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Original subtitles

Bem-vindos ao Last Week Tonight.

Eu sou John Oliver. Muito obrigado pela companhia.

Foi uma semana cheia.

O primeiro ministro do Canadá convocou eleições para o próximo mês,

o governo turco continua reprimindo os protestos contra Erdogan,

o que gerou esse vídeo incrível de um manifestante vestido de Pikachu

fugindo da polícia,

e na Grã-Bretanha, um juiz repreendeu fortemente

o ataque brutal recebido por essa estátua do Paddington:

Bêbados às duas da manhã, dois engenheiros da Força Aérea

maltratam o urso inocente.

Eles chutam e puxam a estátua.

Eles não desistem até ela se partir em duas.

A polícia recuperou a metade da estátua

na base da Força Aérea no dia seguinte ao ataque.

Na sentença, o juiz condenou os atos, dizendo:

"Paddington representa a gentileza, tolerância e promove a integração

e aceitação na nossa sociedade.

Suas ações foram a antítese de tudo que o Paddington simboliza".

Tem muita coisa para gostar aqui,

desde o chute com impulso mais ineficiente que eu já vi

até o Paddington na viatura parecendo um desgraçado esquisito.

Mas dizer que o Paddington promove integração e aceitação

é um pouco de exagero.

Não é o Martin Luther Urso. Ele não liderou as marchas em Selma.

Ele come sanduíches de geleia e olha feio para quem é mal-educado.

Calma um pouco.

Enquanto isso, o governo Trump trouxe outra semana de caos,

incluindo isso:

O secretário de Defesa Pete Hegseth e outros altos funcionários

da equipe de segurança nacional de Trump

compartilharam informações sobre um ataque planejado em grande escala

contra o Iêmen este mês no aplicativo de mensagens Signal.

E sem querer incluíram o jornalista Jeffrey Goldberg no grupo.

Verdade, eles colocaram um jornalista no grupo de mensagens.

Goldberg contou em um artigo chamado:

"O Governo Trump sem querer me mandou seus planos de guerra".

Que foi uma das melhores manchetes que eu li na semana,

junto de: "Macacos expulsam turista britânico da piscina

de um hotel na Tailândia:

'Nunca senti tanto medo",

"O outro carro deste polvo é um tubarão",

e "Um clima bom e divertido recebe em Deerfield os convidados

da 24ª edição"... Esperem.

"do festival de testículos".

No artigo, Goldberg disse que duvidou que fosse real

até o momento do ataque.

"Eu esperei no carro no estacionamento do supermercado.

Fui no X e procurei 'Iêmen', e vi que ouviram explosões

por toda Sanaa, a capital".

E a Casa Branca tentou controlar os danos a cidade toda,

tentando confundir com semântica, dizendo não serem planos de guerra,

depois falaram que Goldberg se inseriu no grupo,

o que é desmentido quando vemos

que Michael Waltz, conselheiro de segurança, adicionou Goldberg.

Esperem, esperem.

Tudo isso era sobre os ataques aéreos

que mataram até 46 civis em um dia,

o que já deveria ser um escândalo por si só.

E é grotesco ver as respostas felizes no grupo depois.

Um mandou emojis de punho, da bandeira dos EUA e fogo.

Outro mandou mãos rezando, mãos, músculo, bandeira, bandeira.

Claramente não são os emojis certos para se mandar depois de uma bomba.

Os emojis certos seriam nenhum emoji.

É como perguntar qual meme dos Minions mandar depois da morte

da ex-esposa do Dylan em um acidente de carro.

"Não estavam mais juntos, não é? Mas parece errado não mandar nada."

A resposta é mandar flores, e não esse meme real de um Minion

festejando no cemitério com um cartaz que diz:

"Sinto muito por sua ex-esposa".

Essa não é a resposta!

Mas isso tem sido recorrente com este governo,

gente nem um pouco séria fazendo coisas muito estúpidas

que têm consequências muito sérias.

É a mesma coisa com o ataque aos imigrantes.

Temos um vídeo perturbador de agentes da imigração

detendo um estudante da Tufts na rua esta semana,

deportações em massa de imigrantes venezuelanos,

que foram mandados para uma famosa mega prisão em El Salvador.

Mesmo com essa medida sendo disputada na justiça,

o governo fez uma comemoração horrível:

A secretária de Segurança Nacional, Kristi Noem viajou até El Salvador.

Ela visitou a prisão onde estão centenas de venezuelanos deportados

por uma suposta ligação com a gangue Tren de Aragua,

e publicou este vídeo nas redes avisando que se você chegar ilegalmente,

esta pode ser a consequência.

Saiba que este lugar é uma das ferramentas que usaremos

se você cometer crimes contra o povo estadunidense.

A imagem em si já é perturbadora.

