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2054 D.C. PLANETA NIFLHEIM
Como é que sobrevivi àquilo?
Foi uma queda e peras.
Merda. O meu comunicador está avariado.
A minha térmica também está estragada.
Devia ter-me partido ao meio e morrido na queda,
em vez de me transformar lentamente num gelado de carne.
Timo?
Timo!
Timo, estou aqui em baixo.
Timo.
Mickey?
Timo!
- Timo, estou aqui em baixo. - Mickey.
Ainda não morreste?
- Não. - Espera.
Merda.
O teu lança-chamas ainda está bom.
Nem um único arranhão.
Ainda bem que me lembrei de vir cá abaixo.
As Armas vão ficar contentes com isto.
Vou entregar isto, está bem?
Eu aguento.
Não estás zangado, pois não? Por eu ir levar isto?
Isto não está muito bom para ti, pois não?
Além disso, o cabo só chega aqui.
Não, está tudo bem.
Não devias correr esse risco.
Sim, é o que estou a dizer.
Além disso, também te vão voltar a reimprimir amanhã.
Pois é.
Mickey.
Sim?
Qual é a sensação de morrer?
De certeza que já estás habituado. Mesmo assim…
Já foram quantas vezes?
Tu és o Mickey 16?
17. Idiota.
18 depois desta.
Bem, foi bom conhecer-te, tem uma boa morte.
Até amanhã.
Fantástico.
Porque não?
É um dos grandes.
Com sorte, sou engolido de uma só vez.
Tem de ser melhor do que morrer lentamente de frio.
Acho eu.
Ou talvez não.
Mas eles imprimem-me outra vez sempre que morro.
Os meus dados estão todos guardados e eu recebo um corpo completamente novo.
Eles fazem carregamentos regulares da memória
e dos meus traços de personalidade
e reimplantam-nos no meu cérebro.
Esta tecnologia é uma loucura, meu.
Digamos que é avançada.
Muito avançada.
Sim.
Então, então.
Espera. Podes esperar um segundo?
Tem calma. Tem calma.
Tem calma, respira. Isso mesmo, respira.
Sim!
Toda a história da impressão corporal e do transplante de memória,
para ser sincero, era tão avançada para o seu tempo,
que causou imensas lutas éticas
e religiosas, blá, blá, blá,
que foi proibida na Terra,
e agora só é permitida no espaço exterior para os Descartáveis.
Como eu.
Por isso, desde o momento em que deixámos a atmosfera,
obrigaram-me a trabalhar arduamente até chegar a este planeta.
Deram-me uma missão atrás da outra.
Tecnologia, o que se passa? O cabo extra já cá está.
O problema, Mickey…
Médico, queres dizer-lhe?
Dizer-me o quê?
Olá, Mickey. Como estás?
Tens vertigens, náuseas ou tonturas?
Acho que me estou a sentir um pouco tonto.
A partir daqui só vai piorar, Mickey, e também vais ter uma febre alta.
A verdade é que agora estás exposto a níveis impensáveis de radiação,
e foi por isso que te enviámos.
Está bem.
Se nos pudesses dar uma descrição completa dos sintomas.
Então, há umas coisas que quero ver primeiro
na nossa lista de controlo da radiação cósmica.
Quanto tempo leva até a pele começar a arder?
Depois, quanto tempo leva até ficares cego?
E claro, quanto tempo leva até morreres?
Isto é que é importante.
Houve uma vez, na minha aula de ciências do quarto ano,
que brinquei com uma rã de laboratório.
Achava que aquilo tudo devia ser o meu castigo.
Mickey, tira uma luva,
para eu poder ver o que se passa debaixo do teu fato espacial.
Viram aquilo?
Bom dia.
Mantém-te hidratado, Mickey.
Vais começar a sentir-te bastante ressequido.
Arkady, acho que a dose foi muito forte.
O que interessa isso, Dorothy? Daqui a 10 minutos está morto.
Concentra-te em recolher todas as amostras de sangue.
Ele vai sangrar pelos olhos, nariz, boca, ouvidos e reto.
Certifica-te de que recolhes amostras separadas de todos os buracos. Está bem?
E, ao mesmo tempo, mantém o carregamento da memória.
Este Mickey é especial. Sabes, não sabes?
De todos os Mickeys, és o que tem a vida mais curta.
Eu ouvi. Dez minutos.
Na verdade, são boas notícias, ainda tens mais 15 minutos.
É muito melhor, não é?
Com os seguros de vida, eu já estava podre de rico,
só que, obviamente, os Descartáveis não podem ter seguro.
Não há indemnizações aos trabalhadores, nem sindicatos, nem reforma.
Não me admirava se estivesses a pensar:
“Então, porque fizeste isto a ti próprio?”
Porque tive um amigo que me disse
que um dia se iam vender mais macarons do que hambúrgueres.
E porque confiava neste amigo de merda e pedi um grande empréstimo
a um cavalheiro maravilhoso para abrir uma loja de macarons.
HÁ 4 ANOS E 4 MESES TERRA
Merda.
Pronto, pronto, calma.
Sei perfeitamente que vos restam quatro semanas.
Pensem nisto como uma pequena viagem de estudo.
Uma amostra do que pode acontecer se não nos reembolsarem atempadamente.
Além disso, vocês os dois têm muito tempo livre,
com a vossa pequena loja de macarons a falir.
Isto é um espetáculo e peras para mim, um espetáculo e peras.
A mensagem é clara, eu ouvi. Ouvi-a alto e bom som:
“Estou atrasado. Estou atrasado. O pagamento está atrasado.”
Vem aí. Duas pessoas atrás…
Darius Blank. Um nome que gostava de nunca ter ouvido.
O Sr. Blank não está assim tão preocupado com o dinheiro.
Ele tem muito.
Este edifício é só um dos seus muitos bens.
Ver morrer os seus devedores incumpridores,
saboreando os pormenores da morte,
é algo de que ele tanto gosta.
A mensagem é clara. Podem parar agora. Nós podemos parar, percebes?
É… Eu percebi.
Sabes, duas semanas, duas semanas chegam.
Agora, chega. E está a chegar mais, está a chegar mais, mais dinheiro…
Mais dinheiro é, é, é…
Apanhámos aquele cavalheiro há quatro dias em Ulaanbaatar, na Mongólia.
Parece caro.
Mas garanto, quem não cumprir o prazo
será perseguido até aos confins da Terra.
A ÚNICA MISSÃO NIFLHEIM
Por isso, decidimos sair da Terra.
Nada estava a resultar, e não tenho família que dependa de mim.
Por isso, candidatei-me à expedição na colónia,
mas havia um milhão de pessoas com a mesma ideia.
Parece que todo este planeta podre está a fugir de alguma coisa.
Acho que todos têm problemas de dinheiro.
Mas, de qualquer forma, tínhamos de apanhar esta nave,
porque era a última da época.
Ondas e ondas de pessoas desesperadas para deixar a Terra.
É evidente que os antimigratórios estão a falar para uma parede
quando insistem em mudar a Terra,
em vez de arriscarem a vida migrando para outro planeta.
Parece que estes candidatos apaixonados já estão no espaço.
Mais importante ainda, esta é a expedição
liderada pelo antigo congressista, Kenneth Marshall,
que perdeu as duas últimas eleições.
Estará este político falhado a tentar criar um reino para além das estrelas?
Terão sido os seus apoiantes fanáticos que lhe deram um generoso patrocínio
de uma determinada empresa e organização religiosa?
Tantas perguntas sem resposta.
Vamos lá falar com a multidão.
Desculpe, é apoiante do Kenneth Marshall?
Eu sou. Sou, e muito.
Sou um apoiante incondicional.
Basicamente, sou o único.
É do canal oficial do Marshall?
- Eu sou do EC 20… - Não acredito.
Então, o Marshall está a ver isto agora?
- Meu Deus! - Tens de me escolher.
Juro, escolhe-me.
Precisas de pessoas jovens e saudáveis para a expedição.
Senhoras e senhores, hoje temos outra tempestade ligeira de areia.
O acesso está agora limitado à porta três.
Vão ao nosso expositor para terem óculos de proteção e máscaras com desconto.
Cinco por cento de desconto adicional com o Marshall Pay, como sempre.
As outras expedições não me aceitaram, mas estão enganadas, prometo.
Arranjo casas de banho. Faço pão de gengibre.
Tens de me levar, dá-me uma oportunidade.
Levem-nos para a estrela limpa, Marshall e Ylfa.
Levem-me convosco.
Descartável.
Está a candidatar-se para os Descartáveis?
A sério?
Leu a candidatura toda?
Li.
Devia ter lido toda.
Não tinha grande escolha.
Não tenho nenhum certificado.
Não tenho qualquer tipo de competências.
Depois, descubro que o Timo já se tinha candidatado
a um lugar, como piloto.
Ele só tinha tirado a carta de condução há duas semanas.
Não faço ideia do que ele teve de inventar para conseguir aquilo,
mas é impressionante.
Desculpe.
Há alguma construção a decorrer?
Desculpe, o quê?
Não ouve, tipo,
uma serra elétrica?
Não.
Eu queria sair dali.
Para um sítio onde o som não me pudesse seguir.
Para longe no espaço.
Leu a documentação?
Li.
Se leu, então sabe, não é?
Este trabalho vai ser bastante exigente.
Mas também vai ser divertido.
Vou explicar todos os pormenores.
Distraí-me tanto com aquele cheiro. O cheiro do cabelo daquela mulher.
Era como se me fizesse recordar uma memória longínqua.
Aquele tanque gigante lá em baixo chama-se reciclador.
Pega nos resíduos orgânicos produzidos na nave espacial,
cascas de maçã, ossos de galinha, ovos podres,
cadáveres, detritos humanos, o que quiser,
combina-os, refina-os, recicla-os
e envia uma parte para esta impressora.
Matéria-prima para o corpo humano.
Quando morrer, e se o Comité aprovar,
vai imprimir uma nova versão do seu corpo em 20 horas.
