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No vale Abraão,
Lugar do Homem chamado inutilmente à consciência do seu orgulho,
de vergonha, de cólera,
passavam-se e passam-se coisas que pertencem ao mundo dos sonhos,
o mundo mais hipócrita que há.
O patriarca Abraão tinha um costume arcaico:.
o de usar a beleza da mulher, Sara,
como solução das suas dificuldades.
Para isso, intitulava-a sua irmã,
o que lhe deixava caminho para o desejo dos outros homens.
No século XVIII,
o rio Paiva servia de limite sul à tenência de Lamego
e lá vivia um físico engenhoso e curador de fleumões malignos,
chamado Abraão de Paiva.
Apanhado em maus lençóis com uma dona de Moimenta,
que abortou em condições desastrosas,
ele deu-se ao cuidado de descer a ribeira de Balsemão
e ir cair em sítio recatado,
como convinha à sua sina ofuscada.
o Vale de Abraão,
com as suas quintas e lugares de sombra,
que parecem acentuar a memória de um trânsito mourisco,
que, de Granada, trazia as mercadorias do Oriente.
O actual descendente destes Paivas chama-se Carlos.
Estudou medicina no Porto.
Casou com uma viúva e ficou ancorado na quinta de Vale Abraão.
Um dia, Carlos Paiva veio a Lamego, uma cidade ao lado de Vale Abraão,
por altura das festas de Nossa Senhora dos Remédios.
Aí, deu com a feita de 14 anos de um homem de bons modos,
a comer uma cambulhada de enguias num restaurante da praça.
Ema viu um sinal naquela estrela da festa.
São pingo de mel. E frescos.
Não, não!.
Deixe-lhes, para que se saboreie a especialidade.
Agradece ao menos a gentileza deste senhor.
- O senhor... - Carlos. Carlos de Paiva.
Carlos?
Obrigada, Sr. Carlos.
Carlos, sim, Carlos.
Médico e lavrador, para servi-la.
Lavrador e médico? Eu já sofri males de saúde.
Mas está aí de pé. Por favor, sente-se.
Males, sabe, coisas de saúde que, estranhamente,
me foram passando com a idade. E o que é mais curioso...
A alma do velho iluminou-se com a presença de um médico lavrador.
Contou-lhe as doenças passadas
como quem conta a viagem da Nau Catrineta.
Sobre a mulher, falou pouco.
Não era remota a viuvez e sentia a falta da bonita esposa,
parecida com Ema, que era filha única.
Era muito parecida com a minha filha.
Tenho um tio na Penageia, em Estremadouro.
Ah, sim? Eu também tenho lá família.
De Estremadouro saíram com um parentesco que os aproximou mais.
O velho deu-lhe o endereço e convidou-o a visitá-lo
e que o chamava, se estivesse doente.
Eu fui realmente restabelecendo-me e hoje sou uma pessoa quase saudável.
Mal sinados doutores.
Só são bem-vindos para purgas e sangrias.
Ema achou-o parvo.
Ninguém mais se purgava para aliviar os humores
e muito menos lancetava as veias.
Mas percebeu que ele falava com arte e varonil graça.
Não o viu mais, nem pensou nele, nunca.
Carlos Paiva voltou para casa.
A mulher estava a lavar os pés, que tinham um petigo nos dedos
e aplicava pós amarelos.
Ela era carrancuda, ralhava alto, vestia-se mal.
De repente, Carlos deu conta disso tudo
e tornou-se manso e amável com ela.
Deu-lhe razão em tudo, ela desconfiou.
Viu alguém.
Pensou com a lucidez de condenado à morte.
Começou a espiá-lo.
O tempo passou e não aconteceu mais nada.
Sabe-se lá quando o coração sofre
ou ganha carvão para manter o calor.
- Ouve lá, onde fica o Romesal? - Onde fica o Romesal?
- Responde lá, pá. - O Romesal está aí à sua frente,
mas cautela. - Sim, vá com cuidado.
Não havia que dizer quando Paulino Cardeano mandou subir Carlos.
Estava enroupado numa velha sâmara,
era um dia de Outono frio e não havia aquecimento na sala,
ao cimo da escadaria.
Então o que o traz por cá, Dr. Carlos...
- Paiva. Carlos Paiva. - Exacto. Dr. Carlos Paiva.
O que eu procurava, Sr. Cardeano, era um vinho fino,
e conhecedor como sei que é, vinha pedir-lhe conselho.
Queria uma coisa garantida, de adega particular.
Eu não tenho, mas pode-se arranjar. Mas é mais caro, Senhor Doutor.
Bebida de reis.
Mesmo os reis bebem as zurrapas, julgam que estão a ser bem servidos.
Eu sou, posso jurar.
Ema parecia mais bonita,
com os seus cabelos loiros a caírem-lhe como fios de ouro
sobre a grossa lã do pulôver de pescador.
É o Dr. Carlos.
Lembras-te, em Lamego?
Não.
Não me lembro.
Ema disse que não, mas recordava-se.
E achou-o bonito, com dentes certos e brancos,
dentes de caixeiro,
ela pensava que os caixeiros tinham que sorrir muito
e deviam ter os dentes assim.
Em Lamego?
Sim, em Lamego.
Tenho de ir ver alguns doentes.
É visita de médico, e é mesmo.
Ema, traz um cálice e umas bolachas.
Não há bolachas nenhumas.
Não se incomode.
Inesperadamente, Carlos deu com o oratório antigo,
que o surpreendeu na sua originalidade e beleza.
É uma bela peça. Uma herança antiga,
da devoção da minha irmã Augusta, que hoje não está em casa.
Cala-te, Jordão!. És parvo ou quê?
Cardeano foi acompanhar Carlos e o fez sair como o fizera entrar,
pelo portão principal, que não se abria quase nunca.
Carlos atirou-se para dentro do carro,
com uma amargura absurda,
dizendo para consigo:. "Quem se julga ela?"'
Ema ficara órfã aos seis anos.
Tivera uma vez dor de ouvidos
e deitaram-lhe leite materno para suavizar.
Lembrava-se desse lento gotejar e do seio brando a que se encostava.
O resto era um secreto e alucinado parentesco com o ventre donde viera,
onde tudo se movia com uma elasticidade confortável.
Talvez as paredes do útero, raiadas de pregas que cediam ao seu peso,
à nutrição, ao crescimento dos pés e das mãos.
A tia Augusta comunga todos os dias,
e reza tanto que deve ter no Céu uma cadeira de braços.
Tens razão no que dizes. Nosso Senhor sabe
que eu não posso estar muito tempo sem pousar os cotovelos.
Mas olha, Ema, devias crer mais em Deus,
e rezar,
e não leres esses romances de amor.
As mulheres não têm que ler livros.
Não são coisas que verdadeiramente lhes interessem.
Por quê?
Por quê? Porque elas são muito poderosas,
mesmo sem lerem o Amadis de Gaula e o Rolando Furioso,
que, no entanto, amaram senhoras sem letras
e sem latim nenhum.
Ema olhava o oratório
como se despojasse do peso de uma farda
cheia de bordados e condecorações.
Ao tempo, era uma memória teatral e inumana da mãe defunta
estendida diante daquele móvel, que funcionava como um cenário.
A tia receia de mim. Sentia-se mais segura se eu fosse para freira.
Gostava de me ver com touca
e um rosário à cinta, como a tia usa.
Aquele riso, fino e vibrante, era como o canto da fêmea
em resposta ao apelo distante do rouxinol macho.
Menina, que modos!. Mais continência.
Freira, a nossa menina...
- Sim, parece que sim. - Era o que mais faltava.
Marina tinha um génio bravo
e os rapazes que a pretendiam recuavam, pensando o caso.
Também digo, tão boa e tão bonita,
meter-se num convento. Credo!.
Branca era mais dócil: Gostava de homens, sem submissão,
apenas por vício.
Alice tinha o seu plano,
casar um dia com alguém acima dos seus meios.
Todas traziam novidades.
A lavadeira era muda, de uma família de mudos e de idiotas.
Mas ela, Ritinha, singularmente curiosa e alegre de perceber o mundo,
parecia um tronco de videira forte, mas flexível.
A casa era um ninho de abelhas,
que fervilhava de ditos, intrigas, coisas maliciosas.
Falavam do desejo e do sexo, ou de paixões várias e sentidas.
Ela não ouve, não adianta falar-lhe.
Não ouve, não. Mas sabe mais do que nós.
Lá isso é verdade.
Até conhece a casta da uva só pela nódoa da roupa.
E pelo sangue dos panos?
Se é vermelho e fresco, ela conhece logo que é virgem.
Se for escuro, diz que é de mulher casada,
se for mais carregado, então é porque está para acabar.
Ora, ora, sabes que mais? Vá-se lá saber o que ela sabe,
se não fala. - Não fala, não.
Mas a gente não vê nos olhos o que ela não diz?
E nos gestos como reage?
E como não há de reagir um homem com tão boas mulheres, que me dizem?
- Olha, olha, não querem lá ver!. - Olha, olha, digo eu!
Então não é pena vê-las aí com os braços metidos na água fria,
quando seria melhor estarem metidos no calor de um homem.
- Não querias mais nada. Estafermo! - Eu querer, queria,
se fosse uma como tu... - Some-te mas é daqui, raio de homem!
Ai, que raio de mulheres!
- Ai os homens! - Suspiras, mulher?
- E tu, se calhar não... - E não.
- E sim. - E não.
- E sim. - E não, pronto.
Pronto? Pronto, não!
- Pronto, sim! - Pronto, não!
Ora sim, ora não. Ora sim, ora não.
Ora não, ora sim. Ora não, ora sim. Ora, ora!
Ritinha, bonita como era,
não escapava à concupiscência dos homens,
em cujo olhar ela via um abismo que a atraía como um imã.
Mas resistia.
Mesmo quando lhe apareceu um apaixonado de quem gostava
e queria casar com ela.
Pressentiu que o futuro lhe daria filhos surdos-mudos,
e que o marido se mataria depois, por desgosto.
E assim se conservou pura, até ao fim.
Até aos 14 anos,
Ema podia dizer-se que não pôs o pé fora de casa,
mesmo no dia da Comunhão Solene,
recebeu o Senhor no oratório de sua casa.
Saiu uma vez, e só para se mostrar às senhoras Mellos,
gente distinta, avaliadora, culta, que passava o Inverno em Cascais.
Agora, estavam no Solar do Viço.
Eram duas irmãs, uma viúva.
Ema entrou, disfarçando o seu ligeiro cambalear.
Subiu a escadaria de pedra e assustou-se quando,
ao dar a volta no patamar, se viu reflectida inesperadamente no espelho
e ficou como que hipnotizada.
Depois entrou na sala grande,
e as irmãs, assim que a viram e sem troca de palavras,
entre elas transitou o mesmo pensamento nefasto.
"'Esta menina já é uma mulher assustadora. "'
Ema significava a extremidade de qualquer coisa.
A sua beleza constituía uma exuberância
e, como tal, um perigo.
Há qualquer coisa que repugna.
Tudo nela tem um ar sinistro,
a começar pela beleza. - Acha-a assim bonita?
Não sei como explicar.
A beleza dela confunde-se com uma espécie de génio.
Aproxima-te!
Queremos ver-te!
Sim...
Queremos ver-te, de perto.
Estás muito bem.
- Não acha, mana? - Não está mal. Não está mal!
Ema abriu um sorriso como se fosse para morder,
e as manas Mellos concluíram, em definitivo e sem dúvida,
que a menina seria uma mulher ameaçadora.
Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores,
agora e na hora da nossa morte. Amém.
Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco,
bendita sois vós entre as mulheres,
bendito é o fruto do Vosso ventre, Jesus.
Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós, pecadores,
agora e na hora da nossa morte. Amém.
Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco,
bendita sois vós entre as mulheres,
bendito é o fruto do Vosso ventre, Jesus.
Pai Nosso, que estais no Céu, santificado seja o Vosso nome,
venha a nós o Vosso reino, seja feita a Vossa vontade,
assim na Terra como no Céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje,
perdoai-nos as nossas ofensas...
Então as senhoras Mellos?
Olhe, pai...
... nada agradável.
Farejaram-me como se eu fosse um animal.
- Mas é gente muito educada. - Sim, talvez.
Uma educação própria para cabeças duras e nervos a condizer.
Não estarás a ser demasiado rigorosa, minha filha?
Digo o que sinto, pai.
Tenho uma surpresa para ti.
É para recordação da Comunhão Solene.
Insolentes! Hão-de pagá-las!
Ema não sabia como enfrentar esse grupo tão acirrado,
capaz de a desnudar com um furor cego e fútil.
Mas não seria imaginação e eles estavam inocentes?
E só ela era a causadora de uma vontade aterradora,
fechada a qualquer generosidade.
O desejo deles parecia-lhe uma coisa lúcida e criminosa,
e a única coisa por que se esperava tão pacientemente, a morte.
O fato de Ema frequentar muito a varanda
provocava bastantes percalços.
Aquele muro era uma espécie de baluarte.
Também acontecia atropelarem gatos e cães,
ou seguirem em ziguezague até à recta seguinte,
causando pânico nas redondezas.
As coisas foram piorando
e chegaram aos ouvidos das autoridades.
Marina! Alice!
Que gente tenho eu comigo que não sei o que se passa aqui.
O que é que há com a menina?
O Sr. Presidente veio queixar-se
que os veículos vão contra o muro da varanda por causa da menina,
e que até há mortos!
- Responda, Marina! - A menina... A menina Ema?
- Sim, a menina Ema! - Pois, a menina Ema.
Bem, a menina Ema parece que vai espreitar à varanda,
mas não é sempre.
Mas isso de se despistarem deve ser por causa dos janelões da varanda,
que encandeiam os motoristas, não é por causa da menina.
Absolutamente.
Quando Cardeano usava o advérbio "'absolutamente"',
fazia como os advogados, para ganhar tempo.
Ficou assente que eram os vidros dos janelões da varanda-estufa que,
abrasados pelo sol, expediam faíscas e cegavam os motoristas.
Aquela varanda envidraçada estava cheia de begônias
e avencas e cólios vermelhos.
Dali se acenava o comboio das 4,
que levava para o Porto os parentes e as visitas.
Estes meninos são uns amores, uns amores.
A Ema adoeceu gravemente aos 5 anos.
Não faltaram as promessas. Restabeleceu-se,
mas ficou lesionada da perna esquerda.
Ficou aleijada. Foi uma pena.
- Mas nem se dá conta. - Como não se dá conta?
Estás a ver, este não grama a menina Ema.
Não admira, a beleza é aquilo que mais abate o nosso fingimento.
O Nelson abandonara a ideia de ser padre e meteu-se com Branca,
a criada da casa, em escondidos amores,
mas estava enamorado por Ema.
Não me acho assim bonita.
É porque não se quer ver ao espelho.
- Este gosta dela. - Estou a ver, estou a ver.
Mas lá por causa daquele maldito muro, daquela varanda fatídica,
aqui o nosso presidente da Câmara, o Sr. Homero, um amigo, veja lá,
e queria que eu mandasse recuar a janela, imaginem.
Eu cheguei a temer um mandato de prisão para a minha filha.
Não é bem assim, Sr. Cardeano.
Bem vê, o meu cargo impõe responsabilidades.
E o povo queixava-se.
Só lhe digo:. o que um pai sofre, Sr. Homero, o que um pai sofre.
É o preço de ter uma filha tão bonita.
O que ela não torna é a aparecer naquela maldita varanda.
- Tão bonita e ainda não tem noivo? - Meninas bonitas devem casar novas.
- Pois, pois... - Eu também acho, eu também acho.
Eu não devia comer doces, mas sou tão gulosa.
Mas diz muito bem, diz muito bem, a Ema já está na altura de casar.
Ela tem muitos pretendentes.
Fico sem a santa companhia de uma filha,
mas posso ter uns netinhos assim traquinas,
como o Dr. Carmesim e a Chélinha, são uns amores, uns amores.
Que dizes, Ema?
Meu pai, não vamos falar disso aqui.
Qual maior amor do que o do esposo,
para quem a formosura é obra de muito amor.
Que linda frase...
Branca, mas que desastrada!
Ema, que desplante!
Certo dia fui à caça, lindo canário cacei.
Fui levá-lo de presente à filha do nosso rei.
A filha do nosso rei, ela é rica e brasileira.
Mandou-lhe fazer uma gaiola da mais fininha madeira.
Depois da gaiola feita, seu canário meteu dentro.
Quer de dia, quer de noite, é o seu entretimento.
O canário saltou fora, apanhou uma constipação.
Mandaram chamar uma junta de 21 cirurgiões.
Depois da junta chamada, só veio o piolho e a pulga.
Morreu o triste canário, lá foi para a sepultura.
Pela derradeira noite, teve uma grande função.
Nas costas de uma formiga, bate certo, ó rica Zefa,
pus-me a dançar o malhão.
Nas costas de uma formiga, bate certo, ó rica Zefa,
pus-me a dançar o malhão.
Sonhos, apetites, manias,
que nada mais são do que o desejo de ser outra pessoa.
De arrancar desses símbolos do corpo o sexo e os olhos,
que primeiro pecam.
A natureza da pessoa em toda a sua difusa corrente de movimentos.
Movimentos ignóbeis,
porque são idênticos à antiga hoste de mulheres profetas,
consagradas a uma ascese que os homens proíbem,
para atribuir ao amor a mediocridade vivida por Eros.
Ema sabia os casos de indizíveis percalços,
em que o amor desempenhava um papel decisivo,
porque sustentava a permanência da juventude
através desse espírito de submissão.
O tempo passou, a tia Augusta adoeceu,
e a morte veio súbita e inesperada, como sempre.
Ema sofre um choque.
Apesar de modesta e silenciosa como era a tia Augusta,
sentiu muito a sua morte.
A criada, Branca, não pôde ajudar em nada.
Acometida de fortes dores de barriga, ficou de cama no seu quarto.
E Paulino Cardeano mandou chamar à pressa o Dr. Paiva.
Carlos surpreendeu-se ao ver Ema mais bela e esbelta,
agora tocada por uma mágoa.
Ema achou Carlos abatido
e descobriu nela própria um apetite pelas coisas tristes,
como se fossem o galardão dos seus sacrifícios.
Obrigado por ter vindo à minha chamada,
mas aconteceu tudo de modo precipitado.
Desgraças. Só desgraças vêm ter comigo.
Cheguei tarde, quer dizer que cheguei tarde.
Não foi por causa da minha irmã, coitada, foi uma coisa inesperada.
Deus a tenha com Ele.
- Os meus sentimentos. - Muito obrigada.
Muito obrigado, muito obrigado.
Mas agora reparo, também está de luto.
Por morte de minha mulher.
E foi uma coisa também assim, súbita.
Lamentamos muito. Os nossos sentimentos.
Muito obrigado.
Os sacrifícios de Ema eram aborrecer a vida que levava.
Já não lhe apetecia frequentar a varanda do jardim,
nem mostrar-se em toda a sua arrebatadora beleza.
Para que queria a beleza, se não podia ser admirada
senão por caixeiros e trabalhadores de pau e pica?
Dr. Paiva, gostaria que visse uma das minhas criadas, a Branca.
Está com muitas cólicas.
Ema, acompanha o Dr. Paiva.
Faça favor de me seguir, Senhor Doutor.
Branca, está aqui o Dr. Carlos Paiva.
Faca favor de entrar.
A fraqueza imitava a força.
Bastava um golpe hábil e Ema cairia.
O golpe não tinha leis, tomaria as mais absurdas formas.
Percebeu que só podia fazer uma coisa:
dissimular, dar-se por morta.
Sim, foi o Nelson, o seminarista sem vocação e que não foi para padre.
Branca engravidou dele
e depois abortou,
tudo com muito sigilo, e a escusa da casa inteira.
Carlos decidiu guardar segredo e não a denunciou.
A beleza parecia abrir-se
sob a superfície sedosa de uma dor dormente.
Era como uma fera que tem fome, um animal, pequeno ainda,
mas cujo porte denuncia já todas as graças da vontade predadora.
Sentia que os laços com a mediocridade
e o amor dos caminhos da infância estavam soltos.
Assim como soltara a massa dos seus cabelos castanhos,
também o coração perdia uma espécie de constrangimento,
onde, no entanto, ele bebia uma felicidade nunca mais recuperável.
A mãe de Ema era a quarta filha de uma dessas casas,
primeiro abastadas e depois decadentes.
Ema lembrava-se ainda daqueles postais em folhetim,
que enchiam as caixas de chapéus
e que a mãe recebia de Lausanne e de Paris.
O seminarista Nelson casou com uma herdeira,
cuja sensualidade está no que se omite.
Constou que a noiva quase o violou, antes e depois de casar
e que morreu cedo, deixando-o a uma amiga,
como quem deixa um colar de pérolas.
Na Primavera, Ema estava noiva.
Carlos sentiu-se, de certa maneira, embrutecido de felicidade.
Adiou duas vezes o casamento,
como para provar que resistia a essa mulher que amava.
O que ele temia, era a resoluta presença de Ema,
que se distinguia tão bem da submissão fútil em que se criara.
Olha, além, o rio está diferente.
Ema pensou que, porventura no fundo, havia ainda desses peixes gigantes
que raramente assomavam das profundidades a cabeça brilhante.
- Assim não se pode provar o vestido. - Anda ver, mudou!
Não, menina, é o rio Douro, que sempre esteve ali.
- É um homem. - Um homem?
Sim. A esta distância, um homem faria o efeito de um alfinete.
Está realmente turvo o rio, e nublado o dia.
- Não consigo ver bem, mas parece... - Um barco. Um barco à deriva.
Deve ser.
Ah, já vejo. É o barco de passageiros que leva gente para as termas.
Que disparate! Vou-me casar e nem sequer gosto dele.
Menina, mas que despropósito! Lembra-se de dizer cada coisa!
Valha-nos Deus! Valha-nos Nossa Senhora!
Marina distraiu-a com as perguntas que lhe fazia
e depois Branca veio ajudá-la a vestir,
trazendo a costureira Judite, como se fosse uma portadora de ofertas.
Isso, uma coisa azul para me dar sorte.
Outra coisa azul para dar sorte. Nunca é demais!
Tem aqui os sapatos azuis, como a menina queria.
Azul, muito azul para dar sorte.
Carlos fez questão em que a cerimónia da igreja
se realizasse na capelinha de Vale Abraão.
E Paulino Cardeano aceitou,
com a condição de que a boda fosse em sua casa, no Romesal.
... de parentes e amigos,
a fim de vos receber como marido e mulher,
sagrando um vínculo que se quer eterno, bem como para além da morte.
É o casamento uma convergência consciente de vontades,
que conduz dois seres a fundirem-se em corpo e alma,
num destino comum, qualquer que seja a sorte...
O Nelson, seminarista desistente por falta de verdadeira vocação,
já casado agora pela segunda vez, na verdade amava Ema.
Quando soube do casamento de Ema, Nelson chorou como uma vide
e encostou-se à cadeira de palha como se fosse para morrer.
Nelson lembrava-se do tempo em que tivera Branca nos braços,
Lá na varanda envidraçada, cheia de begónias e outras plantas de estufa,
onde o casal de periquitos, a ouvirem os gemidos dos amantes,
piavam de alegria.
O Sr. Carlos decerto pensou bem no acto que vai realizar.
