All language subtitles for ReMastered S01E07 Devil At The Crossroads

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Original subtitles

UMA S�RIE DOCUMENTAL ORIGINAL NETFLIX

O Robert Johnson � considerado um dos maiores artistas de blues de sempre.

H� algo quase sobrenatural no Robert.

� um n�vel de genialidade que talvez s� exista uma vez.

N�o se consegue ouvir uma m�sica de blues ou de rock

que n�o tenha alguns dos acordes do Robert.

Pensamos que estamos a ouvir dois ou tr�s tipos a tocar e � s� um tipo.

Fui � encruzilhada

Ca� de joelhos

� a base do que se tornaria o rock and roll.

As can��es e o tema, j� para n�o falar na forma de tocar guitarra,

que se assemelha muito a Bach,

e a voz � t�o fantasmag�rica.

Salva o pobre Bob, por favor

Pertence a uma classe � parte.

� o caso do Johnson.

De p� na encruzilhada

Como n�o se sabia muito sobre o Johnson,

ele tinha uma aura de mist�rio.

O mito do Robert Johnson ainda hoje se mant�m vivo.

Porque havia tantos mist�rios por resolver.

A m�sica atra�a-nos,

mas era o mito que fazia as pessoas acreditar na exist�ncia da magia.

Todos n�s temos tentado desvendar o mist�rio � volta do homem.

Diz-se que o Robert era um guitarrista principiante

que n�o tocava muito bem.

Foi-se embora e voltou a tocar t�o bem,

que todos dizem: "Ele fez alguma coisa."

Reza a lenda que foi a uma encruzilhada...

... l� encontrou o Diabo...

... vendeu a sua alma...

... e tornou-se o melhor guitarrista do mundo.

Mas quanto disso � um mito

e quanto � real?

Pouco se sabe sobre a vida do Robert Johnson.

Na verdade, s� se conhecem duas fotos dele.

E n�o h� grava��es.

Passei os �ltimos 50 anos

a estudar a vida e a m�sica de Robert Johnson.

GRAVA��ES DE SAN ANTONIO

Robert Johnson gravou em est�dio muito pouco tempo.

Temos apenas 29 composi��es.

E morreu t�o novo, aos 27 anos.

Descobri que o Robert Johnson era o meu av�

NETO DE ROBERT JOHNSON

A primeira vez que ouvi o Robert Johnson, pensei:

"Muito bem, a m�sica � isto."

E h� tanto que n�o sabemos sobre ele,

por isso, eu lia tudo o que encontrava.

Tornei-me especialista em Johnson lendo tudo o que podia,

ouvindo toda a sua m�sica,

mas tamb�m, como m�sico,

tentando entrar e entender o seu estado de esp�rito.

Quando ouvi o Robert Johnson,

disse: "Isto � o topo da torre."

E tenho de perceber o que isso �,

mas n�o foi uma decis�o consciente,

foi simplesmente saber que era o que eu queria fazer.

Lembro-me de o meu av� dizer...

"Aquele rapaz do Delta, o Robert Johnson, andava sempre pelo cemit�rio."

E depois dizia: "O Diabo fez isto e fez aquilo."

E despertou muita curiosidade em rela��o a este homem.

M�SICO

Havia uma faixa do Robert Johnson num disco de country blues

e destacava-se.

Por isso, decidi descobrir o m�ximo poss�vel sobre ele.

Fiz in�meras viagens � terra dele, Hazlehurst, Mississ�pi.

Falei com todos os que consegui encontrar que o tinham conhecido.

Conduzia at� ver

algu�m sentado no alpendre e parava.

Conseguia muita informa��o

simplesmente telefonando ao acaso �s pessoas.

A senhora e o Robert namoraram por uns tempos?

Talvez uns seis ou sete meses, mais ou menos.

Antes de ele se ir embora para algum lado fazer discos.

Disse que ia fazer discos.

S� em 1967...

CERTID�O DE �BITO

... foi descoberta a certid�o de �bito do Robert.

E, com essa descoberta, soubemos quem era a sua m�e,

soubemos quem era o seu pai

e soubemos os primeiros factos reais sobre o Robert Johnson.

Ent�o, pouco a pouco, usando os censos, listas municipais...

14.� CENSO DOS ESTADOS UNIDOS

... certid�es de �bito, licen�as de casamento,

ia surgindo cada vez mais informa��o,

e, cada vez que surgia mais uma informa��o,

era como uma nova chave que abria mais uma porta.

MUSEU DOS BLUES

Olhem para isto!

Disseram que n�o era grande..

Ol�, Steve.

Na encruzilhada

A escurid�o vai apanhar-me aqui

O meu av�, o Robert Johnson, nasceu em Hazlehurst, Mississ�pi.

A m�e dele era Julia Dodds

e era casada com Charles Dodds.