Dispa-se e vista isto.
Não ouvi nada do que ela disse.
Era como se todos os meus sentidos estivessem concentrados no meu nariz.
Tipo, um verdadeiro déjà vu, mas de um cheiro.
Vamos fazer uma análise completa dos seus dados biográficos.
Ou seja, será reimpresso exatamente como está agora.
Para sempre.
É melhor eu rebentar isto.
Senão, estará sempre presente.
Ainda bem que ela não sabia que eu tinha uma no rabo.
Depois de fazer o exame ao corpo, fez o carregamento das minhas memórias.
Chamavam-lhe “reserva de personalidade”.
E tenho de fazer isto uma vez por semana,
para não ter grandes lacunas de cada vez que me imprimem.
Antes, era necessário um disco rígido
do tamanho de um frigorífico comercial para copiar um cérebro adulto.
Agora, basta este pequeno tijolo. É inteligente, não é?
Então, foi-me injetada uma solução especial.
Trouxe-me uma enxurrada de memórias antigas.
Demasiadas memórias.
Estávamos a ir para casa depois do supermercado.
Pedi para me sentar no banco da frente.
Disse que já era grande o suficiente.
Foi então que vi o botão vermelho.
Carreguei no botão e ela despistou-se.
Encoste-a à cabeça e puxe o gatilho.
Este é o último requisito para se tornar num Descartável.
Prove-me que acredita no sistema.
De agora em diante, tem de se habituar a morrer.
Isto é o seu trabalho.
Comecei a viagem de quatro anos e meio como Mickey 1.
Quando se está preso numa nave espacial durante tanto tempo,
a comida é tudo.
Atenção, Mickey 1.
Sete calorias a mais do que a quota atual da ração.
Naquele primeiro dia na cantina,
acho que comecei a pensar: “O que é que eu fiz?”
A sala estava cheia de pessoas a comerem esta porcaria de comida,
e o silêncio era total, quase se podia ouvir um alfinete a cair.
Até que o Kenneth Marshall e a mulher, Ylfa, entraram.
E todas as pessoas ficaram loucas.
Eu pensei: “Que raio estou eu a fazer aqui?”
Mas foi quando a vi.
Nasha.
Foi a primeira vez que vi a Nasha Barridge.
No primeiro dia desta longa viagem.
Discurso! Discurso! Discurso!
Está bem, já chega. Já chega.
Se continuarem assim um minuto, gastam cinco calorias.
São 2% da preciosa refeição que estão a comer.
Como sabem, a nossa prioridade número um
é poupar os recursos alimentares até à nossa chegada a Niflheim,
para maximizarmos a nossa taxa de sobrevivência.
Por isso, ouçam.
As relações sexuais, por exemplo.
- Cada… - Sessão.
…sessão consome umas impressionantes 100 calorias.
- Pelo menos. - Pelo menos.
Dependendo dos participantes, a duração vezes o atrito é igual a…
A questão é que o Kenneth está a falar ao Comité
sobre a proibição de toda a atividade sexual na nave.
O quê?
Bem, isso não é um problema para mim.
Querida, tens a certeza de que é a altura certa para falar disso?
Querido, desculpa. Só te estava a tentar ajudar.
Não. Tudo bem.
Estou a ir bem? Devo ser mais duro?
- Sim! Sim, vai com força. - Está bem.
Companheiros pioneiros,
assim que chegarmos a Niflheim e garantirmos a produção de alimentos,
vamos lançar a maior campanha de encorajamento sexual da história.
Vão espalhar a vossa semente pelo planeta.
Primeiro sobrevivemos! Depois prosperamos!
Depois, ide e multiplicai-vos!
Propagar a espécie!
Vamos infestar a terra!
Marshall! Marshall! Marshall!
E começámos a infestar.
Com amor.
PRINCIPAIS POSIÇÕES PLANETÁRIAS
E depois, infelizmente, isto é…
Sim. E agora faz esta parte.
- Sim. - Vá lá, não é assim tão grande.
Desculpa.
Aqueles quatro anos tinham parecido 40 se não fosse a Nasha.
Esteve comigo nos melhores momentos
e manteve-se ao meu lado nos piores.
Nem todos têm a sorte de encontrar uma alma gémea como esta.
Nada disto teria acontecido se eu não tivesse entrado nesta nave espacial,
por isso, viva o grande agiota, Darius Blank.
Obrigado, Darius.
Mas eu não me estava a desleixar.
Todos os dias estava muito ocupado a tomar conta da Nasha,
e ela é uma agente de elite tudo-em-um.
E não é fácil apoiar alguém
que é soldado, polícia e bombeira.
Mas não faço ideia do que ela vê em mim.
Estou apenas grato.
Mas assim que passei a porta,
a nave encheu-se de idiotas.
Olá! Mickey, não é?
Podemos saber…
Bem, qual é a sensação de morrer?
Percebes, quando és reimpresso?
Qual é a sensação?
Vá lá, diz-nos. Queremos mesmo saber.
Imaginem o que é passar anos,
- lado a lado, com estes palhaços. - Ele não nos diz.
Era o suficiente para qualquer pessoa perder a cabeça.
- “Tinhas de me matar primeiro!” - “Por cima do meu cadáver!”
Às vezes, nem a Nasha,
- que é uma cidadã exemplar… - Por cima do teu cadáver?
…tinha de intervir e lembrar-nos
- …que éramos uma grande família feliz. - Por cima do teu cadáver?
- Aonde pensas que vais? - Temos de nos ajudar uns aos outros.
Temos de nos proteger uns aos outros.
- Uma comunidade harmoniosa e unida. - O que achas?
E o Comité reduziu as rações do Mickey 9 para metade
e atribuiu-lhe a limpeza manual do reciclador até nova ordem.
Parabéns, meu!
Olá, Mickey.
Deves estar com fome. Come mais um pouco.
Obrigado, Kai.
Mudaste de champô?
O champô?
Só há um champô em toda a nave espacial.
- Obrigada. - De nada.
Foi uma viagem muito longa
- numa bela comunidade. - Olá.
Mas a Nasha era obviamente a minha primeira e única.
A sério.
E quanto ao meu primeiro e único emprego, estava orgulhoso.
Sentia-me parte da equipa.
Matthew! Matthew!
- Estou no último nível! - Vá lá, despacha-te!
Depressa!
Meus irmãos viajantes…
- E irmãs. - E irmãs.
Estamos aqui há muito tempo, quatro anos juntos nesta nave.
E eu, nós, amamo-vos como se fossem a nossa própria família.
E aqui estamos nós,
mesmo por baixo de nós espera-nos o nosso planeta da pureza.
Que raio se passa com ele? É tão irritante.
Será que está com gripe?
Como um gelado de baunilha virgem.
Tocado pela primeira vez.
Vai estar muito frio.
O primeiro a ir lá abaixo vai morrer de frio.
Já está, Mickey. Respira fundo. Enche os pulmões.
Imagina que há um vírus desconhecido no ar
e que estás a sugar todas as partículas microscópicas que flutuam por aí.
Todos os vírus enchem os alvéolos.
Tão bom!
Tão bom! Brilhante.
Havia mesmo um vírus desconhecido no ar.
Um letal.
TESTE DA AMOSTRA DO VÍRUS DE NIFLHEIM
Dorothy! Dorothy!
Espera. Ele está vivo.
E depois?
Eu estou bem.
Obrigado.
No final, graças aos ratos de laboratório, Mickey 12, 13, 14, 15 e 16,
que foram esfaqueados, despejados, gaseados e queimados, obtivemos a vacina.
O meu maior legado à Humanidade.
Por isso, não precisávamos de máscaras de oxigénio
e podíamos ver a nossa respiração sempre que quiséssemos.
Olha para aquilo, Jennifer. Que ridículo.
Nem acredito que ainda vivemos naquela coisa.
E eu não sei?
Aterrámos há anos e ainda estamos a comer
o mesmo jantar de merda pré-preparado.
É precisamente por isso que devemos construir bairros residenciais.
Cultivar o mais rapidamente possível.
- Sim, claro. - Espalhar a semente,
infestar a terra, propagar a espécie.
Está um gelo.
Olha para aquela cor.
- Sim. - É linda…
É tão desastrado. Devias aprender umas técnicas de queda.
- Estás bem? - Sim, estou bem.
Anda.
O que são técnicas de queda?
Olha para a Kai. Uma queda perfeita.
- Sim? - Cala-te.
Kai. O que é?
Meu Deus! O que é aquilo?
Meu Deus!
- Tira-o! Tira-o! Tira-o! - Mickey!
Mas que porra, meu? Mas que porra? Mas que porra?
O que foi aquilo? Mas que raio foi aquilo?
Não sei, mas há mais no buraco.
- O que… - Vamos pôr-nos a andar daqui.
Anda, Mickey, vamos embora!
Vai, vai, vai. Mexe-te! Mexe-te!
Jennifer!
Obrigado.
Mickey. Mickey, é o Marshall.
Seu inútil de merda!
És um Descartável!
Estás aqui para seres descartado, raios!
E porque é que a Jennifer Chilton, uma fêmea preciosa e fértil,
- está morta e tu não? - Anda ao meu quarto.
- Querido, prova isto. - Deixa-me em paz.
É o que eu quero saber. Que nojo.
A sério? Não gostas do meu molho?
Não, não, não, querida.
- Aquelas coisas, olha para elas. - Que raio se está a passar?
São cruéis, não são?
Parecem mais esfomeados.
Tu! Quieto. Não te mexas.
Eles adoram carne humana.
São uns rastejantes.
Querido, isso é perfeito.
Devias chamar-lhes “rastejantes”.
Vou chamar-lhes “rastejantes”. Estou a chamar-lhes “rastejantes”.
Preston, estás a ouvir?
Descartável, eu e o Comité decidimos que,
a partir de agora, as tuas rações serão reduzidas para metade.
