All language subtitles for Bertoldo Bertoldino e Cacasenno

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Original subtitles

BERTOLDO, BERTOLDINO E CACASENNO (1984)

O REI ALBOINO

FREI CEBOLA

GANSO

FOGO

FREI CEBOLA O ANJO

O REI ALBOINO CASTIDADE

AS CHAVES

O CASTELO

Assim pois,

houve um tempo em que o rei Alboino dominava as planícies

que se estendem desde o grande rio às altas montanhas nevadas.

O mundo naquela época era terra selvagem, cheia de bosques e pântanos,

atravessada por exércitos em armas e santos peregrinos,

atormentada por fome, saques, epidemias, guerras,

doenças e tudo mais!

Portanto, hordas de mendigos famintos e assediadores,

lotavam os pátios do palácio,

junto das janelas gradeadas das cozinhas reais,

em busca de um pouco de comida, ou ao menos, de algum cheiro e de um pouco de calor.

- Olhe essa fumaça de porco! - Magnífica!

Eu estava antes de você!

- Para mim, para mim! - Comam!

É meu! É meu!

Para trás! Para trás!

Cachorro!

Para atrás! É meu!

Malnascidos, filhos de uma cadela! Que fazem na corte do rei?

Estamos impregnando nossa comida na fumaça da cozinha, comandante.

Todas essas fumaças são das cozinhas reais!

Quem lhes deu permissão para impregnar o pão

na fumaça do rei, ratos de esgotos?

A fumaça e o cheiro são para todos!

- Quem cheira não rouba como um ladrão! - É verdade! Nunca se ouviu isso!

Silêncio, cães raivosos!

Quem quiser salvar a vida, que pague o roubado e será livre!

Mas antes que o rei volte da caça, porque com ele não haverá misericórdia.

Um Bizâncio por cabeça!

- Fujamos, fujamos! - É uma injustiça!

Um Bizâncio inclusive pela fumaça!

Vamos, vamos! Fujamos!

Que está havendo aqui, hem?

Que magote é este?

Mendigos, Majestade, que vamos castigar.

Piedade! Piedade!

Nós também devemos ter um pouco de justiça!

Continuai aos vossos aposentos, Majestade.

Estes vagabundos não são dignos do vosso precioso tempo.

Cale-se! Quem decide sou eu! Falem!

É um prepotente.

Quer que paguemos pela fumaça e o cheiro de suas panelas, senhor!

- É verdade? - Sim Majestade! - A fumaça e o cheiro! - Faça justiça!

- Quer um Bizâncio! - Não temos nada! - Cale-se!

É verdade?

- Para encher as arcas reais. - Não!

Para rechear seus bolsos sujos!

Verme imundo!

Então queria se aproveitar destes pobres indefesos a expensas de seu rei?

Para a forca! Esquartejem-no! Adiante!

Que ponham a cabeça dele em uma vara em frente das muralhas! Vamos!

Que seja um terrível exemplo para os povos e as pessoas!

Majestade...

Sim, sim... Chega tarde e fingindo!

Mas também é justo

dar a César o que é de César, como disse nosso Senhor Jesus Cristo.

Ou não?

Sim! Sim!

Assim que, que houver impregnado seu pão na fumaça das cozinhas do rei,

que pague a justa retribuição. E quem não pagar, que lhes arranquem os dentes,

que arranquem os olhos, cortem os pés, e... e...

Eu sou assim. Chego, e em cinco minutos... Vamos ver, você!

Tem para pagar dois Bizâncio?

Eu não tenho dinheiro! Sou pobre!

Posso lhe dar um frango. Roubarei do meu tio!

Sim! O rei chega agora a cavalo e pega uns frangos! Não!

O rei só pega dinheiro em espécie: dois Bizâncio. Tem?

Piedade, bom rei! Só tenho estas mãos!

Ah, então que lhe corte o pé. Vamos, não tenho tempo a perder!

Você! Tem como pagar dois Bizâncios?

Sou um pobre infeliz, que quer de mim, Majestade?

Ah, sim? Então que lhe arranquem o olho esquerdo, adiante!

Senhor, já lhe faltam os dois olhos!

Já lhe disse que não deve me contradizer. Sempre tem que me contradizer?

Você é o camareiro, chega por último, e por cima não diz mais que bobagens.

Ah, mas você terá um final feio. Cuidado que acabará mal!

Então que lhe cortem o nariz assim não poderá cheirar o que roubar!

Vamos!

Ei, você, o de lá!

Sim, sim, você! Que está fazendo lá, ao lado das cozinhas?

- Nada. Cheirava a fumaça. - Ah, sim?

- Então... tem dinheiro em espécie? - Como não? Vim à cidade para vender.

Uma enguia e duas caudas.

- Bem, melhor para você. Solte dois Bizâncios. - Por que dois Bizâncios?

Não é fumaça normal, é minha fumaça de perdiz. Quer pagar menos de dois Bizâncios?

Não, então um Bizâncio. Não cheirei a fumaça de perdiz!

Cheirei a fumaça de um capão. Portanto é um Bizâncio.

- Então solte um Bizâncio, vamos! - Espere.

Olhe, hem!

E... Que faz?

Eu lhe paguei, não?

Pagou-me? Como?

Você me deixou cheirar a fumaça da cozinha,

e eu lhe deixei ouvir o som da moeda.

Todos riem, e ele não! Ele não ri!

Senhor, como vosso camareiro e conselheiro, peço permissão para expressar minha opinião.

Adiante, expresse-se!

Esse vilão quer tirar sarro e lhe ridicularizar ante seu povo.

Assim que, por delito de lesa majestade, peço...

que seja decapitado.

Não!

É você que não sabe apreciar algo divertido e engenhoso,

e quer se sair sempre com a sua.

Sente-se seguro porque é protegido da rainha!

Mas olhe o que lhe digo, cedo ou tarde acabará mal!

Não sei quando, mas acabará mal.

Vilão, seu gostei tanto do seu engenho,

que merece uma recompensa adequada!

Além da fumaça, terá também o assado!

Adiante, que lhe tirem a sujeira e que o tragam a minha mesa! Vamos!

Que entre o vilão!

Estou aqui.

Chego já.

Que novo animal é este?

É... É um vilão que eu trouxe para lhe divertir, minha rainha.

Já chego.

Posso?

- Induza-o a falar e verá com lhe faz rir. - Por enquanto só me dá nojo.

Olá!

Ei! Por que não lavou e tirou a sujeira como ordenei?

- Não quis, Majestade. - "O hábito não faz o monge", senhor.

"Sou vilão e vilão existo, ainda que de senhor me vista".

Esta sim que é boa!

Como se chama?

Eu? Eu nunca me chamo! São os demais que me chamam!

Seria um idiota se me chamasse a mim mesmo!

Quem são seus ascendentes e descendentes?

Os feijões!

Que alimentaram toda minha estirpe.

E que sobem e descem na onda quando fervem.

Viu? Não lhe disse que sabe contar piadas?

Tem sempre a resposta exata!

Diga-me seu nome e de onde vem!

Bertoldo, e venho do barro.

Como os porcos!

Como Adão, o pai de todos nós.

Vamos, senhores!

Vejamos quem de vocês pegar em uma contradição este fodido, ganha. Vamos!

- Qual é o dia mais longo? - Aquele em que não se come!

- E o maior bobo? - O que se acha sábio!

- E a cara mais vista? - A Lua!

- Qual é a erva que até os cegos veem? - A urtiga!

- Que é o que menos se gosta? - A mulher que não sabe se calar!

E que é o que mais se gosta?

A mulher que se cala.

Está bem, é suficiente. Já ganhou sua recompensa.

Rápido! Tragam o de comer para meu hóspede. Agora mesmo!

- Não! - Bastarda, eu lhe peguei, hem?

Antes de me casar com esse bizantino prefiro me afogar no pântano!

Mas o que diz, maldita filha?

Sim, eu vou com os mortos! É melhor que esse verme pálido e rasteiro!

- Fique quieta e me escute! - Deixe-me!

Raciocine! Minha filha. Na lua nova virão os embaixadores de Ravena,

para o contrato matrimonial. E eu que lhes digo? Escute seu pai:

Quer se casar com Teodoro de Ravena, hem?

- Não quero me casar com esse verme imundo! - Ei! Venha cá! - Deixe-me!

Lanceiros! Mas como diz que nunca viu em sua vida!

- Não quero vê-lo! - Lanceiros! - Não! Não!

- Vão me encontrar morta! - Vamos, leve-a para a torre!

E fechem tudo: portas, janelas... Até que cheguem os emissários de Ravena!

- Que não seja vista! - Não quero!

É da antiga estirpe dos gregos e os bizantinos!

"Mulheres, romanos e nozes requerem mãos atrozes".

- Ah... - A coroa. - Mas eu a farei casar à força!

Porque é filha de rei e deve se casar por razões de Estado e não por amor!

Ei! "Mas o casamento feito só por interesse,

...traz chutes e sopapos, não abraços". - Sim, sim, eu me encarrego disso.

