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APÓS PERDER SUA AMADA FAZENDA NA ÁFRICA E O AMOR DA SUA VIDA, DENYS FINCH HATTON
KAREN BLIXEN VOLTA PARA RUNGSTEDLUND E COMEÇA A CARREIRA DE ESCRITORA.
NOS ANOS SEGUINTES, BLIXEN SE TORNA UMA AUTORA MUNDIALMENTE CONHECIDA
E O CENTRO DA VIDA CULTURAL DINAMARQUESA.
DEVO CONHECÊ-LO NÃO POR SEU ROSTO, MAS POR SUA MÁSCARA.
O PACTO
- Nem acredito que vou conhecê-la. - Ela é uma pessoa como outra qualquer.
Acha que ela leu meu livro?
Claro que leu. Por que então teria entrado em contato?
Não é?
Não vai conseguir chegar a Rungstedlund de bicicleta!
Táxi é caro.
Não se esqueça de tirar as presilhas da calça.
- Não esquecerei. - Vai dizer tchau?
- Tchau! - Tchau!
- Você deve ser o Magíster. - Isso.
A Baronesa está fazendo uma gravação de rádio.
Espere na sala de estar.
Obrigado.
"…ou as crianças inventarão um jogo falando meu nome
ou a lua cheia lançará uma sombra
sobre o cascalho do caminho que era como eu?
Ou as águias dos montes Ngong me vigiarão?"
Ótimo.
Muito obrigado, Baronesa.
- De nada. - Foi incrível ouvi-la. Nossos ouvintes…
Eu é que agradeço. Você sabe onde fica a saída.
Baronesa.
Desculpe-me pelo atraso.
Mas há dez anos, meu livro A Fazenda Africana foi publicado nos EUA
e, na ocasião, eu me comprometi a fazer uma gravação para o rádio.
Bem-vindo a Rungstedlund.
Eu sempre tive um talento especial para servir vinho.
Mas na minha idade, não garanto que não derramarei metade da garrafa.
Muita gentileza sua convidar alguém como eu.
Poder sentar aqui e dizer o quanto seus livros significam para mim.
Li todos seus livros várias vezes.
E estar aqui sentado com a senhora
em meio às coisas que trouxe da fazenda africana
faz com que tudo pareça ainda mais presente.
Espero não ter falado nada de errado.
Foi só quando fui viver na África que conheci pessoas
que entendiam que sua grandeza residia dentro delas.
Mas aqui é exatamente o contrário.
Todas as pessoas brancas têm um medo dentro delas
que eu não suporto.
É o medo de desagradar.
Em vez de fazerem o que querem, bajulam na esperança de que gostem deles.
Não, Magíster.
Isso não me interessa.
Tente outra coisa.
Estou curioso para saber
- o que acha do meu livro. - Eu ainda não li.
Foi a esposa de Knud W. Jensen, Benedicte
que me falou de um estreante promissor e isso me deu
uma ideia.
Qual?
Seus poemas foram bem recebidos, não foram?
- Foram. - Sabia que a imprensa
ridicularizou quando meu livro foi publicado?
- Não. - Pois ridicularizou.
No exterior não, eles entenderam. Mas na Dinamarca, não.
- Isso faz tempo… - Para piorar
dizem que tem um tolo jovem e indelicado querendo escrever
um livro sobre mim.
- Não deve ser tão ruim assim. - Mas eu não quero.
Não.
Quero que você escreva.
Sobre a senhora?
Talvez seja até publicado antes.
Não haveria tempo suficiente.
Não.
Mas você pensaria em escrevê-lo?
Claro.
Eu ganhei este gramofone quando morei na África.
É uma das únicas três coisas capazes de me deixar em silêncio. Tome.
As outras duas são a lua nova e a Sra. Carlsen.
As duas são mais bem recebidas com um silêncio reverente.
Você ainda é muito jovem.
Deixe-me ajudá-lo um pouco, Magíster.
Há uma passagem em uma peça de Heiberg
em que uma jovem faz uma oferta ao herói:
"Se você perder a fé em Deus, então…
tenha fé em mim
e eu o protegerei."
Conhece esta citação?
Não.
Eu posso guiá-lo.
A senhora não faz ideia o que isso significa para mim.
E pense na minha sugestão sobre o livro.
O que você dirá?
Não sei. Não sou esse tipo de escritor.
Imagine ser tão grande e importar-se com algo tão diminuto.
Está desapontado?
- Com quê? - Com ela.
- Ela foi fantástica. - Então, qual é o problema?
Fico feliz por ela querer que eu escreva sobre ela,
mas ela nem leu meu livro.
Vocês, escritores…
Vou pra cama. Você vem?
Vou ficar aqui um pouco.
Você tirou as presilhas da calça?
- Tirei. - E a chamou de "Baronesa"?
Chamei.
Dei beijo de boa noite no Bo por você.
Disse que você daria um beijo de boa noite quando chegasse.
Vou dar, claro.
Seja honesto: se acha que não consegue escrever o livro, diga a ela.
- Pode haver um pagamento. - Meu salário dá para nós.
Tem dado até agora.
- A Sra. Carlsen disse que estaria aqui. - Entre.
Pensou na minha oferta?
Pensei.
Pensei bastante.
- E agradeço muito… - Mas sua resposta é não.
Suponho que isso significa que não me orientará.
Admiro a sua coragem, Magíster.
Não vi essa coragem no nosso primeiro encontro, mas ela está aí.