Diga-me pois,
é de sua própria e livre vontade que pretende contrair matrimónio
com a sua noiva Ema, aqui presente?
É, sim.
A Sra. Ema decerto pensou bem no acto que vai realizar.
Diga-me pois,
é de sua própria e livre vontade que pretende contrair matrimónio
com o seu noivo Carlos, aqui presente?
É, sim.
Ema, recebe esta aliança como sinal do meu amor e da minha fidelidade.
Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
Carlos, recebe esta aliança como sinal do meu amor
e da minha fidelidade.
Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
Ao cair da noite, no Romesal, durante a boda,
um rouxinol cantava com um trinado tão genial,
que arrastava a alma de quem o ouvia.
Sim, é certo, das janelas do Romesal via-se o Vale de Abraão.
Terra de Paivas, de Luminares e de Semblanos.
Ema não conseguira que Branca a seguisse,
temerosa que estava de perder casamento com um cabo da guarda.
E Marina também se escusou, porque estava noiva.
Só Ritinha, a muda, veio para Vale Abraão.
Estou?
É sim, é da casa do Dr. Carlos Paiva.
Não, não, ele não está.
Pode encontrá-lo à hora do jantar.
De nada.
Carlos estava sempre fora em visita aos doentes.
Ema sentia-se desacompanhada.
E até com as frequentes chamadas nocturnas,
Carlos optou por dormir em quartos separados,
por respeito ao sono de sua mulher.
Ritinha, a muda, era uma espia extraordinária.
A falta dos sentidos do ouvido e da fala
desenvolvera nela faculdades finíssimas.
Nada lhe escapava.
A sua devoção e fidelidade eram como a de um cão
e Ema sentia por ela uma ternura profunda.
Entregava-lhe tudo:
chaves, garrafeira, jóias e correspondência.
Queres acompanhar-nos?
- Não, fico aqui mais um bocado. - Vem para casa connosco, Ema.
Não, estou aqui bem.
Se estás assim bem, nós vamos andando.
Mais tarde, as irmãs de Carlos, as Paivoas,
acusaram-na de perder um lenço de bolso
e Ritinha partiu, muito seca, sem dar explicações.
De resto, Carlos achava-a inútil, porque não podia atender ao telefone.
Ema ficou um tempo amuada, Ritinha fazia-lhe falta.
Era o seu bobo, a sua aia.
Era o elo que a ligava ainda ao Romesal,
ao seu belo espaço de corredores e átrios, à sua infância.
Com o intuito de quebrar o amuo de Ema,
Carlos levou-a no domingo seguinte
à missa da capela da Quinta da Caverneira, dos Semblanos,
um cavalo oriundo de famílias das mais distintas da região.
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo,
segundo S. Lucas.
Glória a Vós, Senhor.
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:.
"Haverá sinais no Sol, na Lua e nas estrelas,”
"e haverá angústia nos povos da Terra por causa do bramido do mar"
"e das ondas, mirrando-se os homens de susto,"
"na expectativa daquelas coisas que irão acontecer em todo o mundo."
"Pois os poderes do Céu estremecerão."
"Então aparecerá o filho do Homem, que virá numa nuvem,"
"revestido de grande poder e majestade."
"Quando estas coisas começarem a acontecer,"
"olhai para o alto e erguei as vossas cabeças,"
"porque se avizinha a vossa redenção." Palavra da salvação.
Graças a Deus.
Irmãos, temos a alegria de nos encontrarmos aqui hoje
para celebrarmos a Eucaristia.
Acabamos de escutar a palavra de Deus,
que nos foi anunciada pelo evangelho de Jesus Cristo
e que nos fala dos últimos tempos. Dentro de momentos,
teremos o Senhor presente no meio de nós,
através do sacramento, que é um sinal da sua presença.
Iniciamos o tempo do Advento
e o Advento é uma caminhada de preparação
e de esperança para o Natal do Senhor.
O Natal transporta-nos no tempo e no espaço até Belém,
para assistirmos ao nascimento do Deus Menino entre nós.
Mas, ao mesmo tempo,
o Advento faz-nos viver a realidade do Natal em nosso tempo.
Assim seja.
As Pavoas achavam Ema leviana.
Carlos caiu na infâmia ilegítima de investigar a moral de Ema.
Mas nada encontrou de mal. Ela era pura como as estrelas.
Paulino Cardeano, agora só no Romesal,
detinha-se frente ao oratório que lhe despertava um mundo de recordações.
Quando viu a filha casada, chorou e bebeu demais,
o que o pôs mais sombrio ainda.
Achou que a filha pouco sabia de homens.
Tinha a impressão de que Carlos não era marido que convinha a Ema.
E ficou, por longo tempo,
com os olhos e o pensamento postos no Vale Abraão.
Ritinha, a muda, voltou para o Romesal
e Ema, que provinha desta casa onde ela era soberana,
sentia-se desamparada em Vale Abraão.
Tudo começou quando Carlos Paiva a levou ao baile de Jacas.
Teve um convite expresso dos Luminares que, de resto,
aproveitavam para conhecer Ema, sem se comprometerem a aceitá-la.
Tinha chovido, mas fazia luar.
O brilho das folhas e das estrelas,
que se apercebiam entre os ramos das árvores,
davam àquela noite um tom de compaixão sublime.
Consente?
Não é o tipo de pessoa que se espera encontrar aqui,
apesar de eu a ter convidado. - Porquê?
- É um baile como outro qualquer. - Conhece outro qualquer?
Não, por isso digo "outro qualquer".
Não se parecem todos?
No cinema, são todos iguais.
Luminares não estava a ouvir,
pensava que se Ema aprendesse a vestir-se,
ia causar algum sobressalto naquela sociedade.
Ficou aborrecido?
Como é que pode estar aborrecido diante de tal beldade?
Mas não, de maneira nenhuma, pelo contrário.
Pensava justamente em como a beleza pode ser tão perturbante.
Olhe ali aquela figura.
A Lua, na sua pureza romântica,
e o anjo de mão no peito submisso como um Cupido.
Olhe este. Mostra o Sol,
a sua força erótica escaldante, rei da Criação e símbolo do amor.
Veja como o Cupido feito anjo o adora.
Uma bela mulher pode esconder na pureza romântica do seu rosto
o fogo dum desejo ardente.
Sim, quando tenho um rosto como o desta senhora.
Permita-me que lhe apresente este amigo.
Proprietário da Quinta do Vesúvio
e conhecedor do mundo pelas constantes viagens que faz.
É o Fernando Osório. É a mulher do Dr. Carlos Paiva.
Um enorme prazer em conhecê-la.
Seria interessante começar este nosso conhecimento com blues.
É uma das músicas da juventude do meu pai.
- Foi moda nos anos 20. - Torna a ser moda agora.
- Quer vir dançar? - Sou má dançarina.
- Insisto. Tem medo de arriscar? - A responsabilidade é sua.
Diga-me...
- Esta é que é a tal Ema? - Exactamente. Acabo de a conhecer.
- Quer que lha apresente? - Não. Quanto mais tarde, melhor.
- Acompanha-me? - Com o maior gosto.
O que foi que eu fiz?
Não pense que ela se preocupasse com qualquer coisa que lhe fizesse.
É um tigre de circo.
Nunca conheceu a selva, nem sabia como comportar-se lá.
O mal é só um tema de homilias, não se sabe se existe.
- É assim tão invulnerável? - Todos gostam dela.
Até os inimigos dela os conta como amigos.
Aquele ali parece o enfermeiro da noite.
Carlos. Carlos. Carlos!
Peço mil desculpas, não me tinha apercebido que era...
Ainda bem que aqui estás.
Quero apresentar-te a mulher do Dr. Paiva.
É Simona, a minha mulher.
Já que estão em maré de apresentações,
faço também a da minha pessoa
à belíssima mulher do nosso querido médico
e requintado amigo Carlos Paiva, que a soube escolher para esposa.
Sabe quem sou?
Nem eu sei bem.
Chamam-me o velho Semblano e dizem que sou lúbrico como um macaco.
Eu de mim só sei dizer que detesto os retiros espirituais dos casais
e que tenho medo de perder a graça.
O velho Semblano, como sempre, estava contente consigo próprio.
O baile de Jacas, que nunca mais se repetiu,
ficou muito tempo no pensamento de Ema.
Já em sua casa de Vale Abraão, aspirava o cheiro do tabaco
das cigarrilhas esquecidas por Fernando Osório
e o ventre comovia-se com um desejo brutal
e que ela iludia com Carlos, na cama, quando se deitavam.
Já estavas deitado?
- Não queres apagar a luz eléctrica? - Vejo-te melhor assim.
Estás tão bonita!
Para que queres apagar a luz?
Porque fica mais...
... romântico.
Não vens?
Carlos foi-se apercebendo que Ema sabia muito mais do amor
do que ele podia conjecturar.
Foi ele, Pedro Luminares, que levou Ema, quase pela mão,
à casa da Caverneira e a apresentou a Maria Loreto e ao marido, Semblano,
antes de Carlos pensar nisso. Mas Carlos acompanhou-os.
- E Ema? Que pensa Ema do amor? - Não sei o que lhe responder.
E que melhor resposta do que essa sua, Ema, se poderia dar?
E Carlos?
Ele ainda não a ensinou?
Acha que é coisa que se ensine?
Concordo. Quando não se sabe, não se sabe.
Não é assim, Dr. Paiva?
O amor é qualquer coisa... Qualquer coisa de mais íntimo.
E a Maria de Loreto, também concorda?
Se o seu marido o diz...
Coisa íntima, mas pessoal, muito pessoal.
Pessoal para si, quer dizer, em casos particulares, seus.
Os meus serão diferentes, naturalmente.
Naturalmente. Cada um tem a sua particularidade.
E a primeira é a que distingue o homem da mulher.
Lá isso é fundamental.
A mim parece-me haver grandes semelhanças entre o amor e a caca.
O caçador persegue a presa e a presa atrai o caçador.
Quando o tiro é certeiro, o amor realiza-se.
Parece-lhe que a mulher será assim, como uma peça de caça?
Não, Simona, foi mais uma forma de dizer.
O amor até será na mulher uma dádiva.
Vê ali aquela estatueta?
Ela dá-se-lhe.
E ele é tão silencioso e inesperado, que não se dá conta quando chega
ou quando desaparece.
Por isso é representado com asas e a noite e o luar são propícios.
O amor tem a fluidez de uma nuvem e quando o psique acorda,
o amor já não está.
É por isso que eu só gosto dele enquanto está.
O que era o amor?
Ema repensava-o como necessário ao luxo de uma vida mundana.
E tu, Carlos? Que dizes tu?
Que digo?
Digo que vivo contigo.
E bebo ao nosso amor, Ema.
E também...
... à senhora...
... e ao senhor Semblano.
Ela sorriu. Achou falsa a saudação.
Pareceu-lhe uma botada tão inesperada como imprópria.
Sentia Carlos preso a ela, como um verme à terra.
Bem longe de ser aquele romântico por quem Ema ansiava
e que jamais encontraria.
Todavia, tinha ciúmes da Loreto.
Calem-se lá! Vocês não têm órgão espiritual.
E os outros não são assuntos de conversa diante de senhoras.
Ó Lumiar, as senhoras são uma ideia que já não é deste tempo.
Usas chapéu de plumas e gola de rendas?
- Não. - Há quem use.
Satanás usa.
Mas vocês que sabem disso?
- Eu fujo. Vou fugir. - Não fujas, não fujas!
- Não fujo por quê? - Satanás tinha medo de ti.
Fernando Osório estava arruinado
e isso dava-lhe direito às suas fantasias abusivas.
Mas arruinado, para Osório,
era estar enterrado em ouro até aos joelhos,
em vez de nadar nele.
Obrigado, Simona. Era justamente isto que me estava a fazer falta.