Alboino! Maltrata sua pobre filha já que não tem uma mãe que possa defendê-la,

em vez disso permite que um triste palhaço amparado por gargalhadas de cretinos,

lhe dê aulas diante de todos?

Tem razão!

Tem razão!

Que lhe importa? Que sabe você, as razões de Estado ganham, hem?

E todas estas rimas! Asfixiantes, sentenciosas!

Basta! Você está aqui só para me fazer rir, para me entreter!

Na verdade, vim aqui para comer!

Foi o senhor que me convidou! Foi o senhor que me convidou!

Está bem!

A palavra de rei não volta atrás!

Tome!

Isto é um capão bem recheado.

- Está satisfeito? - Maldito seja!

Cuidado!

Tudo o que fizer com este capão,

eu farei com você!

- Não tenho mais fome. - Ah, não! Veio aqui para comer...

e comerá!

Sim, sim...

Faça isso em mim!

E assim foi como Bertoldo escapou com astúcia da ira daquele rei tão maluco,

voltando em companhia de seu burro, Cavalo,

para a sua aldeia, chamada Águas Mortas, porque estava bem no meio do pântano.

Olhe, Marcolfa, seu marido voltou!

É ele!

Chegou. Vamos, Marchia, ajude-me a levantar este feixe,

que quero ser eu quem lhe dê a grande notícia!

- Quem é, cachorro imundo? - Sou eu, Garbusa.

- Cada dia está mais feio! - E você mais bêbado.

- Sempre! - Uma saudação. - Saudações.

Marcolfa, onde está?

Tranquilo.

Fique quieto!

Marcolfa!

Tenho uma sede que me afoga!

Marcolfa!

Onde está a garrafa de vinho?

Marcolfa! Que Deus lhe maldiga! Onde se esconde?

- Bertoldino! Bertoldino! - Estou aqui!

Que faz aí? Desça!

- Choco os ovos. Ovos de ganso. - Fale mais alto, não lhe ouço!

Não posso! Se falar alto perceberão que não é a mamãe quem os choca!

Ovos? E a gansa?

Nerina já não está aqui.

Foi embora? Para onde?

Um falso "santo" a levou.

Mamãe a vendeu junto com a garrafa de vinho que havia lá.

Desgraçado deficiente! Venha cá! Se não descer eu lhe estrangulo!

Quem é?

Que um raio lhe parta! Que passou pela cabeça vender o vinho e a gansa?

Eu fiz uma grande troca!

Que troca? O que você vai trocar?

Você é uma mulher e você só pode trocar de caralho!

Eu fiz um grande negócio!

Troquei o fim de nossos infortúnios por um pouco de vinho, um ganso e um cobertor.

Quê? Até o cobertor? Está louca? E como dormimos, com o rabo no vento?

Que manta!

Recebi em troca algo que nos livrará para sempre...

de todos os nossos males e infelicidades. Espere!

O que é isso?

É uma pena! Gosta?

Como pena, eu gosto, mas como troca me dá vontade de cagar!

É uma pena santa!

Caiu no quarto da Virgem Maria da asa do Arcanjo Gabriel

quando foi fazer a Anunciação!

Quem lhe contou essa estupidez?

Um santo homem! Um santo peregrino que vem da Terra Santa!

Foi lá onde encontrou a pena!

O anjo,

quando entrou pela janela do quarto da Virgem Santa,

se sacudiu um pouco antes dizer a ela que estava grávida.

E assim perdeu a pena!

Então se sacudiu e perdeu a pena!

- Foi isso o que lhe disse? - Sim!

É uma pena santa e bendita!

Que alimenta mais que uma gansa, aquece mais que um cobertor,

consola mais que o vinho e afasta todos os males...

A caganeira,

a carência,

o granizo,

a peste bubônica,

o mal dos olhos,

a epilepsia,

pústulas,

dor de dentes,

dor de barriga, dor de ossos, dor de...

Mas não de dor de cabeça!

Boba de nascença! Assim aprenderá!

É assim com lhe protege a pena do santo homem!

E a você também!

Que é isso, papai! Por quê?

Para que se lembre! "Pancada bem dada, sempre recordada".

E esse mentiroso, esse canalha, aonde foi?

- Disse que ia ao vale. - Isso quer dizer que vai à montanha.

Amanhã iremos buscá-lo.

- Você o viu? - Ei, eu o vi aqui!

Amanhã você vai comigo, assim me dirá quem é.

Que tem para comer?

Titica, idiota!

Não lhe disse que pusesse para cozinhar o feijão?

- E eu fiz, não? - Mas...

Dentro desta panela só tem água!

Não vejo o feijão!

Olhe melhor, mamãe!

Você me disse: "Ponha o feijão no fogo". - E daí...? - E eu pus, não?

Um eu provei para ver se estava bom. Mas o outro deve estar lá!

Os ovos!

- Agora faz o bolo com o rabo? - Não, não...

E agora como faz? Desgraçado!

- Não é minha culpa! - E de quem é? - Bem, eu não sei!

- Bertoldino, pegue a porta, vá à horta e traga uns nabos e uma cabaça. - Vou!

Tudo por culpa desta maldita pena! Deus lhe maldiga!

Que faz?

Você me disse: "pegue a porta e vá à horta"! Estou pegando, não?

Vá embora!

- Caia fora! - Eu vou, eu vou!

E caminha, caminha, caminha durante três dias e três noites,

aconteceu que Bertoldo, seu filho Bertoldino, e seu burro, Cavalo,

chegaram à aldeia montanhesa de Grottabuia,

em busca do santo vigarista,

do vinho, do cobertor e da gansa Nerina.

Essa deve ser Nerina!

Eu ouço, eu ouço!

- É ela, é ela! - Onde está? - Aqui!

Aqui, aqui!

Não. Talvez aqui.

Procure-a, procure-a!

Vamos, mexa-se!

É ela!

Nerina...

Estamos aqui!

Estamos aqui! Estamos aqui!

Vou, vou! Vou!

Calma! Calma!

Aqui está. Eu encontrei!

- Está aqui! - E o vinho?

- Disse que está bem! - Procure o vinho!

Mas o santo homem quer assá-la!

Calma, Nerina. Calma!

Estamos aqui, estamos aqui!

E o cobertor?

- Maldita seja! - Eu entendo, Nerina, eu entendo!

Ele... ele bebeu todo vinho, esse mal nascido!

Mas eu o farei cuspir tudo!

- Maldito Judas! - Nerina sabe aonde ele foi!

Ela me disse que se quisermos, nos acompanha!

Venha, vá, vá!

Ah, está certo!

Mas ela sabe o caminho?

Claro que sabe, não é boba!

Vamos, Nerina, vamos!

Vamos!

Mas...

Mas aonde nos leva esta tonta?

Rápido, rápido!

Que disse, Nerina? Como?

Diz que o lugar é este!

Que é?

Uma missa?

"Ego, in Dei nomine, considerantes Dei omnipotentis gratiam, nunzio vobis

gaudium magno"!

Tem gente?

Nerina disse que é esse de lá, o cabeçudo da barba.

Temos a honra e a imensa alegria,

de ter conosco o Frei Cebola de Frosolone, "peregrinum" na Terra Santa!

Que amanhã ninguém falte à nona hora!

Porque o irmão Cebola mostrará uma santíssima e milagrosa relíquia...

A única pena caída sobre esta terra

das asas do Arcanjo Gabriel!

Ide difundi boa nova!

Tragam convosco os doentes, as grávidas,

os animais estéreis e as sementes novas!

Que a divina virtude da santa pena possa realizar o milagre!

"Referte hoc dixi"!

"Recate ocula"!

"Denarios"!

Oferendas "in pecunia" (*em dinheiro)

"et in" espécie!

"Servus vostrum", abençoo todos!

Ide!

Venha cá!

Dê-me uma ajuda.

Vamos, não tenha medo desse homem mau! Não vai lhe azarar!

Calado, hem?

- Frei Cebola! - Quem é?

Quero lhe perguntar uma coisa.

Amanhã, bom homem. Amanhã na nona hora!

Quero saber...

se a pena do anjo é realmente a única!

Claro, bom homem. "Certus sum"!

Eu tenho certeza!

A única. Só há uma. Não haverá por acaso outra?

Devagar, bom homem, devagar!

Você não tem fé!

Mas se eu que sou frade, digo-lhe que é a única, santa e bendita...

- Tem que acreditar em mim! - Tem certeza?

Com certeza!

Digo ante os olhos de Deus!

- Com certeza lhe digo! - Ah, sim?

E esta aqui, o que é?

- De onde pegou? Dê-me! - Quieto aí!

- Poderíamos fazer um negócio. - Que negócio?

Enquanto isso, tem que levá-la a um lugar seguro!

- Não! Traga aqui! - Mas que faz?

Mas Bertoldino! Ficou louco?

Eu dei ao "Certeza", não? Ele se chama "Certeza", não disse três vezes!

Cabeção, cabeça oca!

Não, sim, sim! Já chega, já chega!

- Não faça isso! - É um imbecil!

Um filho imbecil também é uma criatura de Deus!

Traga-o amanhã de manhã à igreja!

Com óbolo!

Nunca pensou

que a visão da única, santa e bendita pena do arcanjo Gabriel,

poderia lhe fazer um pequeno milagre?