Mas o meu turno duplicou.
Catorze horas por dia, sete dias por semana,
até trazer para casa a amostra de um rastejante.
Timo! Timo!
Mickey, um lanche sensual, o teu favorito.
Fui eu que escolhi. Bom proveito!
Como é que sobrevivi àquilo?
Mickey!
Ainda não morreste?
Qual é a sensação de morrer?
Mesmo na minha 17ª vez, detesto morrer.
Ainda detesto.
Sempre.
De todas as vezes.
Bon appétit.
Onde estou? O que se passa?
Não estou a sair da impressora?
Ainda sou o 17.
Porque é que aquela coisa não me comeu? Eu estava desmaiado.
Não parecia suficientemente saboroso?
Já percebi.
Estava a guardar-me para os miúdos.
Que grande mãe.
Por favor, sejam rápidos.
Por favor, pessoal, dentadas grandes. Dentadas grandes!
Para onde me levam?
A minha carne já não é boa depois de tantas reimpressões?
Então.
Ainda tenho uma boa carne.
Tenho uma carne perfeita.
Tenho um sabor bom.
Abandonam-me aqui no meio do nada.
Isto não é fixe!
Para!
- Continua! Trá-lo para dentro! - Espera! Para!
Não, para! Não podes passar.
- O quê? - Eu disse para parares.
- O que se passa? - O que foi agora? Que merda!
Olha o tamanho daquela pedra. Estás cego?
Não podes entrar com uma coisa dessas.
Achas que consegues meter aqui uma coisa tão grande?
Foi o Científico que o pediu, não me venhas com merdas.
Se meteres isso cá dentro e riscares
o portão, o meu portão, a culpa é tua.
Minha? Porquê? Culpa os do Científico.
Cortaram-no no terreno, mas recebi ordens específicas para o deixar como está.
Não quero saber, percebes?
Eles estão ali em reunião. Não consigo falar com eles.
Não vou levar com as culpas disto. Sempre que entras aqui,
no meu portão, o portão três, ages como se fosses o dono disto.
Porque é que eu havia de querer esta espelunca?
É melhor calares-te, está bem?
Sabes uma coisa? Precisas de dar uma queca.
Vai-te lixar!
Raios, Mickey!
Não estava à espera de te ver hoje aí fora.
Espera. Aquilo são as horas?
São 3h30? Não faz sentido nenhum.
É verdade, é isso mesmo.
Em frente, mantém a direção. Mantém a direção.
Lembras-te de quando saí?
- O que disseste? - Mantém a direção.
Não. Não, não, espera, Buzzard. Não é assim que se faz. Caramba!
Desliga-o da rede elétrica. O interruptor.
Não, não, não faças isso. Para! Para!
Que merda! O que é que eu te disse?
Desmiolado.
- A passar. Saída de linha. - Olá, Steve.
Chegou outra vez o momento.
O jantar dos vossos sonhos com Kenneth Marshall.
Quem será o convidado de honra deste mês?
Espera-vos uma grande surpresa.
Prepara-te, porque a pomba da sorte
pode vir bater as asas com um convite para ti.
De pomba, com amor, termino.
O que é isto?
Porque não estás morto?
Não. Meu Deus. Meu Deus.
Não, não, não.
És o 18? Imprimiram-te hoje?
Que raio se passa? Segundo o Timo,
devias estar agora a sair do cu de um daqueles cretinos.
É preciso dizer isso assim?
Meu Deus. Estou completamente lixado.
O que queres dizer?
Somos Múltiplos.
Tenho de te matar.
Matar-me?
Se um de nós tiver de morrer, é melhor matares-te.
Fui impresso há cerca de duas horas.
Eu pouco vivi.
Eu nunca morri, por isso não contas.
Volta para o reciclador!
Múltiplos. Por onde hei de começar?
A Humanidade não está equipada para lidar
com as implicações legais e éticas da adoção
desta tecnologia de impressão humana.
HÁ 4 ANOS E 8 MESES TERRA
Por favor, digam-me,
algum de vós pode garantir sinceramente
que a tecnologia não será utilizada de forma abusiva?
Ninguém no departamento de I&D conseguiu dar uma resposta convincente.
Mas o problema foi o facto de um dos cérebros por detrás da impressão humana
se ter revelado um verdadeiro psicopata,
Alan Manikova.
Acho que é ele.
Tem a certeza?
Houve uma série de assassinatos particularmente brutais
contra os sem-abrigo, e apenas uma testemunha ocular.
Mas combinava na perfeição com a aparência de Alan Manikova.
Os polícias pensavam ter o seu homem, mas Manikova tinha um álibi forte.
Na altura do crime,
estava a ser maquilhado para um programa infantil de ciências.
…vêm ajudar-me com os glóbulos vermelhos e os glóbulos brancos, por favor?
Mas os polícias tinham-no topado. Quando invadiram a casa do Manikova,
trouxeram dois pares de algemas e mandados de busca.
Eles andavam atrás dele. Ou melhor, andavam atrás deles.
Qual de vocês é o Manikova Original?
Tu?
Ou tu?
Sim, eram dois.
Um para o assassinato e outro para o álibi.
O Manikova tinha imprimido outro Manikova sem que a empresa soubesse.
A questão que se impõe é:
São cúmplices ou um agiu sob as ordens do outro?
São crimes separados e independentes, ou eram uma só pessoa desde o início?
Na prisão, só recebem meias doses ou têm direito a uma refeição completa cada um?
Polícias, juristas, filósofos, todos ficaram perplexos.
Mas enquanto Manikova 1 e 2 estavam fechados numa sala de interrogatório,
outro sem-abrigo foi brutalmente assassinado.
Eis que surge o Manikova 3.
Acho que foi um repórter de um tabloide reles
que lhes chamou Múltiplos, ou um professor ou algo do género.
Quem quer que a tenha inventado, pegou.
E rapidamente a palavra “Múltiplos” espalhou o medo e o desdém.
Então, os Múltiplos são uma aberração. Destroem a ordem natural.
Cada alma só pode ter um corpo. Não é?
Uma alma, um corpo.
O Senhor só abençoa esta união um a um.
Mas o antigo congressista Marshall tem um argumento que vale a pena considerar.
Era uma pena não explorar
as potenciais aplicações desta tecnologia avançada.
Foi com agrado que recebi um convite deste comité.
Foi intimado, Sr. Marshall.
Claro, claro. Em todo o caso,
quero aproveitar esta oportunidade para falar como Comandante da Expedição.
A impressão humana é um pecado.
Os Múltiplos são obra do Diabo.
No entanto, tenho pensado em como podemos utilizar
esta aberração para termos vantagens económicas comuns.
Proponho
um ensaio de impressão humana longe da Terra sob a mais rigorosa supervisão.
Limitando esses indivíduos a um por expedição, por planeta,
com a designação de “Descartável”.
Múltiplos, no caso dos Múltiplos,
exterminamos todos os indivíduos delinquentes
na sua totalidade, mente e corpo, tudo em nome do serviço público.
Nesta expedição a Niflheim, todos os Múltiplos serão imediatamente
presos, executados e permanentemente apagados.
A minha cabeça.
Quem é este tipo?
A Nasha disse-me que o Mickey 3 era chorão e muito pegajoso.
O 5 era indeciso.
E, aparentemente,
o 8 era bastante irritante e um pouco estúpido,
mas nenhum deles era completamente maluco.
Mas até este lunático tem medo de ser um Múltiplo.
É uma eliminação permanente.
A tentar deitar-me no reciclador.
Se um de nós tiver de ir,
não serei eu.
Partilha! Partilha!
Metade, metade, metade!
- O quê? - Parte em dois. Metade.
Vou partilhar contigo.
Eu partilho as rações. Também podíamos partilhar a carga de trabalho.
E podemos morrer à vez.
E tu és o 18, por isso podes ficar com os números pares
e eu fico com o 19, o 21 e os números ímpares.
Tens medo de morrer?
Tenho, sim.
Morreste tantas vezes. De que tens tanto medo?
Até agora, morri
e nasci outra vez, percebes?
Parecia que era eu a continuar.
Mas agora
quando eu morrer,
para mim acabou-se.
Serás tu a viver.
Percebeste o que eu quis dizer?
Não gosto de ti.
És um bajulador.
Mas eu sou tu.
Eu não sou tu.
Não vou viver como tu.
Vou matar-te.
Mas que raio, meu? Estás a tentar dar nas vistas?
Eles nem têm câmaras. Tira isso, idiota.
Amador. É a tua primeira vez?
Não, não.
Isto é o material puro, não é? Não diluído?
Com quem achas que estás a falar?
Isto é Oxy puro, sem cortes.
É muito raro.
Um lança-chamas só leva duas cápsulas de Oxyzofol, meu.
O que é isso?
Estou a sentir.
O que estás a fazer?
Não é assim. Abre.
Vamos matar aquele sacana?
- Estava a brincar… - O quê?
Não te faças de surpreendido. As tuas memórias são as minhas memórias.
O dinheiro que ele desperdiçou.
O sacana pôs a maior parte dos empréstimos em nosso nome.
Nos registos do Darius Blank, quem está a dever somos nós.
Isso tem de ser confirmado.
Diverte-te, meu.
Vamos matá-lo.
Estás maluco? Ele é o meu único amigo.
Amigos? O mesmo orfanato não significa nada.
Espera, espera.
Timo.
Mickey, o que…?
O negócio está a disparar?
Estás a falar de quê?
Está a chegar outro drogado.
Timo!
És maluco?
Espera até eu sair daqui. Vou matar-te! O que é isto?
Desce mais!
Palerma.
Está bem.
Pronto. Anda cá.
Mickey, ajuda-me.
O que é isso? Porque está tão vermelho?
O que estás a fazer?
Quero que saibas o que é morrer,
sacana.
O quê?
Vá lá!
Para. Para!
És o Mickey? O que se passa?
Mickey, o que fazes aqui?
O Timo caiu acidentalmente, mas já está bem.