Você sabe por que há tantas pessoas infelizes hoje em dia?
É porque elas já não são criadas para serem valentes.
Mas, para sermos felizes, precisamos nos arriscar à infelicidade.
E isso requer coragem.
Por isso, prometa-me uma coisa.
Nunca tenha medo.
Caso contrário, não conseguirá ser feliz.
- Então não está brava? - Não.
Você conhece Knud W. Jensen?
- Já ouvi falar, claro. - Precisa conhecê-lo.
Ele tem bom gosto, dinheiro
e apoia as artes.
Ele poderá ajudá-lo.
Darei um jantar.
Convidarei Knud, Benedicte
Thomas… Há tanta gente você precisa conhecer!
- Não posso aceitar… - Besteira.
Ver meus amigos se transformarem em animais selvagens
com a ajuda de dança e álcool
é um dos meus poucos prazeres.
E você trará sua esposa, é claro.
- Fala sério? - Sim, por favor, não me tire esse prazer.
O que a sua esposa faz?
- Grete? - Sim, Grete.
Ela é bibliotecária.
Não era para você escrever aquele livro.
Nós nos conhecemos por outro motivo. Percebi isso agora.
Você tem a coragem para fazer algo grande.
E é meu dever ajudá-lo a usar essa coragem.
Que incrível.
Entende que isso pode mudar tudo?
Eu vou poder escrever sem me sentir culpado.
Viu? Eu disse para ser honesto.
Vamos jantar em Rungstedlund.
Você, eu,
- e os maiores artistas do país. - Alguém precisa ficar com o Bo.
Pediremos a seus pais. Não quer conhecê-la?
Quero. Eu acho.
Vamos colocar o Knud do meu lado.
- Bjørnvig? - O jovem poeta.
Colocaremos ele do lado de Benedicte. Eles podem conversar sobre o livro dele.
E a esposa. Vamos colocá-la no outro lado da mesa.
- Ninguém vai olhar seus sapatos, Grete. - As mulheres vão.
E tenho certeza que a Baronesa vai observá-los.
Você está linda.
Está sempre linda.
Vamos indo.
- Obrigada. - Obrigado.
- Você deve ser o jovem poeta? - Eu mesmo.
- Você deve ser Knud. - Knud V. Jensen.
- Grete. Esposa do jovem poeta. - Prazer.
Tanne só aparece no jantar. Mas há drinques na sala de estar. Venham.
A Baronesa me pediu para mostrar o quarto de vocês.
Mas temos que pegar o Bo.
Seus pais não podem ficar com ele até amanhã?
- Mas não trouxemos roupas. - Eu falo com ela.
Não posso tomar café da manhã nesse vestido chique.
Acho que a baronesa iria se divertir com isso.
A Baronesa quis lhes a opção, para aproveitem a festa o quanto quiserem.
A cama é de solteiro, mas a Baronesa achou que serviria.
Precisamos pegar nosso filho na casa dos meus pais.
Bom, agora vocês sabem onde fica.
As pessoas já estão se sentando para jantar.
Susanne, quero me sentar com você. Pode se sentar ao meu lado?
Mas eu devia saber.
Vai se sentar perto de mim?
Olá.
- Olá. Benedicte. Esposa do Knud. - Thorkild. Minha esposa, Grete.
Meus queridos amigos! Bem-vindos. Sejam todos bem-vindos.
Sentem-se. Sentem-se, por favor.
Obrigada.
- Você é poeta? - Sou.
A Baronesa me convidou
- graças a você. - Graças a mim?
Tudo porque você leu meu livro e foi gentil em recomendá-lo.
Ela disse isso?
Na verdade, acho que a Baronesa mentiu um pouco.
Ela me ligou e disse para eu ler o livro antes dessa noite.
Mas infelizmente eu ainda não tive tempo.
- Não conte para ela. - Prometo.
Saúde!
- Vamos mostrar a eles como se dança. - Thorkild!
- Vamos! - Temos mesmo, Thorkild?
Vou falar com a Tanne. Pensaremos em algo.
- Obrigado. - Obrigado pela noite.
Obrigado também.
Será que nós também podemos ir?
- Não quero insultá-la. - Bo sempre dorme em casa.
Ele está com seus pais.
Isso é meio esquisito. Nós nem a conhecemos.
E se eu ficar?
Obrigada pela noite, Baronesa.
A Sra. Carlsen não lhes mostrou o quarto?
Minha esposa precisa buscar nosso filho. Mas eu ficarei.
- Espero que tenha se divertido. - Foi uma noite maravilhosa.
Também vou indo, Tanne.
Estou sendo abandonada pelos meus amigos.
Como sempre, foi uma noite maravilhosa.
E seu parceiro de jantar? Comportou-se?
Com certeza.
Que pena.
Obrigado pela noite.
Obrigada mais uma vez por escrever um livro maravilhoso.
- Bom dia. - Bom dia.
Você dormiu lá?
Umas duas horas. E você?
É estranho ter dormido na casa de uma estranha.
Não é mais uma estranha. É nossa amiga.
Não ganho um beijo?
Onde estão todos os meus animais?
Onde estão todos os meus animais?
Esta é uma vaca. Que barulho que a vaca faz?
- Quem mora nessa casa? - O fazendeiro mora aqui.
O fazendeiro mora aqui?
E o que o fazendeiro diz?
Sra. Carlsen?
Mande o motorista tirar o carro.
Pois não.
- O que é que você fez aqui? - Baronesa?
Baronesa.
Magíster.