Olhe, Frei Cebola,

roubou-me três coisas...

- O vinho, a gansa e o cobertor. - ...e o cobertor...

- A gansa! - Mas como você está lá e eu aqui...

- Eu vou torcer o pescoço! - Onde está a gansa? - Agora venha!

Vamos, traga-a!

Minha gansa! Onde está minha gansa?

Nerina não é uma galinha! Pode ser santo, mas é meio bobo, hem?

"Miserere, miserere."

"Dies irae, dies illa!"

"Solvet sæclum in favilla!"

Aleluia! "Miserere".

"Deo gratia".

Papai!

O que o farsante está fazendo?

Entendo, dorme.

Devagar!

Devagar!

- Papai, está dormindo. - Devagar...

As penas!

Onde estão as penas?

Mas, que...

Mas, quê?

- Cabeça de bagre! - Ai! Socorro, socorro!

Levanto-me! Levan...

Calado!

Abra!

- As penas! - Conte! - Uma, duas, três, quatro...

Tome, guarde-as.

- Elvira! - Que quer? - Por que não trouxe as crianças?

Glória! Glória! "Gloria in excelsis Deo"!

Homens e mulheres! Velhos e jovens!

Amado povo, meus filhos!

Escutem-me!

Chegou o momento em que lhes mostrarei os prodígios da pena sagrada!

A pena do arcanjo Gabriel,

que caiu no quarto da Virgem Maria

quando foi a Nazaré anunciar que lá, em um momento,

converter-se-ia na mãe do Filho de Deus!

E depois do anúncio, foi voando para o céu,

de onde tinha chegado.

Mas enquanto se preparava para tomar impulso,

bateu-se na quina do teto e ficou voando a pena errante,

que muitos séculos depois,

o Espírito Santo me ordenou que fosse pegar na Terra Santa!

Arcanjo Gabriel!

Faça o milagre!

- Pena bendita! - Pena santa, minhas pernas!

Meus filhos!

Preparem em silêncio e acalmem vossas almas, corações e mentes,

ante a vista do sagrado milagre da santa pena!

E quem mais doou, mais terá!

Dê-me a caixa.

Assim deram uma surpresa a você e o imbecil de seu filho!

Meus filhos!

Têm que saber...

que durante minha peregrinação pela Terra Santa,

Deus me concedeu a graça de me encontrar com o venerável

patriarca de Jerusalém!

O qual me presenteou

com muitas relíquias sagradas,

ante as quais caí em êxtase!

E estas sagradas relíquias são:

Um calo...

de Simão Pedro, conservado em uma caixa de ouro.

Uma redoma...

com água do poço de São Patrício,

e a pena do Arcanjo Gabriel, que você já sabem.

E por último, a maior alegria!

Alguns dos carvões com os que o beatíssimo mártir São Lourenço,

foi assado na grelha.

Milagroso!

Ah, não?

E todo aquele que tenha em mente

desmentir esta verdade divina,

com fatos e ações traiçoeiras,

não gozará dos benefícios que darão os carvões sagrados.

Se, em vez disso, ficar calado

e restaurar ao Senhor

a fé que lhe foi tirada,

será recompensado...

"in abundantiam"!

Glória! Glória! "Gloria in excelsis Deo"!

Um Real para você, e um para mim. Um Real para você, e um para mim.

- Um Bizâncio para você, e um para mim. - Um momento!

- Este não é um Bizâncio! É um Real! - De verdade? Que me diz?

Não sei como pude cometer um erro assim!

- Ah, não? - Não fiz de propósito, creia. Foi de maneira natural!

"Quando o rabo se acostuma ao peido, não se pode ficar quieto".

Então se afaste.

Diga-me... As moedas que tem na bolsinha junto ao rosário...

- Estas da cruz? - Sim. - E daí?

Sim... Não fazem parte da divisão?

- Não quer beber? - E o que tem isso? - Estas são para beber. Patrão!

- Patrão traga o melhor vinho que tiver! Sirva aqui! - Já vou!

- Sim, bebamos! - Bebamos. - "Mas, como amigo e beber,

...trair é um prazer!" - E daí? - Bem...

Antes de ficar bêbado,

sei onde esconder as moedas.

Bertoldino...

Onde você guarda?

Bertoldino!

Aqui estou!

Limpe bem as orelhas!

Olhe, deixo com você.

- Leve ao lugar seguro. - Não! - Estou brincando! - Ei, não!

Com ele tem que se falar claro! Se não pode confundir, hem?

- Escute-me bem. Olhe-me nos olhos. - Olho, papai. - Muito bem!

Pegue estas moedas e esconda dentro

da forragem do burro, sem que ninguém lhe veja. Repita!

Pego estas moedas e escondo dentro da forragem do Cavalo.

- Sem... - Sem?

- Que ninguém lhe veja! - Ah! Sem que ninguém me veja!

Espere um momento, Bertoldino.

- Que houve? Que faz, me olha fixo? - Eu lhe olho fixo.

Porque li também seu pensamento.

Quer dizer que não confia?

Então tome, ponha também as minhas. Ponha tudo junto, leve a lugar seguro!

Não, não! Com a forragem!

Está bem, não havia lembrado que este é idiota. Vá, esconda bem!

Tenho que esconder as moedas na forragem do burro,

mas ninguém pode ver, Nerina, nem mesmo você!

Isso, agora lhe ponho uma venda...

Não, não vou lhe machucar! Só quero tapar os olhos. Comporte-se bem!

Cale-se, fora, fora! Vá para casa...

vamos ver o que faço. Vamos, Cavalo.

Venha, vamos. Vamos esconder as moedas.

Chegamos.

Venha, venha, Cavalo!

Ei, Cavalo, ande devagar, hem?

Que ninguém nos ouça! Vamos, que lhe tire isto.

Calma! Calma...

Espere... Cavalo!

E você, Nerina, saia.

Saia, mas sem barulho, hem? Ninguém deve nos ouvir.

Pensava que era uma cabra!

Não, sou eu!

E por que chora?

- Bateram em mim. - Isso dói!

E por que lhe chicotearam?

Porque joguei a água suja da carne.

Nossa! Isso se chama caldo! Também já joguei uma vez.

Em mim bateram com o cabo da vassoura, e em você?

Também em mim. E com a vara da polenta.

Também chutes e tapas.

Mas no fundo fazem bem, porque sou idiota.

Eu também sou idiota!

- Então somos parentes! - Talvez sim.

- Como se chama? - Bertoldino.

- Bonito! - E você? - Menghina.

Belíssimo!

Vim ao estábulo para chorar. E você?

Tenho que fazer um trabalho... que meu pai mandou.

- O quê? - Disse-me que ninguém deve ver.

- Mas dizer, poderá. - Ah, sim!

Dizer eu posso... Tenho que esconder estas moedas dentro da forragem de Cavalo.

Mas é um asno!

Sim, eu sei, mas se o chamar Cavalo. ele se sente mais...

mais cavalo, em resumo! Feche os olhos que ninguém pode ver.

Por isso é que vendou os olhos da gansa?

- Sim! Ela se chama Nerina. - Por que é branca?

Você entendeu. Feche os olhos, ligeiro!

Droga! Estou mal, pobre de mim!

- O que acontece? - Meu pai vai me dar uma surra! Olhe!

- Não posso, estou com os olhos fechados, que será? - Abra, logo!

Cavalo comeu a palha toda! E agora, como escondo as moedas?

Meu pai me encherá como uma gaita de fole!

Mas seu pai não disse que botasse no saco da forragem?

Não! Ele me disse que escondesse dentro da forragem!

E onde está a forragem?

Na barriga de Cavalo, não?

Então ponha as moedas dentro também,

e não fará nem mais nem menos do que seu pai disse!

E lhe chamam de idiota! Tem um cérebro como um pote de doces!

Ponho pela frente ou por trás?

Pela frente, pois a forragem entrou por lá!

Exato!

- Ponha aqui as moedas e que coma. - Mas feche os olhos, ninguém deve ver!

Não, eu já vou. Já terminei de chorar. Tenho que lavar os pratos.

Então, adeus!

- E obrigado pela ideia! - De nada!

Cavalo, venha cá. Vamos, Cavalo!

Venha, vai comer os Bizâncios que lhe preparo agora mesmo.

Aqui está! Pronto, hem? Olhe.

Coma, hem? Não se engasgue, mas coma tudo. Tudo!

"Diabolon", "Satanaso" saia desta passagem!

Diabo, Belzebu, uma ajuda vem de "tu"!

Tudo feito, papai. Fiz o que mandou: todos os Bizâncios na forragem.

Mas na bolsa não tem nada! Pode me explicar? Explique!

Sim, Cavalo comeu a palha! Mas eu mesmo... Não se aborreça...

Eu mesmo meti todas as moedas dentro da forragem!

Todas menos esta, que ele cuspiu três vezes.

Deus lhe fulmine!

Ignorante, desgraça da minha vida! Olhe que filho estúpido eu tenho!

Que faremos agora? Deus!

Mas que Deus?

- Aqui precisamos de São Clemente! - Que tem a ver?

