Afrikaans
Akan
Albanian
Amharic
Arabic
Armenian
Azerbaijani
Basque
Belarusian
Bemba
Bengali
Bihari
Bosnian
Breton
Bulgarian
Cambodian
Catalan
Cebuano
Cherokee
Chichewa
Chinese (Simplified)
Chinese (Traditional)
Corsican
Croatian
Czech
Danish
Dutch
English
Esperanto
Estonian
Ewe
Faroese
Filipino
Finnish
French
Frisian
Ga
Galician
Georgian
German
Guarani
Gujarati
Haitian Creole
Hausa
Hawaiian
Hebrew
Hindi
Hmong
Hungarian
Icelandic
Igbo
Indonesian
Interlingua
Irish
Japanese
Javanese
Kannada
Kazakh
Kinyarwanda
Kirundi
Kongo
Korean
Krio (Sierra Leone)
Kurdish
Kurdish (Soranî)
Kyrgyz
Laothian
Latin
Latvian
Lingala
Lithuanian
Lozi
Luganda
Luo
Luxembourgish
Macedonian
Malagasy
Malay
Malayalam
Maltese
Maori
Marathi
Mauritian Creole
Moldavian
Mongolian
Myanmar (Burmese)
Montenegrin
Nepali
Nigerian Pidgin
Northern Sotho
Norwegian
Norwegian (Nynorsk)
Occitan
Oriya
Oromo
Pashto
Persian
Polish
Portuguese (Brazil)
Portuguese (Portugal)
Punjabi
Quechua
Romanian
Romansh
Runyakitara
Russian
Samoan
Scots Gaelic
Serbian
Serbo-Croatian
Sesotho
Setswana
Seychellois Creole
Shona
Sindhi
Sinhalese
Slovak
Slovenian
Somali
Spanish
Spanish (Latin American)
Sundanese
Swahili
Swedish
Tajik
Tamil
Tatar
Telugu
Thai
Tigrinya
Tonga
Tshiluba
Tumbuka
Turkish
Turkmen
Twi
Uighur
Ukrainian
Urdu
Uzbek
Vietnamese
Welsh
Wolof
Xhosa
Yiddish
Yoruba
Zulu
Meu caro Vinicius de Moraes,
escrevo-lhe aqui de lpanema para lhe dar uma not�cia grave:
a primavera chegou.
Voc� partiu antes,
� a primeira primavera, de 1913 para c�, sem a sua participa��o.
Seu nome virou placa de rua
e nessa rua, que tem seu nome na placa,
vi ontem 3 garotas de lpanema que usavam mini-saias.
Parece que a moda voltou nessa primavera,
acho que voc� aprovaria.
O mar anda virado, houve uma /estada muito forte,
depois um sudoeste com chuva e frio.
S�o viol�ncias primaveris.
A sua vida
Seu caminho � de paz e amor
A sua vida � uma /inda can��o de amor
Abre seus bra�os e canta A �/tima esperan�a
A esperan�a divina
De amar em paz
Para isso fomos feitos:
Para /embrar e ser /embrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos bra�os /ongos para os adeuses
M�os para co/her o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim ser� a nossa vida:
uma tarde sempre a esquecer
Uma estre/a a se apagar na treva Um caminho entre dois t�mu/os -
Por isso precisamos ve/ar Fa/ar baixo, pisar /eve,
ver a noite dormir em si/�ncio.
N�o h� muito o que dizer:
Uma can��o sobre um ber�o Um verso, ta/vez, de amor
Uma prece por quem se vai
Mas que essa hora n�o esque�a
E por e/as nossos cora��es Se deixem, graves e simp/es.
Pois para isso fomos feitos
Para esperan�a no mi/agre
Para a participa��o da poesia
Para ver a face da morte -
De repente, nunca mais esperaremos...
Hoje a noite � jovem;
Da morte, apenas nascemos
/mensamente
A valsa que voc�s acabaram de ouvir
tem a letra e m�sica de Vinicius de Moraes,
e era uma das can��es de sua pe�a Orfeu da Concei��o.
A hist�ria de amor entre Orfeu e Eur�dice tem um final tr�gico.
Mas como toda a obra de Vinicius, � uma celebra��o da vida,
do amor, da arte, dos la�os de afeto entre o artista e a cidade
onde ele passou a maior parte de sua vida.
Foi no Rio de Janeiro que o nosso poeta nasceu,
na rua Lopes Quintas, no antigo bairro da G�vea.
Em 1913, o Rio tinha quase um milh�o de habitantes, mas nem parecia.
Vinicius cresceu entre o mar e ch�cara do av�,
ouvindo a m�sica dos antigos escravos
e o viol�o bo�mio dos tios, irm�os de sua m�e.
lpanema e Leblon eram praias desertas,
a vida inteira ele foi testemunha e personagem
da transforma��o dessa paisagem.
Mas o Rio tamb�m era uma cidade afrancesada,
queria ser culta como Paris,
suspirava-se com os poetas rom�nticos,
vivia-se a agita��o da be//e-�poque.
Moda, arte, arquitetura, tudo seguia o estilo franc�s.
Ele teve, ao mesmo tempo,
uma inf�ncia livre e uma forma��o rigorosa, erudita,
se criou nessas duas vertentes.
Seu pai, Clodoaldo, escrevia poemas;
e sua m�e, dona L�dia, tocava piano.
Ele era doutor em latim, professor de piano, violino e franc�s;
ela era de uma fam�lia de bo�mios, que gostavam de m�sica popular.
De manh�, escure�o De dia, tardo
De tarde, anoite�o De noite, ardo
A oeste, a morte, contra quem vivo
Do su/ cativo, o oeste � meu norte
Outros que contem, passo por passo
Eu morro ontem Nas�o amanh�
Ando onde h� espa�o
Meu tempo � quando.
Ele era o segundo dos quatro filhos; e, dos quatro, foi o eleito.
A fam�lia resolveu que Vinicius teria a melhor forma��o poss�vel.
Foi mandado para o Santo ln�cio, um col�gio de Jesu�tas,
onde estudava a elite do Rio de Janeiro.
Na treva que se fez em torno a mim eu vi a carne
Eu senti a carne que me afogava o peito
E me trazia � boca o beijo ma/dito
Eu gritei
De horror eu gritei que a perdi��o me possu�a a a/ma
E ningu�m me atendeu
Eu me debati em �nsias impuras
A treva ficou rubra em torno a mim
E eu ca�.
Nos seus primeiros livros,
Vinicius esteve intensamente marcado por sua cria��o cat�lica.
Os poemas transpiravam uma atmosfera m�stica e religiosa.
Na faculdade de direito ele se aproximou dos integralistas,
era um poeta empertigado,
preocupado com as coisas s�rias da exist�ncia.
Em 35 eu J� tinha meu segundo livro pronto,
chamava-se Forma e a Exegese, um t�tulo pedante pacas.
Mas levantei o pr�mio nacional de poesia.
Em 35, em disputa com Jorge Amado; ele com Mar Morto.
Era pr�mio de literatura, chamava-se pr�mio Felipe de Oliveira.
A� fiquei me achando um pouco g�nio.
E comecei a desprezar neg�cio de m�sica popular,
achava que aquilo era uma arte menor.
O Vinicius come�a fazendo poesia francesa,
inspirado naquele catolicismo franc�s,
influenciado pelo grupo cat�lico aqui no Brasil.
Mas aquilo n�o � ele, aquilo n�o � ele.
Ent�o, pouco a pouco, ele vai se convertendo em Vinicius de Moraes,
quer dizer, vai virando brasileiro.
E a� vai al�m dos outros; porque muitos outros tiveram esse percurso,
viraram brasileiros mas n�o tanto;
ent�o virar compositor popular e cair no esculacho completo,
a�, realmente, � o Vinicius,
� mais que os outros nisso, est� entendendo?
Vinicius sempre teve uma esp�cie de vida dupla.
Na Juventude, enquanto escrevia, acreditando num lema dr�stico,
'escreve com teu sangue e ver�s que teu sangue � esp�rito' ;
ele freq�entava as putas da Lapa, dan�ava nos cabar�s,
era amigo de sambistas.
Aos poucos sua poesia tamb�m come�ou a se aproximar da vida,
desceu das alturas e foi olhar o mundo, o dia a dia das pessoas.
Com as /�grimas do tempo E a ca/ do meu dia
Eu fiz o cimento da minha poesia
E na perspectiva da vida futura Ergui em carne viva sua arquitetura
N�o sei bem se � casa Se � torre ou se � temp/o
(Um temp/o sem Deus)
Mas � grande e c/ara Pertence ao seu tempo
- Entrai, irm�os meus!
Vinicius publicou mais de 400 poemas
reunidos em 12 livros e v�rias antologias pessoais
Tamb�m escreveu cr�nicas, pe�as de teatro e cr�tica de cinema.
Foi um bom poeta e foi um poeta popular.
E n�o s� no Brasil: dos poetas brasileiros, foi um dos mais traduzidos.
Pelo mundo afora seus versos s�o conhecidos at� hoJe.
Vinicius de Moraes � um homem apegado � m�trica,
� um homem apegado � rima,
� um homem apegado �s formas po�ticas tradicionais,
como o soneto, como a ode etc.
Portanto, � um poeta que est� inserido na tradi��o.
Mas este poeta inserido na tradi��o,
exatamente por causa dos grandes recursos formais, t�cnicos, que ele tem,
ele se aproximou, mais do que nenhum outro,
daquilo que os modernistas queriam, que � a vida cotidiana,
que � a destrui��o do tema po�tico nobre,
que � a frase coloquial;
ningu�m chegou mais perto do que Vinicius da naturalidade,
ningu�m chegou mais perto da vida cotidiana, do prosaico,
no entanto, dentro de uma poesia da continuidade e da perfei��o formal.
E eu diria, para terminar,
que um poeta que � autor de poemas como a Ba/ada do Mangue, por exemplo,
s� pode ser considerado um grande poeta.
Pobres f/ores gonoc�cicas
Que � noite despeta/ais As vossas p�ta/as t�xicas!
Pobres de v�s, pensas, murchas Orqu�deas do despudor
N�o sois Loe/ia tenebrosa Nem sois Vanda trico/or
Sois fr�geis, desmi/ing�idas D�/ias cortadas ao p�
Coro/as desco/oridas Enc/ausuradas sem f�,
Ah, jovens putas das tardes O que vos aconteceu
Para assim envenenardes O p�/en que Deus vos deu?
Pobres, tr�gicas mu/heres Mu/tidimensionais
Ponto morto de choferes Passadi�o de navais!
Louras mu/atas francesas Vestidas de carnava/:
Viveis a festa das f/ores Pe/o conv�s dessas ruas
Ancoradas no cana/?
Para onde ir�o vossos cantos Para onde ir� vossa nau?
Eu me lembro de Vinicius em Roma...
