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Diego Maradona...
... passou de miúdo de rua a Deus do futebol.
O melhor jogador do mundo recebe o prémio mais importante do mundo.
Mas nunca desfrutaria da sua velhice, morrendo aos 60 anos.
A causa de morte foi insuficiência cardíaca,
mas o que terá mesmo matado Diego Maradona?
Este filme conta a vida extraordinária de um homem,
que era um viciado fora do campo.
O Maradona não só consumia cocaína,
como bebia muito álcool com a cocaína.
Também consumia uma mistura de medicamentos,
para manter o seu desempenho extraordinário.
Foi incrível ter conseguido sair a caminhar do estádio.
Foi assim que o estilo de vida letal de Maradona,
se tornou na receita perfeita para a sua morte.
Para quem conhecia Diego Maradona, a sua história é de génio
e trauma, com origens muito humildes.
Tenho memórias muito boas da minha infância,
que, para mim, foi muito boa. Sem luxos.
Não tínhamos o que os outros miúdos tinham, mas tínhamos liberdade.
Tínhamos campos onde jogar, ruas sem asfalto para podermos jogar futebol.
Tive uma infância feliz.
Diego, o miúdo que passa pela favela
e quer conquistar o mundo com o seu talento no futebol.
E que está sempre a recordar o tempo em que jogava futebol
com os amigos e quer ser aquele miúdo para sempre.
O meu maior sonho é jogar no Mundial
e o meu segundo maior sonho é ganhá-lo.
Acho que Deus, quando ele nasceu, deu-lhe um pouco de pó especial.
Ali estava ele, com uma personalidade enorme.
Mas nunca esqueceu que era o Diego dos bairros da lata de Buenos Aires.
E esse pequeno Diego foi a pessoa a quem me afeiçoei tanto.
Em criança, Maradona recebe um presente do tio.
Uma bola de futebol, que vai mudar a sua vida.
O Diego começou a jogar futebol graças ao seu tio Cirilo,
que costumava visitar frequentemente o pequeno barraco
onde viviam, em Villa Fiorito, e que lhe deu o seu primeiro brinquedo.
Fernando Signorini, o ex-treinador de Maradona, lembra-se da sua obsessão
com a simplicidade e a paz da sua infância.
Ele dizia-me que jogava até dez horas por dia,
muitas vezes sozinho contra a parede ou portão da casa.
Uma das muitas pessoas que reconhecia o potencial de Maradona
era um camionista local.
Têm de imaginar a cena. Um camionista argentino,
que tinha uma espécie de part-time a aconselhar a equipa juvenil local.
E ele vê um grupo de miúdos num terreno aberto e no meio,
vê um miúdo e é o Diego Maradona a fazer magia com o pé esquerdo.
Ele olhou para ele e disse, isto é uma espécie de dádiva de Deus.
O miúdo era incrível!
Pouco depois de se juntar a uma equipa local,
Maradona, de dez anos, sofre a primeira de muitas lesões.
Um defesa atacou-o violentamente.
Nessa noite, teve uma febre que chegou aos 40 graus.
Às seis da manhã seguinte, levaram-no ao Dr. Barman.
Foi a primeira vez, que lhe puseram uma seringa no joelho
e lhe tiraram sangue negro.
Foi a primeira lesão grave que o Diego teve
na sua carreira futebolística.
Maradona recupera e sobe na equipa júnior, Los Cebollitas.
Tornou-se membro desse clube emblemático,
que se tornou famoso na Argentina,
porque jogaram cerca de 250 ou 260 jogos sem perder.
As capacidades de Maradona são muito avançadas para a sua idade.
Ele é um prodígio.
Mas a sua infância pobre deixa-o em desvantagem.
A educação de Maradona foi muito difícil.
Era muito malnutrido em criança.
E a falta de vitaminas, falta de nutrientes e falta de energia
podem ter inibido o seu crescimento no início do seu desenvolvimento.
É muito importante perceber o que acontece nos seus primeiros anos,
para ver como tudo se transforma, quando se torna adulto.
Maradona inicia um tratamento com um médico local,
para desenvolver o seu físico.
Compreendia o Diego e dava a alguns membros da equipa uma dieta especial.
Juntamente com suplementos vitamínicos, para que crescesse.
Esse era um dos problemas. Diego não estava muito desenvolvido.
Estamos a falar de 1970, 1971.
