de Paris?
Poderíamos fazer tanta coisa!
Ouça, eu faria por você e eu...
afastaria as pessoas enquanto trabalha e assim você trabalharia em paz.
Desculpe.
Trabalhar em paz?
Sabe quantos encontros cancelei com Eddie desde que chegou?
Fiquei com você mais que...
Tivemos uma coisa bonita, por que quer estragar tudo?
Eu não podia ir sem falar como me sentia.
Sabe o que está me dizendo? Para escolher. Isso mesmo!
Uma coisa ou outra. Você ou isso.
Sabe quanto tempo levei para começar isso?
Só para começar?
E é algo que queria fazer na vida.
E estou fazendo. Minha vida está perfeita, como eu disse.
Não tenho tempo para o que quer.
Quero você.
E acho que você me quer.
Precisamos fazer o que deveríamos ter feito no início. Cancelar tudo.
Então, não nos veremos mais?
Cancelaremos o jogo devido a complicações.
De qualquer modo...
você quer ver mais coisas em Paris antes de partir.
Não pode ir e as pessoas perguntarem: "Foi à Torre Eiffel?"
Quer que eu chame um táxi para você?
Não, prefiro andar.
Não sei o que você dizer.
Não diga nada.
Você me conhece, sempre digo algo.
Você escolheu o cara errado para o que quer.
-É mesmo? -Sim. Não estou disponível.
Eu não estava procurando.
Está pronto, cara?
Sim, estou, cara.
Dois, três, quatro.
Eu?
Isso!
Isso!
Alô?
Sim.
Sim.
Eu vou.
Certamente.
Ram.
Era René Bernard.
Ele quer vê-lo amanhã às 15h00 no escritório dele.
Ouviu isso, Ram, querido?
Ouviu isso?
E então?
Tenha dó, cara. Acorde!
É agora.
Chegou a hora!
Amanhã fechamos o clube?
Sim, amanhã fechamos o clube.
E eu darei uma festança para meu amigo.
Música, comida, vinho, festa!
Parabéns!
Parabéns, Ram.
Obrigado.
Não consigo mais carregar isso.
Certo.
Deixamos um bilhete...
dizendo: "Todo aquele que amar de verdade, pode pegar uma."
Vou ficar com esta.
Aqui, cãozinho.
Cãozinho.
Com licença.
Continuem.
Continuem.
Ótimo.
Sempre soube que a vida era boa, mas não sabia que era tão boa.
-Sabe de uma coisa? Eu te amo. -Eu também te amo.
Então, não preciso de mais nada.
Não sabia que tinha tudo. Agora sei o que não tinha.
-Eu também, Eddie. -É louco, não é?
Senti que isto aconteceria comigo.
Mas não sabia quando, e não é como eu esperava.
-É impossível imaginar. -Porque é bom. Tudo é bom.
Eddie?
-Já aconteceu algo assim com você? -Não.
E adoro esta cidade.
Mas nunca poderei andar aqui sozinho de novo.
Não quero nunca mais andar aqui sozinho de novo.
-Você é lindo. -É?
É. E você me faz sentir bonita.
Não me sinto normal quando estou contigo. Me sinto muito especial.
E fique sabendo... quero ter muitos filhos.
Não só dois ou três. Quero muitas crianças.
-Certo. -Seis filhos. Três meninos e três meninas.
-E quero que se pareçam com você. -Está bem. Depois nos casamos.
-Tem um amigo de escola... -Sim?
Ele foi ordenado sacerdote, lá nos EUA.
Sorte dele.
Connie, isso foi traiçoeiro.
Quando se casa, fica onde o marido trabalha e mora.
Quando se casa, cuida dele e dos filhos.
Eddie, tente, por favor. Vamos para os EUA só por um ano.
Se não funcionar, voltamos para cá. Eu prometo.
Querida...
Eddie, aqui não é sua casa.
É o lugar para onde fugiu.
E não quero ficar fugindo. Quero ir e formar uma família.
Enfrentar o que for preciso e transformar o que precisar.
Não quero viver de favor.
Não preciso implorar mais nada. Entende?
Além disso, está interessada numa causa. Eu só estou interessado em nós.
Não está interessado em nós, mas em você.
Venha, vou levá-la para o hotel.
Não.