Usar prisioneiros de cabeça raspada como o fundo da imagem

é uma escolha ousada, não é?

Pela história.

E é o uso mais chocante de um vídeo nas redes sociais

de alguém neste governo, superando a propaganda de cremes

de Cheryl Hines em frente a um RFK Junior nu

mostrando suas axilas molhadas,

e eu não estou falando de brincadeira.

E vale destacar que muitos dos presos tiveram acusações muito fracas.

Um homem disse que um agente da ICE disse a ele: "Foi por suas tatuagens.

Estamos pegando e interrogando todo mundo que tem tatuagens."

E quando ele explicou as dele,

incluindo essa fita do autismo em homenagem ao irmão,

o agente falou: "Você está livre",

mas ainda o mandou para El Salvador.

Outro homem lá não só não tem tatuagens, ele estava pedindo refúgio

e não tem antecedentes criminais,

e os documentos para a deportação estão cheios de erros.

Parece que usam outro sobrenome em várias partes,

identificam ele como mulher

e usam dois números diferentes de identificação.

Isso é claramente uma zona.

E fica pior quando Tom Homam,

ao perguntarem sobre a falta do processo devido, responde assim:

O que ouvimos dos advogados que representam alguns deles

é que negam serem membros dessa gangue.

Eles têm a chance de provar isso antes de serem retirados do país

e colocados em uma famosa prisão em um país de onde eles não vêm?

Tem algum processo devido?

Processo devido?

Qual foi o processo devido para Laken Riley?

E as jovens assassinadas e estupradas pela TdA?

Qual foi o processo?

Certo, é o seguinte.

Por mais que sejam exemplos trágicos, a justiça não funciona assim.

A Quinta Emenda diz:

"Nenhuma pessoa será privada de sua vida, liberdade ou propriedade

sem o devido processo da lei."

É isso, não tem um rodapé dizendo: "A menos que pareçam culpadas

para um homem parecendo o Buzz Lightyear que se afogou há alguns dias."

Nos últimos meses nós vimos esse governo

operar com incompetência e crueldade, e eventualmente

com imagens que lembram o nazismo.

A boa notícia é que estão sofrendo uma grande represália

pelos tribunais federais por causa das deportações.

A má notícia é que já causaram muitos danos.

Mas se acham que podem passar prisões ilegais de inocentes

com o mesmo desdém de colocar a pessoa errada

em um grupo de mensagens, devem saber que vamos resistir com força.

Ou para usar uma linguagem que eles parecem preferir:

Vão se foder, cuzões, com amor, EUA.

E agora, isso:

E agora, vamos ouvir a Deeanne, a espectadora mais leal

do Good Day Atlanta.

O tema quente de hoje,

queremos saber qual tecnologia moderna você se recusa a usar.

Deeanne diz: "Todas".

Queremos saber se tem um jeito certo de cortar um sanduíche.

Deeanne diz: "Eu corto com os dentes enquanto eu mordo",

e uma carinha engraçada.

Deeanne diz: "Comecei no MySpace e amei porque podia subir músicas,

fundos bonitos e tal".

Deeanne diz: "Sou meio estraga prazeres.

Eu não gosto do Halloween, nunca gostei.

Só saí para pedir doces uma vez na vida", o quê?

Deeanne diz: "Tudo bem ter um pouco de senso de humor,

mas eu aprendi na vida que ter muito também não é bom."

Deeanne diz: "Não existe salsicha como as feitas na fritadeira a ar".

Certo, Deeanne.

Deeanne diz: "Não gosto de sair ultimamente."

Deeanne diz: "Se não é grátis, eu não assino."

Deeanne sabe como é.

Hoje é o dia nacional do significado do seu nome.

Deeanne diz: "Meu nome real significa senhora dos pesares".

Não pode ser.

E AGORA

Continuando.

O tema de hoje é sobre Tasers, que agora são um personagem secundário

em todas as séries policiais.

Pare! FBI!

Amador.

Não olhe as minhas pernas!

Eu nunca tinha usado um. É demais!

Mas... ele está bem?

Sim, ele está.

É, ele provavelmente está bem.

E o "nunca tinha usado um" foi bem fofo.

Nada como a despreocupações das séries policiais antes de 2020.

Violência policial? Como? Ela é só uma menina.

Mas os tasers também estão em todo lugar na vida real.

São usados por cerca de 400.000 policiais nos EUA.

O que é uma ótima notícia para a empresa que os fabrica, Axon.

Talvez não conheçam a Axon, o que é uma surpresa, pois ela é enorme.

O valor de mercado da empresa é de mais de $40 bilhões,

e estão sempre inovando nas armas de choque.