E ele prosperou, em parte, graças à eficiência do tratamento.
Toda a área de drogas, o que davam aos jogadores,
era muito menos regulamentada do que é hoje. E na Argentina,
era mesmo muito caótico.
Três anos depois, o corpo do Diego mudou.
E dois anos depois, ele estreou-se na primeira divisão.
Aos 15 anos, Maradona é contratado pelos Argentinos Juniors.
É o jogador mais jovem a jogar na primeira divisão.
O Diego, nesses primeiros anos, estava destinado
a deparar-se com uma série de personagens duvidosas,
que diziam estar a ajudá-lo,
mas que não estavam a pensar no que era melhor para ele.
No início dos anos 80, Maradona passou de criança magra
a jogador de futebol bem constituído.
A partir desse momento, acho que por causa da magia do seu pé esquerdo,
tudo o que lhe aconteceu depois na vida veio ter com ele.
À medida que a carreira progride, o seu rendimento aumenta,
e a pressão para sustentar um número crescente de dependentes.
Ele era o chefe da família, uma família que, claro, já tinha
tinha saído da favela onde viviam.
Tinham apartamentos maiores, mas começaram a depender dele.
Para o Maradona, a família é tudo.
Com a família ao teu lado, podes jogar bem, podes estar calmo,
podes fazer muitas coisas. Sem família, não podes fazer nada.
Mas o mais importante para mim é que a minha família permaneça unida
e tenha a calma e a felicidade que têm agora.
Começa a sustentar a família,
o que significa que tem muita responsabilidade.
Sabe que não se pode lesionar, que tem de se sair bem,
que todos esperam que se torne um profissional de um calibre elevado.
Ou seja, que pague tudo, na verdade.
Mas essa responsabilidade também tem um preço.
Ele carrega o peso dessa responsabilidade,
não só por ele e pelo seu próprio sucesso,
mas pela sua família, os que mais ama, desde muito jovem.
E acho que isso significaria, que ele seria mais implacável,
mais disposto a fazer o que fosse preciso.
Mas, de certa forma, também a sofrer.
Em 1981, com 20 anos,
transfere-se para o lendário clube argentino da Primeira Divisão,
os Boca Juniors, por quatro milhões de dólares.
Ao chegar ao Boca, Maradona ganha reconhecimento nacional.
Foi, sem dúvida, o início
da sua ascensão na grande indústria do futebol.
Foi um ano antes do Mundial em Espanha,
em 1982, por isso, o seu valor enquanto jogador estava a crescer.
E era importante. Era um grande contrato na altura.
Abriu caminho para a sua inclusão na equipa argentina do Mundial,
que vai para a Espanha em 1982.
Neste momento, acho que é o jogador
mais importante do futebol internacional.
Maradona passa para o palco internacional no Mundial de 1982.
Ao lado de estrelas como Ossie Ardiles.
E com ele, outras estrelas de 1978, Mario Kempes marcou o primeiro golo,
Daniel Bertoni, o segundo golo,
e o novo ídolo, Diego Maradona, a marcar o terceiro golo.
O meu sonho, do ponto de vista familiar,
é que a minha família fique como está
e o meu sonho para o futebol é ganhar o Campeonato do Mundo de 1982.
Apesar das expectativas para a sua estreia no Mundial,
Maradona é expulso num jogo brutal com o Brasil.
E a Argentina é eliminada na segunda fase do grupo.
Tentaram formar equipa à volta de Maradona em 1982.
Os jogadores antigos ou os veteranos que venceram o Mundial de 1978
e os novos jogadores não jogavam muito bem juntos.
Apesar da derrota da Argentina,
a ascensão de Maradona de prodígio infantil a estrela está em curso.
Maradona gere a pressão crescente,
vendo-se a si próprio como tendo duas identidades diferentes.
Vemos muito que atletas famosos, têm uma capacidade psicológica
intensa para compartimentar, e no Maradona é quase uma divisão.
Descreve-a quase como uma divisão.
Manter uma parte do Diego à parte do que todos pensavam ter,
era um sítio onde ele se podia refugiar.
Nesta altura, o Diego não faz ideia de como Maradona vai crescer.
As capacidades de Maradona fazem dele um alvo para médios e defesas.
As lesões e o uso crescente de analgésicos
tornam-se cada vez mais frequentes.
Parte do problema é a tentação de usar
injeções de analgésicos e analgésicos para mascarar a dor.
