All language subtitles for Causa Própria S01 E07 - Episode 7

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Original subtitles

Sim?

Já percebi sobre o que é que vocês estavam a falar ontem à noite.

Como assim? Não estou a perceber.

Com o sono com que estava, nem dei os parabéns ao David.

E esqueci-me de comprar a prenda! Podes-me levar?

Quanto ao bolo: chocolate!

Tchau!

Quero que faça alguma coisa, Doutora.

Porque esta mulher quer acabar comigo, quer dar comigo em doido.

Ela estava a dizer ao banana do marido,

que eu era um cabrão de um caloteiro,

porque não pagava as quotas do condomínio.

As quotas do condomínio? Se há coisa que eu pago

são as quotas do condomínio, Doutora!

Mas eu gravei...

Eu gravei!

Mas não pode gravar conversas privadas, isso não é válido como prova.

Ok.

Gravação não serve...

Mas eu tenho aqui uma prova material conclusiva.

E a polícia é testemunha.

Faça o obséquio de cheirar.

Diga-me o senhor o que é, por favor.

Com certeza.

Faz ideia do que é que é esta mancha amarela, esta nódoa?

Faz ideia?

Chichi de cão!

Chichi de cão na toalha de linho bordada à mão pela minha mãe

e que fez parte do meu enxoval

e que estava no estendal a apanhar sol.

Veja só a ruindade da bruxa,

que pegou no cão e mijou para cima da toalha, Sr. Dra..

Mas a polícia esteve lá e tomou nota!

E está aqui tudo, Doutora!

Faça favor.

Vamos à guerra, Doutora?

Senhor Figueiredo,

o auto de notícia diz:

A Dona Adelaide, sua vizinha,

"chamou a polícia porque o Sr. Figueiredo subiu as escadas do prédio

e deu um pontapé ao cão

e que, após, o Sr. Figueiredo mordeu com violência o braço da Dona Adelaide..."

- Mordeu-lhe? - Isso que está aí...

Isso é difamação!

- Isso é difamação! - Eu peço desculpa,

Eu preciso de uns minutos.

Com licença.

- Dra. Ana, dá licença? - Claro, entre.

Dra. Ana, mudei de ideias!

Eu quero ajudar na defesa do seu filho.

Conte comigo, de todo o coração!

Claro... Obrigada.

Mas...

É uma boa notícia.

É claro que eu compreendo se já tiver arranjado outra solução...

Não. Não é isso.

Vai ser bom.

Vai ser bom a Doutora Alice poder contar consigo.

Mário, queres ler?

Posso-te ajudar?

Não.

Inspectora Maria.

Senhor Doutor, como está?

Não, estamos a acabar.

Ele está aqui comigo. Ele não lhe ligou?

Não, não, está quase.

Os indícios são muito claros.

Tudo aponta para o rapaz.

Sim, estamos certos.

Não, eu envio-lhe já. É só...

Sim.

Com certeza.

Claro, Senhor Procurador.

Claro.

Com certeza. Com licença, Doutor.

Obrigada.

Grande Chefe Índio...

É...

Ele diz que já falhámos mais do que a conta e que não pode voltar a acontecer.

E diz que se está a borrifar se o acusado é filho de uma juíza

e dum palerma de um procurador.

E que o processo vai avançar até onde tiver de ir.

E que até podia ser o filho do Presidente da República.

Tens uma memória invejável.

Devias pensar em ser inspectora da polícia.

Tu também.

Anda lá, Mário, eu preciso de ti.

Agora não, está bem?

As provas de espancamento.

A absolvição in dubio pro reo aqui.

Os recortes da imprensa nacional e regional.

Algumas notícias que não me parecem bem feitas.

Bem! Mas que organizadinha. Isto assim até dá gosto.

Tenho tudo o que o David disse desde o início até agora.

As coisas gravadas em tribunal.

As declarações na PJ.

Como é que um miúdo inocente se foi meter nesta trapalhada?

O David ainda não foi acusado de nada.

Eu não acredito que ele fosse capaz de matar.

Eu também acho que ele é inocente.

Sou madrinha dele, caramba!

Conheço-o como as minhas mãos.

- Então ok. - Sim.

Vamos ver as fotografias?

Este aqui...

Eu já sei a verdade...

- Raios parta o puto! - Desculpa...

Desculpa ter-te envolvido nisto.

Ainda bem que o fizeste.

Eu não te queria sozinha numa situação destas!

Alice, se tu quiseres, tu estás a tempo de mudar de ideias.

