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Zulu
Papá?
Estou morta por tua causa.
Vais-te embora?
Apenas uns dias.
Tomaste os medicamentos?
Sim.
Onde é que vais?
Erika, filha,
tenta descansar, comer, dormir... Se precisares, sabes como ligar-me.
Papá, onde é que vais?
A Valladolid.
Vou contigo.
Não me vais impedir.
Eu sei.
Papá, não quero ficar sozinha.
Não posso.
Vá lá, faz a mala.
E não te esqueças de levar o lítio.
BASEADO NO ROMANCE DIES IRAE DE CÉSAR PÉREZ GELLIDA
Espero que o café faça jus ao nome.
Trieste é famosa pelas suas 67 formas de pedir café.
Valeu a pena o passeio.
Menos mal.
De facto, não viemos aqui só pelo café.
Gaetano.
Anda, senta-te aqui connosco.
Sancho, apresento-te o Gaetano.
Queríamos perguntar-te uma coisa.
Ele.
Já o viste?
Não.
É espanhol.
Nunca o vi, inspetora.
Nem sequer a passear na praça?
Não, nunca o vi.
Se acontecer alguma coisa, sabes a quem ligar.
Obrigado, Gaetano, podes ir.
E, por favor, cuidado com o que fazes.
Inspetora, por favor.
É uma talpa.
Um chibo.
Roubava carteiras, telemóveis... Tudo.
Traficava droga.
A sua especialidade, digamos, é identificar turistas.
É um dos teus informadores.
Claro.
O Augusto pode já ter fugido.
- Seria lógico, não? - Não, não.
Não é o seu estilo.
Porquê ficar quando sabe que estamos atrás dele?
Duvido que o Augusto consiga resistir a provar que me pode vencer novamente,
mesmo aqui em Trieste.
Depois do café, esta é a segunda coisa pela qual esta cidade é famosa.
Se não me deres uma pista.
A frase do escritor James Joyce.
Viveu aqui em Trieste algum tempo.
- Joyce do Ulysses? - Esse.
Já sei porque o Augusto está em Trieste.
Em Valladolid utilizou o pseudónimo Leopold Bloom,
o protagonista do Ulisses de Joyce.
Mas podia usar o nome de qualquer outra personagem literária.
É preciso procurar hotéis, pousadas, alugueres para férias...
Ele gosta da luz.
Está escondido, mas à vista de todos.
Vão aos seguintes endereços. Anotem.
Organizem-se em grupos e depois vou ter convosco.
O que me escapou?
Estas são as moradas onde Joyce viveu aqui.
Nada melhor para um mitómano.
Inspetor Sancho.
Gostou da minha surpresa de boas-vindas em Trieste, inspetor?
Uma cidade muito bonita,
mas um pouco chata...
Até agora.
Augusto?
Não podes viver sem mim.
Não me digas que me estou a tornar na tua musa.
Némesis, inspetor.
É a palavra que procura.
Precisa de mim.
Tanto como eu de si.
Se precisas assim tanto de mim,
vamos encontrar-nos.
Tu e eu.
Sozinhos. O que achas?
Tchau, Ramiro.
Acho que já te posso tratar por tu.
Envia-te o escalpe e agora telefona-te.
Parece-me, inspetor, que chegou a altura
para me contar tudo.
Digamos que ele e eu...
...somos inimigos íntimos.
Já está na hora?
Vejo que te puseste à vontade, Pílades.
Ou preferes Armando?
Carapocha para os amigos.
Como me encontraste?
É preciso ter tomates para voltar a Valladolid.
Não sou o assassino que a polícia anda à procura.
É por isso que te escondes?
Tenho tudo aqui.
Não preciso de visitas nem amigos.
Enganaste-te no irmão outra vez.
Já não tenho nada a ver com ele.
Não acreditas?
Cortou relações comigo.
Acredito em ti.
Pensei que podia ajudar a controlar-se.
E estavas enganado.
