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A ARTE DA ALEGRIA
S� PENSO EM TI, ALMA MINHA. NOS TEUS OLHOS, NA TUA BOCA...
QUERO ESTAR CONTIGO E FAZER-TE SENTIR COMO GOSTO DE TI.
UM ABRA�O CALOROSO.
Est�s acordada.
Usa isto por baixo das ligaduras.
Entendido?
Aqui, ao lado do cora��o.
Na pele nua.
Aperta-as bem.
N�o sei nem quero saber o que fizeste
para enfurecer tanto a Madre Leonora.
Mas as instru��es dela foram muito claras.
Chegou a hora de seres humilde. Tens de meditar sobre os teus erros.
Tornaste-te demasiado arrogante.
Entra.
Sacrif�cios e ren�ncias
v�o ajudar-te a perceber os pecados que cometeste.
�s uma d�diva.
N�o me lembro de quantos dias e noites aquela febre horr�vel durou,
com o meu c�rebro a perguntar-me: "O que disse?
Porque o fiz?"
Minha culpa.
Minha culpa.
Minha t�o grande culpa.
Em crian�a, se arranjava sarilhos, bastava baixar os olhos,
tremer um pouco e chorar.
Para que a Leonora me abra�asse e me consolasse.
Ainda hoje, as l�grimas caem-me pela cara sempre que � necess�rio.
Mas naquela cela escura... O que fazer? Como resolver?
A Madre Leonora chamou-me � capela para a confessar.
Fui l�, mas n�o a encontrei.
Deve estar a estudar na biblioteca. Vamos ver, venha comigo.
Padre porco!
Padre porco!
- Padre idiota! - Padre idiota!
- Padre porco! - Padre porco!
Deve ter sido impulsiva.
Vai apanhar pneumonia. Vai ficar doente ou pior.
Santa Maria, o que aconteceu?
Virgem Maria!
A partir de agora, podes passear no jardim � tarde.
- Se puder, queria apanhar laranjas. - Bem dito.
N�o �s a �nica novi�a aqui que foi castigada, Modesta.
N�o imaginas quantas raparigas vieram para c� com relut�ncia.
Talvez por causa de uma heran�a ou porque tinham um defeito f�sico,
pobres coitadas sem voca��o.
Revoltavam-se contra n�s, queriam voltar para casa,
criavam confus�o.
Depois, com o tempo, a gra�a de Deus desceu sobre elas.
- Tamb�m foi isso que lhe aconteceu? - N�o. Escolhi vir para c�.
Gra�as a Deus, tenho o dom da f� desde pequena.
Devias ter visto a Incoronata. Ela chorou tanto. Tantas l�grimas.
J� para n�o falar da Ilaria.
- A Ilaria? - Quando veio para c�, estava furiosa.
A fam�lia trouxe-a para c� quando tinha 12 anos.
Tinham tr�s filhas para casar. A Ilaria, coitada, era a mais nova.
Inventou tantas mentiras para ser expulsa!
Inventou tudo para sair daqui.
Quem diria que se tornaria t�o devota?
Como aconteceu isso?
Gra�as ao convento e ao amor da Madre Leonora, claro.
Do luxo ao lixo.
Que golpe que fizeste! O convento ainda est� atordoado.
- Pumba! Bravo! - Obrigada.
Ent�o? Sentes-te melhor, agora que j� n�o est�s presa?
Muito melhor.
Ainda bem.
Temi que andasses por a� como uma son�mbula.
Pensei: "Espero que a rapariga n�o fique corcunda com tanto castigo."
V� l�. Agarra o cabelo e puxa-te para cima.
Linda menina. Vem comigo.
Pequenina, sabes a quem tens de agradecer
por poderes sair e apanhar ar fresco?
Incoronata e Rosalia, que me encontraram inconsciente.
Tens de agradecer ao medo. Medo e remorso.
Uns anos antes de vires, outra rapariga, protegida da Madre Leonora,
ficou de castigo e trancada na cela.
- Sozinha. Desanimada. - O que aconteceu?
Saltou da janela da cela.
- Que descanse em paz. - De que cela?