Eu juro, amiga, eu não te levo a mal.

Oh Ana...

Que disparate.

Fazes ideia de quem fez isto?

Tia Alice! Já cá estavas e não dizias nada?

Acabei de chegar, minha linda.

Estava a admirar o jardim da tua mãe.

Há com cada maluco!

Mas boa notícia, a mãe não se pôs a cozinhar,

comprou um bolo com muito bom aspecto, aleluia!

- Aleluia! - Até já.

Há mais alguma coisa que eu deva saber?

Não...

Fazer bolos...

Eu estou tão cansada.

Hoje era aquele dia em que devíamos começar já a beber.

Quer dizer...

Eu não posso.

Para dentro...

Parabéns a você

Nesta data querida muitas felicidades...

Explica-me a sério. Explica-me.

Explica-me o que é que se passa aqui.

Explica-me para eu entender, a sério!

Estás-me a ouvir ou não? Vá, explica!

- Explica-me! - Eu não sei o que é que se passou.

Não sei o que é que aconteceu.

O meu filho?

Acusado de homicídio?

Por favor, explica-me

- como é que deixaste que o David... - Foi um erro!

Nós vamos provar que foi um erro. Ele mentiu em tribunal, foi só isso.

O meu filho...

O meu filho sempre foi uma alma sensível.

É boa pessoa. É um puto impecável!

Um puto com talento para as artes, para a música...

Um violoncelista!

Um violoncelista que nos encantava o coração!

Por isso é que eu não percebo...

Tens de me explicar! Eu não percebo!

Porquê?

Como é que tu...

Eu não sei o que é que aconteceu...

Quem é que o vai defender?

Opá, não me digas que é a Alice.

É a tua amiga alcoólica que o vai defender.

É a Alice?

A tua amiga alcoólica... Eu não estou a acreditar nisto.

Tu sabes o estado em que eu a vi, no outro dia, em tribunal?

Tu sabes o estado em que eu a vi? Eu não estou a acreditar nisto!

Eu não estou a acreditar nisto!

Tu destruíste a nossa família.

Tu parecia que tinhas isto tudo planeado.

Primeiro foi o nosso casamento, agora são os miúdos.

Tudo bem, mas sabes que mais, também te digo uma coisa.

Quando esta merda toda se resolver,

tu nunca mais vais ver os miúdos, nunca mais!

Eu tiro-te os miúdos! Eles vão morar comigo!

O David e a Clara vão morar comigo! E digo-te mais!

Não quero saber se és juíza, não quero saber se és mãe,

se for preciso eu rapto-os!

Vai te embora. Vai! Foge!

Obrigada, Sr. Guarda.

Dormiste?

Mal.

Mas ao menos tratam-te bem?

Ouve, David...

Já ouviste falar na palavra álibi?

Sim. Preciso de um?

Todos precisamos.

O álibi...

...pode não ser uma desculpa, pode ser uma resposta.

Bom...

Já sabemos o que aconteceu.

Sabemos que foste tu que o fizeste e também sabemos

que foi um erro.

Mas se tu contares em tribunal tudo o que me disseste no carro

vais parar vinte anos à prisão. Estamos entendidos?

- Mas se eu lhes explicar que foi tudo... - Ouve!

David!

As coisas não funcionam assim.

Já fizeste disparates que cheguem.

Eu vou-te dizer exatamente o que tu tens de dizer em tribunal,

e nem uma palavra a ninguém

nem mesmo à advogada Joana.

Percebes?

Bom...

Realmente foste à sala de bilhares...

As minhas desculpas, eu pensei que...

Não...

Dra. Joana, está perfeitamente a tempo.

Eu é que vim mais cedo para estar aqui à conversa com o meu afilhado.

Enfim, falar de futebol, das miúdas...

Ana!

A polícia precisa de alguma coisa?

Não tem nada a ver com a polícia, estou farto de te escrever...

Tenho saudades tuas.

- Queria ver-te. - Não é altura para essas coisas.

Acabaste de prender o meu filho.

Eu não podia fazer outra coisa...

Todos os indícios indicam para...

Eu não posso discutir o caso contigo.

- Mas eu prometo se eu... - Está tudo bem. Está tudo certo.

Fizeste o que tinhas a fazer.

Eu não guardo ressentimentos.

Se eu o pudesse evitar, evitava...

Mas eu tenho uma responsabilidade para com a vítima.

E tu própria disseste, temos que ser inflexíveis.

A questão não é essa.