- A que horas esse asno faz "popó"? - "Popó"?

- Quando caga? - De manhã, como todos nós! - Não!

- Tem que fazer agora! - Sim, faz quando lhe mandam.

- Fará, fará. - Conheço o remédio!

"A porção de São Clemente, faz cagar imediatamente"!

- Depressa, depressa! - Mas o que vai fazer com toda essa água fervendo?

- Cheia de sal, vinagre e cinzas? - Não direi nem que me matem!

Que houve?

Pegue o funil! Onde está o funil?

- Pequena mistura! - Assim, empurre!

Lá dentro! Isso, com o funil!

- Jogue, sim! - Calma, Cavalo, que queima! Beba devagar!

Mais, mais! Bom! Bom!

Muito bem! Massageie, massageie, aperte!

Mais baixo, na barriga! Massageie, massageie!

Venha, cague as moedas!

Cague as moedas, querido!

Cuidado aí atrás, filho! Que a merda chega às estrelas!

- Massageie, massageie. Empurre! - Muito bem, Cavalo, muito bem!

Soa... Aí está!

- O cobertor, Bertoldino! - Espere, Cavalo. Espere!

Já está o cobertor! Venha, lindo, venha!

Vá! vá!

Fora!

Venha, venha, venha!

- Não falha, é uma posição milagrosa! - Vamos, fora!

- Jogue! - Fora, fora!

Coragem! Dá uma boa lavagem.

Pronto!

Assim!

- Venha, Bertoldino, ajude-me! - Claro!

Deus, que peste!

- Depois tem que voltar a contar, hem! Eu sei quantas tem. - E agora...

Quem é?

Quanto quer por este animal?

Nada. Não se vende. Não está a venda!

Damos cinquenta Bizâncios.

Não percam tempo, filhos. Eu ofereci 200 e não aceitou!

Duzentos e cinquenta!

Bertoldino!

Olhe se o asno joga mais algum Bizâncio!

Outros quatro ou cinco, vamos! Outros quatro ou cinco!

- Mas, basta dizer para que cague? - Sim.

Antes tem que dar bem de comer!

Eu lhe dou trezentos!

Trezentos e cinquenta!

- Quatrocentos! - Quinhentos! - Não vai mais!

Eu me retiro, filho!

É seu. Pegue o burro.

A suntuosa embaixada do Exarco Teodoro,

poderoso senhor de Ravena,

solicita ao grande Rei Alboino, senhor das terras de além do Rio Pó,

ser admitida a sua presença.

Tenho por nome Laudiceo, Alboino, rei dos reis!

Conheço sua língua e posso fazer a a comunicação entre o senhor

e todos os membros da embaixada.

O sublime Almirante Solimneno,

seu cozinheiro e provador, Karadam,

o patriarca Spiridione XI e a nobre escolta:

Alibrano, conde de Éfeso,

Leokustav...

Sim, está bem! Mas de quem é esse retrato?

É do nosso celeste senhor Teodoro,

conhecido como "O Macilento".

Exarco de Ravena e representante do Imperador de Constantinopla.

Prometido da filha do seu primeiro casamento,

a intocada Anatrude.

Mas... Mas, que tem...

Corcunda, não?

De nascimento, sacra Majestade.

É corcunda pela frente...

e não podiam ter pintado por trás, que ficasse um pouco melhor?

É que também tem corcunda por trás, Majestade!

Pela frente e por trás! Uma corcunda real, hem?

Que se anexará a sua nobre estirpe, senhor.

Como que a minha nobre estirpe? Será melhor que façamos desparecer este retrato,

antes de que chegue a princesa Anatrude. Tirem daí esse retrato, depressa!

Mas como, senhor? Não vai mostrar à imaculada princesa, sua filha?

Não, não é isso. Trata-se de um costume nosso.

Não permitimos que a esposa veja o rosto do seu prometido antes do... casamento.

Sábio costume, Majestade!

Portanto, pedimos humildemente, senhor,

que nos confie o retrato de sua imaculada filha

para levá-la ao nosso excelso senhor, que está impaciente para vê-la.

Será providenciado!

O supremo almirante Solimneno deseja dirigir seu discurso de saudação!

- Compreendo... - Estou aqui. - E então, hem?

A rainha! Onde está a rainha? Por que não está aqui?

Ninguém a encontra, Majestade, Nem ela, nem suas damas. Desapareceram!

Desapareceram? Está em conluio com ela, eu sei.

Você vai acabar mal. Tenho certeza de que acaba mal.

Deixou-me aqui sozinho com esses bizantinos!

- Faça uma coisa: traga pelo menos a princesa Anatrude. - A princesa...

E traga também um pintor, eles querem um retrato! Eu que vou fazer?

Os aposentos da princesa estão vazios! Ela também desapareceu com sua ama!

Também a princesa? Mas que diabo é isso?

Muito bem! Diga que pode continuar com o discurso amanhã, durante o banquete.

Esta campainha me chama ao grande carvalho das audiências

para fazer justiça a quem pede. E eu, como rei, não posso faltar

ao meu primeiro dever como protetor das viúvas, crianças e enganados.

Lanceiros, tragam ao rei o grande manto e espada de fazer justiça!

Cuidado, cuidado!

É foda! Não podia encontrar um que me ficasse melhor?

É o manto que sempre levaram seus avós, Majestade. E esta...

é a espada correspondente!

Santa paciência!

Meu braço!

Como há tantas viúvas? Que houve, uma guerra?

Eu também estou atônito, Majestade!

- E isto, o que é? - O grande colar. - Também colar?

Aí dentro terminou toda sua astúcia, hem?

Não! Aqui eu entrei pela força. A astúcia usarei para sair!

- Que saia para o machado! - Ladrão! Maldito vigarista! - Canalha! Assassino!

Silêncio! Que se proceda com ordem!

A balança.

Sei que vai acabar mal. Não sei quando, mas acabará mal.

Quem é o primeiro?

Você?

Não entendo. A embaixada chegou para as festas de casamento...

- Procuramos você por todo o reino e você... - Rei Alboino!

Neste lugar de justiça, nós exigimos justiça!

Nós, quem?

Nós, as mulheres, senhor!

Nós, todas as mulheres do reino! Das senhoras às mais humildes!

Desde que este reino, infelizmente,

as mulheres não são tidas em consideração, desejamos, senhor,

que desde hoje as nobres matronas sejam convocadas aos conselhos de regência.

Que, como os barões e cavalheiros, as matronas possam ascender aos cargos

segundo especifica no documento que entregamos!

E quero que saiba, boníssimo soberano,

que até que não se satisfaçam nossos direitos sacrossantos,

nós, todas, não cumpriremos com nossos miseráveis deveres. A saber...

- Cozinhar! - Fazer camas e quartos!

Remendar roupas!

- Muito bem! - Criar as crianças!

- Isso! - Limpar urinóis! - Casar forçada!

E, acima de todos, o dever mais nojento: o conjugal!

Céus!

"Triste o lar em que a galinha canta e o galo se cala"!

Cala?

Agora verá como calo! Chega!

Basta! Eu sou o rei! O rei, entendeu?

E ele chega, me põe o manto, o colar, a espada, a balança...

Depois vem a outra, fecha a "coisa" e joga a chave no tanque!

Já chega!

Que faremos agora sem as mulheres?

Os embaixadores... Os esponsais...

O grande banquete... E tudo mais.

E você, vilão, que me aconselha?

Eu não sei nada!

Estou enjaulado. Primeiro tenho que pensar como sair desta jaula. Depois...

Então venha, ligeiro!

Procedamos o segundo julgamento!

De modo que, vocês dois,

de que o acusam?

Ele nos vendeu, há cerca de um mês, por 500 Bizâncios em dinheiro,

este burro barulhento que tinha que cagar moedas.

Como que cagar moedas?

Viram com os próprios olhos como cagava Bizâncios!

Então se empenharam a comprá-lo a todo custo!

Mas não voltou a cagar!

Como testemunha, aqui, minha querida filha adotiva.

- O mentiroso disse que era coisa segura! - Segura!

Mas eu também disse que tinha que comer de tudo!

E daí! Há um mês que dou forragem e feno!

Trevos! Pasto excelente!

Bizâncios tinha que dar a ele!

Para que cague Bizâncios, tem que comer Bizâncios, não? Qualquer um sabe disso!

- Como Bertoldino e essa garota deram, não? - Eu juro!

- Traidora! - Menghina!

E vocês queriam dar capim e recolher Bizâncios!

Assim, por vossa ganância, eu os condeno a um mês de jaula a pão e água!

- Sim! - Mais outros dois por ter caluniado um inocente!

E que o asno retorne a seu primitivo proprietário!

E faça-se!

Mas quem disse que tocassem?

- Que faz? Que justiça é essa! - Para dentro!

Para dentro, que o lugar já está quente!

E você também para dentro! Bruxa!

Pronto. Já não está enjaulado.

Mas perceba que não irá daqui se seu conselho não surtir efeito, entendeu?

Do contrário, a pena lhe espera por enganar esses dois bobos!

Ou seja...

A empalação!

Bertoldino!