Vejamos um comercial bem bacana do mais novo modelo deles:

UMA NOVA ERA PARA TECNOLOGIA MENOS LETAL

É um comercial muito intenso para algo que parece um brinquedo barato

que vem com uma fantasia de segurança de shopping

para o Halloween.

Com uma música do álbum

"Isso é Hans Zimmer dormindo em cima do sintetizador".

Axon diz que tem a missão de proteger a vida.

Segundo a empresa, os Tasers foram usados mais de 3,7 milhões de vezes

e preveniram mortes ou lesões graves em mais de 200 mil circunstâncias.

De fato, de acordo com o fundador e CEO da Axon,

Rick Smith, um Beto com filtro de imagem,

o Taser é basicamente milagroso:

A ideia de usar a eletricidade para incapacitar alguém

é uma ideia linda e simples.

No lugar de matar ou ferir alguém, podemos tirar o controle do corpo

temporariamente para controlá-los, não dá para ser menos violento.

É, mas eu não sei se diria que um choque de 50.000 volts

é a coisa menos violenta possível.

Não parece muito relaxante.

As pessoas descansam na banheira com um livro e com velas,

e não levando uma torradeira.

Mas no fundo, vocês já devem saber

que a realidade dos Tasers não é tão simples.

Tivemos vários casos famosos de pessoas morrendo após o choque,

e segundo um estudo de 2017, os EUA tiveram mais de mil casos

onde uma pessoa morreu

após a polícia dar um choque usando Tasers.

É impossível saber com certeza

o papel da arma de choque em todas essas mortes,

mas como vamos ver, é em parte porque o trabalho da Axon

se esforçou muito para isso.

Por isso, esta noite vamos falar sobre Tasers.

Especificamente sobre a empresa que os fabrica,

se o produto é eficiente e seguro como dizem

e o impacto geral sobre a polícia.

Vamos começar falando que inventaram o Taser nos anos 70.

Aqui temos uma matéria explicando eles pela primeira vez

com uma baita demonstração:

O Taser parece uma lanterna, dispara dois dardos elétricos

e tem 50.000 volts de baixa amperagem.

Nesta demonstração feita em um hospital

por motivos de segurança, a vítima voluntária

é o filho do inventor, Jack Cover.

Ao encostar, o choque elétrico paralisa o sistema nervoso central

por alguns minutos.

E a vítima perde o controle sobre os músculos.

É, o inventor do Taser testou com o próprio filho.

E isso foi no noticiário, e não em um programa antigo chamado

Os vídeos de pior qualidade dos EUA mostrando abusos paternos.

No início o produto não decolou, porque era complicado e pouco eficiente.

Depois, no início dos anos 90, Rick Smith, com 23 anos,

soube da invenção e comprou os direitos junto com o irmão

para fundar uma empresa que à época se chamava Taser.

Eles passaram anos mexendo no design,

e o principal foi trocar a pólvora para disparar dardos

na versão original por nitrogênio comprimido.

O que foi conveniente, pois agora não ficariam mais sujeitos

às leis sobre armas de fogo.

No fim dos anos 90, eles vendiam Tasers para a polícia,

prometendo que incapacitavam de forma extremamente segura.

Smith mesmo recebeu um choque de meio segundo

em uma demonstração em Los Angeles para mostrar a fé no produto.

Pelo fim de 2003,

mais de 4300 entidades policiais tinham Tasers.

E, no momento, tiveram muita cobertura positiva:

Em todo o país, a polícia diz que o Taser é revolucionário.

O que você acha?

Eu adoro.

Evita que os agentes tenham que brigar fisicamente.

A sargento Lauri Williams diz que o Taser

reduz o uso de força letal, porque a polícia não saca mais as armas

contra os suspeitos, com pedras ou não.

Por que usam cada vez mais essa arma?

O Departamento de Polícia de Miami tem o recorde nas cidades grandes.

Nos últimos 16 meses,

não disparamos nenhuma bala contra um cidadão.

É impressionante que passem 16 meses sem um disparo policial,

mas também é deprimente que seja tão impressionante.

Mas não sei se os Tasers levam todo o crédito.

Tem um fato relevante, na época, o Departamento de Justiça

estava investigando a Polícia de Miami

pelo uso excessivo de força.

E quando terminou, adivinhem só? O número de disparos subiu de novo.

Tasers foram tão responsáveis em parar os disparos policiais

em Miami em 2004 como a estreia de Shrek 2.

Não sei, talvez a polícia estivesse ocupada indo várias vezes ao cinema

para entender as nuances da jornada do herói do Shrek.

Ou para tentar entender como esses dois transaram.

Ainda assim, teve inegavelmente um entusiasmo real pelo Taser.

E conforme fizeram outros produtos, a empresa mudou o nome para Axon

e começaram a vender tecnologias como câmeras para policiais,

um mercado que hoje eles dominam.