A questão é que aquilo que tivemos deixou de fazer sentido.

Esquece o que aconteceu.

Esqueço?

Como é que queres que eu me esqueça?

Eu penso em ti a toda a hora.

Todos os dias. Como é que queres que me esqueça?

Eu não gosto de ti.

Está bem assim?

Fecha o portão quando saíres.

É verdade, meses depois, voltamos ao local do crime.

Só que os primeiros suspeitos são agora testemunhas

e o que era na altura uma simples testemunha passou a acusado.

David Martins, filho da juíza Ana Martins, figura conhecida da terra,

é agora arguido num volte-face que colocou esta pequena cidade em choque.

O julgamento entra agora no segundo dia

com o colectivo de juízes a tentar reconstituir

o que se passou na noite do crime.

O que se passou naquela noite?

Quem mente,

quem diz a verdade?

- Desculpe lá. - Muito obrigada.

Onde é que os senhores estavam?

Aqui mesmo.

E a vítima?

Estava completamente vivo.

Já nos disse isso.

Nós fomos embora, para ali.

E o André ficou aqui, deitado.

Eu não percebo como é que ele foi parar ali à frente.

Mas onde é que vocês estavam antes?

Quando lhe começaram a bater.

Estávamos ali mais para cima.

Nós estávamos aqui,

e o André fugiu por aí abaixo,

até lá ao outro sítio, onde nós estivemos antes.

E depois, quando fomos em direção à saída,

eu vi o David a saltar...

A saltar de onde?

Dali.

Dali? Daquela árvore? Como se fosse um macaco?

Oh Sra. Dra., não comece.

O David aproximou-se dali.

Oh Sr. Hugo Marcolino...

Eu perguntei-lhe alguma coisa?

Foi ali. Daquele muro.

Meritíssimo, como vê é impossível saltar o muro.

Nem este jovem consegue e tem cerca de mais 20 cm que o David.

Os testemunhos são pura e simplesmente mentira!

Sra. Dra., mais contenção.

Sr. Dr., mas não existe nada!

A acusação feita pelo então arguido António José

de que o David terá entrado no parque através do muro,

é evidentemente e fisicamente falsa.

E a mim espanta-me que um representante do Ministério Público,

possa embarcar como uma criança ingénua, nesta tese do vigário.

Sra. Dra., guarde esse tipo de argumentos para as alegações.

Com o passar do tempo é possível que haja falhas de memória

quanto ao local preciso de entrada.

- Mas as testemunhas são credíveis. - Sim!

E o David entrou no parque de quê? De balão!

- Doutora... - Os jovens é que não se lembram.

Lá está, falhas de memória como alega.

Sra. Dra., isso é um disparate.

Meritíssimo, perdoará.

Inês,

agradeço-lhe o testemunho.

Não era intenção do Ministério Público trazê-la para dentro deste caso.

Mas relembro-lhe que está sob juramento e que tem de falar verdade.

Sim.

Há alguma coisa que a force a dizer o que não quer?

Eu posso perguntar quem é o senhor?

- Eu? - Sim.

É o meu pai.

A presença dele intimida-a?

Não...

Meritíssimo, a mim parece me evidente

que a presença do pai pode limitar de alguma forma...

A testemunha já disse que não.

- Prossiga Sr. Dr. - Obrigado, Meritíssimo.

Após falso testemunho

prestado no julgamento anterior, a que a Inês assistiu,

o arguido foi interrogado pela Polícia Judiciária.

E de acordo com a transcrição,

terá afirmado que na noite do crime se terá encontrado consigo,

à porta da sala de bilhares "Rookies", às 23h30,

e que terá passado toda a noite consigo.

Ora, isto...

No dia do homicídio, a 10 de Maio de 2019.

A Inês confirma que foi chamada a testemunhar à Polícia Judiciária

a confirmar o testemunho do arguido?

Sim...

Ora, eu tenho aqui a transcrição do seu testemunho.

De 4 de Outubro.

Lembra-se do que disse naquele dia?

Acho que sim...

A Inês lembra-se que inicialmente confirmou o testemunho do seu namorado?

Meritíssimo, o Sr. Procurador está claramente a tentar orientar a testemunha!

Meritíssimo, o testemunho está transcrito no processo.

E passo a citar.

"Confirma que esteve com o David nessa noite?"

"Sim"

"Por volta de que horas?"

"Era 11h30 da noite. Encontramo-nos à porta do Rookies."

"Como é que tem a certeza da hora?"