Os efeitos são piores, porque a lesão é exacerbada,
pois jogou numa altura em que não devia ter jogado
e ignorou a dor.
Quando Maradona chega ao palco mundial,
as drogas estavam bem presentes na sua carreira futebolística.
Dar injeções ao Diego fazia parte da sua vida.
Fazia parte de ser o Maradona.
Desde que entrou para a primeira divisão,
era o preço que tinha de pagar.
Em 1982, Maradona é comprado pelo Barcelona,
pela quantia recorde de 7,6 milhões de dólares.
Entrar para um clube tão importante como uma estrela é uma grande honra.
Mas a mudança terá um efeito terrível no seu corpo e na sua mente.
Quando o Diego chega a Barcelona, de início, sente-se muito sozinho.
Mesmo muito alienado.
A milhares de quilómetros do seu país, do ambiente que conhecia.
Para combater a solidão, Maradona traz amigos
da Argentina para viverem com ele em Espanha.
Lembro-me de falar com alguns jogadores
e disseram que era como estar com um miúdo da escola,
que tinha sido atirado para um grande mundo em Barcelona
e que estava a tentar aceitá-lo, mas não estava nada preparado.
Sentir-se sozinho no balneário é apenas o início
dos problemas de Maradona no Barcelona.
As suas capacidades sublimes impedem-no de ser contido,
por isso, as equipas adversárias tentam eliminá-lo.
A 24 de setembro de 1983, Andoni Goikoetxea,
um basco de 1,90 metros de altura teve a brilhante ideia,
no jogo contra o Bilbao, no Camp Nou,
de lhe partir o tornozelo.
Diego teve dores insuportáveis que lhe aumentaram a ansiedade,
pois muitos disseram que poderia
não voltar a jogar, devido à gravidade da lesão.
Este golpe brutal do chamado Carniceiro de Bilbao,
não só deixa Maradona fora de jogo durante mais de três meses,
como vai afetá-lo até ao final da sua carreira.
Acabou por ter de tomar injeções de cortisona,
regularmente, no tornozelo esquerdo.
Foi difícil recuperar disso. Nunca recuperou totalmente.
O tornozelo não tinha a flexibilidade de antes,
mas teve, como sempre, de se adaptar.
Apesar da lesão, Maradona continua a jogar.
Na vida do Diego, jogar sem parar
fazia parte de ser o Maradona.
Ele era jogador de futebol, mas era o Maradona.
Por isso, tinha de estar lá e produzir resultados.
Tudo se movia em volta do Maradona, o jogador Maradona
e, nesse sentido, o Diego tinha de jogar mesmo quando não estava bem,
quando estava lesionado.
Após uma operação para reparar lesões ósseas e tendões no tornozelo,
e com o uso de analgésicos, ele regressa ao campo.
É muito fácil ficarmos viciados rapidamente em analgésicos,
pois é a saída. É o único caminho que temos,
para voltar a jogar diante dos fãs e das câmaras.
Mas outra droga nova entrou na sua vida.
Começou a consumir cocaína quando estava em Barcelona,
porque pensava que era como beber Cuba Libre nas discotecas.
O problema é que Maradona é uma estrela.
Tem uma personalidade forte, riqueza, amigos poderosos
e acesso a qualquer droga que queira.
É impossível dizer-lhe que não.
O próprio Diego, literalmente com o estalar dos dedos, com uma chamada,
com uma mensagem, pode receber o que quiser quase instantaneamente.
Maradona começa a mostrar sinais de dependência no álcool e cocaína.
Cocaína... Acho que foi a muleta que usou,
para conseguir enfrentar tudo o que o mundo exigia dele.
Ele, que era de Fiorito! Como ele disse um dia:
"Puseram-me no topo, mas deixaram-me sozinho
e ninguém me explicou como sobreviver."
O peso da fama, a perseguição quase sanguinária.
As drogas ilícitas e o álcool são desinibidores e entorpecedores.
Entorpecem a dor. Então, quando estava mais em baixo
e se sentia mais só e perdido,
foi fácil para ele virar-se para essas coisas, para lidar com isso.
A vida de Maradona em Barcelona tem sido marcada pela solidão,
lesões e o aumento do consumo de drogas.
Uma oferta de um novo clube fá-lo-á atingir novos patamares de glória
e de desespero ainda mais profundo.
Em 1984, Nápoles é uma cidade no limite.