Venha aqui ver.
Se soubesse que viria, eu não teria saído.
Besteira. Só vim agradecer sua esposa por ela ter me emprestado você.
E, então, dou de cara com esta pequena maravilha.
Ele lembra Picasso quando pinta e desenha.
Ele lembra alguém que está pronto para ir dormir.
Não.
- Vamos para a cama. - Está cansado, pequenino?
Tenha lindos sonhos.
Como você é adorável!
Durma bem.
Conversei com Knud e ele lhe dará apoio financeiro
para você se focar em escrever.
Sério?
É muito.
Prometo fazer o meu melhor.
- Escreverei todo dia. - Não basta escrever, Magíster.
Você precisa sair da biblioteca.
Você precisa encontrar seu caminho, e não apenas
ser como as outras pessoas o veem. Você precisa se encontrar.
É mais fácil falar do que fazer.
É por isso que você precisa de um empurrãozinho.
Você se lembra quando lhe falei da peça de Heiberg?
"Se você perder a fé em Deus
então tenha fé em mim e eu o protegerei."
Claro que lembro.
No meu primeiro ano na África uma oferta dessa foi feita para mim.
Foi feita pelo meu povo.
E foi feita pela própria África.
"Tenha fé em nós
e nós lhe protegeremos."
E eu aceitei a oferta com todas as minhas forças.
E assim se tornou um pacto entre nós.
Um pacto?
Uma promessa
sagrada e mágica.
Estou oferecendo esse pacto a você.
- Não sei se estou entendendo. - Um pacto de fidelidade espiritual.
Eu prometerei sempre protegê-lo.
Sempre estarei disponível para você.
Você pode vir até mim sempre que quiser.
Jogue uma pedra na minha janela
se as coisas ficarem difíceis.
Em retorno, você deve prometer que sempre confiará em mim.
E o mais importante: você se esforçará para se tornar o artista
que nasceu para ser.
Sempre sonhei em ter alguém para me guiar.
Então, aceite minha oferta.
Eu aceito.
Então, colocarei minha capa sobre você
como um sinal de que, um dia, meu espírito
ficará com você.
E, por favor, diga a sua esposa que não há necessidade
para se preocupar com o Bo.
Como assim?
Minha doença não é mais infecciosa.
Não sei do que está falando.
A doença me afastou da vida.
Não apenas do sexo, mas de tudo que fosse físico.
Não é mais parte de mim. Já não é mais perigosa
a não ser para mim mesma.
Você sabia que Nietzsche também tinha sífilis?
- Li algo a respeito. - Então, sabe que ele tinha megalomania.
Se você vir sinais disso em mim, prometa que me avisará imediatamente.
Você tem que proteger minha honra.
"Tenha fé em mim e eu a protegerei."
- O jantar está quase pronto. - Que ótimo.
Nenhum poema?
Ela não quer que eu escreva poemas ainda.
Somente cartas. Para ela.
"O Magíster deve primeiro sentir o mundo para saber sobre o que escrever."
Entendi. O Magíster sente que está com fome?
Thorkild?
O que você acha?
- Parece bom. - O que parece bom?
Você não estava escutando.
Desculpe.
É dela?
O que ela escreve?
"Não se esqueça do nosso pacto.
Você não deve escrever para mais ninguém.
Você não deve escrever para uma guerra
ou movimento cultural. Escreva porque deve responder
- aos deuses." - "Pacto"?
Sim.
É só como ela chama.
E o que você deve fazer nesse pacto?
Nada.
Quer dizer
devo honrar o pacto confiando nela como ela confia em mim.
É uma declaração de confiança.
Uma promessa para elevar meu olhar.
- Você acha besteira. - Não.
- Ela está me ajudando. - Já disse que não acho besteira.
O que é então?
O que acha que acontecerá quando você elevar seu olhar?
Só peço que não se esqueça de olhar para mim.
Promete?
Prometo.
Thorkild?
Thorkild?
- Olá. - Olá.
Ele está dormindo. Ficará feliz em vê-la.
Ele está bastante deprimido. Ele acha que nunca mais trabalhará.
Vamos ter que fazer alguma coisa.
Disseram que é uma grave concussão. Para se recuperar, terá que descansar.
A culpa é toda minha.
Quando recebi a última carta do Magíster
e ele mais uma vez reclamou,
fiquei tão furiosa que bati meu punho na mesa e gritei:
"Que esta pancada acerte a cabeça do Magíster!"
E isso aconteceu no exato momento em que houve o incidente.
Eu devo ter batido forte demais.
Não pode ter sido uma coincidência?
O que eu fiz foi um ato de magia. Foi uma maldição.
E desculpo-me por isso.
Por isso, eu gostaria de oferecer levá-lo para Rungstedlund
para que se recupere lá.
- É o mínimo que posso fazer. - Não é necessário.
- Lá ele poderá descansar e relaxar. - Em casa, ele também poderá.
Tem três coisas que eu faço bem:
contar histórias, cozinhar e cuidar de gente maluca.
Então, posso fazer esta oferta para ele, com a sua permissão?
Prometo que cuidarei dele como uma leoa. Não deixarei ninguém incomodá-lo.
Pode ter certeza de que ninguém, ninguém o incomodará.
Obrigado.
- Bem-vindo. - Obrigado. Sra. Carlsen.
A Baronesa está ocupada. Ela me pediu que mostrasse seu quarto.
Ela disse que o verá às oito.
Ela disse que não quer entediá-lo.