Queres continuar a traficar, cabrão? Cuidado com o que dizes.
O que aconteceu? Estás bem?
O que te aconteceu à mão?
Estava a deitar o lixo fora e tropecei no buraco.
Eu tinha morrido se não fosse o Mickey.
Ia-me transformando em lixo para o reciclador.
Então?
Estás bem?
Disse-te para ficares na cama. Só foste impresso há umas horas.
Pois, devia ter feito isso.
Ouviste os rumores?
Há por aí um tipo que anda a traficar Oxyzofol não diluído.
O quê? Que loucura. Isso é muito mau.
Aqui entre nós, Timo,
uma gota aqui e ali antes de dormir para aliviar a tensão, eu percebo.
Mas o material puro, sem cortes é passar dos limites.
Sim, claro. Isso é mau.
Nasha, leva o Mickey para casa. Eu termino isto aqui.
Está bem, obrigada. Até amanhã.
Bem, hoje apetece-me uma B6.
B6?
Sim.
A Nasha Voadora?
É, sem dúvida, o melhor sítio para isso.
O que se passa contigo?
Nem pareces tu.
B6?
A B6 era a nossa, Nasha.
Mickey?
Mano.
Ia agora buscar-te ao teu quarto, mas estás aqui.
Está com bom aspeto, Mickey.
Sim, senhor. Muito bem.
Fica aí. Braço no ombro, por favor.
Fantástico. Ótimo. Fazes um grande sorriso, Mickey?
- Espera. - Sim, um grande sorriso. Fantástico.
Desculpe. Pode parar aí… Fantástico, obrigado.
Muito bem, e ação.
Parabéns.
O felizardo deste mês, a alma afortunada
que terá o privilégio de um jantar privado…
Para a câmara, quem vai ter um jantar privado
com o único Kenneth Marshall é…
Olha para a câmara.
É o Mickey.
Fantástico. Um grande sorriso.
Sorri.
Isso, fantástico. Muito bem, corta.
O Marshall quer que vás o mais rápido possível, está bem?
Ele preparou um banquete só para ti.
Hoje, o Senhor está realmente a abençoar-te, Mickey.
Primeiro, tenho de ir ao quarto.
Podes empanturrar-te, Mickey.
O CONVIDADO DE HONRA DESTE MÊS
Aposto que aquele anormal já se deve estar a babar na minha linda Nasha.
Que nojento.
O que é ainda mais nojento é que me estou a babar
só de pensar no bife do lombo que pedi para o jantar do Marshall.
Isto é muito mau!
Ainda bem que estás a gostar.
Como está o molho?
Desculpa, desculpa. Por favor, continua.
Sim, sim, Mickey.
Ouve, voltando ao que aconteceu com…
A Jennifer.
Sim, a Jennifer.
Jennifer…
Chilton.
Eu sei, eu sei.
Quando perdemos a nossa querida Jennifer Chilton,
posso ter ficado um pouco zangado e ter dito coisas muito desagradáveis.
Sei que é tarde mas quero pedir desculpa.
Ele é sempre assim.
Um homem adorável que de repente se torna num homem cruel.
Querida, estou a tentar chegar lá. Está bem?
Desculpa. Ainda estás mole, acabado de sair da impressora.
Continua a comer.
Enfim, temos aqui outro convidado especial.
Olá, Kai.
Desculpem, atrasei-me.
Estás com ótimo aspeto.
Obrigada.
Vem. Vem.
Que bom ver-te.
Senta-te.
Estás bem? Emocionalmente?
Estou, sim.
Obrigada.
Que bom ouvir isso, Kai. Lamento imenso pela Jennifer.
Ouvi dizer que eram muito chegadas. A tua melhor amiga.
Mas eu sabia que te ias manter forte.
Obrigada, minha senhora.
Mas não te convidámos só para te confortar.
Temos estado de olho em ti, Katz.
Em mim, senhor?
Posso perguntar porquê?
És uma de nós.
Com a tua genética impecável,
és o espécime perfeito para a colónia que imagino.
Obrigada, senhor.
Foi por isso que a igreja, quero dizer, a empresa,
me escolheu para liderar esta expedição.
A Terra não tem salvação, com toda aquela gente barrenta.
Mas tu, tu és especial, e eu estou a criar um mundo
num planeta branco puro cheio de pessoas superiores.
Como tu. E nós. Não é verdade, querida?
- Sim. É a visão dele. - A minha visão.
- A sua sensibilidade. - Sensibilidade.
Mas sejamos sinceros, com os teus registos médicos na mão,
correste para a nossa expedição, não te juntaste a um desses planetas patéticos
onde põem microchips nos embriões dos bebés inseminados artificialmente.
És a candidata perfeita
para o programa de parto natural de Niflheim, não és, querida?
Sr. Marshall, para si sou só um útero?
Não! Não, não, não. Não é nada disso, Kai.
Não, este homem não transforma as mulheres em objetos.
O meu marido só quer dizer que tem padrões muito elevados.
O seu único sonho é um planeta destinado exclusivamente a uma raça humana pura.
Que consome colheitas verdadeiras, carne verdadeira
e jantares com molhos delicados e deliciosos.
O molho é o verdadeiro teste da civilização.
As pessoas que devoram carne queimada são uns bárbaros.
Prova o molho, Kai. Come, fui eu que o fiz.
Obrigada.
Mas antes, gostava de dizer umas palavras em memória da Jennifer.
Uma oração.
Sempre pronto para uma oração.
Jennifer, quando te conheci na cantina há quatro anos…
Tu eras…
Senhor,
a alma única da Jennifer Chilton foi arrebatada à sua maravilhosa amiga Kai.
Senhor…
Alegrarmo-nos no Senhor
O nosso único
Todo-Poderoso, cantemos Pela graça do nosso Pai
Graças a Deus, Todo-Poderoso Finalmente livre
Vamos para a Terra Prometida Um mar de branco na Tua luz
O Teu Reino à frente dos nossos olhos
Aleluia Aleluia
Servimos com os nossos corações escolhidos
Médico.
Aqui e agora Para todo o sempre
- Ámen - Ámen
As minhas desculpas, senhor. Isto é embaraçoso.
A carne de cultura que ele comeu tem uma hormona de crescimento experimental.
Obviamente, continua a ser arriscado. Peço imensa desculpa, senhor.
De certeza que não é por ter comido muito?
Ele fartou-se de encher o bandulho.
Não, não é por isso, senhor. Veja a erupção vermelha no pescoço.
É um efeito secundário da hormona do crescimento.
Estou tão envergonhado.
Assumo toda a responsabilidade e demito-me imediatamente do meu cargo.
Não, não, não, de todo. A carne artificial não presta.
Como queres que melhoremos a não ser falhando até atingir a perfeição?
Não. Arkady, orgulha-te dos teus fracassos como eu, meu amigo.
Sim, senhor. Obrigado, senhor.
Comandante.
Então está a testar o seu jantar pré-preparado nele?
Jantar de bordo pré-preparado?
É assim que os jovens soldados lhe chamam?
Desculpa.
Estás com muitas dores?
Estou a ser castigado.
- O quê? - É o meu castigo.
Eu devia ter ido ter com a Nasha e não ter vindo para aqui.
Dorothy, traz-me o Joe Púrpura.
Senhor, lembra-se do analgésico especial que temos estado a desenvolver?
Sim, o Joe Púrpura. É uma solução rápida para agentes feridos, não é?
Sim. Já que o Mickey está a sofrer tanto,
é a oportunidade perfeita para fazer um pequeno teste, por isso…
- Dá-lhe. - Ótimo, muito bem.
Anda lá, Joe Púrpura.
Muito bem, vamos lá.
Não lhe toquem, por favor.
Mickey, estás a ver-me?
Mickey? Mickey!
Volta cá para baixo.
Mickey? Mickey?
Meu Deus.
Meu Deus.
O que fazemos?
Peço desculpa, senhor. O analgésico não está a fazer efeito.
Não filmes isto, Preston. Por favor, desliga isso.
- Isto é melhor, não é? Mais humano. - Sim, senhor. Mais humano.
Não, não, não. O que estás a fazer?
Não me podes fazer um buraco na carpete.
Bem, damos-lhe um tiro de lado.
E o sangue?
Isto é um Persa Tabriz!
Querida, tem calma.
Dispara agora.
Mas que raio se passa?
Isto devia ser um jantar, porra!
Ele é seu convidado.
Agente Kai Katz, qual é o seu problema?
Ele é uma matriz de carne. Ele é uma maldita impressão.
Um Descartável.
Ele alistou-se para isto.
Sim, senhor.
Isto é pelo nosso planeta, agente.
Desculpe, senhor.
Comandante.
Por favor, não dispare.
Já estou bem.
Não me parece.
Acho que ainda está cheio de dores.
Claro que está.
Estás mesmo bem?
Obrigado pelo jantar.
O meu quarto é já ali. Tens de te limpar e descansar, Mickey.
Não te preocupes comigo. Eu consigo andar.
Só tenho de voltar para o meu quarto. A Nasha está quase a…
Afinal, vamos para o meu.
Toma. Está seco.
Bebo isto sempre que me dói o estômago.
É da Terra. É precioso. Por isso, tenho-o guardado.
Mas fiz-te um pouco.
Obrigado.
Senta-te.
Sabes, Mickey, não te queria perguntar isto.
Mas é só desta vez, está bem? E peço imensa desculpa.
Qual é a sensação de morrer?
Estás a perguntar por causa da Jennifer?
Sim.
Cruzámos o olhar no último momento.
O que sentiu ela quando todo aquele gelo se abateu sobre ela?
Não consigo deixar de pensar nisso.
Acho que não é o que costumo sentir.
Bem, eu morro tantas vezes…
Porque sabes que vais voltar a acordar, não é?
Porque quando morres já sabes.
Não…
Tenho sempre medo.
É horrível, morrer. Detesto.
Por mais vezes que passe por isso, é assustador.