Se já viram vídeos de câmeras policiais no noticiário,

podem reparar na palavra "Axon" no canto.

Eles são o TMZ da violência aprovada pelo Estado.

E tudo isso fez Smith ficar incrivelmente rico.

Ano passado ele tinha por volta de $2,5 bilhões.

E não é muito relevante,

mas ele criou uma cultura corporativa que é quase uma seita.

Ele não apenas levou choques ao menos sete vezes,

mas ser voluntário para levar choque é quase um rito de passagem na Axon.

Choques na equipe, conhecidos como "exposições",

são um ritual da empresa.

E costumam usar para iniciar estagiários ou novos funcionários.

Eles até criaram uma expressão: "Montar no raio".

O que me parece o que acontece depois do Pikachu mostrar um orifício.

No site da Axon você tem até vídeos "divertidos"

onde funcionários levam choques no escritório ou eventos corporativos,

e em alguns casos até mesmo com membros da família:

Curiosidade: Minha mãe e eu fizemos a exposição juntas.

Eu pedi para ela fazer comigo, e ela aceitou.

Agora temos a honra de ser a única dupla de mãe e filha

na história da Axon a levar um disparo da X2.

É? Que lindo.

Agora, por favor, vão as duas para a terapia.

Mães e filhas têm uma chance maior de levarem um choque juntas

do que curar traumas familiares.

E também, se algum homem quiser saber como reagir a essa história,

eu digo: Como o colega dela.

Continue parado, mestre. A história não é sua.

A luta não é sua.

Os executivos da Axon também incentivam a equipe

a fazer um vínculo permanente com tatuagens do logo da empresa.

Aqui podemos ver Rick Smith com uma.

E desculpem, mas esse logo é uma merda

para se tatuar no corpo.

Parece um relógio do Pequenos Espiões comemorando

o primeiro ano sóbrio.

A Axon garante que nunca pressionou ninguém a levar choque ou se tatuar,

e é uma loucura ter que garantir isso.

Mas Smith ama participar de grandes demonstrações

nos eventos corporativos.

Ele foi a um como Taserman,

com essa fantasia de super-herói muito mal pensada.

Em um evento que participou remotamente, ele contou a história da empresa.

E eu já aviso, foi feito da forma mais idiota possível:

Hoje eu quero contar uma história.

É a nossa história, das raízes da Taser e da Axon,

de como nascemos.

Em dezembro de 1990, dois amigos meus da escola

foram mortos a tiros, a poucos quilômetros de casa.

Tudo começou em uma discussão em um semáforo.

Eles tinham 20 e poucos anos, estavam começando a vida.

Em um piscar de olhos, três vidas foram destruídas.

Eu achei absurdo

que a escolha de autodefesa no século XX ainda seja a bala,

a mesma ferramenta que usamos para nos matarmos por séculos.

Certo, primeiro, para falar do óbvio,

essa monstruosidade é o que Rick chama de "avatar" dele.

Claro, ele podia ter feito um Zoom, já era 2022,

todos já sabíamos como usar.

Mas ele pagou um homem de jaqueta para mexer os braços

e usar um capacete de moto com um iPad projetando a cara de Smith.

Parece um membro do Daft Punk

tentando te dar um golpe.

Mas esquecendo isso, a história trágica que ele conta

é uma que ele conta muito.

Já falou em entrevistas, em outros eventos,

e até em um informe para a Bolsa, onde escreveu:

"Eu tive dois amigos que foram baleados e mortos.

Fiquei indignado que uma coisa tão terrível fosse possível,

e quis mudar as coisas."

E esse seria um motivo nobre para buscar a não-violência.

Mas acontece que,

apesar dos jovens terem sido mortos, infelizmente,

mas jornalistas investigaram o caso, e muitos familiares disseram que Smith

não era amigo dos falecidos.

Eles estudaram no mesmo colégio, mas não na mesma época,

de acordo com os anuários.

Smith disse que os conheceu em eventos sociais,

mas um dos melhores amigos deles disse a um jornalista:

"Não conheço nenhum Rick Smith".

Tudo isso estraga um pouco a história de Smith.

Imagine descobrir que não assassinaram os pais de Bruce Wayne.

Faz esse cara ficar ainda mais confuso.

"Bruce, por que está fazendo isso?

Seus pais estão vivos e bem na Flórida,

mas você nunca liga para eles.

Eles acabaram de ganhar a semifinal de pickleball.

Tem um lugar te esperando para a final, Bruce.

Atenda o telefone!"

E essa não é a única relação estranha deles com a verdade.

Vamos falar das duas vantagens dos Tasers: Eficiência e segurança.

Começando com a eficiência.

Há alguns anos, a Axon diz que a eficiência dos Tasers

é entre 80% e 97% para parar um suspeito.