O Charles Dodds era um carpinteiro e agricultor rico.

Mas alguns brancos locais n�o gostavam do sucesso dele

e foi obrigado a fugir para Memphis para escapar a um grupo de linchamento,

A Julia ficou desamparada

e juntou-se com um madeireiro local

que se tornaria o pai biol�gico do Robert.

Esta era a casa...

... muito provavelmente,

onde o Robert Johnson nasceu.

C� est�,

esta casa mais do que modesta,

que, de alguma forma, resistiu...

... mais de um s�culo.

O facto de sobreviver...

... � como uma met�fora para a vida do Robert.

Segundo as informa��es que tenho,

ele foi sempre empurrado de uma casa para outra,

para Memphis, para o Delta, para o Arkansas,

e acho que a m�e at� os abandonou, a dada altura.

Por isso, ele nunca teve uma casa est�vel e um ambiente est�vel.

Nunca teve uma figura paterna que o aceitasse como era.

Os anos passaram,

at� que a m�e do Robert Johnson voltou a casar-se.

O Robert foi viver com o novo padrasto, um rendeiro.

Ouvi dizer que o padrasto o maltratava.

Como ele n�o queria ir trabalhar nos campos, ele batia-lhe.

O Johnson olhava para o padrasto, que era rendeiro,

e via que era p�ssimo

estar preso a um arado e a um patr�o

e disse: "Vou ser livre. N�o vou fazer isso.

N�o vou ser roubado dessa maneira."

Mas, enquanto ra�a, n�o t�nhamos muito por onde escolher, a n�vel de trabalho.

Era o campo

ou basicamente nada.

Ent�o, ele queria ganhar a vida com os blues.

Dedos longos, a tocar guitarra... Ele n�o queria estragar os dedos.

Ia para o campo e tocava para algu�m,

para ganhar uns trocos.

A melhor planta��o era a do Will Dockery...

QUINTAS DOCKERY

... nos arredores de Robinsonville.

As pessoas trabalhavam l� a semana inteira.

N�o havia r�dios.

N�o havia m�sica nem entretenimento.

Mas, ao fim de semana, os m�sicos apareciam.

Servia de consolo para quem vivia na servid�o.

E dava-lhes um escape.

Quem tocava aquela m�sica, sa�a da sua pr�pria pele.

Era capaz de levar todos os outros consigo.

Faz�-los sair da sua pr�pria pele.

Acho, minha linda

Acho que vou limpar o p� � minha vassoura

Se perguntarmos a quem vai � igreja donde v�m os blues,

a maioria diz que v�m da igreja. Mas � mentira.

N�o vieram da igreja, vieram dos campos.

Nos campos,

costumavam tocar instrumentos.

Harm�nica.

Querida, n�o h� a� nenhum beb�

Algu�m te vai magoar, mulher Como me magoas a mim

Nem sequer falava da mulher. Falava do homem para quem trabalhavam.

Ningu�m tocava blues como a gente do Mississ�pi.

Porque � algo que j� fazia parte deles.

Os m�sicos tocavam para os rendeiros,

mas os rendeiros n�o tinham dinheiro.

Mas a gente da cidade tinha.

Por isso, se fosse um m�sico negro, naquela �poca,

punha a guitarra �s costas, esticava o polegar

e andava de cidade em cidade.

Viajava de autocarro, de comboio, descia a rua a p�.

Ia como podia e atuava onde pudesse.

Numa esquina, num bar,

em qualquer lugar onde houvesse p�blico.

Se fosse obcecado em continuar livre dos campos de algod�o,

tinha de conseguir tocar o que as pessoas queriam.

Por isso, tocavam polcas, m�sica country, can��es pop.

Al�m disso, instalando-se no passeio, espalhava-se a palavra

de que aqueles m�sicos estavam na cidade.

O dono de um bar entrava em contacto com eles e dizia: "Bom,

podem ir tocar ao meu bar, esta noite?"

BAR

O bar ficava nos limites da cidade,

aonde os negros podiam ir e divertir-se.

Dan�avam, tocavam m�sica, bebiam cerveja, jogavam.

Juntos, para a comunidade.

O Robert tocava numa cidade at� estar esgotada.

Depois, voltava � estrada e ia para cidade seguinte.

O Robert Johnson andar na estrada, na casa dos 20, era perigoso.

Era muito perigoso.

Para um homem negro,

o Mississ�pi era um dos lugares mais perigosos do mundo.

Se vivesse no Sul mais setentrional, como as Virg�nias

ou at� as Carolinas,

o patr�o amea�ava-nos.

"Se n�o te portares bem, mando-te para o Mississ�pi.

Vou vender-te."

E as pessoas diziam:

"Fa�a o que fizer,

por favor, n�o me mande l� para baixo."