Eu lhe trarei o almoço. E o jantar é às sete.
Obrigado.
- Seja bem-vindo, Magíster. - Obrigado.
Você pode usar a casa toda e o jardim como quiser.
Eu o visitarei toda noite às oito e o deixarei às nove.
Passarei o dia pensando em algo inteligente para lhe dizer.
Sabe?
Quando aconteceu a tragédia
fiquei doente, e Deus não pareceu disposto a me ajudar.
Talvez você não entenda como é horrível para uma mulher
não ser mais capaz de amar
e abraçar quem ama.
Então,
eu prometi minha alma ao Diabo.
Em troca
ele prometeu que tudo o que eu vivesse se tornaria uma história.
E como pode ver
ele cumpriu sua promessa.
Agora, você precisa se acomodar.
A música que vou tocar
você ouvirá muitas vezes enquanto estiver aqui.
As notas o envolverão e trarão paz a seu coração.
E daqui muitos anos quando voltar a ouvi-la
sempre se lembrará de nossas noites aqui nesta sala.
Voltei a escrever hoje. Pela primeira vez.
Deixe-me ouvir.
Ainda não está pronto.
Não quero que pense que é o melhor que posso fazer.
Conheci
um homem quando morei na África.
Denys.
Denys nunca se importava com o que as pessoas achavam dele.
Isso não lhe passaria pela cabeça.
- Lembro dele no seu livro. - Algumas pessoas dizem
que só me cerco de pessoas bonitas.
Pode ser. Não sei.
Mas pelo menos sei que todos os meus amigos
têm dignidade.
E Denys… tinha dignidade.
E tinha um anseio dentro dele
e defendeu seu anseio.
No dia em que seu avião caiu, ele me falou desse anseio.
Contou-me como ele o deixou guiá-lo.
Mesmo quando o levou para longe.
Mesmo quando o levou para a morte.
Goethe descreveu essa força motriz
melhor do que qualquer um.
O anseio como algo belo e destrutivo. Como o de Denys.
Onde ele disse isso?
No último verso do poema "O Anelo".
- Proclame-o para mim. - Faz anos que não o leio.
Você o sabe de memória, não sabe?
Se sabe que o anseio de Denys
o anseio que o matou está descrito em um poema,
eu gostaria muito de ouvi-lo.
Só aos sábios o reveles
Pois o vulgo zomba logo
Quero louvar o vivente
Que aspira à morte no fogo
Não sofres ficar nas trevas
Onde a sombra se condensa
E te fascina o desejo
De comunhão mais intensa
Não te detêm as distâncias
Ó mariposa! E nas tardes
Ávida
de luz
e chama
Voas para a luz em que ardes
E aí, gostando de ter saído da sua prisão?
Há quatro semanas que eu não saia de Rungstedlund.
Os métodos de Tanne são peculiares, mas eficazes.
É graças a ela que voltei a escrever. E a seu mecenato.
Quando não se tem talento artístico, devemos apoiar quem tem.
Aceita um uísque, Sra. Jensen?
- Obrigada. - De nada.
Bela festa.
Vocês sempre dão festas assim?
É o mundo do Knud.
Ele adora juntar a elite cultural com seus contatos comerciais.
Sempre em movimento. Sempre empreendendo.
Eu só tenho que tentar acompanhar.
A propósito, li seus poemas.
Mexeram bastante comigo. São…
muito belos, profundos e melancólicos.
É o melhor elogio que poderia receber. Obrigado.
Sua esposa deve se orgulhar de você.
Podemos nos tratar por nossos nomes?
Podemos, claro.
- Saúde. - Saúde.
Eu estive pensando.
O quê?
Você devia ter um caso.
- Não acho uma boa ideia. - Deveria se apaixonar.
Amo minha esposa.
Não falei em amor, mas em apaixonar-se.
Um casamento não é o lugar certo para a paixão.
Não, um caso escandaloso…
Para arrancar essa sua atitude desesperançosa de pequeno burguês.
E não importa o que você faça e se todos se virarem contra você
você pode ter certeza que eu o apoiarei.
Boa noite, Magíster. Durma bem.
- Onde está a Baronesa? - Ela virá aqui de noite como sempre.
- E se eu precisar falar com ela agora? - Ela está ocupada.
Não é melhor chamar um médico?
A Baronesa já se consultou com todos eles.
Soube que não podia esperar para me ver.
Não foi intenção minha intrometer-me.
Prescreveram-me pílulas de mercúrio para a minha doença.
Mas receitaram muito e acabei intoxicada.
Isso me causa muita dor, mas é minha cruz.
Não quero piedade.
- Eu queria poder fazer algo. - Não pode.
Mas o que era tão importante que não podia esperar?
Vou para casa por alguns dias para ver minha esposa e Bo.
Casa?
Sim.
Pensei que ficaria até que estivesse bem.
Está escrevendo?
Estou.
Esqueceu-se de nosso pacto?
Isso não significa que não posso ver minha família.
"Tenha fé em mim e eu o protegerei."
- Você tem fé em mim? - Claro que tenho.
Como a Baronesa bem sabe.
Você está escrevendo?
Estou. Por isso acho que está na hora de eu ver minha família. Afinal…
Será que não passa por esse seu cérebro diminuto
que seu progresso pode estar ligado ao fato de estar longe de sua família?
Que isso está acontecendo porque você está aqui?
Pode me mostrar algo que escreveu?
- Está quase pronto. - Está quase pronto?
Será que a falta de comida caseira é a causa dessa sua ineficiência?