Carlos percebia que Ema estava perto de cometer uma loucura
e achou que devia premeditar outra loucura
mais conforme ao plano da família,
até que o sexo se tornasse menos vingativo.
Deu-lhe a escolher Pedro Luminares, que era, no seu entender,
um robô com vantagens sobre os outros homens.
Sabia falar de amor.
Eu já tenho dito à Simona,
orgulho-me de ser um robot bem afinado muito além do século...
... e do sexo.
Ema tinha a capacidade muito rara de iluminar o desejo
e o fazer correr como um fogo-fátuo
sobre os cadáveres da virilidade mítica e obstinada.
Luminares quis mostrar-nos o seu poder
sobre esta mulher, mas não vai além disto.
Esta mulher é uma fogueira.
E bela que ela é!
Sim, dizes bem, Ema é uma fogueira. Pobre Dr. Carlos Paiva.
Ele vive à beira do abismo.
Esta deve ser das tais que gemem e fazem gemer a cama e o marido.
Brejeirices...
Já conheci as que não gemem, por mais que façamos gemer a cama.
- Ao Carlos faz gemer com certeza. - Fora da cama.
Sim, é muito perdulária e obriga-o a puxar pelos cordões à bolsa.
Sim, sim, pelos cordões à bolsa. A beleza não tem preço.
Nem proveito.
E, ao que dizem, ele extrai mais lucros do jogo da bolsa
do que das pedras das vesículas que arranca aos doentes.
- Está feliz, Ema? - Sim, estou.
Porque traz sempre esse livro na mão?
Serve de escudo contra qualquer vicio ou desejo?
Nunca tinha pensado nisso.
Olhe, acontece.
Gosto muito de ler, sabe?
Leio em qualquer parte, se estou disponível.
Parecia que as Jacas estavam sob o efeito de um feitiço,
os caseiros diziam isso.
Mas não, Luminares era um sábio, à sua maneira,
e tinha uma disposição íntima para uma letargia.
Ema sentiu-se diminuída.
- Serve para dissimular. - Dissimular?
Isso é mais um atributo da mulher, não do homem.
Acha que estou a dissimular?
Para principiar, acho que está a passar-se consigo
aquilo a que se chama "a febre da ascensão".
Não tem asas, nem poderes sobrenaturais
e não quer arriscar-se a atirar-se de um quinto andar,
porque acredita na lei da gravidade.
Em suma, precisa de um psiquiatra, ou de um amante.
Está muito enganado.
Essa ideia imbecil de que tudo se resolve
com uma queda ou um banho frio, não é assim tão simples.
Como pode saber se a vida de alguém está por um fio?
E que pode dizer-se à mulher em tal caso?
Enquanto o homem trata de se aplicar à vida por diversos meios,
a arte, a guerra, os negócios,
a mulher não tem hipótese.
De ser compreendida pelo homem? E isso que quer dizer?
- É feliz, Ema? - Já me fez essa pergunta há pouco.
Está a ficar frio. É melhor irmos.
Ora aqui estamos, como dois casais bem ligados.
O que quer dizer com "dois casais bem ligados"?
Acha que o casamento é alguma maionese?
Carlos, é altura de irmos. Adeus.
Peço mil desculpas. Até à vista.
O Carlos consume que não se conformava com o desejo de Ema
de dormirem agora em quartos separados.
- Com que razões? - Ela diz que é por ser mais saudável
e por não ter de acordar quando o marido chega mais tarde.
Sabes, a Ema não ama verdadeiramente o Carlos,
mas Carlos ama a mulher. Falta-lhe a carne nua,
a intimidade de uma carícia que o sono torna pueril.
Mas é Ema e não ele que terminará...
... no suicídio. - Sim.
Suspeito que assim venha a acontecer.
- Grávida? - Grávida? Como sabes?
- Soube-se pela Ritinha. - A lavadeira?
Ela saiu de lá há muito.
Ema vai de visita ao pai, a lavadeira voltou para lá.
Essa Ritinha é bruxa.
Bruxa e indiscreta.
É uma coroa de estrelas sobre a minha cabeça.
Dizem que "'varanda"' é uma palavra celta que significa "'barreira "'.
Talvez seja.
Não se sabe por que teve tanto crédito na arquitectura rural e urbana.
É uma espécie de ventre que se projeta numa demonstração de poder
e afetação de desejo.
Serve para cortejar o mundo e dar provas das condições do indivíduo.
Tanto permite um olhar que avalia até ser pecaminoso,
que encobre na sombra a virginal pécora,
como é um local de aprazível pausa.
A varanda é mais sensual do que licenciosa.
A varanda de Vale Abraão conheceu um novo afeto.
Ema passou lá os dias cálidos
com as filhas recém-nascidas no regaço.
Como tu estás linda!
Não sejas tola, minha filha.
Lola, que era uma criança grande demais e que parecia atrasada
e Luisona, a mais bonita,
doce e tão sossegada, que não chorava nunca.
Ema perguntava-se que género de insuficiência Luisona teria,
Lembrando-se de que a própria mãe de Ema não tivera dores de parto
e, se magoada, não sentia nada,
nem pelo fogo, nem pelo ferro.
Vão para dentro, minhas filhas.
- Sempre vais ao Vesúvio? - Sim, vou.
Preciso descansar uns dias.
Tens as tuas irmãs, que tratam sempre de tudo,
e a companhia das tuas filhas. - Não é a mesma coisa, bem sabes.
São uns dias apenas.
Muito bem.
Seja.
Não era a concupiscência que a movia,
era a provocação que a lançava no seu romance com Fernando Osório,
ou com outro.
Levou por diante essa história, uma história de um julgamento em que,
de antemão, o réu, o amante, estava condenado.
Sim, vou para o Vesúvio.
Quase sem esperar, Ema aceitou a corte de Fernando Osório
e deixou-se conquistar por esse homem rico,
comprometido na política, divorciado e que tinha três filhos a estudar.
Está a ver, tio? Ali o patrão é que a leva direita.
E tu? Também não andas por aí atrás delas?
Só que tu não és capaz de apanhar uma com a qualidade desta.
Ele tem o que tem porque é rico. Se eu tivesse o dinheiro dele...
... o tio havia de ver. - Ver? Ver o quê?
Ver o quê? Como elas me caem no papo.
Garganta não te falta.
Ouve, rapaz, as mulheres querem um tratamento muito especial.
Mas tu ainda és muito novo para saber estas coisas.
- Pois, o tio é que sabe. - Sei. Julgas que não, mas sei.
Isto tem a sua arte, Fortunato.
Agora o que te digo,
é que esta mulher é das de fazer virar a cabeça a um homem.
- O tio até parece que... - Ora, tem juízo!
Sabes que mais?
Ó tio, então já não se pode brincar?
Espere lá!
Espere aí, que eu também vou.
Ali ao lado,
havia um pontão de tábuas
onde a água batia com um rumor sinistro.
Duas dessas tábuas estavam já podres
e poderiam causar um acidente a quem fosse desprevenido.
Ema foi desde logo avisada.
Dizia-se que La Bandi fora ao Vesúvio, assim como Caruso fora a Manaus.
Ema ouvia contar a Osório essas coisas
e caía num cismar respeitoso,
Lembrando-se do seu saudoso Romesal.
Ela não ignorava o desprezo que Osório tinha,
como cavalheiro europeu, por quem não guardava as distâncias.
E por falarmos em teatro,
já que tenho a honra de estar ao lado de um virtuoso de renome
do bel canto, eu digo-lhe com tristeza:
vivemos uma época em que tudo é absorvido na vulgaridade.
- Já não há lirismo. - Hélas.
Quem são estes dois convidados?
O mais forte é o Baltazar, um cantor de ópera,
que o Osório fez vir para impressionar Ema.
O outro é Pedro Dossem,
amigo de Osório e que se diz parente de Sto. António de Lisboa,
baseado no cronista paduano,
Giulielmo Ongarello que, em 1441,
referiu Doson como sendo o seu nome de família.
- Achas que acabou o teatro de ópera? - Mas não, de maneira nenhuma.
O que eu quero dizer, Fernando, é que vivemos numa época que tudo absorve.
O amor, vejamos, já não há amor lírico.
Os prazeres da hipocrisia superam os do leito.
Acha que sim?
Querida Ema, minha senhora, já não há sequer sensibilidade
para um ciclo histórico que se fecha como a batalha de Alcácer-Quibir,
ou o cerco de Leningrado ou Waterloo e Trafalgar.
- Ou a revolução do 25 de Abril. - Estás a exagerar.
Exagerar? Está bem à vista como o peso das novas instituições
e a transferência rápida das classes impedem os sonhos.
- Calculados ou românticos. - Sim, senhor.
Perdeu-se o afeto, o sentimento,
esses dons tão humanos que sublimam os baixos instintos da carne.
Já se não aprecia como dantes o bel canto,
que é a expressão pura do sentimento. - Infelizmente, assim é.
De resto, veja-se como a revolução de 1974
sepultou essas vistosas marcas de elegância feudal
e as substituiu por devoção partidária.
Ora é aí está. Concordo contigo. E um discurso igualitário.
- Puramente tagarela. - A dominar tudo.
O povo foco entregue à sua desilusão. Aqui e nas colónias.
Criou-se uma burguesia de jeans
com assomos de virtude face aos novos especuladores.
E mudou-se de atitude sobre o dinheiro, sobre a doença,
sobre a vida sexual.
Sim? Acha que a vida sexual também mudou?
Mudou, Ema. Acho que mudou.
Queres dizer que há mais liberdades?
Mais liberdades e menos sentimento.
Mais sexo, mas sem amor, sem afeto sequer.
E a homossexualidade. A homossexualidade apesar da sida.
- Sempre houve homossexuais. - Parece que defendes.
Eu não defendo nem imputo, constato.
Mas não aceitas?
Sim, não aceito, como não será de aceitar nada que seja...
... como dizer, contra natureza.
Ah, já me sinto mais descansado.
Sim, mas para tudo há uma explicação.
Talvez que estes casos de homossexualidade
sejam consequência de resíduos de androginia.
Resíduos de androginia? O que é isso?
São coisas difíceis de explicar.
Eu referia-me a resquícios de um ser andrógino inicial
e, certamente, único, até que a certa altura, por explosão violenta,
se dividira e dispersara em feminino e masculino.
Ó Dossem, estás a delirar, ou a gozar-nos.
Pode parecer-te fantasia, mas a verdade é que eu falo a sério.
Há sintomas.
Não me dirás que sentido é que têm os mamilos no homem?
São absolutamente inúteis. Mas é um estigma do andrógino.
Olha, Dossem, isso parece-me muito complicado.
A conversa derivou para este rumo nem sei bem porquê.
O que eu estava a querer era falar de uma outra coisa...
Diz lá qual é, então.
É que já não se vive para ser feliz, para suportar uma angústia,
para medir forças com o destino. - Para que se vive então?
- Para que se vive? - Sim, para que se vive.
- Olha, vive-se. - Estranha resposta.
Ou não se vive.
Vive-se para entrar numa estatística.
- Também não fazes a coisa por menos. - Não aceitas? Ou não queres aceitar?
- Aqui tens a resposta. - Belíssima. Belíssima resposta.
Ema subitamente entregou-se a uma espécie de doença,
que estava enraizada na insatisfação profunda do seu ser.
Julgou que a libertação sexual a ia curar.
Cedo percebeu que Osório não queria senão deslumbrá-la,
como, de resto, Pedro Luminares o fazia com palavras,
à sua maneira fáustica.
É maravilhoso.
É maravilhosa a vista que se vê do Vesúvio,
faz lembrar o vulcão que desfez Pompeia.
É vero.
O Sr. Osório deseja mais alguma coisa?
Obrigado, Caires, se precisar, chamo.
Às suas ordens, Sr. Osório.