Porque sabiam como maltratavam as pessoas.

Uma pessoa negra podia ser morta, linchada...

... s� porque sim.

"Rapaz, n�o gosto de ti.

O que me dizem, malta? Vamos..."

Sim.

Houve mais linchamentos no Delta do Mississ�pi

do que em qualquer outro lugar.

Mas n�o era s� o perigo que tornava a vida dif�cil.

ONTEM FOI LINCHADO UM HOMEM

Uma vida na estrada era ainda mais dif�cil

porque a maioria dos habitantes das cidades eram crist�os,

e os blues, para eles, eram considerados a m�sica do Diabo.

Chegava o domingo de manh�.

Havia o pregador.

N�o ganhava dinheiro.

A maioria dos homens

ia para o bar.

No bar, havia m�sica toda a noite.

As pessoas n�o querem que fale assim, mas � como �.

O pregador

conduzia o servi�o religioso.

S� l� estavam as mulheres.

O bar onde se bebia e dan�ava.

Estas pessoas ganhavam algum dinheiro.

Mas o reverendo n�o ganhava nada.

Ir�o para o Inferno por ouvirem aquela m�sica do Diabo.

Foram os pregadores batistas que come�aram isso.

Algu�m era cortado, algu�m se metia numa briga,

era a m�sica do Diabo que causava tudo isso.

PARA O INFERNO, PARA A TERRA PROMETIDA

Quando o pregador disse essa parvo�ce,

as mulheres que iam � missa

come�aram a dizer aos maridos:

"Se n�o come�ares a ir � missa,

podes ir para o Inferno por ouvir a m�sica do Diabo."

Reza a lenda local...

... que...

... quando ele tinha 18 anos,

o Robert Johnson apaixonou-se

por uma rapariga de 15 anos chamada Virginia Travis.

Mentiram sobre as suas idades e casaram-se.

A fam�lia dela frequentava a igreja e era muito religiosa,

como a maioria das pessoas naquela comunidade, numa planta��o.

O Robert jurou � Virginia

que desistiria da m�sica,

se tornaria trabalhador rural

e seria um bom marido.

Por isso, mudaram-se para uma planta��o

e viveram l�

at� a Virginia estar gr�vida de oito meses e meio.

A Virginia foi para casa da av� para dar � luz o filho de ambos.

Bom, o Robert aproveitou a aus�ncia da Virginia

para voltar a tocar guitarra.

Decidiu tocar em alguns dos locais que j� conhecia,

ao longo do Rio Mississ�pi, da Autoestrada 1,

e chegar a tempo para ver a sua mulher e o beb�.

O Robert n�o chegou a tempo.

A Virginia morreu no parto

e j� estava morta e enterrada com o beb�.

E segui-a

At� � esta��o

Bom, segui aquela rapariga At� � esta��o

Com uma mala na m�o

Se conseguirem imaginar,

deve ter sido uma cena t�o tr�gica.

Ali estava ele,

ansioso por ver a sua mulher e o beb�,

com a sua guitarra, a entrar naquela casa,

e a fam�lia disse:

"Onde estiveste?

Andavas a tocar a m�sica do Diabo."

Bom, � dif�cil saber � dif�cil saber

Quando todo o teu amor � v�o

Todo o meu amor � em v�o

A fam�lia dela culpou-o pela sua morte.

Sabes, tenho estado t�o sozinho Tenho estado t�o sozinho

Tudo o que podia fazer era chorar

Quando todo o teu amor � em v�o

Todo o meu amor � em v�o

Segundo estudiosos contempor�neos, foi depois disso

que a vida do Robert come�ou a mudar consideravelmente.

Ele dedica a sua vida � sua m�sica.

N�o estava satisfeito simplesmente a ganhar a vida.

O Robert Johnson queria ser uma grande estrela.

Sabes

Se nunca mais te vir, querida

M�SICO

Depois, em julho de 1930,

o Son House muda-se para Robinsonville.

O Son House era mais velho que o Robert Johnson e era um m�sico estabelecido.

O Son House disse-me que o Robert Johnson, o principiante, disse:

"Quero ser como aquele tipo."

O Robert s� ganhava uns trocos, a tocar a sua m�sica na esquina

e queria chegar a outro n�vel.

Queria passar das esquinas para os bares com m�sica ao vivo,

onde se ganhava bem.

Diziam que o Robert era um guitarrista principiante

que ia ver o Son House e o Willie Brown atuar.

Ele andava atr�s de mim e do Willie.

E, sempre que par�vamos para descansar,

ele punha-se com a sua velha guitarra a um canto ou assim,

tentava toc�-la e incomodava as pessoas.

E as pessoas vinham e diziam:

"Porque n�o v�o ali e n�o obrigam o rapaz

a pousar aquela coisa? Est� a enlouquecer-nos."