Mas de acordo com uma pesquisa em dados policiais,

muitas delegacias questionaram isso.

Segundo um município, a eficiência era de 55%,

basicamente um cara ou coroa.

E incrivelmente, a resposta da Axon foi reclamar que a pesquisa

não contava os casos onde um suspeito parou

só pelo policial mostrar ou ameaçar disparar o Taser.

Mas aí não se trata do aparelho, não é?

Dá para ter esse resultado com uma arma, um lança-chamas

ou uma porra de uma varinha mágica!

A questão é que se um Taser não funciona,

a polícia pode subir o nível da violência.

Entre 2015 e 2017, mais de 250 tiroteios fatais aconteceram

depois da polícia não conseguir deter um suspeito com um Taser.

Em 106 desses casos,

o suspeito ficou mais violento depois de levar o choque,

o que é compreensível.

E se vamos falar de eficiência, no que, exatamente?

Porque temos menos do Taser sendo usado no lugar de uma arma letal,

e mais do Taser sendo usado no lugar de uma conversa.

A polícia tem usado os Tasers

quando não correm nenhum perigo iminente,

como uma resposta a qualquer um,

desde pessoas sem armas, bêbadas ou com problemas de saúde mental

a suspeitos fugindo de cenas de delitos menores

ou pessoas que simplesmente discutiram com a polícia

ou não obedeceram uma ordem de imediato.

Lembram da história comovente da polícia de Miami

que passou a usar tasers e ficou 16 meses sem atirar em ninguém

antes de voltar a atirar?

Acontece que, naquele período, eles usaram muito os tasers.

Poucos meses depois da exibição daquela matéria,

a CNN mostrou matérias como essa:

Após a CNN informar que a polícia usou um Taser em um menino de seis anos

em uma escola primária,

o distrito disse "chega".

Em uma carta endereçada ao chefe da Polícia de Miami,

a Superintendência Escolar

pediu: "Parem de usar Tasers contra alunos do ensino primário".

Isso nos leva à nossa última pergunta:

A polícia deveria poder usar Tasers em crianças?

Essa é...

uma pergunta louca para se fazer.

Os noticiários eram assim em 2004.

Debatíamos a ética de dar choques em crianças

entre a fabricação de consentimento para a Guerra do Iraque.

E antes que perguntem,

claro que alguém ligou para responder essa pergunta.

E sim, vamos passar a resposta:

Sim, se a situação pedir,

deveriam poder usar Tasers.

Eu queria ter usado um no meu filho.

Olhem, o meu instinto é de discordar,

mas eu queria ouvir a versão dela.

Mas sim, a polícia deu choque em crianças.

E alguns não veem nada de errado.

Em 2018, um policial em Cincinnati

perseguiu uma menina de 11 anos que furtou uma loja e deu choque nela.

Ele tentou justificar para ela desse jeito depois:

Querida, a última coisa que eu quero é dar um choque em você.

Se eu mando parar, você para. Sabe que foi pega, então pare.

Parte meu coração fazer isso com você.

E depois eu tenho que ouvir os idiotas no estacionamento

me dizendo que eu estava errado em dar choque em você.

Você violou a lei e fugiu quando tentei parar você.

Primeiro, se você dá um choque em uma menina de 11 anos,

ainda mais por furto de loja, o idiota no estacionamento é você.

E quanto a "partir seu coração", eu não me sinto mal por você.

Também não me sentiria mal por um sequestrador que dissesse:

"Isso é desconfortável para mim, eu tento agradar a todos".

Então é complicado avaliar a eficiência dos Tasers.

E se a eficiência é parar os suspeitos na metade das vezes,

aumentar a hostilidade policial e dar um jeito fácil para a polícia

dar choque em crianças, claro, são muito eficientes.

Mas e a outra pergunta, são seguros?

De novo, de acordo com a Axon, com certeza.

Quando Rick Smith começou a vender, ele disse à polícia que os testes

em humanos e animais confirmaram que não causam sequelas.

Mas os Tasers quase não possuem nenhuma regulamentação.

Como um especialista disse, existem poucos produtos que escapam

de todo tipo de regulamentação de segurança,

é realmente incomum.

Isso significa que você basicamente precisa acreditar na empresa.

E sinceramente, os testes iniciais da Axon não têm tanta credibilidade.

Os primeiros testes em humanos e animais

não tinham grupos de controle.

E basicamente consistiram em dar choque em um porco,

cinco cães e alguns policiais voluntários.

Parece menos uma boa amostra para um grupo de segurança

e mais a ideia inicial de Patrulha Canina.

E ninguém quer ver...

Meu Deus! Não! Não!

Eles estão bem, estão bem,

eles provavelmente estão bem.

