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Original subtitles

Sacrifício de uma Vida (1946)

Legendas em Português-Br: Walter Santos

Michael, é a Elizabeth!

-Olá, Alan. -Srta. Kenny, é bom vê-la de volta.

Obrigada!

-Mãe! -Querida!

-Elizabeth! -Oh, papai querido.

-Como é voltar pra casa? -Maravilhoso! Como você está?

Muito bem, não poderia estar melhor. Como está, Dr. McDonnell?

Olá, Sr. Kenny. O que acha da sua filha agora?

Um pouco adulta pra mim.

Não sei que enfermeira será. Terei que adoecer pra descobrir.

Queríamos ir à sua formatura, mas seu pai tem estado ocupado.

Queríamos recebê-los no trem. Por que não telegrafou?

Você a viu se formar, doutor?

Ele entrou bem no meio do meu juramento.

Cheguei a tempo do último parágrafo.

-E essa é a parte importante. -E qual foi?

"Com lealdade, procurarei ajudar o médico em seu trabalho."

Precisamente, e nunca se esqueça.

-Nunca será uma boa enfermeira. -Por quê, pai?

Enfermagem é carreira para uma mulher caseira,

e nenhuma das Kenny é caseira.

-Está ouvindo? -Dr. McDonnell,

terá problemas quando ela passar pelas enfermarias.

Isso me preocupa um pouco.

Enfermeiras devem manter os pacientes animados.

Nem tão animados.

Não contou tudo sobre a Sra. McDonnell, não é, doutor?

Bem, ouvimos que ela...

É que ouvimos dizer que Nellie teria um bebê.

Sim, ela perdeu.

Oh, de novo? Ela adora crianças!

Sim, é muito boa nisso também.

Ela quer Elizabeth conosco quando vier ao hospital.

Lembra quando ficou conosco ao quebrar o braço?

Certamente que sim.

Quando você decidiu que eu devia ser enfermeira?

Não decidi nada, só descobri um talento.

Claro que você não encorajou.

Seja lá o que você fez, foi por sua própria vontade.

Todos fazem o que você quer e sempre por vontade própria.

Você é enfermeira nata, e sabe disso.

Nosso hospital é uma boa chance pra você.

Vai crescer e um dia será a enfermeira chefe.

Quando pode começar?

Não vou para o seu hospital, Dr. McDonnell, vou ficar aqui.

O que vai fazer?

-Ser uma enfermeira do interior. -Enfermeira do interior?

Lembra do que disse quando quebrei meu braço?

Você disse isso à mamãe, mas nunca esqueci.

Que uma enfermeira do interior ajustaria aquele braço

e você não teria que quebrá-lo pra isso.

Bem, vou ser aquela enfermeira do interior.

É muita responsabilidade. Sou o médico mais próximo,

-a 50 milhas de distância. -É esse o ponto.

Se acha experiente, mas trabalhar num

hospital pode ajudá-la.

E daí jamais serei enfermeira do interior.

Não sei de onde tirou essa ideia maluca!

De você.

Ridículo, começará algo que não pode terminar.

Ser enfermeira do interior é difícil, não aguentará.

-Cresci no interior. -Não como enfermeira.

60 milhas de qualquer lugar. Sempre em carroças.

Estradas ruins, roupas sujas, esfregando o chão...

-Pensei em tudo isso. -Você não aguentará.

Se quero ser mesmo útil como enfermeira,

devo trabalhar aqui ou num hospital?

-Quem faz perguntas aqui? -Diga que não sou necessária aqui.

Elizabeth, estou muito preocupado com você.

Um dia essa teimosia te trará problemas.

Em quanto tempo você acha?

Em 6 meses vai parar num hospital,

seja como enfermeira ou como paciente.

Ouçam! Ouçam, pessoal!

Elizabeth Kenny, seus amigos e vizinhos,

estão aqui para lhe prestar homenagem.

Já era hora.

Ouça, Weir!

Como eu dizia, já estava na hora de homenageá-la.

Por 3 anos, você trabalhou entre nós sem pensar em si,

atenta nas noites solitárias, em tempo bom ou ruim.

-Na saúde e na doença... -Vá em frente, Angus!

Se acha que pode fazer melhor, Patrick O'Shea,

venha aqui e faça!

Onde eu estava? Viu? Ele fez eu me perder.

-Foi um lindo discurso, Sr. Frazier. -Foi melhor quando eu ensaiei.

Mas o que quero dizer é que

alguns de nós nem estaríamos aqui se não fosse por você.

Veja eu, 2 anos atrás, quando quebrei a perna,

achei que nunca mais andaria.

E todos os bebês que trouxe ao mundo...

São uma bela safra de australianos.

Sim, eles são mesmo, Angus!

Não se esqueça de mim, Angus. Ela curou minha pneumonia.

Sim, ela curou. E isso foi um erro!

Agora, indo direto ao ponto, enfermeira Kenny,

já que não vai cobrar um centavo pelo que fez,

todos nos reunimos e...

Archie! Archie!

Discurso! Discurso!

Eu...

Eu não sei o que dizer.

Vocês não deviam fazer isso.

Eu não sei dizer o quanto isso...

Não sou boa em fazer discursos,

mas eu...

Parece que ele sabe falar melhor do que eu.

Obrigada. Obrigada a todos.

Agora, vamos continuar com a dança.

Eu levo ele, Srta. Kenny.

Dói aqui, querida?

Aqui também?

Ficou assim ontem, como os bezerros que vi caindo.

Não pode esticar a perna, Dorrie?

Tente esta, experimente.

Pronto, não chore, querida.

Não vamos te machucar.

Não acha que poderia tentar dormir agora?

Dói... dói tudo.

Sei.

Mas nós vamos curar você.

Tem certeza de que não é doença da vaca?

-O que mais seria, Srta. Kenny? -Sim, o que é isso?

Você não sabe o que é?

Não, Martha, não sei.

-Qual o telégrafo mais próximo? -Em Dry Fork.

-Quanto tempo pra chegar lá? -Uma hora, se pegar os atalhos.

Acorde o telegrafista se estiver dormindo. Mande enviar isto.

Espere pela resposta e volte assim que puder.

-Apenas para o Dr. McDonnell. -Mas ele não pode vir pra cá.

Ele pode dizer o que fazer. Descrevi os sintomas.

Por favor, vá logo.

Mamãe, posso ir com o papai?

Volte a dormir, Nora.

Martha, é melhor manter os gêmeos longe de Dorrie.

Pode ser contagioso.

Não pode fazer algo por ela? A dor é tão forte!

Não posso fazer nada até ouvir o Dr. McDonnell.

Mas eu...

Não posso suportar o choro dela.

Martha, vá fazer um chá e tente descansar um pouco.

Tudo ficará bem quando ouvirmos o Dr. McDonnell.

Enfermeira Kenny! Enfermeira Kenny!

Recebeu uma resposta?

O que é isso?

-O que diz aí? -Paralisia infantil.

-Paralisia? -Não sabem como tratar.

Que tipo de ajuda médica é essa?

-Nenhum tratamento conhecido? -É o que diz.

O que vamos fazer?

-O que diz no telegrama. -Mas diz que não há tratamento.

Diz outra coisa, Martha. Leia isso de novo.

Faça o melhor que puder, com os sintomas...

Os sintomas revelam coisas.

Ela está confusa.

Os músculos contraídos. Eles ficam puxando.

Estão paralisados?

Se estivessem paralisados, não poderiam puxar.

Essa tensão é estranha.

Suas costas estão arqueadas.

Os músculos da coluna estão contraídos.

Os músculos posteriores do pescoço também.

Melhor?

Eles parecem mais curtos do que deveriam ser.

Puxam contra outros músculos. Por isso que está com dor.

Veja, este músculo não está tenso.

Mas o músculo oposto, está.

Parece que estão sofrendo um tipo de espasmo ou algo assim.

Espasmo.

Vou precisar de sua ajuda, Martha.

Experimentar o vapor, o mais quente que puder suportar.

Tem pedaços de lã? Pegue um cobertor velho.

Vamos rasgar em tiras. Sr. MacIntyre, vá até o fogo.

Pegue a bacia primeiro, por favor.

Martha, traga algumas toalhas.

Pode colocar aqui.

Martha, primeiro a toalha.

Pegue o outro lado, Martha.

Coloque sobre a bacia.

Continue fazendo assim.

Vou pôr na Dorrie assim que estiverem prontos.

Segure a bacia.

Levante a bacia, Martha.

Torça agora, com força.

Não pode ter água na lã, ou queimará sua pele.

Lembrem-se, nenhuma gota d'água.

Pronto, agora faça assim. Depressa, prepare outra tira.

Traga logo isso, não pode perder o calor.

Dorrie, vai ficar quente, mas não vai queimar você.

Não se assuste.

Vou cobri-la toda com panos quentes.

Não precisa mais, Martha.

Pronto.

Agora é manter o calor.

Está se sentindo melhor, Dorrie?

Dorrie.

Ela está dormindo.

Olá, Kevin!

Olá, olá. Como está, meu jovem?

Olá, Mamãe Kenny! Parece mais jovem do que nunca.

-É maravilhoso ter você de volta. -O Exército te fez bem.

Mas foi melhor sair do que entrar.

Esta terra me agrada. Nunca mais vou usar uniforme.

Esperávamos por você desde ontem.

-Onde está Elizabeth? -Quase não a vemos há 10 dias.

Paralisia infantil. Já há 5 casos agora.

Não sei o que vai fazer se tiver mais casos.

Bem, se for uma epidemia, podem me buscar.

-O que disse que era? -Paralisia infantil.

-Isso é ruim, não é? -É terrível.

Parte seu coração ver aquelas crianças.

-É contagioso? -Não se sabe nada sobre isso.

Aí vem ela.

Afaste-se da janela, ela pode vê-lo.

Lembre-se do que deve fazer. Fique na outra sala.

Vamos, Mary, ocupe-se. Aja naturalmente.

Ainda acho que é maldade.

Vamos, Mary. Corte uma fatia de pão,

prepare um chá, mas seja natural.

Michael...

-Ele já chegou? -Tem certeza que ele chega hoje?

Bem, você viu a carta dele.

-Mais algum caso, querida? -Não, graças a Deus.

Como está a garotinha Benson?