"Olhei para o telemóvel quando cheguei."

Isto não são histórias da carochinha, isto são factos, Doutora!

- Factos! - Pode continuar.

E volto a repetir.

A Inês lembra-se que inicialmente confirmou o testemunho do seu namorado?

Sim.

E depois, confrontada com detalhes dessa noite,

atrapalhou-se

e admitiu não ter estado com o seu namorado.

É verdade ou não

que admitiu que afinal nessa noite não esteve com o seu namorado?

Esteve ou não esteve com o arguido na noite do crime?

Não. Não estive...

O que me incomoda...

O que eu não consigo entender é o que a fez mentir inicialmente...

- Sr. Procurador! - Sr. Dr. não interrompa.

Eu quero ouvir.

O arguido David, seu namorado,

pediu-lhe para prestar falso testemunho à polícia judiciária

a dizer que esteve com ele nessa noite?

Sim ou não?

- Sim, mas ele não queria... - É tudo. É tudo, Meritíssimo.

Não tenho mais nada a acrescentar.

A Doutora quer fazer alguma pergunta?

Claro, Meritíssimo.

Inês...

Desculpe, mas eu vou ter de lhe fazer algumas perguntas mais delicadas.

A Inês alguma vez passou uma noite inteira...

...com o David?

Meritíssimo, a pergunta não tem relevância.

A testemunha acaba de confirmar que não esteve com o arguido na noite do crime.

Eu confesso que não entendo a pertinência da pergunta.

Estou a tentar esclarecer alguma confusão que possa haver...

O relato da testemunha é claro.

Não esteve com o arguido na noite do crime.

O arguido pediu-lhe para mentir à polícia.

E eu não vou deixar que continue nessa linha de interrogatório.

Ainda para mais à custa da devassa da privacidade de uma menor.

Tem mais alguma pergunta?

Não, obrigada.

Está bom.

O pai disse que vinha.

Não veio.

Mas eu estou aqui...

É estranho não é?

O que é que achas que me vai acontecer?

Não sei.

Eu tinha tantos planos...

Ir estudar para Lisboa, tocar violoncelo.

Tanta coisa que queria fazer...

Parece-me tudo tão longe.

- Mãe, tu conheces-me... - Eu conhecia-te.

Agora já não sei.

Eu não consigo entender.

Foi um acidente, mãe.

E as sapatilhas?

Também foi um acidente?

Porque é que tu roubaste as sapatilhas do rapaz?

Foi um erro, mãe.

Mãe, mãe, mamã, por favor ajuda-me.

Eu não quero passar o resto da minha vida aqui.

Por favor.

Quantos morangos é que já temos?

Sete.

- Sete? - Espera...

Santinho!

- Sete. -Sete!

Estão a ver. Ah, cá estamos todos, muito bem.

Estamos todos?

- Muito bem. David anda para aqui. - David, anda cá, anda cá.

Onde vão os meus principezinhos?

- Nós vamos por ali. - Consegues saltar?

Boa noite.

A polícia devia ir ao jardim municipal eu ouvi gritos.

Perto da casa do guarda.

Os três primeiros agressores deixaram-no estendido no chão

muito maltratado.

Ferido a murro e a pontapé, mas vivo.

Vivo.

Levaram-lhe a carteira.

Aliás, que mais tarde é encontrada no bar Mourita.

Mas os ténis quem levou foi outra pessoa.

Mas quanto a isso já lá vamos.

O jovem André foi espancado aqui,

nesta zona lamacenta.

Temos aqui pegadas dos quatro.

Inclusive dos três agressores a abandonarem o local.

Depois disso, o jovem André levantou-se,

e a muito custo cambaleando veio até aqui.

Está sozinho.

Sabemos disso porque nesta área só temos pegadas do guarda do jardim,

que encontra o corpo pela manhã,

e do próprio André, ainda calçado com ténis,

quando é encontrado o corpo já não os tem.

Isso leva-nos a concluir que o assassino só se pode ter aproximado por uma zona.

Por aqui, onde a relva é mais densa,

daí não ter deixado pegadas.

Ter-se-á o André assustado com esta nova aproximação?

Bom, o que se passa entre o André e o assassino

só podemos especular e pouco interessa.

O que interessa é a tragédia final.

O atacante com um objecto metálico e cortante

ter-lhe-á cortado a jugular até à morte.

Depois ter-lhe-á tirado os sapatos, os sapatos ténis,

e abandonado o local.