Cheia de corrupção da Máfia e pobreza.
O povo tem duas alegrias na vida, o catolicismo e o futebol.
E estão prestes a ter um novo santo.
Diego chega como uma segunda vinda, num sentido real.
Todos os fãs que o adoram, acham que o salvador chegou.
Para Massimo Vignati, cujo pai geria os balneários do Nápoles,
no Estádio San Paolo, Maradona torna-se num amigo da família.
Foi como se nunca tivéssemos visto um santo
e depois Deus enviou-nos um santo vivo, em carne e osso,
Este é o Maradona para os napolitanos.
Maradona assina pelo Nápoles pelo valor recorde
de cerca de dez milhões de dólares.
O clube está no fundo da liga e pode baixar de divisão.
Desde o início, com 70 mil pessoas à espera dele,
até ao que foi realmente o início de uma história de amor,
a partir desse momento, ele percebeu que algo especial estava a acontecer.
Chamo-me Giuseppe Bruscolotti. Joguei no Nápoles durante 16 anos
e fui capitão durante seis, incluindo os anos em que o Diego lá esteve.
A receção calorosa em Nápoles,
foi como ganhar uma nova família para o solitário Maradona.
Mas esta é uma família de milhões e será cada vez mais exigente.
Quando viu como as pessoas o recebiam, imiscuiu-se rapidamente
no povo e, no fim, tornou-se um deles
e lutou sempre por eles, contra toda a gente.
Defendeu o Sul contra o poder do Norte.
Apesar do entusiasmo dos fãs e colegas de equipa,
Maradona começa a sua jornada em Nápoles com uma lesão.
Está a ter de lidar fisicamente com as lesões,
que já teve no tornozelo esquerdo.
As injeções a que tem de se submeter,
para continuar a jogar.
Agora, mais do que nunca, depende do alívio da dor para continuar a jogar.
Injeções de cortisona.
Não se esqueçam, estávamos numa altura em que se administrava
injeções de cortisona para os jogadores voltarem ao campo.
"OK, sentes dor, vamos dar-te uma injeção. Jogas para a semana."
Suspeito que lhe davam cortisona,
sistematicamente, por forma intravenosa
onde a cortisona não afeta só a articulação,
mas também o corpo todo.
E isto podem ter efeitos terríveis em coisas como o coração.
Anestesiado contra a dor,
Maradona vibra com o amor do povo de Nápoles,
e inspira a sua equipa a subir na Série A italiana.
Antes de ele vir, parecia impossível vencer a Juventus ou o Milão,
mas ele veio e disse: "Vou mostrar-vos como se faz."
E ele era o homem mais feliz do mundo.
Tinha uma habilidade inacreditável.
Acredito mesmo que Deus lhe deu a tarefa de o representar no futebol.
Em campo, ele era soberbo.
Era uma equipa forte e ele flutuava.
Ele estava na corrente,
era a sua melhor versão possível.
Fisicamente, era perspicaz, psicologicamente, era forte.
O culto ao herói dos napolitanos atinge novos níveis de intensidade
encorajada pela necessidade enraizada de adulação de Maradona.
Acho que ele adorava ser popular.
Adorava mostrar os seus talentos. Adorava o amor.
Obviamente, às vezes, era difícil e muito intrusivo.
Era o Diego. Adorava ser amado e adorava dar amor.
Uma vez, disse ao Diego que iria até ao fim do mundo com ele,
mas que não daria nem um passo com o Maradona.
Porque era insuportável. Não podíamos ir jantar,
pois eles punham a mão no prato para lhe pedirem um autógrafo.
Puxavam-te o cabelo para te afastarem.
Ele respondeu: "Sim, tens razão,
mas se não fosse o Maradona, eu ainda estaria em Fiorito, certo?"
Mas demasiado amor pode ser uma coisa má.
O culto ao herói é tão implacável, que pressiona mais Maradona.
Ele tinha de ser um Deus. Ele tinha de ser imortal,
já não podia ser normal,
porque isso seria uma desilusão.
E o custo disso,
psicologicamente, é dramático para um jovem.
Quando ele sai do campo, Maradona relaxa,
arriscando cada vez mais.
O Diego participava em festas nas quais os chefes
da máfia local eram os anfitriões. Sem dúvida, o Diego
quanto ao seu consumo de cocaína, estava a tornar-se mesmo abusivo.