Preciso saber, mamãe. Irei lá esta noite.

Tenho que passar nos McIntyres primeiro.

E o Kevin?

Por que ele tem que chegar numa hora dessas?

-Elizabeth! -É verdade.

Bela maneira de falar do Capitão Connors,

que lutou na Índia pela sua pátria.

Bobagem, papai. Ele só ficou sentado numa colina esperando.

O que ele diria se ouvisse isso?

Foi ele que me contou.

Ora, não fale assim dele, sabe que quer vê-la.

Claro que sei, também quero vê-lo. Mas olhe como estou!

Não quero que tudo aconteça como da última vez que ele veio.

Tem um bom carneiro na despensa.

-Não quer pegar? -Só quero uma xícara de chá.

Por que a melhor porcelana?

Bonita, não é?

Querida, perdi meus óculos em algum lugar.

Onde está... Ah, sim, eu estava lá na despensa.

Elizabeth, se importaria...

Obrigado.

Acho que vou comer aquele carneiro.

Kevin, acho que você não deveria vir comigo.

Você disse que achou só um caso numa família.

E as casas ficam a quilômetros de distância.

Isso não prova que não seja contagioso.

Só irei chamar sua atenção se ficar doente também, não é?

Suba.

Quero ver Dorrie McIntyre. Vamos, garoto.

Enfermeira Kenny, mamãe quer vê-la o mais rápido possível.

-O que houve com ela, Jordy? -É meu irmão, ele pegou.

Está com muita dor?

Sim, as costas dele se dobraram e mal consegue respirar.

Mamãe disse pra vir buscá-la. Você vem?

Sim, Jordy, eu vou.

Mas, Liz, não posso levar você?

Pode ser contagioso desta vez.

Poderia ir até os McIntyres? Diga que irei assim que puder.

Vou com Jordy. Você me traz de volta.

Vamos!

Vamos, garoto. E sem pressa.

Dorrie, foi exatamente o que aconteceu.

Eu estava pronto pra cavalgar,

Kenny foi embora com outro e me deixou sem graça.

Dorrie aqui também não conseguiu lembrar.

Quando entrei, ela nem se lembrava de mim.

-Lembra-se dele, não é, Dorrie? -Não, eu não.

Há apenas 3 anos, você dormiu nos meus braços.

Não, não dormi.

Foi ele quem trouxe seus irmãos mais novos.

Não, não trouxe.

-Onde estão os gêmeos? -Na casa da minha cunhada.

A enfermeira Kenny teve medo que fosse contagioso.

Isso dói, Dorrie?

-Não. -Você é uma boa garota.

Ela tem sido uma boa garota. Boazinha e paciente.

Mesmo trocando os panos, ela não se mexeu.

Não acho que vai precisar mais de panos quentes.

Os espasmos acabaram. Os músculos parecem relaxados.

Estará dançando por aí em alguns dias.

-Vai dançar comigo, Dorrie? -Não sei dançar.

Eu te ensino. O Capitão Connors é um dançarino maravilhoso.

-Não sei como ela sabe. -Sempre disse que era.

Bem, Dorrie, acho que não precisa mais de mim.

-Ela já pode se levantar? -Sim, um pouco.

Sente-se, vamos pôr a camisola.

Vamos, querida.

Dorrie, faça o que ela disse. Vamos, sente-se. Sua camisola.

-Dorrie... -Só um minuto.

-Não quer se sentar, Dorrie? -Sim.

Tente, querida.

Faça você mesma.

Levante o joelho, é a 1ª coisa que se faz para andar.

Levante, querida. Experimente, meu bem.

-Faça força. -Não posso.

Mexa a perna, querida. Apenas mexa.

Não posso.

-Está paralisada! -Martha!

A perna está dormente, Dorrie?

É uma sensação engraçada.

Claro que sim.

Vê como estou movendo sua perna agora, Dorrie?

É como se andasse na cama.

As pernas parecem normais pra mim.

Dorrie, acho que está com preguiça.

Acho que quer que eu mova suas pernas pra você andar.

É uma ideia boba, não é?

Pronto.

Cansei de andar por você. Faça isso você mesma.

Mexa as pernas como se fosse andar, Dorrie.

-Tente, Dorrie! -Não posso, não posso...

Ah, meu bebê! Ela está paralisada!

Vai me ensinar a dançar, Srta. Kenny?

Ah, meu bebê! Meu bebê!

Sabe qual é o problema?

Acho que esqueceu como andar. Ficou muito tempo deitada.

Eu não esqueci, minhas pernas é que não querem.

Muito bem, então culparemos suas pernas.

Dorrie não esqueceu, mas elas sim.

Veja essas pernas, se esqueceram de como andar.

Vou ter que ensinar tudo de novo.

Como posso ensinar se elas não têm ouvidos?

Sabe, Dorrie, devia ter ouvidos nas pernas.

Sabe como as pessoas que não ouvem conversam entre si?

Conversam com as mãos.

É isso que vamos fazer.

Você não sabe, Dorrie.

Mas vamos falar com os músculos.

Sim, estou falando com eles.

Dorrie, um deles acabou de responder.

O que ele disse?

Ele disse que não consegue lembrar.

Eu disse que ele precisa lembrar.

Pense, querida, pense. Tente lembrar-se.

Por favor, Martha, não tem nada a ver com a memória.

No momento, quero que ela não pense em nada.

-Olhe. -O que é?

Dorrie, sua perna acabou de me dizer algo.

Está começando a achar que se lembra.

Agora pense, Dorrie. Pense com ela.

Pense em puxar daqui.

Saindo daqui, Dorrie.

Agora levante sua perna.

Levante sua perna.

Que perna perversa!

Não a repreenda, Dorrie.

Sua perna me disse que voltará a andar.

Vai andar de novo, Dorrie.

E vai dançar também.

Vai levar um tempinho.

Já é o suficiente por hoje.

Kevin, eu estava apavorada.

Foi o que imaginei. Mas Dorrie não notou, nem sua mãe.

Antes de Dorrie mover a perna, você me disse para olhar.

-O que eu deveria ver? -O tendão.

Começou a se mover logo abaixo do joelho.

Daí vi que o músculo não estava paralisado.

Eu tentava obter o reflexo.

Se fosse um médico, saberia o que fazer já no início.

Descobrindo isso no meu primeiro caso,

seguiria fazendo o mesmo com os outros.

-Como está o irmão do Jordy? -Muito mal.

Sabe, às vezes, eu fico com medo.

Em primeiro lugar, por que quis ser enfermeira?

Eu gosto de enfermagem.

Onde isso vai acabar?

Kevin, do que tem medo?

Você... enfermeira.

Querido, não seja ridículo.

Disse que desistiria quando você voltasse.

-Bem, estou aqui. -E vou me casar com você.

-Quando? -Quando as crianças estiverem bem.

-Sem mais casos? -Sem mais casos.

-Sem outros bebês? -Sem outros...

-Bem... -Exceto Dorrie?

-Apreensiva? -Estou congelando.

Bem, você não o conhece.

Kevin, se importa que eu o veja a sós primeiro?

Claro, eu nem queria vê-lo.

-Mas não vejo necessidade. -Vou demorar só 2 minutos.

Dorrie e eu vamos esperar 2 minutos. Vamos, Dorrie.

Ora, Elizabeth! Parece que está indo numa festa.

-Você gosta? -Sim.

Quer uma coxa de frango? Estou almoçando.

-Pode comer. -Obrigado.

-Quer picles? -Não, obrigada.

Dr. McDonnell, está muito desapontado comigo?

Não, Elizabeth, sei que fez a coisa certa.

-Sabia de tudo o tempo todo? -Ora, é claro!

Bem, quem te contou?

Você mesma! Me enviou um telegrama, não foi?

-Deus! Não é nada disso -Paralisia é algo assustador.

Pedi ao Dr. Brack pra ir, mas não teve tempo.

Com tantos casos, parecia uma epidemia.

-Graças a Deus foi só um. -Eu tive seis.

-Seis? -Seis.

Oh, céus!

Deixe-me esclarecer, já que estou aqui.

-Tem uma pessoa lá fora... -Quantas crianças perdeu?

Quantas crianças morreram?

Ora, nenhuma.

Dr. McDonnell, quero que conheça uma pessoa que eu trouxe.

-Está esperando lá fora. -Depois eu examino.

Diga-me, qual a percentagem de crianças deformadas?

Quantas estão deformadas?

-Ora, nenhuma! -Quer dizer que mais 5 casos,

como descreveu no telegrama, se recuperaram?

-Sim. -Isso é fantástico.

Ainda estou tratando o meu último caso.

Não sei se vai andar. Ainda estou reeducando os músculos.

-Fazendo o que com os músculos? -Ensinando-os a trabalhar...

Não sei como dizer... Ensinando, reeducando...

Deve saber muito bem.

Só fiz o que me mandou fazer, no telegrama!

O que eu disse pra fazer, no telegrama?

Trate os sintomas. Para espasmos, o calor úmido.

E tive um choque quando descobri que devia reeducar os músculos.

Devia saber disso.

Reeducação, calor, espasmo, não há esses termos nos livros.

E este é o melhor trabalho sobre paralisia infantil.

Sir Robert Jenkins, é a nossa Bíblia.

Posso ver?

Vamos ver outra coisa antes. Venha comigo.

Quero saber qual de nós está louco.

-Liz! -Como vai? Volto em um minuto.

Esses são casos graves de paralisia infantil.

-Olá, doutor. -Olá, enfermeira. Como está a Becky?

A Becky está melhor hoje.

Olá, Dr. McDonnell.

Olá, David.

Eles estão melhorando?

Estão piorando em vez de melhorar.

88% dos casos acabam assim.

Retomando o assunto, teve 6 casos que se recuperaram.

-Sim. -Isso é fantástico.

-Atrofias, dor de cabeça? -Sim.

-Febre? -Sim.

Dor muscular, medo do toque? Membros torcidos?

-Costas arqueadas? -Sim.

-E a respiração, algum problema? -Um caso.

-É no bulbo, muito delicado. -Liz!

Estarei aí num minuto.

Não poderia ser mais evidente, Elizabeth.

Isto é paralisia infantil na fase aguda.

-Foi isso que viu? -Sim, sim...