Foi 53, eu morava com minha fam�lia em Roma
e Vinicius esteve l� numa miss�o cultural do ltamarati, uma coisa assim;
e ficou um tempo em Roma,
ficava l� no hotel e ia l� em casa algumas vezes.
Eu me lembro muito dessas noites, quando o Vinicius aparecia em casa,
J� antes, 'hoJe vem Vinicius', a casa meio que vibrava,
tinha uma vibra��o diferente.
A� descia u�sque, desciam as coisas, apareciam salgadinhos,
e mam�e ficava alegre, papai ficava alegre,
a Mi�cha tinha um viol�o que se chamava 'Vinicius'.
Mas o Vinicius era um suJeito que fazia m�sica,
eu conheci um compositor em carne e osso, era Vinicius.
Tinha uma hora que pegava o viol�o e eu ficava fascinado,
amigo do meu pai que fazia m�sica, um compositor.
E eu lembro que ele cantava v�rias m�sicas naquela �poca.
Tinha tamb�m um momento muito especial, que eu me lembro muito bem,
que era quando ele tocava no viol�o o Poema dos O/hos da Amada.
Ficava um sil�ncio e ele cantava,
''Oh minha amada que olhos os teus...
S�o cais noturnos cheios de adeus''.
Aquilo me causava uma impress�o muito forte.
Era poesia. Fui apresentado � poesia naquelas noites,
Vinicius cantando... Era m�sica e era...
Eu entendi o que era um poeta.
� minha amada que o/hos os teus
S�o cais noturnos cheios de adeus
S�o docas mansas
Tri/hando /uzes que bri/ham /onge
Longe nos breus...
� minha amada de o/hos ateus
Quem dera um dia
Quisesse Deus
Eu visse um dia
O o/har mendigo
Da poesia
Nos o/hos teus
Amo-te tanto, meu amor
N�o cante o humano cora��o Com mais verdade
Amo-te como amigo e como amante Numa sempre diversa rea/idade
Amo-te a fim de um ca/mo amor prestante
E te amo a/�m, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande /iberdade Dentro da eternidade e a cada instante
Amo-te como um bicho, simp/esmente
De um amor sem mist�rio e sem virtude
Com um desejo maci�o e permanente
E de te amar assim muito e ami�de
� que um dia em teu corpo, de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
Lindo.
Eu sei que vou te amar
Por toda minha vida, eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente, Eu sei que vou te amar
E cada verso meu ser�
Pra te dizer
Que eu sei que vou te amar Por toda minha vida
Eu sei que vou chorar
A cada aus�ncia tua eu vou chorar
Mas cada vo/ta tua h� de apagar
O que essa tua aus�ncia me causou
Eu sei que vou sofrer A eterna desventura de viver
� espera de viver ao /ado teu
Por toda minha vida
O Vinicius � um camarada que viveu de paix�es.
Quando uma paix�o tomava conta dele, ele era inigual�vel.
E assim foi com Tati. Foi a maior paix�o da vida dele.
Dar/ing, se voc� soubesse como a minha vida ficou mon�tona,
t�o sem gosto de nada.
�s vezes tenho impress�o que n�o vou poder ag�entar
nem mais 5 minutos sem te ver;
e ainda faltam tantos 5 minutos, meu bem.
Eu te adoro, te entendo, te venero,
tu �s minha vida, meu tudo, � diferente.
Eu sou teu escravo, teu criado, tua cria;
e tu �s a minha namorada il�cita,
esposa amant�ssima e cidad� �mpar na terra.
Beatriz Azevedo de Melo era uma aristocrata de S�o Paulo,
mo�a culta e viaJada, com id�ias avan�adas.
Os dois se conheceram e pouco depois
Vinicius viaJou para estudar literatura em Oxford.
Foi uma paix�o fulminante.
Eles se casaram de longe, por procura��o.
Um amor feito de grandes gestos:
mo�a rica que larga tudo para encontrar o poeta na lnglaterra.
Uma aventura rom�ntica, de apaixonados.
Quando come�ou a Segunda Guerra eles voltaram para o Brasil.
E logo as coisas tomaram outro rumo;
com dois filhos, Suzana e Pedro, Vinicius tinha uma preocupa��o nova:
ganhar a vida.
Resolveu entrar para o ltamarati, virar diplomata,
e come�ou a escrever cr�ticas de cinema para Jornais.
Eram tempos de novos amigos, dos encontros nos caf�s do Centro.
Vinicius era um poeta admirado, um homem inquieto, interessado por tudo.
Por causa de seu interesse por cinema,
conseguiu que seu primeiro posto como diplomata fosse em Los Angeles.
L� ele fez cursos, conviveu com gente de cinema e de m�sica,
acompanhou as filmagens de A Dama de Xangai, de Orson Welles,
ficou amigo dele, de Carmen Miranda, de m�sicos de Jazz.
Em Los Angeles, Tati e Vinicius viveram o per�odo mais tranq�ilo do casamento,
de vida em fam�lia.
Com Tati ele mudou o rumo de sua poesia
e tamb�m sua maneira de ver o mundo.
Dizia que, com ela, virou um homem de esquerda.
S�o dessa �poca alguns de seus melhores poemas.
Se tu queres que eu n�o chore mais
Diz ao tempo que n�o passe mais
Chora o tempo o mesmo pranto meu
E/e e eu, tanto
E s� para n�o te entristecer
Que fazer?
Canto
Canto para que me /embres
Quando eu me for
Minha primeira mulher que eu amei direito, que eu me casei,
1 1 anos que eu fui casado com ela, sua m�e.
Quer dizer, eu tenho uma saudade, �s vezes, fodida dela.
Eu tinha vontade de chegar e tocar aquela campainha na casa dela
e dizer assim, ela abrir aquela porta e eu dizer:
eu te amo!
N�o posso fazer isso, porra.
Ah, pode sim.
N�o fa�o porque eu tenho medo,
tenho medo que ela me receba mal pra caralho.
Quando ele morreu... Eu sabia, ele estava pra morrer;
e fui pra casa dela pra trocar de roupa,
porque eu estava sem casa no Rio, estava morando em S�o Paulo;
e a� eu comecei a chorar, eu, enfim, comecei a chorar,
ela come�ou a chorar tamb�m
e ela falou uma coisa que eu achei incr�vel, linda; ela disse assim:
''Vinicius quis muitas vezes que a gente se reaproximasse
e eu nunca quis.
Eu nunca quis ter menos,
nunca quis ter uma outra rela��o com ele,
n�o queria ser amiguinha dele.'' Ela me disse.
''N�o me interessava essa rela��o de ser amiguinha dele.''
A� ela parou, ficou parada e disse assim:
''mas isso foi uma burrice porque eu poderia ter ficado amiga dele,
a gente poderia ter tido uma rela��o, continuado uma rela��o,
eu poderia at� ter sido amante dele.
E eu n�o quis isso.
Por orgulho, por...
raz�es que, agora, nesse momento, eu veJo que s�o pequenas.''
Um dia ele me confessou uma coisa muito dolorosa,
porque homem � muito assim.
''Se ela n�o tivesse operado o nariz. Ah, me atrapalhou muito.''
N�o � verdade, ele queria se apaixonar loucamente.
Quando uma mulher n�o dava mais paix�o pra Vinicius,
Vinicius trocava de mulher com uma facilidade...
N�o � verdade, n�o era com facilidade;
enquanto n�o houvesse uma outra que despertasse nele...
HoJe em dia se chama muito tes�o; mas n�o � s� tes�o,
� uma paix�o que tem um fundamento,
que rola entre dois.
E ele precisava desse precip�cio da paix�o, sempre.
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com ta/ ze/o, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
De/e se encante mais meu pensamento
Quero viv�-/o em cada v�o momento
Em seu /ouvor hei de espa/har meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, ang�stia de quem vive
Quem sabe a so/id�o, fim de quem ama
Eu possa /he dizer do amor (que tive)
Que n�o seja imorta/, Posto que � chama
Mas que seja infinito enquanto dure
Na verdade, Vinicius n�o teve coragem de me contar
que ele tinha se casado de novo
e que tinha tido uma outra filha, Georgiana, que J� tinha nascido,
acho que quando ele viaJou pra Paris Georgiana J� tinha nascido.
Quando ele voltou pro Brasil, eu descobri por acaso isso,
porque ele ficou adiando, eu acho;
essa coisa de Vinicius, de n�o gostar da desarmonia.
Ele ficou adiando me contar aquilo
porque ele sabia que ia ser 'barra' pra mim de alguma forma;
saber de outra irm�.
Ele empurrou aquilo com a barriga.
E eu, por acaso, fui no Copacabana Palace, onde ele estava hospedado,
de manh�, mais cedo do que a gente tinha combinado,
apertei uma campainha, abriu uma porta, estava a Lila,
gr�vida, bem gr�vida J�, e Georgiana ao lado dela.
E aquilo ficou na minha cabe�a: 'Uau!'.
E fiquei...
N�o, eu fiquei puta.
Aquilo era um absurdo, Vinicius me mentir.
Lila B�scoli era bem mais Jovem que Vinicius.
Convivia com m�sicos, era uma esp�cie de precursora
de uma lpanema que come�ava a surgir.
Quem apresentou os dois foi o escritor Rubem Braga:
''Lila, esse � Vinicius; Vinicius, essa � Lila.
E seJa o que Deus quiser.''
Vinicius largou tudo e casou com ela.
Foram morar em Paris, tiveram duas filhas, Georgiana e Luciana.
O casamento durou cinco anos.
Apaixonado, ele escreveu muito,
foi um reencontro com a poesia, que andava meio abandonada.
Claro, como filha, �s vezes eu penso assim:
ser� que se Vinicius tivesse segurado mais a onda,
se ele tivesse sido um pouco mais disciplinado com ele mesmo,
at� com os casamentos, com os filhos, com a bebida,
com tudo que ele se Jogava, enfim, ser� que ele seria mais feliz?
Mas eu acho que n�o, acho que se ele n�o tivesse vivido
da maneira que ele viveu ele seria muito mais infeliz.
Essas coisas s�o superbacanas,
agora, elas t�m conseq��ncias, quer dizer, pra quem est� em volta
ou pra quem fica.
Porque ele ia em frente, e tamb�m acho que n�o era f�cil,
n�o sa�a de um casamento facilmente, n�o;
era todo um processo, Vinicius sofria,
a gente sentia que ele estava esquisito, ele ia ficando mais ausente,
come�ava a assobiar sem som...
Eu via que ele estava fora. Pronto, agora J� n�o est� mais aqui.
Vinicius era capaz de tudo,
qualquer baixeza pra conquistar uma mulher.
Eu acho isso important�ssimo como dado da personalidade dele.
Porque n�o � pra conquistar,
� pra ter novamente a chama que alimentava a poesia dele,
a gra�a dele, que era a paix�o.
Todo mundo sabe que o Vinicius viveu pra isso,
ele casou-se nove vezes, quer dizer, n�o � brincadeira.