Ou será que passar a noite acompanhado pela mediocridade o inspira?
Então, por que quer ir?
Semana que vem, eu visitarei Knud de novo.
E pensei…
que talvez sua esposa pudesse vir visitá-lo aqui em Rungstedlund.
A Sra. Carlsen preparará o jantar para vocês.
Bem-vinda!
- Bom vê-la. - É bom vê-lo também.
Venha. Vamos entrar.
O melhor para você. A Baronesa insistiu.
- Onde ela está? - Na casa de Knud e Benedicte.
Parece que ele cresceu da noite para o dia.
É uma criança madura e peculiar.
Outro dia, perguntei se ele ainda estava com fome, e ele me disse:
"Estou indeciso."
Tão pensativo e maduro em um corpo tão pequeno.
O que ele faz?
Ele desenha bastante. Principalmente animais.
E aviões. Ou, pelo menos, é o que ele diz ser.
Ele o desenhou algumas vezes.
Sinto saudades dele também.
- Muitas. - Querem mais?
Não, obrigado, Sra. Carlsen.
Estava delicioso.
E como vão as coisas aqui?
Estou escrevendo mais do que escrevia antes.
Isso é bom?
Não sou a pessoa certa para julgar.
- O que ela acha? - Ela ainda não leu.
Ela…
passa a maior parte do tempo sozinha.
Eu só a vejo uma hora por noite.
Grete.
Achei que você ficaria feliz
por eu passar pouco tempo com ela.
Eu achava que ela era
uma mulher cosmopolita com o dom de abrir a mente das pessoas.
Eu sinceramente pensei que você quisesse estar na companhia dela.
Mas o que significa você preferir ficar sozinho aqui?
Vem.
Não está certo, Thorkild. Você tem de voltar para casa.
Eu sei.
Falarei com ela.
Mas a decisão não é dela.
Ou isso também faz parte do pacto?
Não. Claro que não.
Mas você sabe o que ela pode fazer por mim e já fez.
Se ela gostar do que escrevi, acho que ela entenderá.
- Boa noite. - Baronesa.
Espero que tenham aproveitado a noite.
- Aproveitamos, sim, obrigado. - Quer que eu chame o motorista?
- Knud e Benedicte mandam lembranças. - Obrigado.
Benedicte disse que vocês se escrevem. Eu não sabia.
Creio que nos tornamos amigos.
Isso era exatamente o que eu esperava que você fosse capaz.
Sinto como se eu estivesse de volta.
E isso é…
- maravilhoso. - Recebi o empurrão que eu precisava.
E sou muito grato por isso.
Está na hora de eu voltar para casa.
O seu dom com as palavras
é o suficiente para permitir que convença a si mesmo.
Queria que eu fixasse residência aqui?
Como você é covarde.
Por que você fez o pacto comigo?
Não foi para libertá-lo?
- Está sendo injusta. - Para seguir seu instinto?
Sim.
Então, por que continua achando que encontrará o Cálice Sagrado
num carrinho de bebê?
Sugiro que eu venha jantar uma vez por semana.
E poderíamos continuar nossas discussões devotadas ao pacto.
Mas também tenho um pacto com minha esposa.
"Esposa".
Você, que leu Nietzsche, Goethe, Rilke,
qual foi a última vez que leu essa palavra
em uma obra de arte?
Consegue me citar
um único poema que contenha a palavra "esposa"?
Não.
E por que acha que isso acontece?
Eu parto amanhã.
Para nos abrir aqueles jardins justos
Onde moram Seus anjos abençoados
Dance, criancinha No joelho da mamãe
O adorável dia já vai raiar
Estou tentando abrir para ver se é alguma coisa
que eu queria.
Um trenzinho.
Agora é a sua vez.
Thorkild…
Gostou?
- Alguma carta dela? - Nenhuma.
- Quer um pouco de chá? - Quero, sim.
"A rainha os agradeceu pelos presentes finos.
A foca pulou para fora
e mandou lembranças do Rei Foca. O pequeno cavalo marinho…"
Você não pode depender dela.
- Eu não falei nada. - Toda noite às 20h
é a mesma história. Você parece um cachorrinho esperando a dona.
Grete…
Ela está presente mesmo não estando… aqui.
- Só porque olhei para o relógio? - Você não dorme à noite.
Você fica rodeando a caixa do correio, porque um dia sem uma carta dela
o deixa parecido com alguém que…
Alguém que o quê?
Deixa pra lá.
Mostrei seus poemas novos para Knud e ele concorda completamente:
estão cada vez melhores.
E devo confessar
que senti um pouco a sua falta.
Eu também.
Você tem a habilidade
de fazer algo espontâneo e rebelde.
E todas as coisas que um casamento não lhe proporciona.
Você não anseia por isso?
Por ser livre?
Anseio.
Mas não sei se o que anseio existe.
O anseio já é a prova de que o que você anseia existe.
O que eu mais desejo para você
é que experimente a sensação de elevação.
Que você possa sentir
que tudo é verdadeiramente possível.
Você sabe que quero isso mais que tudo.
Eu queria conseguir explicar para Grete sem magoá-la.
Explicar o quê?
O quanto isso significa.
O quanto isso significa?
Tudo.
Só fui descobrir quando voltei para casa
e fiquei longe.
Mas significa tudo.
Imagine…
se eu fosse 25 anos mais nova.
Teria sido tudo diferente.
Teríamos podido ir à Veneza
para uma lua de mel.