E a sua vida noturna estava a tornar-se lendária.
A Camorra, o poderoso clã mafioso napolitano que controla a cidade,
fortalece a sua relação com Maradona.
Era fácil arranjar cocaína.
A Camorra era muito próxima dele. Convidava-o para festas.
Ele adorava aquele estilo de vida,
um estilo de vida de tudo o que se possa imaginar.
Festas que duravam muito tempo.
Ele era encantador! Todos queriam estar perto dele, era Deus na Terra.
Maradona desenvolve uma estratégia para manter a forma em campo,
apesar do consumo crescente de cocaína e álcool.
Havia dias de festa em Nápoles depois de um jogo.
Mas esses dias terminavam no dia em que o Diego dizia:
"Jogo daqui a quatro dias."
Não sei quantos dias eram, mas concentrávamo-nos.
E este corpo voltava a entrar em forma.
Mas estava a causar danos de longo prazo ao seu corpo.
O Maradona não consumia só cocaína,
também bebia muito álcool com a cocaína.
Um dos problemas da cocaína e do álcool é que resulta num metabolito,
chamado cocaetileno, que é muito mais potente do que a cocaína.
E significa que os efeitos da cocaína se mantêm por muito mais tempo
e é muito mais prejudicial para o coração e para o fígado,
comparado com apenas a cocaína.
Ambas as drogas prejudicam o coração, mas a combinação é letal.
O tempo que Diego Maradona passou em Itália, em Nápoles,
é, diria eu, um capítulo determinante da vida dele.
Foi também um período em que a descida catastrófica,
a nível pessoal, começou. Não só no seu abuso das drogas,
mas também a desintegração da sua vida pessoal.
Era um ambiente asfixiante.
Eram injeções, porque ele tinha dores por todo o lado.
Eram os fãs que queriam mais, A Camorra que estava ao seu lado,
ele a abandonar-se, porque tinha de desaparecer
desse mundo e voltar para continuar a jogar.
Era esse o mundo que ele tinha no Nápoles.
E como se tudo não se pudesse tornar ainda mais extremo,
o jogador mais amado do mundo, vai tornar-se num dos mais odiados.
Maradona é selecionado parar ser capitão da Argentina
no Mundial de 1986, no México.
Diego levava a Argentina no coração.
Sentia muito isso. Ele era um argentino...
Ele personificava a Argentina.
Está confiante de que pode levar a Argentina à vitória.
Ele acreditava tanto no seu talento
e acreditava tanto que era único. E também queria ganhar.
Historicamente, a França e a Alemanha Ocidental saem-se sempre bem,
mas a Argentina e a Inglaterra estão muito fortes.
Sabendo da sua vulnerabilidade a lesões,
os adversários fizeram-lhe 53 faltas durante o torneio.
O Diego jogou numa altura em que lhe bateram imenso.
Pontapearam-no em todas as partes do corpo. Saltaram para cima dele.
Deram-lhe cotoveladas e os árbitros permitiam-no.
Na altura, os árbitros não protegiam, nem defendiam muito o talento.
Havia golpes que eram, na verdade,
muitas vezes, mal-intencionadas.
Estavam praticamente a tentar quebrá-lo.
Maradona acabava um jogo,
tendo recebido mais placagens e sofrido faltas com mais frequência.
Inevitavelmente, os desafios de ser um homem marcado
significavam que sofria mais lesões.
Na preparação para o último Mundial,
a Argentina e a Inglaterra estiveram em guerra sobre as Malvinas.
Ao enfrentarem o seu inimigo, os olhos do mundo estão em Maradona.
Diego Maradona domina o torneio sozinho.
Todos falavam dele, pois estava no seu auge.
O golo "Mão de Deus" de Maradona é permitido e dá vantagem à Argentina.
Foi vingança, por essa humilhação nesta guerra,
contra os ingleses imperialistas.
É seguido pelo golo do século.
O seu segundo golo ficará marcado
como um dos melhores golos de sempre na final de um Mundial.
Quando ele ganhava aqueles jogos importantes,
parecia uma criança.
Uma criança a ganhar pela primeira vez.
Maradona realiza o seu sonho de infância.
O meu primeiro sonho é jogar no Mundial
e o meu segundo sonho é ganhá-lo.
Pouco mais de um ano depois, Bruscolotti joga com Maradona
com o Nápoles a ganhar a Série A italiana.