Parece um espião russo.
Foste tu
Quem manchou a minha alma
A delícia da minha alma
Tu tinhas a minha confiança
E a tua conduta abjecta
Envenenou para mim o universo
Traidora!
É assim que retribuis
a fidelidade do teu mais caro amigo
Ó doçura perdida
Ó lembrança de um beijo
É o que eu te digo, é um espião.
Este homem é um espião!
Osório, embora amasse Ema e a achasse uma beleza difícil de igualar,
o seu snobismo latente vinha ao de cima
quando tinha de ouvir falar de D. Augusta,
o protótipo da papa-hóstias, cuja bondade era uma história de cordel.
Ema não iludia ninguém. Não tinha táctica.
Tinha só o sentido do espectáculo. Vestia-se e agia,
como se tivesse de conquistar Horofernes no seu arraial,
mas, na realidade, não passava de um erotismo
tabelado pela utopia do poder e da importância social.
Está lá?
Ah, é a mãe! É a mãe!
O pai? O pai saiu. Foi atender um doente.
Estamos sim, estamos bem. A mim dói-me um pouco a garganta.
Não, é só um bocadinho, já está a passar.
- O pai diz que não tem importância. - Pergunta onde está.
Onde estás, mamã?
Onde? No Vesúvio? É bonito aí? É?
Nós temos muitas saudades, mamã.
Temos saudades, mamã. Quando vens?
Quarta-feira?
Está bem, está bem. Beijinhos.
Vens quarta-feira?
Beijinhos. Muitos beijinhos. Adeus, mamã.
Está lá? Está lá? Já desligou.
A mamã já vem quarta-feira.
"Nadar, nadar, mas vir morrer a terra", dizia o vosso avô.
Ultimamente arranjou uma amiga muito esquisita, a Tomásia de Fafel.
Esquisita, por quê?
Ela nem sequer é bonita, é uma extravagante.
É caçadora e bom ginete.
Diz que foi a primeira mulher da alta a ter um filho de solteira.
- Que se saiba. Que se saiba... - Não. Esta criou-o à vista de todos
e com honra e vagares de muita filósofa.
Diz Ema que a Fafel gosta de andar pela serra em tempo de trovoada
e cheirar o enxofre das descargas.
Sabe, Maria de Loreto, a Ema admira estas coisas.
Como admira tudo o que é desordenado e atrevido.
Às vezes penso se ela será de todo normal.
- Não estará a querer iludir-se? - Não sei que lhe diga.
A verdade é que só consigo viver em paz
porque lhe tolero todos os caprichos.
Enfim, na esperança de que um dia a idade a torne esquecida
desta provocação que atravessa.
Não creio, Dr. Paiva. A sua mulher usa a arma dos profetas,
que é assustar para obter a atenção.
Será ela feliz neste desacatado viver?
As relações de Carlos com Maria Semblano, se não eram de amantes,
pertenciam ao pequeno risco dos desejos singulares,
que se materializam pela palavra.
Carlos nunca tinha reparado na senhora do quadro,
que o olhava com comiseração.
Tem um olhar doce.
Sim compreensivo e complacente. E uma bela figura de mulher.
É Catarina, viscondessa de Benagasilde,
a minha trisavó. É um óleo de Roquemont.
Era de fato uma mulher extremamente compreensiva e bondosa,
como o Carlos referiu.
Por agora queria fazer-lhe uma confidência.
Se é que já não sabe. De qualquer modo, talvez isto o possa ajudar.
Quando percebi que o meu marido me enganava,
de preferência com mocinhas novas, compreendi que havia outra razão
para além do vulgar desejo privilegiado pela novidade.
Ao Semblano impunha-se-lhe a crença no princípio da masculinidade,
dependente que este é do princípio da autoridade.
Olhe, Carlos, amigos que somos há tantos anos,
Ema neste capítulo funciona como um homem.
Não se escandalize, isto é apenas uma maneira de dizer.
Não basta a beleza, sempre tão discutível na mulher, e Ema manqueja.
Bem, isso até pode funcionar como um excitante para certos homens.
Mas é ao carácter que me quero referir.
Bom, não vamos agora divagar sobre esse assunto, aliás, bem delicado.
Justamente, vou mostrar-lhe as minhas precauções.
Ema era para a Loreto uma inimiga potencial.
Esta adquirira nas frustrações de infância uma vocação espiritual,
proferindo um voto de simplicidade,
enquanto Ema era uma aberração maligna, talvez pelas mesmas razões.
As duas tinham uma dupla personalidade.
Com o pretexto de que estava imprópria para as alegrias sexuais,
Maria obtinha um direito reivindicativo.
Mas o que era aliciante em tudo isto é que os homens todos,
e não só o marido dela, tinham um ciúme platónico.
Acho que o meu marido se degradava nas suas relações extra-matrimoniais.
Em camas pouco limpas e casas desprezíveis.
Preparei este quarto no pavilhão dos fundos do jardim,
para que o conforto não faltasse ao Semblano.
Como vê, tudo foi previsto.
Tanto a higiene como os prazeres do luxo.
O mais curioso deste insólito proceder
é que as moças que ali vinham,
embora se dessem aos desejos carnais do marido,
não cediam menos à aventura moral que Maria lhes impunha,
ficando implacavelmente unidas à vontade da esposa.
O amor tem caminhos que certos casais deviam conhecer.
Veja até onde levo o meu requinte. Olhe ali aquela mesinha de cabeceira.
O meu marido já passou a juventude há muito tempo
e as relações frequentes com mocinhas novas,
que o Semblano sabe muito bem escolher,
são o pior remédio para o enfraquecimento das pernas.
- Quer dizer que... - Exactamente.
Facilitar-lhe o acesso aos prazeres da cama.
Dr. Paiva, como médico sabe isso muito bem.
As mulheres dispensam, mas para homens de certa idade
todas as ajudas são boas.
Como vê, a cama é um bocadinho alta para o Semblano.
Já perdeu o vigor de um homem como o Dr. Paiva.
Não, por favor, Carlos,
não dê outras intenções para além do que eu disse.
- Por Deus, Maria de Loreto! - Não, não tem que dizer nada.
Basta que compreenda. O meu intuito é ajudá-lo a si,
mas não como ao Semblano.
O Carlos é um homem em pleno vigor,
ajudá-lo no seu entendimento com Ema.
A mulher tem tanto de semelhante como de diferente do homem.
E, como mulher, está condenada à usurpação de um território,
de um pensamento, de um prazer que não são os dela.
O que lhe digo pode parecer-lhe um oráculo,
mas não é mais do que a intuição de uma mulher
que sofreu na carne e no espírito
as contingências de um marido tolo e leviano e de um filho...
... homem, sim, mas muito delicado e frágil.
O jovem Semblano herdou da mãe o espírito de artista.
Obrigada, Carlos.
Sou eu que tenho de lhe ficar agradecido, Maria Loreto,
pela intenção de tudo o que diz.
Conheço como médico e começo a entendê-la como homem.
Mas há qualquer coisa de ignominioso,
de indecente em tudo isso que me conta.
Sim, há qualquer coisa de ignominioso.
- Está a falar da educação de Ema? - Falo de Ema, falo de mim,
falo da mulher em geral. Somos criadas como mulher,
mas a consciência corresponde ao movimento do espírito do homem.
- Que quer dizer com isso? - Quero dizer que é algo de semi-real,
que é saído de um significado incompleto,
como um costado que falta a uma costela.
Eva tirada de Adão?
A sua diferenciação fica imaginária, como coisa de mulher.
Como um organismo que absorve outro e o expulsa por ser estranho.
A maternidade simboliza esse falso portador,
em ligação com o ausente.
O vazio do mundo, para onde tende o desejo.
Pensamentos de uma escritora.
Sim, é qualquer coisa sobre isso
que escrevo naqueles papéis que lhe mostrei há pouco.
Afinal, escrever é dar expressão à vida e à sociedade em que vivemos.
É o jovem Semblano, não é?
Como é?
Andas a dormir com ele?
- Tu sabes o que ele é? - O que é que ele é?
É parvo e bebe muito.
No baile, aqui mesmo, foste tu que mo apresentaste.
O baile. Só sabes falar desse baile.
Parece que não te aconteceu mais nada na vida.
O Fernando Osório é burro, nem sabe quem escreveu os Lusíadas.
Para ti não há ninguém que preste, ninguém que valha.
É um desespero falar contigo.
Confessaste-me uma vez, já lá vai algum tempo,
que o Fernando Osório te soltara as alças do vestido uma noite.
- Lembras-te? - Não, não me lembro.
Lembro-me eu.
Presta atenção, Ema,
não deixes fazer a nenhum homem aquilo que podes fazer sozinha.
Doutro modo, não te vais emancipar na vida.
Mas o que queres dele?
É um unhas-de-fome e tem três filhos como três carraças,
que lhe levam tudo.
- Foste tu que mo apresentaste. - Já o disseste.
O amor tem má memória.
Não voltes ao Vesúvio, Ema.
Vénus não ama as mulheres como tu, que não conheces o ofício da ilusão.
A ilusão também é um ofício?
Não se nasce mulher ou homem, aprende-se.
Tu e eu somos uma negação para isso.
Eu sei por que te chamam "a Bovarinha".
Mas foste tu que me apelidaste de "Bovarinha"
e aquela víbora da Loreto não se cansou de o propagar.
E porque me chamas "Bovarinha"?
Porque ela, Madame Bovarý, também não aprendeu o ofício.
Faz sentido o que dizes e explica muitas coisas,
mas não vou maçar-me a pensar nisso.
O que se aprende não é com o que se pensa,
mas sim com os mal-entendidos.
Nunca percebi porque me chamam "Bovarinha"
É e já li o livro duas vezes. - E um mal-entendido, com certeza.
Não devemos ter amigos em parte nenhuma.
São eles que criam os mal-entendidos.
Quando ela foi pedir dinheiro a um antigo amante,
caiu em cima dum tipo que tinha aprendido o ofício de homem.
Sabes o que ele fez? Disse que não tinha.
Disse com a calma perfeita com que se cobre as cóleras resignadas.
Bem dito. E bem feito.
Os homens são avarentos consumados.
É o único papel que não representam, que vivem em cheio.
O meu pai, quando lhe pedia um dinheiro,
nem que fosse para fósforos de cozinha, parecia um muro,
polido, sem fendas, um muro que era impossível de escalar.
Eu roubei-o várias vezes.
Rodeava assim a insondável estupidez da avareza.
Não me digas. De ti é de esperar.
Não distingues muito bem o real do imaginário.
A comédia leva a melhor sobre a vida, a tua vida.
Um desempenho teatral reduz a culpa a uma estratégia.
Não é devastadora, nem tem efeitos sobre a realidade.
Dá gosto ouvir-te falar, mas será verdade?
Não sei.
Há um espaço vazio no nosso pensamento
que nunca será preenchido.
É ele que nos permite uma linguagem, um exercício de cálculo
que produz as relações das pessoas.
Nós dizemos:
"A Terra é redonda", ou "A mulher é o útero".
Não tem sentido se com isso pretendemos ser exactos.
Tudo o que te lança na desordem é o adiamento do ato de julgar.
Tu dizes:
"Amanhã chego a um lugar onde tudo fica claro".
Mas queres a vida presente como ponto de apoio
e não só como expressão de ti própria.
Fornicar não é só a ausência de dúvida,
um ato simples e comunicativo,
é também algo que te desagrada e que tu conduzes até ao desagrado.
Isso é a maneira de sentir a importância de qualquer coisa.
Queres dizer que serei infeliz no amor?
Quem é feliz no amor, é um imbecil.
Ema ia aumentando cada vez mais a pressão da sua vida,
usando os meios ao seu alcance, como contrair dívidas
e provocar o maior escândalo possível.