É exatamente como o segundo caso.

É como a garotinha Benson.

Teve os mesmos músculos encurtados.

-Encurtados? -Estavam em espasmo.

Me disse pra tratar os sintomas, foi o que fiz.

É o que você pensa.

Elizabeth, acho que nem percebeu o que fez.

Posso estar errado, sou apenas clínico geral.

O Dr. Brack sabe o que fazer. Vamos já ao escritório dele.

É um estudioso da poliomielite. Um dos melhores do país.

-Dr. McDonnell! -Estarei aí num minuto.

Vamos resolver isso.

Jamais esquecerei aquele telegrama.

Nós concordamos que era um modelo de brevidade.

A descrição mais concisa

dos sintomas clássicos de poliomielite que eu já vi.

Obrigada, Dr. Brack.

Venha e sente-se, quero saber tudo o que aconteceu.

-Era uma menina, não era? -Sim.

Isso é trágico. Ela ficou aleijada?

-Não... -Muito bom.

Teve sorte de ser apenas um caso.

Ela teve 6 casos.

É mesmo?

Mas por que não foram relatados?

Se recuperaram e não ficaram aleijados.

-Extraordinário. -Não ficaram aleijados, Brack.

Não conheço outros casos de epidemia leve.

Eu não diria epidemia leve, Dr. Brack.

Acho que ainda não entendeu, doutor.

Posso estar errado, mas se entendi os fatos,

a Srta. Kenny descobriu um novo tratamento para a poliomielite.

E obteve sucesso.

Acho que não entendeu os fatos, McDonnell.

Mas vamos ouvir os detalhes. Sente-se, Srta. Kenny.

-Sente-se. -Sente-se.

Não ligue para o meu ceticismo. McDonnell é um grande brincalhão.

Nunca sei quando ele está brincando comigo.

Agora me diga, o que você fez?

Primeiro tratei os músculos com espasmos.

-Espasmos? -Espasmos.

E depois?

Depois pensei que tinham melhorado, mas não era isso.

Descobriu que os músculos estavam paralisados.

Foi um momento terrível quando pensei que estavam mesmo.

Pensou que estavam? E não estavam?

Só estavam desconectados do cérebro.

Alienados. Por isto não funcionaram.

Entendi, alienados.

Os alienados não eram os músculos doentes.

Eram os outros.

Ouviu isso, McDonnell, os outros estavam alienados.

E então, o que fez?

Então descobri que ainda havia algum reflexo.

E continuei a reeducar os músculos.

E viveram felizes para sempre.

McDonnell, está falando sério?

Certamente estou.

Então, é um idiota maior do que pensei.

Srta. Kenny, não quero magoá-la.

Sei que fez um bom trabalho.

Mas, no futuro, pode ser útil saber o que acontece na pólio.

O ponto, Brack, é que ainda não aconteceu.

Chegaremos lá, doutor. Venha aqui.

Uso este modelo para demonstrar como a pólio produz deformidade.

Este é o funcionamento normal da perna.

Vê, os músculos se contraem em pares.

O que acontece na paralisia infantil?

Suponha que esses músculos se paralisem

e não possam voltar como deveriam.

Então os músculos normais se contraem e, sem resistência,

contrai a perna numa posição deformada.

-Viu isso na sua paciente? -Sim.

Endireitar a perna é impossível, daí a deformidade permanente.

O que diz sobre isso, Elizabeth?

-Disse que esses estão doentes. -Paralisados.

Mas se não estivessem paralisados,

se não estivessem doentes e fossem perfeitamente normais,

e esses encurtados, contraídos em espasmo,

se contrairiam e teríamos a mesma deformidade, não é?

-Exatamente o que me ocorreu. -Absurdo.

Está procurando razões para um conceito irracional.

Acho bastante racional.

Não pode pegar uma teoria aceita há meio século

e virá-la de cabeça pra baixo.

Espasmo, reeducação, alienação, não sei o que significam.

Não poderia, Brack, não estão nos livros.

Aposto que a Srta. Kenny sabe o que significam.

Só um minuto, doutor. Se sua teoria estivesse certa,

não seria descoberto um novo tratamento, mas uma doença nova.

Não faz mal que ela descubra uma doença nova,

-desde que possa curá-la. -Não quero ser rude,

mas teria que aceitar a palavra dela contra a do Sr. Robert Jenkins.

Ah, não!

Obviamente não pode aceitar se ainda não a ouviu.

Não sou um ortopedista, mas acho isso muito importante.

Estou pedindo que sente-se e ouça o que ela tem a dizer.

Está bem, está bem.

Ah, desculpe.

Onde está a Srta. Kenny?

Acho que está na hora de descobrir, Dorrie.

Vamos.

Deixe-me ver se posso resumir a interpretação

que deu aos sintomas que observou.

Primeiro, disse que o músculo parecendo doente, não estava.

Que o músculo oposto é que estava afetado.

Segundo, disse que os músculos doentes não estavam paralisados,

mas que os músculos opostos, puxados em posição de repouso,

perdem sua função, tornando-se alienados, como você disse.

Sim, doutor.

Terceiro, acredita que esses músculos aparentemente paralisados

podem ter suas funções restauradas estimulando certos reflexos.

O que chama de reeducação.

É isso, doutor.

Bem, essas são certamente descobertas revolucionárias.

Acha que encontrei um meio de ajudar essas crianças?

Não, me fez desperdiçar 2 horas do meu tempo.

Antes de tentar revolucionar a medicina, deveria conhecê-la mais.

A ciência médica é um fato, não fantasia.

-Com certeza, Brack... -Só um minuto, doutor.

Levei 20 anos para formar esta biblioteca.

Cada livro desta seção é de uma autoridade em poliomielite.

Espasmo, reeducação, alienação...

Não encontrará esses termos em nenhum desses livros.

Tratam de fatos, e é disso que precisamos, fatos.

Mas é por isso que estamos aqui.

A enfermeira Kenny trouxe alguns fatos novos.

E você só reconhece os fatos impressos nos livros.

-Ela fez algo... -Algo perigoso, não deve encorajá-la.

Não há tratamento para o estágio avançado.

A luta da pólio é contra as deformidades terríveis.

A única esperança que resta é a imobilização imediata e completa.

Como, doutor?

Como se imobiliza uma perna quebrada? Coloca talas, não é?

Mas as crianças ficam em agonia.

Há agonia pior do que a deformidade permanente?

Mas se prendem os membros das crianças, deixando-as imóveis,

como aprenderão a andar novamente?

Minha querida jovem...

Sim?

Ele pode fazer agora, Dr. Brack.

Disse que poderia mostrar amanhã, mas insistiu em vir agora.

Excelente, eu quero ver isso. Você é esperto, David.

Vá em frente, você tem público.

-Calma, David, calma. -Vamos, David, chute bem forte!

Sinto muito, Dr. Brack!

Não foi nada. Depois eu dou um jeito.

Muito inteligente, David. Que bom que você veio!

Srta. Kenny, este é um exemplo de pólio em estágio crônico.

Ele não teve espasmos, nem panos quentes,

alienação ou reeducação.

É muito sério encorajar uma enfermeira a contradizer os

-maiores ortopédistas do mundo. -Não o contradisse, Dr. Brack.

-Não me refiro a mim. -Não contradisse ninguém.

Mas não posso negar o que vi com meus próprios olhos.

Não sabia o que era pólio, até receber seu telegrama.

-Foi o seu diagnóstico, Brack. -Só um minuto.

Disse que seus pacientes não ficaram deformados.

-Não. -Deformidades se desenvolvem depois.

Gostaria de examinar um de seus pacientes.

Não era o homem que eu devia examinar?

Ah, não. É a criança.

É a minha primeira paciente, Doutor, Dorrie McIntyre. Venha.

Dê uma olhada, Brack. Está curada ou não?

Em breve saberemos.

Kevin, entre. Já explico tudo.

Tire a roupa dela, enfermeira. Quero ver os músculos.

Sim, doutor.

-Qual perna foi afetada? -As duas pernas, doutor.

Sente-se, querida.

-Braços? -Não, os braços não.

-Coluna vertebral? -Sim, e os posteriores do pescoço.

Dorrie, olhe seus joelhos! Estão sujos.

As mãos também não estão limpas.

Agora deite-se aqui para o doutor examiná-la.

Pronto.

Flexione a perna.

Empurre contra a minha mão!

Com força.

Força normal, resistência total.

Agora, levante o pé.

Force para baixo.

Sim, sente-se.

Incline-se para a frente.

Tudo perfeito, sem escoliose.

Tudo bem, sente-se novamente.

Bom trabalho, Elizabeth. Ela me parece perfeita.

Perfeita mesmo.

Sabia que só precisava vê-la, Dr. Brack.

Vamos, Dorrie, mostre ao doutor como pode correr.

E posso dançar também. Ela me ensinou a dançar.

Posso fazer piruetas.

Aí está, Brack.

É disso que estamos falando.

Ambos com a mesma doença, mas tratamentos diferentes.

-Está doente? -Estava, mas estou bem agora.

-Qual o seu nome? -David.

-Qual o seu nome? -Dorrie.

Sabe, já posso chutar bola de futebol.

-Quer me ver dançar de novo? -Não, mas faça uma estrelinha.

Dorrie...

Venha, David.

-Enfermeira, pode levá-lo. -Sim, doutor.

-Adeus. -Adeus.

Bem, Brack, parece que o pequeno fato que examinou

não estava escrito nos seus livros, resumos,

tratamentos ortodoxos ou seja lá o que for.

Disse quando entrou aqui que não tinha os fatos certos.

Aqui está o primeiro fato errado.

Esta criança nunca teve paralisia infantil.

-Nunca teve? -Nenhum traço.

-Brack, está louco? -Minha experiência conclui

que nenhuma criança se recupera de pólio em tão pouco tempo.

-Então o que era? -Não tenho a menor ideia,

-não estava lá. -Mas o telegrama...

Fica claro que os sintomas não foram bem observados.

Não sei do que se trata, mas se me quer como testemunha...

Não, Kevin, por favor.

Se ela descreveu aqueles sintomas, é porque eles ocorreram!

-Sem dúvida, é uma boa enfermeira. -É mais que isso!

-Ela tem algum outro diploma? -Esse é o ponto!