Ainda é. Sempre, em todas as ocasiões.
Mas tu estás aqui.
E a Jennifer não está.
Lá fora.
Todo o universo.
Ela não está em lado nenhum.
Não pareces ter sido impresso.
És só uma pessoa.
Tu e a Nasha têm uma relação aberta?
Tenho de me ir embora.
Nasha, por favor, perdoa-me.
O tipo com quem estás a fazer sexo
não sou eu.
Não sou eu!
Sacana! Como te atreves a tocar-lhe!
17!
Eu sabia que isto ia acontecer.
Espera, espera, espera… Ponham-se lado a lado.
Espera, tira isto.
- O quê? - Sim, quero que tenham o mesmo aspeto.
Meu Deus.
Nasha, como te podes rir num momento destes?
Isto é uma violação de Múltiplos. É como se eu estivesse morto.
Vá lá.
Quando volto a ter uma oportunidade destas? Pensa bem.
Ficavas tão contente se houvesse duas como eu.
Tu és o “Mickey Suave”. E tu és o “Mickey Habanero”.
Isto é tão excitante!
É tão diferente.
Nasha, tu também estás diferente. Não pareces a mesma.
Credo.
Tomaste Oxyzofol com ele?
Só um bocadinho, com uma tonelada de água.
Queres um pouco?
Sim, sim, relaxa.
Vai com calma.
Nasha!
Este merdas tentou matar-me.
Aqui mesmo, neste quarto. Eu estava a sangrar.
Como se não estivesses a pensar em fazer a mesma coisa.
Vi-te a esgueirares-te por trás de mim.
Então, cala-te. Cala-te.
Agora, senta-te.
Muito bem, atenção.
De agora em diante, vou alimentar-vos aos dois sempre que puder.
Por isso, portem-se bem e não discutam.
O 18 disse-me que já resolveram o problema.
Comer metade, trabalhar metade. Alternar as mortes, pares e ímpares.
É um bom sistema. Combinado, agora tenham calma.
Está bem?
Podes deixar-nos a sós um segundo?
Porquê? Qual é o problema?
Caramba, vou-me embora.
São tão infantis. Este tipo precisa de Oxyzofol.
Tem calma.
Foi a porta?
Porra.
Kai!
Espera, vamos falar.
Falar de quê? Não quero saber da tua vida privada.
Está bem. Pronto. Mas o que se passa?
Qual é a pressa? Aonde vais?
Testemunhei pessoalmente uma violação de Múltiplos.
Como agente tenho a obrigação de reportar.
Está bem, pronto.
Mas desde quando é que vens ao quarto do Mickey?
É a tua primeira vez, não é?
O que se passa entre ti e a Kai, mano? O que fazia ela aqui?
O que vamos fazer agora, meu?
Ela vai diretamente ao Marshall fazer queixa de nós, não vai?
Tem calma. A Nasha trata disto.
Ela convence qualquer um a fazer qualquer coisa.
Meu Deus. Além disso,
este idiota está ocupado com este espetáculo ridículo.
…que anda no pó e os põe
neste belo, viril, bonito, atraente…
Este cabrão. Só quer atenção.
…a transbordar de carisma… de rock!
O que serviu aquele idiota ao jantar?
Pelo menos estava bom?
Queres mesmo saber o que aconteceu naquele jantar?
Então, o que tem o 17 no peito
é o Mickey que foi ao meu quarto?
E o que tu agarraste?
É o 18, não é?
Sim.
Está bem.
Tu ficas com o 18, eu fico com o 17.
O quê?
Não são dois? Porque não partilhar?
O único…
Então, vamos ver se percebi.
Estavas no chão a cagar-te todo
e ele vem e espeta-te uma seringa no pescoço?
Foi o que aconteceu?
Não me estava a cagar todo. Só estava a vomitar.
A questão não é essa!
Eu via-te a esfregares-te no Mickey sempre que podias, sua cara de cu.
Sabes, eu sempre te quis dar uma tareia.
Nasha, vá lá, estou a tentar ser atenciosa.
O Mickey 17 preparava-se para um duplo mergulho, se é que me entendes.
Passava de ti para mim. De facto, nós quase…
Um duplo mergulho? Não acredito!
O Mickey não é uma bolacha que se possa partir ao meio.
O 17 e o 18 são ambos Mickey. Ambos são o meu Mickey.
Então, depois de o Marshall te humilhar,
atiraste-te a ele, não foi?
Não foi?
O que disseste?
Agradeci o jantar.
Agradeceste o quê?
Agradeci o jantar.
Agradeceste o quê, porra?
Ter-te apontado uma arma à cabeça
antes de te rebentar os miolos?
Meu Deus, és um cobardolas!
Um falhado de merda!
Acho que sou um falhado.
O quê?
É isso que tu és?
É?
Vamos para a Terra Prometida
A culpa não é tua.
Ámen!
Vamos matar aquele cabrão.
Este tipo e os assassínios.
“Mata isto, mata aquilo. Porque não matamos todos?”
Podes ficar aqui a ver televisão, se quiseres.
Espera, espera, espera.
Com essa atitude, não consegues negociar nada.
A sério, credo.
Estás pedrada com Oxyzofol.
Mickey?
Mas que…
- Ele tem a tua arma. - A arma?
Temos de o parar.
O quê? Aonde vai ele?
Porquê? Porquê, porque está o Comandante Marshall
a cortar aquela pedra grande, bonita e maravilhosa?
Bonita. É elegante, sensual, requintada.
Requintada.
É aqui que os nossos nomes ficarão gravados.
O meu e os vossos. E o teu!
E o teu! E o teu! E o teu!
E o teu, minha linda Ylfa.
Quase todos vocês serão lembrados
na história como os orgulhosos fundadores da primeira geração de Niflheim.
Sim!
O nosso diamante negro de referência.
Uma pureza bela e cintilante.
Esta rocha vai ser o monumento simbólico de Niflheim,
o único planeta-colónia puro.
- O único… - O único.
Niflheim!
O único…
Niflheim.
O único!
Não, não lhe toque, senhor.
Pode ser contagioso.
É contagioso!
Se lhe tocares, morres!
- Mickey? - Fujam todos!
- Parem! Parem! - Mickey!
- Parem! Voltem para trás! - Mickey!
Selem a saída! Isolem a câmara!
Tenham calma, caramba.
Esterilização.
Iniciar a primeira fase. Agentes!
Vistam os fatos de proteção!
- Arkady. - Sim!
- Mexe-te. - Está bem!
Apanhem-no!
Apanhem-no vivo!
Está aqui! Está aqui! É isso!
É isso!
Apanha-o, apanha-o, apanha-o.
Apanha-o, caramba!
Descartável, tu não precisas de um fato de proteção.
Apanha essa maldita coisa!
Apanha já essa coisa, idiota!
Agarra-o!
Mickey!
Onde está o outro Mickey?
Não sei!
Mickey, aqui dentro! Aqui dentro. Vamos lá!
Vamos lá, já o apanhámos! Já o apanhámos!
Não, não, não. Agarra na arma!
Mickey, não!
Múltiplos.
Não disparem. Tenho-o sob controlo.
Não disparem.
Sim. Calma. Calma.
Temos tudo sob controlo.
És o máximo, Marshall! Bravo!
Aqueles Múltiplos miseráveis destruíram o nosso precioso símbolo de…
Matem-no!
Baixe-se, senhor.
Abram fogo!
Esterilizem-me!
Prendam-no. Malditos Múltiplos.
Diz ao Comité que estavas a apontar para o rastejante atrás do Marshall.
Caso contrário, podes ser eliminado permanentemente.
Que se lixe aquela merda.
Achas mesmo que o Capitão Cretino nos vai deixar viver?
Provavelmente, é ele que nos vai matar.
Ele é maluco.
Não ouve ninguém.
Ele é o maior e mais estúpido e maluco de todos os Mickeys.
E isso não é tudo.
Ele lixou-me a vida toda.
A sério?
Ficámos todos lixados quando decidiste não morrer
e voltaste a rastejar para a mamã.
A culpa não foi minha. A culpa foi dos rastejantes.
Rastejante?
Se os rastejantes me tivessem comido como era de esperar,
não estávamos nesta situação, mas expulsaram-me
e agora sou um raio de um Múltiplo.
Expulsaram-te?
Sim.
Estavam todos a empurrar-me e a puxar-me,
e todos me atiraram para a neve.
Se calhar não tenho um aspeto saboroso ou não cheiro bem.
Não sei.
Talvez se estivesse num molho qualquer.
Espera.
Estás a dizer-me que te salvaram?
Pensa bem.
Devias ter morrido naquela fenda.
Os rastejantes salvaram-te.
Sim, acho que, dito dessa forma,
eles puseram-me na rua.
Se calhar devia agradecer.
Sim.
Não me parece que te fossem comer.
Não é?
Meu Deus.
Temos de comunicar isto ao Científico. Eles salvam os humanos.
Sim. As pessoas têm de saber.
Eles salvaram-me.
Onde está o raio da escada?
Devias ter trazido uma escada.
Não sei…
Olha, aqui. Deixa-me ajudar.
Para, para, para. Eu faço isto sozinho.
Eu desço sozinho. Desaparece daqui.
Anda.
Olá, Timo.
O que estás a fazer aqui?
Vocês os dois são mesmo Múltiplos, não são?
Mas és tu. Sim, estou a ver a tua cara de idiota.
Foste tu quem me fez isto. Não foste?
Aqui têm, pessoal. Devem estar a morrer de fome.
Obrigado, meu. Eu sabia que nos virias buscar.
O que estás a fazer?
O que é isso tudo?
Então,
a questão é a seguinte.
Tenho de gravar um vídeo e enviá-lo para a Terra, o mais depressa possível.
Um vídeo? Para a Terra?
Sim.
É para o
Darius Blank.
Darius Blank. Quem é esse?
Hoje encontrei isto à minha porta.
Está escrito à mão.