Não, Eddie.
Connie. Oi. Comprei aquele perfume que queria.
E comprei alguns pôsteres para...
Desculpe.
Sim.
Isso mesmo. Quero partir o quanto antes.
Amanhã está ótimo.
Amanhã?
Sim. Pode confirmar para mim?
Obrigada.
Sim, obrigada.
Eddie?
Não vai dar certo.
É melhor eu sair enquanto estou inteira.
É ridículo, Connie. Para que viemos para Paris?
Para sermos expulsas por dois loucos só porque fomos magoadas?
Estamos agindo como adolescentes. Ainda temos que ver algumas coisas.
-Nem saberia o que estaria vendo. -Não importa.
Temos dois dias e vamos usá-los. Tenho a lista aqui.
Ainda não vimos metade do Louvre.
Não subimos ao topo da Torre Eiffel, nem fomos às catacumbas e às compras.
Como consigo a devolução da reserva?
A recepção resolve isso.
Você não é a única que quer sair inteira.
Recepção, por favor.
Eu olhava para você e Eddie e pensava: "Meu Deus, como é simples para eles."
Lillian, lembra de todos os lugares que podíamos ter ido?
Devíamos ter ido.
Sr. Bowen, que bom que veio.
-Como vai, senhor? É um prazer. -Por favor, queira se sentar.
Já faz tempo que o admiro.
Muito obrigado.
Mas sei que não veio aqui para trocar gentilezas.
Não, senhor, não vim.
Sr. Bowen, já li isto muitas vezes.
Tem um talento verdadeiro para melodias.
-O que significa isso, Sr. Bernard? -Isso que eu disse.
Você tem um dom melódico.
Sr. Bernard, quero desenvolver esse tema...
para que seja tocado num show. Mas quais são as chances?
Sr. Bowen, é um músico criativo.
Sempre que toca o trompete, está compondo.
Suas improvisações são muito pessoais.
Elas lhe dão um selo de músico.
Mas há uma grande diferença entre isso...
e uma grande obra musical séria.
Em outras palavras...
está querendo me dizer que sou peso-leve.
Ainda não sei o que é.
E nem você.
Só estou dizendo que você ainda não se permitiu descobrir.
Sr. Bernard...
trabalhei com músicos a vida toda. Sei tudo que posso fazer.
Talvez precise fazer outra coisa agora.
Paris é uma ótima cidade para um artista viver e estudar.
Composição, harmonia, teoria, contraponto.
Talvez precise mudar sua vida por alguns anos...
e se permitir fazer o que deseja.
-Em outras palavras, não presta? -Ao contrário, eu gosto.
Mas não está bom para ser tocada?
Tenho certeza que uma empresa fonográfica...
-Mas nada além disso. -Isso mesmo.
Uma composição de jazz encantadora...
e melódica.
"Sino de Belém" também é ótima. Consegue aprender de primeira.
Bem...
obrigado pela atenção. Eu agradeço muito.
Sr. Bowen, o que está me pedindo?
-Que eu diga que você é o que não é? -Não. Acabou de me dizer o que sou.
Você tem talento. Quer ser um compositor sério.
-Talvez consiga. -Talvez eu não consiga.
Talvez não.
Muito obrigado, senhor.
Entre.
Sim, o que é?
Sim, o que é?
Quando vai partir?
Amanhã.
Ainda quer que eu vá?
-O que houve? -Que diferença faz?
Isto é, se quiser que eu vá com você, irei.
-Se não quiser... -Eu quero.
Não sou nenhuma mártir. Quero você.
Connie, precisamos conversar.
Está bem.
-Oi, Eddie. -Oi.
Eddie!
Eddie, vou embora amanhã.
-Amanhã? -Amanhã cedo.
-Mas ainda tem três dias... -Mudei meus planos.
Sem me contar?
Eddie, não tive coragem de lhe contar. Não tive.
Connie, quero que fique aqui. Quero que fique aqui comigo.
Por favor, não me peça isso.
Não posso deixá-la partir.
Então, venha comigo.
Connie...
poderia bater em você por me lembrar de tudo que tentei esquecer em 5 anos.
Se voltar com você, será difícil, muito difícil.
Eu sou outro homem. Não me rendo fácil mais.