Segundo o Son House,

o Robert punha-se a mexer nas guitarras,

e eles n�o queriam que ele ele lhes mexesse,

porque podia partir uma corda.

Por isso, estavam sempre a correr com ele: "Rapaz, desaparece daqui."

Ele estava a atrapalhar.

Ent�o, o Robert ter� dito: "Vou mostrar-vos como �."

E depois desaparece do Delta.

Ningu�m sabe para onde foi...

... durante cerca de um ano.

Mas depois, o Son e o Willie Brown

estavam a tocar num bar em Banks, Mississ�pi...

IN�CIO DA D�CADA DE 1930

... e pela porta entra o Robert Johnson com uma guitarra.

E o Son diz ao Willie...

"Olha quem est� a entrar com uma guitarra �s costas."

E ele disse: "� o pequeno Robert." E eu disse: "Sim, � ele."

Eu disse: "Rapaz, aonde vais com isso?

Vais incomodar algu�m outra vez?"

Ele disse: "N�o, deem-me uma hip�tese." E eu: "Est� bem."

Ele tinha uma corda a mais.

Uma guitarra de seis cordas forjada no inferno, ficava com sete.

Algo que eu nunca tinha visto, nenhum de n�s.

Tamales picantes e picantes a valer

Sim, ela vende-os

Tamales picantes e picantes a valer

Sim, ela vende-os

Tenho uma mi�da, � muito alta

Dorme na cozinha Com os p�s no corredor

E, quando o rapaz come�ou a tocar,

nunca mais parou.

O Robert � t�o bom,

que todos ficam maravilhados.

O Son disse: "Est�vamos l� especados, de boca aberta,

a dizer: "Mas que rapidez!"

Ele estava a tocar de uma forma que eles nunca tinham ouvido.

A maneira como tocava era uma loucura.

Antes, n�o tocava nada.

Agora, tocava melhor do que todos.

E, num momento, o Johnson � um guitarrista entre o med�ocre e o mau.

Um ano e meio mais tarde, � um agente.

Est� a fazer coisas com a guitarra

que nem os mentores dele conseguem fazer.

Isto come�a todo o mito

de como o Robert se podia ter tornado t�o bom t�o depressa.

Ele fez alguma coisa.

N�o se desaparece e n�o se volta a tocar assim.

Aquele homem n�o era ningu�m.

E, de repente,

est� no topo do mundo.

Isso causou medo �s pessoas.

Ele tinha andado pelas encruzilhadas.

Este homem s� podia ser o Diabo.

Segundo o mito...

NETO DE ROBERT JOHNSON

Supostamente, ter-se-� posto de joelhos...

... e entregado a sua guitarra ao Diabo.

E o Diabo ter� afinado a guitarra dele.

E, antes de lhe devolver a guitarra,

o Diabo disse: "Assim que receberes a guitarra,

a tua alma � minha.

Quere-la?"

Foi assim que vendeu a alma ao Diabo.

Algumas das letras que escreveu

faziam-nos pensar:

"Talvez tenha mesmo vendido a sua alma ao Diabo."

Falava dos c�es do Inferno a persegui-lo

e "Eu e o Diabo caminh�vamos lado a lado".

Mas, se acreditarmos no mito,

n�o terminou simplesmente com o Robert Johnson a vender a alma.

Porque, quando se faz um acordo com o Diabo,

� preciso pagar o pre�o.

A hist�ria do Robert Johnson

a ir � encruzilhada e a fazer um acordo com o Diabo

acho que reflete uma tradi��o do folclore afro-americano chamado "hoodoo".

Estilos de magia afro-americanos.

E o hoodoo tem hist�rias de pessoas que v�o a uma encruzilhada

e se encontram com uma entidade que lhes oferece alguma capacidade ou conhecimento

para aprenderem todo o tipo de coisas.

Por isso, o hoodoo era visto como uma forma de ganhar controlo

num mundo cheio de viol�ncia e com op��es limitadas.

O hoodoo dava �s pessoas outras possibilidades para viverem nesse mundo.

As letras do Robert Johnson est�o cheias de refer�ncias ao hoodoo.

Na can��o "Come on in My Kitchen",

ele canta:

"Tirei os �ltimos cinco centavos da bolsa de magia dela."

Ela foi-se

Sei que n�o vai voltar

Tirei os �ltimos cinco centavos

Do talism� dela

A "bolsa da magia" ou "bolsa mojo"

era um amuleto que uma mulher usava � cintura.

Era o poder sexual de uma mulher.

� uma forma de segurar um homem com ela.

Ent�o, removendo o conte�do da bolsa da magia de uma mulher,

essa mulher deixa de ter poder sobre ele

e, agora, ele pode convidar quem quiser para a cozinha dele.