Se fosse médica, teria seguido o tratamento ortodoxo.

Não teria feito o que fez, não teria ousado.

Então é melhor deixar isso nas mãos de enfermeiras.

Se elas fizessem melhor, eu não me importaria.

-Não temos mais o que discutir. -Só um minuto, doutor.

Eu vi essa criança paralisada, e vi o que ela fez.

Você também é médico?

Não, mas vi ela fazer Dorrie andar.

Enfermeira, seus amigos vão lhe causar grandes problemas.

É melhor ficar na enfermagem e não tratar de medicina ortopédica.

É um assunto complicado e difícil

até para quem estudou a vida inteira.

Agora, com licença.

Brack!

Ninguém que o conhece duvida de sua sinceridade ou capacidade.

Mas, conhecendo a enfermeira Kenny melhor que você,

não posso descartar este caso sem investigação.

Só precisa tentar fazer o tratamento que ela sugere

num caso grave neste hospital.

Nunca consentiria uma coisa dessas.

Não se pode brincar com vidas humanas.

Não sabe como isso pode ser trágico.

É por isso que eu te peço.

Você só viu alguns casos, McDonnell, eu vi milhares.

Sou o encarregado do Departamento Ortopédico deste hospital, não você.

Mas nenhum novo tratamento foi tentado.

Não farei experiências com a vida de crianças.

Nem mesmo para salvá-las?

Mesmo que ache o tratamento errado ou perigoso,

é seu dever experimentá-lo numa criança enferma.

Em cobaias, sim, mas em crianças, não.

Não submeteria meus próprios filhos a tal experimento.

Bem, eu o faria.

Você não tem filhos.

Fico feliz que isso tenha acabado.

Ainda não fomos vencidos, Elizabeth.

Enquanto eu viver, sempre lembrarei do David.

Sempre.

Não sei quem se diverte mais, Dorrie ou a Sra. McDonnell.

Sabe, Liz, acho que não devemos ter filhos.

-Por quê? -Você teria pouco tempo pra mim.

Então, não terei nenhum.

Certo, está resolvido.

Sem pirralhos.

Quantos você realmente queria?

Pensei em 10 nos primeiros 5 anos.

Acho melhor continuar sendo enfermeira.

Não depois deste sábado. Não há enfermeiras casadas aqui.

Liz, com toda a empolgação, esqueceu de me contar.

-O que McDonnell disse? -Sobre o quê?

Nosso casamento.

Ele ficou com raiva?

Não...

Esqueceu de contar a ele?

Qual é o problema, Liz? Tem vergonha de mim?

Ah, não!

É a sua chance de provar.

Estarei com você num momento.

Deve ter tido outra briga com o Dr. Brack.

-O doutor está no consultório. -Obrigada, querida.

-Olá, querido. -Olá, Nellie.

-Já comeu alguma coisa? -Ainda não. Poderia preparar?

Vou esquentar.

Entrem aqui, vocês dois.

Elizabeth, é bem pior do que eu pensava.

-Não conseguiu nada com ele? -Nem chegamos perto disso.

Não a deixaria tocar em nenhum caso de paralisia infantil.

Brack não é o único especialista na Austrália.

No momento, todos os outros ortopedistas o apoiariam.

É um homem brilhante e muito sincero.

Na opinião dele, está defendendo a vida das crianças.

-Você não tocará em casos graves. -Mas fiz isso como enfermeira.

Tente de novo e será processada.

Piorou depois da discussão desta tarde.

Brack está em pé de guerra. Sinto que ele quer a minha cabeça.

Poderia contar a um jornalista.

-Conte tudo a eles. -Kevin isso é maravilhoso.

Ele não teria como se apoiar.

Se fosse uma charlatã, seria o ideal a fazer.

Acabariam com você.

Questões médicas não se resolvem nos jornais.

Seria considerada uma farsa para todos os médicos do país.

Quer dizer que todo médico decente deste país é um idiota?

Olhe, capitão...

Suponha que, numa batalha, um civil dissesse que

sua ciência militar estava errada.

Você o mandaria para o inferno, não?

A ciência médica é a única defesa contra o charlatanismo.

Nossos diplomas e licenças, nossas associações médicas,

são a única proteção da sociedade

contra aqueles dispostos a negociar com a ignorância

e a miséria humana.

É um belo discurso, doutor.

E uma forma de construir uma sociedade de aleijados.

Deve haver um meio de experimentar o que eu fiz.

Eu não posso.

Mas você pode.

Elizabeth, acredita no seu êxito?

-Claro que acredito. -Então, pegue onde falharam.

Existem muitas crianças que foram desacreditadas pelos médicos.

Viu algumas delas hoje.

Em breve estarão escondidas em casinhas,

em ruas esquecidas com pais desesperados.

Pegue os piores casos. Pegue 10 que não podem andar.

Faça-os andar.

E seu tratamento...

o tratamento Kenny,

será adotado em todos os hospitais da Austrália.

Em todo mundo.

Pegue aqueles onde falharam.

Qual é o problema?

Viemos aqui pra dizer que vamos nos casar.

Parabéns.

Eu te ajudo, Richard.

-Adeus, enfermeira Kenny. -Adeus, Valerie.

-Adeus, enfermeira Kenny. -Adeus, Dorothy.

Sabe que não é culpa nossa, Srta. Kenny.

-Eu sei, Sra. Hicks. -Achamos uma pena!

-Os pais não vieram buscá-lo? -O Richard não tem pais, doutor.

Temos uma ordem judicial para levá-lo ao orfanato.

-É esse o seu relatório? -Sim.

Diz que foi abandonado há 6 meses como um aleijado sem esperança?

Sim, por um clínico geral, no entanto.

Claro que qualquer especialista verá que ele nunca teve

-paralisia infantil. -Precisamente.

O que lhe repuxou as pernas? Cãibra muscular?

Já ouvi isso também.

De acordo com o registro, sofreu uma obscura perturbação nervosa.

Isso é novo, obscura perturbação nervosa.

Por isso foi tratado por 5 meses como paralisia infantil.

Lembre-se, enfermeira, que não discutimos na frente dos pacientes.

Assim, fica difícil pra mim. Sente-se, querido.

Só vejo médicos quando vêm levar meus pacientes.

Tive 12 crianças aqui.

Todas vieram carregadas. 7 delas saíram andando ontem.

-O Richard aqui era o pior. -Não vamos discutir esse assunto.

-Tudo bem, menino... -Não precisa ajudá-lo.

Vamos, Richard.

-Nos divertimos aqui, não foi? -Sim, enfermeira Kenny.

Também se divertirá para onde está indo.

Terá outras crianças para brincar.

Vai lembrar-se de todos os exercícios que ensinei?

Sim, enfermeira Kenny.

Muito bem, então pode ir.

-Vamos. -Não toque nele!

Sairá daqui sem ajuda.

Um momento.

Esqueceram isto.

Mais alguma coisa que eu possa fazer?

Você já fez muito, Sra. Gordon.

-Gostaria de poder lhe pagar. -Já fui recompensada, querida.

# É um longo caminho até Tiperrary #

# É um longo caminho a percorrer #

# É um longo caminho até Tiperrary #

# Para a garota mais doce que eu conheço #

# Adeus, Piccadilly #

# Até a próxima, Leicester Square #

# É um longo caminho até Tiperrary #

# Mas meu coração está bem aí #

Kevin!

Oh, Kevin...

É a primeira vez que o vejo de uniforme. Está maravilhoso.

Feito pelo melhor alfaiate de Toowoomba.

-Como você está, Liz? -Estou bem.

Exceto pelo fato que você vai partir.

-Não vou me demorar. -Por que não falou isso antes?

-Eu não sabia. -Quando embarca?

Quando chegar a Sidney. Tome, é o meu endereço no exterior.

Eu vou escrever.

Kevin!

Não se preocupe, Liz. Volto no Natal.

Tudo bem, só não se apaixone por uma enfermeira.

Não posso, já estou.

Sua mãe mandou para as crianças. Como estão?

-Muito bem, 7 estão curadas. -Está tudo indo bem?

-Não podia ser melhor. -Adeus, querida.

-Adeus, Kevin. -Cuide-se.

Não sei por que quer ir para o exército.

Estou acostumada a lutar. Sei que posso me dar bem.

Acho que vão aceitá-la, mas não com esse chapéu.

Teve notícias do Capitão Connors que está no exterior?

Ainda não. Mas pedi a Von Hindenburg

um cessar fogo para passarmos as férias em Paris.

Não sei se isso acontecerá.

Quero esclarecer que será a minha última pergunta.

Nunca começa a massagem na fase grave?

Não até as dores passarem. E não chame de massagem.

Parece o Dr. Brack.

Então o que faz quando usa as mãos?

É muito simples, estimula impulsos neuromotores inconscientes,

agitando os receptores apropriados da periferia.

Você o quê?

Estimulo os impulsos neuro...

Por que pergunta tudo isso?

Bem, é que...

na França...

Esqueça isso. Cuide-se, Elizabeth.

Ah, cuide-se... pra variar.

E não esqueça, a luta contra a pólio durará mais que a guerra.

Vai continuar até o último médico morrer disso.

Mais essa! Coloque-me no chão antes que eu morra.

-Quem autorizou a transferência? -Não sei, senhor.

Só cumpro ordens.

Se estava bem onde estava, por que fui removido?

Deveria aceitar, senhor.

Vou descobrir quem ordenou esta transferência.

Calma, senhor, vamos tirá-lo daqui.

Tudo bem. Sei me virar sozinho.

Só um minuto, pessoal.

Quem está no comando aqui? Quem ordenou a transferência?

Pois não, senhor.

Liz!

-Algo mais, enfermeira? -Não, obrigada.

-Alguma reclamação, major Connors? -Não acredito!

Liz, sua última carta foi de Lyon.

-Como chegou aqui? -Eu me transferi.

Daí fiz você ser transferido. Foi só isso.

-Queria ter seu cérebro. -Virá me ver na casa da guarda?

-Falsificação. -Quase.

Querido, como está sua perna?

Só precisa de tempo, e de uma boa enfermeira.

Tem certeza disso?

Acho que foi a melhor coisa que me aconteceu em 4 anos.

Agora vamos ver...

Ah, sim. Não pense em nada, Clarence.