- Da minha? - Claro.
� onde ela p�e as protegidas.
Encontrei-a ca�da no ch�o, de manh�.
J� n�o respirava. Pobre rapariga.
Tenho de ir, Mimmo.
V�o trazer-me o jantar, tenho de voltar para a cela.
Aonde vais? Espera.
Faz assim.
Ouves as �rvores na floresta?
Tem cuidado, pequenina.
A �rvore diz-me que vem a� um ex�rcito.
Venham e riam-se � vontade.
Agora sei como estragar a vossa divers�o.
Se me deram um pouco de ar fresco porque desmaiei...
Se tivesse morrido, n�o teria conquistado o amor da Leonora,
mas talvez a sua aprova��o.
Eu tinha de morrer.
Madre?
Madre Leonora?
N�o havia sa�da.
Leonora, por favor, n�o me abandone.
Consegue ouvir-me?
Abra!
Por favor, abra! Porque quer fazer-me sofrer assim?
Assim, morrerei. E � a madre que me est� a matar.
"Nem te atrevas. Este � um local de ora��o.
Pede perd�o ao Senhor."
Pequenina, desce da�.
Pequenina!
Pequenina!
Pequenina!
Estou a afogar-me!
Tuzzu, n�o! Socorro!
N�o te preocupes, n�o v�s que te estou a segurar?
Enquanto te segurar, n�o tenhas medo.
N�o tenhas medo da �gua nem do fogo.
Enquanto te segurar, n�o tenhas medo.
N�o tenhas medo da �gua...
Algu�m descobriu?
N�o, ningu�m, claro.
Cuidado, irm�, ningu�m pode saber.
- Felizmente, ela est� viva. - Felizmente, est� viva.
A hist�ria repete-se.
- O meu cora��o! - Deus seja louvado.
Ela est� muito fraca.
Tem febre alta. Felizmente, n�o partiu nada.
Obrigada, doutor.
- Fic�mos muito assustadas. - Muito assustadas...
Ela s� precisa de comer bem e descansar.
Adeus, madre.
Volto amanh� para a visitar.
Pode levar-me � enfermaria? Tamb�m gostava de ver o jardineiro.
- Coitado. - Claro, doutor.
Madre...
Deus seja louvado. Ela abriu os olhos.
Modesta...
Estava a ver-te dormir.
Parecias t�o pequena.
Lembras-te de quando chegaste?
Costumava tranquilizar-te quando tinhas pesadelos.
Choravas e choravas.
E, no minuto seguinte, n�o paravas de rir.
Sei que as tuas a��es s�o resultado de tormento e sofrimento.
Sentes-te sozinha e precisas de mais amor do que qualquer uma de n�s.
Perdoe-me, madre, sei que pequei...
N�o deves infligir essa dor a ti mesma.
Porque j� tens o amor de que precisas.
Est� aqui.
Est� na imensa miseric�rdia de Deus.
Madre, sem o seu amor...
- N�o tinha raz�o para viver. - N�o voltes a falar assim, Modesta.
S� Deus pode dar e tirar a vida.
O que fizeste foi um pecado mortal. Tens de te confessar depressa.
Aqui est�s tu.
Mataram uma galinha s� para ti esta manh�.
A Rosalia tamb�m cozinhou o cora��o e o f�gado, � mais nutritivo.
Posso, madre?
Consegues levantar-te?
Vamos.
Bebe assim quente.
Abre a boca.
Sentes-te melhor?
Nesta cela, como quando eras pequena?
Com a Madre Leonora ao teu lado?
Tivemos muita sorte.
O Mimmo estava por perto.
Quase se magoou mais do que ela para a salvar.
Aquele homem tem um grande cora��o.
E se a Modesta tivesse saltado para o po�o � noite?
Quando ningu�m a podia ter visto?
Consegue imaginar, madre?
Ela n�o estaria aqui connosco agora.
Deves ter tido medo antes de saltar.
Porque gritaste muito alto.
Todas te ouvimos durante os Laudes.
Chega, Ilaria. Vem comigo.
Deixa-a descansar.