Mas mesmo com os Tasers ficando mais presentes,

alguns jornais perceberam uma tendência preocupante.

Um dos primeiros foi a CBS em 2004,

e Rick Smith deu uma resposta quente:

Pelo menos 40 pessoas morreram por pistolas de choque.

James Borden levou três choques e morreu em uma briga

com carcereiros em Indiana.

David Glowczenski morreu no bairro dele de Nova York

logo depois de levar um choque.

Assim como Willie Lomax em Las Vegas.

Em nenhum desses casos a pessoa morreu enquanto levava o choque.

Nos casos que vimos, nós temos uma forte convicção,

e nossa equipe médica também, que o Taser não causou essas mortes.

Se não usassem o Taser, essas 40 pessoas também estariam mortas.

Está dizendo que foi coincidência? Que morreriam do mesmo jeito?

Em todos os casos, eles teriam morrido mesmo assim.

Essa é uma mentira incrível e impossível de se provar.

Claro, talvez todos morressem de qualquer forma.

Talvez o pescoço do Shinzo Abe tenha feito aquilo sozinho.

Quem pode entender o pensamento de Deus?

Aliás, não é loucura que o ex-primeiro ministro do Japão

foi assassinado há três anos e nunca falamos sobre isso?

Sem querer fazer conspirações ou sugerir nada sinistro,

só demonstrando a imunidade cultural à sobrecarga imparável de horrores

que nos acompanharão até a morte, que vai chegar para todos um dia,

mas, como todos sabemos, não vai ser culpa de um Taser.

Isso seria impossível.

Mas logo ficou claro que os Tasers tinham problemas de segurança,

porque testes dentro e fora da empresa ficaram mais rigorosos,

e no meio dos anos 2000, vários estudos, incluindo um

encomendado pela própria Axon, viram que o Taser pode afetar o coração.

Mas a única resposta da Axon veio três anos depois,

após da primeira derrota nos tribunais, quando aconselharam a polícia

a não mirar no peito.

E quando a polícia, com motivos, ficou preocupada com o aviso,

Rick Smith garantiu a eles via telefone que não tinham que se preocupar:

Quero começar respondendo algumas das perguntas

que recebemos por e-mail.

A primeira: Disparos de Taser no peito são perigosos?

E a resposta com certeza é não.

Que bom!

Várias vezes nessa ligação,

Smith se esforçou para diminuir a mudança de protocolo,

dizendo que era para controlar riscos, já que, no caso de algo ruim acontecer,

evitariam a controvérsia.

Basicamente: "O protocolo não importa. É só bobagem de juridiquês".

Do mesmo jeito que a Amazon vende isso

como "massageador portátil potente para as costas".

A empresa diz oficialmente que é para usar nas costas,

mas quer saber?

Se está nas suas mãos, o seu corpo é seu,

a sua jornada é sua, fique à vontade.

E com o tempo a Axon colocou muitas letras miúdas no produto

sobre segurança.

Sugerem evitar disparos na virilha, e encorajam que busquem equilíbrio,

com um dardo na parte superior do corpo e outro na inferior,

mas longe do coração ou da virilha.

Também avisam do perigo de usar em pessoas velhas, jovens,

frágeis, agitadas, cansadas ou com diversos problemas de saúde.

E um comentário rápido para quem não está em nenhuma categoria,

como eu me encaixo em cinco, vão se foder.

E tudo isso ajuda a proteger a Axon judicialmente.

Ela pode dizer que qualquer morte em uma dessas situações

foi por mal uso do produto.

E a essa altura eu preciso dizer que ainda falta consenso científico

sobre o risco exato dos Tasers.

A empresa insiste que as armas

são a opção disponível mais estudada e segura,

e que para eles não existem casos confirmados de infartos por Tasers.

Mas é interessante que em um caso onde acontece um disparo voluntário

dentro da empresa, onde eles seriam responsáveis,

os empresários assinam um documento que avisa do potencial de morte

ao menos 12 vezes.

O que diz muito, mas sinceramente parece exagero.

O que o nosso público assina só fala de morte quatro vezes,

e foca mais na primeira fila e o risco da zona molhada.

Zona molhada!

Talvez hoje seja a noite. Talvez vocês se molhem!

Mas tem uma última reviravolta nessa história.

Os danos que a Axon causou se espalham muito.

Uma chave da defesa deles contra processos

é o uso de uma frase em particular que vão ver que aparece muito

quando se fala de pessoas mortas após um choque por Taser:

O relatório do legista diz que levar choque, ficar amarrado

e ser pisoteado não mataram Rios, que morreu de delírio agitado.

A autópsia mostrou que Bolick morreu por mania de fadiga aguda,

também conhecida como síndrome do delírio agitado.

A causa é delírio agitado.