Quando ganhamos contra equipas como a Juventus e depois as Milanesas,
para os napolitanos, é das melhores sensações do mundo.
Todos chegámos aos céus.
Agora, uma vida normal para Maradona era uma memória distante.
Ao conduzir por Nápoles, saltavam-lhe para cima do carro.
Parava nos semáforos e saltavam para o capô para lhe tocarem.
Era como um Deus.
O desejo do Diego era poder andar livremente por Nápoles,
mas as pessoas adoravam-no.
Gostavam tanto dele que não se lavavam se tocassem no Maradona.
O problema é que mudava assim que saía à rua,
porque Nápoles era mesmo sufocante.
Era impossível ele controlar aquele ambiente.
Mesmo que o Diego quisesse exibir-se, ou ser o centro das atenções,
apesar de ele gostar disso, é claro...
De certa forma, foi por ele ser demasiado simpático.
Não conseguia dizer que não às pessoas de quem gostava.
Por isso, eles juntavam-se a ele.
A adulação intensa em Nápoles estava a tornar-se insuportável.
Ao divertir-se nas discotecas, ele parece procurar o esquecimento.
A ideia de escapar, de entorpecer, de nos tornarmos noutra coisa,
de estarmos livres da dor de sermos nós, quer seja física ou emocional,
por umas horas, é muito apelativo.
Ele já consumia uma quantidade enorme de cocaína.
E, claro, a única forma de ele sobreviver àquilo,
naquela altura, era aquela muleta que era a cocaína.
Agora, quase nos trinta, viciado e com lesões persistentes,
manter-se em forma para jogar, requer cada vez mais esforço.
Fisicamente, estava com dificuldades.
Quer fosse no dedo do pé, nas costas ou no tornozelo.
Havia sempre um problema.
Maradona tinha um ciclo de lesões, voltava aos treinos,
jogava a um nível elevado e depois sofria mais lesões.
Ele levou muita pancada. Era incrível tendo corrido
e sido pontapeado durante 90 minutos,
que conseguisse sair a caminhar do jogo.
Maradona era obrigado a jogar semana após semana.
Ele não teve muito tempo livre.
Podem imaginar que um jogo de futebol de 90 minutos e treino intensivo
estão associados a lesões musculoesquelética
e dores que teve de suportar.
Campeonato do Mundo Italiano de 1990.
Maradona, de 29 anos, volta a representar com orgulho a Argentina.
Foi um torneio muito difícil.
Jogava num clube italiano, mas representava a Argentina.
E está prestes a descobrir, que o grande amor pode mudar de repente
e transformar-se num ódio intenso.
A Argentina eliminou a Itália do Mundial em casa.
E é o fim! O sonho da nação anfitriã!
Deve ter sido muito difícil para ele ter as lealdades divididas.
Ele recebia muito amor dos dois lados e sentia muito amor pelos dois lados.
Com este torneio, começou-se a ver o princípio do fim
do tempo do Diego em Itália.
Os adeptos italianos de Maradona criticam o seu antigo herói.
Para um homem que vive da adulação, isto é profundamente traumático.
Lembram-se das cenas em Roma, com os assobios e as críticas?
Jamais esquecerei essa imagem.
Ele chorou. Foi a maior e mais amarga tristeza para ele.
Depois disso, a Itália decidiu desistir dele.
Tornou-se demasiado vocal, demasiado exigente para o clube.
É uma forma de rejeição psicológica e traumática,
que nem sempre faz sentido para a pessoa.
Por esta altura, as coisas já se tinham desintegrado
e ele procurava tranquilidade fugindo.
Maradona começa a aceitar
que o seu consumo de drogas e álcool é um problema grave.
Começou a falar mais sobre o assunto,
sobre como as drogas o afetaram.
Lembro-me de um dia ele me dizer:
"Não fazes ideia do quanto estou a tentar deixar o Fer,
mas não consigo."
Infelizmente, consumiu substâncias
das quais era quase impossível recuperar.
Se ele pisasse essa linha, não poderia voltar atrás.
Numa entrevista, Maradona admitiu que estava viciado em cocaína
e que iria ser uma constante,
para o resto da sua vida.
Do Nápoles, para onde iria? Não lhe restava nada para alcançar.
Só lhe restavam as drogas.
Não digo que é para onde se deva ir, mas é para onde as pessoas vão.
Em março de 1991, os dias de glória de Maradona em Itália
terminam da forma mais feia e pública.