Acreditamos que esse atacante

é o jovem arguido aqui presente.

- Meritíssimo, se me permite. - Faz favor, Sr. Procurador.

Sr. Inspector Mário,

na sua opinião, qual foi o móbil do crime?

Tudo aponta para os ténis.

Para nós pode nos parecer pouco compreensível e até inconcebível,

mas para miúdos com idade do arguido,

os ténis têm muita importância.

Conferem estatuto, prestígio social.

E estes, particularmente, valiam mais de 600 euros.

Quer fazer mais perguntas, Sr. Procurador?

Por agora não, Meritíssimo, obrigado.

Dra. Alice, quer fazer as suas perguntas?

Muito obrigada, Meritíssimo.

Inspector Mário...

Como é que explica a acusação ao jovem David?

Pelos factos que recolhemos.

Factos?

Mas também não tinha factos quando acusou,

pelo mesmo crime, três outros jovens?

Sim, mas entretanto, surgiram novos dados.

Ah pois, surgiram.

Ou melhor, primeiro desapareceram.

Onde é que está por exemplo a arma do crime?

- Por enquanto, não sabemos. - Por enquanto...

E os ténis da vítima?

Não sabemos também.

Inspector Mário, não sabe muita coisa.

Mas tem a certeza absoluta que o meu constituinte é o culpado.

Eu queria recordar-lhe já agora, que uma investigação policial

não é propriamente estar de espingarda na mão

dentro de uma barraquinha de feira,

a atirar ao calhas para qualquer alvo.

- Isto não é uma caça aos patos! - Sr. Dra., advirto-a

que não pode falar assim com uma testemunha que está a responder.

Meritíssimo, não posso eu...

...nem pode ninguém.

Não é verdade, Sr. Inspector,

que depois do falhanço da acusação contra os três jovens,

com base na sua investigação miserável,

tentou interrogar num jardim público, o meu cliente,

tirando-lhe qualquer hipótese de defesa?

Coisa, aliás, testemunhada por uma pessoa aqui, em tribunal?

Não, não é verdade.

Não é verdade, que tentou amedrontar e condicionar

o meu constituinte para disfarçar o fracasso da sua miserável investigação?

Não.

Não é verdade.

Isso é uma má interpretação dos factos.

Foi o arguido que veio ter comigo.

E protegi os seus direitos, impedindo-o de falar.

Recordo-o que está sob juramento.

Pois estou, e digo a verdade.

O rapaz veio ter comigo e eu impedi-o de falar.

Meus senhores...

o que nos levou a concluir que o arguido

tinha que ser investigado e depois incriminado,

foi a sucessão de novos factos.

O facto de ter mentido

sobre ter estado nos bilhares, na noite do crime.

O facto de ter mentido sobre ter estado com a namorada,

na hora do crime.

E o facto de termos encontrado em sua casa, no seu quarto,

um catálogo de sapatilhas com um modelo marcado a cor...

modelo esse exatamente igual, ao que desapareceu dos pés da vítima.

E nesse mesmo catálogo, ao lado desse modelo, um poema...

Um poema de amor de Mário Cesariny

escrito pelo mão da própria vítima.

Estes são os factos.

"Em todas as ruas te encontro,

E em todas as ruas te perco".

Exatamente.

Mas quem está bastante perdido, ao que parece, é o Inspector Mário.

Sr. Inspector,

já demonstrámos, aqui em tribunal, que o jovem Tozé

não pode ter visto o jovem David entrar por aquela parte do jardim...

Sim, mas isso não quer dizer que ele não estivesse lá.

O Sr. Inspetor, está aqui para responder a perguntas.

Eu pedia-lhe que se cingisse às respostas.

Quanto aos ténis serem o móbil do crime...

Parece-lhe razoável que um filho de uma juíza e de um procurador,

família com recursos acima da média, precisasse de roubar uns ténis,

ténis esses que nem podia usar,

por estarmos, como sabe, numa terra pequena, onde toda a gente se conhece?

Sra. Doutora...

Eu na minha profissão,

passo a vida a lidar com coisas que não fazem sentido, mas que existem.

Aliás...

Estamos aqui todos hoje, nesta terra pacata, pacífica e pequena, como diz,

porque um jovem de 17 anos, na flor da idade,

foi espancado depois morto.

Haverá algo mais absurdo do que isto?

Quanto ao poema...

De amor, como sugere,

está a insinuar

que a vítima tinha uma relação homossexual com o arguido?

Não.

Mas acredito que a vítima gostava do arguido.