Tamb�m temos de pensar que estamos s� a uma gera��o de dist�ncia

da escravatura.

Portanto, em "Hellhound on My Trail",

o Johnson fala de espalhar "p� quente" � sua porta.

Espalhaste p� quente para p�s

� volta da minha porta

Os afro-americanos falam do "p� quente"

como uma forma de fugir aos sabujos.

Um c�o do Inferno no meu encal�o

Continua no meu encal�o

Teria sido usado por algu�m a fugir de um grupo de linchamento.

Ent�o, se pensarmos no padrasto do Robert Johnson,

Charles Dodds,

� talvez uma refer�ncia � forma como escapou a um linchamento.

Ent�o, acho que isso exprime o tormento psicol�gico

de sentir que um linchamento est� sempre ao virar da esquina,

� sempre uma possibilidade, nunca se est� seguro.

Na altura em que o Robert Johnson cantava estas can��es

com refer�ncias ao hoodoo,

para os afro-americanos, e para os homens negros em particular,

fala das realidades do mundo deles

e de encontrar poder nessa magia.

Penso que a associa��o do Robert Johnson com o hoodooo

e o uso das refer�ncias nas suas letras lhe davam poder.

Era: "Sim, se se meterem comigo,

algo mau vos acontecer�, porque n�o sou s� eu,

� o poder por detr�s de mim."

N�o sei donde veio a hist�ria da encruzilhada,

mas acredito profundamente...

... que, mesmo que o Robert Johnson se tenha encontrado com o Diabo,

mesmo que tenha acontecido, � uma met�fora,

um despertar

para uma pessoa se tornar quem �.

Embora o mito da encruzilhada sempre tenha intrigado as pessoas,

h� algumas provas de que a incr�vel transforma��o de Robert

pode estar ligada a outra hist�ria sobre a sua vida.

O meu av�, Robert Johnson, deixou o Delta

e voltou para a sua cidade natal,

Hazlehurst, Mississ�pi.

Andava � procura do Noah Johnson, que era seu pai biol�gico.

Na procura por Noah, encontrou o seu mentor, Ike Zimmerman.

O Ike era conhecido por todo o Sul do Mississ�pi

como o melhor guitarrista que havia.

Reza a hist�ria que o Ike Zimmerman e o meu av�

iam para o cemit�rio em frente � casa do Ike,

alguns quil�metros a sul de Hazlehurst,

e praticavam l�.

O Ike disse ao meu av�: "Robert, ouve,

pouco me importa que toques mal aqui.

Ningu�m aqui se vai queixar."

Tenho uma mulher de bom cora��o

Faria qualquer coisa por mim

Qualquer coisa por mim

Ele estava a aperfei�oar a sua arte

com o Ike Zimmerman como mentor.

Tenho uma mulher de bom cora��o...

O Ike sempre disse

que a �nica maneira de aprender a tocar blues

era sentar-se num t�mulo,

� meia-noite, num cemit�rio.

E, assim, os "haints",

que � uma palavra sulista para "fantasmas" ou "esp�ritos",

apareciam e ensinavam-nos a tocar blues.

Escolheram este t�mulo

para se poderem sentar de frente um para o outro.

E o Ike poderia ensinar ao Robert tudo o que sabia

sobre tocar guitarra.

Ela � uma mulher de bom cora��o

Est� sempre a estudar o mal

H� quem diga que foi o trabalho �rduo do meu av� e a pr�tica com o Ike

que o transformaram.

Est� sempre a estudar o mal

Mas foi o facto de tocar no cemit�rio

que perpetuou o mito

de ter vendido a alma ao Diabo.

Para o teres na cabe�a

Tenho pedras no meu caminho...

O Robert Johnson tinha uma t�cnica incr�vel.

� um contraste e um drama

entre ritmos flutuantes, andamentos e volume

e o respirar da m�sica.

Digam ao meu amigo Willie Brown

� inovador.

O Robert era muito inteligente

e era muito protetor em rela��o a como fazia o que fazia.

Se ele nos visse a observ�-lo a tocar,

virava-nos as costas ou parava de tocar.

O Johnson foi o primeiro tipo que ouvimos em disco a fazer aquele som,

e combinava-o com o slide,

por isso, parecia que havia uma guitarra a tocar aqui em cima, as melodias,

enquanto outra tocava o baixo,

que acho que ele fazia com o polegar,

porque ele tinha m�os grandes.

O meu av� dizia: "O velho Robert

tinha os dedos t�o compridos,

que conseguia fazer coisas que nunca conseguirias fazer."

Imaginam um tipo a tocar,

ter estes dedos a fazer uma coisa

e estes dedos a fazer outra coisa?

Estar a fazer duas ou tr�s coisas diferentes?

Mas ele conseguia faz�-lo.

H� uma esp�cie de sincroniza��o na forma como ele toca,

quando toca uma pe�a r�tmica...