É uma caligrafia bonita.
Isto é do sócio do Darius Blank?
Sim. Do sócio dele.
Que se lixe, o sócio dele.
Percebes o que quero dizer? Claro que percebes.
Claro que o agiota de todos os agiotas
arranjava maneira de mandar um dos seus homens seguir-nos até aqui,
até Niflheim, até onde estamos, neste momento!
Isto fica a um milhão de quilómetros de Ulaanbaatar.
Sabes do que estou a falar? Sabes a que distância fica?
“Apesar da ninharia que conseguiste juntar, descobrimos que
“enviá-lo para a Terra te vai custar uma taxa de transferência intergaláctica.
“Mais de metade do valor total.”
O cabrão do sócio! Não faço ideia de quem seja!
Não sei quem é. Não é de loucos?
“Envia uma prova visual. Um ficheiro de vídeo que capte os detalhes da morte.”
Lê o verso.
Diz para cortar num mínimo de 13 pedaços.
Cortar? Mas que raio é isto?
O que é que eu disse sobre o grande plano?
O grande plano é o mais importante, percebes? Então, pega na câmara de 32K,
e põe-na aqui para o Sr. Darius Blank. Percebeste?
Desculpa, Mickey.
Agora, viste que está tudo aí. Não viste? Na carta.
Se eu filmar este vídeo e o enviar, ele deixa-me viver.
Se não o fizer, eles vão mandar o tipo deles
que me vai matar.
O que queres que eu faça?
Vá lá, meu. Se eu morrer, para mim acabou-se.
Mas tu és um Descartável. Eles imprimem-te outra vez.
Por favor, Mickey, sou teu amigo.
Por favor, faz isto pelo teu amigo. Por uma vez.
Tens de fazer isto por mim, meu, sou teu irmão.
Desculpa.
Desculpa.
Desculpa.
Merda.
Devíamos ter matado este tipo quando tivemos oportunidade.
Tens de fazer isto por mim, só desta vez.
É só o que estou a pedir. Peço desculpa.
Para de chorar, idiota! Estás a dar-me cabo dos nervos!
Porque é que vocês não jogam ao Pedra, Papel ou Tesoura?
E depois matamos quem perder.
Não? Está bem. Mata-o.
A ele?
Sim, a ele.
Não estava à espera disto. Pensei que o escolhias a ele.
Sim, é o que se pensa, mas o mole é mais fácil. Vamos lá.
Está bem.
És um cobardolas, Timo.
Se fizeres isto, e o não-sei-das-quantas te deixar viver,
achas que vai acabar por aqui?
Não achas que eu te vou fazer em pedaços?
Meu Deus. Qual é o problema?
Mata-me antes a mim.
Amarrem-no.
O quê?
Corta-me a mim, não a ele.
Olha para ele.
Uma vez atingi-o com o Taser, foi como se tivesse
engolido uma enguia elétrica, meu.
Mas podes cortar o meu corpo em dez pedaços do Mickey,
e vou continuar fresco como o mais fresco dos sashimi.
De cabeça erguida.
O Darius vai adorar.
Só preciso da tua ajuda.
Da minha ajuda?
Estou a precisar de mais Oxyzofol.
Sim, tenho um pouco de Oxy.
Mas não diluído.
Queres…
Queres Oxy não diluído agora?
Quero.
Pensa nisto como o…
Pensa nisto como o último
cigarro antes da execução.
É o mínimo que se pode fazer por um amigo.
Dá-lhe o teu.
O quê?
- Vá lá. - Não.
Da próxima vez dou-te um à borla. Tu conheces-me.
Isto foi caro.
As chaves.
Nasha.
Não faças isso.
Mata-o.
Nasha, o que estás a fazer?
O que se passa aqui?
Nasha, fica quieta.
Aquilo chocou-me um pouco.
Ela ia literalmente cortar-lhe a cabeça com uma serra elétrica.
Mas depois pensei nisso e fiquei muito comovido.
Ela é a única pessoa que alguma vez se descontrolaria assim por minha causa.
E não foi a primeira vez.
Olá? Posso ajudá-la?
Nasha, vai.
- Tira isso. Tenho de entrar ali. - Então.
- Tenho de entrar já ali. - O que estás a fazer?
Tira isso. Vou entrar ali. Deixaste-o ali dentro sozinho.
Mas é o trabalho dele.
Não quero saber se é o trabalho dele.
Chega, vou chamar a segurança. Não o que mais…
Eu sou a segurança! Dá-me esse fato.
Três, três, três.
- Arkady 3.0. - Sim, sim, sim.
Está tudo bem.
A Nasha foi a única que esteve sempre ao meu lado.
Ela sempre me amou.
Cada um de mim.
Até ele.
O eu que eu não percebo.
O que é isto?
Tu não sabes o que é isto. Têm andado às voltas a noite inteira.
E vêm aí mais.
O que estão a fazer?
Não sabemos. Conseguem perfurar gelo sólido e pedra.
Imagina que entram todos nesta nave. Aterrador.
Mas nem conseguiu rasgar o saco na cantina.
Ouviste? Foi o que apanhámos ontem.
Continuem, continuem.
Espera, o que… Queres dizer o bebé?
Bem, sim, tem estado a gritar e a chorar como um.
E foi nessa altura que todos se começaram a juntar.
Espera.
- Então. - Mickey, não pares.
Foi aquele que eu…
Continua a andar.
Não interessa.
Olá! Como estás?
Com licença.
Vamos.
Desculpem, vamos passar.
Porque é que montaram a Sala de Crise ali?
Não percebo. Só me disseram para trazer o prisioneiro.
Parece que a Ylfa fez uma grande cena. Ela quer o rastejante agora.
Dorothy, tenho informações cruciais sobre os rastejantes.
O Mickey tem de fazer um relatório oficial para o diretor do Científico.
Esperem.
Sim. Eu sabia.
Ontem, na cantina eu vi quando agarraste no bebé.
Tu viste?
Mas não sei o que quer dizer.
Então, só imitaste.
Bem, no início, eu…
Dorothy, parece estar vivo!
Agora está tudo muito agitado. Falamos mais tarde.
Estamos a gravar os sons dele para ver se conseguimos encontrar algum padrão.
O Comité declara uma emergência de nível três.
O comando absoluto foi concedido ao Comandante Marshall por uma votação de
36 contra 21.
Obrigada.
Que acontecimento. Isto é um ingrediente verdadeiramente inovador.
Isto abre todo um novo mundo de potenciais molhos.
É uma grande… Como hei de dizer isto?
Oportunidade, minha senhora. Sim, uma grande oportunidade. Fantástica.
Sim, é uma grande oportunidade.
É também uma dádiva de Deus.
Está livre de agentes patogénicos nocivos, não está?
Está, minha senhora, claro.
Que idiota é este? O Mickey 18?
Mantém a cabeça dele quieta.
Agora, consigo distinguir-vos. Múltiplos imundos.
Pois é. Parece-me justo.
Meu Deus. Carne queimada.
Bem, não é nada, querida.
Espera até os dois serem umas salsichas queimadas no reciclador.
- Como é que aguentas este fedor? - Estou a fazer o mais depressa possível.
Mickey. Lamento imenso.
Vocês os dois. Este tijolo guarda as vossas memórias, não é?
Agora, vão ver como eu vos elimino permanentemente.
Assim, vão perceber o significado e o terror do que é definitivo.
Acabaram-se as reimpressões!
É no que devem pensar quando morrerem.
Mortos para sempre!
Agora que a memória desapareceu, que corpo vai primeiro?
Um de cada vez é o dobro da diversão.
Assustador.
Comandante Marshall, senhor.
Posso dizer umas palavras?
Independentemente de quem arde primeiro, o facto é que
temos dois Mickeys à nossa frente.
Não por culpa deles, devo acrescentar.
Um deles está a ser falsamente acusado de disparar a arma contra si.
Mas a verdade é que ele estava preocupado com a sua segurança.
Ele foi o primeiro a reparar no segundo rastejante
a sair da pedra atrás de si
e, como bem sabe, no dia em que um Descartável é impresso…
Chega.
Estás a defender estes idiotas. Preocupa-te com a merda que fizeste.
Posse ilegal de Oxyzofol. Ocultação de uma violação de Múltiplos.
Que desilusão.
E tentativa de homicídio com uma serra elétrica?
É um registo criminal bastante diversificado, não acha, Sra. Barridge?
As nuvens da guerra estão a crescer. Olha para este enxame de vermes.
A Humanidade deve unir-se nesta conjuntura crítica.
Porque estamos a perder o nosso tempo com esta escória da sociedade?
Falou como um verdadeiro comandante de guerra, senhor. Impressionante.
E uma bela entrada para acrescentar à sua coleção de citações de batalhas.
- Gostas? - Gosto.
- Queres mais? - Por favor.
Está sempre a dizer que estamos em guerra.
Posso ter a ousadia de fazer duas observações, senhor?
Estás à vontade.
Em primeiro lugar, travar uma guerra exige muita energia e calorias.
Uma vez que estamos na fase inicial da colonização
e que a nossa sobrevivência está em jogo,
pergunto-me se este gasto será prudente.
Em segundo lugar, os nossos inimigos aparentes são os rastejantes.
Mas será que eles querem mesmo entrar em guerra?
Há horas que andam em círculos, à espera.
Meu Deus, Agente Barridge.
Já foste cinco vezes campeã da Taça Marshall.
Agente do Mês.
E agora, estás a suar por causa destes insetos extraterrestres?
Desceste muito.
O que vais fazer quando abrirem um buraco na nave e te arrancarem o rabo?
Estes grotescos merdosos.
Grotescos ou não, são os habitantes nativos deste planeta.
E temos provas de que salvaram um de nós.
Não o comeram, nem o atacaram.
Salvaram e não comeram quem?
Eu.
Eles salvaram-me.
Claro que não te comeram. És uma porcaria de comida.
És lixo de bebé reciclado.