Knud me disse que estão oferecendo bolsa de estudos em Bonn.
- Você devia se inscrever. - Bonn?
Você poderia escrever e assistir às aulas.
E poderia se afastar.
- Você quer se afastar, não quer? - Todos os dias.
Uma vida plena dia sim, dia não. Onde está a dignidade disso?
Eu escrevi a semana inteira. Há tempos não escrevia tão bem.
Se está funcionando assim e podemos continuar a nos ver, para que arriscar?
Estou apenas honrando com minha parte no pacto.
Prometi guiá-lo até seu destino, até seu propósito.
- Você honrará a sua parte? - Espero que entenda.
- Não é que eu não queria… - Então, não honrará.
Eu estou fraca e minha mente está escurecida.
E não o entendo.
E como nosso pacto
baseia-se em confiança mútua, não tenho dúvidas
que o melhor é ficarmos um tempo sem nos ver.
Como foi?
Não sei.
Ela…
Estão oferecendo uma bolsa de estudos em Bonn, e ela acha que devo tentar.
- É? - Sim.
Você não pode recusar?
Posso.
Como viajar à Alemanha o ajudará a escrever?
Acredito que ela ache que seria bom para mim,
sair e ver o mundo.
O que Bonn tem para se ver?
Talvez não para ver coisas.
Mas, para me afastar um tempo.
Do quê?
Do quê, Thorkild?
Grete…
Ela surgiu com a ideia de eu ir para Bonn.
E ficou furiosa quando recusei.
O que a Grete acha?
Ela não tem se sentido bem.
É algo sério?
Está tomando uns comprimidos.
O médico disse que ela precisa de repouso.
Com certeza ele disse.
Para ser honesto,
acho que ela ficaria feliz por eu me afastar da Baronesa
e a Baronesa ficaria feliz por eu me afastar dela.
E você, Thorkild? O que o deixaria feliz?
Sra. Carlsen!
O gramofone!
O Magíster vai para Bonn.
Não quero parecer ingrato por você ter me encorajado
a vir para Bonn.
Mas devo admitir que vim para cá meio às cegas.
Que não usei meu coração para me decidir.
E com o passar dos dias, fica cada vez mais difícil
encontrar um motivo para ficar.
Por isso, minha temporada aqui está sendo triste e sombria.
É como se eu estivesse em uma sala de espera.
Sei de suas grandes expectativas quanto a minha viagem a Bonn.
Assim, lamento em desapontá-la
ao dizer que, se possível
quero interromper minha estadia aqui o quanto antes.
Sra. Carlsen?
Pois não?
Poderia convidar Benedicte para vir almoçar?
Claro.
O Magíster está muito infeliz. E fiquei triste quando ele me escreveu
pedindo se podia voltar.
Ele precisa de sua permissão?
Não, mas é claro que não.
Tomou essa decisão porque precisa de um motivo para ficar. Precisa de apoio.
- Sim. - Então, vá visitá-lo.
- Talvez uma visita o anime. - Eu sei que devia ir.
Mas minha saúde é frágil e sinto dores intensas.
Não tenho condições de viajar.
E Grete já está sobrecarregada com o trabalho e o filho.
Que tal você?
- Eu? - Sim.
Vocês sempre foram amigos.
Mas não quero me intrometer.
Grete não acharia estranho?
Grete… Conversamos com ela.
Tenho certeza que isso o animaria.
Isso o inspirará.
E prometo que converso com o Knud.
Acho que ele nem iria perceber que viajei.
O que me diz?
Nunca estive em Bonn.
E o mais importante: Bonn nunca esteve em você.
Prometi escrevê-la contando como você está.
É, ela gosta de saber… de tudo.
Confesso que eu me tornei um escritor melhor graças à Baronesa.
Knud diz a mesma coisa.
O que você fazia antes de conhecer Knud?
Eu disse algo errado?
Não. Imagina.
Eu estudava Psicologia.
Sempre me interessei nas pessoas. Mas daí
Knud apareceu, e me casei.
Na nossa lua de mel, claro que Knud veio com a ideia de levar a Baronesa.
Nunca em toda a minha vida
eu vi tanta bagagem.
Para três dias. Mesmo assim
ela reclamou que a pobre da Sra. Carlsen colocou as roupas erradas.
"Aquela garota maldita! Esqueceu as coisas mais importantes!
Minha blusa azul claro e minhas luvas.
Como posso ir jantar esta noite? Recuso-me a pensar nisso.
Recuso-me a ser afetada pela Sra. Carlsen. Aquela criatura inútil!
Aquela vaca desastrada!"
E claro que ela achou a blusa e as luvas no fundo da mala.
Que, aliás, ela mesma tinha colocado.
Então, ela foi na lua de mel de vocês?
Foi.
A sopa está boa?
Está. Experimente.
Obrigada pelo passeio.
Amanhã eu a pego. Precisa ver a biblioteca.
Estou ansiosa para ver.
- Boa noite. - Durma bem, Thorkild.
Thorkild?
Veja.
Não é uma das primeiras edições?
É, sim.
- Boa noite. - Boa noite.
Que lugar!
Tanne insistiu que eu ficasse aqui.
Ela insistiu que eu dividisse o quarto com três italianos.
Ontem eu recebi uma carta dela.
Ela manda lembranças.
Por que ela escreveu?
- Para eu me alimentar bem. - Você se alimenta.
E para que eu o deixe feliz.
Você deixa.
- Venha. Vamos dançar. - Agora?
Sim.