M�SICO

... e depois s� uma nota em slide... D� cabo de n�s.

O que o Robert Johnson tinha de mais caracter�stico,

o som de piano que ele tinha na guitarra...

Ningu�m consegue fazer isso.

Uma parte do que ele est� a tocar

est� a falar com a outra parte,

e ele � a parte no meio.

N�o nos parece nada de especial porque j� o ouvimos um milh�o de vezes.

Mas, quando ele o fez, ainda ningu�m o fazia,

e isso tornou-se a base dos blues el�tricos,

e, se mudarmos para isto,

temos a base do rock and roll.

Vamos...

Para mim, o mais fascinante de tocar guitarra

� tocar com outro,

e felizmente o Robert n�o tinha de se ralar com isso,

porque conseguia fazer tudo sozinho.

A minha querida casa, Chicago

Acordei esta manh�

Apalpei � procura dos sapatos

O Robert gravou um total de 29 can��es para a American Record Company.

E, na sua regi�o do Delta, a sua popularidade disparou.

Embora o sucesso dele fosse �timo,

penso que ainda havia uma parte dele

que queria uma vida normal com uma fam�lia.

H� quem diga que os blues deprimentes

N�o s�o assim t�o maus

� a pior das sensa��es, querida

Que alguma vez senti

H� quem diga que os blues deprimentes

Conheceu a Virgie Cain e ela engravidou.

A Virgie ainda andava na escola

e o Robert fez v�rias tentativas

para convencer a Virgie a partir com ele.

Mas a Virgie era de uma fam�lia muito r�gida e religiosa.

A fam�lia dela disse: "N�o, n�o vais com aquele rapaz

porque aquele rapaz toca blues, aquele rapaz toca a m�sica do Diabo."

C� vamos outra vez.

Mais uma potencial esposa

e um filho s�o-lhe tirados.

Porqu�? Porque ele tocava blues.

Bom, por causa disso, fiquei

Fiquei com vontade de me p�r a andar

Quem era o seu pai?

Robert...

... Lee Johnson.

O meu pai, Claude,

n�o teve uma rela��o

com o pai dele,

o Robert Johnson.

O meu pai s� viu o pai dele duas vezes.

Em nenhuma das vezes teve a oportunidade de falar realmente com o pai.

Lembro-me dele

porque na segunda vez que ele foi � casa dos meus av�s

para me visitar, eu tinha quase sete anos.

E o meu pai estava a olhar pela janela.

O meu av� disse: "N�o,

n�o posso deixar que o meu neto

fa�a parte da vida da m�sica do Diabo."

O Claude disse-me que viu o pai dele dizer:

"Est� aqui dinheiro para o Claude."

Deu dinheiro para o av� dar ao filho dele,

tentou fazer o que estava certo.

E lembro-me dele, agora,

tal como aconteceu.

Mas nunca mais o vi.

A vida do Robert foi uma trag�dia atr�s de outra.

Parecia que nunca acabava, para ele.

Por isso, dedicou a vida a ser um grande bebedolas,

um mulherengo,

um blasfemo,

um m�sico de blues

que parece n�o se ralar muito

com nada nem com ningu�m al�m da sua m�sica.

Ontem

S� pode ter sido o Diabo

A fazer a minha amada mudar de ideias

O Robert queria ser identificado com o Diabo.

Queria que pensassem que era diab�lico.

O Robert Johnson viajava de uma cidade pequena para outra,

de um bar para outro, para ganhar a vida.

Fez a minha amada mudar de ideias

Ele conseguia fazer coisas e ir a s�tios

que uma pessoa comum talvez n�o conseguisse.

Ele usava esse t�tulo.

Homem do Inferno, Homem do Diabo.

Porque sei que s� pode ter sido o Diabo

Que te fez mudar de ideias

Penso que ele procurava uma liberdade interior,

procurava a liberdade da alma.

E essa busca

levava-o a agir como agia muitas das vezes,

em termos de bebida e de mulheres.

O velho Robert gostava de beber muito u�sque

e era louco pelas mulheres dele.

Eram as duas coisas pelas quais ele era louco: u�sque e mulheres.

O Honeyboy era outro m�sico de blues

que viajava com o Robert Johnson

e tocava com o Robert nas esquinas, esse tipo de coisas.

E estavam a tocar juntos,

na noite em que o estilo de vida do meu av� acabou por apanh�-lo.

Num pequeno bar nos arredores de Greenwood, Mississ�pi,

chamado Three Forks.

Junto a esta estrada aqui,

havia um grande bar, mas tudo isto era plano.

E os grandes arquivos, meu, devia...

Mesmo ali atr�s, entre este lado e aquele, mesmo atr�s da loja.

� este o s�tio.