O sentido fugidio do prazer era o que Ema captava,
estava prestes a atingir o objectivo através dum sofrimento ilusório.
Agora, Ema estava ali, junta com o Carlos e as filhas,
o que não era frequente,
e disso se ressentiam Lolota e Luisona,
sempre desejosas de ver a mãe.
Eram as festas de Nossa Senhora do Socorro,
animadas todos os anos com um vistoso fogo-de-artificio.
Ema lembrava-se da sua infância,
de quando via da varanda envidraçada do Romesal
aquele mesmo fogo que a extasiava.
Lembrava-se do oratório, onde rezava com a tia Augusta
e fazia inconfidências segredadas com as serventes que a estimavam,
a Marina, a Branca e a Alice.
Lembrava-se dessa sua orfandade,
atenuada pelo riso das numerosas mulheres do Romesal
em que ela era a senhora absoluta da situação.
Tudo isso se foi num ápice
e outras coisas então vieram a apagar o brilho antigo de uma vida que,
como agora, se desfazia no ar
o esplendor luzente deste outro artifício.
Ema voltou ao Vesúvio.
Fernando Osório tinha voltado à esposa que desprezava
e aos filhos que aborrecia.
Mas nem ele nem Ema se esqueceram dos amores no Vesúvio.
Desapontada com a ausência de Fernando,
Ema vestiu um macacão azul
com a intenção de se lançar em ousada corrida no barco a motor.
Posso ajudá-la, Sra. D. Ema?
É a primeira vez que me ofereces a tua ajuda, Fortunato.
Pois, mas como hoje a senhora vem só...
Já me viste andar só outras vezes.
Sim, mas...
A senhora desculpe se sou atrevido, mas é que...
Vá, diz de uma vez.
É que a senhora atira-se muito com a lancha.
Só com a lancha? E tu acodes-me, se a lancha virar?
Então não acudo, minha senhora. Até nem deixo virar a lancha.
Eras capaz de dar a vida por mim?
Então não era, D. Ema?
- Eras, Fortunato? - Se fosse preciso...
Se fosse preciso, dava a minha vida pela da senhora.
Vá, vem então comigo.
Cuidado, D. Ema.
- É que tem aí duas tábuas podres. - Tratas-me como uma criança.
Não sabes que já venho aqui várias vezes?
Sei sim, D. Ema.
Achas que estou mais segura contigo?
É que, às vezes, a gente distrai-se e...
Mas uma "'Bovari"', como?
Ema não sentia desejo senão a imaginação
e tudo o que reclamava dos homens era atribuírem-lhe a ela
um valor de objecto desejável.
Não era prazer,
porque isso se tornava uma espécie de pagamento ao desejo do homem.
Um perfume de rosas bateu no rosto de Fortunato
e ele entreviu Ema na doce névoa do mosquiteiro.
Estava quieta, com as mãos no peito e as mangas da camisa abotoadas,
como uma noviça que recitasse as orações.
Não o deixou possuí-la, tratou-o como a um eunuco,
permitindo-lhe carícias que a surpreenderam
pela força do domínio, que era como o ferimento no sexo dele.
Nesta última recusa havia ainda a fidelidade ao amo e ao soberano.
Ema não cometia uma falta. Inaugurava um vício.
Muito bom dia, Sra. D. Ema Paiva.
- Bom dia. Pode sair. - Não deseja que corra os cortinados?
- Sim, sim, e saia. - Muito bem.
Caires ficou a ouvir o chuveiro e deu largas à sua torpe imaginação.
Fortunato!
Olha lá, o que é que se passa contigo e com a Sra. D. Ema Paiva?
O que é que se passa? Então o tio não anda sempre de olho em nós?
É meu dever olhar pelos interesses da casa.
Não sou o mordomo?
E digo-te mais. Não gosto dessas intimidades.
Quem vai gostar menos ainda é o Sr. Fernando Osório,
quando souber o que se passa.
Só te digo, toma cuidado.
- O tio está é com ciúmes. - Mais respeitinho.
E vê como falas ao teu tio.
E como falas aos convidados do Sr. Osório aqui desta casa,
que foi erguida pela firme vontade da senhora,
que foi uma grande senhora, a tetravó do nosso patrão.
Mais respeitinho, ouviste? Mais respeitinho!
Fernando fazia por falhar a sua chegada.
Ema desaparecia um dia ou dois antes de ele se anunciar
e mesmo quando tinham relações mais íntimas,
os beijos eram ligeiros, como que desvinculados de um efeito erótico.
Só com Fortunato ela se libertou dessa obrigação platónica,
conhecendo com ele um misterioso imperativo,
não apenas sexual, mas sobretudo um rancor
que encontrava a sua evasão.
Foi com uma espécie de ferocidade, às vezes terna e outras vezes cruel,
que Ema se precipitou nos braços de Fortunato.
Vigiados por Caires,
que sofria de uma devoradora sarna que o enlouquecia,
Ema e Fortunato sentiam um prazer redobrado.
Mas era o amor que levava Ema ao Vesúvio?
O Vesúvio, com a casa da senhora
e os pátios onde perfilavam as palmeiras,
e, sobretudo, aquela ressuscitada forma de uma unidade de vida,
com o cheiro dos lagares, da grainha moída, do cangaço,
da aguardente pingando nas selhas.
A senhora teve um marido primo a quem chamava "'o defunto"'.
Outro marido, da sua maturidade,
rico e poupado, a que ela chamava "'o morto"'.
E o último marido,
mais dilecto pela confiança com que lhe entregava os negócios,
havendo sempre entre o casal, não lençóis, mas livros de contas.
A esse, a senhora chamava "'o desaparecido"'.
Algum tempo passou.
Fortunato assustou-se
e foi refazer-se num casamento acanhado e pobre,
daquela riqueza de sentimentos e emoções
que não estava na expectativa das suas ambições.
O Osório viajava muito
e Ema sabia que parara em Hong Kong, num hotel cabotino,
onde os pés se enterravam em alcatifas altas
como a relva de um "'green"'.
Ela voltou ao Vesúvio
e ouvia contar coisas do passado da senhora daquela casa.
Diziam que era fogosa
e mulher orquestra em coisas de amor ou na administração das quintas.
Lembravam como despedira os ladrões da casa, sem susto algum.
Os ladrões retiraram, sem levar nada, cabisbaixos,
sem se atrever a pôr os olhos nos castiçais de cinco lumes
e que a senhora apagou, um por um, nas pontas dos dedos,
Limpando o traço da fuligem contra a palma côncava como uma concha.
Ó Sra. D. Ema!
Para que se mete nesses trabalhos?
E descalça.
Gosto de sentir o calor das pedras nos pés nus.
Mas uma senhora como a D. Ema, nesses propósitos.
São recordações de infância, Caires,
de quando ajudava a Marina e a Branca no pátio do Romesal.
E faz-me bem ao corpo e à alma.
Deixa isso para os patrões, eles que façam isso.
Deixo isso para os patrões? E que faço eu, não me diz?
Ora, ora...
Uma mulher como tu...
Uma mulher como tu não precisa fazer nada.
Eu até gosto de esfregar.
Então és sanfona.
Isso é resposta que se tenha, seu grosseirão?
Grosseirão? Machão, queres tu dizer.
Uma mulher como tu faz-me cá umas...
Deixe-se de ordinarices e responda à pergunta que eu lhe fez.
Que pergunta?
Não se faca de desentendido e diga-me,
o que é que eu faço se disser aos meus patrões que esfreguem eles?
- Reivindicas. - Reivindico?
- Claro. - Reivindico o quê?
- Os direitos. - Mas que direitos?
Os teus direitos como trabalhador, mulher.
Mas se os meus patrões fizerem o meu serviço,
com que direitos é que eu fico?
Fico eu para patroa e eles que trabalhem?
É isso que tu queres?
Olha, olha. Que grande fascista que tu me saíste, estou mesmo a ver.
- Ó amigo, o que é que há? - Nada, patrãozinho. Não há nada.
O Pedro não pôde vir e disseram para trazer isto, patrão.
Pousa aí nos degraus de baixo. E põe-te a mexer!
Tratou-a mal, Sra. D. Ema?
Não, ele não sabia quem eu era.
Até foi muito divertido.
A Sra. D. Ema não dê confiança a esta gente,
e logo a este, que me saiu uma boa peça.
- A senhora tenha cuidado. - Só com ele, ou consigo também?
Ó Sra. D. Ema, eu sei respeitar uma senhora. Eu respeito-a.
Eu respeito-a muito, Sra. D. Ema. Respeito-a do fundo do meu coração.
Eu só penso em fazer as vontades à senhora.
A Sra. D. Ema é tudo para mim nesta vida.
Se a senhora soubesse o que vai cá dentro...
Eu não penso noutra coisa, eu só penso na senhora.
Se a senhora quisesse...
Eu nem sei o que faria pela senhora.
Ó Caires, o que é que lhe deu? Deixe-me passar.
Com todo o respeito. Com todo o respeito.
Sra. D. Ema, tudo o que disse foi uma confusão sincera
e muito sentida, Sra. D. Ema, muito sentida!
Não sou nenhum vadio, como o Fortunato.
Sou o Caires, sou o mordomo desta casa de grande tradição.
Não sou homem para desprezar assim como a um cão.
Intratante! É o que tu és, Caires.
Um infeliz, Caires.
Um desgraçado...
Um pobre diabo!
Um para aqui...
Um infeliz...
Um pobre diabo.
Um para aqui!
Só a senhora, lívida e enluvada de preto,
cravava nela um olhar de família, sem ironia e sem significado.
Quando Fernando Osório telefonou,
confirmando a sua chegada ao Vesúvio,
Ema simulou que não recebeu a chamada e decidiu partir.
"'Vai, minha filha. Eu cá estou para o receber, "'
"'esse asno que não merece a tua ignomínia. "'
Ema levou a impressão
de que a senhora conseguira reunir todo o escárnio
e atirá-lo, do alto do Vesúvio, ao fundo do rio.
Pensas como um homem.
És uma mulher a título de usurpação do homem.
Sentes-te tocado nesse teu orgulho desumano,
que só a tua passividade acarreta.
O que te perde, é saber raciocinar bem,
o que não te serve de nada.
Agora reparo, tens os ombros cheios de caspa.
Há quanto tempo não lavas a cabeça?
É mesmo tua, uma pergunta dessas.
Gostava de ser mulher, para saber o que tens na cabeça.
- Caspa, não tenho. - Não?
Mas alguma coisa parecida.
Serrim?
E vês caspa, que é branca, no branco do meu casaco.
Luminares contou a história da sua tia Alberta,
que na agonia mandara chamar uma cabeleireira para lhe lavar a cabeça.
A tia estava meio morta,
num oleado deixava escorrer a água que ensopava as toalhas.
Escolheu ainda a cor da tinta
e só não quis ver-se ao espelho.
A volúpia de suportar as coisas.
A volúpia turva que entra pelos umbrais da morte
era o que ela devia sentir.
Mas só uma mulher chegava lá.
Mas eu sou um homem, não és tu que o dizes?
Flaubert é que disse, "Madame Bovarý sou eu".
E Flaubert era um homem.
Embora me chamem "a Bovarinha", eu não sou a Bovarý,
e muito menos Flaubert.
Só há o mesmo pronome, Ema, mas noutra pessoa.
Cardeano pelo sangue, Paiva pelo casamento.
Ema... Cardeano... Paiva.
- Estás a trocar? - Não.
Digo isto com uma ternura doentia.
Não te admires se me vires lágrimas nos olhos.
- Não tenho linha de destino. - Isso é megalomania.
Enganas-te. É o passado. Só o passado mexe comigo.
E, no entanto, não podes fugir a um destino que dizes não ter.
- É assim infinito o poço do desejo. - És implacável.
A vida.
A vida é que é implacável, não eu.