- Tenha cuidado para não cair, hem? - Bertoldino! - Sim?

Vá a casa de sua mãe com Cavalo

e diga que seu pai deve ficar na cidade por motivo do olho do cu!

- Está bem, papai. Desça! - Eu também? - Sim, você também.

Suba, suba... Opa! Pronto!

- Bom... Está bem? - Sim. - Ótimo!

E então?

Senhor... Sabe em que se diferencia...

a fêmea do macho?

Na...

- A... a fenda. - Não, não, não...

A cu...

a cu...

A curio...

A curio...

A curio...

A curiosidade!

Rainha!

O rei, meu pai, vem para cá!

- Vem só? - Não, traz uma escolta com bandeira branca!

Bandeira branca! Nós conseguimos! Nós ganhamos! Vitória, viva!

- Vencemos! - Quietas!

Quietas!

Vocês quatro, para a porta. Não deixem a escolta passar, só o rei!

As outras, formem fila na bancada.

Falo a você, minha rainha,

como quem mais firmeza e vontade demonstrou.

Vim aqui para lhes dizer que o Grande Conselho aceitou suas petições.

Na condição de que...

se submetam, só como uma mera formalidade,

à prova obrigatória do regulamento do Grande Conselho

para todos os que quiserem fazer parte dele.

Se os homens são capazes de superar essa prova

estamos seguras

de fazer também, inclusive melhor que eles.

Então eu lhes entrego este cofre

com o compromisso de não abri-lo de nenhuma maneira

até amanhã de manhã,

quando o devolverão, junto com as vossas petições, ao Grande Conselho,

que as receberá suntuosamente

antes do simpósio

que será oferecido em honra dos representantes do Exarco de Ravena, Teodoro, O Macilento!

Anatrude, estou falando com você! Está ouvindo ou não?

Entre nossas petições está também a de poder recusar um casamento, não?

Tomem!

O rei lhes deseja...

bom trabalho e sábias decisões, hem?

Viu como ele estava dócil?

Foi embora com o rabo entre as pernas!

Como um cão batido!

Já basta, mulheres! Ao trabalho! Quem escreve?

- Eu, que sou a única que sabe! - Vamos.

- Viu? Estava humilhado. - Sim.

Segundo vocês o que haverá dentro do cofre?

Nada. O rei disse claramente: é uma formalidade.

Sim, é uma coisa muito leve. Talvez um pergaminho!

Quer dizer um escrito?

Um selo... Ou uma moeda. Quem sabe!

Deixe-me ouvir.

Eu lhes digo o que é: é uma gozação.

Clara tem razão!

Se não abrirmos dirão que somos medrosas e não aptas para o comando.

- Quem está comigo? - Eu! Eu!

Deixem para lá! Que importa o que há dentro?

Está selado?

Não, Majestade. Não tem nenhum selo!

Basta abrir a tampa.

Ninguém perceberá.

Então abra.

Que será? Vejamos, vejamos...

Depressa, fechem a janela!

Prenda-o, prenda-o!

Fugiu!

Viu? Sou tremendo! Sou um machado! Eu as coloquei de joelhos!

- E agora, que faremos? - Bobas! São bobas!

Por culpa de vocês agora vão nos gozar!

Perdemos a prova e a esperança!

E a pior prejudicada sou eu!

Experimente estes ravióli em molho amarelo, vilão, que você merece!

Na verdade, Majestade, é que preferiria que me desse permissão para me mudar.

- Por que ganhou os ravióli, por que ganha? - Cale-se, cale-se!

Você perdeu todo direito de perguntar! Silêncio! Chega!

Quero você sempre a meu lado. Eu lhe nomeio... conselheiro!

Conselheiro adjunto, está bem?

"Serve para príncipes e senhores e saberá quais são as dores."

Fique pelo menos no banquete, não?

Majestade, estou habituado a comer nabos e feijão.

Esta comida assim... que faz tremer. Essas coisas...

Enfim, que me dão nojo!

Tome, tome este anel como presente por minha gratidão!

Tem um grande valor! Você havia prometido a mim! É meu!

Pois eu quero dar a ele! É grátis!

Tome, é uma ordem!

Está pequeno!

Está pequeno até no mindinho!

Será melhor escondê-lo.

Apesar de sua grande sagacidade,

o pobre Bertoldo deveria ter imaginado quantas confusões e traições

iria lhe trazer aquele precioso anel.

O excelso Almirante Solimneno pergunta onde está a princesa,

futura esposa do Exarco, em cuja honra se celebra este banquete inalcançável.

Anatrude está...

Ana... Anatrude...

- Onde está a princesa Anatrude? - Desapareceu de novo, Majestade.

- Estão procurando por todos os lugares. - É culpa sua! Sempre é culpa sua!

A princesa Anatrude está se fazendo... retratar pelo pintor da corte.

Depois vem. Vá... vá!

Besta imunda!

Vamos trocar a água do canário!

- Quem vai? - Foi você, mal nascido, quem planejou o truque do pássaro, hem?

Por sua culpa, vilão traidor...

- Maldito peão! Foi você! - Guardas!

- Para mim! - Cale-se, não grite! - Que houve?

Vocês, comigo pela escada. E vocês por lá!

Procuram-me. Você me prejudicou e deve me ajudar agora.

- A quê? - A fugir da corte!

Você que tem muito bom senso, também use-o em meu favor.

Por favor! Querem me casar com o bizantino!

Eu vi o retrato dele. Tem corcunda até pela frente. Não gosto! Não gosto!

Ajude-me a fugir!

E para onde quer fugir? Nasceu em uma gaiola, não sabe voar!

Em vez de fazer tanta confusão, por que não faz o mesmo que ele?

Faça um retrato com uma corcunda na frente, outra atrás e devolve o problema.

Assim ele poderá dizer: "Não gosto! Não gosto!"

Obrigada!

Sua alteza, a princesa Anatrude, filha de sua Majestade, Alboino.

Aqui estou! Já estou pronta!

Aqui estou!

Venha, que espera? Tire de mim o parecido!

Estou pronta.

Vamos, comece!

Nossa, como me agrada que ele me veja assim!

Oh, que maravilha!

- Quanto pode valer? - Olhe...

Não tem preço! Pode valer 2.000, 3.000, 5.000 Bizâncios... Uma carrada!

Tanto?

- E em vacas? - Em vacas...

Duzentas, trezentas...

- E em ovelhas? - Em ovelhas, mil, duas mil...

- E em galinhas? - Cinco mil, dez mil!

- E em gatos? - Nenhum, cretino!

Olhe como brilha!

Nossa, que golpe!

Você e essa macaca que botou aqui em casa...

Nem pense em ir por aí contando lorotas!

Ninguém deve saber que temos em casa esta joia, entendeu?

Silêncio!

E você... Alguém viu como lhe davam o anel?

- Havia... pessoas de todas as cores! - Minha Mãe!

Pobres de nós! Estamos perdidos!

Não sabe que classe de gente temos ao redor? Ladrões e assassinos!

- De verdade? - Claro! Tem que escondê-lo bem!

- Ninguém deve encontrar! - Então tire do dedo, animal!

Não vai querer cortar lenha com ele? - Dê-me!

Sangue de Judas! Não sai! Está preso!

Deixe-me ver. Dê-me!

Dê-me! - Tente você!

- Espere, ei! - Tire! - Vou!

- Tire! - Vou! - Tire! - Vou!

Corra, Menghina, agarre meu pai! Tire com força! Tire!

Tire!

Tire!

- Coragem! - Tire!

É melhor cortar seu dedo! Onde está o machado?

Corra, Menghina, o banco! Ponha a mão!

O dedo, o dedo! Papai corta!

Vá, Bertoldo! Corte!

Quieta com a mão, hem! Quieta!

Fique quieta com a mão, ei! Quieta!

- Por que tirou a mão? - O anel saiu voando!

- Onde está? - Saiu voando!

Onde está?

- Quem sabe onde está? - Não está, não está!

- Se não tivesse tirado a mão, animal! - É culpa sua, que bateu tarde!

- Onde está o anel? - Está aqui!

Santa Luzia!

- E agora, onde o esconderemos? - Eu sei... mas agora não digo.

No baú!

Você é idiota? O baú é o primeiro lugar onde os ladrões procurariam!

Podemos esconder também o baú!

- Onde? - No cocho!

- E depois escondemos o cocho! - Onde?

- Na casa. E depois, a casa... - Você mete no rabo!

Não, a ideia de Menghina é boa. Gostei da ideia do cocho.

Quem vai pensar...

que metemos o anel na farinha?

- Faço? - Faça!

E então...

vamos dormir.

Tiremos os tamancos...

e vamos dormir.

Maldita seja a hora!

- Que houve? - Marchia, a mulher de Gondrano.

- E daí? - Sexta-feira me me emprestou um saco de farinha!

E se vier amanhã e pedir que devolva, que lhe dou?

A farinha com o anel?

Filha de uma cadela!

Eu lhe pergunto: "faço"? E me diz: "faça"!

- Vamos procurá-lo! - Procure! - Não empurre!

Dê-me espaço!

Está aqui!

Dê-me. Vamos esconder na horta.