Casou-se nove vezes em busca dessa paix�o eterna,
dessa coisa que ele sempre cantou,
'que n�o seJa eterno, posto que � chama
e seJa infinito enquanto dure',
Quer dizer, s� esse verso, que J� � um lugar comum brasileiro,
dizem perfeitamente o quanto ele buscou,
J� sabendo que n�o ia encontrar o que ele queria.
Essa, acho que foi a grande ang�stia de Vinicius.
Medo de Amar foi a primeira m�sica que eu ouvi Vinicius cantar ao viol�o,
50 anos atr�s.
Vira essa fo/ha do /ivro E se esque�a de mim
Finja que o amor acabou E se esque�a de mim
Voc� n�o compreendeu Que o ci�me � um mau de raiz
E que ter medo de amar N�o faz ningu�m fe/iz
Agora v� sua vida como voc� quer
Por�m n�o se surpreenda Se uma outra mu/her
Nascer em mim Como no deserto uma f/or
E compreender que o ci�me � o perfume do amor
Eu passei o ano de 1956 no Rio de Janeiro,
morando em Guadalupe.
E esse ano � um ano crucial na hist�ria de todas as pessoas
envolvidas na moderniza��o da m�sica popular brasileira,
que se deu logo a seguir.
E � o ano do Orfeu da Concei��o.
Eu via �s vezes no Jornal e ouvia repetidas vezes no r�dio
o nome de Vinicius de Moraes ligado e esse belo proJeto,
que eu imaginava de longe como uma coisa bonita,
e aquela m�sica, e aquele poeta que tinha escrito aquele espet�culo,
com aqueles negros, com aquele elenco negro.
E eu vi na televis�o
um suJeito dando uma entrevista sobre o espet�culo do Orfeu,
e falando detalhes sobre o Orfeu;
e era o Haroldo Costa, que participava do elenco.
E eu pensei que ele era Vinicius de Moraes.
E eu voltei pra Bahia -
ent�o o nome de Vinicius de Moraes se repetiu muito.
Eu voltei pra Santo Amaro, em 57, eu me lembro,
conversando com amigos meus da minha idade, J� com 1 4 anos,
e a� falou-se diversas vezes no nome de Vinicius de Moraes.
Eu disse assim: ''�, ele � genial,
esse cara � um poeta negro do Rio de Janeiro,
que eu vi na televis�o, que fez esse espet�culo'' ;
eu passei alguns anos pensando que o Vinicius era preto,
um ano e meio, mais ou menos,
com a certeza absoluta de que o Vinicius era negro.
Anos depois eu vim ouvir da boca do pr�prio Vinicius de Morais a frase:
''Eu, Vinicius de Moraes, o branco mais negro do Brasil'',
ou ser� ''o branco mais preto do Brasil''?
N�o posso esquecer O teu o/har /onge dos o/hos meus
�, o meu viver � te esperar pra te dizer adeus
Mu/her amada
Destino meu
� madrugada
Sereno dos meus o/hos...
O mito grego de Orfeu, mudado para uma favela do Rio de Janeiro
mostra uma verdade profunda do pr�prio Vinicius,
que desde a inf�ncia se formou no cruzamento entre erudito e popular.
Vinicius viu na hist�ria de amor de Orfeu e Eur�dice
uma trag�dia carioca:
o semideus grego, que com sua lira tocava o cora��o dos bichos
e criava nos seres a do�ura e o apaziguamento,
virou um sambista do morro.
Para Orfeu da Concei��o, Vinicius queria uma m�sica
que fosse o encontro de uma cultura refinada e erudita
com as ra�zes populares do samba e da batucada.
A pe�a na �poca foi adaptada para o cinema com o nome de Orfeu Negro;
ganhou Oscar, a Palma de Ouro, em Cannes
e mostrou ao mundo a m�sica de Tom e Vinicius.
Meu nome � Antonio Carlos Jobim, mais conhecido como Tom Jobim,
ou seJa, o Tom do Vinicius. Quando eu falava assim no telefone:
''� o Tom'', o suJeito dizia: ''Que Tom?''
''Tom do Vinicius'', a� o suJeito: ''Ah, sim, pois n�o.''
Eu nunca fiz coisa t�o certa
Entrei pra esco/a do perd�o
A minha casa vive aberta
Abre todas as portas do cora��o
O Vinicius me ensinou muita coisa da vida, me ensinou...
Eu digo ''p�xa, Vinicius, eu estou aprendendo tanto com voc�''
e ele disse: ''N�o, Tonzinho, eu � que aprendo com voc�.''
N�o
N�o pode mais meu cora��o
Viver assim di/acerado
Escravizado a uma i/us�o
Que � s� desi/us�o
N�o
N�o seja a vida sempre assim
Como /uar desesperado
A derramar me/anco/ia em mim
Poesia em mim
Vai, triste can��o, sai do meu peito
E semeia emo��o
E chora dentro do meu cora��o
Cora��o
Nos anos 50 o Rio era uma cidade cheia de novidades:
ouvia-se muito samba-can��o nos bares de Copacabana,
comprava-se autom�veis modernos, descobria-se a televis�o,
os discos /ong-p/ay giravam 33 rota��es por muito.
Muito mais veloz girava a vida na cidade.
Tudo se renovava na capital do pa�s: o cinema, o teatro, a moda,
at� a maneira das pessoas caminhar nas ruas parecia mais leve.
nesse clima de tantas coisas novas
Vinicius come�ou a virar uma refer�ncia,
era o poeta que tinha se aproximado do samba,
o diplomata que fazia can��es,
o cidad�o do mundo que conhecia tudo que a cidade come�ava a descobrir.
Eu sei e voc� sabe
J� que a vida quis assim
Que nada neste mundo Levar� voc� de mim
Eu sei e voc� sabe
Que a dist�ncia n�o existe
E todo grande amor
S� � bem grande se for triste
Essa m�sica, com Elizete Cardoso,
acompanhada pelo viol�o de Jo�o Gilberto,
est� no disco Can��o do Amor Demais,
que trazia os novos trabalhos de Tom e Vinicius.
Uma das m�sicas desse disco era ''Chega de Saudade'',
que, pouco depois, Jo�o Gilberto gravou.
Vai minha tristeza
E diz a e/a
Que sem e/a n�o pode ser
Diz-/he numa prece
Que e/a regresse
Porque eu n�o posso mais sofrer
Chega de saudade
Eu lembro exatamente onde eu escutei pela primeira vez Chega de Saudade.
Eu estava em Recife e eu fiquei completamente paralisado,
era uma coisa absolutamente estranha, completamente nova,
quer dizer, tudo era novo,
a letra era completamente nova, a m�sica era completamente nova,
o canto era completamente novo,
nunca vi ningu�m cantando daquela maneira,
e tinha um viol�o que tamb�m ningu�m tocava daquele Jeito.
N�o se fazia m�sica daquela maneira.
E quando eu falo m�sica, eu falo na can��o completa, a estrutura harm�nica...
Era tudo novo.
Antes de Chega de Saudade e depois de Chega de Saudade
era outra coisa, outro assunto;
''Vem c�, que hist�ria � essa de Chega de Saudade? ''
A� eu falei: ''Papai, me d� um dinheiro
que eu vou comprar o disco do Vinicius'',
era o disco do Jo�o cantando Chega de Saudade, de Tom e Vinicius.
Eu n�o sabia na �poca quem era Tom Jobim,
ningu�m sabia quem era Jo�o Gilberto
e nem o Vinicius n�o era um nome popular.
E aquilo n�o foi sucesso popular,
era uma m�sica que tocava em uma ou outra r�dio,
aquelas r�dios que garoto ouvia.
Fiquei louco por aquilo tudo, aquele Jeito, aquela poesia toda,
ao mesmo tempo cl�ssica, falando de coisas t�o comuns,
do dia a dia mas com uma eleg�ncia t�o poeticamente nova e tal.
Foi isso, Chega de Saudade mudou minha vida.
A virada na quest�o de letra de m�sica
promovida pelo Vinicius de Moraes no momento da bossa-nova,
realmente � crucial.
Agora, � preciso tamb�m entender que ela s� se fez assim
t�o abrangentemente importante
porque ele a fez atento � tradi��o da letra de m�sica popular brasileira,
coisa que ele amava desde sempre, e que conhecia bem.
A /nsensatez
Que voc� fez
Cora��o mais sem cuidado
Fez chorar de dor
O seu amor
Um amor t�o de/icado
Ah, por que voc�
Foi fraco assim?
Assim t�o desa/mado...
Bossa nova � nova intelig�ncia, um novo ritmo,
a nova sensibilidade, o novo segredo da mocidade do Brasil,
uma estrutura simples de sons super requintados,
de palavras que ningu�m acreditava mais a dizerem,
que o amor d�i mas existe, que � melhor crer do que ser c�tico,
e que a esperan�a � um bem gratuito.
Vai, meu cora��o
Ouve a raz�o
Usa s� sinceridade
Quem semeia vento,
Diz a raz�o
Co/he sempre tempestade
Vai, meu cora��o
Pede perd�o
Perd�o apaixonado
Vai
Porque quem n�o
Pede perd�o
N�o � nunca perdoado
O pessoal mais velho, uma boa parte
n�o gostava que Vinicius andasse metido com m�sica popular,
preferia que ele tivesse permanecido aquele poeta que ele era,
n�o gostava disso.
E quem gostava, por gostar de Vinicius, na verdade,
n�o gostava de bossa-nova, demorou a engolir aquilo.
Foi duro.
Eu me lembro de uma vez encontrar o Vinicius,
eu garoto ainda, acho que era o lan�amento de um livro,
ele estava sentado numa mesa, acho que estava autografando alguma coisa,
a� eu cheguei assim: ''Eu sou o Chico, filho do S�rgio'' ;
''Como � que vai o S�rgio?'' Falei: ''Est� �timo.
Mas ele n�o gosta de bossa-nova n�o.''
Eu vi que o Vinicius ficou zangado, n�o gostou da brincadeira.
O/ha que coisa mais /inda Mais cheia de gra�a
� e/a menina, que vem que passa
No doce ba/an�o a caminho do mar
Aquele primeiro show do Bon-Gourmet,
que eu nem poderia ter ido porque eu n�o tinha idade, eu estava l�.
Que era o Vinicius com o Jo�o Gilberto, o Tom, Os Cariocas;
Um show espetacular.
Foi a primeira vez que o Vinicius, inclusive, cantou em p�blico,
me lembro que teve at� problemas com o ltamarati,
ele era obrigado a cantar de terno e gravata e ele se queixava muito disso.
O Minist�rio das Rela��es Exteriores n�o gostava nem um pouco
de ver um diplomata de copo na m�o cantando num palco.
lmpunha limites: al�m do palet� e gravata, obrigat�rios,
ele n�o podia receber um tost�o para cantar.
Ah, se e/a soubesse Que quando e/a passa
O mundo sorrindo Se enche de gra�a...