Declararam a causa da morte como "síndrome do delírio agitado".

Delírio agitado.

A morte foi declarada acidental,

causada por uma condição chamada delírio agitado.

Sim, "delírio agitado".

Sei que já parece um termo médico ultrapassado.

Parece o segundo maior motivo pelo qual se comprava cocaína

nas farmácias no século XIX,

com o primeiro sendo "eu quero".

Resumidamente, delírio agitado significa

que você está fora de controle, e aí seu coração pode parar

por conta própria,

independentemente do que tenham feito a você.

Vamos ver um dos especialistas favoritos da Axon explicando o argumento:

No delírio agitado, você tem uma pessoa em estado de delírio,

não se orienta pela realidade, está alucinando,

não consegue pensar direito.

Descrevem como uma força sobrenatural.

Se... você pode dar um choque, pode bater,

e ainda assim não os incomoda. Eles não param.

E aí entram em uma briga,

e quanto mais tempo ficam nela, maior e pior a probabilidade

de ocorrer o óbito.

Espera, o quê?

Se alguém morre durante uma briga

é por causa da briga, não por uma síndrome sem relação.

O jornal San Francisco Chronicle falava do Assassino do Zodíaco,

e não "síndrome das mortes por perfurações espontânea,

e em notícias sem relação: Mandaram uma charada tão divertida!"

E se parece uma mentirada conveniente, é porque com certeza é.

Associações médicas têm cada vez mais rejeitado o termo

por ser, na melhor das hipóteses, inútil,

e na pior, pseudociência racista.

Mas Axon incentiva agressivamente o uso do termo,

porque claramente é muito útil para eles.

Mas também se tornou útil para a polícia.

Agora eles podem usar toda vez que quiserem explicar uma morte

em um confronto com a polícia, tendo uso de Tasers ou não.

Eles até tentaram usar isso após o assassinato de George Floyd.

E vale saber que, desde o início, a frase tem uma história horrível.

Seu uso moderno iniciou nos anos 80 com Charles Wetli,

um médico forense de Miami, que o usou para explicar

a morte misteriosa de mais de uma dúzia de mulheres negras.

Ele começou a divulgar a teoria dizendo que as mulheres morreram

por combinar sexo com o uso de cocaína,

levando ao delírio agitado.

Ele dizia que as autopsias mostraram sem sombra de dúvidas

de que não foram homicídios.

Mas eventualmente descobriram que foram mortas por um assassino em série,

e em alguns casos, de acordo com o médico encarregado,

os sinais de asfixia eram tão claros

que se viam a três metros de distância, de tão óbvios.

Então sim, Wetli é um idiota. Um idiota racista.

Mas um idiota racista que a Axon mantém como testemunha especialista

em mais de uma dezena de processos.

E a opinião que ele dá aos jurados é que nunca viu um caso

onde ele possa dizer que um Taser contribuiu com uma morte.

Mas contratar Wetli é só uma parte.

A Axon e seus colaboradores se esforçaram muito

para familiarizar a polícia com o termo "delírio agitado".

Em dado momento, um advogado da empresa e um especialista começaram esse grupo,

que distribuía panfletos explicando o delírio agitado.

Eles também recomendavam Tasers para parar quem demonstrava os sinais,

e tinha esse acrônimo de crise médica muito útil

explicando os sinais do delírio agitado.

Um deles sendo "não consigo respirar".

E agora, muitos policiais estão prontos

para culpar o delírio agitado

toda vez que alguém morrer em um encontro com a polícia.

E quando a morte envolve um Taser,

a Axon se envolve muito.

Vejam como um ex-porta voz explica para uma jornalista:

Eu falei com um representante da empresa.

Ele diz que quando lê em uma manchete "morte" e "Taser",

ele entra em contato com a polícia local.

Eu tenho um e-mail pré-salvo.

Eu só preciso completar com o nome da cidade

e dizer: "Prezados, sei que tiveram uma morte durante uma abordagem.

Essa é minha lista de itens. Aqui tem algumas recomendações".

Se ele fica sabendo de uma morte envolvendo Tasers,

ele tem um e-mail pré-salvo com uma lista do que fazer.

Já é um sinal ruim estar pré-salvo.

Como não seria bom se toda vez que escrevessem "desculpe"

no celular, a sugestão de palavras completasse

com: "Por fazer um cocô gigante no estacionamento do Whole Foods".

Você está fazendo algo muito errado se essa resposta é automática.

E por mais que seja ruim na teoria, é pior na prática.

Como por exemplo a morte de Israel Hernández Llach,

de 18 anos, que foi visto grafitando

nas janelas tapadas de um McDonald's abandonado.

Ele levou um único disparo de Taser no peito,

caiu no chão com uma parada cardíaca e morreu.