O Robert envolvera-se

com a mulher de uma das pessoas

que trabalhavam no bar Three Forks.

Uma noite, no clube,

ele deixou que a sua arrog�ncia...

M�SICO

... fosse longe de mais.

Desrespeitou completamente

o marido da mulher.

Pediu uma garrafa de u�sque

e quando lhe trouxeram o u�sque,

o selo estava aberto,

e n�o me lembro de quem foi,

mas tentou arrancar a garrafa das m�os do Robert.

Disse-lhe: "Nunca bebas de uma garrafa cujo selo j� esteja aberto."

E o Robert disse-lhe:

"E tu nunca mais me arranques uma garrafa de u�sque de sete d�lares da m�o."

O meu pai dizia: "Nunca aceites uma bebida de ningu�m,

se ta trouxer j� aberta."

Mas o homem deu o �lcool ao Robert.

Estava envenenado.

E ele bebeu-o, naquele dia.

H� quem diga que foi a mulher, h� quem diga que foi o namorado dela,

h� quem diga que foi o homem do bar.

S� se sabe que ele foi envenenado.

Segundo o Honeyboy,

o Robert estava afundado na cadeira

e as pessoas tentavam convenc�-lo a tomar outra bebida,

para ele continuar a tocar, mas ele n�o conseguia.

Nessa noite, ficou basicamente de gatas,

a uivar como um lobo ou assim.

A dores eram horr�veis.

Demorou muito a morrer, uns dois ou tr�s dias.

Estava mesmo mal.

� um raio de uma maneira de morrer,

tudo por causa do seu ego

e da sua lux�ria.

Que desperd�cio.

� a minha opini�o.

Mas o homem que deu o u�sque envenenado ao Robert

ficou em liberdade.

Foram ter com ele, mas n�o o prenderam.

N�o fizeram nada.

E os negros n�o pressionaram. Sabe porqu�?

O Robert Johnson cantava a m�sica do Diabo.

O Robert Johnson...

... por ser um homem dos blues errante,

por ser uma esp�cie de rebelde,

por tocar segundo as suas pr�prias regras,

acabou por pagar o pre�o.

As pessoas que querem ver a morte do Johnson

como uma prova do acordo com o Diabo...

... acham que chegou a hora da cobran�a

e de ele pagar a sua grande habilidade musical

com a sua vida.

Apetece-me deixar a minha casa solit�ria

Estava em casa do meu pai, um dia,

e ele tinha-me dito:

"Em 1938, organizei um concerto no Carnegie Hall, em Nova Iorque,

chamado "Spirituals to Swing",

e um dos artistas que eu estava a tentar encontrar

era o Robert Johnson, para o p�r no espet�culo."

O John Hammond tinha a ideia

de que as pessoas deviam perceber a origem do jazz,

a origem do swing

e as verdadeiras ra�zes dos blues do pa�s profundo.

Por isso, organizou um concerto

e mandou um batedor ao Mississ�pi � procura do Robert Johnson,

dizendo: "Por favor, tr�-lo para tocar no Carnegie Hall."

E o tipo foi ao Sul e descobriu que o Johnson tinha morrido.

Tinha morrido seis meses antes da data do espet�culo.

Ent�o, quando as luzes se apagaram no Carnegie Hall...

... um holofote iluminava um fon�grafo,

um Victrola, no centro do palco.

O John Hammond saiu dos bastidores.

O meu pai tocou um disco do Robert para o p�blico.

Levantei-me esta manh�

A andar como um homem

Levantei-me esta manh�

O p�blico foi ao rubro, quando ouviu o Robert Johnson.

Acharam-no fant�stico.

Depois do evento no Carnegie Hall

houve um breve aumento de interesse pelo Robert Johnson,

mas o p�blico geral continuava a n�o conhecer o Robert.

Os discos dele n�o eram tocados na r�dio.

Depois de ouvir a m�sica do Robert Johnson, uns anos mais tarde,

o grande m�sico de blues Muddy Waters foi a Chicago

e basicamente fez o trabalho de base para o que se tornou os blues modernos.

O Robert Johnson influenciou a minha forma de tocar guitarra atrav�s do Muddy Waters.

Ouve-se ali a lama do Mississ�pi

e algum do fraseado do Johnson.

Acordei esta manh�, querida

E tudo o que eu tinha desaparecera

O Elmore James, o B.B. King,

h� um pouco de Johnson em todos eles.

Mas o mundo n�o ouvia Johnson diretamente.

Ouvia outras pessoas a tocar m�sica

influenciada pelo Robert Johnson.

�LBUNS CL�SSICOS E POPULARES

S� nos anos 50

surgiram o que gosto de chamar os "cromos das 78 rota��es".

Eram estudantes universit�rios jovens e brancos

que iam �s lojas econ�micas

e compravam caixas e caixas de discos de 78 rota��es.