- Fique de olho, hem! - Claro, claro!

Devagar!

Pare! Tem lua!

Vão nos ver! Veja que claridade!

Eu lhe maldigo, lua! Tomara que lhe saia um tumor!

Desça, desça!

Bertoldino! Bertoldino!

- Menghina! Menghina! - Estou aqui!

- Desceu! - Quê? - A lua. Está no poço.

Vamos pegá-la! Assim escurecerá!

Maldita seja! Que fazemos? - Esperar a que uma nuvem cubra a Lua.

Venha cá... Olhe, eu peguei!

Maldita Lua! Fugiu!

Voltou para o fundo! Vamos tentar outra vez!

Lá, lá!

Ajude-me que é pesado! Dê-me uma ajuda!

Menghina!

Menghina!

- Agarre-se na corda! A corda! - Sim! - Venha!

A mão, a mão! Dê-me a mão!

Jogue... O joelho! Vamos!

Agora veremos se é mais sabida que Menghina e eu!

Menghina... Menghina.

- O que você tem aí na frente, todo inchado? - Onde?

- Aqui e aqui, não? - Não sei. Há pouco tempo ficaram assim!

Olhe, eu estou liso.

Talvez tenha entrado água por aqui e por aqui!

- Que houve agora? - Não sei. Se me toca tenho calafrios!

Amanhã, com o dia, olharei melhor. Tem que controlar... as inchações.

La tampa! Ajude-me!

Pegamos a Lua e a escondemos dentro! Vamos! Upa!

Pegue a tampa! Agora cobrimos!

Olhe!

O anel, o anel. O anel!

Dê-me. Dê-me o tamanco.

Porra! Que houve? Quem é você?

Nossa mãe, fantasmas!

Fantasmas! Socorro! Fantasmas!

Fantasmas! Fantasmas!

Terá visto que íamos enterrar o anel.

Teremos que escondê-lo em outro lugar.

- Não! Que nada, estava bêbado. - Sim, hem?

Vamos dormir...

Lá vai! E se esse cara fingia estar bêbado?

- Ah, não acredito... - Não, não!

Bertoldino!

Bertoldino!

- Que sono pesado! - Bertoldino!

Eu ouvi ruídos. Há alguém lá fora!

Maldito seja, o anel! O anel, nossa!

É melhor isto!

Ladrão! O anel do rei... As cem vacas, as cinco mil galinhas... Papai!

Eu sou seu pai! Sou eu!

- Por que vem aqui? - E você por que rouba o anel? - Eu não roubo nada!

- Acordou todos os vizinhos! - E agora, que fazemos?

- Espere... Eu sei onde escondê-lo. - Onde? Onde?

- Olhe que confusão você fez! - Quem gritou?

- Esconda o anel no cocho! - Outra vez? - Outra vez, sim!

- Não vai mudar de ideia? - Não faça nada. Vamos para casa.

- Quem teria roubado um anel? - Bertoldo!

- Que aconteceu? - Não aconteceu nada. Vão para cama!

- E o anel do rei? E as cem vacas? - Nada, nada! - Como que nada?

- Que anel é esse? - É Bertoldino, que é sonâmbulo...

- E então... - Eu o ouvi gritar. - Mas estava dormindo!

- Gritando? - Gritando e dormindo!

Vão embora! Caiam fora de uma vez!

- Bertoldo! Que barulho é esse? - Nada, já lhes disse. Caiam fora!

Já está bom de alvoroço!

E o anel?

- Onde está o anel? - Eu escondi em um lugar seguro. - Onde?

- No palheiro. Ninguém pode encontrá-lo. - Nós também não!

Morra, filho da pústula!

Jesus, José e Maria! Como o encontraremos agora? Pode me dizer?

Eu o joguei assim, olhe... Zás! Em baixo e para cima!

Em que parte do palheiro?

- Vamos, um, dois e três! Vamos tirar tudo! Tire! Tirem!

- Coragem, Menghina! Procure! - Tem que estar por aqui!

Que vá, que vá! Aqui não encontramos nada!

Deve estar aqui!

Viu, papai? É tão difícil como achar uma agulha em um palheiro! Melhor!

- Eu lhe estrangulo! - Fora!

Afastem-se! Todos para trás! Afastem-se!

Eu sei o que tem que fazer!

Tome!

Nerina! Aonde vai, Nerina?

- O fogo, o fogo! - Para trás! Vai se propagar!

Cavalo! Cavalo, querido!

- Calma! Não é nada! Vai passar? É fogo de palha! - Cuidado lá!

Olhe! O fogo vai para sua casa!

Que desgraça!

E que fazemos agora?

Pobres de nós!

Olhe como está tudo. A terra, a horta...

A casa... Tudo, na hora errada. Todo por culpa do maldito anel!

- Nem sequer assim eu encontro! - Melhor!

Traz mais azar que um gato preto que rouba um pedaço de toucinho

Em uma noite sem lua.

- Está lá o anel! - Onde?

Ante o focinho de Cavalo. Brilha!

Aqui está! Olhe, papai! Olhe o anel, olhe!

E volta tudo de novo! Onde o esconderemos?

Se me lembrasse daquele lugar...

Está louco?

- Dar um bofetão como esse em seu pai! - Assim se lembra, não?

"Pancada bem oferecida, nunca é esquecida."

Pegue o anel que Cavalo estava quase comendo!

Cavalo? Sim!

A barriga de Cavalo...

Bertoldino?

Marcolfa!

Aldeões!

Encontrei um esconderijo!

Gosta do anel, hem? Pois eu também!

Aqui vai!

Assim estará seguro... enquanto eu resistir!

Amanhã veremos.

Para mim também.

Gostaria de saber de onde os tira! Este cavalo é mais alto que o de ontem!

Como é possível?

Os garanhões são mais altos que qualquer outro cavalo, senhor!

É um cavalo de rei!

O cavalo do rei deve ser o mais alto, não é?

Mas não vou lhe dar o gosto de me ver cair deste cavalo!

- Quero montar no cavalo! - Levante-o!

O cavalo!

Empurrem, empurrem! Lá não, lá não!

Assim não se pode fazer nada!

Tem que fazer alguma coisa! Sabe que vai acabar mal, verdade?

A galope!

Que faz você aí, vilão?

Vim lhe devolver o anel.

Como assim? Não lhe agrada mais?

- Talvez não valha bastante? - Não, não, ao contrário!

Mas me trouxe mais tristezas que alegrias, mais infelicidade que sorte...

Tem certeza do que faz? Não prefere esperar um pouco?

Não, tenho que me livrar dele o mais depressa possível!

Está bem. Não sei se é um sábio ou um idiota.

Está bem, mas ligeiro.

Ninguém me dá uma ajuda!

De modo que quero que seja você mesmo

quem entregue o anel à rainha Magonia.

- Dê a ela o que tanto desejava. - Sim, sim, sim...

- Vamos. - Mas ligeiro, porque não aguento mais!

Magonia, este homem, a quem tanto deprecia,

veio devolver o anel sem que ninguém lhe pedisse.

É um rufião fedorento, mas o gesto é nobre.

Quando voltar da caça quero saber que você agradeceu.

Até logo, amigo!

Faz bem. Dar esse anel a você é como jogar pérolas aos porcos.

Vamos, depressa! Devolva-me imediatamente!

Na verdade, senhora... deveria me afastar por um momento.

Como se atreve, caipira fedorento? Quem acha qeu é?

Ousa fazer sua rainha esperar? Pegue o anel!

Aqui?

Sim, eu lhe ordeno! Faca imediatamente seu gesto nobre!

Aonde vamos?

Olhe que vou dizer a seu pai quando voltar da caça.

Que há de mal? Só quero rezar!

Dizem que lá se venera um santo muito milagroso!

Gostaria de vê-lo!

Você não entra. Espere-me aqui!

Gosta?

- Parece com você. - Claro, é meu retrato!

Muito bonito, mas não fica bem se retratar como Jesus!

Eu o fiz a minha imagem e semelhança.

Gostaria de retratar você também.

Agradaria-me também.

Com uma destas, hem?

Como se chama?

Gondrina.

Está bem, Gondrina.

Se quiser posar para mim vou lhe pôr entre aquelas.

Nua?

Tenho vergonha de ficar nua!

Não precisará. Eu imagino perfeitamente como você é

nua, sob suas roupas.

Depressa!

Depressa! Depressa!

Como que este é santo milagroso? Venha, seu pai está chegando!

- Eu lhe espero, hem! - Venha, vamos!

Afastem-se! Tire-os do meio!

Fora!

Ei, senhor! Senhor Alboino!

Que faz aí em cima? - Pergunte a sua mulher!

- A rainha lhe prendeu aí? - Sim, por culpa do anel!

Não lhe tirou do dedo?

Na verdade, é que exatamente do dedo, não!

Eu sabia! Não pode ir cinco minutos sem que apronte uma. Espere um momento.

Que houve? Mandou engaiolar o vilão?

Sim, presenteou-me o anel entre seus excrementos.

Quero que seja executado imediatamente!

Não estou disposta a sofrer as mesmas afrontas que você!

Quem eu? Quando ousou defecar na minha presença?