- Bom dia, Modesta. - Bom dia.
- Como te sentes hoje? - Muito melhor. Obrigada.
Esperamos-te no refeit�rio para o pequeno-almo�o.
Vou acabar de me arranjar e j� vou ter convosco.
ESTE � UM LOCAL DE ORA��O. PEDE PERD�O AO SENHOR.
QUERO ESTAR CONTIGO E FAZER-TE SENTIR COMO GOSTO DE TI.
O que fazes no meu quarto?
Vai-te embora! J�! Sai!
Enganaste-me, n�o foi? E isto?
Querias enganar-me!
Pobre Modesta, j� n�o te sentes amada? Pobre rapariga.
Uma parola como tu que tresanda como uma cabra.
Fizeste tudo sozinha, Modesta. N�o sou tua inimiga.
A tua inimiga est� aqui dentro.
V� l�! Livra-te dela, se conseguires.
Meu Deus... Ajudem-me!
Entra.
Fecha a porta.
- Queria ver-me, madre? - Tu sabes porqu�.
Senta-te.
A Irm� Ilaria ainda est� chocada. Vai demorar a recuperar.
Atacaste-a sem motivo. Porqu�?
- Por inveja? Ci�mes? Motivos vis? - Chame-a.
A Ilaria enganou-me e engana-a a si.
Diga-lhe para vir c�. Tem uma serpente no seu seio.
N�o te atrevas a falar assim da Irm� Ilaria.
Ela � uma irm� devota e fiel.
Voltei a iludir-me ao pensar que podias mudar, Modesta.
E, mais uma vez, tra�ste a minha confian�a.
Mas a culpa n�o � tua.
A culpa � toda minha. Eu estava errada.
Durante anos, esperei que a educa��o que te oferecemos
te pudesse afastar das tuas origens lamacentas.
Pensei que te podia transformar num ser iluminado.
Em vez disso...
N�o pertences � casa de Deus e nunca ser�s noiva de Cristo.
O h�bito n�o � para ti, n�o mereces.
Imploro-lhe, madre, n�o diga isso!
Eu volto para a cela escura e fa�o penit�ncia durante um m�s.
S� como leite e p�o e rezo dia e noite, juro!
Chega deste tormento, levanta-te! Um pouco de dignidade.
N�o piores as coisas. Senta-te.
O teu futuro est� no mundo, n�o dentro destas paredes.
S� causas desordem.
J� me decidi.
O melhor para ti � ires para o orfanato de Petraperzia,
at� seres maior de idade.
Est� a expulsar-me como a um c�o raivoso!
Ouve-me.
Eles ensinam-te um of�cio. Na verdade, podes ser tu a escolher.
Algum tipo de trabalho manual. Costureira.
Bordadora. Governanta.
Vai ser bom para ti.
Em breve, a pens�o que te concedi chegar� ao fim.
Era para uma freira, para uma mulher devota.
E tu n�o o �s.
Para te ajudar, pedi a um m�dico para emitir um atestado
a dizer que perdeste a virgindade por causas violentas.
Homem nenhum, e � bom que saibas, Modesta,
casar� sem a certeza da integridade moral e f�sica da mulher.
N�o quero ser governanta!
N�o quero casar, n�o serei criada de ningu�m!
Basta.
Em rela��o ao que aconteceu entre n�s,
nunca mais falaremos disso, fui clara?
Ningu�m sabe o quanto degradaste o meu amor por ti.
Nem falei disso na confiss�o para te proteger.
Proteger-me?
O que est�s a fazer?
Aqui, sim.
N�o quer que todas as suas criadas, que � o que elas s�o,
saibam quem realmente �.
Levou-me para a sua cama para se insinuar para mim.
E fi-lo porque a madre era linda.
Linda, com a voz de um anjo.
Agora olho para si e est� ressequida, r�gida.
Est� velha e cheia de medo.
Por isso � que me manda embora, n�o �?
Porque tem medo do que eu sei sobre si.
- Covarde! - Para, Modesta!
Odeio-a.
Odeio-a!
Odeio-a.
Estava cheia de �dio. Um �dio que n�o queria perder.