Um teste de drogas revela cocaína no seu sistema.
O vício é algo terrível. E isso está cientificamente comprovado.
A força de vontade não chega, quando se chega a um ponto tão extremo.
E ele não era o Maradona só por um dia.
Sem dúvida, que ele tinha consumido cocaína,
mas insistiu que não a consumia para melhorar o desempenho.
Maradona está proibido de jogar pelo Nápoles durante 15 meses.
O homem que realizou os seus sonhos de infância
vê-os transformarem-se num pesadelo.
Rejeitado por Nápoles, Maradona joga por um curto período em Espanha,
antes de regressar a Buenos Aires.
Ele disse-me e sempre disse, que o vício é mesmo uma doença.
Não se pode tratar alguém doente, como o futebol o tratou.
O futebol devia cuidar dos que sofrem deste vício
e dos que estão doentes.
Na Argentina, ainda há um grande amor por Maradona.
E em 1994 recebe uma tábua de salvação
para liderar o seu país no Mundial na América.
Quando chega aos EUA, é considerado estar razoavelmente em forma
pela seleção nacional e pelos médicos nacionais
e pela FIFA para jogar no torneio.
Ele supera os seus demónios e luta para ficar em forma para jogar.
Preparou-se muito bem para os Mundiais.
Ele esforçou-se mais do que os treinadores lhe pediam.
Perdeu peso, manteve-se alerta e desenvolveu resistência suficiente.
Todo o esforço que ele fez, incluindo o facto
de querer deixar a cocaína e de a ter deixado em Buenos Aires,
sem sequer levar um miligrama com ele.
Maradona, de 33 anos, é uma revelação no seu primeiro jogo.
A sua velocidade e precisão em campo parecem ser as de alguém mais jovem.
Mas, depois, surge um momento louco e revelador.
Diego marca um golo, corre para as câmaras e grita.
E a foto que se torna viral por todo o mundo,
dá um aspeto quase demoníaco a Diego.
E todos perguntam: "O que é que ele consumiu?"
No jogo seguinte, contra a Nigéria, é submetido a um teste antidoping.
Testou positivo a cinco tipos diferentes de efedrina.
O fármaco usado para melhorar o desempenho foi banido
pela FIFA há muito tempo.
O Maradona tinha cinco tipos diferentes no sangue,
incluindo pseudoefedrina, não pseudoefedrina, metefedrina,
e fenilpropanolamina. São cinco tipos diferentes,
sugerindo que não eram algo
consumido por razões medicinais.
Alguns destes agentes fazem-nos sentir muito felizes e eufóricos,
e também suprimem o apetite.
O coração trabalha muito. Bate vigorosamente.
A tensão arterial está muito alta. Além de dar uma pedrada a alguém,
está a causar uma pressão enorme sobre o coração.
Quando as notícias chegaram, era incompreensível
porque tinha feito um esforço brutal.
A notícia inevitável chega pouco depois do teste positivo.
Maradona está banido da FIFA durante 15 meses.
Diego Maradona continua suspenso das atividades futebolísticas.
Apesar da vergonha, da sua saúde deteriorada e do seu estilo de vida,
está desesperado para se manter no jogo
e volta a juntar-se ao seu antigo clube, o Boca, em 1995.
Regressou ao Bombanaira como um herói que volta a casa,
embora claramente obeso.
Não parecia um jogador que fosse capaz
de se manter em forma em todos os jogos.
Ele não dormia bem e tomava muitos comprimidos para dormir,
que não combinam bem com álcool.
Décadas de brutalidade em campo,
combinadas com o seu estilo de vida excessivo
finalmente apanharam Maradona, e começa a notar-se.
Os últimos 20 anos da sua vida foram uma série de idas ao fundo do poço,
em termos do seu vício, e de depois tentar voltar ao futebol.
Finalmente, num jogo emocional, em 1997, o melhor futebolista
de sempre, admite que os seus dias de jogador acabaram.
Mas agora tem de enfrentar a vida sem o futebol.
Perder o futebol era tudo para ele.
Tirar o futebol ao Diego, deixou-o vulnerável.
Maradona vira-se para o alcoolismo.
"O que faço agora?
Já fiz tudo. Não é ótimo? Vou beber um copo."
Porquê? Porque queres ir para outro sítio pequeno.
Fora da tua cabeça.