-O que é nada? -É...

Não importa. Não ligue para o que eu faço.

Ah, eu sei.

Alguma dor?

Doutor, disse ao Dr. McDonnell

que deu ordens para não remover a tala do seu paciente.

-Tudo bem, eu dei permissão. -É o que estou tentando dizer a ela.

Pra que isso?

Não preste atenção no que estou fazendo. Apenas relaxe.

-Por que você não relaxa? -Clarence.

-O que está fazendo? -Por favor, sem perguntas.

Não sei bem o que estou fazendo, mas quero descobrir.

Se você não sabe, nem eu.

Se quer saber o que é,

estimulando impulsos neuromotores inconscientes

dos receptores apropriados da periferia.

Agora...

Agora pode assistir.

Não, deite-se. Deite-se.

Puxe aqui. Pense nisso.

Viu o que estou fazendo, exercitando seus quadríceps.

Agora faça você mesmo.

Vamos, levante a perna.

-Não pode levantá-la? -Se pudesse, sairia daqui.

-Já terminou, doutor? -Hein?

Sim, sim, terminei.

Boa noite, Clarence.

Tchau, doutor.

-Posso pegar minha tala? -Tudo bem, coloque a tala de volta.

Sim, doutor.

Bem, McDonnell...

Quer experimentar em mais algum dos meus pacientes?

Não, não sou bom nisso.

Mas Kenny pode fazer!

Não neste hospital.

Elizabeth!

-De onde veio? -Olá, doutor McDonnell.

Não esperava vê-la tão cedo.

Estava voltando pra casa. Assinaram o armistício.

-Você está ótima. -Você também. Como está a Nellie?

Nellie? Nunca a vi tão feliz.

-Tiveram um filho? -Ela está muito orgulhosa.

-E você não está? -Bem...

É uma criança notável.

-Brack fez o parto. -Não conseguiu outro?

Estava com um pouco de pressa. Vamos, sente-se.

Parabéns pela sua promoção.

Como devo chamá-la agora? Irmã Kenny?

Irmã Kenny. E, por favor, respeite o meu posto militar.

Certo. Como está o major Connors?

Está num hospital na Inglaterra.

Levará 6 meses até poder andar.

-Mas ele vai andar? -Vai andar.

Ótimo! Tudo bem, tudo bem.

-E o que planeja fazer? -Vou pra casa esperar pelo Kevin.

Não está interessada em enfermagem.

Não.

-Não terá mais clínicas? -Não.

Precisa descansar, não?

Certamente. Mamãe está sozinha agora.

Vou esperar pelo Kevin.

E a poliomielite?

Nunca ouvi falar disso.

Já ouviu falar do tratamento Kenny?

Kenny, Elizabeth Kenny?

Ela é uma farsa, doutor. Uma charlatã perigosa.

Todo médico na Austrália sabe disso.

Então, perdeu sua fé.

De modo algum, mas deixe outra pessoa fazer isso.

O problema é que não se sabe muito sobre isso.

Quando eles tentam, não funciona.

Então são estúpidos. É muito simples.

Quem está tentando?

Como vou saber?

Acabou de dizer que não sabem muito...

Céus! Esqueci de olhar o paciente da enfermaria 3.

Volto num minuto.

Quer ler o jornal?

Está certa, deve descansar 6 meses em casa.

EPIDEMIA DE PÓLIO EM TOWNSVILLE

CLÍNICA ELIZABETH KENNY

-Irmã, quando é o chá? -Daqui a pouco, Mickey.

-Estou com fome. -Chegamos, Caroline.

Muito bem. Vire agora, querida. De bruços.

Boa garota.

Agora, vamos puxar os omoplatas pra trás.

Puxe-os de volta, querida.

Não consegue segurar assim, Caroline?

Tem que aprender a segurar essa escápula.

Tente assim. Segure aqui...

Srta. Warren.

-Cuide da Caroline, por favor. -Sim, irmã.

Olá, Liz.

Entre, Kevin.

Gostaria de ver as crianças?

Não, Liz. Li sua carta. E eu não entendi.

Bem, tentei ser definitiva.

Certamente foi definitiva.

Liz, isso tudo é um absurdo. Não vou aceitar.

Apoio seu trabalho,

mas não posso vê-la jogar fora a chance de ser feliz.

Vamos sentar, querido.

Então?

Talvez tenha razão, e eu esteja jogando a vida fora.

Mas não tenho o direito de jogar a sua também.

Nem tenho intenção de fazer isso.

-Absurdo. -Não, não é, Kevin.

Você sempre me esperou sem dizer uma palavra.

Não me deixou perceber o quanto injusta eu fui.

Acho que não queria perceber.

Liz, se esperei, foi por minha culpa, porque eu quis.

Talvez eu seja um idiota.

Certo, sou idiota. Termine seu trabalho aqui em Townsville.

Quanto tempo vai demorar?

Quando acha que vai terminar?

Acho que nunca vou terminar, Kevin.

Digamos 2 anos.

Sempre dissemos algo assim, e vai sempre continuando.

Quando me deixarem tratar um caso grave, estarei perto do fim,

-e isso é tudo. -Vamos encarar os fatos, Liz.

Está mais perto disso hoje do que há 10 anos?

Sim, um pouco, eu acho.

Aprendi coisas sobre a pólio que eu desconhecia.

Tenho conseguido bons resultados com as crianças.

Eu também queria ter filhos.

-Isso é injusto, Kevin. -Talvez seja, mas é verdade.

Está errada, Liz, eu sei disso.

Essa é a minha decisão.

Não deixarei que jogue a vida fora neste trabalho.

Se tiver alguma esperança, Liz...

-Irmã Kenny? -Entre, por favor.

Meu nome é Johnson, irmã. Vim de Brisbane.

-Esta é a minha garotinha, Emily. -Olá, Emily.

Olá, irmã.

Tenho meu dinheiro, irmã. Mas se você...

Se puder ficar com a Emily,

posso pagar com meu trabalho, esfregando, ou algo assim.

Vamos dar uma olhada em você, Emily.

-Qual a sua idade? -Oito.

-Não, oito e meio. -Quando você adoeceu?

-Não me lembro. -Ela tinha só 3 anos, irmã.

Ah...

Só saberei se posso ajudar depois de examiná-la completamente.

Mas vamos tentar.

A primeira coisa que faremos é tirar o aparelho.

Acho que vai se divertir aqui, Emily.

Há muitas garotinhas pra fazer amizade.

Ouve elas lá fora? Vamos encontrá-las num minuto.

Ficamos geralmente lá fora, onde tomamos sol.

E...

Vamos lá fora ver o sol.

-Joe, viu a irmã Kenny? -Sim, há um minuto, doutor.

-Comprou passagem pra Brisbane? -Sim.

Bilhete! Olá, doutor.

-Elizabeth! -O que faz aqui?

Esperava ver o doutor em Brisbane sem me contar?

Por que está tão animado? Há 10 anos atrás me enviaria pra lá.

Aprendi muito em 10 anos. É tão teimosa como em Townsville.

Não seja ridículo. Dê a minha bolsa.

Nesta epidemia, só haverá tratamento ortodoxo.

-Brack está em Brisbane. -Por isso estou indo.

-Convencerei os médicos. -Fecharão a clínica que você abrir.

Tudo bem se trabalhar num caso grave.

Toque num caso grave e acabarão com você.

-Podem prendê-la. -De toda forma, estou indo.

Tudo bem, mas sente-se! Ainda tem um tempo.

Olhe, Elizabeth, há algo que ainda não percebeu.

Os grandes acabam com os pequenos, que acabam se ressentindo disso.

Mas quando um grande é uma enfermeira,

saiba que é chocante para um médico ser repreendido por ela.

Já ouvi muitas dessas reclamações.

Você os antagoniza, Elizabeth.

Disse coisas desagradáveis sobre os médicos.

Nunca disse nada desagradável sobre os médicos.

Gostaria de ver uns médicos usando talas.

Elizabeth, o trem está saindo. Preciso dizer umas coisas. Nº 1:

-Tenha mais tato, mais paciência. -Nunca sou impaciente!

O segundo ponto é que talvez encontre Brack.

Você usa 4 palavras que não estão nos livros, e isso o irrita.

Se disser "espasmo", ele terá um espasmo.

Alienação, descoordenação, reeducação...

Ele não entende o que está querendo dizer.

-Nem tenta descobrir. -É algo que terá de enfrentar.

Para ele e os especialistas, esses não são termos científicos.

Não os use.

-Que termo uso pra "espasmo"? -Chame de "condição muscular".

-Condição muscular? - Condição muscular, mas não espasmo.

-Adeus, doutor. -Adeus, boa sorte.

-E sem espasmo. -Sem espasmo.

Sinto muito por isso, irmã.

Quando a deixei vir pra cá,

não sabia que o local era impróprio pra fins hospitalares.

Quando vim pra cá, Sr. Todd, não era impróprio pra estes fins.

Não até eu colocar isso.

Avise-me se houver algo que eu possa fazer.

Obrigada, Sr. Todd.

Este paciente terminou o seu isolamento de quarentena.

No início, os sintomas de poliomielite apareceram.

Torção no pescoço, dor de cabeça, febre com dor muscular,

seguida pela perda do uso de braços e pernas.

Este menino foi logo trazido aqui e aconselhei imobilização total.

Certos músculos ficaram paralisados

devido à destruição de algumas células da medula espinhal.

O resultado foi que, os músculos fortes não afetados,

puxavam os músculos paralisados, causando deformidades.

Trabalhando tantos anos na medicina ortopédica,

conheço muito bem a condição das vítimas dessa tortura.

Aqui, a aplicação mais moderna de talas contra deformidades.

Dr. Brack.

Aqui, no braço direito, apliquei o último tipo de tala de avião.

Dr. Brack!

Senhoras e senhores, esta é a Srta. Elizabeth Kenny.

Tem algumas noções sobre esta patologia e seu tratamento.

Srta. Kenny, presumo que veio discutir a paralisia infantil.

Sim, Dr. Brack.

Para essas pessoas que vieram me ouvir não perderem seu tempo,

sugiro que adiemos a discussão.

Por quantos anos, doutor?

Srta. Kenny, ligue para o meu escritório.

Liguei em três ocasiões diferentes.