Garota de /panema saiu daquele primeiro show
para ser uma das m�sicas mais tocadas no mundo em todos os tempos.
A vida de Vinicius sempre foi feita de contrapontos:
de um lado, a rotina do diplomata, de outro, o poeta apaixonado.
O diplomata fazia coisas que assombravam seus colegas
e que, para o poeta, eram absolutamente naturais.
De Montevid�u, o diplomata Vinicius de Moraes
escreveu uma carta endere�ada ao Minist�rio das Rela��es Exteriores:
''Preciso, de fato, voltar para o Rio de Janeiro;
n�o � um problema material, de dinheiro ou de status profissional,
tudo isto � recuper�vel.
� um problema de amor,
pois o tempo do amor � que � irrecuper�vel.''
Vinicius foi transferido para o Rio de Janeiro.
Ele teve um desastre de autom�vel em Petr�polis,
e eu estava na fazenda do tio Caloca, me telefonaram:
''Seu pai teve um desastre, se machucou muito'' ;
eu me toquei pra Petr�polis, quando eu cheguei no hospital em Petr�polis,
estava a Lucinha; e Vinicius, rapidamente, disse assim:
''Eu vou me casar com ela.''
Eu ''passei uma segunda.''
que foi a atitude que eu tomei em rela��o a todos os outros casamentos.
Depois da primeira mentira,
da primeira coisa que foi t�o dura de roer pra mim,
t�o complicada de absorver,
dali por diante ele casou e eu casei tamb�m, Junto com ele.
Para viver um grande amor
� preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada.
Vinicius tinha 45 anos quando se casou com L�cia Proen�a.
Durante 6 anos, a vida parecia uma festa sem fim,
tudo dava certo.
Vinicius era cada vez mais conhecido e admirado.
Sempre movido pela paix�o, produzia como nunca,
n�o parava de trabalhar.
Ele estava casado com uma mulher com tantas �bvias virtudes,
uma mulher muito bonita, muito rica, muito am�vel,
muito apaixonada por ele.
lsso virou um �m� pra uma s�rie de pessoas, os Jovens parceiros,
a casa era uma farra, tanto a casa do Rio quanto a casa de Petr�polis
viraram um centro de cria��o coletiva,
uma maluquice, ia noite adentro, tocando viol�o,
e tantos talentos t�o fortes Juntos,
um momento do Brasil, da cultura brasileira, muito rico,
e ele sendo um p�lo aglomerador desses talentos.
Mas eu acho que por causa do Vinicius
� que se inventou essas casas abertas,
acho que ele come�ou a abrir a casa dele
e todo mundo come�ou a copiar um pouco,
ele come�ou fazer as pessoas a abrirem suas casas, entendeu?
N�o d� nem pra comparar com hoJe em dia.
Mas, enfim, eram casas abertas que voc� entrava
e estava l� todo mundo tocando,
podia ser na dele, na do Tom.
Mas eu acho que quem fez, quem mexeu na fechadura,
quem abriu essas portas foi Vinicius, foi por causa dele,
de tanto ele fazer isso, acho que as pessoas foram imitando.
Eu J� conhecia Vinicius desde o tempo em que eu era garoto,
porque meu pai falava muito de Vinicius,
meu pai era metido a fazer versos, sonetos,
ent�o meu pai sempre perguntava: ''Qual o seu poeta preferido?''
E eu crian�a, garoto ainda, e meu pai dizia: ''Vinicius de Moraes''.
Ent�o J� conhecia aquele nome.
Quando eu vi Orfeu, a� eu fiquei louco.
''Esse cara, tenho que pegar pra meu parceiro.''
Coisa mais bonita � voc�, assim
Justinho voc�
Eu juro
Eu juro n�o sei por qu� Voc�
Voc� � mais bonita que a f/or
Quem dera a primavera da f/or
Tivesse todo esse aroma de be/eza
Que � o amor
Perfumando a natureza Numa forma de mu/her
Porque t�o /inda assim
N�o existe a f/or
Nem mesmo a cor n�o existe
E o amor
Nem mesmo o amor existe
Vinicius foi a pessoa mais importante na minha vida musical,
sem d�vida nenhuma.
N�o diria que se n�o fosse Vinicius eu n�o teria feito m�sica,
mas... talvez n�o tivesse feito mesmo n�o,
porque eu fiz engenharia, me formei engenheiro,
e Vinicius foi muito determinante nisso,
em 63 fizemos a primeira m�sica, Sem Mais Adeus.
Essa aqui:
Vim cheio de saudade
Cheio de coisas /indas pra dizer
Vim porque sentia
Que nada existia fora de voc�
Ao final de um famoso ver�o de 62, que nunca terminou musicalmente,
em Petr�polis, onde todo dia tinha uma festinha,
a gente sa�a com o viol�o debaixo do bra�o,
a garrafa de u�sque debaixo do outro,
e todo dia pintava uma m�sica nova,
conheci a turma toda atrav�s de Vinicius.
Eu levava uma s�rie de m�sicas para ele botar a letra,
como foi desde o nosso primeiro encontro.
E num desses encontros, eu levei uma s�rie de m�sicas e eu botei ali,
sei l�, e ele enxergou dentro daquelas m�sicas,
de umas 12 ou 13 m�sicas, ele enxergou ali
uma coisa que costurava por dentro daquelas m�sicas,
ele encontrou uma unidade entre aquelas m�sicas,
e disse que era uma com�dia musical, e realmente, as m�sicas que estavam ali
ele conseguiu fazer um musical e parece que as m�sicas se pertencem.
Pobre Menina Rica conta a hist�ria de amor de uma menina branca
por um mendigo negro e poeta,
bem o esp�rito de uma �poca em que tudo parecia poss�vel.
O Brasil vivia o otimismo dos tempos de Juscelino Kubitschek,
o presidente bossa-nova, que construiu Bras�lia,
que trouxe f�bricas de autom�veis. Era a modernidade.
Na hist�ria de amor contada por Vinicius,
um personagem refletia um outro lado daqueles anos dourados:
para escapar da mis�ria, levas de retirantes sa�am do Nordeste
e iam para as cidades do Sul.
Eu um dia, Cansado que estava da fome que tinha
Eu n�o tinha nada, Que fome que eu tinha
Que seca danada no meu Cear�
Eu peguei e juntei um restinho De coisas que eu tinha
Duas ca/�as ve/has, uma vio/inha
E num pau-de-arara toquei para c�
E de noite ficava na praia De Copacabana
Zanzando na praia de Copacabana
Dan�ando o xaxado pras mo�as o/har
Virgem Santa que a fome era tanta Que nem voz eu tinha
Meu Deus, quanta mo�a, Que fome que eu tinha
Mais fome que eu tinha no meu Cear�
Em 63 a gente lan�ou a Pobre Menina Rica no Bon-Gourmet,
eu, ele e Nara Le�o, fizemos a Pobre Menina Rica,
um espet�culo, bem assim, um pocket-show,
e eu fazia o poeta, a Nara fazia a menina rica
e o Vinicius fazia todos os outros personagens,
e lendo a hist�ria num bar.
Fazer m�sica nos anos 50 e anos 60 era uma aventura.
Ningu�m pensava em ganhar dinheiro com m�sica,
Vinicius era desprendido de dinheiro inteiramente.
Ali�s, ele falava que o defeito que ele mais detestava na pessoa era p�o-durice.
E era mesmo.
Ele casava, largava tudo.
E assim com tudo.
Quando ganhava...
Quando ganhava dinheiro ele sa�a...
Porque a� ele come�ou a ganhar uma certa...
Mais adiante, nos shows e tal,
a� come�ou a ganhar um dinheiro legal pra fazer o que ele fazia,
ou seJa, enchia aqueles bolsos de dinheiro e ia pros restaurantes,
aquela mesa enorme, ele pagava tudo e acabava o dinheiro.
Ele n�o Juntou dinheiro.
N�o Juntava, nunca teve essa preocupa��o.
Mais tarde, quando come�ou a existir um dinheiro por causa dos americanos,
da Garota de /panema, que come�ou a fazer sucesso no mundo inteiro,
� claro que aquilo dava dinheiro.
A� a Teresa, mulher do Tom
foi que come�ou a organizar a vida do Tom e tal...
Botava a m�o na cabe�a:
''mas o Vinicius assinou cada coisa que n�o podia ter assinado...''
Ele assinava contratos imposs�veis.
A vida inteira, desde pequena,
sempre teve problema de dinheiro na fam�lia da gente, sempre.
Vinicius, mesmo diplomata, ganhando bem n�o sei o que l�,
gastava demais, comprava um colar de p�rolas pra minha m�e,
a� n�o tinha dinheiro pra pagar a empregada no fim do m�s,
uma maluquice.
Ent�o, a vida inteira eu vi ele sempre...
''O raio da grana, o papagaio, estou devendo pra n�o sei quem,
pedi dinheiro emprestado...'' Muito rigoroso, muito honesto,
muito correto, ele era; mas sempre atrapalhado com dinheiro.
Ele nunca optou pela facilidade. Ao contr�rio.
A gente diz: bom, ele estava na crista da onda da bossa-nova;
sim, ele criou aquela crista;
depois, na crista da onda do afro-samba, ele criou tamb�m;
ele largou, ele fazia e largava, assim como tudo na vida,
ele criava e praticamente n�o usufru�a,
a n�o ser esbanJar, ele esbanJava o que ele acabava de conquistar,
Ele n�o retinha nada.
N�o retinha o sucesso, o dinheiro, coisa nenhuma.
Muitas vezes voc� pega grandes poetas que Jamais fariam letras de m�sica.
Entendeu? Por incapacidade.
Porque � uma outra hist�ria,
fazer letra de m�sica � uma outra hist�ria,
envolve outro tipo de... Envolve musicalidade,
voc� precisa entender disso, voc� tem que ter ouvido legal,
voc� tem que compreender como a frase musical se desenha.
E por isso que Vinicius foi important�ssimo,
porque al�m de grande poeta, ele era um grande melodista.
Tem uma outra can��o que ele fez com Chico Buarque,
que ele fez a melodia com escalas complicadas.
Ele me chamou, J� estava a melodia pronta, eu s� harmonizei.
Acho que se ele n�o tivesse tido tantos e t�o brilhantes parceiros,
ele teria feito muito mais m�sicas sozinho.
Mas acho que, pra ele, o ser humano era irresist�vel.
Eu fiquei amigo do Vinicius ali por 42, 43,
a nossa amizade come�ou ele me dando aquele livrinho fininho dele,
Ariana, a mu/her, com a seguinte dedicat�ria. N�s nos conhecemos assim:
''Para Ant�nio C�ndido, com a m�o estendida para a amizade.
Vinicius de Moraes.'' Bonito, n�?
Mas o Vinicius era uma pessoa que ligava pra saber como voc� estava.
''Estou te ligando pra saber se voc� est� bem.'' Pronto.
Tinha coisas que ele dizia, por exemplo, sobre a amizade, que eu acho lindo.