Tal como eu estava errado ao pensar que eras o assassino.
Queres saber onde está o Augusto?
Basta perguntar à Erika.
A minha filha está à margem...
De tudo.
O que é que queres?
Que me ajudes.
O Augusto não parará de matar.
Sei que estás inocente.
Mas essas mortes vão acabar por te salpicar.
E a ti.
Eu sei.
O nosso site está novamente ativo.
Assim, podes contactar-me quando decidires.
Sabes que vou acabar por apanhá-lo,
mais cedo ou mais tarde.
4-JULHO-2020
O mal está dentro de todos nós.
Não és só tu que te sentes atraído por ele.
A diferença é que te falta empatia pelo sofrimento dos outros.
Toda a gente sofre.
Toda a gente morre.
E estou-me nas tintas.
Só quero acelerar o processo.
Ainda não mataste.
Mas há de chegar a altura em que as fantasias de matar
não serão suficientes e, então, fá-lo-ás.
É aí que precisas de mim.
Queres ajudar-me a matar?
A tua natureza pode servir o bem.
O que queres dizer?
Podes ser um mal necessário para acabar
com um mal desnecessário.
Sancho, encontrámos um apartamento alugado
sob a identidade Pold Bloom. Nacionalidade inglesa,
sem registos no Reino Unido.
- Tem de ser ele. - O dispositivo vai para lá.
- Preciso de uma arma. - Não, estás na operação,
- mas como observador. - Preciso de uma arma.
Tanto quanto sei, não tens licença de porte de arma em Itália.
Esta operação não é tua.
Inspetora. Venha ver.
"Noutra altura, Sancho".
Foda-se.
O meu espanhol não se entende bem?
Sim, perfeitamente.
Podia jurar que tinha dito que não podias participar na operação.
Só observar.
Do exterior.
E devia ter dito:
"Faça o que lhe der na gana, Inspetor Sancho".
Mea culpa.
Vinha buscar um bilhete para o concerto dos Love of Lesbian.
Não te fica bem gostares dos lésbicos.
- Não? - Não.
Toma.
Vais dar-me o teu bilhete?
Não.
Arranjei-te outro.
Bem jogado, Carapocha.
A tua visita não funcionou. O Trojan não foi ativado.
A paciência é mais poderosa do que a força.
Não conseguirá resistir à tentação de querer avisar o irmão.
- Temos de o apanhar de outra forma. - Deve ter suspeitado de algo.
Ainda não acabámos de falar.
Volto já.
Comprei-os para ti.
Para a tua coleção.
O Concerto para piano e orquestra número 3 de Rachmaninoff.
Como é que conseguiste?
Encontraste o Orestes?
Pai, sei que vieste procurar o Orestes. Para quê?
Tenho de te dizer?
Vais voltar a confiar nele?
Erika,
podes pôr fim a esta situação num piscar de olhos.
Onde está o Augusto?
Não quero que o mates, mas estou a dizer a verdade.
Não sei onde se esconde agora, não....
Não tenho forma de o contactar.
A única coisa que me resta do Augusto é a música.
- Tomaste a medicação? - Sim.
- Não mintas. - Tomei.
Vai à merda.
Para encontrar o Augusto, precisas de uma pegada digital, não é?
Sim, sim, exatamente. Tudo o que fazemos online é encriptado,
mas corresponde a um IP e, quando não queres ser localizado,
alteras o IP através de uma VPN.
Poupa-me as tretas da informática.
Uma lista de reprodução partilhada é uma pegada digital?
O Augusto partilha uma lista com alguém?
A minha filha.
Se enviar a lista, consegues encontrar o Augusto em Trieste?
Claro, sim. Sim, podemos tentar. Envia-me a primeira lista de reprodução.
Enviada.
Porra, Peteira, que fedor.
Queres seduzi-la ou anestesiá-la para que não fuja de ti?
Essa mulher é minha namorada.
Bem, quase.