E tu mesma disseste que Carlos era um chacal,
capaz de pedir esmola e nunca atacar. - Tem alma de cangalheiro.
E as facturas que apresenta depois dos enterros escandalizam.
Minha querida...
Quem paga os teus luxos, as tuas jóias, os teus vestidos,
tens de concordar que o dinheiro tem de vir de algum lado.
Não sei. Esconde o que ganha, mas faz dinheiro com tudo.
Especula na bolsa, compra e vende jóias.
Agora há mulheres que se desfazem do ouro que têm em casa
por medo dos ladrões.
Pedro Luminares pensava se Ema não seria, em tempo mais oportuno,
uma La Vallière de muito boa apresentação.
Não lhe faltava o defeito físico,
excitante da beleza que a corrupção contempla.
Também Satan era apresentado manco,
porque a formosura precisa de ter um aviso nela,
para salvação dos homens.
Ema gostava do mal, como se gosta de uma iguaria fina,
um vinho muitas vezes filtrado,
passado ao longo dos anos de uma vasilha para a outra,
rolado, misterioso, profundo.
Era o seu cadastro antiquíssimo,
esse mal que a mulher mistura a todos os atos,
a todas as delícias, deveres, condições, sofrimentos.
Mas não era possível imaginá-la a realizar o mal,
só a macerar o coração dos homens
nessa espécie que salga a terra e a faz fecunda.
Não ouves? Enganaste alguma vez Simona?
Não.
Não sou tão medíocre como isso.
Não tenho êxito com as mulheres, acredita.
Será que os homens se estão a tornar inteligentes?
O que vai suceder se a vaidade humana desaparecer?
O riso há-de secar
e todos hão de suspirar como mulheres doentes.
Parece um cântico de luto.
Que linda és, Ema.
Linda a valer.
Envergonho-me de o ser, se não te tentar.
Não o faças.
Só aos sedentos se deve dar água. Eu não tenho sede.
Ema pensou que Luminares se ria dela.
- Mas que aconteceu a esta pobre Ema? - A lua há de corar.
Corar? Por quê?
Digo que a lua há de corar porque ninguém faz caso dela.
E a nós os dois, o que acontece? Não dizes, Pedro?
Acontece um amor a dois, um amor tão maligno como um ódio puro.
Os homens construíam castelos, fechavam-se lá dentro
e reinavam de qualquer maneira entre os seus serviçais,
incluindo as esposas e as concubinas.
Ema sobrevivia a um sem número de fracassos
nas fileiras do passado feminino.
Luminares opunha à beleza singular de Ema os encantos da sua mulher,
que pairavam por outros parâmetros.
Mas as mulheres tinham de se comparar a um cão, ou a um vegetal.
Havia algumas que não aguentavam isso,
e o mais simples era parecer-se com os homens.
Que ideia tinha Ema da pureza? A privação do desejo
que nos dá o consolo de não nos lançarmos em perturbações sem nexo?
Um humor que despreza e faz a soberania em que vacila
o saber muito e o mundo?
O sogro recebeu Carlos, que veio vê-lo um dia,
e encontraram-se como duas pessoas que têm uma religião em comum,
sem procurar decifrar os seus sofrimentos e as suas emoções.
Carlos, que se podia nomear como virtuoso,
que é uma palavra indizível para homens,
já depois de casado com Ema,
esquecendo por momentos a sua paixão,
Levou à mata dos Remédios outra das suas enfermeiras,
cujos amores passageiros
compensavam as ausências da esposa.
Ema cresceu em condições precárias para o sentimento
e favoráveis aos segredos da vida,
que em tudo se identificam com o desejo e seus imperativos.
A sua filha, Sr. Cardeano, a sua filha, francamente...
Não sei como possa contê-la.
Não quero reprimi-la, de modo algum.
A verdade é que ela passa a maior parte do tempo fora de casa.
E por largas temporadas.
Até as nossas filhas se sentem carentes da mãe.
Eu não lhe tenho faltado com coisa nenhuma.
Ema rodeia-se de muitos luxos.
E quem são as companhias dela?
Nem sei, anda por aí.
Refugia-se no Vesúvio, em casa do Osório.
Na quinta do Osório?
Do Fernando Osório? Mete-se lá com ele?
Não, não é isso.
O Fernando nem lá está, anda sempre pelo estrangeiro.
É ela que gosta do lugar,
de correr nas águas do Cachão, na lancha que por lá há.
Fala-se ainda de uma amiga, tal Tomásia de Fafel,
mulher muito estranha, que lhe dará maus conselhos,
pessoa que nunca vi, nem quero conhecer.
Ainda um amigo, esse conheço eu, o Pedro Dossem,
homem requintado, frequentador da alta sociedade.
Até penso que é ele que a contém um pouco.
É um verdadeiro cavalheiro.
Sempre à espera, sempre à espera que ela chegue!
Sinto-a perdida.
Vivo na incerteza,
na angústia que um dia ma tragam morta,
com os cabelos arrancados em consequência de um acidente.
Mas isso é horrível!
Como é que pode pensar uma coisa dessas, homem?
Acalme-se.
A Ema anda simplesmente desencaminhada.
Um rosto como o dela pode justificar a vida de um homem.
O sogro achou-o meio doido, não disse nada
e pensou que talvez Ema precisasse de outro marido,
aquele era brando demais, corrompera-a pelo consentimento.
Cardeano achou que não era bom aproximar-se dos infelizes.
Carlos tinha o que merecia.
Há outra coisa.
Coisa séria, que me trouxe cá.
Então se a coisa é séria porque é que não o dizes já?
Séria e delicada, por isso queria poupá-lo a mais incómodos.
Mas diga!
Mas diga, homem, diga!
É a sua neta Lolota.
O que é que há com a Lolota?
Ela declarou diante de mim, diante da mãe e da irmã,
como se fosse a coisa mais natural, que estava grávida.
Grávida, uma menina solteira? A minha neta?
Lolota, com 14 anos, só gostava de ouvir música
e de folhear revistas de casos sociais
para conhecer as famílias reinantes na Europa
e os casamentos que faziam.
Tornou-se "'snob "' e só falava por favor a toda a gente.
Mas ninguém lhe ligava.
Mas é verdade?
É verdade. Denunciou, sem mais nem menos, que estava grávida
e pôs-se a devorar caramelos.
- Devorar? - Sim, devorar, é o termo.
Devorar caramelos?
Falei-lhe com a maior delicadeza, quis saber o nome do responsável...
E quem é o tratante?
Ela respondeu candidamente que não era ninguém.
- Ninguém? - Ninguém.
E perguntou se não podia ter ficado assim no banho.
No banho?
- E o que diz a Ema? - A Ema...
Que Lolota é uma comediante, que não sonhava com amantes,
e que nem tinha aquelas veleidades
de meninas que se sustentam dos ídolos do rock.
Então quer dizer que a menina está a querer divertir-se connosco?
Ou serão vocês?
Não estou a entender nada.
Isso é com vocês.
É Vocês é que a educaram. E o resultado das educações modernas.
A responsabilidade é vossa.
Agora arranjem-se lá como puderem, mas não me metam a mim em trabalhos.
O problema é vosso. O problema é vosso! Adeus.
Adeus, adeus.
Tudo aquilo parecia indesculpável a Carlos.
Ema, que vivia a vida
como uma toupeira cava galerias desesperadamente.
Um pai egoísta, que educara mal uma filha,
e ele, Carlos, vítima da sua passividade,
numa paixão que o cegava como a luz do sol.
O velho Semblano morreu de uma crise cardíaca
e o Loreto sofreu com a perda desse vassalo
mais constante do que se supunha.
Maria Semblano sabia que o filho ia ser alvo dos ataques de Ema.
O jovem Semblano, por sua vez,
teve escrúpulos em se deixar seduzir por ela.
Mas a beleza de Ema, que parecia um desperdício se não fosse admirada,
não podia deixar de fazer efeito carnal.
- Mas porque há de ser agora? - E porque não há de ser agora?
É agora que estamos aqui, desejosos de o ouvir, não estamos?
Tem que ser, tem que ser.
- Queremos ouvi-lo. - Vou pensar, vou pensar.
Anda, meu filho, não te faças rogado, vai buscar o violino.
Este rapaz é o oposto do pai, é muito tímido.
Uma timidez que lhe vem de uma grande sensibilidade.
- É um artista, como a mãe. - Amabilidades...
- É um jovem muito atraente. - Acha?
Há nele uma candura invulgar.
Era óptimo para a vossa filha Lolota.
Acha?
- Não lhe parece, Carlos? - Com certeza.
Faziam um lindo par. Não é, Ema?
Sim, se eles quisessem.
Mas, por favor, não fiquem de pé. Sentem-se. Carlos?
Aquela farda com condecorações
Lembrou-lhe o oratório do seu Romesal.
Dossem nunca chegou a compreender bem Ema.
Achava-a... enigmática.
Se a mulher é a musa, a música é a rainha das artes.
Porque procura sempre essas frases aliteradas?
É o menos que pode acontecer quando se está ao lado de uma musa.
Ó Dossem, outra vez?
O seu jovem Semblano é um virtuoso.
Muito obrigado.
Galanteador, como sempre, mas muito indirecto.
Maria do Loreto, por quem é...
Qual é o pronome do jovem Semblano?
Narciso.
Não lhe podiam ter dado melhor baptismo.
Que vais tocar?
Que vais tocar, meu filho?
A ária na quarta corda de Bach.
Assim visto de costas, parece uma mulher.
Já te arrependeste de vires comigo?
Dizes isso porque eu te disse que parecia uma mulher?
Não, não me desiludiste. E deste-me uma boa prova de que és um homem.
O jovem sentiu-se chamado à realidade.
A beleza de Ema, preparada até parecer intocável,
dava-lhe a ideia de que o mundo fabrica em surdina
coisas que pertencem a um isolamento e não se partilham,
como o sexo e o pão.
Quando eu era criança e queria saber o nome de uma flor,
diziam-me "rosa" ou "malmequer", e eu punha sempre em dúvida essa resposta,
porque queria saber mais.
Porquê "rosa"? Tia Augusta impacientava-se,
como se tivesse de provar a existência de Deus.
"Que disparate! É porque é assim que se chama", respondia.
Para ela, Deus estava implícito em tudo e alheava-se daquele diálogo.
Soube mais tarde que na antiga língua dos brâmanes,
"rosa" queria dizer "balouçante" ou "a que baloiça".
Tão breve imagem da flor na sua haste, tocada pelo vento,
e prestes a deixar cair as suas folhas. Por que a rosa?
Se em contacto com o vento, ela deixa de ser rosa.
Mas no balouçar já é, e logo deixa de o ser.
O que é que quer dizer com isso?
Que Ema é uma rosa? Uma rosa ao vento?
Eu não sou nada. Sou um estado de alma em balouço.
Narciso, pára!
Essa melodia faz-me tristeza.
Vamos embora.
- O que tem isso de anormal? - E normalíssimo.
É quase ofensivo para a indústria dos electrodomésticos.
Aquela pobre mulher a esfregar roupa como uma máquina nos dias de hoje,
é uma visão verdadeiramente irreal. - Ó Dossem, você é muito especial,
mas não conhece a situação. E a Ritinha,
não sei se alguma vez cheguei a falar-lhe dela.
Se não o fez, foi uma falta grave.
- O que é que vai sair daí? - Coisa muito simples.
A Ritinha já vem como lavadeira da casa dos meus pais.
Viu-me nascer e criar. É uma mulher intuitiva e muito esperta.
Mas não diz uma palavra, nem as ouve.
É surda, surda-muda.
Não sabe fazer outra coisa na vida. Conservou-se solteira
e suponho que virgem, até. Por estranho que lhe pareça,
é a lavar a roupa que ela se sente realizada.
Não sabia. Mas...