''Amigo voc� n�o faz, amigo voc� reconhece.''
De que mais precisa um homem sen�o de um amigo para ele gostar?
Um amigo bem seco, bem simples,
desses que nem precisa falar, basta olhar;
um desses que desmere�a um pouco da amizade;
de um amigo pra paz e pra briga,
um amigo de casa e de bar.
Para Vinicius a vida sem amigos seria imposs�vel,
tinha horror � solid�o, que era o contr�rio de tudo que ele procurou.
A maior solid�o � do ser que n�o ama.
A maior solid�o � a do ser que se ausenta, que se defende,
que se fecha, que se recusa a participar da vida humana;
a maior solid�o � a do homem encerrado em si mesmo,
um absoluto de si mesmo.
E n�o d� a quem pede o que ele pode dar de amor,
de amizade, de socorro.
S�o 40 caixas, multiplica por 12, v� quanto d�.
-Vezes 12 s�o 480 garrafas. -480 garrafas de u�sque.
E eram garrafas de litro.
Bom, a� parece que o pessoal come�ou a sentir o cheiro.
Minha casa come�ou a ficar cheia que voc�s n�o podem imaginar.
Rubem Braga, aquela patota toda.
Eu sei que um dia eu estava num bar que tinha na cidade,
chamado Juca's Bar.
Eu e o Paulinho Mendes Campos sentados numa mesa,
a� tinha um cara do lado falando pro outro, dizendo assim:
''Porra, vamos na casa do Vinicius de Moraes,
dizem que tem umas festas l� que o u�sque corre solto.''
Palavra de honra.
Nunca vi boa amizade nascer em leiteria.
U�sque � o melhor amigo do homem.
U�sque � o cachorro engarrafado.
Meu amor, juro por Deus
Que a /uz dos o/hos meus J� n�o pode esperar
Quero a /uz dos o/hos meus Na /uz dos o/hos teus
Sem mais /a-ri-/�-/�
Pe/a /uz dos o/hos teus Eu acho meu amor
E s� se pode achar
Que a /uz dos o/hos meus Precisa se casar
Voc� sabe que a minha mulher pegou duas garrafas de u�sque escoc�s aqui
e quebrou na pia, na minha frente.
Eu quase me cortei.
� um perigo, n�?
Voc� sabe que mulher chega ao ponto que quebra garrafa de u�sque na pia.
Elas fazem. � a revolta.
Mas n�o adianta, a gente compra mais.
Ficar de porre n�o era constante; ele estava sempre...
Porque ele bebia muito mesmo.
Eu chegava �s vezes no Antonio's, ao meio-dia,
ele J� estava no bar.
E tinha um neg�cio que ele chamava de banheira,
que era um daikiri...
N�o, era um gin-t�nica, uma coisa que o barman preparava
num copo que era uma bacia, era uma ta�a assim,
de um palmo de largo. E aquilo ele J� tomava...
Ou era rum, no daikiri, ou era gin, uma coisa assim,
que era uma coisa mais leve, com lim�o, com gelo mo�do, sei l�.
Depois, a partir da tarde, come�ava uisquinho, uisquinho...
Era a bebida dele, mais que cerveJa, mais que vinho,
era u�sque direto. Bebia muito bem.
Ele me disse isso uma vez, na rela��o dele com a bebida,
com o u�sque, que era a bebida que ele gostava,
ele precisava daquilo.
Ele achava que sem u�sque ficava tudo muito dif�cil.
Mas acho que ele ficava mesmo meio querendo ficar calado, entendeu?
E eu acho que o u�sque aJudava a ele nesse sentido,
de encontrar mais as pessoas, de falar mais com as pessoas,
que era o que ele queria na realidade.
Eu lembro de um encontro especialmente aqui, na Cl�nica S�o Vicente,
que eu fui visitar meu tio, que estava fazendo um tratamento l�,
um tipo de tratamento que o Vinicius fazia tamb�m,
quando ele bebia muito ia pra Cl�nica S�o Vicente,
uma esp�cie de um spa na �poca, pra supostamente n�o beber;
muita gente sa�a de noite, ia pro bar e voltava pra cl�nica de madrugada.
Estava o Grande Otelo, estava uma festa no quarto do Vinicius.
Vinicius estava feliz porque tinha feito uma letra pro Baden,
o Baden tinha deixado a m�sica numa fitinha e tal,
e a� chegou o Baden, ent�o eu presenciei esse encontro
O Baden chegando l�,
a� tinha aquela letra, o Baden pegou o viol�o, a� ficaram cantando horas...
E era o Pra Que Chorar.
E o Vinicius contou que tinha feito a letra na v�spera, durante a noite,
o vizinho de quarto estava morrendo,
ele ouviu o vizinho de quarto, os estertores do vizinho...
A� ele pensou e fez a letra:
'Pra que chorar se o sol J� vai raiar Se o dia vai amanhecer
Pra que chorar Se � sempre um grande amor
Pra que chorar se existe amor
A quest�o � s� de dar A quest�o � s� de dor'
E o Baden tocava e falava: ''isso � bom demais!''
Pra que chorar
Se o so/ j� vai raiar
Se o dia vai amanhecer
Pra que sofrer
Se a /ua vai nascer � s� o so/ se p�r
Pra que chorar se existe amor
A quest�o � s� de dar A quest�o � s� de dor
Quem n�o chorou E n�o se /astimou
N�o pode nunca mais dizer
Pra que chorar, pra que sofrer
Se h� sempre um novo amor A cada novo amanhecer
Pra que chorar, pra que sofrer
Se h� sempre um novo amor A cada novo amanhecer
Vai, Roberto!
O encontro dele com Baden eu acho que � t�o forte
quanto o encontro dele com Tom.
Porque foi um outro universo que ele explorou que talvez...
os dois tenham explorado de maneira mais profunda na nossa m�sica.
Porque sempre era uma coisa meio ''de ladinho'', essa coisa de africano...
E eles fizeram pra valer,
com a qualidade insuper�vel dos dois, o talento.
Em rela��o aos afro-sambas,
aquilo era um desenvolvimento da bossa-nova,
aquilo J� era uma outra corrente, uma outra hist�ria,
J� n�o era mais pra ser chamado de bossa-nova.
N�o era pra ter nome nenhum, na verdade.
Mas, enfim, eu quero dizer que J� n�o era o som do viol�o do Jo�o Gilberto,
a batida era dobrada do Baden,
era um tro�o completamente revolucion�rio, e muito forte.
E a� vem essa coisa camale�nica do Vinicius,
estava l� ele escrevendo de um outro Jeito,
usando outras palavras.
Quem � homem de bem n�o trai O amor que /he quer seu bem
Quem diz muito que vai, n�o vai assim como n�o vai, n�o vem
Quem de dentro de si n�o sai Vai morrer sem amar ningu�m
O dinheiro de quem n�o d� � o traba/ho de quem n�o tem
Capoeira que � bom n�o cai E se um dia e/e cai, cai bem
Capoeira me mandou Dizer que j� chegou
Chegou para /utar
Berimbau me confirmou Vai ter briga de amor
Tristeza, camar�
Tristeza, camar�
Berimbau, berimbau Berimbau, berimbau, berimbau
Berimbau, berimbau Berimbau, berimbau, berimbau
Eu, com Vinicius, n�s convers�vamos muito sobre assombra��o,
alma do outro mundo, esse tipo de conversa.
N�s ador�vamos conversar sobre isso.
E a� n�s est�vamos falando sobre a Bahia,
que eu tamb�m J� conhecia um pouco essa coisa de candombl�,
Vinicius tamb�m. E eu, por outro lado, era mais...
Eu tinha mais acesso a isso, porque eu era do sub�rbio e tal;
Vinicius era diplomata... Eu sabia dos neg�cios de candombl�.
Conversamos sobre isso e eu compus, Junto com Vinicius, batendo papo.
Quando terminou a s�rie das 9 m�sicas, Vinicius gritou, disse assim:
''Puxa, Baden, isso aqui s�o os afro-sambas.''
Amigo, senhor sarav� Xang� me mandou /he dizer
Se � canto de ossanha n�o vai Que muito vai se arrepender
Pergunte pro seu orix� Amor s� � bom se doer
Vai, vai, vai, vai amar Vai, vai, vai, vai sofrer
Vai, vai, vai, vai chorar Vai, vai, vai, vai viver
Eu n�o sou ningu�m de ir Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor que passou
N�o, eu s� vou se for pra ver
Uma estre/a aparecer Na manh� de um novo amor
Vai, vai, vai, vai amar Vai, vai, vai, vai sofrer
Vai, vai, vai, vai chorar Vai, vai, vai, vai viver
Vai, vai, vai, vai amar Vai, vai, vai, vai sofrer
Vai, vai, vai, vai chorar Vai, vai, vai, vai viver
Eu acho que Vinicius fez essa ponte da m�sica negra,
que foi t�o importante na inf�ncia dele, na forma��o musical dele,
ele encontrou o correspondente exato
e profundo l� nos Estados Unidos, com o Jazz.
Ent�o era uma coisa... S� se ouvia Jazz l� em casa.
Eu fui mais de uma vez com Vinicius pra New Orleans,
que ele ia pra ouvir determinado m�sico que estava tocando
e sempre ele me apontava aquela coisa que tinha nessa �poca,
banheiro segregado, sal�es onde n�o entravam pretos,
essas hist�rias terr�veis, raciais dos Estados Unidos dessa �poca,
vivas ainda naquela �poca, a Ku Klux Klan, os linchamentos,
essas coisas s�o muito vivas no meu imagin�rio,
na minha mem�ria at� hoJe,
porque eram faladas, eram comentadas dentro de casa
de uma forma passional, bem passional.
Em 1955, um adolescente de 1 4 anos, Emmet Louis Till,
assobiou para uma mulher numa cidadezinha do Mississipi.
Ela era branca. Ele era um menino negro.
Foi morto a tiros.
Os assassinos de Emmet Poor Mamma Ti//!
Chegaram sem avisar Poor Mamma Ti//!
Mascando cacos de vidro Poor Mamma Ti//!
Com suas caras de ca/
Os assassinos de Emmet Poor Mamma Ti//!
Entraram sem dizer nada Poor Mamma Ti//!
Com seu h�/ito de couro Poor Mamma Ti//!
E seus o/hos de punha/
/ hate to see That evenin' sun go down...
Os assassinos de Emmet Poor Mamma Ti//!
Quando o viram ajoe/hado Poor Mamma Ti//!
Descarregaram-/he em cima Poor Mamma Ti//!
O fogo de suas armas
Enquanto contendo o orgasmo Poor Mamma Ti//!
A mu/her faz um guisado Poor Mamma Ti//!
Para esperar o marido Poor Mamma Ti//!
Que a seu mando foi vingado
/ hate to see That evenin' sun go down...
Poor Mamma Ti//!
Poor Mamma Ti//!
Poor Mamma Ti//!
Poor Mamma Ti//!