-Tem hora marcada? -Sua secretária recusou a marcar.

Fale com ela novamente. Sei que pode ser arranjado.

Estamos enfrentando uma epidemia, por isso fui contratado.

A última vez que estive lá, estava tomando chá.

Espero que esta aula não seja mais perturbada.

Onde eu estava?

Ah, sim. O tipo de tala que apliquei no braço direito...

Dr. Brack.

Também não gosto disso.

Mas acredito que nunca o verei em seu escritório.

E preciso de uma resposta, pública se possível, para esta pergunta.

Por que me impede de fazer o meu trabalho?

Srta. Kenny, não a impeço de trabalhar.

-São as autoridades. -A seu pedido.

Não seria uma expressão rude?

Sabe como colocar isso educadamente?

Senhoras e senhores, já que não podemos evitar esta interrupção,

talvez possamos fazer uso dela.

Como cientistas de mente aberta,

não rejeitamos idéias sem exame.

Conheço as idéias da Srta. Kenny há 20 anos.

Até permiti que um clínico geral, o Dr. McDonnell de Toowoomba,

os testasse, com resultados muito ruins.

Quem lê jornais, vê que o nome da Srta. Kenny

aparece com frequência e não pode negar sua existência.

Mas podem não conhecer suas idéias.

Quantos já ouviram falar do chamado "Tratamento Kenny"?

Srta. Kenny, gostaria de dizer a esta classe o quão ignorante eu sou?

E quão perigoso é o tratamento ortodoxo desta doença?

Eu certamente o faria.

Mas não acho que seja ignorante. Apenas teimoso.

Bem, desça aqui, por favor.

Venha aqui.

Fale livremente.

Explique sua teoria.

A diferença fundamental entre nós

é qual músculo está doente.

Continue.

Dr. Brack, não esperava encontrá-lo tão tolerante.

É a 1ª vez em 20 anos que recebo atenção de autoridades ortopédicas.

Sim, Srta. Kenny. Continue.

O Dr. Brack considera que um músculo está paralisado

em oposição a um músculo saudável.

Digo que o músculo oposto está doente, em espas...

Bem, chame de condição muscular.

A 1ª coisa a fazer nesta condição muscular,

é aplicar calor úmido e diminuir o espas... esta condição muscular.

A 1ª coisa a fazer é manter os músculos relaxados.

Se colocar talas, só vai fazer o espas...

...a condição muscular piorar.

Sim, seria bem razoável se o conceito estivesse correto.

Agora vamos ao estágio da convalescença.

-Bem, depois do espasmo... -Espasmo?

Sim, espasmo!

Depois que o espasmo alivia, os músculos parecem normais.

Mas não estão.

Ficam alienados, descoordenados, precisando de reeducação.

Não existe espasmo na paralisia infantil.

Descoordenação, reeducação, alienação...

Encontra esses termos num tribunal, não na ciência médica.

Não são termos científicos, são jargões, você os inventou.

Sim, para um novo conceito. Novas ideias, novas palavras.

As palavras que uso, descrevem as coisas que vejo.

E como não vemos isso?

Porque só enxerga livros, bibliotecas, palavras.

Se está interessado em ouvir, não reclamará das palavras que uso.

Sem o uso certo das palavras, não poderia haver ciência.

Não há tempo a perder com termos que não têm significado.

Têm significado pra mim! Chamo de espasmo. Trato espasmo!

E consegue curas, não é?

Muitos médicos tentaram me pegar por aí.

Não afirmo ter uma cura.

Mas consigo melhorias, doutor, mesmo com os seus fracassos.

Poderia mostrar o que posso fazer se estivesse no seu lugar.

Com casos graves.

20 anos atrás, no interior, tive essa chance.

Tive 6 casos graves e todos se recuperaram.

Mas desde então,

sempre ouço a mesma coisa quando um paciente melhora:

-Que não tinha poliomielite. -Já terminou?

-Não enquanto fizer isso! -Jamais deixaremos a imobilização.

Na minha opinião, o paciente deve ser engessado.

Pra mim é assustador.

Mostrarei pacientes com corpos perfeitamente retos

-pelo uso do gesso. -Sim, retos e rígidos.

Existem milhares deitados nos cemitérios

que têm a mesma chance de recuperar o uso das pernas.

-Está na frente de um paciente! -Tentei falar em outro lugar!

Ele não tem o direito de ouvir? É a vida dele, não a nossa.

Está cometendo um erro muito sério.

Cometi muitos erros, doutor. Conhece alguém que não tenha?

Algum de nós é infalível?

Não precisa que eu diga que as idéias médicas mudam.

No passado, a sangria era usada pra tudo, de febre a resfriado.

Ainda faz isso? Harvey e Pasteur trouxeram algo novo.

-Está se comparando a Pasteur? -Certamente que não!

Mas gostaria que ele estivesse aqui.

Eu também, Srta. Kenny.

Descobriu a cura da hidrofobia.

A única coisa que torna essa risada tolerável, Dr. Brack,

é que eu sei que você é sincero.

Mas sua mente fechada e sua rigidez intectual,

não justificam essa crueldade com milhares de crianças.

Felizmente, essas crianças não estão nas mãos de charlatães.

Enquanto essa responsabilidade for nossa,

não permitiremos ações imprudentes com suas vidas.

É perigoso lidar com doenças humanas.

Pode me impedir de tratar um caso grave, Dr. Brack,

mas não os casos perdidos. Aqueles que você desistiu.

Se precisar de mais chaves, espartilhos e outros instrumentos,

de tortura medieval, posso enviá-los a você.

Tirei muitos dos seus pacientes.

Srta. Kenny.

Deve ter cuidado antes de considerar este assunto resolvido.

Ao se tornar enfermeira, fez um juramento.

Lembra do último parágrafo?

"Com lealdade, procurarei ajudar o médico em seu trabalho".

Em vez de ajudar os médicos, mostra a arrogância,

tentando ensinar-lhes a sua profissão.

Na opinião de muitos médicos, não é mais uma enfermeira.

Não pode se livrar de mim dessa maneira, Dr. Brack.

Desisti de muita coisa para usar o uniforme de enfermeira.

Irmã Kenny.

Meu nome é Chuter. Dept. de Saúde de Queensland.

-Você estava ali? -Sim.

Só um momento, irmã Kenny. Não sou contra o seu trabalho.

Quem chamou minha clínica de imprópria para crianças doentes?

Não foi o nosso Departamento. Gostaria de pedir um favor.

Iria hoje ao meu escritório?

-Pra quê? -Temos muito o que discutir.

Disse que aconteceu em 1914?

Julho de 1914.

Então, seu trabalho foi suspenso por causa da guerra?

Isso mesmo.

Manteve registro de todos os casos que tratou?

Não tão detalhado quanto deveria.

O que está havendo, Sr. Chuter?

Explicarei assim que entender este registro direito.

-Boa noite, Chuter. Atrasado? -De modo algum.

Irmã Kenny, quero que conheça o Dr. Gideon.

-Como vai, doutor? -Como vai, irmã Kenny?

-Há muito queria conhecê-la. -Presumo que não seja ortopedista.

Desculpe, mas eu sou.

Vi o resultado do seu tratamento numa garota chamada Johnson.

Acho que a tratou em Townsville há anos atrás.

Está caminhando muito bem.

Se há algo errado com o tratamento ortodoxo, quero saber.

-Tem certeza que é ortopedista? -É o que diz o meu diploma.

Olá, Chuter, olá, Gideon.

-Olá, Elizabeth. -O que te trouxe aqui?

Espasmos.

Não se ensina truques novos a cachorros velhos.

Bagunçou meu tratamento na frente do Dr. Brack.

-Eu nunca... -Dr. McDonnell...

-Quem te contou isso? -Condição muscular.

Não vai me repreender quando ler isto. Dê uma olhada.

É do Conselho do Condado de Londres.

Entende? Querem você na Inglaterra.

É a coisa mais encorajadora que aconteceu em 20 anos.

-Não fala em tratar casos graves. -E quantos tratou aqui?

-É a única maneira de provar algo. -Leia tudo. Termine a carta.

-Ela precisa ir. -Só um minuto, McDonnell.

E o plano de criar uma Comissão Real?

-Ah, claro, vá em frente. -Mas não pode sair da Austrália.

-Certamente não. -Se conseguirmos que o Parlamento

nomeie um grupo do escritório principal

no país para investigar o tratamento de Kenny,

-a luta dela está ganha. -Tudo bem.

Mas ela não ficará quieta enquanto param seu trabalho de novo.

Mais lento que a Comissão Real, só o pagamento de uma conta médica.

Mas ela não deve ir à Inglaterra. Quero saber sobre o tratamento.

Deve ir à Inglaterra, se não fizerem este ano, farão no outro.

Ela deve estar aqui quando vier a Comissão Real.

-O que investigar sem ela? -Pacientes. Não irão à Inglaterra.

Deve continuar seu trabalho aqui. A Austrália é o seu lugar.

Seu lugar é onde terá reconhecimento rápido.

Que pegue 10 crianças aleijadas na Inglaterra.

Os piores casos, ela os fará andar.

E depois?

Comissão, Dr. Gideon, Inglaterra... Ora, nem sei onde estou.

Se fizer o que digo...

Já ouvi isso antes, Dr. McDonnell, muito tempo atrás.

Quando ia me casar, me mandou pegar 10 crianças, fazê-las andar

e meu tratamento seria adotado em toda Austrália,

no mundo... Lembra?

Fiz 100 crianças andarem.

E depois de 20 anos, só um ortopedista mostrou interesse.

Sinto muito, Dr. Gideon, mas esses são os fatos.

Não posso me gabar de tê-la convencido deste trabalho.

Foram as crianças.

Posso falar com clínicos gerais.

Mas Doutor Brack, especialistas...

Eles poderiam abrir as portas para o meu trabalho.

Moram numa fortaleza. E sou só uma enfermeira.

Não tenho diplomas, nem acessos.

Estou fora das muralhas de Jericó.

São muralhas fortes. Nem sabem o quanto.

E muito altas.

Dentro das muralhas de Jericó, não se ouve o choro de crianças.

Irmã Kenny.

-Queremos mais clínicas! -Abra a clínica!

Elizabeth...

um minuto atrás, falava sobre as muralhas de Jericó.