Pareceu-me ter um olhar inteligente.
É muito inteligente. E sabe muito, sabe tudo.
É um livro fechado, porque não pode falar.
E surda como ela é, a sabedoria entrou-lhe unicamente pelos olhos.
Quer dizer que se ela não tivesse este affaire...
Vê como compreendeu?
Há entre nós uma estima mútua, que se situa no imponderável.
Nem ela, se falasse, saberia explicar.
Foi dedicada e íntegra, em absoluto.
Entre mim e ela criou-se esta ligação,
não sei bem dizer, vegetal.
Sei que foi uma mulher que dedicou uma vida inteira ao trabalho,
por devoção, sem que lho exigissem.
Mas esqueceu-se de lhe dar uma condecoração,
como deram à pobre velhinha que servia os Bovarý,
pelos bons serviços prestados.
Não fizeram essa cruel injustiça.
Há seres que ficam como fazendo parte de nós.
- Como a Ritinha? - Como a Ritinha.
E como a minha mãe, que perdi muito cedo.
Nós não somos nada, somos cativos.
Uma agradável surpresa!
Veja a minha deselegância, falava de política com a sua mulher.
Fez muito bem, até deveriam ser elas a governar o mundo.
Mas sente-se, por favor.
Sentem-se, meninas.
Nas monarquias era frequente a rainha governar.
E ainda hoje, em governos democráticos,
acontece darem o poder a mulheres como primeiro-ministro.
E cumprem o seu papel tão bem ou tão mal como os homens.
A razão? Uma mulher a governar já não é uma novidade.
Diria mesmo que nunca foi novidade.
Falavam de sociedades matriarcais, era?
Não. Falava eu do descaminho do mundo,
daquilo a que chamam "progresso".
Da fome, da miséria e da injustiça.
Vai logo às do cabo!
Bem, eu falava dos descaminhos. Vejam a Europa, por exemplo.
Criou uma civilização, é certo, mas como?
Aproveitando-se dos bens que não lhe pertenciam.
E o que é que lhes deu em troca?
Criou um mercado para melhor sugar o tutano alheio.
Não acha lamentável?
Acho que exagera um pouco, não lhe parece?
Não, eu penso que não.
A mais-valia que a Europa civilizada deixa hoje não é senão um lixo.
Fome e injustiça.
Fala como um revoltado.
Bom, e de certo modo sou.
Mas pacífico.
Pacífico como um dândi, como um aristocrata, um bon vivant.
- Não é isso que afinal você é? - Pode ser.
Mas também não vejo onde está a incompatibilidade com a justiça,
e muito menos com a consciência daquilo que se tem por justo.
O problema é apenas uma questão de ética.
"Ética" com letra grande. Isso faltou.
Foi sem isso que a Europa engendrou tudo.
Quanto a mim, ela é a grande culpada.
Não está a ser demasiado drástico?
Veja, toma-se castigo por justiça, poder por honra,
orgulho por nobreza. A Europa...
Mas de que Europa fala? Da dos príncipes, das coroas reais,
que se divertem em festas que Dossem habitualmente frequenta?
Não. Eu não excluo essa, nem quaisquer outras.
Assim como também não excluo as repúblicas que a seguir vieram
e que se espalharam em democracias e ditaduras no Ocidente e no Leste.
Eu bem sei que os povos, europeus ou não,
fazem parte da Humanidade.
Mas é mesmo aí que reside o mal do mundo.
A civilização degenerou,
e fez do Homem o vírus destruidor da Natureza.
Esta Europa, e não há outra,
que elaborou o próprio estatuto de civilização,
é vítima de si própria.
Apercebeu-se disso talvez demasiado tarde
e hoje sente-se forçada a recompor o mundo,
o que tenta desesperadamente sob o signo da democracia.
Posso concordar consigo, mas só em parte.
Sabe, é que tudo isso que diz... parece-me muito complicado.
É muito complicado e muito complexo.
Já agora, por curiosidade,
e os Estados Unidos da América?
Ficam, para si, fora desta sua contenda?
Os Estados Unidos são os filhos da Europa.
Filhos e herdeiros da civilização ocidental.
Todavia, sob a influência saxónica, ou anglo-saxónica,
embora a raiz mediterrânica persista.
Sim, compreendo.
Mas receberam essa cultura.
E não acha, ao menos isso, um dado positivo para a Europa?
Receberam uma cultura e também uma religião.
E, no entanto, nem cá nem lá foram ainda cumpridas.
Foram antes deturpadas, violadas por idolatrias e pragmatismos
extremistas e desumanizastes.
É estranho...
É mesmo muito estranho, esse seu... Como hei de dizer?
- Entusiasmo pessimista. - Entusiasmo?
Pelo contrário,
eu sei que não sou aquilo a que se pode chamar um "político".
Eu se me atrevo a falar destas coisas,
é com um espírito e uma sensibilidade equivalentes à de um artista.
Artista ou aristocrata?
Ema, eu não disse "artista", disse "equivalente".
O artista tem uma visão poética das coisas e do mundo,
por isso sofre. - Sofre?
Sofre, sim, Ema. Sofre pelo choque com a realidade.
Ó pai!
Este gato é impertinente!
A impertinência não será antes tua?
Ema, por favor...
Eu peço mil desculpas,
esta minha conversa é que é realmente muito irritante.
Mas, não, não. É um encanto ouvi-lo, não é, mãe?
Mas de qualquer maneira eu tenho que ir.
Tenho um encontro marcado.
Muito obrigado pela simpatia.
- Se tem mesmo que ir... - Tenho.
Que pena!
Nesse caso faço questão de o acompanhar até ao automóvel.
Mas que espanto!
Nem estava a reconhecê-lo, assim tão janota!
Mas o que se passou, Caires? Nunca mais o vi no Vesúvio.
Andei por fora uns anos a servir no estrangeiro.
- Sim? E em que parte no estrangeiro? - Principalmente em lnglaterra.
Tinha um conhecimento com uns ingleses que iam ao Vesúvio e fui.
- E deu-se bem por lá? - Dei sim, Sra. D. Ema.
A princípio custou um bocado, mas depois,
com a ajuda de uns amigos, tive sorte
e a vida correu-me muito bem. - E agora, volta para o Vesúvio?
Não, Sra. D. Ema, ao Vesúvio, só se for de visita.
De visita? Mas zangou-se com o Sr. Osório?
Não, não. Não me zanguei com ninguém.
Eu comprei uma quinta, ali perto do Pinhão.
Não é para me gabar,
mas é uma quinta grande, com uma bela casa.
Não tão grande como a do Vesúvio, mas é uma boa casa.
Eu até gostava de convidar a Sra. D. Ema,
e o Sr. Dr. Carlos Paiva, claro, só para uma visitinha.
Depois havemos de ver isso.
Agora tenho de ir ver um doente.
Adeus. Até à vista.
Ó Caires, sente-se. E conte-me lá a sua vida.
Com licença.
Ó Sra. D. Ema, a minha vida modificou-se completamente.
Eu agora sou rico, muito rico.
Bravo! E o seu sobrinho, o Fortunato?
Não me fale nesse desgraçado.
Tornou-se um revolucionário.
Deixou a mulher e foi para as nossas antigas colónias para fazer desacatos.
Então o Fortunato deixou a mulher?
Pois deixou. É um desalmado.
Só pensa nele e em tolarias. É um degenerado.
Sra. D. Ema, eu soube, disseram-me,
que o Sr. Dr. Carlos Paiva...
... que o Sr. Dr. Carlos Paiva tinha perdido no jogo da bolsa,
enfim, que se encontrava em dificuldades.
Mas quem lhe disse isso?
Estas coisas sabem-se. À boca fechada, mas sabem-se.
Eu queria dizer à senhora...
Diga, diga.
A Sra. D. Ema sabe...
... sabe os sentimentos que eu há muito sinto pela senhora.
Olhe que todo o tempo que eu estive fora, só pensava na senhora.
E as saudades que eu tive da senhora...
E o que é que o Caires pretende agora?
É que eu estou em condições de poder ajudá-los.
Eu não penso em outra coisa, só penso na senhora, D. Ema.
Ó Caires...
Tudo o que quiser de mim, ponho tudo a seus pés, D. Ema.
A Ema não sabe o amor que lhe tenho. Como preciso de si.
Ó Caíres, não há maneira de ter juízo.
Vá, levante-se e vá-se embora.
As minhas filhas não tardam aí e não quero que o vejam nessa figura.
Bom, se não sai você, saio eu.
Ema acabou por se sentir humilhada.
De repente, pensou que eram precisos 500 anos de intrigas,
guerras, cárceres e História escrita para pertencer àquele lugar.
"'És bela, "' dizia a princesa, "'mas aqui não chegaste a tempo. "'
"'A minha criada tem mais razão de ser do que tu. "'
"'Vê como ela serve. "'
"'Como ela deixa escorrer o licor de menta nas paredes do frasco. "'
"'Espera, para o pousar sem ruído. "'
"'Só depois de a gota regressar ao verde e fragrante conteúdo do frasco, "'
"'ela o pousa, assegurando-se de que tudo está em ordem. "'
"'Eras capaz dessa firmeza?"'
"'Essa entrega ao outro, absoluto, "'
"'capaz de te ignorares na tua solidão, "'
"'porque servir é isto. Não, não és capaz. "'
Ema pôs-se, uma vez mais, em fuga.
E voltou ao Vesúvio, onde ela já não encontrava ninguém.
Na manhã seguinte,
andavam os homens na poda, sob um dia invernoso de chuva.
Quando Ema acordou, deu-se conta, de repente,
que lhe tinha faltado a ciência da articulação e disse para consigo:
"'Não estudei o esqueleto humano, nem como se mexem os braços "'
"'e se vira a cabeça. "'
"'Não é um hábito, "'
"' é uma combinação perfeita entre a causa e o efeito. "'
"'A relação entre todas as coisas, nunca vi como funcionava. "'
As vinhas do rio Douro
constituem um dos mais imponentes espaços do mundo,
só comparáveis aos campos de arroz da China,
também plantado em socalcos.
Um lugar assim não morrerá, nunca.
É privilegiado para o sofrimento
e o seu destino é viver em convulsões,
como se vê pelo gesto das videiras,
curvas, nodosas,
escamudas, negras.
E, ao terceiro dia,
o sol abriu, surpreendentemente brilhante e redentor.
"'Volta para os teus pequenos desarranjos mentais, "'
"'a tua declaração piegas do coração puro que perdeste. "'
"'Um coração puro não se perde, não se gasta, não se transforma. "'
Ema arranjou-se como se fosse para um baile
e perguntava-se quanto havia de amor saudoso
naquelas visitas ao Vesúvio,
ou se era a senhora que ela queria cumprimentar,
como uma criada que vai recorrer à casa da primeira servidão.
Deixou o raminho de flores à senhora
e percorreu o laranjal,
que lhe fazia lembrar o tempo da sua virgindade.
Algum tempo mais tarde encontraram Carlos,
morto, num dos bancos do parque da Caverneira.
Fumava cachimbo como medida higiénica,
porque o cachimbo era menos nocivo à saúde.
Tinha o tabaco ainda nos dedos, uma pitada que lhe caíra do casaco,
e a cabeça inclinada como se estivesse para baixar-se
e recolher a caixa do tabaco que lhe caíra para o chão.
Era tão evidente a preocupação,
que a primeira coisa que fez o jardineiro
foi apanhar a caixa, como se obedecesse a uma ordem.
Maria Loreto Semblano tinha-lhe pedido, nesse dia,
para rever as provas do seu último livro, dizendo-lhe:
"'Nada disto é importante. "'
"'Mas ninguém imita melhor do que eu"'
"'uma bela vida. "'
Adaptação e Legendagem Margarida Pacheco CRlSTBET, Lda.
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