Foste mastigado e cagado vezes sem conta.
Acho que eles não são só uns insetos estúpidos, querido.
Eles sabiam que deviam ignorar a porcaria, o lixo.
Devem ter alguma capacidade cognitiva.
Exatamente.
Na verdade, exibem sinais de grande inteligência.
Podem ser capazes de manter uma conversa com sentido.
Estamos a analisar isto, e…
Senhor, devia tentar comunicar com eles pessoalmente.
Estamos a desenvolver uma espécie de tradutor.
Assim, queres tu dizer? Achas que sou idiota?
Quatro anos e meio através da merda da galáxia
para ouvir os malditos extraterrestres a grasnar?
Digam-me se isto faz algum sentido! Alguém!
Como é que isto faz algum sentido?
Como é que os seus disparates fazem sentido?
A sua cara de cu é que não faz sentido nenhum,
seu idiota de merda!
Chamou-lhes extraterrestres.
Nós é que somos os extraterrestres, idiota.
Eles viviam aqui antes de nós, e o Mickey…
O Mickey foi sempre o Mickey Barnes.
Percebe o que isto significa?
Eles só estavam a viver as vidas deles. Antes de você chegar com as suas tretas!
E acha que tem o direito de decidir quem vive e quem morre.
Você é um idiota!
Não admira que tenha perdido as eleições, idiota.
Não, não, não. Não, pare!
Que raio se passa consigo? Está a magoar um bebé!
Morde.
O quê?
Vai cair em três, dois, um.
Finalmente, calou-se.
Trata-se claramente de um abuso, um caso após o outro.
A gravar.
Em 32K.
Assegura-te de que apanhas tudo.
- Uns dentes impressionantes. - Sim.
Precisamos de mais homens dos nossos.
Senhor, esta pode ser a melhor altura para iniciar a Exterminação Total.
Os que estão lá fora são mais do que suficientes.
Estás a falar de quê?
Vamos gaseá-los, vamos gaseá-los todos.
Que olhar é esse? Ainda não acreditas nos teus fracassos?
Não. Senhor, o Arkady 3.0 passou por várias fases de testes pormenorizados.
O Arkady 3.0 é o melhor gás de nervos. Tenho toda a confiança nele, senhor.
E devias ter, Arkady. Isto tem de ser um sucesso.
Vou rezar por isso.
Hoje é o dia por que temos estado à espera.
Para os historiadores do futuro, o dia de hoje será um marco
na limpeza de espécies perigosas nos planetas colónia.
Porque é que não embarca também no flitter?
- Queres dizer, quando gasearmos? - Sim.
- Eu puxo o gatilho? - Exatamente, senhor.
Se for no flitter principal e parecer comandar a operação,
as imagens que eu conseguir serão históricas.
E os membros, os membros da igreja na Terra…
Eles vão adorar.
Sim, sim, a empresa.
Muito bem. Está na altura de iniciarmos a Operação Exterminação Total.
Querido, posso falar contigo?
Sim, meu amor.
Tive uma ideia.
Espero que ambos apreciem a grande honra que a minha mulher
vos está a conceder, seus merdosos.
E posso carregar nos dois botões ao mesmo tempo?
Sim, senhor. Carregue nos dois e eles explodem ao mesmo tempo.
Também explodem automaticamente se saírem do alcance do controlo remoto.
Ouviram? Tenho-vos agarrados pelos tomates, por isso, nem pensem em fugir.
Cada um de vós receberá uma arma primitiva quando saírem.
Cortem o maior número possível de caudas de rastejantes
e o primeiro Mickey a trazer 100 caudas é o vencedor.
O vencedor não morre, mas o vencido…
A partir de aqui, vamos acompanhar a pontuação.
O vosso trabalho é fazê-los guinchar tão alto
para que todos os rastejantes venham a correr para os salvar.
Vamos matar dois coelhos com uma cajadada, não é, querida?
Sem dúvida. Uma centena de caudas é suficiente para fazer molho para uns anos.
É bom que estejam atentos.
Um movimento em falso e são picado humano.
Já percebi.
É só castigo.
O que queres dizer?
A nossa vida inteira é um castigo.
Tudo por ter carregado naquele botão quando tinha cinco anos.
Outra vez!
Tu sabes que o acidente foi causado por um defeito do automóvel.
Não sei.
Bem, não foi por carregar no estúpido botão.
A mãe também não ia a conduzir.
Quantas vezes tenho de te dizer?
Desculpa, Mickey… Mickeys. Têm de se mexer, já.
Podes pelo menos baixar a rampa?
Agora, não podemos fazer isso. Desculpa. Vão ter de saltar.
Mickey!
Mickey!
Espera, Mickey.
Leva isto.
Ainda não está acabado, mas pode ajudar-vos a comunicar com os rastejantes.
Vamos lá!
É uma coisa para traduzir?
Sim. Boa sorte.
Vale o que vale, mas duvido que o Marshall vos mate aos dois.
Vamos.
Anda.
- Vamos. - Bem, eu…
De qualquer forma, com este dispositivo, tenho um trabalho a fazer.
Muito bem. Eles salvaram-me, agora vou eu salvá-los.
O que estão aqueles sacanas a fazer?
Até eu conto dezenas de caudas frescas que eles estão a ignorar.
Estarão loucos?
Querido.
Carrego no botão?
Vamos sentar-nos e observar.
Vão começar a cortar as caudas assim que perceberem
que um deles tem de sobreviver ao outro.
Olá!
Sou eu! Espera!
Têm de fugir. Tens de os tirar todos daqui.
Têm de voltar para a caverna.
Voltem para a caverna.
Ou vão todos morrer.
O quê?
Olá.
Sim, eu só, eu queria… Sobre a última vez, eu…
Eu queria agradecer.
Lembras-te de mim, não te lembras?
Mickey.
Como sabes o meu nome?
É segredo.
Espera, estão a conversar?
Estão. Já o tínhamos explicado.
Como é isto possível?
Bem, ainda é um protótipo, mas é como um dispositivo de tradução.
Dorothy? Não. Onde está a Dorothy?
Não ouço nada com tanta estática. Até o vídeo está uma merda.
Desculpe, senhor. A tempestade de neve está a agravar a absorção.
E isto? Este detonador funciona?
Sim, senhor. É um sinal especial de ondas curtas, por isso vai correr tudo bem.
E quem é aquela grande ali? É a abelha rainha do grupo?
Parece um croissant mergulhado em merda.
Os relatórios oficiais ainda estão a ser finalizados,
mas pensamos que tudo gira à volta dela, a Mama Rastejante.
Então, aquele é o chefe. Como tu.
O que disseste?
Têm de sair daqui, senão matam-vos a todos com aquele gás mortal.
Já me deram com aquele gás, o Arkady 3.0.
É muito, muito doloroso.
Sabes o que é gás? Gás. Tipo…
Como o gás?
Mete-te na tua vida, estúpido.
Meto-me na minha vida? E tu?
Porque é que o salvaste na caverna?
Matamo-lo?
Não. Não.
Estamos muito agradecidos. Só isso.
Então, porquê?
Porque mataram o Luco?
O Luco?
O bebé Luco.
O vosso grupo. Despedaçado.
Sangue.
Sim…
É o…
É o Luco.
Nós salvámos-te.
Vocês mataram o Luco.
Então, qual é o nome do outro bebé? O que está na nave.
Zoco.
Também vão matar a Zoco?
E se a Zoco morrer? O que vais fazer?
Morrem.
Todos.
Queres dizer, todos os humanos.
- Extinção. - Como?
Fácil.
Tapa os ouvidos.
Mas globo ocular explode.
O cérebro explode.
Vocês todos.
Nasha!
Nasha!
Nasha!
Nasha! Olha para mim!
Olha para a minha boca.
O que se passa com eles? O que se passa com ele?
Eles estão a dizer alguma coisa. O que está aquele idiota a dizer?
Não é linguagem gestual.
C3!
C3!
C3?
3?
C3? O que é C3?
C3?
POSIÇÕES PLANETÁRIAS PRINCIPAIS
TRAZ A BEBÉ
Traz a bebé.
Traz a bebé.
Se não a entregarmos,
morremos todos.
Querido, isto não me está a agradar.
Porque estão aqueles dois desgraçados a conversar com o chefe dos insetos?
Eles acham que estão a negociar em nome da homenidade… humanidade?
Devia estar lá fora, senhor, a marcar o início deste momento histórico.
Estás a ver dois chefes a encontrarem-se cara a cara numa tempestade de neve?
Um momento do destino?
Só tem de ir lá fora. Eu posso criar uma cena icónica.
Um momento decisivo na história da colónia de Niflheim.
- Traz a bebé. - Já estou a imaginar.
A adornar o teto e as paredes da grande capela.
Sim, minha senhora, sim.
E um toque final, senhor.
Acho que era bom se lhes enviasse uma mensagem antes de lançar o gás.
Uma mensagem?
Sem essa pungência, o dia de hoje não passaria de um carnaval de terceira
em que pulverizamos pesticidas baratos nas baratas.
Sim, são uns insetos nojentos, imundos e maléficos,
mas vai ser o seu último momento, e podia dirigir-lhes umas palavras misericordiosas
como despedida, como um padre sábio e benevolente.
Arranja uma equipa de filmagem. Diz ao 1º esquadrão para ir ter comigo armado.
Sim, senhor.
Meu amor, a Sala de Crise é tua. Até nos voltarmos a encontrar.
C3. A Nasha sabe o que significa.
É um todo.
Vou trazer a Zoco em segurança. Estou a falar a sério.
Não chega.
O que mais?
Perdemos o Luco.
Um.
Sê justo.
Sê justo? Temos de contribuir com uma morte?
Sim.
Justo.
Um dos vossos. Morre.
Então, se trouxermos a Zoco em segurança, e um humano morrer…
Paz.
Arranca.
Ouviram?
Equipa de filmagem, unidade três, perceberam?