A grande chamada de atenção chega no ano 2000.
Maradona tem o seu primeiro ataque cardíaco.
É muito triste.
Era tudo autodestruição, era sempre a descer.
O ataque cardíaco resulta de uma overdose de cocaína.
Ele foge para Cuba para fazer uma desintoxicação,
com o apoio do seu amigo Fidel Castro.
Agora, na casa dos 40, Maradona tenta salvar-se.
Maradona entra num círculo vicioso de reabilitação, recaídas
e de aumento de peso.
Em 2004, tem outro ataque cardíaco e, desta vez,
não pode ser culpado numa única overdose de cocaína.
Sou fã do Diego, espero que ele recupere.
Aguardamos as últimas notícias da clínica
e queremos que corra tudo bem ao Diego.
Maradona sobrevive e é submetido a um bypass gástrico,
para aliviar a pressão da obesidade sobre o seu coração.
Mas este procedimento tem as suas desvantagens.
Se estamos a falar de um tipo como Maradona,
que consumia cocaína há mais de 22 anos,
este aumento prolongado do ritmo cardíaco
durante muito tempo na sua vida,
teria feito com que o coração ficasse muito fraco.
E nesse tipo de pessoas, a perda de nutrição que acompanha
a cirurgia bariátrica
pode ter acelerado a sua insuficiência cardíaca e morte.
Apesar da cirurgia, o peso de Maradona ainda flutua muito,
mas ele está desesperado por voltar à ribalta do futebol
e assume um papel de treinador.
Regressou como treinador da seleção.
Regressou como treinador de uma equipa mexicana.
Voltou como treinador de uma equipa do Médio Oriente.
Quando faz 50 anos, a sua esperança de uma vida diferente no futebol,
são constantemente destruídas pela sua saúde.
O seu estilo de vida e os seus hábitos foram certamente um fator.
Um homem com ataques cardíacos,
que se sabia ter outros problemas cardíacos,
que consumia agentes, que contribuíam para isso.
Em novembro de 2020, Maradona é operado de urgência
para remover um coágulo de sangue do cérebro.
Acho que os anestesistas, se preocupariam muito com o risco
durante o período perioperatório. Ajudá-lo a sobreviver à cirurgia.
Ele era um indivíduo de alto risco para qualquer tipo de cirurgia.
Os fãs esperam que o seu ídolo recupere,
como sempre aconteceu.
E os seus representantes dizem-lhes o que querem ouvir.
O Diego terá alta em breve. Ele não sai hoje, mas em breve.
E informá-los-ei quando isso acontecer.
Tragicamente, dias depois, o coração de Maradona deixa de bater.
A 25 de novembro de 2020,
é encontrado morto em sua casa, em Buenos Aires.
Diego Armando Maradona morreu hoje, aproximadamente às 12 horas.
A autópsia será feita na morgue do hospital de San Fernando.
Um dos melhores jogadores de futebol de sempre morreu aos 60 anos.
A causa da morte foi insuficiência cardíaca e não tenho qualquer dúvida
de que estes problemas cardíacos
se deveram aos hábitos de consumo de cocaína
e de álcool que ele tinha criado.
Contribuíram para a sua morbidade e eventualmente para a sua morte.
Sabemos que, geralmente, os atletas vivem mais sete anos
do que a população geral.
Então, alguém como ele, que tinha sido extremamente atlético
morrer aos 60 e poucos anos, é uma morte muito prematura.
Uma autópsia preliminar relatada pelos média argentinos,
revela um edema pulmonar causado por insuficiência cardíaca.
Mas uma vida cheia de pressão, vício e abuso do seu corpo
contribuiu para conduzi-lo até aqui.
Sim, ele morreu. É incrível, não é? Mas eu já esperava isso.
Tinha quase a certeza disso.
Até disse a um amigo: "Está perto do fim."
Mas não pensei que fosse tão rápido.
Tendo vivido uma vida impossível para um ser humano,
querendo fazer mais do que o possível para qualquer ser humano,
o Diego continuará a ser o que sempre foi,
um miúdo que jogava futebol, que foi o melhor de todos.
Se Maradona tivesse nascido numa altura diferente,
teria sido tratado de outra forma. Não teria sofrido tanto.
Teria sido melhor aconselhado e não só teria sobrevivido,
como teria jogado muitos mais jogos.
Tradução: Dina Guimarães Iyuno-SDI Group
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