De vez em quando, encontravam um 78 rota��es do Charley Patton,

ou um 78 rota��es do Robert Johnson,

e foi assim que come�ou a loucura dos blues

de finais dos anos 50 e in�cio dos anos 60,

pelo facto de estas pessoas ouvirem esta m�sica

que era diferente de tudo o que alguma vez se tinha ouvido.

E � quando o John Hammond tem a ideia:

"Seria uma �tima altura para eu reeditar

as grava��es do Robert Johnson."

Quando o King of the Delta Blues Singers foi lan�ado,

o John Hammond tocou essa m�sica

para o Bob Dylan, quando o Dylan assinou com a Columbia,

e o Dylan diz que, se n�o tivesse ouvido o Robert Johnson quando ouviu,

n�o lhe teriam ocorrido centenas de versos para as suas can��es.

Vamos...

O Robert Johnson tornou-se marcante quando as grava��es foram reeditadas,

e eu aprendi sozinha a tocar muitas das can��es do disco.

A minha querida casa, Chicago

Quando se ama os blues,

tem de se voltar �s ra�zes, e o Robert Johnson �

e sempre ser� um dos melhores que algum dia viveram.

Tenho uma mulher de bom cora��o

Est� sempre a estudar o mal

O Robert Johnson motivou-me a ser m�sico.

S� h� uma coisa

Que faz o Sr. Johnson beber

O �lbum do Robert Johnson

teve um efeito incrivelmente poderoso no Eric Clapton,

no Keith Richards,

noutros brit�nicos do blues rock da altura.

O primeiro disco de blues que comprei foi o Led Zeppelin II.

Preciso que tu...

Cantam o verso "Aperta o meu lim�o at� o sumo me escorrer pela perna".

Apertes...

O meu lim�o

Que � um verso do Robert Johnson

e � uma homenagem ao Johnson.

O Brian Jones, a for�a motriz da primeira vaga dos Rolling Stones,

era um enorme f� do Robert Johnson.

Segui-a

At� � esta��o

"Love in Vain" � uma can��o muito bonita,

por isso, pens�mos: "N�o vamos tentar copiar o Robert Johnson",

especialmente com a banda.

Vamos torn�-la mais country, para tentar real�ar mais a melodia,

em vez de tentarmos toc�-la como blues.

Porque uma grande can��o pode ser ser cantada em qualquer estilo.

� dif�cil saber E � dif�cil saber

Quando todo o teu amor � em v�o

O Robert Johnson desperta o g�nio em toda a gente.

E a m�sica dele toca-nos a todos.

Mas com esse g�nio

vem tamb�m o Diabo.

Vender a alma ao Diabo � a base do "Clube dos 27".

O Clube dos 27 s�o m�sicos

que morreram aos 27 anos.

Janis Joplin, Jim Morrison,

Amy Winehouse,

Brian Jones, Jimi Hendrix,

Kurt Cobain.

Outros m�sicos que morreram com a idade do Robert Johnson

e tinham uma vida desbragada.

Algumas pessoas acham que todos eles tinham feito

algum tipo de acordo sobrenatural para serem t�o dotados,

t�o jovens e depois serem levados t�o cedo.

A vida de um m�sico est� cheia de perigo.

�s vezes, � um caminho bastante sombrio.

N�o admira que alguns dos melhores partam demasiado cedo.

Mas felizmente eu sobrevivi.

At� agora.

Temos fasc�nio

pela pessoa que � uma grande promessa,

mas essa promessa parece morrer prematuramente.

Tem que ver com tentarmos encontrar algo fant�stico

que torne a nossa vida um pouco mais interessante

e possivelmente um pouco mais perigosa.

Permite-nos pensar que estamos a dan�ar na beira do precip�cio.

O mito � t�o poderoso

porque as pessoas querem sentir que conhecem a raz�o por detr�s das coisas,

sentir que sabem.

Muitas coisas n�o s�o para compreendermos.

Eu e o Diabo

Caminh�vamos lado a lado

Penso que o Robert Johnson era extremamente talentoso,

extremamente dotado e muito desequilibrado.

Ouve-se isso na m�sica.

Caminh�vamos lado a lado

Algo funcionava de forma estranha, na vida daquele homem.

O mesmo se passava com o Jimi Hendrix,

com o Kurt Cobain

e com o resto das pessoas do Clube dos 27.

N�o sei nada sobre o Clube dos 27 e o acordo com o Diabo,

mas sei que, a dada altura na vida de toda a gente,

chegamos a uma encruzilhada,

e todos temos de decidir o quanto podemos sacrificar

para alcan�ar a excel�ncia.

Na berma da estrada

Para o meu velho esp�rito malvado

Poder apanhar um autocarro e partir

Legendas: Florinda Lopes

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