Mas não podemos.
Claro que podemos.
Até amanhã.
- Até. - Eu a pego às 10h, após o café da manhã.
Combinado.
Obrigado por hoje.
Obrigada, Thorkild.
O que faremos?
Não sei.
Quando você volta para casa?
Dia 30.
Do mês que vem.
- Vai escrever para mim? - Todos os dias.
Estou com medo.
Eu estava arrebatada por minha paixão por você.
Extasiada com sua gentileza.
O encantamento.
A maravilhosa sensação de movimento e liberdade
que nosso amor em Bonn nos proporcionou.
Mas então o movimento e a liberdade se findaram.
E acabamos nessa prisão onde nos encontramos agora.
Temo o fim,
porque não podemos agir de acordo com nossos sentimentos.
Sentimentos que nos deixam paralisados.
Não podemos abandonar um ao outro
mas também não podemos seguir juntos.
Nossos sentimentos não encontram morada nesse mundo se não podemos agir.
Na vida, no mundo, precisamos agir para viver.
Porque viver é se mover.
Porque se nossos sentimentos estão amordaçados
eles nos arrastam para a morte.
Veja, ele está vindo.
Vamos!
Que bom te ver!
Comprei um presente para o Bo. Um trenzinho.
Ele vai adorar.
Como ele está?
É ótimo estar de volta.
Quando planeja ir para Rungstedlund?
Quem disse que eu vou?
Eu preferia que você não fingisse.
Eu só queria saber qual será o motivo dessa vez.
Doença?
Um lugar silencioso para trabalhar.
E Benedicte? Gostou da visita dela?
Gostei, foi agradável.
Ajudou-me bastante.
Eu sempre gostei dela.
E você, como vai?
Não se preocupe comigo.
Também tento não me preocupar com você.
Pode entrar.
Obrigado.
Bem-vindo de volta, Magíster.
Você está diferente de quando partiu.
Sim.
Estou.
Esse é o propósito de uma jornada.
Ora, não fique assim tão melancólico.
Comigo, continua a mesma coisa.
Dor sem cessar.
Acho que você sabe o quanto isso é difícil para Grete.
Foi o mesmo quando você partiu.
Mas nada disso importa.
O que importa é se Bonn pôde servir a seu propósito.
E se meu casamento pode servir agora.
Como você pode conseguir algo radical
estando preso a uma pessoa que quer o contrário de você?
Ora, Magíster, então diga-me:
não sentiu seu chamado de um modo diferente enquanto estava em Bonn?
Diga.
O tempo que passou sozinho e o tempo que passou com Benedicte.
Isso não lhe deu a sensação de estar em uma maravilhosa
queda livre?
Como se a neve caísse eternamente, sem nunca chegar ao chão.
Sim.
Sim…
Arrepende-se de nosso pacto?
O que você está precisando é de diversão, Magíster.
Vou dar um jantar
e convidarei Benedicte, Knud e todos os demais.
Claro que sua esposa também será bem-vinda.
- Boa noite, Magíster. - Boa noite.
Com licença.
Eu não paro de pensar em você.
Você acha que amor é sentir
ou doar-se a alguém?
O que quer dizer?
Amar é ter o sentimento de estar apaixonado e feliz
ou é doar-se a outra pessoa?
Não pode ser as duas coisas?
Se for doar-se então devo ficar com Knud.
Gosto de fazer coisas para ele.
Ajudá-lo e apoiá-lo naquilo que o torna grande.
Suponho que você sinta isso por Grete.
Sinto.
Mas se amor é sentimento, então devo ficar com você.
Eu não quero ajudá-lo
ou fazer algo para você. Só quero ficar com você.
Mas não pode ser os dois.
Pelo menos não em nossas vidas.
Precisamos entender o que isso significa, porque estou enlouquecendo.
Não podemos demorar muito.
Vá você primeiro.
Benedicte?
- Precisou tomar um ar? - Não me sinto bem.
- É melhor eu ir para casa. - Certo.
- Vou mandar meu motorista levá-la. - Não.
Estou com o carro de Knud. Não é longe, ele pode pegar um táxi.
Incomodaria-se se eu não me despedisse?
Venha aqui. Venha.
Diga-me o que a está perturbando?
Não quero deixá-la envergonhada.
Perdi a capacidade de me envergonhar há muitos anos.
- Posso confiar em você? - Claro!
Isso fica só entre nós duas, e o Diabo.
Tudo está tão terrível!
O que está tão terrível?
Acho que você já sabe.
- Sei o quê? - Ou que já pressentiu.
Bem, talvez sim. Mas me diga.
Thorkild e eu… nós…
- Nós… - Querida!
Um pequeno caso não é a pior coisa do mundo.
- Vocês são jovens, podem se divertir. - Não é assim.
Não é assim conosco.
Conosco, é algo mais…
É mais profundo.
Você vai deixar Knud.
E ele vai deixar Grete.
Sim.
- Diga alguma coisa. - Isso não pode acontecer!
Isso a destruirá.
E a ele também.
Ele nunca vai…
Nenhum de vocês poderá voltar a minha casa.
Destruirá tudo.
- Achei que você entenderia. - Que tremenda idiotice!
Você precisa entender
que cada um de nós desempenha um papel na história.
Você pode flertar e amar o quanto quiser.
Mas seu papel é ficar com Knud.
Que pessoa horrível você é!
Escute-me,
garotinha.
Escute-me com muita atenção.
Com licença.
Viu a Benedicte?