Apenas quatro horas depois, a polícia de Miami Beach

recebeu um e-mail da empresa com guias de como prosseguir,

com um exemplo de comunicado de imprensa e uma lista de provas para coletar.

A Axon recomenda até mesmo um especialista para contatarem,

e claro que o especialista ia encontrar que o corpo tinha biomarcadores

de uma síndrome do delírio agitado.

E não para por aí.

A presença da Axon está até nos necrotérios.

A empresa manda centenas de panfletos para os examinadores por ano,

explicando como detectar a síndrome.

A Axon chegou até mesmo a processar médicos forenses

que atribuíam em parte a morte de pessoas detidas

ao uso de Tasers.

Uma patologista forense disse:

"Você literalmente recebe uma carta ameaçando você

se falar que a morte foi causada por um Taser."

E as ameaças deram certo.

Segundo uma pesquisa de 2011, 14% dos médicos forenses

disseram ter modificado relatórios médicos

por causa de uma possível ameaça de processo.

E 32% disseram que uma ameaça poderia afetar decisões futuras.

E juntando tudo isso, o histórico da empresa de encorajar o uso do produto

e diminuir seus riscos, enquanto tenta suprimir tudo

que possa afetar sua reputação,

temos uma receita de um desastre.

E até alguns policiais acostumados a usar Tasers

se sentem traídos depois de ficar sabendo disso.

Em Warren, Michigan, um jovem de 16 anos morreu

depois de um choque de Taser.

E este policial local parece perturbado depois do fato:

Ninguém nos disse que esses Tasers matam pessoas.

Eles vendem, falam as coisas,

e quando as coisas dão errado eles somem.

Isso não é certo.

Porque sabe como é?

Se eu uso spray de pimenta e alguém fica cego,

eu espero que a empresa venha e explique o que aconteceu.

Porque até onde eu sei ninguém fica cego, eu nunca vi.

Mas se acontecer, que droga, eles que expliquem,

eu não tive culpa.

Se eu soubesse isso sobre o spray de pimenta, eu não usaria.

Eles juraram que não aconteceria, juraram que era...

que era estatisticamente normal,

que as pessoas não morriam em um nível diferente

do que se não levassem o choque.

Sim, eu entendo a chateação.

A Axon disse que o Taser era inofensivo, mas não é.

É como descobrir que uma arma Nerf foi usada

para assassinar JFK.

Não importa que a Nerf diga que foi uma anomalia,

eu não vou mais usar do mesmo jeito.

E o que podemos fazer?

Eu reconheço que, nesse caso, é complicado.

Eu não acho ruim existir uma alternativa em teoria

ao uso de armas, e prefiro um choque elétrico a um tiro,

mas a minha preferência mesmo é que não usem nenhum dos dois

e que tenham uma noção maior dos riscos envolvidos.

Uma forma para todos conhecermos melhor esses riscos

seria rastrear mais de perto o uso de Tasers.

Não parece muito a se pedir.

Mas além disso tudo,

eu diria que o termo "delírio agitado" tem que sumir para sempre.

E tivemos notícias animadoras nesse caso.

Em 2023, a Associação dos EUA de Medicina Forense

disse que ele não pode ser usado como causa de morte.

Esses estados limitaram o uso do termo "delírio agitado",

e Nova York e Havaí estão com projetos de lei para isso.

E isso é bom.

A questão é que não devemos usar Tasers como varinhas mágicas,

porque eles não são.

E não podemos fingir que as mortes não acontecem por causa deles.

E se a Axon não quer falar do assunto, eu falo.

Mas vou fazer do jeito mais Axon possível,

então, senhoras e senhores, por favor recebam: Eu!

Olá! Oi, pessoal! Oi! Muito obrigado por me receberem.

Primeiramente, eu sei que estou meio diferente.

Um pouco menos duro que de costume.

Mas não se preocupem, ainda sou eu,

só que essa minha versão sabe dançar.

Olhem! Olhem, estou dançando!

Eu nunca me senti tão conectado ao meu corpo!

Eu amo isso!

Certo, para, para, para.

Precisamos de algumas regras quando se trata de Tasers.

Primeiro, são claramente armas, então precisam de regulamentação.

Segundo, só devem ser usados em casos extremos,

e não como o primeiro recurso.

E por fim, ninguém deve levar um choque junto da própria mãe

em um exercício de equipe, isso é estranho demais.

Agora, se me dão licença, nos meus últimos momentos neste corpo,

por favor, me deixem aproveitar por ter uma bunda.

Olhem como eu estou feliz!

Estamos vivendo nosso maior sonho!

Este foi nosso programa. Muito obrigado pela audiência.

Nos vemos na semana que vem. Boa noite.

Olhem para mim!

Você vai se molhar!

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