Como "quase namorada"? O que é isso de "quase namorada"?
As relações atuais não são como eram quando te casaste. A chefe.
Agora não pomos rótulos no que se é.
- Que rótulos? - É uma confusão, pá, não sei.
O controlo dos cartões em nome de Lopategui deu resultado.
O Carapocha voltou a Valladolid?
Não, a filha. A Erika Lopategui fez uma compra numa loja de música.
- Localizem-na. - Pensões e hotéis.
Perfeito, mas ela é jovem.
Bares, discotecas... Eu trato disso.
Se voltar a usar o cartão, apanhamo-la de certeza.
Subtilmente. Não quero que avise o pai se estiver por aqui.
O que queres?
O mais heavy que tiveres.
Quanto?
Grande party que vais ter.
É isso.
São boas, não são?
Vais-te passar.
Ótimo.
Estás à espera de quê?
O quê?
Esperas o quê para bazar?
Cabra.
Gaetano, lembras-te de mim?
Preciso de um favor. Entendes?
Falo espanhol perfeitamente, chefe.
Um cigarro.
- Foda-se... - Boss.
Toma.
Como te explico isto?
Preciso de uma arma.
Sim, é isso mesmo.
Um ferro. Onde posso obtê-lo?
Isto é uma armadilha?
Qual armadilha qual quê. Isto é entre tu e eu.
A inspetora Galo não sabe nada.
Vou repetir.
Onde posso obter um ferro hoje?
- Hoje? - Sim, hoje.
- Hoje. - Sim.
Foda-se.
Toma.
Toma, não tenho mais.
Vamos.
Escreve.
O ferro, onde?
Dou-te a morada e o número de telefone.
Telefona antes, senão não te abrem a porta, boss.
Augusto.
Orestes.
O que estás a fazer? O que queres?
Tudo arde com a faísca certa.
O que queres?
Enganaste-te no irmão.
És o...?
Nunca serás o Augusto.
Orestes...
- O que estás a fazer? - Não conheces o meu irmão.
Tudo arde com a faísca certa.
Não!
- Para! - Não conheces o meu irmão.
Kapllani?
É isso mesmo.
Primeiro o dinheiro.
Está bem.
Oitocentos.
O preço subiu.
Mais dinheiro.
Não, não. Como more money? Não me fodas que não sou novato.
Oitocentos, é tudo o que tenho.
Fica quieto e pousa isso.
Oitocentos.
É tudo o que tem.
Já te disse, não sou novato. Dá-me a carteira, só tem cartões.
Está quieto e pousa isso.
Sabemos que és polícia...
OK, OK, OK.
Odeio a polícia.
Faz pressão na ferida, porco.
Abre-te, porra.
Ias embora?
A sério?
- Outra vez sem dizer adeus? - Voltaste às drogas?
- Voltaste às drogas? Diz-me! - Ouve-me! Ouve-me!
Encontraste o Augusto mas não o compreendes!
Agora é óbvio para mim, papá! É o Orestes!
Não há nada para perceber, filha.
O Augusto continuará a matar.
E continuará por minha causa.
Bem, por minha causa e...
E por minha.
Podes dizer.
Não, não, não, filha, não, não.
Não, filha, não tens culpa de nada.
Sou o único responsável aqui. Se não fosse por mim,
não estarias agora nesta situação.
Filha, volta a casa, por favor, toma o lítio.
E se não voltares?
E se desapareces de repente como a mãe?
Se prometeres voltar para casa,
conto-te tudo o que queres saber sobre a tua mãe.
Promete.
Vais dizer-me a verdade?
Sim.
Como morreu?
Foi assassinada.
Como?
Quem?
Krastaça.
Um psicopata.
O cão fiel de Ratko Mladić,
o genocida sérvio.
Há 25 anos que ando a perseguir o Krastaça em busca de justiça.
E só agora, há dois anos...
...quando foi condenado em primeira instância
por genocídio e crimes contra a humanidade.