O Vinicius trabalhava no cerne do afeto,
nessa coisa que Vinicius trabalhava,
nessas interse��es entre esses p�los,
quer dizer, no centro do di�logo, onde o di�logo se pode,
onde o di�logo se faz entre todas as diverg�ncias,
entre todas as polaridades.
Ele era assim, Vinicius era assim.
Ent�o, quando ele dizia 'eu sou o branco mais negro',
� que ele era, ele sentia isso, ele queria que fosse assim,
queria que os brancos fossem negros, queria que os negros fossem brancos,
queria, enfim, que a compreens�o existisse entre todos.
Ele era um homem de afeto, um homem de harmonia, absolutamente leg�timo.
Al�m disso, ele era tocado mesmo, esteticamente.
Olha, se me dessem pra escolher, eu gostaria de ter sido
meu grande irm�o negro Alfredo da Rocha Viana, sabe?
Chamado Pixinguinha.
Essa era, realmente, o ser mais lindo que encontrei dentro da escala humana.
Esse, eu tiro o chap�u pra ele.
Pixinguinha era tudo que Vinicius admirava,
uma mistura �nica de simplicidade, eleg�ncia, generosidade e nobreza.
Foi um pioneiro, um dos pais da m�sica brasileira.
Quando trabalharam Juntos, Pixinguinha J� era um cl�ssico.
E era uma pessoa muito afetuosa, o Vinicius.
Ent�o voc� deve imaginar as perdas, os amigos, todas as coisas.
Eu me lembro ele conversando comigo l� em Buenos Aires,
a� ele se lembra do Ciro Monteiro, e come�a a chorar.
O olho enche d'�gua, come�a a chorar e p�ra a conversa,
Aquela coisa... N�o consegue conter, t� entendendo?
Ele era uma pessoa com uma emo��o sempre pra derramar,
Qualquer coisa derrama o copo.
Ent�o, � isso.
Evidentemente que uma pessoa que tem esse n�vel de sensibilidade,
claro que quando est� na alegria com os amigos...
N�o � � toa que ele gostava de estar com os amigos,
pra n�o voltar pra isso,
n�o estar se defrontando permanentemente com essa emo��o.
lsso � uma coisa que tamb�m n�o � s� Vinicius,
o Eliot fala que escrever � fugir da emo��o.
O cara escreve pra Jogar em cima de ti a emo��o.
Ele quer se libertar, quer se livrar daquilo.
Se Clodoaldo Pereira da Silva de Moraes e eu
trocamos 10 palavras durante a sua vida, foi muito.
' Bom dia, como vai? At� a volta.'
�s vezes, nem isso.
H� pessoas com quem as palavras s�o desnecess�rias,
nos entend�amos e am�vamos mutuamente, meu pai e eu.
A morte chegou pelo interurbano em longas espirais met�licas.
Era de madrugada.
Ouvi a voz de minha m�e, vi�va.
De repente, n�o tinha pai.
No escuro de minha casa em Los Angeles procurei recompor tua lembran�a
depois de tanta aus�ncia.
Fragmentos da inf�ncia boiaram do mar de minhas l�grimas.
Vi-me eu, menino, correndo ao teu encontro.
Deste-nos pobreza e amor.
A mim me deste a suprema pobreza:
o dom da poesia e a capacidade de amar em sil�ncio.
Foste um pobre.
Mendigavas nosso amor em sil�ncio.
Tua morte, como todas, foi simples. � coisa simples a morte.
D�i, depois sossega.
Quando sossegou - lembro-me que a manh� raiava em minha casa -
J� te havia eu recuperado totalmente:
tal como te encontras agora, vestido de mim.
N�o te direi adeus.
De vez que acordastes em mim com uma exatid�o nunca sonhada.
Tem uma frase nesse samba, esse S� Me Fez Bem,
que eu fiz com Vinicius, essa primeira can��o que n�s fizemos Juntos,
que diz assim. S� pra mostrar:
Foi a vida
Foi o amor quem quis
� me/hor viver
Do que ser fe/iz...
E a� o Tom adorou essa frase, '� melhor viver do que ser feliz',
e queria usar, acho que ligou pro Vinicius dos Estados Unidos,
ele estava l� gravando um disco, queria usar numa m�sica que eles tinham,
e a� estava conversando com o tradutor, n�o sei,
um daqueles, n�o sei quem foi. Gene Lees ou... enfim, n�o me lembro;
e a� explicou, traduziu literalmente:
'it's better to live than be happy'.
O cara falou: ''N�o, est� errado, isso est� errado.''
''Como assim, est� errado?'' ''lt's better to live and be happy.''
A� o Tom achou gra�a e fez esse coment�rio,
o viver do Vinicius � completamente diferente do viver dos americanos.
Se a felicidade existe eu s� sou feliz...
quando me queimo.
E quando a pessoa se queima n�o � feliz
A pr�pria felicidade � dolorosa.
N�o posso dizer que Vinicius fosse feliz;
que ele viveu, com certeza.
E a vida dele era a procura da felicidade,
e a procura da felicidade J� pressup�e que a felicidade n�o est� ali,
est� noutro lugar.
Ent�o ele est� vivendo o tempo todo essa busca,
essa inquietude que foi a vida dele, essa coisa insaci�vel.
Eu lembro que Vinicius estava numa das fases piores da vida dele,
sentado assim, ''Sabe, parceirinho, n�o ag�ento mais,
estou a fim de desencarnar, n�o estou mais ...'' ;
isso foi quando ele separou da Lucinha,
porque o desamor pra ele era uma coisa muito dolorosa.
E ele estava separando da Lucinha, ent�o ele dizia: ''quero desencarnar,
n�o estou mais querendo viver.'' E eu digo: ''Mas o que � isso, Vinicius?''
Ele fez com Baden aquela m�sica...
Bom dia amigo
Que a paz seja contigo
Eu vim somente dizer Que te amo tanto que vou morrer
A�, depois desse neg�cio a� vem um novo alento que foi conhecer Nelita.
Nelita tinha um noivo que era poeta.
Estava pra casar com esse noivo, que era poeta.
Vinicius botou o olho em cima de Nelita e ambicionou imediatamente.
Ent�o, lidou com o casal at� envolver aquela menina de 18 anos,
ele J� tinha 60, quase, cinq�enta e muitos, n�o sei mais.
Envolveu a menina, ela chutou o noivo e viaJou com ele.
Para desgosto dos pais dela, voc� pode imaginar.
Depois eu os conheci muito bem, adoravam Vinicius.
Era uma teia que ele estendia pra conquistar as pessoas.
Os dois ficaram um ano em Paris, foi o �ltimo posto dele no exterior.
Em 64, logo depois do golpe militar, foi chamado de volta ao Rio.
Fez muitas can��es. E passou a beber cada vez mais.
Vivia cercado de pessoas muito mais Jovens que ele.
O casamento com Nelita durou seis anos.
Pouco depois, ele teve uma filha com Cristina GurJ�o,
um casamento r�pido, que durou menos de um ano.
Na verdade, a primeira vez que eu me lembro de ter visto meu pai,
eu J� era bem menina,
porque quando eu nasci, meus pais J� estavam separados.
A� eu me lembro dele chegando, eu muito arredia,
achando aquilo tudo muito esquisito.
Mas em 24 horas ele J� tinha me conquistado.
lmpressionante, era um sedutor mesmo.
Eu acho essa transa que eu tive com as mulheres t�o bonita,
n�o tem nada de ruim.
Elas ficam com uma raiva de mim fodida depois que separa.
Eu me separo porque eu deixei de gostar delas, p�.
A mulher, pra mim, n�o � um obJeto sexual n�o,
a mulher � um tro�o que eu amo pra caralho, e dou tudo,
o que eu posso fazer?
A� voc� tem que procurar outra mulher.
Havia alguma coisa meio debochada nele que criava problemas.
As pessoas achavam que ele era um devasso.
Ele era um pouquinho, mas n�o era assim tamb�m.
Se eu tivesse Se eu tivesse muitos v�cios
O meu nome, O meu nome era Vinicius
Se esses v�cios fossem muito imorais
Eu seria o Vinicius de Moraes
lsso � bem engra�ado. Quando ele entrava no Antonio's...
Ele n�o gostava nada dessa hist�ria.
Quando ele entrava no Antonio's,
n�s cant�vamos em coro pra ele, pra atormentar.
Mas estamos aqui tentando falar sobre esse poeta.
A minha p�tria � como se n�o fosse, � �ntima do�ura e vontade de chorar
Uma crian�a dormindo � minha p�tria.
Por isso, no ex�/io, assistindo dormir meu fi/ho
Choro de saudades de minha p�tria.
Se me perguntarem o que � minha p�tria, direi: n�o sei.
De fato, n�o sei como, por que e quando a minha p�tria
Mas sei que a minha p�tria � a /uz, o sa/ e a �gua
Que e/aboram e /iquefazem a minha m�goa
Em /ongas /�grimas amargas
Vontade de beijar os o/hos de minha p�tria
De nin�-/a, de passar-/he a m�o pe/os cabe/os...
Vontade de mudar as cores do vestido (auri-verde!) t�o feias
De minha p�tria, De minha p�tria sem sapatos
Sem meias, p�tria minha T�o pobrinha.
Fonte de me/, bicho triste, p�tria minha
Amada, ido/atrada, sa/ve, sa/ve!
Que mais doce esperan�a acorrentada
o n�o poder dizer-te: aguarda... n�o tardo.
Quero rever-te, p�tria minha e para rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humi/de morte cara a cara
Rasguei poemas, mu/heres, horizontes
Fiquei simp/es, sem fontes.
P�tria minha...
A minha p�tria n�o � f/or�o Nem ostenta /�baro, n�o
A minha p�tria � deso/a��o de caminhos
A minha p�tria � terra sedenta e praia branca
A minha p�tria � o grande rio secu/ar
Que bebe nuvem, come terra e urina mar
Mais do que a mais garrida a minha p�tria tem uma quentura
Um querer bem, um bem
Um /ibertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
''Libertas, que ser�s tamb�m'' E repito!
O Brasil de Vinicius era completamente diferente
do Brasil da ditadura, grandioso, ufanista.
Eram dois pa�ses desencontrados.
Com Al-5, no final de 68, a ditadura ficou ainda mais radical;
e em 69 ele foi expulso da carreira diplom�tica.
Com o tempo, foi se despoJando cada vez mais,
deixando de lado as conven��es e as imposi��es sociais.
Deus sabe que entre gatos e pombos
eu sou francamente pela primeira esp�cie.
Acho os pombos um povo horrivelmente burgu�s,
com seu ar bem disposto e contente da vida,
sem falar na baixeza de certas caracter�sticas de sua condi��o,
qual seJa, de eventualmente...
se entredevorarem, quando engaiolados.
Devia ser muito inconveniente ter uma ditadura como aquela,
com um grau tamb�m de hipocrisia muito grande
e ter o Vinicius como diplomata.