Não lhe tem nenhum respeito. Trata-o como um igual, como um vilão fodido!

É uma afronta! Eu nunca o vi se inclinar ante você. Nunca, jamais!

Magonia, como você é dura! Como que não se inclina? Inclina-se!

Não é verdade. Eu nunca vi!

Nunca se inclinou ante mim?

Então verá!

Merdoso! Ei, você, velhaco!

Viu o que arranjou?

Ofendeu a rainha, minha esposa, cagando-se em seus aposentos, hem?

Ela me ordenou! No rabo não se manda, senhor!

Silêncio, silêncio!

E sabe que a rainha pede sua cabeça como castigo?

Ah, minha cabeça vale uma merda? Muito bem!

Muito bem! Eu lhe concedo uma graça!

Na condição de que amanhã de manhã, na primeira hora,

venha a minha presença, da rainha e de toda corte

inclinar-se...

inclinar-se para pedir a dita graça!

"Quem não tem o pé no pescoço, não se inclina!"

Deve se inclinar! Pelo pescoço eu lhe pegarei se não se inclinar, está bem?

Amanhã farei que se incline a qualquer preço!

Está bem! Veremos...

Que o vilão entre!

Virgem!

Esta não perdoo, sabe? Já chega! Esta você me paga!

Polícia e lanceiros, prendam-no!

e leve-o imediatamente ao grande carvalho da justiça para que o enforquem!

- Afaste-o para sempre da minha vista! - Um momento!

Senhor, "com o sangue quente nenhum julgamento é prudente!"

Não liguem para ele, esse rufião tem o diabo na moleira. Levem-no!

Majestade, eu me inclino ante o senhor.

"Palavra de rei, não volta atrás".

Mas antes de morrer, gostaria de lhe pedir uma última graça, se for possível.

Qual é? Depressa que já estou cheio de tanta conversa!

Que ordene a seus ministros

que me permitam escolher a planta ou árvore

que devo ser enforcado.

E depois, morrerei contente. Esta é a última graça.

Concedida! Vamos, levem-no e o enforquem na planta que ele escolher.

Façam sob pena de cair em desgraça! Imediatamente!

Que há? Os embaixadores de Teodoro de Ravena, vêm outra vez?

Não sei, Majestade!

Não compreendo! Eles vêm ligeiro!

Trazem outro retrato!

- Não sei, senhor. - Você nunca sabe nada! Você é o camareiro, mas você...

Abram a janela! Quero ver que planta ele escolheu!

Esse sem vergonha!

Lá está o vilão!

Não me apetece vê-lo balançando os pés no ar.

Que escolheu, um olmo?

Não gostou dessa, Majestade.

Adiante! Entrem!

Bem-vindos!

Vieram me anunciar a chegada do Exarco de Ravena?

Assinou o contrato matrimonial?

O Exarco Teodoro de Ravena nos enviou para devolver o retrato da sua filha,

a impenetrada princesa Anatrude.

Podia ter ficado com ele! Afinal vai ser sua esposa!

E quando... quando será o feliz evento?

Temo que nunca, Majestade!

Como disse?

O Exarco Teodoro partiu para os lagos venezianos

onde hoje se une em matrimônio com a sereníssima filha do Duque de Aquileia.

Sangue e morte!

Que se casa com quem?

- Com a herdeira de Aquileia. - Que ofensa es esta?

Pro cônsul Curzio, confie imediatamente estes insolentes mensageiros ao carrasco!

E que sejam emasculados e seus membros expostos ante o povo para seu escárnio!

E este eunuco, a falta de nada melhor, castre pela cabeça!

- Fora! - Não! É uma injustiça! O embaixador não tem "penos"!

Soltem-me, soltem-me!

Você, arruinado!"

- Senhor... - Que quer?

É justo o seu desdém, mas considere...

Seu ato poderia ter consequências gravíssimas, inclusive militares.

Melhor, melhor!

E veja se deixa de me contradizer!

Quero fazer a guerra, hem?

Quero fazer a guerra contra o corcunda bizantino, depois da afronta que...

Que é esse espanto?

O retrato de sua filha, senhor!

Que há, não conheço minha filha? Olhe!

Olhe como pintou esse merda de pintor que escolheu! Olhe!

Era o único artista dos arredores!

E o único artista dos arredores tem que desgraçar assim?

Vai acabar mal! Desta vez acaba mal!

Depressa, tragam-me acorrentado esse pintor maldito!

Vou arrancar os olhos dele! O desgraçado assassinou minha filha!

Vou amarrá-lo a dois cavalos, vou esquartejá-lo!

Ruperzio!

Ruperzio!

Ruperzio!

Gondrina! Finalmente!

Rápido, monte em seu cavalo ou está perdido.

Que diz? Não compreendo!

- Os lanceiros do rei lhe procuram! O rei quer lhe esquartejar. - Eu?

Mas como sabe disso? Quem é você?

Que quem sou eu? Olhe quem sou!

- Você? - Sim, sou a filha do rei! Venha, fujamos. Monte.

Fugir com a filha do rei? Por que tenho que fugir?

- Bobo! - Não sou mais que um pobre pintor!

Compreende agora por quê? Monte!

Não gosto!

Desgraçado!

Que o peguem!

Alboino!

Que diabo quer agora? O que quer?

Espero somar dor a seu furor, senhor. Mas é necessário que saiba.

Sua filha, Anatrude, não foi raptada pelo formoso Ruperzio.

Ao contrário, foi ela que o convenceu a fugirem juntos!

- E eu me alegro muito, porque assim ela fez o que queria. - Sim?

Sim! E segundo você, a filha de Alboino foge com um suja paredes? Não! Mente!

É uma terna história de amor, senhor, que durava há muito tempo.

Fale, ama de leite!

- Perdão, senhor! - Fale, fale!

Então é verdade o que ela disse? É verdade!

Que houve? Que houve?

Escutem, cidadãos!

Nosso soberano está gravemente enfermo e isso nos parte o coração!

Quem for surpreendido rindo ou festejando em tão triste circunstância,

terá seus dentes arrancados e sua boca será costurada com pontos duplos!

Aquele que conseguir fazer voltar o sorriso ao rosto

do nosso amadíssimo soberano, conseguindo assim sua cura,

será recompensado com uma bolsa de ouro!

e a nomeação de barão e conselheiro de Estado!

Quem fracassar, será castigado!

Pronto? Pronto...

Está bom!

Já que tentou me fazer rir com um macaco,

ordeno que seja trancado em uma jaula,

nu como um macaco,

e que se o alimentem com capim e bagas

e que seja assim conduzido em todo o reino para o deleite das pessoas.

Assim seja!

E que tirem os dentes do mordomo Rodoendro, porque eu o ouvi rindo.

- Adiante. - Majestade, ele só tem um dente!

E daí! Sempre tem que dizer a última palavra!

Esse é o que quero que arranquem! Que arranquem o último dente, vamos!

E agora...

Frei Cebola de Frosolone, que vem de vontade própria para curar seus males!

Por própria vontade?

Majestade, eu me inclino, me prostro... Mais isso é falso. Saia daí!

Tiraram-me à força do meu eremitério... Querem sair?

...onde estava jejuando porque soube da pena,

Majestade, que possuo e que o povo, não eu, assegura que faz milagres!

Por quê?

- Não é verdade? - Quê?

- Que a pena seja milagrosa? - Como não! Claro que é!

Mas tenho que lhes advertir

que purifica, cura e limpa... mas só quem esteja livre do pecado!

Mas, cuidado...

Ao contrário, no pecador produz chagas, pústulas e um bocado de doenças!

- Está livre de pecado? - O rei está livre de pecado de nascimento.

Então, "secundum"... Tem que crer... Ter fé. "Necesse fidem habere".

Tem fé na pena?

Tenho fé na faca que, se fracassar, fará rolar sua cabeça!

Eu sabia! Eu não queria vir! Deixe que eu vá embora, Majestade!

Aqui está a pena! Dou-lhe de presente. Faça com ela o que quiser!

Faça cócegas na barriga, pendure na cabeça...

Abane-se com ela...

Use-a, frade!

E veja se pode me fazer rir. Adiante!

Pena, peninha...

Arcanjo meu, livre-me do mau momento, apesar de que me tenha passado suas penas.

Juro que se me livrar desta, não voltarei a fazer.

Eu serei bom "nunc et semper".

Pegue isto!

Pena, peninha, pena dos meus amores alivie seu corpo dos maus humores!

e faça voltar na sua boca sisuda, por nossa salvação, um grande sorriso.

Anjo bom, ajude-me!

Um pequeno esforço, Majestade!

O que acontece?

Não lhe faz rir? Tem que buscar outro ponto... o pé!

Umas cócegas no pé e um pequeno sorriso aparecerá!

Anjo bom, ajude-me!

Já chega?

Decido que este pássaro de mau agouro seja algemado e que o faça voar,

com todas suas penas da muralha! Prendam-no!

Eu já disse que a pena não o faria rir! Que fazem? Deixem-me!

Dê-me a cruz.

Vou sozinho!

Serei outro mártir de Cristo, como os que jogavam aos leões

para divertir os tiranos ateus.