Ratko Mladić
foi um dos principais arquitetos do cerco à cidade de Sarajevo.
e é lembrado, sobretudo, como um dos responsáveis
do massacre de Srebrenica.
Cerca de 8000 homens e rapazes da localidade
foram mortos a tiro por ordens de Mladić
e os cadáveres atirados para valas comuns.
Um genocídio destinado a eliminar a população muçulmana da Bósnia.
As autoridades confirmaram que o corpo encontrado
em Sotogrande, na província de Cádiz,
é Marko Savic, mais conhecido pelo temido pseudónimo "Krastaça",
um colaborador próximo de Ratko Mladić e coautor de vários assassínios.
Savic, que terá escapado à justiça internacional
durante um quarto de século,
estava desaparecido desde o fim do conflito armado,
que terminou há 25 anos. Segundo os primeiros indícios,
o Krastaça terá vivido em Sotogrande com uma identidade falsa.
mais de duas décadas, o que lhe permitiu passar in...
Ao obedecer à lei, falhei à tua mãe.
Porque é que a matou?
Por uma vingança pessoal.
A tua mãe e eu colaborámos
com os aliados durante a Guerra dos Balcãs.
A tua mãe contactou a filha de Mladić para lhe dizer o que o pai estava a fazer.
E pedir-lhe que tentasse pôr termo às mortes.
Nunca parou.
Não.
E a filha suicidou-se.
Quando o Krastaça descobriu o que a tua mãe tinha feito,
assassinou-a.
Quando eu soube o que tinha acontecido,
jurei a mim próprio perseguir
todos os psicopatas que conseguiram escapar do sistema,
como o Krastaça.
E foi nessa altura que conheci o Augusto.
Papá.
Agora entendo-te melhor.
Não te vás embora.
Não vás, papá, por favor.
Filha, filha, tenho de o fazer e sabes isso melhor do que ninguém.
Agora faz o que prometeste e vai para casa.
Filho da puta.
Armando Lopategui.
Preciso que me acompanhe à esquadra, por favor.
Sempre pensei que se alguma vez fosse preso,
teria de ser o Sancho.
Poderei vê-lo na esquadra?
Não.
Onde é que está?
Está em Trieste?
Está em Trieste a perseguir o Augusto? Se assim for, é providencial.
Deixa-te de conversa. Vais explicar tudo na esquadra.
Espera, espera, espera, Matesanz.
Vou contigo à esquadra. Mas antes preciso de fazer uma chamada.
- Não, nem pensar. - É importante, é para o Sancho.
Fico a dever-te uma.
É sobre a Martina.
É a minha forma de ajustar contas.
Está bem.
Mas tenho de ver e ouvir.
Inspetor Ramiro Sancho, deixe mensagem ou ligue mais tarde. Obrigado.
Sancho, sei que não tens razões para confiar em mim.
Estou com o Matesanz.
Sei que estás em Trieste a perseguir o Augusto.
E também sei onde o podes encontrar.
Envio-te a localização.
O dia há de chegar, o dia em que tudo começa,
o dia em que tudo muda,
o dia em que nada será mais importante que tirar uma vida.
Então descobrirás que não há volta a dar.
É esse o objetivo a atingir.
Quando estiveres pronto para o alcançar,
visita a nossa página.
É esse o objetivo a atingir.
Quando estiveres pronto para o alcançar,
visita a nossa página.
ÉS MUITO INSISTENTE, PÍLADES
É A ERIKA. TEMOS DE NOS ENCONTRAR
PORQUE É QUE HAVIA DE QUERER VER-TE?
TINHAS RAZÃO. ENGANEI-ME NO IRMÃO
TU ÉS O CÉREBRO O TEU IRMÃO SÓ A FERRAMENTA
O QUE É QUE QUERES?
QUE ME DÊS O QUE O AUGUSTO NÃO SOUBE DAR-ME
TU ÉS O JARDINEIRO ENGANEI-ME NO IRMÃO
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