Lembra do que aconteceu com elas?

Bem, algumas pessoas gritaram e

tocaram trombetas, não foi?

Algumas pessoas, sim.

E as muralhas desabaram.

-Tenho reserva no voo 70. -Meia hora de atraso, madame.

-O nevoeiro está muito denso. -Então, vamos tomar um chá.

Por aqui, por favor.

-Isso é tudo. -Obrigado.

Kevin!

Ora!

Bem, finalmente encontrei você.

Telefonei para o seu...

-Seu escritório, diversas vezes. -Só voltei há uma hora.

Senti sua falta em Paris.

Quase nos vemos em Berlim, mas queria encontrá-la em Londres.

Bendito nevoeiro!

Liz, não pode pegar outro avião? O tempo está péssimo.

Consigo uma reserva para amanhã.

-Vamos pra Londres. -Oh, querido, eu adoraria.

Mas tenho que estar em Sidney dia 5.

Um avião do governo me espera em Alexandria.

Chegaria lá a tempo se pegasse o avião de manhã?

Não, você não chegaria.

Bem, vamos aproveitar o tempo que resta.

-Outro chá, por favor. -Sim, irmã Kenny.

Está ficando famosa.

Ah, sim. Todos gostam de mim, exceto os médicos.

Vi nos jornais que trabalhou muito aqui.

Por que tanta pressa de voltar à Austrália?

Não vai acreditar, Kevin. O governo mandou me buscar.

Há outro surto grave de poliomielite.

Não vi nada sobre isso nos jornais.

Os negócios em Munique o deixaram por fora.

"As pessoas exigem as clínicas Kenny".

-Então, você fez isso. -Não, não.

Não fiz isso, mas vejo uma rachadura nas muralhas de Jericó.

-Dr. McDonnell? -Sim.

Ele notou antes de mim. Minha esperança está nas pessoas.

Lembra quando ele me disse pra aceitar suas falhas?

Certamente lembro.

Por 20 anos, achei que não estava chegando a lugar algum.

Mas o tempo todo, as mães, os pais

e os amigos das crianças, formavam um exército.

Eles não sabiam disso, nem eu sabia.

E o doutor Brack também não.

Mas agora sabemos.

E é um exército muito poderoso.

Você é uma ótima mulher, Liz.

Tive ótimos amigos.

-Como está sua mãe? -Não está muito bem.

-Sabia que sou uma escritora? -Não.

O Conceito Kenny de Paralisia Infantil.

-Isso é maravilhoso, Liz. -Acabou de ser impresso.

-Posso ficar? -Claro que pode.

Liz, sabe...

demorei muitos anos pra entender o que

tentou me dizer em Townsville.

Bem, não foi fácil pra nenhum de nós.

Eu queria 10 filhos.

Você tem milhares.

Ainda sinto falta desses 10.

Eu também.

Mas se eles rissem, teria ouvido o choro dos aleijados?

Você sabia disso, não sabia?

Sim, Kevin.

Fico feliz por ter acabado assim.

Foi o que eu sempre esperei.

Ouvir você dizer isso.

Atenção por favor. Voo 70.

Paris - Roma - Alexandria.

Os passageiros devem dirigir-se ao portão 3.

-Gostaria de ler isso no avião? -Obrigada.

Paz em nosso tempo, diz Chamberlain.

-Acredita, Kevin? -Teremos tempo de nos preparar.

Bem, o que acha disso?

Incrível, se ela vir isso, certamente irá pra América.

Sim, é disso que tenho medo.

A Comissão Real deixou tudo como estava há 10 anos.

Infelizmente.

Não vejo como isso vai salvar suas peles,

se todos os ortopedistas jovens estão usando o tratamento Kenny,

gostem ou não, o chamam assim.

Comissão Real...

Ela fez um ótimo trabalho na Europa.

Vamos lembrar que ela está trabalhando em outra epidemia.

E jogam isso na cara dela.

Eu odiaria ser o único a dizer isso a ela.

Sr. Chuter, Toowoomba está no telefone.

-Obrigado. -Na linha privada.

-Olá, Dr. McDonnell. -Olá, Chuter?

Finalmente colocaram no papel, hein?

Sim, ainda estou aqui.

Claro, isso não impede o trabalho, mas...

ela não está ficando mais jovem.

Ela só tem que aceitar bem isso.

Claro que é sério. Na idade dela, é sempre sério.

Sim, direi a ela.

Pode pegar isso agora, Alan.

Sim, irmã.

-Olá, Dr. McDonnell. -Olá, Alan.

-Muito bem, doutor. -Olá, Elizabeth.

Eu não ouvi seu carro.

Este racionamento me deixa como há 50 anos atrás.

-Um médico que usa charretes. -Como chegou aqui tão cedo?

Eu saí ontem. Passei a noite no Frazier.

Sente-se, vamos. Quer uma xícara de chá?

Não, já tomei o café da manhã.

Estarei pronta num minuto.

Quer alguma coisa daqui?

Devem ser livros que eu mesmo dei a você.

Algo errado?

Está realmente fechando o lugar?

Não sei quanto tempo vou ficar na América.

Recebi um telefonema do Chuter.

Um relatório da Comissão Real.

130 páginas de pura condenação às suas ideias e seu trabalho.

Dizem que em hipótese alguma será autorizada

a cuidar de casos de pólio, recentes ou antigos.

Condenaram o governo por gastar dinheiro nas clínicas Kenny,

em vez de apoiar o método ortodoxo.

Eles recomendam o fechamento das clínicas Kenny.

Isso realmente me choca.

As pessoas não vão aceitar isso.

As pessoas, o que podem fazer contra a autoridade organizada?

Não esqueça que conseguiram as clínicas pra você.

É claro que este relatório não lhe ajudará na América.

Talvez deva reconsiderar.

Acha mesmo que deve ir?

Eu não acho, eu sei.

Vamos, doutor.

Irmã Kenny, nada científica.

-Bobagem! -Hein?

Nem leram meu livro.

Ora, tolices. Eu li esses comentários.

Além disso, não deve se incomodar com gente mesquinha.

O livro da irmã Kenny tem partes que são novas e partes boas,

mas o bom não é novo e o novo não é bom.

Sir Charles Brack.

Quer deixar esses comentários de lado?

Escute isso.

O abandono da imobilização é o que mais surpreende.

Uma negação completa de princípios há muito estabelecidos.

O Jornal Médico Britânico.

Elizabeth, não tem muito tempo, seu trem vai partir.

Ah, desculpe, desculpe.

Levei 6 anos pra escrever esse livro.

30 anos de trabalho me preparando pra escrevê-lo

e eles o descartam em 36 palavras.

Quer que eu ouça os comentários ou o seu coração?

O meu coração, vá em frente.

Esqueceu de pôr nos ouvidos.

Esse seu falatório me confunde.

Vocês médicos!

-Não há nada errado com meu coração. -Quieta!

Não precisa fazer cara feia.

Não está pior do que da última vez.

Então, ouça você mesma.

Entenda o que estou dizendo. Como um tamborzinho...

Quieto!

Então?

Não está muito bom, não é?

Vai durar até eu fazer o que devo fazer.

-Vai durar mais se acalmar-se. -Por que você não se acalma?

-Estou calmo. -É um mentiroso.

E você é rabugenta.

Sempre foi uma provação pra mim.

Gosto de coisas fáceis.

Quantos leitos tem agora neste hospital?

-Duzentos. -Lembro quando só tinha 20.

Gosta de coisas fáceis.

Seu pai nos deu 2.

Mamãe administrou isso. Onde conseguiu os outros?

De pessoas. Nellie era muito boa em persuadi-los.

Kevin Connors nos deu 10.

Você não sabia disso, sabia?

Vi Dorrie McIntyre outro dia.

Lembra dela? Foi seu primeiro caso.

Sua filha mais velha treinou aqui como enfermeira.

O nome dela é Elizabeth.

É uma boa garota.

É uma mulher famosa, Elizabeth.

Sou o seu único contemporâneo que sabe o que isso lhe custou.

E gostaria de aproveitar o momento para dizer formalmente

que foi um privilégio ter conhecido você.

Obrigada.

Faça o que fizer, aconteça o que acontecer,

lembre-se que as pessoas são mais importantes que o sistema.

Isso é fato no governo. Uma guerra está provando isso.

E isso é verdade na medicina.

Ainda tem esta luta, Elizabeth.

É uma grande luta. Não vai ser fácil.

Gostaria de poder te ajudar.

Mas estará muito longe e...

Estou ficando velho e...

Bem...

Eu não sou covarde.

-Sabe que horas são, Dr. McDonnell? -Hein?

Estão lhe esperando na sala 7.

Coloque seu jaleco e não esqueça os óculos.

Não preciso que me diga. Vá indo, vamos.

Preciso de uma nova enfermeira-chefe.

Seria bom se tivéssemos tempo pra conversar

sobre todas as pessoas que conhecíamos.

Ah, bem...

Teremos tempo quando voltar da América.

Irmã Kenny! Irmã Kenny, por aqui, por favor.

Espere, por favor! Obrigado.

Por aqui, Kenny.

Obrigado, querida.

Mais uma, por favor.

É sua 1ª visita à América, irmã Kenny?

-Isso mesmo. -O que acha de São Francisco?

Bem, se quer saber, ficou maior com as pontes.

-Irmã, você é freira? -Freira? Nem tanto assim.

Então, por que a chamam de irmã?

É assim que chamam as enfermeiras do Exército na Austrália.

-Ah. -E o relatório da tal Comissão,

-doeu muito? -Não tanto quanto nas crianças.

Conte-nos tudo sobre os médicos, irmã.

-O quê? -Segredos, remédios...

-A sujeira, tudo. -Dizem que foi dura com eles.

É pra isso que está aqui? Denunciar os médicos?

Claro que não. Vim pra ajudar as crianças da América.

Vamos, irmã, sabemos o que pensa sobre os médicos.

-Nos dê um título. -Dê a sua opinião.

Muito bem, jovens.

Minha opinião é que é mais fácil criticar um médico do que ser um.

-Até mais, rapazes. -Muito obrigado.

Tudo bem, tudo bem.

Sim, sempre a mesma história.

De São Francisco a Nova York, tenho recebido muito

o que chamam de "enrolação".