Quer me empalar? Pagão!

Espero que, pelo menos, esse voo me faça rir.

Mas...

Outra vez está aqui? Por que ainda não o enforcaram?

Senhor, há meses que vagamos por montes e vales

à procura de uma árvore que ele gostasse, como ordenou, mas não a encontramos!

Não compreendeu que se trata de outra de suas artimanhas diabólicas?

Basta! Enforquem-no grande carvalho, vamos!

Senhor, a verdade é que encontrei a planta.

E então? Já encontrou a planta! Onde está e que esperamos?

Aqui está!

Esperemos que cresça!

Está bem!

Fora! Deixem-me! Meu Deus! Que fazem?

Quietos! Quietos!

Não ouvem que o rei está rindo? Eu o fiz rir com a pena!

Alto! Anistia! Quietos, ei!

- Não, escova nas bolas, não! - Olhem quanta merda!

Não! Deus, não!

Fora, fora! Minha sujeira! Quero minha sujeira!

Meus piolhos!

Socorro!

Que esforço!

Aqui dentro...

tem toda uma vida.

Vivam os noivos!

Vivam os noivos!

Este é um dia de grande festa!

Nosso coração está cheio de alegria e misericórdia.

E com tal motivo...

Venha cá, Ruperzio.

E com tal motivo nós lhe entregamos

Bem-amado Ruperzio de Bassano,

adorado esposo de nossa diletíssima filha, Anatrude,

os principados de Tricche e Ballache,

dos condados de Leto e Zompafosso,

e dos ducados de Veccia, Gorgonza e Cotinella.

E, além disso, lhe entregamos...

Ajude-me, não?

... Sgominarda,

a gloriosa espada de nosso pai Archinto,

que entregou a seu pai, Altari,

que a recebeu de Magone, filho de Fiudoc...

Meu pai, o esposo que escolhi não é um homem de espada!

Nada disso! Se ficar com você, fica também com espadão!

O sangue e a violência o repugnam!

Jamais irá aos campos, nem guerrear nem caçar!

Vamos, pegou um caça dotes, Ande, vá!

Tome, pegue o espadão.

E agora, meu bom Bertoldo, aproxime-se!

- Eu? - Você! Aproxime-se!

- Que quer agora? - Quero que fique sempre comigo, na corte.

"Quem usa o campo não vai à corte".

Mas não estará melhor aqui que naqueles pântanos?

"Ao porco e à rã (*rana) não lhes tire a lama".

Não!

Sua sabedoria e seus conselhos são indispensáveis para mim.

Razão pela qual que ordenamos que você neste mesmo instante, seja nomeado

Barão de Águas Mortas e conselheiro da sacra coroa.

- E além disso, elevamos sua consorte... - Isso é para mim?

... a baronesa Marcolfa, ao lugar de primeira-dama de companhia da rainha!

Meu Deus!

Com obrigação de permanecer na corte, você, sua família e toda sua estirpe.

E finalmente, a esse santo peregrino,

ao qual o perdoei por sua interferência,

confiro-lhe o cargo de confessor privado da sacra coroa.

- Cardeal não? - Só o Papa pode nomear cardeais!

Você não sabe, que é um homem da Igreja?

Sim, eu sei!

- Pensava que você não sabia. - Afaste-se. - Claro!

- Portanto... - E eu?

- Que faço? Que faço, senhor? - E eu? - E nós?

Vocês? Do que vocês entendem?

- Do campo meu pai sempre se ocupou. - E da horta, a mãe.

- Mas do que vocês entendem? - Nada, nada.

- Nós não entendemos de quase nada! - Minha mãe diz...

- Que temos um cérebro como o da gansa. - Ou como o de uma galinha, é igual!

Compreendi... Por tal motivo,

os nomeio guardiães de todos os animais do reino,

incluindo pavões e perdizes.

E com a única exceção do falcão real.

- Muito bem! Eu gosto! - Ótimo!

E você, Nerina, agradeça ao senhor! Obrigado, senhor, obrigado.

Bom, chega de conversa!

Que preparem as mesas para consolar o ventre. Vamos!

Fujamos, fujamos!

- Para onde? - Longe, ar livre... Sem patrões!

Vamos ver, que estava faltando para você antes, hem?

- Tudo! - Mas agora posso lhe ajudar.

- Iremos juntos vender penas e carvões por esse mundo. - Ficou louco?

- Ganharíamos uma montanha de Bizâncios! - Deixe-me!

Ficaríamos bêbados todas as noites! Iríamos ver putas!

Aonde iríamos? Olhe o quão bom cheira

Frei Cebola, escute esta rima...

- "Quem de liberdade carece, estar vivo não merece". - E daí?

Escute esta...

"Neste palácio sentei meu traseiro e daqui não me tira, nem São Pedro".

- Barão Bertoldo! - Eis aqui! - Santidade, que há? - Já vou, Majestade!

Estava confessando o barão por um pecado que ia cometer. Vamos...

Pode-se comer, Majestade?

Agora vai provar um salpicão de esturjão cremoso.

Porque é barão, e como barão deve se comportar, viver e comer!

Senhor, dado que há uma coisa que posso fazer tanto como barão e como vilão...

- Qual? - Cagar...

Posso comer como cago?

- Ou seja? - Ou seja, nabos e feijão.

Impossível. A etiqueta não permite. Proíbe!

Adiante! Que comece o banquete!

Um pouco para você...

- E um pouco para mim... - Santidade, e para mim?

Majestade, desculpe-me! Não sei como pude passar!

Nunca me havia acontecido! Aqui tem, Majestade!

A partir daquele real bocado, Bertoldo foi tomado por um mal misterioso

que os mais famosos médicos do reino, convocados junto ao seu leito,

não sabiam por onde começar.

Mas que coisa estará aqui, um ovo ou uma criatura?

- Não tenho ideia. - Deixe-me ver. Abra a boca.

Não vejo nada! Talvez por debaixo...

Bertoldino! Bertoldino!

O que quer?

Seu pai está mal! Corra, quer ver toda a família!

- Corra! Vamos! - Vamos!

Espere, falta Cavalo! Quer ver a toda família!

Cavalo, venha que Bertoldo está mal! Seu pai está doente!

- Pegue Nerina! - Aqui está!

Venha, corra!

Estamos todos aqui como pediu, meu amigo.

Eu, Bertoldo, filho de Bertolazzo,

do falecido Bertuzzo de Bertin,

filho de Bertolin da Bretanha,

dado que nós, mortais comuns,

somos como bexigas cheias,

que basta um pequeno golpe

para transformá-las em pele morta,

quero fazer um testamento.

Para minha mulher, Marcolfa,

que cuidou durante trinta anos do campo e da casa,

e também do casamento,

Deixo tudo o que tenho, isto é,

duas varas de terra pantanosa,

a casa queimada

com tudo que havia dentro,

até que

Bertoldino

tenha uso da razão.

Ou seja, nunca.

Ao meu fiel asno, Cavalo,

deixo o título de barão.

De nada, querido.

Outra coisa que repartir não tenho

como nunca quis nada de meu rei

continuo sendo mendigo

desde quando nasci, salvo

um pouco de senso comum

para repartir entre quem quiser

e que lhe faça bom proveito.

Bertoldino...

"Nem por nenhuma razão

não lhe deixe por em prisão."

Lembre-se!

Eu lembrarei.

"Cuide do médico doente,

do cachorro que não late, das lágrimas de mulher,

da puta velha,

e do furor do povo."

"Olhe bem, olhe com cuidado,

que o homem sem mulheres é pobre coitado."

"Mulheres e gansas

tenha poucas esperanças".

"Onde houver dois jovens apaixonados

é inútil que haja portões fechados".

"Quem lhe lambe pela frente, morderá por trás".

"Não é bom rei quem não governa".

Sim...

- Escreva, não? Escreva! - Escrevo, escrevo.

Espere que morra e acertarei as contas!

E agora, o último conselho porque já estou me entediando...

"Não fazer nunca o bem...

nunca lhe fará mal".

Que acontece?

Eu lhe mandei chamar.

Por quê? Que quer?

Os santos óleos.

Os óleos?

Então está frito!

As palavras que eu,

Alboino rei,

pronunciarei em honra

do amadíssimo Bertoldo,

vilão liberto de Águas Mortas,

quero que sejam esculpidas com letras de ouro

sobre sua tumba,

para a memória futura das pessoas.

"Nesta tumba, tenebrosa e escura,

jaz um vilão com aspecto tão deformado,

que mais de osso que de homem tinha figura.

Mas de tão alto e nobre intelecto,

que causava assombro ao mundo e à natureza.

Enquanto respirou Bertoldo, o falecido, foi chamado.

Para satisfazer o rei, morreu após amarga agonia

ao não poder comer nabos nem feijão.

O vivo retrato de seu avô Bertoldo!

E será seu herdeiro por astúcia sagacidade e manha.

Como o chamaremos?

Como o chamaremos?

E pergunta? Chamemos de Cacasenno!

Legendas bases: A fjb48. D.E.P.

Tradução das legendas: PARENTE - SERGIPE - BRASIL - 4

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