N�o pegava bem.
Tinha todas as coisas porque, ao mesmo tempo, Vinicius era o cara que...
A hist�ria do Vinicius n�o � a hist�ria,
propriamente, que os militares aprovariam.
Era um cara muito ligado � esquerda... A hist�ria dele � essa,
ligado �s pessoas que n�o aprovam um regime daquela natureza,
� o pessoal do samba, da alegria, da boemia,
tudo ao contr�rio, quer dizer.
Ele, como poeta e como m�sico,
fez mais pelo pa�s...
do que teria feito se tivesse seguido com a carreira diplom�tica.
Mas eu n�o me lembro dele se queixar muito disso n�o,
ele talvez J� estivesse um pouquinho cansado
de ter que brigar com aquela caretice, aquele neg�cio todo.
Mas n�o era uma coisa que ele comentasse,
n�o lembro de ouvi-lo falando,
mas eu tenho certeza que ele ficou bem chateado.
Ele ficou danado com essa...
Acho que a anistia ainda irritou mais a ele do que a cassa��o, na verdade.
Uma vez eu cheguei na Bahia, na casa dele,
que, ali�s, est� l� at� agora,
eu fui at� inaugurar uma pra�a 'Vinicius de Moraes', h� pouco tempo,
e ele chegou pra mim e falou: ''vem aqui que vou te mostrar um neg�cio'' ;
ele foi l�, tinha uma Janela que dava pra um quintal,
e tinha um peru, um pav�o, um gato e um cachorro.
A� ele falou: ''Olha esses bichos,
eles est�o vivendo entre si harmoniosamente,
eles se d�o superbem.''
O peru, o pav�o, o gato e o cachorro.
E ele falou: ''E sabe de uma coisa?
Eu estou aprendendo muito mais com esses bichos
do que todos os meus anos no ltamarati.''
Ele era mais velho com 24 anos de idade.
velho de comportamento...
de ltamarati...
Sei l�, todas essas coisas rigorosas da vida, que ele...
ele foi abandonando essas coisas todas e foi ficando...
Jovem.
Tem dias que eu fico pensando na vida E, sinceramente, n�o vejo sa�da
Como, por exemp/o Que d� pra entender?
A gente ma/ nasce come�a a morrer
Depois da chegada Vem sempre a partida
Porque n�o h� nada sem separa��o
Sei /�, sei /�
A vida � uma grande i/us�o
Sei /�, sei /�
S� sei que e/a est� com a raz�o
A gente nem sabe que ma/es se apronta
Fazendo de conta, fingindo esquecer
Que nada renasce antes que se acabe
O so/ que desponta tem que anoitecer
De nada adianta ficar se de fora
A hora do sim � o descuido do n�o
Sei /�, sei /�
S� sei que � preciso paix�o
Sei /�, sei /�
A vida tem sempre raz�o
Os cr�ticos J� tinham pendurado a chuteira do Vinicius
quando n�s come�amos a trabalhar com ele.
'Quem � esse garoto paulista que vem a� encher o saco do Vinicius?'
Era um pouco isso o subtexto que tinha, o comportamento da cr�tica.
E eu mostrei pra ele um ad�gio
que eu e Chico toc�vamos sempre em forma de samba,
que � o Ad�gio do Albinoni. A� ele fez uma letra que J� dizia isso:
'gente, tem que viver mesmo, tem que se entregar', aquela coisa toda.
'quem n�o fizer isso est� por fora'. O come�o �:
Quem j� passou por essa vida E n�o viveu
Pode ser mais Mas sabe menos do que eu
Porque a vida s� se d� Pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, Pra quem sofreu
Quem nunca curtiu uma paix�o
Nunca vai ter nada n�o
N�o h� ma/ pior do que a descren�a
Mesmo o amor que n�o compensa � me/hor que a so/id�o
Essa frase � demais: 'nem o amor que n�o compensa � melhor que a solid�o'.
Quer dizer, ele queria mesmo � partir pro enlace.
Eu me lembro sobre a press�o de Jo�o Cabral de Melo Neto
e outros intelectuais e poetas,
o Vinicius ficar em d�vida se ele n�o estava perdendo tempo,
se ele n�o devia, talvez, dar uma aten��o
e experimentar uma volta � poesia can�nica dos livros,
coisa de que Jo�o Cabral se queixava muito.
O Vinicius me disse uma vez na casa dele,
na rua Faro, ali no Jardim Bot�nico, ele me disse assim:
''O Cabral, ele gosta muito de mim
e ele me disse uma vez que se o Brasil tivesse um poeta
com o meu talento e com a disciplina dele,
o Brasil teria realmente um grande poeta. Finalmente um grande poeta.''
E ele falou assim: ''E ele fica querendo que eu...
Mas ele fica l� com aquela dor de cabe�a...
e eu n�o queria viver com essa dor de cabe�a por nada,
eu prefiro a musiquinha, as mulheres bonitas...
A musiquinha, as mulheres bonitas...
e a� a poesia se d� assim.
Entendeu?
Eu n�o quero aquilo.''
Ele passou um tempo sendo muito esculhambado por uma certa cr�tica,
a� voltava essa coisa sempre,
do ''poetinha'' como sendo um poeta coisa menor,
um poeta que poderia ter sido e que n�o foi.
Ele se magoava.
Mudar n�o � f�cil pra ningu�m,
por mais talento, por mais compuls�o,
implica em solid�o, implica em reJei��o,
implica em falta de respeito,
implica em inseguran�a interna como artista, as d�vidas internas.
Vinicius conhecia muito poesia.
Ele era muito erudito, por um lado.
E aquilo tinha um valor pra ele,
foi uma coisa que ele ganhou, que ele batalhou.
Subamos!
Subamos acima
Subamos a/�m
Subamos acima do a/�m, subamos!
Com a posse f�sica dos bra�os
/ne/utave/mente ga/garemos o grande mar de estre/as
Atrav�s de mi/�nios de /uz Subamos!
Como dois at/etas
O rosto petrificado no p�/ido sorriso do esfor�o
Subamos acima
Com a posse f�sica dos bra�os
E os m�scu/os desmesurados
Na ca/ma o convu/sa da ascens�o
Oh, acima
Mais /onge que tudo
A/�m, mais /onge que acima do a/�m!
Como dois acrobatas subamos, /ent�ssimos
L� onde o infinito, de t�o infinito nem mais nome tem
Subamos!
Tu e eu, herm�ticos
As n�degas duras
A car�tida nodosa na fibra do pesco�o
Os p�s agudos em ponta como no espasmo
E quando /�, acima
A/�m, mais /onge que acima do a/�m
Num �/timo impu/so
Libertados do esp�rito
Despojados da carne
N�s nos possuiremos
E morreremos
Morreremos a/to, imensamente
/mensamente a/to
Quem carrega no colo a obra liter�ria � o povo, � o leitor.
N�o adianta, morrem os amigos, os cr�ticos amigos,
os Jornalistas, os contempor�neos, os cupinchas,
morre tudo, a� fica a obra.
Arte � a afirma��o de vida, em que pese isso aos m�rbidos.
Afirma��o de vida, nesse sentido,
que a vida � a soma de todas as suas grandezas e podrid�es,
um profundo silo onde se misturam alimentos e excrementos
e do qual o artista extrai a sua ra��o di�ria de energias,
sonhos e perplexidades.
A sua vitalidade inconsciente.
A arte n�o ama os covardes.
Formosa, n�o faz assim
Carinho n�o � ruim
Mu/her que nega n�o sabe n�o
Tem uma coisa de menos no seu cora��o
Formosa, n�o faz assim
Carinho n�o � ruim
Mu/her que nega n�o sabe n�o
Tem uma coisa de menos no seu cora��o
A gente nasce, a gente cresce, A gente quer amar
Mu/her que nega, Nega o que n�o � para negar
A gente pega, a gente entrega, A gente quer morrer
Ningu�m tem nada de bom sem sofrer Formosa mu/her
Gesse era atriz na Bahia, fazia cinema, fazia teatro,
e era minha amiga.
Eu morava na Nascimento Silva e sempre, de noite, eu ia na Pizzaiolo.
E descemos de noite, a p�, era do lado, descemos e fomos;
estava vazio, ficamos sentadas
e s� tinha uma pessoinha: Vinicius de Moraes, sentado sozinho,
quieto, numa tristeza...
Porque Vinicius, quando ficava alegre, o mundo ficava alegre,
quando ficava triste, o mundo ficava triste,
era muito forte, tudo muito n�tido.
A� fui dar um beiJo nele e apresentei Gesse, ''uma amiga minha da Bahia''.
Mas, naquele momento, o Vinicius fez assim...
O olhinho dele virou e ele me chamou e disse:
'' Bethaninha, vou casar com ela, estou apaixonado,
quero viaJar agora pra Buenos Aires, pergunta se ela vai.''
Eu disse: ''pergunta voc�!'' Eu n�o entendi nada...
''Eu quero um anel amanh�...''
Eu digo: 'meu Deus, que loucura � essa?' N�o entendi nada.
E Gesse, aquela baian�ssima.
Pronto, eu fui embora pra minha casa, J� n�o voltou comigo,
a Gesse J� saiu com ele, J� viaJaram, eu fui encontrar J� casados.
O casamento foi uma cerim�nia estranha, meio teatro, meio candombl�.
� que, al�m de atriz, Gesse era filha de santo.
A Bahia fascinou Vinicius. Ele era um ateu materialista
e resolveu acreditar no mist�rio sensual dos orix�s,
Virou um hippie tempor�o que mudou pra ltapo�, comprou um Jipe
e deixou as formalidades para tr�s.
No Brasil daqueles anos 70,
muitos Jovens rompiam o padr�o de comportamento
e buscavam espa�os e territ�rios de liberdade.
Vinicius entrou na onda, vivia sem hor�rio nem regra.
Passar uma tarde em /tapo�
Ao so/ que arde em /tapo�
Ouvindo o mar de /tapo�
Fa/ar de amor em /tapo�
Eu tenho uma hist�ria com Vinicius que, pra mim, � uma das mais fortes.
Foi Vinicius quem me apresentou � M�e Menininha do Gantois.
Eu ficava impressionada, porque n�o se fuma dentro da casa de candombl�,
as pessoas sentam-se no ch�o; e sempre que a gente entrava,
desde a primeira vez que ele me levou,
ela me mandou sentar no ch�o,
a mulher dele, a Gesse, no ch�o...
''Traz uma cadeira pra ele sentar.''
Eu fiquei: por qu�? Porque � homem?
Porque � Vinicius, porque � artista?
Eu fiquei sem entender e perguntei.
Ela disse: ''tem muita coisa que n�o se explica n�o.''
Aquela coisa de candombl�, ou seJa,
era um respeito ao orix� que ele carregava
e que J� podia sentar-se na mesma...
� lindo, n�? Bacana.
Vai, vai, vai, vai amar
Vai, vai, vai, vai sofrer
Vai, vai, vai...