Era a palavra certa para lutar.
Com o ros�rio na m�o, na capela, repetia: "Odeio. Odeio."
Dobrada sobre o tear, � noite, antes de ir dormir,
continuava a repetir: "Odeio. Odeio-a!
Odeio-a."
E quanto mais odiava...
...melhor me sentia.
Finalmente livre. Livre na maldade.
Odeio-a.
A hora tinha passado.
Odeio-a.
A noite fechou os seus port�es.
A minha cara ficar� gravada para sempre no seu olhar.
N�o podia fazer nada a n�o ser entrar na escurid�o.
Modesta... Acorda, Modesta.
Modesta.
- H� algum terramoto? - Que terramoto, pequenina?
O jardineiro encontrou o corpo da Madre Leonora.
Ela caiu da torre, a balaustrada desabou.
O que lhe aconteceu?
Est� morta. Completamente esmagada.
Santa M�e...
Mas o rosto dela foi deixado intacto.
Lindo. Sereno. Uma express�o de santa.
� uma trag�dia.
Vem v�-la pela �ltima vez. Vem rezar por ela.
Vem. Vem, querida. Sei o quanto gostavas dela.
E ca�, como cai um corpo morto.
Ajudem-me!
Como te sentes, querida?
Disseram-me que n�o comes nem bebes h� dias.
Mas sinto-me melhor, madre. Obrigada.
Estou comovida por estar aqui, onde estive com a Madre Leonora.
Olhei fixamente para a Irm� Costanza.
Sei o quanto sofreste e as saudades que tens dela.
Ela parecia t�o bonita.
Deve ter sido t�o doloroso para ti...
Algo a tinha endireitado. Os olhos dela pareciam sorrir.
Ela ansiava pelo lugar da Madre Leonora.
As costas daquele trono faziam-na parecer t�o orgulhosa!
Quase fiquei desiludida por lhe ter trazido tanta felicidade.
Arruma nas tuas coisas, eles v�m buscar-te.
- Quem? - Podes levar o ros�rio.
O precioso que a Madre Leonora t�o generosamente te deu.
At� os livros e a pequena imagem de Santa �gueda.
- E as ligaduras. N�o te esque�as. - Continua a embrulhar o peito.
Sobretudo agora que estar�s exposta a todos os perigos do mundo.
Agora vai fazer as malas. V�m buscar-te � tarde.
- Vamos, querida. Despacha-te. - V�o mandar-me para o orfanato?
V� l�! Chega de conversa, vai. Vai, tens de estar pronta.
Coragem, pequenina. C� estamos.
- O que � aquilo? - � uma engenhoca moderna
que anda t�o depressa como se fosse puxada por 100 cavalos.
N�o tenhas medo.
Sabes que sou antiquado e n�o gosto de coisas modernas,
mas esta � uma beleza de cortar a respira��o.
T�o bonita como uma catedral. N�o �?
Ele � guarda?
O que est�s a dizer? � o motorista.
Como um cocheiro.
Menina Modesta?
Por favor.
Queres despedir-te delas?
Ent�o, vai.
Entra.
V� l�.
Desculpe, mas estamos atrasados. Temos de ir.
Para onde me levam?
N�o sei.
Mas sei que n�o nos veremos mais.
Menina? Menina, consegue ouvir-me?
Abra os olhos.
Cheire isto.
Isso mesmo. A sua cor est� a voltar mais brilhante.
Os sais est�o a atuar.
Acontece muitas vezes.
Sobretudo a senhoras que andam de carro pela primeira vez.
Emo��o.
Falta de ar.
Est� melhor?
Venha.
Espere aqui.
Por favor. Por aqui.
Entre.
Este � o seu quarto. Por favor.
Se precisar de alguma coisa, n�o precisa de sair do quarto.
Basta puxar esta corda castanha ao lado da cama
e algu�m vir� em breve.
Obrigada.
Onde estou?
- O que devo fazer? - S� tem de esperar.
Eles informam-na logo que poss�vel.
- Boa noite. - Boa noite.
Tradu��o: Cl�udia Pereira
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