O sinal de rádio está um pouco irregular,
por isso o altifalante do carro será a nossa linha direta de comunicação.
Unidade dois, perceberam?
As nossas ordens são para escoltar em segurança o Comandante Marshall.
Ninguém vos disse para disparar! Não provoquem os rastejantes!
Caluda. Não estamos aqui para te filmar.
Muito bom.
Muito bem, logo a seguir ao seu discurso, senhor, vamos fechar logo a cobertura,
e isso será o sinal para a brigada aérea pulverizar o gás.
Uma aniquilação gloriosa, senhor.
Tu. Sim, tu. Anda cá, como te chamas? Matthew?
Matthew, tens a cara de um anjo. Toma, prova o meu molho.
Toma. Diz-me o que achas.
Nasha!
Não! Não! Para!
Para! Ela vai sofrer uma fratura na coluna.
Vou partir o pescoço desta cabra.
Não, não, não. Calma. Calma.
Um golpe e é morte instantânea.
Nasha Barridge, o que queres?
A bebé. Temos de a entregar à Mama.
- Só isso? - Sim.
Garante-nos uma saída segura.
A não ser que queiras ver-me partir-lhe o pescoço.
Não. Nasha, por favor, não.
Olhem, nós garantimos a saída da Nasha, como negociado.
Nasha, podes soltá-la com cuidado?
Vou buscar a bebé. Cuidado.
Nasha, estás bem?
Tenho de me despachar. Arranjam-me um flitter?
Duvido. Vais ter de correr.
Prendam aquela cabra!
Hoje, a senhora e o comandante praticaram uma grande quantidade de abusos verbais
e físicos e actos de crueldade que excedem a autoridade que vos foi concedida.
Queres ser executado por motim?
O vídeo com as provas de abuso será apresentado ao Comité para análise.
Sugiro que tenham respostas preparadas para a vossa audiência.
Obrigada, Zeke.
Manter o controlo no local.
Quando estivermos a 30 metros da Mama Rastejante, senhor,
começaremos a rodear a criatura lentamente.
Vai ser a deixa para começar o seu discurso final.
Sim.
A outra câmara acompanha-o do exterior,
tornando a cena absolutamente espetacular, senhor.
O meu discurso será sucinto e direto.
Um discurso maravilhoso. Não vale a pena ser editado.
E depois rebento com os Mickeys.
Um grande final.
Tu consegues, Nasha. Nós controlamos as coisas cá dentro.
- Abre o portão. - Está bem.
- Adeus. - Boa sorte!
A Nasha vai resolver isto tudo.
A Zoco vai voltar em segurança.
Quem é aquele?
Quem vem aí?
Merda.
Espera.
Que treta é esta?
Qual é a Mama?
Para onde é que hei de olhar quando fizer o meu discurso?
Ia despachá-los com alguma dignidade.
Agora quero que esses bárbaros se lixem!
- A bazuca está pronta? - Sim, senhor. A carregar agora.
Vamos rebentar completamente com aquela cabra.
Quem é que precisa de um discurso?
Eu vou atacar em força, querida.
A Mama está ali, senhor, está a ver?
Tem uma forma diferente.
Sim, é ela. Apontar!
Não é ela, idiota!
Desculpe, senhor.
Mickey!
Nasha! Nasha!
Mickey?
Está na altura de nos despedirmos.
O quê?
Rebentem com a pilha mais próxima!
Destruam-nos a todos até chegarmos à Mama. Esmaguem-nos!
Câmara, certifica-te de que apanhas o sangue e as entranhas.
Espera. Aquele ali.
Atinge aquele primeiro. É maior.
Fogo!
- Fogo, agora! - Sim, senhor.
Fogo!
Não, senhor, o colete à prova de bombas!
Acerta na cabeça, idiota de merda!
Não! Não, senhor. Está muito perto!
Espere, senhor! Pare, espere!
Não, onde… Meu Deus.
Mickey!
Nasha! Olá!
Eu sabia que ias conseguir. A bebé está bem?
Não, não, não.
O que se passa?
Olha!
Temos a Zoco! A Nasha trouxe-a.
Olha.
Nasha…
A Zoco está bem, não está?
Olá!
Estás a ver isto?
Um humano!
Também estás com medo.
Estamos os dois com medo.
Sim, estou com medo.
Quer dizer que és humano.
Que és importante.
Anda cá, rapaz.
6 MESES DEPOIS PRIMAVERA
Muito bem, pessoal…
Pessoal, não sejam tímidos. Se se puderem sentar. Sentem-se.
A cerimónia de inauguração virá mais tarde,
mas vamos começar com as coisas dos Descartáveis.
Mickey. Mickey, vem para a frente, companheiro.
Alguém se pode sentar na fila da frente, seus introvertidos?
Olá a todos. Chamo-me Nasha Barridge e sou membro do Comité.
Após semanas de debate, chegámos finalmente a este importante dia.
O dia em que abolimos o programa Descartáveis.
Gostava de agradecer aos meus colegas, membros do Comité, pelo seu apoio.
Tenho sentido o amor.
E, sobretudo, por terem lutado até ao fim
e terem convencido o Comité a abolir definitivamente a impressão humana.
Gostava de agradecer ao nosso Mickey Barnes.
E para ser sincera, estou tão feliz por poder envelhecer com o Mickey.
Era muito mau envelhecer sozinha.
Apesar das horas de discussão pacífica…
Muito bem.
Então, carregas no botão. Espera.
Nasha vai dar o sinal. Carregas no botão.
Espera. E depois ali, bum.
Levanto-me e carrego no botão ou… Não, no meu lugar, não é?
Sinceramente, estou-me a borrifar.
De agora em diante, em Niflheim como na Terra,
a impressão humana está permanentemente abolida.
Hoje, aqui, a impressora humana será reduzida a cinzas e apagada da memória.
O Nasha tem um talento natural.
Acho que ela até se podia candidatar a presidente do Comité.
Ainda me custa pensar que esta mulher fantástica,
há apenas seis meses, estava a apodrecer como todos nós naquela prisão merdosa.
No dia em que o Marshall foi reduzido a pó,
a Ylfa entrou em choque e foi levada para a ala psiquiátrica.
Correu o boato de que ela tinha cortado os pulsos.
Todos os outros envolvidos foram presos.
E, não sei como, o sortudo Timo saiu em liberdade condicional.
Mas assim que saiu, todos os dias temia o momento
em que se encontraria com o homem que lhe tinha entregado a carta.
O sócio de Darius Blank, que um dia acabou por o atacar.
Foi uma luta até à morte.
No fim,
o sócio transformou-se em sopa reciclada.
Menos uma orelha.
Mesmo no julgamento, o Timo optou por se representar a si próprio.
Enquanto me agarrava, aproximou a faca
da minha secção média, aqui mesmo, e cortou…
E foi libertado por legítima defesa.
É clássico do Timo.
Mas os nossos julgamentos, por outro lado, foram intermináveis.
Damien, senta-te! Senta-te!
Tornou-se numa luta política entre os pró-Marshall
e os anti-Marshall.
Mas, nessa altura, a Nasha já se tinha decidido.
Ela reformaria o Comité e mudá-lo-ia ela própria.
Por isso, depois de ser libertada, candidatou-se mesmo às eleições.
E ganhou com uma maioria esmagadora.
No seu primeiro dia na assembleia, a Nasha estava muito calma com tudo.
Eu estava muito, muito nervoso.
Mas acho que ela não reparou.
Mickey. Tenho o tradutor atualizado. Acabou de sair.
Muito bem, vamos ser sinceros, posso fazer-te uma pergunta?
Diz.
O que disseste antes,
sobre a extinção, quando vocês estavam todos…
Quando estavam todos a gritar.
Aquilo fazia mesmo explodir os nossos cérebros?
Por causa da vibração?
Explodia.
Mas disseste
que os nossos globos oculares explodiam.
Porque não os tímpanos?
Porque é um som.
Explodia tudo.
A sério?
Bem, podes experimentar aqui? Agora?
Quem disse que só os humanos é que fazem bluff?
Adoro essa cara de póquer.
Sim, e também um belo arroto.
Olá.
O que estás a fazer aqui? A meio da noite.
Bem, eu só…
Pensei que estivesse no hospital.
Cuidado. Olha para baixo.
Não pises isso.
É uma iguaria de valor inestimável.
Vá lá. Come um pouco.
Prova.
O que é? Agora és demasiado bom para tirar o molho do chão?
Julgas que mais alguém deixava que gente como tu provasse algo tão refinado?
É feito de quê?
Mal-educado! Não é assim que funciona.
Primeiro, uma prova de fé, depois digo-te o que tem.
Mickey, não achas que te vou deixar provar isso
por uma questão de respeito pelo teu paladar, pois não?
Pelo contrário.
Uma verdadeira obra-prima era um molho
que pudesse agradar até a um cretino ignorante como tu.
Não interessa. Que se lixe.
Prova-o, desperdiça-o, não me interessa. Agora não vales nada.
É muito melhor trazer de volta o meu provador habitual,
o especialista com um paladar realmente refinado.
Espere, é o…
Até os rins dele são mais bonitos do que tu.
Isto não. Não pode ser.
Claro que pode.
Admite, era o que querias.
Era o que todos queriam.
Ylfa,
acabei de me lembrar…
Tu morreste no dia a seguir ao Marshall.
Anda cá, toca-me.
Vê se sou um fantasma ou um humano.
Desde miúdo que tinha sonhos assustadores.
Desta vez não me assustei.
Pensei para comigo:
“O que faria o 18?”
Que se lixe.
O que estás a fazer? Carrega no botão.
Mickey. Carrega.
Carrega.
Foi bom a impressora ter desaparecido, mas uma parte de mim sente-se culpada
por não ter deixado que os outros Mickeys tivessem tido a oportunidade de viver.
Mas tenho de deixar de me sentir culpado.
Mickey!
Não há problema em ser feliz.
Tradução Luís Zanguineto
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