- Receio que ela tenha ido embora. - Foi embora?
Tivemos uma conversa particular e ela decidiu ir.
O que disse a ela?
O que disse a ela?
Contei a verdade para ela. E você sabe.
- A verdade? - Que você pertence a outra pessoa.
A quem?
Consegue sentir como se garras afundassem
no fundo do seu coração?
Como se um animal selvagem o estivesse empurrando e sacudindo?
Sim.
Conheço esse sentimento.
Não existe dor maior.
Mas não sinto pena de você.
Eu o invejo. Não.
Eu queria que você sentisse isso.
- Você a tirou de mim. - O que tirei de você?
Uma garota que tem a alma do tamanho de uma ervilha?
Outra relação insignificante e inibidora.
Eu lhe dei o que prometi quando celebramos nosso pacto.
Uma vida na qual sua única responsabilidade é seu chamado.
Um dia você entenderá.
Para onde ela foi?
Para onde ela foi?
- Gostei de sua casa. - O que queria falar de importante?
Como você deve saber,
a Baronesa deu um jantar hoje à noite.
A Baronesa me chamou de lado e me disse
que está com a sensação de que eu e Thorkild
começamos a ter sentimentos um pelo outro.
E ela está certa.
Nós nos gostamos.
Mas…
Desculpe.
Sinto muito fazê-la sofrer.
Talvez lhe interesse saber que eu deixarei o país.
Faz um tempo que Knud e eu temos tentado
e eu decidi deixá-lo.
Não para ficar com Thorkild,
mas para tentar me reencontrar.
Vou para a Inglaterra.
Tenho família lá com quem posso ficar.
Então, você nunca mais me verá.
Tem todo o direito de me odiar.
Eu não a odeio.
Seja como for, ela é quem vence, não é?
Se Thorkild ficar com você, ela vence.
Se Thorkild deixar você por minha causa, ela também vence.
Thorkild ama muito você.
Isso não significa nada.
Sempre serei a pessoa que o atrapalhou.
Não tomarei mais de seu tempo.
Sinto muito.
Grete?
Grete? Grete!
Ela ficará bem.
Agora precisa de repouso. Pode voltar amanhã.
- E meu filho? - Está com os pais dela.
Quem a encontrou?
Aqui está.
Bem-vinda em casa.
Você quer café ou chá?
Sente-se.
- Grete… - Deixe-me falar primeiro.
No hospital, quando eu estava mal, comecei a ler os livros dela.
Para saber quem é essa bruxa que destruiu minha vida.
Eu vi como ela era.
Grandiosa
e vibrante.
E vi no que a perda dela a transformou.
E sua dor.
E prometi a mim mesma que eu lidaria melhor com a dor do que ela.
Nossa função nesse mundo
é lidar com a dor sem gerar mais vítimas.
Ela é incapaz de fazer isso.
Você acha que precisa dela
mas é ela que precisa de você.
Cabe a você decidir ser usado ou não.
- Aqui está. - Obrigado.
Ela me convidou.
Ela quer me ver uma última vez.
É melhor pôr um ponto final nisso.
Outro dia, a Sra. Carlsen me perguntou
por que eu pedi para que você viesse.
- O que disse a ela? - Eu podia ter dito muitas coisas.
Podia ter tido que precisávamos discutir o pacto.
Ou que precisávamos conversar sobre o seu futuro.
Mas, então, me lembrei de uma expressão que certa vez
mexeu bastante comigo.
Que expressão?
Pourquoi pas?
Por que não?
Se você só disser "por quê?"
parece que está chorando ou se lamentando.
A voz de uma causa perdida.
Soa negativo.
Mas se adicionar mais uma negação,
a palavra pas, "não", então,
a pergunta se transforma em uma pergunta
que porta em si uma enorme esperança.
E sua esperança é que continuemos com nosso pacto.
Eu não posso quebrá-lo.
Mas você pode.
Mas agora,
você precisa ver se você quer.
- Se eu fosse ingrato. - Não era só pelo pacto.
Eu esperava que você tomasse conta de Rungstedlund.
Nenhum de meus parentes quer ou é capaz de administrá-la.
Se quiser,
posso deixá-la para você no testamento.
Eu não posso aceitar.
Os maiores poetas da Dinamarca sentaram-se aqui.
Você sempre quis ser o próximo.
Por que daria seu lugar para outro?
O sangue
é o laço mais forte que existe entre as pessoas.
Pourquoi pas?
Por que não, Magíster?
Porque tenho um lar.
Então,
rompa o pacto.
É o único que pode rompê-lo.
Liberte-me.
Eu a liberto.
O Diabo me prometeu
que tudo o que eu vivesse
tornaria-se uma história.
Em retorno, nunca poderia ser uma só pessoa
mas devia ser quem a história exigisse que eu fosse.
Mas agora você
precisa me responder, Magíster.
A mais pura verdade.
Já levou em consideração a máscara que usei?
Já pensou que seu papel subordinado só existe
porque ele tem uma contraparte?
Alguma vez pensou em mim?
Talvez não.
THORKILD RECONHECEU QUE O ENCONTRO COM BLIXEN DEU-LHE LIBERDADE CRIATIVA.
SUA OBRA MAIS FAMOSA É O PACTO QUE CONTA COMO FOI O RELACIONAMENTO DELES.
KAREN BLIXEN CONTINUOU SENDO UM DOS GRANDES NOMES
DA LITERATURA INTERNACIONAL ATÉ SUA MORTE EM 1962.
O PACTO
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