Mas eu te amo. Eu te amo.
E se estiver ao meu lado, vou tentar. Vou tentar.
Vou estar ao seu lado.
Bravo!
Ótimo. Ótimo.
Ótimo. Ótimo!
Ram, você, grande Ram!
Como foi?
Esta garota e eu ficaremos juntos para valer.
Vamos para Nova York amanhã.
Como assim? Estou falando de Bernard e a música.
Certo.
Você lembra que achou a melodla pesada? Você se enganou.
Era fraca.
Foi o que ele disse. Fraca.
Ele é refinado, não sabe o que fala.
-Ele sabe, sim. -Desistiu de compor?
Vou voltar e só tocar trompete.
Depois, eu levarei toda a turma. Até os EUA. O que me diz?
Muito bom, claro, iremos.
Certo, você, eu, Eddie, a turma toda.
Claro.
Nossa, a gente estouraria lá, Eddie. Sabe, eles adorariam Michel.
Sim.
Cadê a festa? E a animação?
Lilly, esse Gypsy maluco faz uma delícia de cozido.
-Mustache, pode levá-la, dar um prato? -Sim.
Está bem? Está bem.
Está bem.
Deixe que a festa continue até a estação.
Então, está feliz?
Sim. Por quê? Estava preocupada comigo?
Não desta vez.
Não estou mais.
Quer dizer mais nada?
Um pouco. Nada importante.
Já aconteceu?
Talvez. Mas não deixa marcas.
-Como a neve. -Você parece meio azul, triste.
Estou de todas as cores. Como deve ser.
-Você parte amanhã? -Sim.
Foi bom, Ram.
Sim, foi bom.
Vamos, pessoal. Vamos agitar mais um pouco. Vamos, venham.
Mustachio.
Mustachio. Desta vez, certo?
Eddie, pode pegar o sax?
Venha, traga seu prato.
Ache um lugar e prepare-se para ouvir.
Vamos, vamos.
Ei, Gypsy!
Relaxem, pessoal.
Michel, vamos!
Só mais um, querido.
Um só não faz diferença.
É bom para o corpo.
-Não use, Michel. -Por quê?
É só uma droga. O que tem de ruim?
Vamos, dê para mim.
Querido...
agora já acabou.
Para você, para mim.
Acabou.
Ram.
Vamos voar um pouco?
Saia daqui.
Saia daqui, Ram.
Está indo embora. Por que não vai?
Pegue sua namorada e vá. Saia!
Saia!
Pegue sua namorada e vá!
Pegue-a e vá!
Você e sua namorada, vão embora daqui!
-Saia! Saia! Saia! -Ram!
-Como está Michel? -Ele vai ficar bem.
Ram, vim lhe dizer que estou indo embora também.
O quê? Connie?
Sim.
Imagino. É uma boa garota.
-Vocês vão conosco amanhã? -Não posso.
Tenho muitas coisas para resolver aqui primeiro. Mas irei depois de umas semanas.
Não vou esperar. O que eu não levar, o Exército da Salvação vai ganhar.
Não será fácil ver todos vocês partindo amanhã.
Naquele trem triste e velho.
Verdade.
Connie?
Por que não vão na frente?
Podem ir.
-Venha conosco. -Eu estarei Iá num minuto.
Eu... só um minuto. É melhor esperar. Ele deve ter esquecido a plataforma.
Podem ir. Vão.
Ram, achei que não viria.
Não vai comigo?
Você vai depois?
Vou ficar, Lillian. Eu...
só vim me despedir.
-Ram? -Não posso.
Preciso tentar dar certo na música. Preciso ver aonde consigo chegar.
E isso significa ficar sozinho.
Bem...
as férias passam bem rápido quando está se divertindo.
Quero fazer algo mais.
Queria lhe dar um presente de despedida.
Pode não gostar, mas não importa.
Apenas isto.
Você nunca vai se esquecer de mim.
Você vai andar por uma rua ou onde quer que esteja...
e vai me ver.
Mesmo sabendo que não estou lá.
Ninguém neste mundo será tão perfeita para você como eu.
Por doze dias, em Paris, no outono.
Porque este foi seu presente para mim.
Passageiros, por favor, apresentem-se no portão dois, Última chamada,
FIM
Legendas: Pedro Miranda
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