Não tinha ouvido essa, "desvio". É isso.

Os Doutores Bracks são tão fortes aqui como na Austrália.

Tinha muitas esperanças quando vim para a América.

Mas, desde Pearl Harbor, vejo que estou perdendo meu tempo.

Quando embarco?

Ótimo.

Diga ao cônsul que sou muito grata.

Ah, sim. Claro que falo. Coloque-o na linha.

Entre.

-Irmã Kenny? -Sim?

-Sou do New York Globe. -Ah, sente-se, sente-se.

Não na minha bagagem.

Não tenho nada a dizer.

Exceto que volto para a Austrália, mas já deve saber.

-Já sei, mas espere um minuto... -Eu esperei 2 anos.

Sim? Ah, como vai?

Não, infelizmente não posso reconsiderar.

Pare com isso!

O único lugar interessado, foi a Universidade de Minnesota.

Pare de me cutucar!

Oh, não! Eu não falei com você.

Não posso esperar mais pelo relatório deles.

Receio que vá se arrastar igual ao da Comissão Real.

E, francamente, não tenho mais dinheiro.

Obrigada, vou pegar as passagens agora mesmo.

-Irmã Kenny... -Não devia me interromper, rapaz.

-E os seus modos? -Mas irmã...

Me ouviu, volto para a Austrália.

-Aposto que não. -O que faz aqui?

Pensei que, talvez, quisesse ler isso.

Quem chamam de charlatão desta vez?

-Leia! -Não quero ler.

Bem, então terá que ouvir.

Início: "Não hesitaremos em dizer que o método Kenny..."

"formará a base do nosso tratamento futuro." Final.

Início: "Absolutamente nenhuma deformidade apareceu."

"55% das recuperações foram registradas em 32 dias."

Fim da citação.

Estão falando de casos graves.

Sim, é o que diz aqui: Universidade de Minnesota.

Deixe-me ver isso.

A notícia é que foi registrada uma epidemia maligna

de paralisia infantil em Minneapolis.

Querem que vá pra lá montar uma clínica.

A Universidade a quer, o Conselho de Bem-Estar Público a quer,

e o prefeito também.

Vai ou não vai?

Jovem, já foi beijado por uma mulher da minha idade?

-Hein? -Ah, deixa pra lá, deixa pra lá.

Pegue essa bagagem.

Irmã, cadê seus modos?

Por favor.

Vamos, irmã.

Já viu médicos antes.

Mas não para me ouvir.

-Onde estávamos? -Ainda não ditou uma só palavra.

Caro Dr. McDonnell.

Acha que dará tempo?

Ah, sim. Estão passando pelas enfermarias primeiro.

-Agora... Onde eu estava? -Querido Dr. McDonnell.

No final desta carta,

espero acrescentar a melhor notícia que ouvi em 35 anos.

O relatório do Comitê Nacional tem investigado meu trabalho

nos últimos 16 meses nos Estados Unidos.

Esse comitê é composto por ortopedistas de destaque.

Sim, as muralhas de Jericó estão realmente caindo.

Tenho todos os motivos para acreditar

que não será outro fiasco como a Comissão Real.

Se for desfavorável, terei um espasmo.

Espasmo.

Mas veremos isso mais tarde.

Hoje é o clímax de meus 3 anos de trabalho em Minneapolis.

Não vai acreditar numa só palavra, mas é verdade.

Esta manhã, darei uma aula para cirurgiões ortopedistas.

Eu juro.

Minha primeira palestra.

O primeiro curso de estudos no novo Instituto.

Além disso, é meu aniversário.

A propósito, não saia por aí contando a minha idade.

Eu não gosto disso.

Outra coisa, saiu meu novo livro.

-Até o Brack terá que ler este. -Brack?

B-R-A-C-K. Brack.

Pois foi escrito em colaboração com um ortopedista.

O diretor médico do Instituto Kenny.

Estou enviando uma cópia com a carta.

-Sim? -Telegrama, irmã.

Obrigada.

Anseio por ver a Austrália.

Mas como não posso sair, virá para a América ano que vem

consultar com uma enfermeira do interior.

Sabe ao que me refiro.

É um diploma honorário.

A propósito, tenho 3 diplomas honorários de fato.

Não sei por que escrevo de forma tão familiar para um simples médico.

Isso é tudo?

É o fim, irmã?

Sim.

Mas não terminou.

Ia acrescentar algo sobre o relatório. Quando ele sair.

Devo datilografar isto aqui?

Não. Deixa pra lá.

Os médicos estão esperando por você, irmã.

Obrigada.

Obrigada, doutores.

Muito obrigada.

Não costumo ser tão bem recebida por médicos.

Seus risos me lembram uma ocasião, muitos anos atrás,

quando fui saudada por risos.

No entanto, foi um outro tipo de risada.

Foi porque usei 4 palavras que

vocês ouvirão muito durante este curso.

Espasmo, alienação, descoordenação e reeducação.

No entanto, antes de demonstrar sua aplicação,

o diretor médico quer fazer algumas observações.

Tenho a permissão para fazer algumas observações.

Mas não para dizer o que pretendo.

Depois pode me despedir, se quiser.

Vou dizer que ela abriu a porta mencionando a reeducação.

Senhores, é para isso que estão aqui.

Reeducação.

Como eu, vocês passaram pela Graduação, trabalhando duro por anos.

Então, como eu, entraram num ramo muito difícil,

que exigiu mais anos de estudo.

Acumularam experiência e hoje são homens plenamente qualificados.

Por pior que seja aprender, é ainda mais difícil desaprender.

Como um humorista americano, Artemus Ward, disse há muitos anos,

não são as coisas que não sabemos que causam problemas,

mas as coisas que sabemos de forma errada.

Estou ciente de que nem todos estão convencidos.

Mas o fato de estarem aqui, de tantas partes dos EUA e Canadá,

é a prova de que são homens de mente aberta.

Na minha opinião, se a Srta. Kenny fosse médica,

essa controvérsia não teria durado 35 anos.

E estou certo também,

e digo isso com risco de vida e de ser despedido,

que se a irmã Kenny usasse um pouco mais de açúcar e menos de vinagre,

a salada teria um gosto bem melhor.

Mas não dá para lutar 35 anos, senhores, sem o uso do vinagre.

Mas essas coisas pequenas devem ser postas de lado.

O que nos interessa é a vida das crianças.

Não os nossos sentimentos.

Como médicos,

queremos achar o melhor tratamento possível para esta doença,

que atingiu 19.000 crianças no ano passado só nos EUA.

Obrigada, doutor.

Bem, Tommy...

Vemos aqui um caso típico de estágio de convalescença.

A fase grave passou, a dor foi embora,

mas as dificuldades começam agora.

Temos aqui a chamada paralisia aparente ou funcional.

O que chamo de alienação... Sim?

Doutores, acabo de saber

que o relatório do Comitê Nacional está passando no rádio.

Estão colocando no alto-falante.

# ...com o tratamento Kenny em desenvolvimento. #

# E concluindo, os 5 membros que compuseram o comitê, #

# relatam que não há evidências que o tratamento aumente #

# ou diminua a quantidade de paralisia. #

# Cito: Criticamos as declarações frequentes da Srta. Kenny, #

# sobre a cura de tantos pacientes no estrangeiro. #

# Que a gravidade seria evitada se a fosse entregue mais cedo. #

# Tais declarações não são baseadas em fatos. #

# Fim da citação. #

# Todo o relatório do comitê é uma crítica severa #

# à irmã Kenny e a seus apoiadores. #

# E sobre os pacientes que se recuperaram, cito: "Ela é acusada #

# de apresentação errônea dos métodos de tratamento." #

# Fim da citação. #

Não sei que evidências o Comitê Nacional considerou,

mas nós, com o Tratamento Kenny aqui em Minneapolis,

observamos por tempo suficiente

que membros encurtados e corpos retorcidos,

não são uma consequência necessária desta doença.

Pois isso não ocorre nos casos Kenny tratados em Minneapolis.

Como diretor médico do Instituto Elizabeth Kenny,

não hesito em dizer que é hora de abolir métodos antiquados,

que levam as crianças ao sofrimento da paralisia infantil.

Belo discurso, doutor, mas estou ficando cansado de ser educado.

Crianças aleijadas nos importam mais do que a etiqueta médica.

Ano após ano, comitês investigam as idéias da irmã Kenny.

Mas quem já investigou a mente dos comitês?

Já fiz isso, meu jovem.

Já sobrevivi a golpes piores do que este,

quando tinha menos amigos.

Este é um problema de consciência.

Quando falamos com a voz da autoridade,

finalmente passamos a crer que somos autoridade,

e não apenas sua voz.

O relatório causará danos.

Não a mim, mas a milhares de crianças que serão

privadas de tratamento adequado.

Acho que o ataque pessoal não se justifica, senhores.

Nunca deturpei os fatos. Eu não preciso.

E devo muito aos médicos o aprendizado.

Devo muito à América para não sentir gratidão.

Na América, meu tratamento foi tentado pela 1ª vez em casos graves.

Na América, pude trabalhar lado a lado com especialistas.

Esse trabalho não passou despercebido,

mesmo além das fronteiras deste país.

A paralisia infantil não entende de fronteiras,

raças, credos, cores, ricos ou pobres.

E, graças a Deus, nem de ciência médica.

Combati médicos, no interior e na cidade.

E, como dizem aqui, só bati cabeça.

Mas eles também.

Eles são teimosos, rabugentos, dominadores e mesquinhos.

Mas são maravilhosos.

O fato de defenderem tanto aquilo em que acreditam,

me fez respeitá-los.

Se um grupo de homens pode dar o melhor de si,

quando um deles encontra o seu criador...

Perdoem-me, senhores.

Pensava num médico a quem devo muito este trabalho.

Ele era um homem muito bom.

E agora, voltando ao assunto,

ensinaremos esses músculos a andarem de novo.

Nem tocou no seu chá, irmã.

Eu estava pensando.

-O que é isso? -Eu não sei.

# Parabéns pra você # # Parabéns pra você #

# Parabéns pra você, querida irmã #

# Parabéns pra você #

# Parabéns pra você, querida irmã #

# Parabéns pra você #

Legendas em Português-Br: Walter Santos

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