Às vezes apaixonamo-nos pela pessoa errada.

Não fui eu.

Não estive dentro do jardim sequer.

Sr. arguido, pela última vez...

Para onde é que foi ao sair do bar na noite fatal?

É que tem sido difícil ouvir tanta versão em que as coisas já não fazem sentido.

Eu conto tudo.

Confessa o crime?

Não.

Meti-me na mota e fui directo para casa.

Porque é que não disse isso logo?

No primeiro julgamento, assustei-me.

Só me queria afastar do local do crime.

Menti.

Depois fui chamado para a Polícia Judiciária.

Eu já tinha metido a minha mãe em apuros com o primeiro julgamento,

e não a queria envolver mais.

Ela sofreu muito da primeira vez.

Mas a verdade é que ela viu-me a entrar em casa nessa noite.

Explique lá isso das horas.

Eu saí da sala de bilhares por volta das 23h30.

Depois meti-me na mota e cheguei a casa mais ou menos à meia noite.

Sei disto porque...

A minha mãe estava a começar a ver o jornal da meia noite na televisão.

Ela viu-me.

Pode confirmar as horas a que cheguei.

E quanto tempo demora da sala de bilhares a sua casa?

Cerca de trinta minutos.

Não podia ser ele!

Não havia tempo.

Dra. Alice!

O senhor arguido sabe que poderei comprovar a sua versão dos acontecimentos

junto da sua mãe?

Sim, eu sei.

Nesse caso, Meritíssimo,

e correndo o risco de esgotar a paciência deste tribunal,

ver-me-ei obrigado a convocar outra testemunha sob juramento

ainda que essa testemunha esteja presente aqui na sala.

Sei que não é proverbial, nem porventura cumpre os requisitos

do Código de Processo Penal, mas terei de pedir a vossa excelência

em nome da descoberta de toda a verdade sobre este crime horroroso,

a autorização para chamar ao banco das testemunhas...

Atenção a todos os presentes.

Peço a maior calma e silêncio para a informação

que o tribunal acaba de receber.

A PSP

numa acção de busca de eventuais actos de vandalismo no jardim municipal

descobriu esta madrugada, escondidas na casa do guarda,

primeiro suspeito deste homicídio,

a arma do crime e as sapatilhas roubadas à vítima.

Obviamente, esta informação obriga-nos a reavaliar todo o processo

e a ponderar

o eventual envolvimento do guarda, entretanto falecido, no homicídio.

Silêncio, na sala!

Obviamente, o tribunal suspende os trabalhos

e o arguido David ficará em liberdade até tudo ficar devidamente esclarecido.

Sr. David Martins, poderá voltar para casa,

mediante termo de identidade e residência.

Está encerrada a sessão.

Novo e inacreditável volte-face no caso!

A arma do crime e os ténis foram hoje descobertos no jardim municipal,

num espaço que pertencia ao guarda

falecido há poucas semanas num acidente de mota,

sob o efeito do álcool.

Numa busca acidental e não prevista da polícia num recanto secreto,

de repente volta tudo à estaca zero.

O primeiro suspeito, o conhecido criminoso Manitas de Lata,

dono de um infindável historial de crimes violentos por todo o país

volta a ser considerado o principal suspeito de homicídio.

Terá sido ele o mais que provável homicida do jovem André

tendo agora a polícia finalmente em sua posse a arma do crime.

É uma vergonha.

Espero sinceramente que a partir de agora deixem o pobre David em paz,

porque isto foi uma clara falha do sistema.

David! Clara!

Já chega, Vítor! Já chega.

Acabou!

Acabou.

Vamos embora.

Eu devia estar contente com isto, mas não estou.

Habituas-te.

Mas não me deixes sozinha esta noite, ou eu juro que volto a beber.

A vida....

é o que a gente faz dela...

com o que pode.

Cheira bem o seu jardim.

Glicínias...

Rosas... Isto...

Isto é o quê?

- Petúnias. - Petúnias!

Ana...

Eu estou a pensar reformar-me

e gostava que a Ana voltasse para o seu posto.

Esta terra precisa de homens e mulheres,

bons juizes e juízas.

Pessoas boas.

Não quero...

Nem posso regressar. Eu...

Nem tenho a certeza que seja uma boa pessoa.

Sou só alguém que sempre...

que quase sempre tentou fazer o que estava certo...

Ou menos errado.

Eu...

Gosto de flores.

Enche-se o tribunal de flores.

É o David?

É.

É o meu filho.

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