Vinicius tinha quase 60 anos
quando come�ou a maratona de shows com Toquinho pelo Brasil afora.
Em 10 anos foram mais de mil shows.
O Vinicius ficava muito � vontade em show,
ele, em show, era outra hist�ria,
porque ele ficava realmente como se estivesse em casa,
ele n�o se incomodava, ficava l� com aquele uisquinho, ficava conversando;
e falava com o p�blico... Nem falava com o p�blico,
ele falava com quem estava... Ele gostava de ter amigos no palco
pra poder ficar batendo papo.
Em Portugal, uma vez, ele terminou o show,
esse foi em Coimbra, tinha estudantes, era �poca do salazarismo, ainda.
Ent�o, o Vinicius, o pessoal adorava ele, uma adora��o.
E ele n�o s� contava hist�rias, n�o s� cantava
como declamava poemas tamb�m.
E aquela garotada,
vivendo a ditadura, via no Vinicius...
E ele, no final do show, um sucesso danado, feliz da vida:
''queria agradecer a essa mocidade portuguesa...''
A� eu percebi que come�ou uma certa inquieta��o no p�blico,
a ''mocidade portuguesa...''
Daqui a pouco, a inquieta��o foi virando uma vaia.
E ele feliz, porque estava achando que aquilo era aplauso tamb�m,
uma esp�cie de aplauso portugu�s.
No fim, estava todo mundo vaiando.
Caiu a cortina, a�, l� atr�s eu fui perguntar ''o que est� acontecendo?''
''Puxa, Vinicius n�o pode falar em mocidade portuguesa,
mocidade portuguesa � uma esp�cie de uma Juventude fachista,
a Juventude salazarista tinha esse nome, Mocidade portuguesa''
e Vinicius n�o sabia nem nunca contei a ele.
Come�aram as temporadas pela Am�rica do Sul e pela Europa.
O �xito de Vinicius era enorme.
Em v�rios pa�ses Vinicius virou uma estrela popular,
vivendo uma roda viva de palcos, hot�is, aeroportos.
Uma vida de pop star.
Eu lembro de assistir shows dele na lt�lia,
que ele ia falando, porque ele falava v�rias l�nguas,
mas n�o falava muito bem, misturava um pouco todas as l�nguas.
Falo porque tamb�m sou assim... Aprende uma, esquece outra e tal.
Eu lembro dele fazer um show na lt�lia que era muito engra�ado,
ele contava piada, as pessoas riam...
Tinha um cara do meu lado que ficava o tempo todo: ''� brav�ssimo.
Per�, scusi, che lingua parla?''.
As pessoas n�o entendiam. Mas entendiam outras coisas.
Eu lembro dele terminar o show, ele com um copo de u�sque,
e agradecendo, apontou o copo e falou:
''Questa � una cena meravigliosa''
S� que ''cena'', a impress�o � que era a cena,
uma ''cena maravilhosa''. Mas ''cena'' � uma ceia maravilhosa,
o pessoal achou que ele estava dizendo que u�sque era uma ceia.
'' Bravo! Brav�ssimo! Per� scusi, che lingua parla?''.
Rua Nascimento Si/va 107
Voc� ensinando pra E/izeth
As can��es de Can��o do amor demais
Vinicius estava cansado, com a sa�de fr�gil,
mas n�o parava de trabalhar.
Fez um show no Canec�o, no Rio, com Tom Jobim, Mi�cha e Toquinho;
foram 7 meses de sucesso que depois continuou na Europa.
Durante mais de um ano, at� o final de 1978,
os quatro se apresentaram Juntos;
era um Vinicius envelhecido, abalado,
que sa�a do Canec�o e se internava numa cl�nica para recuperar for�as
e continuar cantando no dia seguinte.
O mesmo Vinicius que saiu do casamento com Gesse
para namorar uma argentina de 23 anos, chamada Marta Santamar�a.
o Vinicius que n�o desistiu Jamais.
Tinha 64 anos quando casou com Gilda Matoso.
Foi sua �ltima paix�o.
Nos abismos do infinito Uma estre/a apareceu
E da Terra ouviu-se um grito
Gi/da, Gi/da...
Teve um dia engra�ado, eu falei: 'engra�ado, o Vinicius, agora,
pareceu que eu tinha visto ele ficar velho por uma frasezinha que ele falou'.
A gente estava num lugar qualquer e algu�m falou: ''Vamos ao Canec�o?''
Tinha um show n�o sei de quem no Canec�o e ele falou:
''lh, mas hoJe tem Baretta.'' Ele queria ir pra casa ver televis�o.
Eu falei: ''Vinicius recusar um prossiga...
era tipo um... no bar, no Antonio's,
''Agora vai come�ar o show, vamos l� no Canec�o'',
e ele preferindo ir pra casa, J� cansado.
Mas eu J� estava o vendo menos, porque ele morava em Salvador.
Como um dia na Bahia, eu me lembro que ele saiu sozinho,
e chegou, eu estava tamb�m sozinho, tocando viol�o,
e ele sentou, ele estava com a cara muito triste,
e eu n�o falei nada pra ele, s� fiquei olhando.
Eu fiquei olhando assim...
e a� ele disse assim:
Ele disse...
''Voc� est� com pena do seu parceiro, n�o �?''
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o si/�ncio
Resta essa voz �ntima pedindo perd�o por tudo
Perdoai-os! porque e/es n�o t�m cu/pa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pe/a noite
Esse fa/ar baixo Essa m�o que tateia antes de ter
Esse medo de ferir tocando,
Essa forte m�o de homem
Cheia de mansid�o para com tudo quanto existe
Resta essa imobi/idade, essa economia de gestos
Essa in�rcia cada vez maior diante do infinito
Essa gagueira infanti/ De quem quer exprimir o inexprim�ve/
Essa irredut�ve/ recusa � poesia n�o vivida
Acho que Vinicius veio no mundo pra ensinar a gente, a todo mundo,
deixar essa semente no planeta.
A can��o que ele mais cantava quando convivi um pouco com ele,
que era aquela can��o americana,
que � aquilo do rapaz encantado que diz:
a maior coisa � dar amor e receber de volta amor.
Vinicius veio assim, eu tenho, hoJe, certeza absoluta
que foi pra ensinar, pra chamar aten��o pra isso.
lsso � o eixo.
...and sad of eye
But very wise was he
And then one day
One magic day he passed my way
And whi/e we spoke of many things
Foo/s and kings
This he said to me:
The sweetest thing
You'// ever /earn
Essas meninas s�o t�o boazinhas.
/s just to /ove...
And be /oved in return
N�o estou legal de sa�de.
Na hora em que voc� estiver cansado...
Estou com um pouco de fome, mas n�o quero comer ainda n�o.
Tem um espaguete da pesada a�.
Encararemos.
Vinicius era uma pessoa que � dif�cil at� imaginar hoJe.
N�o sei onde estaria Vinicius de Moraes hoJe em dia.
Porque ele � o contr�rio de muita coisa que hoJe � vitoriosa,
a ostenta��o, a coisa do...
Porque ele tinha toda essa coisa muito generosa, �s vezes ing�nua,
�s vezes porra-louca; uma coisa que n�o existe mais hoJe,
nem a porra-louquice nem a generosidade,
muito menos a ingenuidade,
existe sempre um resultado que se busca, um obJetivo,
uma coisa pragm�tica e tal; tudo que Vinicius n�o era.
Vinicius faz muita falta hoJe,
talvez ele n�o pudesse mesmo estar vivo sendo Vinicius hoJe,
n�o imagino em que lugar ele estaria dentro desse pa�s que a gente vive.
Desse pa�s e desse mundo.
Sempre que eu me lembro do Vinicius, ele est� rindo.
Sempre que... Eu evoco ele de vez em quando,
porque � imposs�vel escapar do Vinicius, porque toda vez que eu ligo o r�dio,
a m�sica que eu gosto, a prefer�ncia � a bossa-nova.
Ent�o eu estou sempre envolvido com ele, querendo ou n�o.
Vinicius est� sempre presente.
E a� sempre me aparece a figura.
� at� gozado, porque nunca � a figura da fossa,
nunca � a figura do desespero, do desencanto,
eu acho isso uma coisa importante,
porque eu acho que a vida � uma inven��o,
se voc� quer inventar pro ruim, voc� inventa pro ruim,
se quer inventar pro bom, inventa pro bom.
Ent�o, esse neg�cio de ficar...
Eu tenho horror a caras que ficam sempre pra baixo,
'A verdade sobre a exist�ncia...'
N�o tem sentido. O Beckett, acho um chatola.
A verdade sobre a exist�ncia... Mentira!
Ningu�m sabe qual � a verdade,
Voc� escolhe dizer que tudo � uma merda,
que n�o tem sentido nada, n�o aJuda ningu�m,
pode at� ganhar o pr�mio Nobel;
Eu o prefiro o cara que bota a vida pra cima,
J� que ningu�m sabe qual � a verdade, eu vou botar pra baixo?
Ent�o Vinicius � isso, ele aJuda a viver, n�o tem d�vida.
O povo brasileiro deve isso a ele:
ele aJudou o povo brasileiro a ser feliz.
O Jeito dele mesmo, ele falando, ele sacudindo o corpo;
e aquele copo aqui parado, o p� n�o se mexia;
e falando e rindo, n�?
Eu me lembro do Vinicius sempre rindo,
o corpo dele inteiro rindo, sacudindo todo.
Ele ria muito gostoso.
O tempo vai passando, poeta.
Chega a primavera nessa lpanema toda cheia de sua m�sica e de seus versos
e eu ainda vou ficando um pouco por aqui,
a vigiar em seu nome as ondas, os tico-ticos e as mo�as em flor.
Adeus.
Porque sempre foste A primavera em minha vida
Vo/ta para mim
Desponta novamente no meu pranto
Eu te amo tanto mais
Te quero tanto mais
Ah, quanto tempo faz
Partiste
Como a primavera Que tamb�m te viu partir
Sem um adeus sequer
E nada existe mais em minha vida
Como um carinho teu
Como um si/�ncio teu
Lembro o sorriso teu
T�o triste
Lua sem compaix�o
Sempre a vagar no c�u
Onde se esconde a minha bem-amada
Onde a minha namorada
Vai e diz a e/a as minhas penas
E que eu pe�o
Pe�o apenas que e/a /embre As nossas horas de poesia
Das noites de paix�o
E diz-/he da saudade em que me viste
Que estou sozinho
Que s� existe
Meu canto triste
Na so/id�o
Perguntaram a ele se ele acreditava em reencarna��o e tal,
n�o sei se acreditava; da� perguntaram:
''Mas, por acaso, se reencarnasse, gostaria de voltar como?''
''N�o, exatamente como eu sou, com o pau um pouquinho maior.''
Eu n�o sabia dessa!
Essa � demais!
Can't find what you're looking for?
Get subtitles in any language from opensubtitles.com, and translate them here.